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Avicultura Um desabafo agroindustrial

“O Mapa torra a paciência da indústria todo dia”

Por trás do inquestionável sucesso da produção avícola brasileira, há um sistema burocrático, antigo e ineficiente que desgasta o setor, freia seu crescimento e ameaça seu futuro

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Uma entrevista exclusiva da Reportagem do jornal O Presente Rural expõe uma situação que no mínimo merece atenção de toda a cadeia da avicultura e das autoridades governamentais. Por trás do inquestionável sucesso da produção avícola brasileira, há um sistema burocrático, antigo e ineficiente que desgasta o setor, freia seu crescimento e ameaça seu futuro. As revelações nada agradáveis sobre os bastidores da produção de carne de frango no Brasil são de João Pedro, nome fictício para o responsável pelo setor de avicultura de uma das maiores e mais respeitadas agroindústrias do país. João Pedro prefere o anonimato por receio de retaliações, especialmente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e do Ministério do Trabalho.

Os infortúnios, em sua opinião, começaram em 2007, com a publicação da Instrução Normativa 56, que estabeleceu os procedimentos para registro, fiscalização e controle de estabelecimentos avícolas de reprodução e comerciais. “O governo começou a se meter muito no setor produtivo com a desculpa de proteger consumidor. De 2007 pra cá o governo começou a se meter muito, burocratizou o setor, nós perdemos agilidade, seja de abate, seja para construir um aviário ou qualquer outra atividade da avicultura. Para se ter uma ideia, antes de 2007 a gente fazia um aviário em três meses. Hoje eu preciso mais de dez documentos para construir e geralmente demora mais de um ano para conseguir todas as liberações. Isso é uma vergonha”, menciona João Pedro. “Tem empresário ficando doente com tantas normas, instruções, papel para preencher, sendo que em outros países as coisas são bem diferentes. O controle de qualidade fica a cargo da empresa, por exemplo. O resultado é que muitas empresas fecharam ou foram incorporadas e o setor parou”, amplia.

“Para quem crescia de 8 a 10 % por ano, hoje crescer 1%… veja o tamanho da encrenca”.

Gente despreparada no MAPA

Para o profissional, há despreparo na hora de confeccionar leis e fazer as fiscalizações na indústria. “Estamos (avicultura brasileira) há quase dez anos sem crescer em volume de produção. E muito por conta do Mapa e das pessoas despreparadas que estão ditando regras lá. O Mapa torra a paciência da indústria todo dia. Com a desculpa de que tudo é exigência do consumidor, fica ferrando a indústria. No Mapa há um excesso de zelo e gente despreparada, que tem visão de que o empresário é malandro, só quer se dar bem, mas não é assim. Se a indústria errar, afeta a marca da empresa, é a primeira que perde. Nenhum empresário quer isso”, cita. “Infelizmente a realidade é que temos gente sem capacidade técnica determinando as normas da nossa avicultura. Isso requer a participação da indústria, que não é ouvida. A avicultura é um negócio complexo, que começa cinco anos antes, com as bisavós, matrizes, genética, etc. Não dá para ficar ditando regras sem saber do negócio”, sustenta. “Por isso paramos de crescer, especialmente de 2010 pra cá”, justifica.

“O SIF (Serviço de Inspeção Federal) é um problema. Em outros países produtores, como estados Unidos, a qualidade e controle dos produtos ficam a cargo da empresa, no Brasil isso não acontece. Quando você toma um medicamento, quem é que está lá descrito no franco; o responsável técnico, não a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Por que com os alimentos a coisa não é tratada assim?”, questiona o profissional.

Ao tratar a agroindústria como inimiga, deixá-la fora da confecção das leis e regulamentar e fiscalizar em demasia, menciona João Pedro, o Mapa comete um grave erro que resulta em perda da imagem dos processos produtivos e ineficiência.

