Suínos Expedição Suinocultura - episódio 5
O que virá depois do agora? O futuro da suinocultura gaúcha em mãos que sabem o que fazem
No quinto e último episódio da primeira temporada da série documental Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil, voltamos o olhar para o amanhã da suinocultura gaúcha. E ele está mais próximo do que parece.

O futuro não é um horizonte distante quando se nasce e se cresce entre suínos, ração e plantações de grãos. O que se vê nas granjas do Rio Grande do Sul é uma sucessão que já está acontecendo, em silêncio ou não, com conflitos ou não, mas sempre com raízes fincadas no chão fértil da família. No quinto e último episódio da primeira temporada da série documental Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil, voltamos o olhar para o amanhã da suinocultura gaúcha. E ele está mais próximo do que parece.
Atravessamos uma semana intensa de gravações para escutar vozes experientes e jovens em formação. O resultado é um painel vivo sobre continuidade, desafios estruturais, gargalos urgentes, novas tecnologias e, acima de tudo, herança. A suinocultura, no Rio Grande do Sul, é mais do que um ofício: é uma forma de vida.
Sucessão não se decreta, se constrói
Os depoimentos são contundentes. Falam da dor e da beleza de preparar o caminho para os que vêm depois. “A sucessão tem que ser natural. Não é fácil. A gente tem conflitos de gerações, ideias diferentes, experiências distintas. É um exercício contínuo, mas precisa ser feito com conversa, compreensão, aceitação”, diz Jean Marcelo Fontana, que divide o negócio com irmãos já prepara filho e sobrinho para o futuro.
Os jovens aparecem com brilho nos olhos. João, com 16 anos, já dirige a caminhonete da propriedade e ajuda no manejo das porcas. Quer estudar no colégio agrícola. “Eu não penso em fazer faculdade. Quero trabalhar aqui”, afirma, com a firmeza de quem já sabe seu lugar no mundo.
A nova geração, mesmo conectada a um mundo digital, valoriza o exemplo dos avós. São decididos, práticos e, muitas vezes, preferem o trabalho à teoria. “Vejo que o João se inspira mais na geração do pai do que na minha”, amplia Jean.
Sadi Acadrolli brinca falando sério: “Meus filhos nasceram com espírito de porco, mas do bom! Têm amor pelo que fazem. Nasceram para criar porco. Fiz a sucessão do meu pai e estou fazendo com meus filhos”.
Tecnologia e genética: o futuro já começou
A modernização da suinocultura não é uma promessa, mas um processo em curso. Genética de ponta, sanidade reforçada e edição gênica de animais imunes a doenças estão saindo dos laboratórios e entrando nas granjas gaúchas. “É uma loucura o que estamos vendo. A edição de genes permite eliminar a proteína que serve de porta de entrada para vírus. O animal não adoece”, destaca o médico-veterinário Werner Meincke.
A tecnologia avança em ritmo acelerado, e o setor precisa acompanhar. “Não dá mais para pagar para ver. É preciso decidir rápido. Quem parar, perde o trem”, alerta Jean Fontana.
Infraestrutura também entra na equação. “A indústria precisa aumentar a capacidade de estocagem de milho. O grão está aí, mas falta armazenagem. Isso afeta o custo e a competitividade”, explica Acadrolli.
Mão de obra, mercado e sanidade
A escassez de mão de obra qualificada é apontada por todos os entrevistados como o grande desafio para os próximos anos. Eles concordam que a tecnologia vai ajudar, mas o setor precisa encontrar formas de atrair e manter gente capacitada.
Outro ponto crítico é o risco sanitário representado pelo javali. “É uma bomba-relógio. O Ibama não deixa abater, não entende a gravidade. Esses animais carregam doenças e destroem lavouras. É preciso desburocratizar antes que seja tarde”, adverte o médico-veterinário, empresário e amante da suinocultura, Flauri Migliavaca.
