Suínos Planejar para não perder
O que o Brasil pode aprender com o fim do óxido de zinco na Europa
Especialista analisa impactos do banimento do óxido de zinco na Europa e aponta caminhos para que o Brasil se antecipe a possíveis restrições, mantendo produtividade e sustentabilidade na suinocultura.

Por muitos anos, o óxido de zinco (ZnO) foi um aliado incontestável na suinocultura, especialmente na fase pós-desmame, para prevenir a diarreia em leitões. No entanto, seu uso em doses terapêuticas passou a ser questionado na União Europeia (UE) por representar risco ambiental. Em regiões com alta densidade de produção, o acúmulo de zinco no solo e a possível contaminação de recursos hídricos se tornaram motivo de alerta. A preocupação com o surgimento de resistência microbiana também contribuiu para a decisão, ainda que essa relação permaneça sendo tema de estudos científicos.
Diante disso, a UE determinou o banimento total do uso terapêutico do ZnO a partir de 2022. E não foi a única. A China impôs um limite de 1.600 ppm e o Canadá estuda restringir a 300 ppm. As mudanças, embora esperadas, trouxeram impactos significativos e deixaram lições valiosas, especialmente para países como o Brasil, onde o uso ainda é permitido e a discussão sobre restrições começa a ganhar força.
Para entender o que está em jogo e como o Brasil pode se preparar, o jornal O Presente Rural entrevistou com exclusividade o engenheiro agrônomo e mestre em Nutrição Animal Leandro Hackenhaar, profissional com experiência internacional no tema. Ele será um dos palestrantes do 17º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS), que acontece nesta semana, em Chapecó (SC).
Impactos da transição

Engenheiro agrônomo com mestrado em Nutrição Animal, Leandro Hackenhaar: “Uma possível retirada do óxido de zinco exigirá do produtor brasileiro mais atenção à biossegurança, ao manejo e ao bem-estar animal, especialmente no período crítico do desmame” – Foto: Arquivo pessoal
Na prática, a retirada do óxido de zinco resultou em desafios sanitários e produtivos, embora com intensidade variável entre países e granjas. “De forma geral, observou-se um aumento nos problemas de saúde intestinal, queda no desempenho zootécnico e, em alguns casos, maior mortalidade”, relata Hackenhaar, enfatizando: “Esses fatores resultaram em aumento dos custos de produção.”
A transição, mesmo com um prazo de cinco anos para adequação, foi desigual. Países do Norte da Europa, como Dinamarca e Holanda, se anteciparam e ajustaram suas práticas com mais previsibilidade, enquanto regiões como a Espanha mantiveram o uso do aditivo até o último momento permitido, o que dificultou a adaptação. “Em alguns casos, houve aumento pontual no uso de antibióticos para evitar perdas por mortalidade, contudo, o controle rigoroso do uso de antimicrobianos na Europa impediu uma elevação generalizada”, frisou.
Substituição não tem receita pronta
Na Europa, a saída do óxido de zinco exigiu mais do que encontrar um substituto direto, envolveu uma reformulação completa da abordagem sanitária e nutricional nas granjas. “A substituição do óxido de zinco exige uma abordagem integrada, envolvendo biossegurança, manejo, bem-estar animal, vacinação, uso estratégico de antibióticos e nutrição. Em alguns casos, é necessário aceitar uma leve redução no desempenho zootécnico no pós-desmame”, enfatizou o mestre em Nutrição Animal.
A adoção de aditivos, como ácidos orgânicos, probióticos, prebióticos, óleos essenciais e taninos, contribuiu para mitigar os efeitos da retirada do zinco, mas não houve solução única. “Nenhum aditivo substitui completamente o óxido de zinco”, ressalta o especialista, destacando: “Ainda assim, há granjas que, com excelente manejo, alcançam resultados zootécnicos e econômicos muito satisfatórios.”
Entre as estratégias bem-sucedidas estão o reforço da biossegurança, o manejo de ambiência e densidade, o preparo nutricional antes e após o desmame, o uso criterioso de antibióticos e a aplicação de protocolos vacinais adaptados à nova realidade.
E o Brasil?
Embora o debate sobre restrições ao uso do óxido de zinco ainda esteja em estágio inicial no Brasil, Hackenhaar defende que este é o momento certo para agir. “As palavras-chave são antecipação e planejamento”, resume.
Ele destaca que mudanças estruturais nas granjas, como aumento de espaço por animal, maior uniformidade de lotes e melhor preparo dos leitões antes do desmame, citando desmame mais tardio ou incentivo ao consumo de creep-feed, exigem tempo e investimento.
Segundo o especialista, o Brasil pode evitar erros cometidos na Europa e adaptar os acertos à sua realidade. “É preciso estabelecer regras claras, prazos justos e oferecer suporte técnico ao produtor”, diz, acrescentando: “A transição é possível, mas só será bem-sucedida se for pensada de forma integrada.”
A experiência europeia não apenas alerta para os desafios envolvidos, como também demonstra que é possível manter a produtividade com sustentabilidade, desde que se olhe para o sistema como um todo, do ambiente ao manejo, da nutrição à saúde intestinal. Para o mestre em Nutrição Animal, o Brasil não precisa esperar uma proibição para começar a se adaptar: “A mudança pode ser uma oportunidade de avançar em eficiência e bem-estar animal”, pontua.
Desafios técnicos e econômicos no horizonte

