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O trigo migrou
Cerrado brasileiro tem se mostrado competitivo para a cultura do trigo, que surge como alternativa para a cultura de inverno na região. Minas Gerais já é o terceiro maior produtor do país
O Brasil é historicamente um comprador de trigo. Aproximadamente a metade do cereal que o país consome é importada, especialmente da Argentina. A cultura ainda é concentrada à região Sul, mas o avanço genético das cultivares, mais resistentes à seca, ao calor e a doenças, tem permitido uma expansão em larga escala para o Centro Oeste, reformulando o mapa da triticultura no Brasil. Para se ter uma ideia da importância dessa região, de acordo com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuárias), Minas Gerais já se tornou o terceiro maior produtor do país, atrás apenas de Paraná e Rio Grande do Sul. Nos últimos dez anos, a produção no estado saltou de 20 mil para 245 mil toneladas (2015). Para profissionais do setor, o avanço é um passo importante para o país se tornar autossuficiente ou mesmo passar a ser exportador do cereal nos próximos anos.
De acordo com estudo publicado pela Embrapa Trigo e Embrapa Gestão Territorial em dezembro, o principal ingrediente do pãozinho francês pode ser produzido em abundância no Brasil. Somente no Centro Oeste, novas fronteiras para o trigo poderiam resultar em 24,9 milhões de toneladas do cereal, mais que o dobro do atual volume de consumo interno (11 milhões de toneladas). Isso faria o país passar de importador a exportador. O estudo projetou quatro diferentes cenários para a produção nacional de trigo, considerando regiões para onde a cultura poderia se expandir.
De acordo com a Embrapa, o Brasil produz aproximadamente metade das 11 milhões de toneladas de trigo que consome e 70% do total é destinado à panificação, o que torna os resultados estratégicos para traçar alternativas ao abastecimento do cereal. “É importante que o país conheça seu potencial produtivo para delinear e mapear alternativas à importação de trigo”, ressalta o pesquisador Cláudio Spadotto, gerente geral da Embrapa Gestão Territorial. “Acredito que o Brasil é plenamente capaz de se tornar autossuficiente em trigo. Contamos com tecnologia e área, mas é fundamental o apoio de políticas públicas que assegurem o crescimento desta produção”, argumenta o chefe geral da Embrapa Trigo, pesquisador Sergio Dotto.
Em 2015, o Brasil cultivou 2,5 milhões de hectares com trigo e atingiu uma produção de 5,5 milhões de toneladas. Naquele ano, a região Sul respondeu por cerca de 89% do total produzido, o Sudeste, por 9%, e o Centro Oeste, por 2%. O estudo levou em conta quatro regiões homogêneas definidas a partir de variáveis de precipitação, quantidade de frio e calor em momentos específicos da cultura, altitude e histórico de rendimento de grãos.
Na avaliação da Embrapa, áreas com altitude maior que 800 metros e com declividade menor que 12% formam o grande espaço de crescimento do trigo no Brasil, com potencial de quase 25 milhões de hectares.
Fernando Michel Wagner, gerente Regional Norte da Biotrigo Genética, que responde por Paraná, São Paulo, Cerrado e Paraguai, diz que a região começa a ganhar mais atenção dos agricultores. “O Cerrado vem se mostrando como uma opção para que o Brasil se torne autossuficiente na cultura do trigo. O Brasil é um importador de trigo, mas tem área suficiente para que a gente possa ampliar esse cultivo. O Cerrado está se tornando a menina dos olhos para uma série de culturas porque tem área para expandir. Minas Gerais está se tornando protagonista na produção de trigo”, comenta.
Vantagens
De acordo com o profissional, o Cerrado tem características que auxiliam o cereal, como a falta de chuvas na hora da colheita, que favorecem a cultura no sistema sequeiro. “O Cerrado, como toda região, tem suas peculiaridades, mas naquela região elas são bem acentuadas porque existe um regime de chuvas bem específico. O trigo de sequeiro aproveita o final das chuvas, de março a meados de abril. Por outro lado, no fim de abril a água (chuva) simplesmente é cortada, o que é bom para o trigo, que gosta de um clima seco na época de sua floração e na época da colheita”, cita. “Uma das maiores dificuldades que o trigo enfrenta hoje é a chuva em pré colheita, que há anos afeta a região Sul”, emenda Wagner.
O profissional explica os triticultores estão apostando também no cultivo irrigado, que depende de grande produtividade para ser explorado, já que o pivô central encarece os custos de produção. “Custa mais caro embaixo do pivô de irrigação, mas, como não chove, o produtor tem como regular a quantidade de água necessária. Vemos o trigo de sequeiro com grande possibilidade de crescer e o trigo irrigado viável com alta produtividade. Hoje as maiores produções de trigo estão no Cerrado, no sistema irrigado. Há materiais que já passaram de 120 sacas por hectare, o que não é muito comum nem mesmo em regiões frias, a não ser em anos especiais”, cita.
Outro aspecto que favorece a região é a janela de colheita, segundo Wagner, que atende os moinhos quando a oferta é baixa no Brasil. “O Cerrado tem uma grande vantagem, porque se colhe em uma janela anterior ao sul do brasil. Esse cereal abastece os moinhos quando estão com grande demanda, desabastecidos por conta da entressafra”, argumenta.