Produzir com consciência
A carne suína conquistou espaço no prato do brasileiro, graças a campanhas, qualidade e preço. O consumo per capita no Brasil chegou próximo a 20 quilos, segundo os depoimentos. Mas o crescimento precisa ser planejado. “Se produzirmos mais do que o mercado comporta, vamos perder dinheiro. É preciso olhar o que está acontecendo no mundo, não só aqui”, pondera o suinocultor e empresário Mauro Antonio Gobbi.
Raízes profundas: o que nos trouxe até aqui
O episódio também presta homenagem aos pioneiros. Àqueles que, décadas atrás, investiram em genética, inseminação artificial, cooperativismo. “A suinocultura gaúcha é o que é graças à audácia de quem começou. Era fundo de quintal. Virou excelência. E isso tem que ser valorizado”, diz Jean Fontana.
As associações, como a Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS) que completa 70 anos e até hoje tem sede em Estrela (RS), tiveram papel decisivo na transformação do setor. A integração técnica, o acesso à informação e o suporte coletivo permitiram que até os pequenos se tornassem gigantes. “O sistema associativo foi a base da qualificação. É uma história linda. Eu olho para um assado e penso: botei meu dedo nisso”, confessa um dos fundadores do associativismo suinícola no RS, José Adão Braun.
Consolidação e maturidade
O Rio Grande do Sul perdeu o posto de segundo maior produtor para Santa Catarina, mas mantém uma suinocultura consolidada. “Temos um parque industrial robusto, produtores que investem, vocação histórica. A suinocultura não vai embora daqui. Cresce menos, mas segue firme”, resume o presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs), Valdecir Folador.
Mãos que seguem em frente
O episódio termina com uma mensagem simples: o futuro está em muitas mãos. Jovens e idosos, filhos e pais, irmãos e irmãs. Mãos que cuidam, que inovam, que preservam. O futuro da suinocultura gaúcha está garantido, porque está sendo construído agora, por quem acredita nele todos os dias.
A todos que fizeram parte desta Expedição, meu muito obrigado!
Produzir a primeira temporada da série Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil foi mais do que um projeto jornalístico. Foi um tempo de estrada, de escuta e de respeito. A cada casa em que fomos recebidos, a cada granja que nos abriu as porteiras, a cada história compartilhada com generosidade, deixamos um pouco de nós e levamos muito mais do que imagens e sons: levamos verdade.
Agradeço profundamente às famílias que nos acolheram, aos produtores que confiaram em nosso trabalho, às cooperativas, agroindústrias, técnicos, lideranças e associações que contribuíram com informações, apoio e, acima de tudo, confiança. Também estendo minha gratidão aos patrocinadores e parceiros institucionais que acreditaram na importância de documentar essa trajetória que constrói, todos os dias, um dos pilares do agro brasileiro.
Essa série só existe porque vocês existem. E porque, entre um nascimento e outro na maternidade suína, entre um caminhão de ração e uma reunião de sucessão familiar, há tempo – e vontade – para contar histórias que merecem ser contadas.
Com gratidão e admiração, Giuliano De Luca, Jornalista e editor do jornal O Presente Rural e diretor da série Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil.
Clique aqui para assistir ao quinto episódio completo da série documental Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil.

Suínos
Rentabilidade da suinocultura preocupa produtores de Mato Grosso
Apesar do avanço da produção e das exportações brasileiras, preços em queda e margens apertadas desafiam o setor no Estado.
Suínos
Da creche à sustentabilidade, 6º Encontro Técnico Abraves-SP apresenta estratégias para aumentar eficiência das granjas
Evento em Pirassununga (SP) vai discutir manejo de leitões leves, sanidade, nutrição e sistemas de produção para apoiar decisões técnicas na suinocultura.

Melhorar a produtividade sem comprometer a sanidade do rebanho exige decisões técnicas em todas as etapas da produção. Manejo de leitões, nutrição, biosseguridade e gestão dos sistemas de criação estão entre os fatores que determinam o desempenho das granjas e influenciam diretamente os custos e os resultados da atividade.
