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O passo a passo para fazer a transição de baias individuais para coletivas

De acordo com a OIE (Organização Mundial de Saúde Animal), o conceito de bem-estar animal envolve a maneira como o animal lida com o seu entorno

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Arquivo/OP Rural

O Manual de Gestação de Matrizes Suínas – boas práticas para o bem-estar na suinocultura, lançado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, traz explicações sobre o motivo para a transição, demonstra desafios e oportunidades do sistema, mostra como formar os grupos, os sistemas de alimentação, o manejo diário, entre outras situações para quem quer fazer a transição nos próximos anos.

“O bem-estar dos animais de produção está diretamente relacionado à saúde das pessoas e à sustentabilidade. Nesse sentido, o conceito de “saúde única” tem como meta mitigar a resistência antimicrobiana e garantir a efetividade nos tratamentos de doenças infecciosas tanto em humanos quanto em animais. Com a crescente pressão dos consumidores por sistemas de produção de alimentos mais sustentáveis, vem se adotando, em maior escala, práticas de produção que utilizam técnicas de bem-estar animal e de redução do uso de antimicrobianos. Isso representa um importante fator para a melhoria da produtividade, da qualidade e da inocuidade dos alimentos, contribuindo com a segurança alimentar. Entender o conceito de saúde e de bem-estar animal e aplicá-lo na racionalização do uso de antimicrobianos é fundamental para o sucesso das ações.

De acordo com a OIE (Organização Mundial de Saúde Animal), o conceito de bem-estar animal envolve a maneira como o animal lida com o seu entorno. Um animal está em boas condições de bem-estar se estiver saudável, confortável, bem alimentado, seguro, em condições de expressar suas formas de comportamentos inatos e se não estiver sofrendo dores, medo ou angústia.

“As boas condições de bem-estar exigem prevenção de enfermidades, administração e tratamentos veterinários apropriados, abrigo, alimentação, manejo e abate humanitário. O conceito de bem-estar animal, portanto, refere- -se ao estado do próprio animal. A forma de tratar o animal se designa-se com outros termos, como cuidado com os animais, criação ou tratamento humanitário. Ampliando o entendimento sobre o tema, autores como Mellor e Reid (1994) estabeleceram a definição dos cinco domínios que podem afetar o bem-estar animal: nutrição, ambiente, saúde, espaço físico e, por fim, o estado mental. Neste contexto, o projeto Welfare Quality (www.welfarequality.net) desenvolveu um protocolo para a mensuração do bem-estar animal, definindo quatro princípios para que o bem-estar dos animais seja atendido: Os animais são alimentados de forma correta? Os animais são alojados de forma adequada? O estado sanitário dos animais é adequado? O comportamento dos animais reflete um estado emocional adequado?

Esses quatro princípios são o ponto de partida de um conjunto de 12 critérios em que qualquer sistema de mensuração do bem-estar dos suínos deveria se basear, tais como: Ausência de fome prolongada; Ausência de sede prolongada; Conforto em relação a área de descanso; Conforto térmico nas instalações; Facilidade de movimento; Ausência de lesões; Ausência de doenças; Ausência de dor causada por práticas de manejo (corte de cauda, desgaste de dentes); Expressão de comportamento social adequado, de forma que exista um equilíbrio entre os aspectos negativos (como agressividade) e positivos; Expressão adequada de outros comportamentos, de forma que exista um equilíbrio entre os aspectos negativos (como estereotipias) e positivos; Interação adequada entre os animais e seus tratadores, de forma que os animais não manifestem medo em relação às pessoas que os manejam; Ausência de medo”, introduz o material.

Gestação coletiva

De acordo com o documento, de 2018, “a gestação coletiva de matrizes suínas é o tema relacionado ao bem-estar mais debatido nos diferentes públicos que gravitam ao redor da produção desta espécie, desde produtores, agroindústrias, redes de varejo e de fast food, até o público consumidor. A razão do intenso debate deve-se, por um lado, ao impacto econômico acarretado pela mudança do sistema tradicional de produção em celas individuais para o modelo coletivo e, por outro, à degradação do bem-estar dos animais no sistema de produção convencional. A manutenção de fêmeas gestantes em celas individuais na condição de extremo confinamento não condiz com nenhum padrão ético nem científico de bem-estar animal. Isso porque submete os animais a condições que limitam movimentos e comportamentos fisiológicos inerentes da espécie, como o ato de deitar e levantar, a exploração do ambiente, a escolha voluntária de locais para defecar e urinar, e também a interação adequada com seus pares. A transição do sistema de gestação individual para a coletiva é uma demanda de mercado inadiável, com a qual o setor produtivo precisa se ajustar em favor da sobrevida de seu negócio. E ainda que se trate de uma mudança sem volta, ela representa uma oportunidade para a suinocultura brasileira demonstrar seu dinamismo frente a este novo desafio por meio de uma adesão rápida ao novo sistema, mantendo a competitividade da carne suína no mercado global”.

Boas práticas

“A adoção de boas práticas na suinocultura assegura a oferta de alimentos mais seguros para os consumidores e torna os sistemas de produção mais rentáveis e competitivos. Com base no avanço dos conhecimentos sobre fisiologia, etologia e produção suína, podemos estabelecer um comparativo entre os sistemas de produção em celas individuais e em baias coletivas”, diz o documento. Veja figura 1.

Mais vantagens

De acordo com a publicação, além de melhorar o bem-estar dos animais, o manejo das fêmeas suínas pelo sistema de gestação coletiva proporciona vantagens em produtividade e uma maior segurança para o trabalhador. “O Código Canadense de Boas Práticas enumerou uma série de pontos relacionados aos sistemas de alojamento na fase de gestação que devem ser considerados pelos técnicos e produtores do segmento (NFACC, 2014): É possível obter produtividade e saúde igual ou superior no alojamento coletivo; Os grupos estáticos são melhores que os dinâmicos em termos de bem-estar animal; O exercício físico durante a gestação melhora o desempenho das fêmeas no parto; No intervalo desmame cio, as fêmeas podem ser mantidas em celas ou em baias. Mas o estresse relacionado ao desmame, secagem do leite e entrada em estro associado a agressões do reagrupamento pode se tornar um desafio e afetar negativamente o bem-estar se essa fase não for bem manejada; As agressões entre as fêmeas de um mesmo grupo não podem ser eliminadas completamente, mas é possível proteger os indivíduos vulneráveis (nulíparas e primíparas); Leitoas que são reagrupadas três a quatro vezes antes do quinto mês de idade expressam menos agressividade que leitoas sem experiência prévia de reagrupamento”, cita.

Gráfico 1: redução significativa de estereotipias ao longo do tempo de gestação, segundo o tipo de alojamento. As estereotipias são comportamentos anormais ligados ao estresse crônico, e são indicativo importante, pois impactam a reprodução e a saúde dos animais.

Tendência global do mercado

“A mudança do manejo da gestação individual para um sistema de alojamento coletivo tem sido exigida em muitos países por meio de normativas de proteção e de bem-estar dos animais. Este sistema produtivo tornou-se uma premissa para a produção de suínos, tendo-se estabelecido datas limites para a conversão das unidades antigas, além da proibição da construção de novas granjas que utilizam o sistema de alojamento individual. A União Europeia está na vanguarda destas mudanças. Por meio da Diretiva 2008/120/CE, desde 2013 todas as matrizes suínas devem ser alojadas coletivamente.

