Avicultura
O impacto dos inibidores de tripsina no desempenho zootécnico e estratégias de mitigação através de nutrição inteligente
A presença de inibidores de tripsina na soja compromete a digestibilidade proteica e o desempenho das aves, exigindo estratégias nutricionais como o uso de proteases exógenas para mitigar seus efeitos e garantir eficiência alimentar na avicultura.

Artigo escrito por Kelen Zavarize, Gerente de Serviços Técnicos da Novus
Os inibidores de tripsina (IT) são fatores antinutricionais presentes na soja e em outras leguminosas, impactando negativamente o desempenho das aves. Os principais desafios na formulação de dietas incluem a variabilidade na concentração desse fator no farelo de soja, que varia conforme as condições de processamento térmico. Os lotes de farelo inadequadamente processados podem conter níveis elevados de IT, reduzindo a disponibilidade de aminoácidos essenciais e afetando a conversão alimentar. Isso exige monitoramento constante das matérias-primas e ajustes nas formulações.
Na avicultura, o impacto desse antinutriente ocorre, principalmente, na redução da digestibilidade das proteínas ao interferirem na atividade da tripsina, uma enzima essencial para a digestão de aminoácidos. Esse efeito resulta em menor ganho de peso e pior conversão alimentar nas aves. Estudos demonstram que para cada 1 mg/g na concentração de IT, a digestibilidade dos aminoácidos reduz em 2% para lisina, 3,7% para metionina e 3,4% para treonina. Essas reduções afetam diretamente a eficiência alimentar e o crescimento das aves.
Outra pesquisa reforça essa relação e avalia a suplementação com proteases como alternativa para mitigar os efeitos negativos dos IT. As aves alimentadas com farelo de soja contendo 4,24 mg/g de IT apresentaram redução na digestibilidade de lisina, metionina e treonina. No entanto, a suplementação com protease melhorou significativamente a digestibilidade desses aminoácidos, aproximando-se dos níveis ideais para melhor desempenho.

Um estudo de 2022 quantificou a perda de desempenho associada ao aumento dos IT na dieta. Os resultados indicam que, para cada 1 mg/g de IT reduz 16,5 g no ganho de peso e aumento de 15 g na conversão alimentar. Esses resultados reforçam a importância do controle dos IT na nutrição de frangos de corte. Dessa forma, estratégias como o processamento térmico adequado da soja e o uso de proteases exógenas podem ser adotadas para mitigar esses impactos negativos.
A definição de níveis seguros de IT na dieta também é um desafio, pois os impactos podem variar conforme a idade das aves e a composição da dieta. O limite máximo recomendado é <3,5 mg/g de IT na soja. O uso de proteases exógenas tem se mostrado eficaz para melhorar a digestibilidade proteica em dietas com níveis moderados de IT, como demonstrado por estudiosos.
Como forma de minimizar os impactos, o avicultor precisa estar atento aos animais na granja, realizando todos os manejos com excelência e observando diariamente a qualidade das fezes das aves que é um ótimo indicativo da integridade intestinal, que é essencial para a absorção eficiente dos nutrientes e para o desempenho zootécnico. A otimização dessa barreira depende de estratégias nutricionais inteligentes, controle da microbiota e manejo adequado.
Como os IT reduzem a digestibilidade proteica, gerando sobrecarga proteica no intestino delgado, favorecem o crescimento de patógenos, como E. coli e Clostridium perfringens, acelerando a taxa de passagem do alimento pelo trato gastrintestinal. Isso resulta em menor eficiência alimentar, pois parte dos aminoácidos e da energia da dieta pode ser excretada sem ser aproveitada pelo animal.
Suplementação com proteases
Um pesquisador demonstrou em um dos seus estudos que a modulação da microbiota intestinal por meio da suplementação com proteases reduziu significativamente a população de E. coli e aumentou a colonização por Lactobacillus no intestino, reduzindo a inflamação intestinal e aumentando a digestibilidade.

