Suínos
O que falta ao Brasil para usar dados em tempo real na suinocultura
Especialista compara a sanidade do Brasil e dos EUA e aponta a vigilância digital como o próximo passo para proteger o status sanitário do rebanho nacional.

A sanidade de rebanho, pilar fundamental da suinocultura, está entrando em uma nova era impulsionada pela tecnologia e pela integração de dados. Em um cenário global cada vez mais interconectado, a necessidade de sistemas de monitoramento em tempo real se torna essencial para prevenir e combater doenças emergentes. É o que mostram iniciativas inovadoras nos Estados Unidos e o que, segundo especialistas, o Brasil pode aprender e aplicar para manter sua liderança sanitária.

Médico-veterinário e professor da Universidade Estadual de Iowa, Giovani Trevisan: “O MSHMP foi estabelecido em 2011, motivado pela necessidade de um sistema integrado de monitoramento e resposta rápida a doenças infecciosas emergentes” – Foto: Arquivo pessoal
O médico-veterinário e professor da Universidade Estadual de Iowa, Giovani Trevisan, doutor em Filosofia e Ciências Populacionais em Saúde Animal, destacou a importância de programas de vigilância como o Projeto de Monitoramento e Saúde Suína Morrison (MSHMP) e o Ecossistema de Gestão de Informação Regional (PRIME). Ambos os projetos visam estabelecer uma rede de monitoramento e resposta rápida a patógenos, unindo forças da indústria e da academia. “O MSHMP foi estabelecido em 2011, motivado pela necessidade de um sistema integrado de monitoramento e resposta rápida a doenças infecciosas emergentes”, explicou Trevisan.
O projeto, que conta com a participação de granjas que compartilham semanalmente dados sobre doenças como a Diarreia Epidêmica Suína (PED) e a Síndrome Reprodutiva e Respiratória Suína (PRRS), fornece aos participantes métricas agregadas e objetivas para a comparação e o entendimento da incidência e prevalência dessas enfermidades.
Outra iniciativa de destaque, o PRIME, leva a vigilância a um novo patamar, integrando dados de localização, resultados de diagnóstico (PCR e sequenciamento) e movimentação animal. “A infraestrutura do PRIME permite a redução do tempo para identificar doenças infecciosas emergentes e reemergentes, bem como a identificação de regiões específicas com alta detecção de patógenos como PRRSV, PEDV e Influenza suína“, pontuou o especialista.
A informação gerada fica acessível aos participantes, permitindo tomar decisões na gestão de sanidade suína orientadas e baseadas em dado”.
Lições e oportunidades para o Brasil
Embora os sistemas americanos de monitoramento e rastreamento sejam referências, o Brasil tem uma posição de

destaque em relação à sanidade do seu rebanho, com índices zootécnicos superiores aos dos Estados Unidos. “Talvez pelo fato de o Brasil ter melhor acesso a mão de obra qualificada e disponível para trabalho nas granjas, alinhado com melhor status sanitário (livre de PRRSV, PEDV, PDCoV), adotamos uma cultura de melhor eficiência de produção”, afirma Trevisan.
Essa diferença cultural se reflete diretamente na produção. “Em muitos sistemas americanos, mortalidade pré-desmame de 15% é considerado normal, enquanto no Brasil em muitos sistemas isso é visto como inadmissível”, ressaltou o professor. O mesmo se aplica a outros indicadores, como mortalidade de matrizes e na fase de crescimento.
Apesar das vantagens, Trevisan alerta para a necessidade de o Brasil se inspirar nas experiências dos EUA para aprimorar seus próprios sistemas de vigilância. “Embora o Brasil tenha muito a ensinar para os americanos, os brasileiros apresentam potenciais oportunidades e experiências que podem ser capturadas dos EUA”, destacou.
A entrada de patógenos como PRRSV ou PEDV no país, por exemplo, teria um impacto “extremamente negativo” em

sistemas de produção que não possuem unidades de preparação de leitoas jovens e que misturam animais de múltiplas origens. Além disso, o PRRSV, ao afetar o sistema imune, exacerbaria o impacto de outras infecções, tornando o controle de patógenos bacterianos mais complexo.
O professor aponta a eliminação de Mycoplasma hyopneumoniae (MHP) como uma das grandes oportunidades econômicas e sanitárias para a suinocultura brasileira. “Reinfeções de MHP ocorrem, mas em frequência muito mais baixa que doenças virais, o que permite tornar a erradicação economicamente viável em muitas granjas”, disse.
Para concluir, Trevisan reforça a importância da vigilância epidemiológica e da inteligência sanitária: “Entender como as doenças endêmicas ocorrem na população suína, e ter informação em tempo real sobre elas, é uma das oportunidades de inteligência de informação sanitária proeminentes para o Brasil”, enfatiza Trevisan.