Essa normativa é o marco mais importante na transição de sistemas de alojamento. Seguem essa tendência países como Canadá e Nova Zelândia, além de muitos Estados americanos. Há que se esclarecer, entretanto, que em alguns locais, o banimento das celas de gestação não compreende todo o período da gestação. Nesses locais, a normativa vigente prevê que parte do período gestacional ocorra em celas individualizadas. A normativa da União Europeia, por exemplo, permite que as fêmeas sejam alojadas em celas individuais até o 28º dia da gestação e nos últimos sete dias (ver figura 6)”.

Granjas novas e adaptadas

De acordo com o MAPA, diante da necessidade de se adotar o sistema de alojamento coletivo, o produtor terá duas opções: adaptar as unidades ainda em operação ou construir novas unidades a partir de um projeto integralmente concebido para esse sistema produtivo. Essa decisão deverá ser tomada de acordo com critérios como: vida útil da granja atual e amortização do investimento já realizado, prazo de conversão determinado pelo mercado, produção esperada e o custo de um projeto totalmente novo diante do tempo de amortização. Vale considerar que, embora o investimento em um projeto novo seja maior em comparação com a adaptação de uma unidade, os custos se diluem ao longo do período de amortização da granja, que gira em torno de 20 anos. No caso de se decidir por adaptar granjas em atividade, é preciso remover as celas ou deixá-las abertas, permitindo que as matrizes entrem e saiam quando desejarem. Também é necessário recalcular a produção a partir da área recomendada por matriz, adaptar os pisos e o sistema de escoamento dos dejetos e criar corredores de manejo. Nesta condição, ocorre redução do inventário, mas os impactos na produtividade durante a fase de transição podem ser reduzidos dependendo da capacidade técnica e de gestão da unidade. No contexto brasileiro, a dúvida incide sobre o custo da transição caso mantido o mesmo inventário”.

Superfície livre

“Independentemente de a granja ser nova ou adaptada, a superfície instalada de piso livre por matriz no sistema coletivo é a mesma. A legislação europeia recomenda 1,64 m2 por leitoa pós cobertura e 2,25 m2 para porcas gestantes. Estes valores, entretanto, podem variar em 10% para mais ou para menos de acordo com o tamanho do grupo (ver tabela 1). A superfície livre é a área disponibilizada ao animal sem obstáculos e que permite o seu movimento (levantar-se, deitar-se e descansar). Os espaços ocupados por comedouros, bebedouros e corredores de manejo, por exemplo, não devem ser contabilizados como superfície livre (ver figuras 7 e 8)”.

“No desenho do espaço livre deve-se considerar uma área coletiva maior e áreas de fuga menores, que auxiliam na dinâmica de interação dos animais e reduz brigas, principalmente quando há quebra da hierarquia social e disputa por ração e água. Na área maior acontecem as atividades principais, como alimentação e defecação. Já as baias menores são usadas para o descanso ou para a fuga. As baias menores também contribuem para a formação de subgrupos sociais entre as porcas que se mantêm próximas por afinidade”, sugere o MAPA.

Piso

“A recomendação da Diretiva Europeia é de uso de pisos ripados com no mínimo 80 mm de largura das vigas (ripas) e 20 mm máximo das aberturas de drenagem. Tal requisito é válido tanto para porcas como para leitoas no período de gestação. Vale pontuar que produtores brasileiros e norte-americanos obtiveram bons resultados em termos de drenagem de dejetos e de limpeza dos animais utilizando pisos de 150 mm de largura de vigas com até 27 mm de aberturas de drenagem. De qualquer maneira, para obter bons resultados técnicos e de conforto para os animais não basta apenas um bom projeto dos pisos, mas também garantir a qualidade fabril e a resistência dos ripados. Na prática, os mesmos não podem ter arestas cortantes e desníveis. Devem ter aberturas uniformes, que facilitam a caminhada dos animais e o desgaste uniforme dos cascos, além de evitar com que as unhas fiquem presas”.

Climatização

Ainda de acordo com o MAPA, o investimento em climatização é outro ponto que merece ser analisado, tanto nos projetos de adaptação como nas unidades novas. “O conforto térmico proporciona um aumento do bem-estar dos animais e também dos funcionários, resultando em uma melhora na produção. Para o clima brasileiro, o uso de sistema de ventilação por pressão negativa torna-se uma boa alternativa visando à manutenção da zona de conforto térmico das fêmeas. Buscar entender o comportamento dos animais dentro das instalações é fundamental na avaliação de conforto térmico: matrizes ofegantes apresentam estresse oriundo do calor, matrizes com pelos arrepiados ou amontoadas demonstram estresse por frio. Em ambos os casos, é fundamental realizar medidas corretivas para melhorar o bem-estar dos animais.

Alimentação das matrizes na fase de gestação

“As matrizes de linhas genéticas selecionadas para produzir maior rendimento de carne e menor deposição de gordura necessitam de controle individual do consumo de ração para evitar a obesidade. O que é um controle relativamente fácil em alojamento individual, torna-se um desafio no alojamento coletivo em decorrência da competição pelo alimento – dependendo do sistema de alimentação este desafio será maior ou menor. A Diretiva 2008/120 orienta que as fêmeas gestantes recebam uma quantidade suficiente de alimentos volumosos ou ricos em fibras voltadas para amenizar a sensação de fome e suprir a necessidade de mastigação.

“O alto teor de fibra alimentar na dieta aumenta o tempo de ingestão e a saciedade, proporcionando uma redução na frequência das estereotipias, conforme resultados descritos por Ramonet et al (1999) e Bernardino et al (2016). Com este propósito, a Alemanha exige e especifica que o conteúdo de fibra na matéria seca seja de pelo menos 8%, garantindo que a fêmea ingira um mínimo de 200 gramas de fibra diariamente. Nas condições em que se utilizam materiais comestíveis e de qualidade superior como enriquecimento, a exemplo da palha e do feno, as quantidades ingeridas podem cumprir a função de componente fibroso da dieta, pois apoiam tanto na redução da saciedade, quanto no comportamento inato da espécie de exploração pela busca pelo alimento. Nesses casos, recomenda-se a disponibilização para cada matriz de um mínimo de 100 gramas de fibra por dia”, orienta o documento do MAPA.

Tipos de grupos de fêmeas no alojamento coletivo

“Os modelos de alojamento em grupo para fêmeas suínas gestantes recebem duas classificações baseadas no manejo: os estáticos e os dinâmicos.

Sistemas estáticos

“Os grupos estáticos são aqueles formados por fêmeas de mesma idade gestacional e mantidos sem a incorporação de novas matrizes durante todo o período de gestação (ver figura 11). Neste sistema, é possível adotar o manejo “todos dentro/todos fora”, em que todos os animais entram e saem ao mesmo tempo da baia alojada. Para estabelecer os grupos, é recomendável formar unidades pequenas e homogêneas, de no máximo 20 indivíduos, considerando a fase de gestação, a idade e a condição corporal das matrizes. Neste modelo, só se excluem os animais que abortam ou que, por problemas de saúde, precisam ser removidos para as baias enfermaria. Este tipo de manejo apresenta uma menor incidência de lesões, conforme descrito por Li e Gonyou (2013)”.

Sistemas dinâmicos

Os grupos dinâmicos são aqueles formados por matrizes em diferentes períodos gestacionais e que permitem a introdução e a saída dos animais para proporcionar aproveitamento máximo do lote. O sistema possibilita a formação de grupos maiores, de até 240 indivíduos, mas requer a adoção de equipamentos de alimentação eletrônica. O inconveniente deste sistema é a constante alteração do quadro hierárquico entre os animais, pelo que o controle da agressividade torna-se um desafio, conforme demonstrado na tabela 2. Para reduzir as interações negativas neste sistema, recomenda-se que a introdução de novos indivíduos seja realizada em grupos de, no mínimo, três animais (ver figura 12).