A patética história de Gumboro

A Doença de Gumboro é uma enfermidade fortemente presente nas produções de aves, gerando enormes prejuízos econômicos com mortalidade e diminuição da eficácia do lote. Por isso, a vacinação das aves é feita na produção industrial, não só no Brasil, mas no mundo todo. João Pedro lembra de um episódio protagonizado pelo Mapa que, segundo ele, demonstra o despreparo da equipe do Ministério.  “Eles estavam negociando com um país, mas esse país só aceitaria se nós não vacinássemos contra Gumboro. O próprio país que exigia isso vacina contra Gumboro. E o Mapa estava aceitando essas condições”, lembra com indignação. “Falta conhecimento”, lamenta o profissional da indústria.

Para ele, esse tipo de situação demonstra a incapacidade, inclusive, de fechar acordos internacionais de comércio. “O Mapa alega que tudo é exigência do consumidor e do mercado externo, mas esse tudo é mal negociado. Nossos acordos internacionais, por exemplo, têm poucas pessoas da produção envolvidos. O negociador internacional não entende como funciona o processo”, sustenta.

Que pepelão

O profissional cita que no Brasil, quando a carne para linguiça vai de uma planta industrial a outra, por tubulação, para ser finalizada, é embalada em invólucros plásticos para percorrer o caminho. Isso gera custos e mão de obra para higienizar os materiais. É uma norma do Mapa o transporte em embalagens desse tipo. “Nos Estados Unidos, maior produtor mundial de frango, esse transporte é feito em embalagens de papelão. Isso é muito mais eficiente e seguro. Mas aqui no Brasil não pode. Então eu te pergunto. Quando você compra uma pizza, onde ela vem? Numa caixa de papelão. Qual o risco disso?”.

“Esse tipo de situação é só mais um exemplo de como produzir carne de frango está difícil no Brasil”, lastima o profissional.

Cadê os doentes?

João Pedro cita que é cultural no Brasil o Mapa e outras instituições jogarem contra o setor produtivo. Para exemplificar, ele lembra dos prejuízos enormes que a Operação Carne Fraca trouxe para o setor. “Ficam jogando contra. Cadê os doentes, cadê as pessoas que comeram a carne da operação Carne Fraca e foram parar nos hospitais? Não tem”, enfurece-se.

Pior ainda, segundo João Pedro, é que outro tratamento é dado para outros players mundiais da avicultura. “Quando acontece um problema com a avicultura na Europa, centenas de pessoas vão parar nos hospitais, mas isso tudo bem porque é na Europa. E aqui no Brasil? Nada”, destaca. João Pedro se incomoda muito com essa “demonização” da avicultura brasileira por parte dos órgãos reguladores.

Logística, corrupção e custos

Quando João Pedro toca no assunto logística, fica nítida sua frustração e o medo de perder mercados consumidores em ascensão por perda de competitividade. “A nossa logística é cara e não funciona direito. Tem muito pedágio, rodovias em péssimas condições, pouca rodovia asfaltada, falta hidrovias e ferrovias. Nosso dinheiro foi parar na mão de funcionários públicos, não viraram investimentos. Mesmo assim, somos competitivos. O problema é que tudo isso encarece nossos custos. Quando temos custos baixos, temos facilidade de competir. Mas quando nossos custos se aproximam de outros produtores, o mercado pode se fechar”.

Um dado repassado pelo profissional é de assustar. De acordo com ele, juntos, a cada trinta dias os caminhões e carretas da empresa onde trabalha rodam o equivalente a 160 voltas ao redor do mundo. “São 164 voltas ao mundo por mês”.

Plantas paradas

O resultado é que muitas plantas industriais estão paradas ou subutilizadas. João Pedro cita pelo menos oito, espalhadas em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “O produtor deixou de alojar muitos lotes, as plantas (empresas) deram férias coletivas, hoje temos cinco frigoríficos parados em Santa Catarina em municípios como Itajaí, Jaraguá do Sul e Chapecó, além de um sexto que está abatendo a metade que abatia há algum tempo. Temos exemplos também em Pelotas, RS, onde uma grande unidade fechou. No Paraná tem planta parada e em São Paulo também, tudo parado”.