Outra vantagem, na opinião de Wagner, é a proximidade com o grande mercado consumidor. “Além desses aspectos, o Cerrado está mais perto do grande mercado consumidor, que é o Sudeste. O trigo de Minas Gerais, por exemplo, está bem mais próximo de São Paulo e Rio de Janeiro do que o trigo do Sul”, comenta.
Wagner cita ainda uma interação muito presente entre produtores e indústria como fator preponderante no desenvolvimento da cultura na região. “Uma das grandes características que fazem do trigo muito promissor, principalmente o trigo mineiro, é o diálogo que existe entre a indústria e o agricultor. Lá, o produtor só semeia cultivares aprovadas pela indústria”, justifica.
De acordo com Wagner, o Cerrado pode substituir o trigo que hoje é comprado do Paraguai. O Paraguai vem se tornando competitivo para exportação de trigo. Atualmente o Brasil compra 70% do trigo paraguaio, mas o Cerrado vem sinalizando que pode concorrer com esse trigo, pois está entregando um trigo de altíssima qualidade”, cita.
Ferramenta Agronômica
O trigo é uma opção de lucros para o agricultor do Cerrado brasileiro, mas é ainda uma importante ferramenta no controle de ervas daninhas e nematoides, na manutenção da umidade do solo e nos custos de produção ada safra seguinte. “O contínuo plantio de soja no verão e milho no inverno causou problemas com nematoides no solo e ervas daninhas resistentes. O trigo entrou como uma opção para quebrar o ciclo soja/milho, trazer novos princípios ativos que não se usa em soja e milho, tornando-se uma ferramenta agronômica importante”, cita Wagner. Ele tem o maior apelo na parte agronômica. Em termos de sistema, o trigo está ajudando muito”, cita.
Conforme a Embrapa, “com o avanço das pesquisas e maior acesso a informações técnicas, o produtor descobriu que a rotação com esta cultura traz não só vantagens diretas obtidas com a venda do grão, mas também possibilita vantagens indiretas por meio da palha residual do trigo”. De acordo com autores do estudo, “o custo de produção da cultura de verão diminui, pois normalmente não há necessidade de aplicar herbicida dessecante para implantação e ocorrerá redução com aplicação de fungicidas para controlar doenças”. Isso ocorre, ainda segundo pesquisadores, porque a palha residual do trigo na lavoura é bem resistente e demora a se decompor, proporcionando manutenção da umidade por um período mais prolongado, reduz o potencial de multiplicação de algumas doenças das culturas de verão e promove proteção do solo, formando uma barreira física que impede a germinação de sementes de plantas invasoras.
Qualidade
De acordo com Wagner, 55% do trigo brasileiro é usado para a panificação, necessitando de características específicas que o Cerrado já oferece. Para a supervisora de Novos Negócios da Biotrigo, Kênia Paula Meneguzzi, o Cerrado oferece com qualidade superior ao que o mercado exige. “O Cerrado tem trigos mais fortes, com maior estabilidade e boa coloração. A força é muito importante para o trigo resistir à intensidade do trabalho mecânico na produção industrial, para que não desande. Já a estabilidade é importante principalmente no congelado, para aguentar o congelamento e descongelamento sem perder a forma, mantendo os alvéolos e a retenção de gases”, cita.
Dificuldades
Além de mais resistentes à falta de chuvas e ao calor, o trigo plantado no Cerrado precisa ser mais resistente à brusone, o que tem drenado esforços da indústria genética na busca por novas cultivares. As altas temperaturas associadas à alta umidade na folha do trigo são fatores favoráveis ao desenvolvimento da doença. “A resistência a uma das principais doenças do trigo, que é a brusone, é muito importante. Não é qualquer cultivar que vai se adaptar para a região. Esses plantios mais cedo sofrem muito com a doença, por isso a pesquisa tem que entrar muito forte para entregar resistência genética”, cita. “Hoje não há recomendação de nenhum fungicida para a brusone”, justifica. “É uma das limitações para o trigo no Cerrado, mas estamos trabalhando para isso, para dar mais segurança ao produtor”, amplia.
De acordo com o profissional, as cultivares plantadas do Norte do Paraná já precisam ser mais resistentes a essa doença, que pode dizimar lavouras inteiras. “O nível de resistência à brusone fica mais necessário a partir do Norte do Paraná sentido ao Cerrado”, revela.
Além disso, as variedades genéticas, explica Wagner, precisam ter resistência ao alumínio tóxico no solo presente naquele solo. “O Cerrado tem o problema da presença de alumínio tóxico no solo, que inibe a formação do sistema radicular”. De acordo com ele, a escolha da variedade necessariamente precisa levar esse fator em consideração.
Microrregiões
André Mateus Prando, pesquisador da Embrapa, explica, porém, que nem todo Cerrado brasileiro é indicado para o cereal. “A entrada do trigo no Cerrado foi possível via melhoramento genético. A região tem um potencial grande, mas o trigo é indicado só para regiões mais altas, que têm um clima mais ameno. Não é em qualquer região do Cerrado que o trigo é viável”, cita.
Para ele, o plantio no Cerrado pode ser uma alternativa para os fatores climáticos que atrapalham o desempenho das lavouras do Sul. “O produtor do Cerrado, com o trigo irrigado, consegue controlar a irrigação porque não chove. No Sul normalmente chove demais e na época não apropriada. Quando ocorre muita chuva nessas etapas, há grande perda de qualidade e produtividade. Além disso, no Sul há maiores riscos de geadas”, comenta.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de março/abril de 2017 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