Sistemas de alojamento coletivo mais adotados no Brasil – sistemas tradicionais

“O modelo tradicional de gestação coletiva é composto por baias com um número reduzido de animais, formado por grupos estáticos e com fornecimento de ração de forma manual ou automática. Nesta situação, a ração é oferecida em quantidades iguais para todas as fêmeas do grupo, porém a ingestão varia segundo a hierarquia dos animais. Este modelo não é novidade para a suinocultura brasileira, pois é utilizado há várias décadas pelos produtores. O principal desafio neste modelo é a manutenção do escore corporal adequado dos animais e a gestão do desperdício de alimento”, diz o MAPA.

“Neste sistema de arraçoamento no chão, é importante haver uma distribuição uniforme dos drops de alimentos, que devem estar dispostos na área compacta. Isso permite um melhor aproveitamento da ração e reduz as disputas entre os animais. Os bebedouros devem ser alocados na área ripada, uma vez que as matrizes tentem a defecar nas áreas mais úmida da baia.

Sistema em minibox

“Neste sistema, a ração é fornecida em comedouros lineares com divisórias individuais ou diretamente no piso, por meio da utilização de drops. As divisórias individuais são metálicas e reduzem as disputas no momento do arraçoamento, tornando mais uniforme a alimentação entre os indivíduos”, entende o MAPA.

Para cada matriz, é necessário assegurar que exista um miniboxe de 45 a 50 cm de largura, com a altura da espalda do animal (ver figura 17). Essas dimensões impedem que duas fêmeas entrem juntas no boxe ou desloquem a outra durante a alimentação. O sistema possibilita melhor controle do escore corporal, porém deve ser manejado em grupos estáticos e pequenos de animais, permitindo a manutenção constante da hierarquia. No sistema de minibox é fundamental separar as fêmeas por tamanho, mantendo nulíparas e primíparas em grupos distintos. Uma das principais vantagens deste sistema é a facilidade de manejo dos animais nas baias”.

Sistemas com alimentação eletrônica

“Conhecido como ESF (do inglês electronic sow feeding), ou estação com controle eletrônico de alimentação, este sistema dispõe de um chip eletrônico aplicado na orelha do animal. Este chip é lido pelo sensor presente na entrada da estação de alimentação, que assim fornece uma quantidade de ração determinada pelo operador do sistema integrado da granja e ajustada à necessidade de cada matriz. No sistema ESF, trabalha-se com a curva de alimentação individual. Isso significa que as matrizes receberão uma dieta específica de acordo com o período da gestação, o estado corporal do animal e o ciclo de parição. O controle alimentar resulta em maior uniformidade da leitegada e em redução dos desperdícios com ração. Este modelo é voltado para uma produção em maior escala, pois permite a formação de grupos maiores em sistema dinâmico, otimizando a capacidade da instalação e reduzindo espaços ociosos.

O principal desafio neste sistema é o treinamento dos animais para a alimentação através das máquinas. É importante atentar-se à recomendação do fabricante a respeito do número de fêmeas por cada estação de alimentação, uma vez que a disputa na entrada do comedouro culmina em agressões no momento de maior busca por comida”, diz o MAPA.

“Um outro modelo já disponível no mercado, entretanto, simplifica o treinamento dos animais, sem impactar na precisão da alimentação individual. Na estação eletrônica de livre acesso, a alimentação também é controlada a partir das informações do chip aplicado na orelha da matriz, mas o treinamento do animal resume-se à sua saída da gaiola.

Treinamento de leitoas

“Nos sistemas ESF é necessário realizar o treinamento das leitoas para que elas aprendam a entrar na máquina para se alimentar (ver figura 25 e 26). Portanto, o treinamento das leitoas é uma etapa essencial para garantir o sucesso na implantação do sistema. Esse treinamento costuma ser dividido em três fases:

  • Fase 1 (duração de 1-2 semanas)

Com a máquina desligada, estimula-se a passagem das matrizes uma ou duas vezes ao dia para que elas aprendem a se alimentar dentro do equipamento. Nesta etapa, os animais perdem o medo do equipamento e associam a informação de que há comida dentro dele.

  • Fase 2 (duração de 1-2 semanas)

Com uma parte das funções da máquina acionada, estimula-se a passagem das leitoas uma ou duas vezes ao dia para que elas acostumem a se alimentar desta forma.

  • Fase 3 (duração de 2-3 semanas)

Com todas as funções do equipamento ligadas, assegura-se que as leitoas tenham se adaptado plenamente à máquina.

“Nas fases 1 e 2 é fundamental que o manejador auxilie e estimule a condução das leitoas através da máquina por meio de incentivos positivos, permitindo que elas percam o medo do equipamento e das pessoas que trabalham no processo de condução e verificação dos animais. Para o sucesso do treinamento, recomenda-se a disponibilidade de uma equipe direcionada para este fim, na proporção de um colaborador para um plantel de 2000 matrizes”.

Enriquecimento ambiental na gestação coletiva

“O enriquecimento ambiental tem como objetivo atender à necessidade de explorar dos suínos – um comportamento natural da espécie. Este é um importante requerimento para o bem-estar de animais criados em sistemas confinados tradicionais. Essa prática reduz interações negativas, como agressões e mordedura de vulva, diminui as estereotipias, aumenta os comportamentos positivos e, assim, melhora a qualidade de vida dos animais. O enriquecimento ambiental ajuda a manter as fêmeas “dominantes” mais ocupadas e diminui o assédio entre as colegas de grupo.

A Diretiva 2008/120/CE da União Europeia traz orientações a respeito do uso de materiais de enriquecimento ambiental recomendados para suínos de todas as idades. Os materiais indicados são palha, feno, madeira, serragem, compostos de champignon, turfa ou uma mescla de todos. Para haver uma expansão no uso dos materiais de enriquecimento ambiental para suínos de diferentes idades, é necessário encontrar soluções econômicas, funcionais e sanitariamente adequadas. Caso a granja tenha dificuldade de implantar o uso dos materiais considerados ideais, alternativas devem ser buscadas. As características ideais dos materiais de enriquecimento ambiental são: mascáveis, comestíveis, investigáveis e manipuláveis. Entre os materiais que também podem ser utilizados estão as cordas de sisal ou de algodão, madeiras penduradas, maravalha, casca de arroz e cana de açúcar”.

Formação dos grupos

De acordo com o Manual do Mapa, o momento para a formação dos grupos de matrizes gestantes em relação ao ciclo produtivo, ou seja, a transferência das fêmeas das celas individuais para as baias coletivas, deve ocorrer fora da fase mais crítica para a sobrevivência do embrião, que é entre o sétimo e o vigésimo quarto dia de gestação. “Durante este período, o risco de perdas reprodutivas, como reabsorção e abortos, é muito alto (Souza, 2009). Consequentemente, devemos transferir as fêmeas antes ou depois dessa fase crítica.

Transferência pré-implantação (cobre e solta)

“As legislações do Reino Unido e da Suécia determinam a manutenção das fêmeas em grupos durante todo o período de gestação, o que apresenta vantagens e desvantagens. Nestas situações, as matrizes são transferidas para as baias de gestação logo após a última inseminação – um sistema conhecido como cobre e solta. Para o sucesso deste modelo, as fêmeas devem ser soltas, no máximo, dois dias após o fim da inseminação para que as brigas oriundas do processo de formação de hierarquia aconteçam antes da implantação do embrião”.