Existem diversas tecnologias nutricionais disponíveis para mitigar os efeitos dos IT. As proteases exógenas têm se mostrado coma a ferramenta mais eficaz para compensar a inibição enzimática e melhorar a eficiência alimentar. Seus benefícios incluem a complementação da ação da tripsina, degradação dos IT, maior absorção de aminoácidos essenciais, redução da fermentação proteica indesejada, regulação da taxa de passagem intestinal e melhoria da conversão alimentar e ganho de peso.
Além disso, um teste in vitro de eletroforese de 2025 confirmou que diferentes proteases possuem níveis variados de eficiência na degradação dos IT. Uma enzima do mercado foi capaz de degradar entre 50% e 65% do inibidor de tripsina Bowman-Birk (BBTI), enquanto outras proteases degradaram no máximo 23%. Esses dados reforçam que a escolha da protease tem impacto direto na redução dos IT e consequente melhoria da digestibilidade proteica.
Os IT representam um desafio significativo em termos de nutrição animal, reduzindo a digestibilidade proteica e comprometendo o desempenho das aves. No entanto, estratégias nutricionais como a suplementação com proteases exógenas para degradar os IT presentes na soja, podem mitigar esses impactos. A escolha da tecnologia nutricional adequada é fundamental para otimizar a eficiência alimentar e garantir melhores resultados na produção avícola.
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Avicultura Retrospectiva 2025
Impulsionado por exportações e consumo interno mercado de ovos cresce em 2025
Produção avança, preços atingem picos no primeiro trimestre e embarques ao exterior batem recorde, mesmo com ajustes ao longo do ano e desafios pontuais no mercado internacional.

Em 2025, o mercado de ovos manteve trajetória positiva, com produção e embarques recordes, apesar do caso de gripe aviária em granja comercial, em maio.
Pesquisas do Cepea mostram que as cotações atingiram recordes reais no início do ano; mas, com o aumento da oferta interna ao longo de 2025, passaram a recuar. Ainda assim, o bom ritmo dos embarques ajudou a limitar a baixa interna.
Os preços da proteína iniciaram 2025 abaixo dos praticados em dezembro/24, refletindo a demanda ainda retraída, típica do começo do ano. Em fevereiro, porém, o aumento gradual da procura com o retorno das aulas escolares e a oferta mais limitada elevaram os valores, que atingiram os maiores patamares da série histórica do Cepea. As altas persistiram até março, período em que tradicionalmente a demanda pela proteína é impulsionada pela Quaresma. No entanto, passaram a cair a partir de abril em todas as regiões acompanhadas pelo Cepea, com exceção de agosto.

Foto: Freepik
A produção nacional de ovos para consumo somou 3,04 bilhões de dúzias (de janeiro a setembro/25), volume 6,9% superior ao do mesmo período de 2024 e um recorde, de acordo com o IBGE. No mercado externo, a evolução dos casos de gripe aviária reduziu a oferta de ovos em diversos países.
Nos EUA, um surto significativo levou o país a intensificar as compras da proteína brasileira, cujo volume, entre janeiro e novembro, superou em 825% o total importado no ano anterior.
Segundo a Secex, nos 11 primeiros meses de 2025, os embarques de ovos in natura e processados somaram 38,64 mil toneladas, 109% acima do volume de todo o ano de 2024 e um recorde.
O setor também enfrentou alguns desafios externos. O tarifaço imposto pelo governo norte-americano em agosto reduziu os envios dos ovos aos EUA. Por outro lado, novos mercados foram abertos, como o México. Além disso, a rápida resolução do caso isolado de IAAP permitiu ao Brasil a retomada do seu status sanitário internacional e evidenciou o potencial do País para seguir atendendo as crescentes demandas interna e externa.
Avicultura
Nutrição ganha papel estratégico na imunidade e no controle de doenças na avicultura
Ração deixa de ser apenas fonte de desempenho e passa a atuar como ferramenta biológica, reforçando defesas das aves em um cenário de menor uso de antibióticos.

Por décadas, a nutrição animal foi vista como ferramenta para garantir desempenho, peso e conversão alimentar. Mas, em um cenário de restrição ao uso de antibióticos e pressão crescente por sustentabilidade, a alimentação tem assumido outro papel estratégico na avicultura, que é atuar a favor da imunidade e no controle de patógenos.