Suínos
Seminário em Minas Gerais discute uso responsável de antibióticos na suinocultura
Evento gratuito reúne produtores e técnicos para debater práticas mais seguras e eficientes na produção de suínos.

O Seminário Técnico Uso Racional de Antimicrobianos na Suinocultura será realizado no dia 25 de março, reunindo produtores, técnicos e profissionais do setor para debater estratégias que garantam uma produção mais responsável, eficiente e alinhada às exigências sanitárias e de mercado. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas clicando aqui.
O evento é promovido pela Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), em parceria com a Associação dos Suinocultores do Estado de Minas Gerais (ASEMG) e a Cooperativa dos Granjeiros do Oeste de Minas (COGRAN), com apoio do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Associação de Suinocultores do Centro Oeste Mineiro (ASSUICOM) e Cooperativa dos Produtores Rurais do Oeste de Minas Gerais (COOPEROESTE). O objetivo é ampliar o conhecimento técnico sobre o uso prudente de antibióticos na produção animal, além de tratar de temas como bem-estar animal e desafios regulatórios na alimentação dos suínos.
O seminário acontece no Suntory Business Hotel, em Pará de Minas (MG), com início às 8 horas, com a abertura oficial e boas-vindas aos participantes.
Segundo o presidente da ASEMG, Donizetti Ferreira Couto, o evento é essencial para fortalecer a suinocultura na região. “Discutir o uso racional de antimicrobianos, compartilhar conhecimento e alinhar práticas entre produtores e técnicos contribui diretamente para uma produção mais sustentável, segura e competitiva”, afirma.
A programação inclui a palestra “Uso prudente e eficaz de antibióticos na suinocultura”, com o médico veterinário Maurício Dutra, que trará orientações práticas e atualizações técnicas. Em seguida, o Auditor Fiscal Federal Agropecuário José Anselmo, do MAPA, abordará a visão do órgão sobre a importância do uso racional de antimicrobianos, desafios regulatórios e aspectos legais relacionados à alimentação animal.
Após o coffee break, a diretora técnica da ABCS, Charli Ludtke, apresentará a palestra “Bem-estar animal na suinocultura”, mostrando práticas que melhoram as condições de manejo e aumentam a produtividade nas granjas.
O seminário será encerrado com um almoço de confraternização, promovendo a troca de experiências entre os participantes e fortalecendo a rede de contatos dentro da cadeia produtiva da suinocultura.

Suínos
Vacinas autógenas ganham relevância na suinocultura, mas esbarram em limites técnicos e regulatórios
Apesar do potencial estratégico para controlar patógenos específicos, vacinas autógenas ainda enfrentam desafios de produção, custo, logística e regulamentação que limitam sua aplicação em larga escala na suinocultura.

Em sistemas intensivos de produção de suínos, marcados por alta densidade animal e elevada pressão sanitária, o controle de enfermidades permanece como um dos principais desafios produtivos. Nesse contexto, as vacinas autógenas se mostram como uma alternativa estratégica, sobretudo em situações em que vacinas comerciais não contemplam variantes específicas dos agentes circulantes no campo.
Produzidas a partir de microrganismos isolados do próprio rebanho, essas vacinas permitem uma resposta imunológica mais direcionada. De acordo com a médica-veterinária Michelle Marques, o diferencial está justamente na especificidade. “As vacinas autógenas são desenvolvidas com base na realidade sanitária da granja, o que aumenta a chance de uma resposta mais eficaz frente aos patógenos envolvidos”, explicou durante sua participação no 21º Congresso Nacional da Abraves, realizado em meados de outubro, em Belo Horizonte (MG).
Utilizadas globalmente há mais de um século, as vacinas autógenas possuem regulamentação consolidada em países europeus desde a segunda metade do século passado. No Brasil, seu uso começou de forma mais consistente a partir da década de 1990 e, atualmente, é normatizado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com exigências quanto à produção em laboratórios credenciados, biosseguridade e rastreabilidade.
Na prática, esses imunizantes têm sido empregados no controle de agentes como Streptococcus suis, Glaesserella parasuis, Actinobacillus pleuropneumoniae e cepas específicas de Escherichia coli e Salmonella spp., especialmente quando não há vacinas comerciais eficazes. Ainda assim, a aplicação em larga escala encontra limitações. “O tempo necessário para isolamento, caracterização e produção da vacina é um fator crítico, principalmente em surtos que exigem resposta rápida”, observou Michelle.
Custo e logística
Outro desafio relevante está no custo e na logística envolvida, além da dificuldade de isolamento bacteriano em situações de infecções múltiplas ou baixa viabilidade dos agentes. Em sistemas integrados, a complexidade aumenta, já que patógenos semelhantes podem circular entre granjas, mas com variações genômicas suficientes para comprometer a eficácia vacinal. “Nem sempre é simples definir uma cepa representativa quando há múltiplas origens e circulação intensa de animais”, pontuou a veterinária.
Regulamentação
Do ponto de vista regulatório, embora o Brasil tenha avançado na definição de critérios técnicos, ainda existem entraves relacionados à agilidade na liberação das vacinas. A consulta pública da Instrução Normativa nº 31 surgiu como uma tentativa de modernizar esse marco, propondo maior flexibilidade sem comprometer a segurança sanitária. Para Michelle, esse equilíbrio é fundamental. “A regulamentação precisa garantir controle e rastreabilidade, mas também permitir respostas compatíveis com a dinâmica dos sistemas intensivos”, afirmou.
Potencial das vacinas autógenas