Vantagem do sistema cobre e solta

“Estabelecimento precoce do quadro hierárquico do grupo, mantendo-se mais estável ao longo da gestação; Menos riscos de reabsorções embrionárias por estresse, uma vez que as brigas ocorrem nos primeiros cinco dias da formação do grupo. Neste período, o embrião não sofre influência dos hormônios maternos; Eliminação total do sistema de celas na fase gestacional”.

Desvantagem do sistema cobre e solta

“Necessidade de mais espaço; Menor controle sobre o estado corporal; Maior suscetibilidade a erros de agrupamento”.

Principais falhas observadas nos sistemas coletivos

De acordo com o MAPA, algumas falhas de manejo e estrutura podem comprometer os resultados produtivos e de bem-estar esperados com o alojamento coletivo. “O simples fato de as matrizes estarem livres em uma baia não garante a elas, necessariamente, condições melhores do que no alojamento individual. A seguir destacamos pontos que devem ser considerados para evitar falhas no alojamento coletivo: Falta ou má qualidade de treinamento das leitoas nos sistemas de alimentação eletrônicos; Falta de checagem e atendimento individualizado das fêmeas que não estão consumindo ração; Falta de inspeção diária dos grupos e tomada de ações corretivas com os animais que apresentam problemas; Falta de manutenção dos equipamentos eletrônicos; Densidade inadequada das baias de alojamento (superlotação); Grupos de gestantes desuniformes em tamanho, ordem de parto e condição corporal; Falta de um número suficiente de baias hospital para alocar as fêmeas que apresentam problemas e que não podem permanecer nas baias coletivas; Desenho inadequado das baias, que dificulta a formação de hierarquia e definição de zonas de alimentação, defecação e descanso; Pisos de má qualidade ou com necessidade de manutenção; Falha na detecção de retorno ao estro, resultando na identificação tardia de porcas vazias; Falha na manutenção da saúde dos cascos dos animais”, orienta o Manual.

Aspectos comportamentais que afetam os resultados

Ainda segundo o Manual do MAPA, “o ponto chave para o sucesso do manejo coletivo está em compreender o comportamento normal das matrizes e saber como fornecer as condições apropriadas para os animais manifestarem um comportamento adequado, culminando em boas condições de bem-estar e, consequentemente, na expressão de todo seu potencial produtivo. “É essencial compreender os aspectos a seguir e tomar as medidas necessárias para evitar perdas em decorrência de manejos que não respeitam o comportamento natural dos suínos: Na natureza, as matrizes permanecem em grupos pequenos de seis a oito indivíduos, juntamente com suas leitegadas mais jovens. Os cachaços sexualmente ativos não ficam juntos, mas se aproximam quando as fêmeas apresentam cio. Os suínos são animais gregários, ou seja, fazem praticamente tudo juntos: exploram o ambiente à procura de alimento, descansam, dormem e comem em grupo. Existem animais definidos como líderes e animais dominantes. Animais líderes são aqueles que iniciam a busca por um recurso. Os dominantes são os que iniciam a disputa pelo recurso. Ao agrupar animais que não se conhecem, eles disputam a liderança entre si. Por até cinco dias ocorrem brigas para a definição da hierarquia, sendo as mais intensas nas primeiras 72 horas. A intensidade das disputas se reduz na medida em que o grupo estabelece o quadro hierárquico. Em ambientes confinados, quando o alimento é fornecido de forma restrita e consumido em poucos minutos, as porcas não têm sua fome saciada, o que pode exacerbar os episódios de agressividade. É necessário formar os grupos de gestantes por tamanho e ordem de parto para evitar que as fêmeas menores e submissas sofram agressões. Não se deve introduzir um número inferior a três porcas nos grupos de gestantes já formados. É preciso alimentar as matrizes antes de reagrupá-las, pois as disputas pelo alimento serão mais intensas ao se alimentar matrizes famintas em grupos recém-formados. Como medida para reduzir a agressividade, é possível aumentar a quantidade de ração fornecida nos primeiros dois ou três dias após reagrupamento. O estabelecimento de grupos estáticos é sempre preferível quando se prima pelo bem-estar dos animais. As fêmeas devem ter a possibilidade de escaparem das agressões por meio da instalação de anteparos (zonas de fuga). A adoção de sistemas de alimentação que promovam menos competição, como o ESF ou minibox, traz benefícios de ordem produtiva, econômica e de bem-estar, além facilitar o manejo alimentar. A oferta de bons materiais de enriquecimento ambiental aprimora o conjunto de ações necessárias para atingir um bom status de bem-estar. Independente do sistema adotado, uma equipe treinada e capacitada é fundamental para o bom manejo e resultado zootécnico da granja”, são orientações do MAPA.

Checagem diária e manejo das baias hospital

“A rotina diária do setor de gestação deve prever a checagem individual da saúde e do bem-estar das leitoas, matrizes e cachaços, além da pronta tomada de decisão a respeito dos animais que apresentam problemas. A inspeção diária dos animais é um fator crítico para o sucesso do sistema de gestação coletiva, reduzindo o número de perdas recorrentes do mau manejo. No desenho da granja deve-se considerar o tempo gasto diariamente pelo operador para este fim, sendo estimado em torno de três segundos por fêmea alojada. A avaliação precisa ser realizada por um tratador experiente, observando os aspectos comportamentais. Entre os pontos de atenção, estão aspectos como o consumo adequado de ração e água, se os animais caminham naturalmente, se apresentam lesões ou escoriações, se há a presença de abortos, entre outros”.

Baias hospital

“Os problemas mais frequentes que exigem a transferência para as baias hospital são: condições corporais inadequadas (fêmeas muito magras), claudicações, doenças como diarreia aguda, problemas respiratórios graves, mordidas de vulva, lesões de pele e escoriações por brigas. As baias hospital devem oferecer melhores condições de conforto que as baias comuns. Recomenda-se que sejam pequenas, representando um volume de até 5% do inventário de matrizes. Elas devem estar próximas das baias comuns, com baixa lotação de animais com problemas equivalentes e ter bebedouros e comedouros bem acessíveis e funcionais. Quando as matrizes apresentam problemas de claudicação, as baias devem obrigatoriamente conter cama”.

Escolha do sistema de alojamento

“Na hora de escolher o sistema de alojamento que melhor adapte-se à realidade da granja, devem ser consideradas muitas variáveis de ordem prática, estruturais e econômicas. Esta análise pode ser feita tanto para a adaptação, quanto para a construção de uma nova unidade. Vários fatores devem ser considerados na construção das instalações, entre eles: recursos financeiros, o tamanho do grupo a ser alojado, o tipo de arraçoamento, a disponibilidade de mão-de-obra, a definição do layout das baias (projeto com áreas de fuga para a formação de grupo menores, baias maiores retangulares ou quadradas), a presença de material de enriquecimento e o sistema de tratamento de dejetos para facilitar a limpeza e qualidade do ar no ambiente.

As informações apresentadas na tabela 3 a seguir podem auxiliar nesta reflexão. Para ilustrar, imagine uma pequena unidade de produção. Baseie sua escolha em uma maior disponibilidade de mão-de-obra em proporção ao número de matrizes alojadas. Para uma grande unidade produtiva, avalie opções automatizadas”.