Isso tudo, na opinião de João Pedro, tem muita relação com a burocracia. “Por que o Brasil parou de crescer se genética é a mesma de outros países, a nutrição é como em qualquer parte do mundo, temos sanidade, bom manejo. Então o problema não está no campo. Dentro dos frigoríficos, temos as mesmas tecnologias e maquinas que os outros países. Então o problema não é na fábrica. A gente passa mais tempo escrevendo papel, respondendo questionário, isso reduz nossa eficiência. Questões trabalhistas também limitam as empresas de produzir mais. Ele cita uma nova lei, que garante pausas no trabalho que em sua opinião seriam desnecessárias, e sua consequência no abate. “A velocidade de abate, diminui. Em uma unidade nossa, por exemplo, caiu de 150 mil para 130 mil frangos por dia só por causa dessa pausa. Tudo isso aliado a uma tributação elevada”, aponta.

O frango dos outros

O profissional faz um alerta importante: se o Brasil não está ampliando seu mercado no ritmo do crescimento do consumo mundial de carne de frango, outros países estão atendendo essa demanda. “O consumo mundial aumenta ano após ano. Estamos chegando a 8 bilhões de pessoas no mundo. Aumentou o consumo total porque tem mais pessoas e porque temos pessoas com mais dinheiro. Se vai ser nós ou outra parte do mundo que vai ficar com esse mercado, depende do que faremos daqui pra frente. Países como Polônia, Índia e Arábia Saudita estão produzindo frango. Na Arábia Saudita, inclusive, tem uma empresa abatendo 600 milhões e frangos por ano, lá no meio do deserto, por incompetência nossa”, menciona. “Perdemos uma oportunidade de acompanhar o crescimento mundial”, crava.

Por isso, segundo a fonte ouvida na Reportagem, a tendência é de exportar cada vez mais milho e soja, que são a base da nutrição de suínos e aves, para esses países. “Estamos aumentando a exportação de milho. O milho está indo do Brasil para dar de comer para suínos e aves em outros países”, sustenta. “O que gera mais empregos, uma lavoura ou uma agroindústria?”, provoca. “Se a empresa quebrar, onde vão parar os empregos nesse país?”, preocupa-se.

Era para ser o maior

Com mais de 20 anos de experiência no setor, João Pedro revela o ideal que a avicultura brasileira tinha a 11 anos atrás. “Em 2008 falávamos que em 2018 seráamos o maior produtor de frango do mundo, à frente dos Estados Unidos. Para isso, a gente acreditava que hoje estaríamos abatendo 18 milhões de toneladas, mas paramos”.

A entrevista encerra com um apelo de João Pedro ao governo federal. “Acho que estamos começando a entrar no caminho certo, mas precisa muita mudança, principalmente no governo, que tem que trabalhar com a agroindústria. Hoje não somos ouvidos e, o pior, tratados como inimigos, tratados como pessoas que só querem levar vantagem, mas isso não é verdade. A maior parte do nosso trabalho vira distribuição de renda e melhorias socioeconômicas para todos que estão envolvidos no processo. Os Ministérios do Trabalho, da Agricultura e do Meio Ambiente não podem tratar assim as agroindústrias. Isso não é normal”, lamenta-se.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de setembro/outubro de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Tecnologia no campo

Produtores modernizam aviário e colhem resultados já no primeiro lote

Família que optou por adotar novas tecnologias no aviário percebeu diferença de produção logo nos primeiros lotes

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Na última década, o segmento avícola conquistou uma fantástica evolução genética, nutricional e tecnológica no que se refere aos equipamentos disponíveis para aviários. Assim, a ave ampliou sua capacidade de desempenho, foi aumentando o potencial nutricional da alimentação produzida e os equipamentos disponíveis no mercado estão muito mais automatizados, permitindo melhor controle de ambiência.