Especialista em Imunologia Veterinária e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Breno Castello Branco Beirão: “É possível melhorar como acontecem as defesas se damos alguns nutrientes em momentos específicos. Hoje isso ainda é bastante teórico, pois a ração é fixa dentro de cada empresa, mas há potencial para o futuro” – Foto: Arquivo Pessoal
A ciência vem mostrando que a ração é mais do que combustível, é também um modulador biológico capaz de ajustar o comportamento do sistema imune, tornando as aves mais resistentes a desafios sanitários. Vitaminas, minerais, aminoácidos e aditivos funcionais não apenas nutrem, mas também influenciam como o organismo reage a infecções, inflamações e desequilíbrios intestinais.
O professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Breno Castello Branco Beirão, especialista em Imunologia Veterinária, explica que todos os nutrientes têm papel na modulação do sistema imunológico das aves, alguns de forma mais marcante, como as vitaminas A e D, os aminoácidos triptofano e arginina e os carboidratos.
Esses nutrientes, detalha Beirão, podem mudar de forma significativa a intensidade e a rapidez da resposta imune. “Há aminoácidos especialmente relevantes no controle imune, como glutamina, arginina e triptofano. A alteração deles modifica de maneira importante as defesas”, afirma.
No caso da energia dietética, explica, o essencial é o equilíbrio. “A quantidade total e a velocidade de uso são determinantes. A glicemia elevada constantemente ativa as células imunes, e o uso de fibras pode ajudar a mitigar isso”, menciona.
Mais do que nutrientes
O professor ressalta que a suplementação de vitaminas, minerais e prebióticos pode aprimorar as defesas naturais, mas o ponto-chave é o momento da oferta. “É possível melhorar como acontecem as defesas se damos alguns nutrientes em momentos específicos. Hoje isso ainda é bastante teórico, pois a ração é fixa dentro de cada empresa, mas há potencial para o futuro”, observa.
Na prática, o desafio está na rigidez dos sistemas industriais de alimentação. Cada empresa trabalha com formulações padronizadas, o que limita ajustes pontuais conforme a idade das aves, as condições do lote ou a carga de patógenos. “Talvez estratégias como a nutrição in ovo ou via água possam permitir maior flexibilidade”, expõe Beirão.
Controle de patógenos pelo intestino

As doenças entéricas, como coccidiose e enterites bacterianas, estão entre as principais causas de perdas produtivas. Nesses casos, as estratégias nutricionais buscam suprimir inflamações e, ao mesmo tempo, otimizar a resposta imune, explica o professor. “Sabemos um pouco sobre o uso de aditivos bióticos e nutricionais, mas ainda há espaço para melhorar esse conhecimento. É uma área nova de pesquisa”, salienta.
A ação dos aditivos funcionais, como probióticos, enzimas, óleos essenciais e acidificantes, ocorre em múltiplas frentes. “Eles interagem diretamente com as células imunes e alteram a microbiota intestinal, influenciando a presença de patógenos. Há inúmeros mecanismos, e esses são alguns dos mais conhecidos”, detalha.
Em relação à acidificação intestinal, Beirão observa que, embora muitos microrganismos se tornem resistentes aos ácidos, a técnica ainda provoca mudanças importantes na microbiota, dificultando a colonização por agentes como Salmonella e Escherichia coli.
Imunidade desde cedo
Outro ponto crítico é o início da vida das aves, quando o sistema imune ainda está em formação. “A maturação imune é muito dependente de estímulos nos primeiros momentos da vida. Estímulos com probióticos, leveduras e nutrição que sustente a formação dos tecidos mudam a resposta para toda a vida do animal”, afirma Beirão.
Segundo ele, investir na imunocompetência precoce é um dos caminhos mais promissores para reduzir o uso de antibióticos. “A nutrição pode ajudar, mas não sozinha. É preciso mudar manejo junto. Várias das estratégias que já mencionamos contribuem para isso”, acrescenta.
Avaliar, medir e ajustar
Hoje, nutricionistas contam com ferramentas sofisticadas para monitorar a saúde intestinal das aves. “Já há indicadores tecnificados, como análise de microbioma e permeabilidade intestinal”, menciona o professor, acrescentando: “Contudo, os parâmetros clínicos e zootécnicos ainda são o padrão ouro, embora sejam retrospectivos e não preditivos.”
Mesmo com limitações práticas, a convergência entre nutrição, imunidade e controle sanitário já é uma realidade respaldada pela pesquisa. “Há muitos estudos demonstrando resultados concretos, mas o problema é operacional: como manejar a dieta de uma empresa inteira quando as demandas são localizadas?”, questiona Beirão. A resposta, sugere ele, pode estar em inovações que permitam ajustar a nutrição de forma mais dinâmica e personalizada.
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Avicultura
Avicultura de Santa Catarina reforça liderança e deve fechar 2025 com resultados positivos
Estado amplia produção e receita mantém protagonismo nas exportações de carne de frango e sustenta competitividade mesmo diante de custos elevados e desafios sanitários globais.