Considerações finais

Em suas considerações finais, o Manual do MAPA sugere: “A competitividade no agronegócio passa obrigatoriamente pelo alinhamento entre a atuação das cadeias produtivas e a visão do consumidor. No segmento da proteína animal, o conhecimento e a aplicação das boas práticas resultam na harmonia entre uma produção ética de carne suína e os anseios de uma sociedade que prima pela qualidade de vida dos animais. A difusão de boas práticas relacionadas à gestação coletiva de matrizes suínas e a capacitação de trabalhadores das unidades produtivas, dos técnicos que atuam no segmento, dos produtores de suínos e dos demais agentes da cadeia sobre tais práticas são fundamentais para garantir uma produção mais ética. Diante de tantas opções, uma análise criteriosa de investimento e dos resultados esperados deve ser feita antes de se decidir pelo modelo mais adequado de produção em gestão coletiva de matrizes suínas.

O produtor deve entender e respeitar o comportamento do animal para obter sucesso no manejo do sistema, evitando assim ser penalizado por dificuldades inerentes ao comportamento gregário da espécie. No desenvolvimento dos projetos, sejam eles novos ou de adaptação, é preciso ir a fundo nos detalhes construtivos. Uma mão-de-obra treinada e qualificada faz toda a diferença para a funcionalidade do sistema. As falhas mais comuns são aquelas relacionadas à falta de treinamento adequado da equipe ou à inadequação do número de pessoas para trabalhar no sistema. Trocar informações e experiências com produtores que já realizaram a transição é uma prática altamente recomendável para evitar falhas previsíveis e tornar o processo mais efetivo”, pontua o Manual. As referências bibliográficas podem ser consultadas no Manual de Gestação de Matrizes Suínas – boas práticas para o bem-estar na suinocultura.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de fevereiro/março de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes

O agro familiar e seu papel na suinocultura

Pesquisador da Embrapa, Marcelo Miele, avalia a participação das famílias do campo no agronegócio brasileiro.

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Arquivo/OP Rural

O agronegócio sempre foi uma das principais molas propulsoras da economia brasileira e nos últimos anos evolui ao ponto de se tornar uma das grandes potências no cenário mundial. O setor foi responsável por 27,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2021, a maior participação desde 2004 (quando foi de 27,53%). O crescimento do PIB no mesmo ano foi de 8,36%, segundo cálculos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), e da Esalq/USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Marcelo Miele: “A importante participação da agricultura de base familiar para o desenvolvimento rural sustentável e para a produção e preço dos alimentos no país é incontestável” – Foto: Divulgação

Muito desse ótimo desempenho do agronegócio brasileiro se deve a famílias de produtores rurais espalhadas por todo o Brasil, que utilizam a mão de obra familiar para gerar renda a si e para outras famílias de colaboradores, o que, consequentemente, ajuda a aquecer a economia dos municípios.

Em entrevista ao jornal O Presente Rural, o pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Marcelo Miele, falou sobre as atividades desenvolvidas por essas famílias de produtores, em especial, dentro da suinocultura brasileira. Confira.

O Presente Rural – Como se caracteriza a agricultura familiar no Brasil?

Marcelo Miele – A produção agropecuária brasileira é caracterizada pela diversidade de atores, tanto em função do porte dos estabelecimentos, quanto em função do uso de mão de obra com laços de parentesco, ou das atividades econômicas desenvolvidas. De forma geral, os mais de 4,8 milhões de estabelecimentos do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2017 se dividiam em quatro grandes grupos. Os grandes e médios produtores com mão de obra essencialmente contratada (não familiar) representavam 23% dos estabelecimentos e 33% do pessoal ocupado, mas concentravam 77% do valor da produção. Por sua vez, a agricultura familiar com mão de obra essencialmente com laços de parentesco abrangia 77% dos estabelecimentos e 67% do pessoal ocupado, mas concentrava 23% do valor da produção.

Esse grande agrupamento também é bastante heterogêneo, se subdividindo em agricultura familiar tecnificada, atuando em mercados e com tecnologias semelhantes a de grandes e médios produtores; agricultura familiar de pequeno porte, atuando em mercados locais e com baixo grau de intensificação tecnológica; e por fim a agricultura familiar voltada à subsistência e autoconsumo.

Importante destacar que a agricultura familiar encolheu entre os dois últimos Censos Agropecuários (2006 e 2017), com redução de 9,5% no número de estabelecimentos e perda de um contingente de 2,2 milhões de trabalhadores, enquanto que na agricultura não familiar houve um aumento de 35% no número de estabelecimentos e a criação de 702 mil postos de trabalho. Mesmo assim, é inegável o importante papel da agricultura de base familiar para o desenvolvimento rural sustentável e a produção e o preço dos alimentos no país.

O Presente Rural – Nesse cenário, como se situa a suinocultura?

Marcelo Miele – Na suinocultura também encontramos esses diferentes tipos de produtores e as tendências apontadas anteriormente. Podemos subdividir a suinocultura brasileira em dois grandes grupos, a suinocultura industrial e a de pequeno porte, atuando em mercados locais ou de nicho. De um lado, há a chamada suinocultura industrial, tecnificada e inserida nos mercados por meio de agroindústrias integradoras, cooperativas e vendas diretas aos frigoríficos no mercado independente. Estima-se que em 2017 era composta por 20 mil estabelecimentos agropecuários com rebanho suíno superior a 100 cabeças, que foi responsável por 93% de todos os suínos produzidos naquele ano (Tabela 1). A grande maioria dos estabelecimentos da suinocultura industrial é de base familiar (73%), mas os produtores com mão de obra contratada detêm a maior parte do rebanho (57%) e dos suínos produzidos (69%).

Em termos de porte, enquanto que o rebanho médio da suinocultura industrial de base familiar era de 844 cabeças, aqueles com mão de obra essencialmente contratada tinham um rebanho médio de 3.083 cabeças, uma escala quase quatro vezes maior. Por outro lado, há um conjunto significativo de 76 mil estabelecimentos agropecuários com rebanho entre 21 e 100 cabeças de suínos (média de 37 cabeças), que compõem o grupo de pequenos suinocultores atuando em mercados locais (Tabela 1), também predominantemente de base familiar (71% dos estabelecimentos e 69% do rebanho). Além desses dois grandes grupos, há mais de 1,3 milhão de estabelecimentos com rebanho de até 20 cabeças que criam suínos para subsistência ou autoconsumo.

Por fim, é importante destacar que entre os dois últimos Censos Agropecuários (2006 e 2017), ocorreu redução significativa no número de estabelecimentos da suinocultura industrial (-25%) e, sobretudo, da suinocultura de pequena escala atuando em mercados locais (-43%). Entretanto, enquanto que esta última pouco ampliou sua escala média, reduzindo o seu rebanho total de suínos (-34%), o segmento tecnificado quase duplicou a escala média de produção (+97% no rebanho médio por estabelecimento) e ampliou o rebanho total em 46% (Tabela 2).

O Presente Rural – Quantas pessoas estão envolvidas na suinocultura familiar no Brasil? Além da mão-de-obra familiar, essas famílias empregam mais pessoas? Essas famílias atuam em outras atividades agropecuárias?

Marcelo Miele – Estima-se que a suinocultura industrial tenha sido responsável em 2021 pelo abate de 50 milhões de cabeças (95% dos abates), ocupando cerca de 45 mil pessoas dentro da porteira, das quais 31 mil são pessoas contratadas (Rais) e 14 mil são produtores e seus familiares. Por outro lado, a suinocultura de pequena escala atuando em mercados locais foi responsável pelo abate de 3 milhões de cabeças, envolvendo aproximadamente 3 mil pessoas, sendo a quase totalidade da agricultura familiar.