Por outro lado, as estruturas de muitos aviários permanecem sendo as mesmas de 10 anos atrás ou mais. Diante disso, constata-se uma necessidade latente de modernização dos galpões, já que eles tendem a depreciar, perdendo sua efetividade em vários aspectos que interferem nos resultados dos lotes. Ao longo do tempo, as estruturas tendem a perder suas condições de controle da ambiência (temperatura, umidade relativa, qualidade do ar), o que reflete na sanidade, conforto térmico e consumo de ração.

Uma alternativa para retomar a qualidade da estrutura é realizar a reforma do aviário, atitude adotada pelo produtor integrado da Cooperativa Copagril, Valmor Ademir Escher, em conjunto com a esposa Marli e os filhos Rafael e Fernando. A propriedade da família fica na Linha Ajuricaba, em Marechal Cândido Rondon, PR, onde estão instalados dois aviários: um deles já era no sistema dark house e o outro era modelo convencional. Com a necessidade da reforma aproveitou-se para transformar o convencional também em dark house. Antes  e depois da reforma a mudança é evidente, como o peso médio, que saltou de 3,165 quilos para 3,566 quilos.

Melhorias

A reforma realizada no aviário da propriedade abrangeu várias mudanças nas instalações, com ampliação da quantidade de exaustores, modernização do sistema de nebulização, adequação do sistema de painéis evaporativos, novas cortinas, instalação de inlets, nova fiação elétrica e aumento da quantidade de comedouros e bebedouros. Esse aumento se deve à capacidade maior de alojamento de aves no sistema dark house. No caso da família Escher a estrutura passou a alojar quatro mil aves a mais por lote.

De acordo com Rafael, a decisão de realizar a reforma foi uma decisão relativamente fácil, pois já havia diversas evidências dessa necessidade. “Como nós temos um barracão dark e tínhamos outro convencional era muito evidente a diferença de resultados dos dois, sendo que o dark geralmente tinha os melhores índices. Além disso, o aviário convencional já estava dando muita manutenção e constatamos que estava na hora de promover melhorias”, relata.

Desempenho

O técnico da Copagril, Carlos Magnum Egerts, explica que uma boa estrutura é fundamental para ter bons resultados de lote. “É muito importante oferecer um ambiente de qualidade para as aves para que elas possam expressar o seu potencial genético. Por isso é necessário oferecer conforto para os animais”, ressalta.

Segundo ele, quando a ave está na sua zona de conforto ela consegue direcionar os nutrientes do alimento consumido para manutenção das funções vitais do organismo e para ganho de peso, o que é o ideal. “Quando a ave direciona as quantidades certas para cada necessidade ela não perde desempenho. Já quando o ambiente gera desconforto, seja por frio ou calor, por exemplo, o corpo do animal redireciona a nutrição para atender aquela necessidade extra e acaba perdendo desempenho”, conta Carlos.

Resultados

A melhora no desempenho do lote foi percebida imediatamente no caso da família Escher. Uma comparação simplificada entre o último lote alojado antes da reforma e o primeiro lote após as obras mostra claramente os resultados alcançados.

Conservando a mesma idade (47 dias), os dois lotes apresentaram várias melhorias, como o aumento do ganho de peso das aves e a redução da taxa de conversão alimentar. Além de receber mais pelo lote que teve melhor desempenho, também foi um lote maior, com quatro mil aves a mais. “Bastou fazermos algumas contas para percebermos que somente o fato de podermos alojar mais aves já cobriria o custo do investimento na reforma. E a melhoria de desempenho era algo que queríamos muito alcançar, em termos de conversão alimentar. Hoje temos certeza de que foi uma decisão certa”, sustenta Rafael. Os bons resultados animam os produtores, por isso, em breve a família terá quatro aviários.

