Suínos Expedição Suinocultura – episódio 2
O peso da suinocultura gaúcha: identidade, economia e resiliência em cada tonelada
Por trás das mais de 11,5 milhões de cabeças de suínos abatidas no Rio Grande do Sul em 2024, há famílias, histórias, pequenas e grandes agroindústrias, revezes climáticos, reconfigurações econômicas e uma capacidade singular de adaptação.

De nada adianta números bilionários sem as mãos que os sustentam. Por trás das mais de 11,5 milhões de cabeças de suínos abatidas no Rio Grande do Sul em 2024, há famílias, histórias, pequenas e grandes agroindústrias, revezes climáticos, reconfigurações econômicas e uma capacidade singular de adaptação. Neste segundo episódio da série Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil, fomos além das estatísticas para entender o que faz do estado gaúcho não apenas um gigante na produção de carne suína, mas um berço de identidade e pertencimento.
Um milhão de toneladas e muitos rostos por trás

CEO da Alibem e presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do RS (Sips), José Roberto Goulart: “Abatemos 40 mil suínos por dia”
O Rio Grande do Sul é o terceiro maior produtor e o segundo maior exportador de carne suína do Brasil. Em 2024, o estado produziu cerca de 1 milhão de toneladas da proteína. Cerca de 30% dessa produção é exportada, 40% abastece outros estados e o restante permanece no mercado interno gaúcho. “Abatemos 40 mil suínos por dia. É um sistema gigantesco, mas extremamente técnico e descentralizado”, afirma o CEO da Alibem e presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do RS (Sips), José Roberto Goulart.
O levantamento mais recente mostra que o plantel total de matrizes suínas no estado gira em torno de 390 mil, sendo 230 mil em posse de agroindústrias integradoras, cerca de 64 mil nas cooperativas e aproximadamente 80 mil na suinocultura independente. “Achávamos que o número de produtores era bem maior, uns sete ou oito mil. Mas encontramos pouco mais de 4.600 produtores tecnificados. É impressionante”, relatou o presidente da Associação de Criadores de Suínos do RS, Valdecir Folador.
Mas esses números não abarcam toda a complexidade. A suinocultura de subsistência, especialmente na metade sul do estado, ainda é praticada. “Eu não ficaria surpreso se encontrássemos mais de 50 mil matrizes espalhadas em propriedades pequenas, fora do sistema industrializado”, revelou Folador.
Um estado moldado pela suinocultura

Presidente da Acsurs, Valdecir Folador: “Só nas propriedades, o valor movimentado ultrapassa os R$ 8 bilhões por ano”
Em muitas cidades, a carne suína não é apenas proteína. É renda, é repasse de recursos, é o motor que sustenta comunidades inteiras. “Só nas propriedades, o valor movimentado ultrapassa os R$ 8 bilhões por ano. E mais de 300 mil pessoas vivem direta ou indiretamente da atividade no estado”, conta o presidente da Acsurs.
A distribuição da cadeia produtiva segue o caminho dos grãos – milho e soja, que compõem até 80% da ração animal. Por isso, as indústrias estão majoritariamente localizadas no noroeste e norte do estado, em cidades como Santa Rosa, Três Passos, Santo Ângelo, Frederico Westphalen, Encantado e Lajeado. São 14 plantas com Serviço de Inspeção Federal (SIF), responsáveis por 85% do abate estadual.
Mas há também cerca de 200 pequenas e médias agroindústrias sob inspeção estadual ou municipal, que consomem juntas quase 1 milhão de suínos por ano. “Essas empresas absorvem a produção de independentes e de parcerias agropecuárias. A suinocultura gaúcha também é feita de embutidos, produtos coloniais”, destacou Folador, há 20 anos no comando da Acsurs.
Rondinha: um microcosmo da força suinícola
No norte do estado, o município de Rondinha, com apenas 5 mil habitantes, é o sexto maior produtor de suínos do Rio Grande do Sul – e também um dos dez maiores em leite. Visitamos a granja da família Goob, que há 60 anos atua na atividade e hoje trabalha com mais de 150 produtores parceiros.