De toda forma, nem todos os estabelecimentos da agricultura familiar operam apenas com pessoas com laços de parentesco. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE, em 2017, 11% do pessoal ocupado na suinocultura de base familiar não tinha parentesco com o produtor. O inverso também se verifica, e de forma bastante contundente. Entre os suinocultores que não se enquadram no conceito de agricultura familiar, 57% das ocupações eram preenchidas pelo(a) próprio(a) responsável pelo estabelecimento agropecuário ou por pessoas com laços de parentesco com o(a) mesmo(a). Em ambos os casos, além da suinocultura, essas famílias atuam em outras atividades, com destaque para a bovinocultura de leite e grãos, em função das sinergias entre dejetos suínos e pastagens, mas também há consórcio com avicultura e piscicultura.

O Presente Rural – Quais os maiores desafios encontrados por esses suinocultores e quais os maiores benefícios em se trabalhar em família?

Marcelo Miele – Acredito que o maior desafio para os suinocultores de base familiar seja acompanhar o processo de incorporação tecnológica puxado pelos estabelecimentos de maior porte, sem que isso implique em desequilíbrios na disponibilidade de terra, capital e trabalho. Ou seja, 1) que consigam manter uma relação rebanho/área agrícola que permita o correto uso agronômico dos dejetos ou a sua exportação para lavouras de terceiros sem custos significativos de transporte; 2) que consigam repor a depreciação das instalações (25 anos) e dos equipamentos (12 anos), bem como incorporar novas tecnologias e atender exigências dos mercados e das normativas oficiais sem que isso implique em endividamento excessivo ou insolvência; e 3) que consigam atender as atividades de manejo e gestão com a mão de obra familiar disponível, de forma eficiente e não penosa com ajuda da automação, ou com apoio de mão de obra contratada, de forma legal e sem risco de acumular passivos trabalhistas.

Para os pequenos suinocultores atuando em mercados locais ou de nicho, acredito que outro grande desafio seja agregar valor a seus produtos e obter certificação a baixo custo. Isso é fundamental porque muitos dos diferenciais historicamente ligados à produção de base familiar passaram a ser adotados com eficiência por grandes produtores (economia circular com os dejetos, carbono neutro, qualidade do emprego formal, bem-estar animal, livres de antibióticos ou orgânicos).

Em relação aos benefícios, destaco a maior autonomia, a geração de renda agrícola (ou seja, o custo da mão de obra não sai do estabelecimento familiar com o pagamento de salários a terceiros) e a possibilidade de gerar sucessores, de forma a perpetuar um modo de vida que passa a ser cada vez mais identificado como a classe média rural brasileira.

O Presente Rural – Existem regiões específicas que concentram essas famílias de suinocultores?

Marcelo Miele – A região Sul concentrava 9 a cada 10 suinocultores com mão de obra familiar na suinocultura industrial (Tabela 3), com destaque para o Oeste catarinense (SC), o Noroeste rio-grandense (RS), o Oeste paranaense (PR) e o Centro Oriental rio-grandense (RS), que concentram três quartos da suinocultura industrial de base familiar.

Dentre as dez principais mesorregiões geográficas com suinocultura industrial, somente uma não é localizada na região Sul (Tabela 4).

Os pequenos suinocultores que atuam em mercados locais estão localizados sobretudo nas regiões Nordeste e Norte (Tabela 3). Apesar de haver um grande contingente disperso em todas as regiões do país, verifica-se que entre as dez principais mesorregiões geográficas com suinocultura de pequena escala voltada a mercados locais, somente uma está localizada na região Sul (Tabela 5).

O Presente Rural – Qual sua avaliação sobre a sucessão familiar nesses casos?

Marcelo Miele – Tanto em estabelecimentos de base familiar quanto nos demais, vejo uma grande diversidade de situações em relação à sucessão. Além dos aspectos culturais, há questões específicas de cada família. Mas os especialistas apontam para elementos importantes nos processos sucessórios, como o diálogo entre gerações, a delegação de tarefas, a autonomia, bem como a remuneração dos sucessores de forma condizente com o mercado de trabalho da sua região.

Apesar do elevado desemprego no país, há um mundo se abrindo para os jovens, sobretudo em atividades de tecnologia da informação (TI), e muitos optam por não permanecer no meio rural quando este não provê renda atrativa ou boa acessibilidade à internet e ao transporte para os serviços e as diversões da cidade (o meio urbano). Os relatos de negociações amparadas pela Lei da Integração (n. 13.288/2016) nas quais se preconiza valorar o custo da mão de obra familiar pelo salário-mínimo, e não pela remuneração média no mercado de trabalho da região, levantam dúvidas quanto à mensagem sendo passada para os filhos e filhas de suinocultores.

O Presente Rural – Considerando o atual cenário, qual é sua avaliação sobre o futuro da suinocultura desenvolvida com mão-de-obra familiar?

Marcelo Miele – Algumas tendências estão bem consolidadas, como o aumento de escala e da tecnificação na suinocultura industrial (Tabela 2), a capacidade da suinocultura de grande porte não familiar agregar valor e obter economia circular com o uso intensivo de tecnologias da agricultura 4.0, bem como a perda de espaço enfrentada pela agricultura de base familiar, acelerada pelo abandono de políticas públicas importantes como o programa de aquisição de alimentos.

E, apesar das grandes disparidades regionais, também é inegável a tendência à maior conectividade no campo e disponibilidade de infraestrutura de transporte, aproximando o campo da cidade. Nesse ambiente, um cenário futuro positivo para a suinocultura desenvolvida com mão de obra familiar ainda é cheio de incertezas e dependerá da capacidade desse segmento superar desafios. Há inúmeros, como reter talentos por meio da sucessão, fortalecer o associativismo e o cooperativismo entre os pequenos, acessar tecnologias de automação em pequena escala e de certificação a baixo custo que não impliquem em aumentos significativos do rebanho, obter apoio da Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) e de consultorias em gestão, bem como contratar mão de obra sem incorrer em passivos trabalhistas. À medida que a agricultura familiar conseguir avançar nessas pautas, melhores serão as perspectivas de um cenário de sustentabilidade da atividade no longo prazo.

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Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes

Especialista sugere alternativas na hora de comprar ou vender milho

Cenário de elevação dos preços dos grãos e demais insumos que compõem a ração animal deve persistir, apesar das recentes estimativas de uma boa safra de grãos.

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Arquivo/OP Rural

Entre os principais insumos da ração, o milho e o farelo de soja representam em torno de 70% dos custos da cadeia produtiva de proteína animal, despesa que tem impactado de forma significativa produtores de todos os setores que produzem alimento, porém de maneira mais intensa nos últimos meses. Neste contexto, o sócio proprietário da XP/Granoeste Investimentos, Robson Polotto, aponta tendências do mercado de grãos para a atual temporada e alternativas para driblar os altos custos.

Sócio proprietário da XP/Granoeste Investimentos, Robson Polotto: “A saída para o produtor é estar antenado, ter a conta na mão e saber o que precisa, tendo consciência do que é bom para ele” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

O profissional enfatizou que o setor de proteína animal vive um dos momentos mais desafiadores, uma vez que o poder de compra do produtor frente aos grãos, principalmente o milho, está nas mínimas históricas. “E ao que tudo indica esse cenário de elevação dos preços dos grãos e demais insumos que compõem a ração animal deve persistir, apesar das recentes estimativas de uma boa safra de grãos. O atual conflito bélico e os problemas climáticos enfrentados no último ano, que resultaram em quebra da safra de soja, milho e trigo principalmente, contribuíram para essa alta, uma vez que o consumo está maior que a oferta”, analisou Polotto.