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Fonte: Assessoria
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Avicultura Mercado

“Novos” concorrentes da avicultura brasileira tomam crescimento do mercado para si

Segundo especialista, novos mercados estão surgindo e o Brasil precisa competir com esses “novos jogadores”

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Arquivo/OP Rural

O mercado é dinâmico. Ele está sempre em constante mudança e evolução. Por conta disso, é preciso que o setor pecuário esteja atento a estas mudanças e ao que está acontecendo em todo o cenário mundial. Isso porque o mercado muda a partir do que os consumidores pensam a respeito de determinados produtos. Na avicultura, a situação não é diferente e as empresas devem estar atenta a estas mudanças e se aproveitar de cada situação para continuar competitiva. Com mais gente no mundo e pessoas com mais renda, há maior demanda de carnes, um espaço que pode ser ocupado por Brasil ou outros jogadores, como Turquia, Ucrânia e Tailândia.

O consultor doutor Antônio Mário Penz Júnior citou algumas das mudanças que estão acontecendo no cenário mundial atualmente e como elas estão afetando diretamente o consumo e a avicultura em geral. O profissional esteve em Marechal Cândido Rondon, PR, durante o Seminário Anual de Produtores de Aves, realizado pela Cooperativa Copagril, falando sobre o assunto.

Segundo ele, é preciso que o produtor entenda o cenário mundial para saber como lidar com as mudanças que estão acontecendo. Ele explica que atualmente a geração Y, também conhecida como os Millennials, que são as pessoas entre 18 e 34 anos, são quem estão dominando o mundo. “Dados dos Estados Unidos de 2015 mostram que 23% da população norte-americana é formada por millennials. Lá, quase 70% da população ativa atualmente faz parte dessa juventude que não compra carro, que mudou muita coisa, mas que tem poder aquisitivo. É uma sociedade nova que precisamos entender”, afirma.

Apesar disso, Penz diz ser necessário olhar para o outro lado do mundo, que ainda é diferente. “A população da Índia deverá ultrapassar a da China nos próximos anos. Daí vocês acham que o senhor indiano está preocupado com as mesmas coisas que os jovens norte-americanos? Não! Nós, como brasileiros, vamos alimentar os millennials, mas também temos que entender que existe esse povo que precisa se alimentar também”, conta. Ele acrescenta que atualmente no mundo existem quase 1,4 bilhão de pessoas, e mesmo existindo quase seis milhões de vegetarianos, o restante ainda consome aproximadamente dois quilos per capita/ano de carne de frango. “Eles vão comer, porque muitos estão saindo do meio rural para ir para o urbano, deixando de ser produtores para ser consumidores”, explica.

As mudanças no mundo ao longo dos anos foram grandes, afirma Penz. Ele informa que o consumo na África tem aumentado. “Então, os africanos, mesmo com todas as dificuldades financeiras, são grandes consumidores de carne. O consumo de carne é absolutamente impressionante. Eles, assim como em outros países, são aqueles que os millennials não se dão conta de que uma em cada 10 pessoas não tem acesso a comida suficiente”, mostra. O consultor afirma que a África é um local em que não somente a população, como também o consumo irá crescer. “E nessa hora nós estaremos prontos para atendê-los”, diz.

Novo mundo, novas tendências

De acordo com Penz, é importante que o produtor se de conta de algumas “loucuradas” que estão surgindo no mundo. Ele cita algumas, como por exemplo a famosa campanha do Beatle Paul McCartney que em 2009 criou a “Segunda sem carne”. “Isso é basicamente em que todas as segundas-feiras não se come carne. E o que é mais surpreendente é que em alguns locais, como em Porto Alegre, por exemplo, existem pessoas que querem implantar esse projeto em escolas”, comenta.

Outros exemplos citados pelo consultor foi a Nestlé, que é uma grande produtora de alimentos a base de leite, lançou uma linha vegana de hambúrgueres; a JBS também lançou um hambúrguer vegano e a Mantiqueira apresentou um ovo vegano. “É um mundo louco que estamos vivendo, mas que precisamos entender que a população precisa de comida”, diz.