Suinocultor Mauro Antonio Gobbi: “Temos 22 UPLs, todas ligadas à nossa genética. Produzimos mais de 24 mil suínos por mês, distribuídos a frigoríficos do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Santa Catarina”
“Temos 22 UPLs, todas ligadas à nossa genética. Produzimos mais de 24 mil suínos por mês, distribuídos a frigoríficos do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Santa Catarina. Sustentabilidade aqui é prática. O dejeto suíno vira pastagem para as vacas. O custo do leite cai e uma cadeia ajuda a outra”, explicou um dos responsáveis pelo grupo, o suinocultor Mauro Antonio Gobbi.
A história local se mistura com o avanço técnico e a responsabilidade compartilhada. “Suinocultura é volátil. Aprendemos com os anos. Mas se estruturando bem, conseguimos crescer, mesmo com os desafios”, afirmou.
Os desafios que o milho impõe
A abundância de grãos define a geografia da suinocultura. E a falta deles impõe seus limites. “O RS não é autossuficiente em milho. Temos que trazer de fora. O frete encarece muito. Já trouxemos de MS, Paraguai, Argentina. Chegamos a pagar R$ 1 o quilo do milho”, contou um Goulart.
A tributação interestadual também pesa. “Temos 8,4% de ICMS sobre o milho de fora. É uma cadeia que depende da ampliação da capacidade de armazenagem, porque não podemos ficar reféns de São Pedro”, explicou.
Exportação: da sanidade ao marketing

Vilceu Fontana e o filho Jean Marcelo: “Temos 900 avós e mais 1000 fêmeas. O foco é qualidade genética, não só produtividade”
Com status sanitário de zona livre de febre aftosa sem vacinação e peste suína clássica, o Rio Grande do Sul atrai compradores de todo o mundo. “Todo mês tem missão sanitária aqui: russo, chinês, coreano, japonês. A gente precisa estar na ponta dos cascos, porque sanidade é eterna. Não é uma vez. É sempre”, destacou o presidente do Sips.
Os principais destinos da carne gaúcha são Filipinas (que já superou a China), Hong Kong, Argentina e Uruguai. Mas há planos de avançar. “Queremos habilitação para exportar carne com osso e miúdos à China, além de alcançar Japão, Coreia, Canadá e Estados Unidos”, afirmou.
De final de ano à rotina da família brasileira
Se antes a carne suína era sinônimo de festas de fim de ano, hoje ela está presente no cotidiano. “As indústrias entenderam o jogo. Investiram em cortes menores, embalagens mais atrativas e controle de qualidade. Hoje você encontra tudo no supermercado. Isso consolidou o consumo”, explicou.
A mudança de percepção também fortaleceu a cadeia produtiva e ajudou a profissionalizar o setor. “Hoje temos bonificação por desempenho até para o motorista do caminhão. Morrer muito animal já interfere no salário. O sistema é interligado, exige comprometimento e profissionalismo”, revela o suinocultor Sadi Acadrolli.
Sucessão, tecnologia e fé no futuro
No município de Rodeio Bonito, conhecemos a família Fontana, que atua com multiplicadoras de genética suína e sistemas de creche. “Temos 900 avós e mais 1000 fêmeas. O foco é qualidade genética, não só produtividade. Nosso maior desafio é a mão de obra, mas seguimos investindo porque acreditamos no setor”, contaram o pai, Vilceu Fontana, e o filho, Jean Marcelo, que agora assumiu as rédeas do negócio.
O Rio Grande do Sul perdeu recentemente a vice-liderança em produção para o Paraná, mas os produtores ainda enxergam espaço para crescimento. “Passamos por muitas crises. Muita gente saiu. Mas quem ficou, se estruturou. E agora começa a colher os frutos. Um produtor me disse esses dias que tem ‘café no bule’. E tem mesmo”, disse o empresário e médico-veterinário Flauri Migliavaca, entre risos.
Ao final das filmagens, ficou evidente: a carne suína que sai do Rio Grande do Sul leva mais do que proteína. Leva o suor, a resiliência e o orgulho de quem não desiste, mesmo diante de secas, crises ou mercados instáveis.
Clique aqui para assistir ao segundo episódio completo da série documental Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil.