Com estoque inicial de 9,6 milhões de toneladas de milho, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê 24,3 milhões de toneladas da safra de verão 2021/2022, enquanto para a safrinha estima-se 86,3 milhões de toneladas. Para a 3ª safra são estimadas 1,8 milhão de toneladas, com importação de 1 milhão de toneladas, o que totaliza oferta brasileira de 123,1 milhões de toneladas. Deste montante, 74,4 milhões de toneladas são destinadas para uso doméstico, 39,3 milhões de toneladas para exportação, gerando um estoque final de 9,3 milhões de toneladas (gráfico abaixo).

Em relação a demanda e a oferta de milho da safra 2021/2022, no mês de fevereiro, conforme levantamento da Conab, a oferta disponível de milho no mercado interno era de 5,9 milhões de toneladas, volume estimado para 35 dias de consumo de acordo com a demanda. Nos meses subsequentes, a disponibilidade do cereal em relação aos dias de consumo foi reduzida, com previsão para atingir a mínima no mês de maio, quando o volume de 6,1 milhões de toneladas frente a demanda pelo grão deve suprir apenas o consumo para 28 dias. A partir de junho, a capacidade de oferta do grão aumenta com o término da colheita de milho, com previsão para agosto de 6,5 milhões de toneladas, volume que será equivalente para 25 dias de consumo.

Estoque mensal

Em relação as estimativas da Conab com as previsões de estoque mensal de milho da safra 2021/2022 (MMT), Polotto diz a partir de junho, depois da redução de maio, os estoques foram sendo repostos com o término da colheita da primeira safra de milho, aumentando significamente os volumes de armazenamento, passando a estocagem para 46,4 milhões de toneladas em julho e para 55,2 milhões de toneladas em agosto, com baixas significativas dos volumes estocados nos meses seguintes (gráfico abaixo), fechando 2022 com estoque final de 9,3 milhões de toneladas.

Preços dos grãos em patamares elevados persistem

Segundo Polotto, os preços devem se manter em patamares elevados seguindo a tendência dos valores internacionais, acrescido da expectativa de menor disponibilidade de milho no spot nacional no primeiro semestre deste ano. No mercado futuro da Bolsa de Valores BM&F, o milho está sendo comercializado para julho a R$ 90,28; para setembro a R$ 89,35; para novembro a R$ 91,9; para janeiro/2023 a R$ 93,7 e para março/2023 a R$ 94,3. “No início de abril as cooperativas estavam ofertando a saca de milho safrinha de 60kg para compra antecipada a R$ 78”, relata Polotto.

 Spreads da Bolsa de Valores

Para melhorar as margens de lucro do setor produtivo, o empresário orienta os agricultores a aproveitar os spreads da Bolsa de Valores, indicador que auxilia o investidor a verificar quais ações possuem maior liquidez na Bolsa de Valores em relação à demanda do milho regional, relativos aos preços.

Polotto diz que é muito importante que o produtor fique atento ao que acontece globalmente – conflito entre Rússia e Ucrânia, plantio de milho nos Estados Unidos e nos principais países produtores, impactos da seca na produção brasileira, que inclusive afetou também o Paraguai, país que será um ofertante de milho safrinha ao mercado nacional – para saber como utilizar a compra antecipada de uma maneira que consiga um grão mais barato, porque isso vai impactar diretamente nos custos de produção da propriedade e dará um pouco de fôlego ao produtor nas margens da proteína, que hoje estão negativas. “O mercado é volátil, dinâmico, o que vale hoje, amanhã ou daqui um mês já não vale, e a Bolsa tem spreads, que em tese melhoram a performance com uma alta ou baixa, além de ter modalidade de seguros interessantes neste momento”, pontua.

Comercialização do cereal

Na hora de comercializar a safra, parte dos agricultores fica receosa se vai conseguir vender ou não o grão por um bom preço e na melhor época. Essa preocupação se justifica porque vários são os fatores que podem influenciar no momento da negociação do produto, entre eles clima, economia global, oferta maior ou menor do cereal no mercado, o que reflete nas movimentações de compra e venda e nos preços agrícolas. “A saída para o produtor é estar antenado, ter a conta na mão e saber o que precisa, tendo consciência do que é bom para ele”, declara Polotto.

Conforme Polotto, existem inúmeras formas de se obter mais rentabilidade na venda de grãos e a diversificação dessas modalidades de comercialização pode diminuir seus riscos. “Há algumas operações no mercado futuro para venda de grãos que podem ser realizadas pelos agricultores, entre elas a modalidade Hedge, na qual os preços são fixados antes da venda com o objetivo de proteger o valor dos grãos devido à grande instabilidade do mercado”, expõe.

Polotto dá um exemplo de uma operação com seguro de preço (Hedge). “Em novembro de 2021 a oferta de venda de farelo de soja para abril, maio e junho de 2022 estava por R$ 2.130,00/ton CIF. Em março na Bolsa de Chicago o mesmo produto estava U$S 357,00/ton, um seguro de baixa para o farelo de soja em março de 2022 custava U$S 28,00/ton, como o dólar estava R$ 5,60 teria custo de R$156,80/ton, ou seja, para saber o custo total da comercialização do grão no mercado futuro com seguro soma R$ 2.130 + R$ 156,80, cujo resultado é R$ 2.286,80/ton. O custo do farelo em abril estava sendo vendido por R$ 2.713,35/ton, o equivalente a 18,65% de custo a mais”, ressalta.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor suinícola e da piscicultura acesse gratuitamente a edição digital Suínos e Peixes.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes

A saúde dos leitões começa in utero: como desenvolver a imunocompetência dos leitões antes e após o nascimento?

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Divulgação DSM

A produção de suínos enfrenta desafios constantes e crescentes para gerar animais de forma mais sustentável e rentável, além de alcançar padrões mais altos de bem-estar que atendam às necessidades dos animais e à demanda dos consumidores. Enquanto as demandas aumentam, as ferramentas tradicionais usadas para superar os desafios – como os antibióticos e o óxido de zinco terapêutico – estão sendo restringidas em muitas partes do mundo devido à ameaça da resistência antimicrobiana. Ao mesmo tempo, os avanços da genética têm levado a uma tendência de hiperprolificidade nas matrizes, o que cria desafios adicionais. O maior número de leitões por fêmea por ano resultou em uma maior variação do peso ao nascimento e mais desafios metabólicos para a reprodutora, o que por sua vez afeta o início da produção de colostro e leite, aumentando assim o risco de se ter leitões menos robustos ao desmame e perdas de desempenho em uma idade mais avançada.

Imunocompetência de leitões recém-nascidos

O leitão recém-nascido é imaturo em muitos aspectos e a primeira semana de vida é crítica para sua saúde futura e os resultados de produtividade. Durante esses primeiros dias de vida, o intestino passa por um rápido desenvolvimento, aumentando a capacidade digestiva e absortiva. Paralelamente, a colonização do intestino pelos microrganismos está muito avançada e tem um papel fundamental na composição do microbioma intestinal e estímulo ao desenvolvimento do tecido linfoide associado ao intestino (GALT), onde se encontram mais de 70% das células imunológicas. Em nossa busca por estratégias mais sustentáveis para apoiar o cuidado com os leitões durante as primeiras etapas da vida a arma mais poderosa de que dispomos normalmente é ignorada: a imunocompetência do leitão.