Médica-veterinária Michelle Marques: “As vacinas autógenas são desenvolvidas com base na realidade sanitária da granja, o que aumenta a chance de uma resposta mais eficaz frente aos patógenos envolvidos” – Foto: Divulgação/Abraves
Apesar das limitações, o potencial das vacinas autógenas é reconhecido como complementar às estratégias tradicionais de biossegurança. Sua efetividade, contudo, depende da integração com manejo, diagnóstico preciso e vigilância epidemiológica contínua. “Não se trata de uma solução isolada, mas de uma ferramenta que precisa estar inserida em um programa sanitário bem estruturado”, reforçou.
Diante da intensificação da suinocultura e da crescente variabilidade dos agentes infecciosos, o avanço tecnológico aliado a ajustes normativos tende a ampliar o papel das vacinas autógenas. “A consolidação dessa ferramenta pode representar um passo importante para a sustentabilidade sanitária e produtiva da suinocultura brasileira”, ressaltou Michelle.
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Suínos
Exportações de carne suína superam US$ 554 milhões no 1º bimestre
Volume embarcado cresce 8,1% e setor amplia presença em mercados da Ásia e das Américas.

As exportações brasileiras de carne suína (considerando todos os produtos, entre in natura e processados) totalizaram 122,1 mil toneladas em fevereiro, informa a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O volume é 6,7% superior ao registrado no mesmo período do ano passado, quando foram embarcadas 114,4 mil toneladas.
Em receita, o desempenho também foi positivo. Ao todo, as vendas internacionais do setor somaram US$ 284,1 milhões, valor 4,1% superior ao obtido em fevereiro de 2025, quando as exportações alcançaram US$ 272,9 milhões.

No acumulado do primeiro bimestre do ano, as exportações brasileiras de carne suína chegaram a 238,4 mil toneladas, volume 8,1% maior em relação ao mesmo período de 2025, quando foram embarcadas 220,5 mil toneladas. Em receita, o crescimento acumulado chega a 8,5%, com US$ 554,4 milhões obtidos nos dois primeiros meses de 2026, contra US$ 510,9 milhões registrados no mesmo período do ano passado.
Na análise por país-destino, as Filipinas ampliaram sua posição como principal mercado para a carne suína brasileira. Em fevereiro, o país importou 40,9 mil toneladas, volume 77,4% superior ao registrado no mesmo mês do ano passado. Em seguida aparecem Japão, com 12,1 mil toneladas (+34,8%), China, com 11,1 mil toneladas (-43%), Chile, com 8,8 mil toneladas (+6%), e Hong Kong, com 8 mil toneladas (-40%).
Também figuram entre os principais destinos Singapura, com 5,4 mil toneladas (-16,6%), Argentina, com 4,3 mil toneladas (-10,5%), Uruguai, com 4 mil toneladas (+8,7%), México, com 3,2 mil toneladas (+8%), e Geórgia, com 3,1 mil toneladas (+122%).

Presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin: ““O avanço expressivo em mercados como Filipinas e Japão demonstra a confiança dos importadores no status sanitário, na regularidade de fornecimento e na competitividade da proteína produzida no Brasil” – Foto: Divulgação/Arquivo OPR
“O avanço expressivo em mercados como Filipinas e Japão demonstra a confiança dos importadores no status sanitário, na regularidade de fornecimento e na competitividade da proteína produzida no Brasil. Ao mesmo tempo, a diversificação de destinos tem ampliado a segurança da pauta exportadora, reduzindo a dependência de mercados específicos e abrindo novas oportunidades comerciais. Neste cenário, fatores como a credibilidade sanitária, a capacidade produtiva e a eficiência logística do setor brasileiro deixam de ser apenas condicionantes e passam a se consolidar como diferenciais estratégicos para sustentar o crescimento das exportações ao longo do ano”, avalia o presidente da ABPA, Ricardo Santin.
Principal exportador de carne suína, Santa Catarina embarcou 57 mil toneladas em fevereiro, número 7,7% menor em relação ao mesmo período do ano passado. Em seguida estão o Rio Grande do Sul, com 29,7 mil toneladas (+24,1%), Paraná, com 20,6 mil toneladas (+15,3%), Mato Grosso, com 3,9 mil toneladas (+39,2%) e Minas Gerais, com 3,1 mil toneladas (+34,3%).