Suínos
Dia do Suinocultor celebra protagonismo de quem impulsiona setor de R$ 63,1 bilhões
Com 5,6 milhões de toneladas produzidas e US$ 3,6 bilhões em exportações, cadeia reforça a importância dos produtores para a competitividade da proteína animal brasileira.

Celebrado nesta sexta-feira (24), o Dia Nacional do Suinocultor destaca o protagonismo dos produtores que, diariamente, sustentam a evolução de uma das cadeias mais competitivas do agronegócio brasileiro.
Em 2025, a produção brasileira de carne suína alcançou 5,592 milhões de toneladas, consolidando o país como o quarto maior produtor mundial. O Valor Bruto da Produção (VBP) do setor chegou a R$ 63,1 bilhões, movimentando economias regionais, gerando renda e impulsionando uma ampla cadeia formada por produtores de grãos, empresas de genética, nutrição e saúde animal, transportadores, cooperativas, agroindústrias e outros segmentos.

Foto: Shutterstock
A presença internacional também ganhou força. No ano passado, o Brasil exportou 1,510 milhão de toneladas de carne suína para 94 países, gerando receita cambial de US$ 3,6 bilhões. Com esse desempenho, o país manteve-se como o terceiro maior exportador mundial. Do total produzido, 27,01% foi destinado ao mercado externo.
Ao mesmo tempo, o mercado brasileiro permaneceu como o principal destino da produção nacional. O consumo per capita atingiu 19,1 quilos por habitante em 2025, refletindo a crescente presença da carne suína na mesa dos brasileiros e a ampliação da variedade de cortes e produtos disponíveis no varejo e na alimentação fora do lar.
Para a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), esses resultados começam dentro das propriedades rurais. São os suinocultores que transformam avanços em genética, nutrição, manejo, sanidade, biosseguridade, bem-estar animal e sustentabilidade em ganhos efetivos de produtividade, qualidade e segurança dos alimentos. “Cada tonelada

Presidente da ABPA, Ricardo Santin: “Cada tonelada produzida, cada mercado conquistado e cada avanço alcançado pela suinocultura brasileira começa com o trabalho do produtor” – Foto: Mario Castello
produzida, cada mercado conquistado e cada avanço alcançado pela suinocultura brasileira começa com o trabalho do produtor. É dentro das granjas que os compromissos do setor com a sanidade, a eficiência, a qualidade e a sustentabilidade se transformam em prática. O suinocultor é o grande protagonista de uma cadeia que gera desenvolvimento para o Brasil e ajuda a garantir segurança alimentar para consumidores brasileiros e de dezenas de países”, destaca Ricardo Santin, presidente da ABPA.
Presentes em diferentes modelos de produção, sejam integrados, cooperados ou independentes, os suinocultores também desempenham papel decisivo na geração de oportunidades no interior do país. A atividade fortalece municípios, mantém renda nas comunidades e estimula investimentos em tecnologia, infraestrutura e qualificação profissional. “A competitividade da suinocultura brasileira não foi construída por acaso. Ela é resultado da capacidade de adaptação, do investimento e da dedicação de milhares de produtores. Celebrar o Dia do Suinocultor é reconhecer quem está na base de um setor que movimenta bilhões, abastece o mercado interno e leva a qualidade da proteína animal brasileira para o mundo”, conclui Santin.
Suínos
Mercado integrado paga mais pelo suíno vivo que o independente em julho
Cepea registra movimento atípico em algumas regiões do Sul, onde a elevada oferta e a demanda enfraquecida pressionam as cotações do mercado spot.
Suínos
Rentabilidade da suinocultura preocupa produtores de Mato Grosso
Apesar do avanço da produção e das exportações brasileiras, preços em queda e margens apertadas desafiam o setor no Estado.