A imunocompetência é vital para a vida, porém seu desenvolvimento e utilização têm um custo associado para todos os animais, especialmente os jovens. Esse é um equilíbrio delicado: para funcionar efetivamente, o sistema imunológico deve responder adequadamente aos vários estímulos que se apresentam, produzindo uma resposta imune somente às ameaças reais e mantendo-se sem resposta aos estímulos de baixo grau. No entanto, nos leitões jovens o sistema imunológico é muito imaturo e incapaz de distinguir facilmente os diferentes níveis de ameaça, respondendo a todos como ameaças reais. Sabe-se que a imunocompetência dos leitões começa in utero, continua com a ingestão de colostro e leite (imunidade passiva), e pesquisas recentes têm demonstrado que o microbioma intestinal desempenha um papel essencial na preparação do desenvolvimento do intestino e sistema imunológico. Para preparar melhor os leitões para o desafio do desmame e mais além, o desenvolvimento da imunocompetência deve ser promovido através de duas vias:

  1. sistêmica, aumentando a qualidade da imunidade passiva recebida da porca; e
  2. local, via modulação do microbioma intestinal para preparar o desenvolvimento do sistema imunológico da mucosa (Figura 1).

 

A imunocompetência se desenvolve através de duas vias:

Figura 1. Abordagem nutricional multicomponente da DSM para otimizar o desenvolvimento da imunocompetência de leitões.

A imunocompetência tem várias vias de desenvolvimento, incluindo os programas de vacinação para proteger os animais contra os patógenos, a biosseguridade para controlar a exposição aos agentes causadores de doenças e o apoio nutricional para otimizar a resistência e mitigar o risco de antígenos. A vacinação é efetiva, porém cara energeticamente devido à resposta imune associada, e seu uso só se justifica no caso de patógenos virulentos que causam altas taxas de mortalidade. Portanto, a nutrição equilibrada é um pré-requisito para manter um bom estado de saúde e otimizar o sistema imunológico dos leitões.

Desenvolvimento da imunocompetência sistêmica

O desenvolvimento da imunocompetência sistêmica de um leitão recém-nascido é altamente dependente da nutrição da mãe, começando in utero e continuando com uma boa qualidade e quantidade de colostro e leite. Portanto, a nutrição e saúde da matriz e sua capacidade de transferi-las aos leitões são fundamentais para o desenvolvimento de um sistema imunológico precoce e robusto. Sabe-se que os micronutrientes como as vitaminas D3, E, C e várias vitaminas do complexo B, assim como os minerais, têm benefícios imunomoduladores. Os leitões nascem com baixos níveis sanguíneos de vitaminas e a alta demanda desses compostos para apoiar o desenvolvimento e ativação imunológica frequentemente resulta em leitões deficientes. Considerando as maiores exigências de uma fêmea moderna para criar uma leitegada maior, deve-se ter uma abordagem mais precisa de micronutrição para a nutrição das mesmas durante o final da gestação e a lactação para apoiar a ótima qualidade e rendimento do colostro.

Para funcionar efetivamente, o sistema imunológico sistêmico precisa ser hábil na proliferação e regulação das células imunológicas e estar protegido contra os danos celulares causados pelo desequilíbrio redox. As vitaminas E e C foram reconhecidas há muito tempo por sua capacidade de atuar como potentes antioxidantes que previnem os danos oxidativos às células imunológicas. A viabilidade dos leitões pode ser melhorada através de uma ótima suplementação de vitamina E na dieta de fêmeas durante a gestação e lactação (Wang et al., 2017). Mais recentemente, tem havido um maior entendimento do papel da vitamina Dou, ainda mais importante, de seu principal metabólito (25-OH vitamina D3), na imunomodulação. Uma das principais funções da vitamina Dé não apenas apoiar a ativação das células imunológicas e a produção de peptídeos antimicrobianos, mas também limitar as respostas excessivas. Os leitões nascem com níveis muito baixos de 25-OH vitamina D3 no sangue e esses níveis raramente alcançam o nível mínimo e muito menos a faixa ótima para apoiar a imunidade. Entendendo o papel crítico da vitamina D3 na função imune, sabemos que os leitões podem estar em desvantagem sem os níveis adequados de vitaminas. Konowalchuk et al. (2013) reportaram que a suplementação de vitamina D3 e da forma 25-OH vitamina D3 em particular resultou em um aumento do número e ativação das células imunológicas em leitões desmamados.

Desenvolvimento da imunocompetência local

O tecido linfoide associado ao intestino local (p. ex., conteúdo do lúmen intestinal) desempenha um papel crítico na defesa do organismo dos leitões contra o ambiente externo. Seu desenvolvimento é impulsionado pelo estabelecimento precoce de um microbioma intestinal diverso e estável cuja magnitude e impacto se estendem até mais além do intestino para o desenvolvimento do tecido imunológico em outros órgãos, como os pulmões. No entanto, esses mecanismos ainda não são totalmente compreendidos. O desenvolvimento do microbioma intestinal começa assim que os leitões deixam as condições estéreis do útero e são muito influenciados pelo microbioma da mãe e seu ambiente imediato. A colonização microbiana orienta o desenvolvimento gastrointestinal e modula a função de barreira epitelial, que é a primeira linha de defesa. A colonização microbiana precoce também modula as respostas imunes inata e adaptativa, afetando a capacidade do hospedeiro de produzir respostas inflamatórias adequadas e resistir às doenças. Desenvolver e manter um microbioma intestinal diverso e estável é crítico para a resiliência dos patógenos e o ótimo funcionamento do intestino em um ambiente com uso reduzido de medicamentos. Existem várias ferramentas nutricionais disponíveis para apoiar o desenvolvimento de uma comunidade bacteriana equilibrada no intestino. A administração de probióticos como Enterococcus faecium parece ter mais sucesso em matrizes durante o final da gestação e lactação para orientar a inclusão precoce de cepas benéficas no microbioma intestinal em desenvolvimento, mas ainda maleável. Outra estratégia para apoiar um microbioma intestinal saudável das fêmeas e, portanto, beneficiar os leitões, é melhorar a digestibilidade das fibras. As xilanases aumentam o aporte de fibras prebióticas e energia, que são cruciais no período de balanço energético negativo durante a lactação.

Para preparar os leitões para superar os desafios associados ao desmame e mais além, é fundamental desenvolver a imunocompetência o mais cedo possível através de uma abordagem nutricional multicomponente. A nutrição otimizada da fêmea com as vitaminas E, C e D melhora os níveis séricos de vitaminas dos leitões ao nascimento, assim como a qualidade do colostro, resultando em uma maior imunidade passiva e melhor desempenho da leitegada. No momento do nascimento, moldar a colonização microbiana precoce do intestino com microrganismos benéficos como os probióticos é crucial para estimular a imunocompetência e evitar a diarreia. Durante a lactação, assegurar os níveis corretos de vitamina D nas matrizes otimiza o aporte de vitaminas no colostro e leite; os probióticos estimulam a colonização precoce do intestino e reduzem a incidência de diarreia durante o período de lactação; e as xilanases aumentam o aporte de energia líquida através de uma maior digestibilidade das fibras, produzindo posbióticos como os ácidos graxos de cadeia curta e resultando em leitões robustos e mais pesados ao desmame.

—- Por Mariana Masiero

 Mariana Masiero é graduada pela Universidade de São Paulo (USP), possui PhD em Ciência Animal com foco em Nutrição Animal pela Universidade de Missouri, EUA. Ingressou na Biomin®, que agora é parte da DSM, em 2019 como Gerente Global de Produto para Fitogênicos. Atualmente, é Gerente Global de Marketing de Suínos.

Fonte: Ass. de Imprensa DSM
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