Foto: Divulgação/Arquivo OP Rural
Caso o Brasil opte por restringir o uso do óxido de zinco, o setor terá de enfrentar desafios importantes, tanto no campo técnico quanto econômico. A suinocultura brasileira é reconhecida mundialmente por sua eficiência, com desempenho elevado em ganho de peso, excelente conversão alimentar e baixas taxas de mortalidade, resultados que, em parte, têm o ZnO como aliado. “Uma possível retirada do óxido de zinco exigirá do produtor brasileiro mais atenção à biossegurança, ao manejo e ao bem-estar animal, especialmente no período crítico do desmame”, alerta Hackenhaar.
Para ele, o maior risco está em deixar as ações para a última hora, sem planejamento ou testes prévios. “A transição exige ajustes graduais e monitoramento contínuo dos resultados. É uma mudança que não se improvisa”, salienta.
Essa adaptação exige investimentos em estrutura e capacitação, o que representa um desafio maior para os produtores com recursos financeiros mais limitados. Por isso, o especialista reforça a importância de um debate técnico amplo e da definição de prazos realistas, caso uma eventual restrição se torne pauta regulatória no país.
Prevenção: o melhor remédio
Uma das lições centrais da experiência europeia é que manter a saúde intestinal dos leitões sem o apoio do óxido de zinco não depende de uma única solução, mas da harmonia entre diferentes áreas. “A chave está em prevenir doenças”, sintetiza Hackenhaar, emendando: “E isso só é possível quando nutrição, sanidade, ambiência e manejo estão integrados, funcionando de forma alinhada.”
Ambientes limpos, confortáveis e estáveis ajudam a reduzir o estresse dos leitões no pós-desmame, favorecendo o consumo de ração e a manutenção da integridade intestinal. Ao mesmo tempo, reforça o especialista, uma formulação nutricional de qualidade, ajustada para promover digestibilidade e equilíbrio da microbiota, e práticas sanitárias adequadas contribuem para reduzir a necessidade de intervenções corretivas.
Hora de agir: agenda técnica e pesquisa

Foto: Shutterstock
Para Hackenhaar, é hora de o Brasil construir uma agenda técnica estruturada a sobre o uso do ZnO. “Mesmo que não haja uma restrição formal no país, as práticas adotadas para produzir sem o aditivo já trazem ganhos importantes: uso reduzido de medicamentos, maior estabilidade dos lotes e melhor preparo dos animais”, destaca, enfatizando: “Além disso, caso uma proibição venha a ocorrer no futuro, o setor estará mais bem preparado, com menos ajustes a fazer.”
Entre os focos prioritários para pesquisa estão a adaptação de protocolos nutricionais às condições tropicais, a avaliação de aditivos com ação comprovada sobre a saúde intestinal e o desenvolvimento de ferramentas que facilitem a gestão de dados zootécnicos e sanitários em tempo real. Também é necessário ampliar os estudos sobre os impactos ambientais reais do ZnO no contexto da suinocultura brasileira, considerando particularidades como clima, solo e regime de chuvas.
Sustentabilidade, saúde e imagem do setor
Embora o pilar ambiental tenha sido um dos motivadores centrais do banimento europeu, Hackenhaar alerta que é preciso cautela ao transpor essa lógica para a realidade brasileira. “Devemos avaliar se, de fato, existe risco ambiental significativo nas nossas condições de produção. A decisão não pode ser baseada apenas em tendências globais, mas em dados técnicos sólidos”, pondera.
Ainda assim, ele reconhece que o caminho da sustentabilidade, aliado à segurança alimentar, bem-estar animal e qualidade dos alimentos é irreversível. “O consumidor está cada vez mais atento ao que está por trás do produto que consome. Mostrar que a suinocultura brasileira é responsável, eficiente e comprometida com boas práticas será decisivo para fortalecer nossa presença nos mercados interno e externo”, menciona.
Mais do que uma simples substituição de aditivo, a discussão sobre o óxido de zinco é uma oportunidade para repensar e aprimorar o modelo produtivo. Com planejamento, informação e suporte técnico, a suinocultura brasileira pode seguir avançando, com menos dependência, mais previsibilidade e sustentabilidade de longo prazo.