Diante desse cenário, a atualização técnica tornou-se uma ferramenta cada vez mais importante para médicos-veterinários, zootecnistas, consultores e produtores, que precisam incorporar novos conhecimentos à rotina das granjas.
Esses temas estarão em debate no 6º Encontro Técnico Abraves-SP, que será realizado em 09 de setembro, no campus da Universidade de São Paulo (USP), reunindo profissionais da cadeia suinícola para discutir soluções aplicáveis aos sistemas de produção.
Entre os destaques da programação está a palestra do médico-veterinário Vinícius Cantarelli, que abordará estratégias de manejo de leitões leves na fase de creche, uma etapa decisiva para o desempenho dos animais ao longo do ciclo produtivo.
O médico-veterinário Caio Abércio da Silva discutirá a sustentabilidade dos sistemas de produção, apresentando abordagens voltadas à eficiência técnica, econômica e ambiental da suinocultura.
Promovido pela regional paulista da Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos (ABRAVES), o encontro busca aproximar pesquisa científica e prática de campo, oferecendo aos participantes ferramentas para aprimorar a tomada de decisão nas granjas.
A programação completa e as inscrições estão disponíveis aqui.
Suínos
Redução das granjas de reprodutores acende alerta para a genética suína
Artigo destaca a queda no número de GRSCs e defende medidas para preservar a base genética da suinocultura brasileira.

Ao nos referirmos às Granjas de Reprodutores Suínos no Brasil, as chamadas GRSCs, há que se ressaltar, de pronto, o fundamento histórico e a relevância dessas granjas à atividade suinícola nacional, assim como sua relação direta com a organização da classe dos produtores de suínos do Brasil, haja vista que elas deram origem à Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), fundada por um grupo de 48 produtores em 13 de novembro de 1955 no município gaúcho de Estrela, dando-se assim início a um significativo e intenso trabalho de melhoramento do rebanho de suínos no Brasil. E a criação da ABCS tornou possível organizar o registro genealógico e os programas de melhoramento genético no país, em se tratando de suinocultura comercial. É possível afirmar que as GRSCs são os verdadeiros centros de seleção genética, controle de origem e de avaliação do desempenho dos animais.
De fato, foram o pilar da transformação da suinocultura brasileira, ajudando a tornar o Brasil uma potência global na produção de carne suína, ocupando hoje o 4° lugar na produção mundial de suínos, pelo fato de as GRSCs garantirem a autossuficiência genética nacional, impulsionarem a adoção da inseminação artificial e elevarem a sanidade e a produtividade brasileira a padrões internacionais. De tal forma que essas granjas tiveram e ainda têm um papel fundamental no desenvolvimento da suinocultura brasileira moderna, dentro de uma cadeia altamente tecnificada e competitiva.
Não há como não se observar esse aspecto histórico da importância das granjas de produção de reprodutores suídeos, desde a criação da ABCS e de suas associações afiliadas estaduais, para a sustentação da atividade suinícola do Brasil nos últimos 70 anos, período em que o consumo interno de produtos derivados de suínos dobrou, passando de uma média nacional de 10kg para 20 kg, per capta, justamente a partir do uso de reprodutores dessas granjas. Aliás, em 2025, a média foi de 20,2 kg/habitante/ano (segundo a ABCS), consolidando um crescimento de cerca de 35% na última década.
Redução drástica das GRSCs no Brasil

Artigo escrito por Cesar da Luz é especialista em agribusiness, consultor da Associação Paranaense de Suinocultores e pesquisador da cadeia suinícola nacional. E-mail: [email protected].
Mesmo diante de todo esse contexto histórico, levantamento feito com base na literatura brasileira e com dados obtidos junto ao Relatório de 2025 do Registro Genealógico de Suínos da Associação Brasileira de Criadores de Suínos, ABCS, indica que houve uma redução muito significativa no número dos criadores de suínos da raça Landrace, com afixo registrado pelo produtor na entidade que representa o sistema suinícola brasileiro. Afixo é o nome oficial dado ao criatório, ou granja, certificada na ABCS.