A avicultura industrial de Santa Catarina apresentou desempenho positivo em 2025 e reforçou sua posição estratégica no cenário nacional e internacional, mesmo diante de um ambiente econômico adverso e de desafios sanitários enfrentados pelo setor em âmbito global. A avaliação é do diretor executivo da Associação Catarinense de Avicultura (ACAV), Jorge Luiz de Lima, ao analisar os principais indicadores do ano.
O Estado respondeu por 26,3% de todo o volume de carne de frango exportado pelo Brasil e por 22,8% da receita obtida com as vendas externas do produto, números que evidenciam o peso da avicultura catarinense dentro da cadeia avícola brasileira. Enquanto o desempenho nacional foi marcado por produção recorde e leve retração nas exportações, Santa Catarina conseguiu ampliar produção e receita, sustentado pela diversificação de mercados e pela competitividade do setor.

Diretor executivo da Associação Catarinense de Avicultura (ACAV), Jorge Luiz de Lima: “Após o caso de influenza aviária no Rio Grande do Sul, a rápida resposta sanitária, o controle da situação e a reconhecida biosseguridade do sistema produtivo brasileiro permitiram a manutenção e a reabertura de mercados, fator que também beneficiou diretamente Santa Catarina”
Em 2025, a produção catarinense de carne de frango cresceu 2,5% em relação a 2024, acompanhando o movimento nacional, que alcançou cerca de 15,4 milhões de toneladas, alta próxima de 3%. A receita do setor em Santa Catarina avançou 6,3% no mesmo período, resultado que compensou, em parte, o aumento de 6,5% nos custos de produção, pressionados principalmente pela logística. Segundo a ACAV, o cenário foi ainda mais desafiador em função da taxa básica de juros em torno de 15%, considerada um fator adverso para investimentos e capital de giro.
No comércio exterior, Santa Catarina manteve protagonismo. Arábia Saudita, Japão, Países Baixos, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido figuraram entre os principais destinos da carne de frango produzida no Estado. Ao longo do ano, Reino Unido e México se consolidaram como grandes compradores, ampliando a base de mercados e reduzindo riscos comerciais. Esse desempenho ganha relevância quando comparado ao cenário brasileiro, que registrou uma queda aproximada de 2% nas exportações totais, projetadas em cerca de 5,2 milhões de toneladas, em função de embargos temporários impostos após a detecção de um foco de influenza aviária em maio.
Apesar desse revés pontual, o faturamento da avicultura brasileira com exportações superou US$ 5,4 bilhões em 2025, demonstrando a força do setor no mercado global. “Após o caso de influenza aviária no Rio Grande do Sul, a rápida resposta sanitária, o controle da situação e a reconhecida biosseguridade do sistema produtivo brasileiro permitiram a manutenção e a reabertura de mercados, fator que também beneficiou diretamente Santa Catarina”, observou o diretor executivo.
No mercado interno, o consumo permaneceu elevado, impulsionado pelo frango como proteína de menor custo para o consumidor. De acordo com a ACAV, o setor encerrou 2025 com preços estáveis e margens favoráveis, mesmo diante do aumento de custos e das incertezas econômicas. O desempenho catarinense, que concentra pouco mais de um quarto das exportações brasileiras de carne de frango, confirma a relevância do Estado para a avicultura nacional e sustenta perspectivas positivas para 2026, tanto em produção quanto em mercados.