Carne de frango é sustentável

Penz comenta que não está preocupado quanto ao consumo de carne de frango no mundo. Isso, porque os países em desenvolvimento, segundo ele, comerão o dobro de carne. “Porque sabemos que quanto maiores os recursos financeiros, a primeira coisa que acontece é aumentar o consumo de alimentos, principalmente de carne”, afirma. Além disso, o frango tem uma vantagem que outras proteínas não têm: não há restrição religiosa. “O suíno, por exemplo, tem, mas o frango não. Não tem nenhuma restrição que diga que não pode comer carne de frango”, comenta.

Outro detalhe citado por ele é o quanto a avicultura é, muitas vezes, mais sustentável que outras cadeias produtivas. “Várias instituições de pesquisa mostram que para se produzir um quilo de frango são gastos quatro mil litros de água. Esse cálculo vem desde a produção do milho, o gasto com caminhão, eles somam tudo. Então, cada vez que você come um quilo de frango, quatro mil litros de água foram gastos. Mas, se formos comparar, no bovino esse número sobre para 17 mil”, mostra. Então, de acordo com Penz, visto por este ângulo o frango consome pouca água. “Isso também pode ser visto, por exemplo na emissão de CO². O frango gasta muito menos. Então, sob o ponto de vista de preservação do meio ambiente, nós temos condições de dizer que somos pró meio-ambiente. Não podemos ser taxados de destruidores do ambiente, porque não somos”, diz.

Mercado é dinâmico

Quanto ao Brasil, diversas mudanças ocorreram ao longo dos anos, segundo Penz. “A produção da carne brasileira vinha bem até 2011, 2012, depois não aumentou mais. O consumo, a mesma coisa, vinha crescendo até 2011 e depois estagnou”, informa. “Por que parou? Porque até mesmo os mais favorecidos ficaram sem dinheiro”, explica.

O consultor informa que o mercado é dinâmico e é preciso que o Brasil esteja atento a isso. “A Europa briga tanto conosco porque no ano passado eles aumentaram em 6% as exportações. Isso é 1/3 da nossa, por isso eles estão tão desesperados”, diz. Porém, apesar disso, é preciso que o Brasil fique atento porque outros mercados estão surgindo. “A Tailândia aumentou as exportações em 8%, a Turquia em 15% e a Ucrânia aumentou 21%. Ou seja, há novos jogadores nesse mercado”, afirma.

Penz reitera a necessidade de o Brasil estar mais atento quanto a estes novos mercados pelo fato deles estarem de olho nos atuais mercados que são do Brasil. “Por isso, ou matamos a salmonella ou ela nos mata. Eu vou mostrar um caso: a doença da vaca louca aconteceu em 2003 nos Estados Unidos. A doença foi detectada em um animal, não em um milhão; em um. Por conta disso, as exportações de carne bovina deles caíram em mais de um milhão de toneladas. Um animal gerou um milhão de toneladas em prejuízos de exportação. Que, aliás, nunca mais voltou, porque quando os norte-americanos perderam esse espaço, quem ocupou foi o Brasil”, conta.

Outro exemplo citado foi quanto aos casos de Influenza Aviária, também nos EUA. “Os norte-americanos perderam 2% da exportação mundial. Quem pegou? O Brasil. Mas, em 2016 tivemos todos os problemas da Operação Carne Fraca, com salmonella e o que aconteceu? Estes novos jogadores que citei ocuparam esse mercado deixado aberto por nós. Por isso é preciso que nós, avicultores, tenhamos responsabilidade e cuidemos melhor da nossa biosseguridade, que é o nosso maior bem”, aponta.