Para se ter uma ideia da grande redução no número desse tipo de granjas e da grande erosão da variabilidade genética de suínos no Brasil, enquanto na década de 1970 o número de afixos registrados na ABCS era de 271, no ano passado, esse número caiu drasticamente para apenas 34. Portanto, atualmente, essas granjas representam apenas 12,5% do total existentes na década de 1970, em um ambiente em que as fontes de material genético das principais raças comerciais de suínos, como Landrace, Large White, Duroc e Pietrain, já são bastante escassas.
O fato é que o número de Registros Genealógicos vem reduzindo substancialmente desde a década de 1970 para a década de 1990 e para o período posteriormente aos anos 2000, enquanto o número de afixos de Empresas Integradoras e de Empresas de Genética vem crescendo sua participação no mercado de reprodutores Landrace, no Brasil.
Raça Landrace
No caso específico da raça Landrace, ela é uma das mais importantes para a evolução da atividade suinícola brasileira moderna, principalmente pela sua elevada capacidade reprodutiva e pelo excelente desempenho materno. Originária da Dinamarca, a raça foi introduzida no Brasil para contribuir no melhoramento genético dos rebanhos comerciais e se tornou fundamental nos sistemas intensivos de produção de carne suína.
A participação da raça Landrace foi decisiva para a modernização da suinocultura brasileira, especialmente a partir da intensificação da atividade nas regiões Sul, nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul,0 Sudeste, nos estados de São Paulo e Minas Gerais, sendo que as GRSCs passaram a utilizar amplamente a genética Landrace em programas de seleção, contribuindo para a disseminação de animais superiores e para o controle sanitário dos plantéis.
É importante destacar, ainda, que a raça Landrace é uma das principais raças de suínos utilizada na produção de suínos no Brasil, compondo 50% do genótipo na maioria das fêmeas F1 utilizadas na produção comercial de suínos, o que muito bem representa o que está ocorrendo com os Registros Genealógicos de Suínos no país, algo que requer muita atenção, especialmente dos órgãos governamentais, especialmente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).
Ressalte-se, ainda, que as Granjas Independentes de Produção de Reprodutores, no caso da raça Landrace, elas são fundamentais também para a produção do mercado livre de suínos no país, composto por granjas de pequeno e médio porte que não pertencem aos sistemas integrados e cooperados. São tais granjas independentes que abastecem grande parcela do mercado interno nacional com produtos derivados de suínos, mas que estão reduzindo ano após ano, colocando o Brasil na dependência de reprodutores de Empresas de Genética que atuam no país, mas cujos Núcleos Genéticos Primários se encontram no exterior, o que implica no aumento do volume de “royalties” enviados para fora do Brasil.
Portanto, as GRSCs continuarão sendo extremamente importantes para suprir o mercado interno de reprodutores suínos, bem como fundamentais para o resgate e manutenção das raças nacionais de suínos e mesmo para a manutenção das raças importadas que já estão adaptadas para uso comum na suinocultura brasileira. Sem dúvida, as granjas de reprodutores foram a base do avanço genético, sanitário e tecnológico da suinocultura nacional, sem as quais o setor dificilmente teria alcançado os níveis atuais de eficiência, qualidade e competitividade internacional que se encontram hoje.
Olhando para esse histórico e para a importância das Granjas de Reprodutores de Suínos para a suinocultura brasileira, vê-se, inclusive, a própria necessidade de que uma fonte pública proporcione recursos, inclusive a fundo perdido, para a implementação das novas medidas exigidas pelo MAPA, integrantes da Portaria DAS/MAPA nº 1.358/2025, permitindo que as GRSCs consigam continuar cumprindo seu papel no contexto da suinocultura e como salvaguardas do banco genético nacional.