Suínos
Faturamento da suinocultura alcança R$ 61,7 bilhões em 2025
Com esse avanço, os suínos passam a responder por 4,37% de todo o VBP do agro brasileiro em 2025, mantendo posição estratégica em meio à cadeia de proteínas animais e reforçando o protagonismo das regiões Sul e Sudeste na produção nacional.

A suinocultura brasileira deve encerrar 2025 com faturamento de R$ 61,7 bilhões no Valor Bruto da Produção (VBP), segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), divulgados em 21 de novembro. O resultado representa um crescimento expressivo frente aos R$ 55,7 bilhões estimados para 2024, ampliando em quase R$ 6 bilhões a renda gerada pela atividade no país.
Com esse avanço, os suínos passam a responder por 4,37% de todo o VBP do agro brasileiro em 2025, mantendo posição estratégica em meio à cadeia de proteínas animais e reforçando o protagonismo das regiões Sul e Sudeste na produção nacional. A tendência confirma a força exportadora do setor e a capacidade das agroindústrias de ampliar oferta, produtividade e eficiência em um ambiente competitivo.
O ranking dos estados revela a concentração típica da atividade. Santa Catarina se mantém como líder absoluto da suinocultura brasileira, com VBP estimado de R$ 16,36 bilhões em 2025, bem acima dos R$ 12,87 bilhões registrados no ano anterior. Na segunda posição aparece o Paraná, que cresce de R$ 11,73 bilhões para R$ 13,29 bilhões, impulsionado pela expansão das integrações, investimento em genética e aumento da capacidade industrial.

O Rio Grande do Sul segue como terceira principal região produtora, alcançando R$ 11,01 bilhões em 2025, contra R$ 9,78 bilhões em 2024, resultado que reflete a recuperação gradual após desafios sanitários e climáticos enfrentados nos últimos anos. Minas Gerais e São Paulo completam o grupo de maiores faturamentos, mantendo estabilidade e contribuição relevante ao VBP nacional.
Resiliência
Além do crescimento nominal, os números da suinocultura acompanham uma trajetória de evolução contínua registrada desde 2018, conforme mostra o histórico do VBP. O setor apresenta tendência de ampliação sustentada pelo avanço tecnológico, por sistemas de produção mais eficientes e pela sustentabilidade nutricional e sanitária exigida pelas indústrias exportadoras.
A variação positiva de 2025 reforça o bom momento da cadeia, que responde não apenas ao mercado interno, mas sobretudo ao ritmo das exportações, fator decisivo para sustentar preços, garantir e ampliar margens e diversificar destinos internacionais. A estrutura industrial integrada, característica das regiões Sul e Sudeste, segue como base do desempenho crescente.
Com crescimento sólido e presença estratégica no VBP nacional, a suinocultura consolida sua importância como uma das cadeias mais dinâmicas do agronegócio brasileiro.
A edição de 2025 figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
Suínos
Exportações recordes sustentam mercado do suíno no início de 2026
Em meio à estabilidade das cotações internas, vendas externas de carne suína alcançam volumes e receitas históricas, impulsionadas pela forte demanda internacional.

As cotações do suíno vivo registram estabilidade neste começo de ano. Na praça SP-5 (Bragança Paulista, Campinas, Piracicaba, São Paulo e Sorocaba), o animal vivo posto na indústria foi negociado a R$ 8,87/kg na terça-feira (06), com ligeira queda de 0,3% em relação ao encerramento de 2025.
No front externo, o Brasil encerrou 2025 com novos recordes no volume e na receita com as exportações de carne suína. Em dezembro, inclusive, a quantidade escoada foi a maior para o mês e a quarta maior de toda a série histórica da Secex, iniciada em 1997, evidenciando, segundo apontam pesquisadores do Cepea, uma aceleração da demanda internacional pela carne brasileira no período.
De janeiro a dezembro de 2025, foram embarcadas 1,5 milhão de toneladas de carne, o maior volume escoado pelo Brasil em um ano, com crescimento de 11,6% frente ao de 2024, dados da Secex.
Em dezembro, foram exportadas 136,1 mil toneladas, quantidade 29,4% acima da registrada em novembro/25 e 26,2% maior que a de dezembro/25. Com a intensificação nas vendas, a receita do setor também atingiu recorde em 2025.
No total do ano, foram obtidos cerca de R$ 3,6 bilhões, 19% a mais que no ano anterior e o maior valor da série histórica da Secex. Em dezembro, o valor obtido com as vendas externas foi de R$ 322 milhões, fortes altas de 30% na comparação mensal e de 25% na anual.
Suínos
Primeiro lote de inscrições ao Sinsui 2026 encerra em 15 de janeiro
Evento acontece entre os dias 19 e 21 de maio, no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre (RS). o Simpósio chega à sua 18ª edição consolidado como um espaço técnico de discussão sobre produção, reprodução e sanidade suína, em um momento de crescente complexidade para a cadeia produtiva.