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Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Saúde Animal

Ação lenta do butirato melhora desempenho de aves jovens e estressadas

Escolha da forma química é muito importante, pois determina o local de liberação e concentração do produto

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito pelo departamento Técnico da Impextraco

As principais características de um intestino saudável são definidas por uma microbiota bem equilibrada, uma imunidade ótima e uma boa função de barreira com perfeita digestão e absorção. O ácido butírico é um ácido graxo de cadeia curta produzido por várias bactérias benéficas presentes no intestino, como por exemplo Clostridial cluster IV e XIVa, ou pode ser adicionado exogenamente à dieta. O uso terapêutico de antibióticos pode alterar a funcionalidade do microbioma e reduzir seriamente a produção de butirato endógeno, dando a oportunidade para que aditivos à base de butirato restaurem o desempenho zootécnico. Na maioria dos casos, o butirato é adicionado na forma de um sal revestido ou na sua forma esterificada.

A escolha da forma química é muito importante, pois determina o local de liberação e concentração do produto. Nos últimos anos, o butirato de cálcio revestido ganhou mais participação de mercado devido à alta concentração e baixa solubilidade (visando todo o trato gastrointestinal). Com o aumento da pressão para reduzir o uso de antibióticos, o butirato, que aumenta a saúde intestinal através dos modos de ação descritos em seguida, está se tornando mais uma vez um tema relevante. No entanto, novas pesquisas têm demonstrado que o local de sua liberação desempenha um papel fundamental na intensidade da resposta do animal, afetando, entre outros fatores, o gradiente de oxigênio e o tempo de retenção da digestão.

Impacto sobre a Salmonella

A adição de ácido butírico ou butirato à ração estimulará a flora benéfica, inibindo os patogênicos, com ação específica contra a Salmonella. Para ser invasiva, as bactérias precisam se aderir às células epiteliais e induzir uma absorção bacteriana. Estas duas ações são reguladas por genes específicos que estão agrupados no genoma da bactéria e localizados na Ilha de Patogenicidade de Salmonella-1 (IPS-1). O butirato tem a capacidade única de infra-regulação do IPS-1, tornando impossível a fixação e invasão da parede intestinal. Como resultado, a Salmonella não será capaz de colonizar o intestino e invadir o organismo, diminuindo a sua transmissão entre as aves do lote.

Barreira intestinal

O ácido butírico desempenha um papel fundamental na manutenção da barreira intestinal: o revestimento epitelial, bem como as junções celulares, a união entre as células epiteliais são promovidas. O crescimento das vilosidades é estimulado por uma ação de duas vias do ácido butírico: a proliferação e diferenciação celular são estimuladas, enquanto que a morte natural das células no topo da vilosidade, também conhecida como apoptose, é inibida. Além disso, o ácido butírico é o combustível metabólico de eleição dos colonócitos. Um revestimento intestinal ideal é a barreira perfeita contra patógenos e toxinas.

Digestão e absorção de nutrientes

A digestão e absorção eficiente de nutrientes é a chave para um ótimo desempenho. A etapa final da digestão de carboidratos e proteínas ocorre bem sobre enterócitos do intestino delgado. As enzimas responsáveis por esse estágio terminal da digestão se ligam à membrana plasmática dos enterócitos, composta de numerosas microvilosidades que se estendem da célula e constituem a “borda estriada”. Portanto, as enzimas incorporadas nessas microvilosidades são denominadas enzimas de borda estriada. Como o butirato estimula o crescimento das vilosidades, essa borda estriada será expandida e a atividade enzimática será aumentada. Além disso, a superfície de absorção será aumentada e os nutrientes serão absorvidos eficientemente.

Imunidade

O butirato tem a capacidade de direcionar o sistema imunológico para um estado de proteção não exacerbado. Sabe-se que o butirato estimula a imunidade específica (adquirida) e impede uma reação excessiva da imunidade inata.  A reação inflamatória em excesso, o que acarreta o consumo adicional de energia e nutrientes, será reduzida, enquanto que a imunidade adquirida, que implica na resposta específica a agentes invasores e à vacinação, será estimulada.

Papel do butirato no gradiente de oxigênio no cólon

Nas células animais, incluindo os colonócitos, a energia é preferencialmente gerada pela respiração celular aeróbica. O oxigênio é transportado para as células epiteliais do intestino pelo sangue para atender a essa demanda. Em contraste com outros tipos de células, os colonócitos utilizam o butirato como principal fonte de energia, enquanto que para a maioria das demais células, utiliza-se a glicose. Durante um processo chamado de β-oxidação, tanto o oxigênio quanto o butirato são consumidos pelos colonócitos para produzir ATP (adenina trifosfato), forma bioativa que fornece energia para processos celulares metabólicos. A natureza se adaptou muito bem a isso, tanto a microflora, produzindo butirato, quanto o animal, consumindo o butirato, co-evoluiu para estabelecer esse metabolismo benéfico nos colonócitos.

Liberação

À medida que a natureza nos conduz ao caminho, aditivos para ração baseados em uma fonte altamente concentrada de butirato de cálcio revestido, podem melhorar consideravelmente a saúde intestinal. A liberação lenta e a entrega precisa de butirato no cólon resultam no efeito desejável de fornecer a energia necessária para os colonócitos e criar um ambiente anaeróbico favorável para promover a microflora produtora de butirato e suprimir a microflora patogênica.

Uma das principais funcionalidades do butirato de cálcio revestido tem como alvo o cólon e sua microflora, fornecendo butirato extra no lúmen do intestino. O modo de ação baseia-se em estimular a β-oxidação de butirato e oxigênio nos colonócitos, criando gradiente de butirato e gradiente de oxigênio. Consequentemente, o extravazamento de oxigênio dos enterócitos para o lúmen do intestino é evitado e, assim, o crescimento de microrganismos patogênicos aeróbicos é evitado. Uma vez no cólon, o oxigênio que entra no trato intestinal através da ração já é consumido pela microflora no intestino delgado. Como resultado, esse ambiente anaeróbio criado no lúmen do intestino estimula bactérias anaeróbicas produtoras de butirato a produzir mais butirato, aumentando esse ciclo positivo de alta concentração de butirato e baixa concentração de oxigênio no lúmen. Ao mesmo tempo, as condições anaeróbicas agem de forma supressiva no desenvolvimento de patógenos, criando um habitat para bactérias benéficas, como bactérias ácido-láticas. Por sua vez, as bactérias ácido-láticas têm a capacidade de produzir compostos antibacterianos eficazes contra patógenos, aumentando ainda mais sua presença benéfica neste biótopo.

Mais vulneráveis

Especialmente em animais jovens ou estressados, estimular um intestino saudável é um desafio. Primeiramente, microrganismos presentes no ambiente entram no animal através da ração  e da água. Apenas uma microflora endógena robusta pode superar o crescimento excessivo de patógenos indesejados que entram por via oral. Além disso, animais jovens em pleno desenvolvimento intestinal têm uma alta necessidade energética e, ao mesmo tempo, estão apenas começando a estabelecer uma microflora produtora de butirato. A adição de uma fonte de butirato exógeno pode auxiliar na construção e restauração do equilíbrio entre a produção de butirato e consumo de oxigênio, quebrando assim o ciclo negativo de liberação de oxigênio no lúmen e desequilíbrio da microflora.

Papel do butirato no aumento do tempo de retenção do trato intestinal

Em um estudo recente em frangos de corte, o aumento da concentração de butirato no trato intestinal resultou em um aumento significativo no tempo de retenção do trato total e uma melhora numérica na digestibilidade de aminoácidos. Com base nesses resultados, há uma relação entre o aumento do butirato sobre o colon e a digestibilidade de aminoácidos.

Conclusão

Uma fonte de butirato revestido de alta qualidade é uma ferramenta valiosa para melhorar o desempenho de animais jovens e estressados, dando suporte para o desenvolvimento do intestino e, assim, melhorando a digestão e absorção de nutrientes. Graças à tecnologia de liberação lenta, a suplementação de butirato de cálcio estimula a microflora e os enterócitos em direção à homeostase intestinal. Isso resulta em uma melhor digestibilidade, melhor desempenho e animais mais saudáveis.

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Fonte: O Presente Rural
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