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O dilema da redução do uso de agrotóxicos

Volume absoluto de agrotóxicos (químicos e biológicos) vai continuar crescendo no Brasil, pois a agricultura do país está em processo de expansão e de intensificação no uso de tecnologias.

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O uso eficiente dos recursos é um dos princípios que norteiam o desenvolvimento agrícola sustentável, que visa equilibrar a produção de alimentos, fibras e energia limpa com a conservação ambiental, a equidade social e a viabilidade econômica.

Em reunião realizada no dia 17/09/24 com os chefes dos Três Poderes para discutir a emergência causada pelo novo recorde de incêndios no país, o presidente Lula discursou contra o “uso em excesso de agrotóxicos”. Como desdobramento das discussões, o Governo Federal lançou em 16/10/24 um plano para retirar de circulação agrotóxicos considerados altamente tóxicos, o Plano Nacional de Redução de Agrotóxicos. O tema, que é polêmico e divide a opinião pública, será normatizado por meio de uma portaria que irá mapear os produtos mais tóxicos e estimular a substituição por bioinsumos.

Nos últimos 40 anos, o Brasil deixou de ser um país importador de alimentos para ser um dos maiores exportadores, alimentando mais de 800 milhões de pessoas no mundo, exportando seus excedentes para mais de 200 países. Portanto, é natural que o país seja um dos maiores consumidores em números absolutos de insumos e tecnologias agrícolas.

A afirmação de que o Brasil importa e usa pesticidas proibidos em outros países é equivocada, pois desconsidera as diferentes razões regulatórias, econômicas e agronômicas de um produto não estar registrado em um determinado país ou bloco econômico, como a União Européia. O fato de um pesticida ser ou não ser registrado na Europa, não determina a sua segurança para a saúde das pessoas ou para o meio ambiente. Em meio a uma guerra de narrativas e pontos de vista diferentes entre o Mapa e o MDA, é necessário desenvolver políticas públicas eficazes para melhoria dos indicadores de sustentabilidade do agro, com base em fatos, dados de pesquisa e na boa ciência, pois a redução do uso de agrotóxicos por área tratada já é uma realidade e a solução não deveria ser tratada de forma ideológica.

Assim como as sementes, os fertilizantes e os bioinsumos, os pesticidas químicos (herbicidas, fungicidas, inseticidas e outros) são insumos agrícolas essenciais para a produção agrícola em escala global, pois são indispensáveis para proteger os cultivos contra o ataque de pragas, doenças e plantas daninhas. Dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) revelam que até 40% da produção agrícola é perdida no mundo devido ao ataque de pragas. Sem os agrotóxicos, as perdas seriam incalculáveis, provocando aumento de preços e colocando em risco a segurança alimentar.

De acordo com o relatório do Ibama, o volume de agrotóxicos comercializados entre 2009 e 2022 cresceu de 306.785 t para 800.652 t de produtos formulados, um aumento de 260% que tem sido alardeado pelos movimentos contrários aos agrotóxicos. No mesmo período, de acordo com o IBGE, a área plantada cresceu 132%. O aumento no volume absoluto de agrotóxicos é compreensível e justificável diante do aumento da adoção de tecnologia no campo, que visa ganhos de produtividade e competitividade na agricultura. De 2022 para 2023 a área tratada com agrotóxicos aumentou 10,5% e o volume de produto aplicado cresceu 9,5%, de acordo com os dados de pesquisa realizada pela Kynetec. Dados do Censo Agropecuário de 2017 constataram que cerca de 1,7 milhão de estabelecimentos rurais (33%) declararam usar agrotóxicos, o que representou um aumento de 12% na proporção quando comparado ao Censo de 2006.

De 2017 para cá, o número de estabelecimentos utilizando agrotóxicos certamente aumentou. Com relação ao número de tratores, que intensifica o uso de insumos, havia quase 1,3 milhão de tratores em 734 mil estabelecimentos agropecuários no Censo de 2017, o que representou um aumento de quase 50% em relação ao Censo de 2006. Esses aumentos materializam o processo de intensificação do uso de tecnologia no Brasil, acompanhando o crescimento da agricultura comercial e de larga escala. Vale destacar que em 2022 o agronegócio respondeu por cerca de 50% das exportações (~US$ 160 bilhões) e representou 26,6% do PIB, além de ser responsável por 20% da força de trabalho no país.

De acordo com os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o custo médio com agrotóxicos na lavoura de soja, cultivo que representa 55% da área tratada, varia entre 20% e 30%, dependendo da região e das condições climáticas. Dentro da porteira, os agricultores buscam continuamente soluções para reduzir seus custos e a complexidade das operações. Ou seja, se fosse possível, não aplicariam agrotóxicos e ainda economizariam água, diesel, tempo e mão-de-obra especializada.

Se o objetivo é reduzir o uso de agrotóxicos, deveríamos analisar as iniciativas que estão sendo mais eficazes e aquelas que não funcionaram satisfatoriamente, entendendo que a redução do uso de insumos por área tratada é um grande desejo dos agricultores.

A redução do uso de agrotóxicos por área tratada já é uma realidade nas fazendas mais tecnificadas. Reduzir os custos com insumos agrícolas representa maior eficiência na gestão e exige conhecimento agronômico, a adoção de soluções inovadoras e um processo de tomada de decisão com base no monitoramento e na análise de dados de campo.

Sem a pretensão de esgotar o assunto, é possível listar pelo menos cinco iniciativas e exemplos concretos que estão contribuindo significativamente para a redução do uso de agrotóxicos por área tratada:

Uso de biotecnologias e de sementes geneticamente avançadas: o ano de 2023 marcou 25 anos da aprovação dos transgênicos. Um estudo realizado pela Agroconsult destaca a redução acumulada na dosagem aplicada de agrotóxicos (incluindo adjuvantes) de 35% para soja, de 16,2% para milho verão, de 16,4% para milho inverno e de 27,5% para algodão.
Novas moléculas, mais seletivas, com ação específica e com perfil toxicológico e ambiental mais amigável: redução na dose média em gramas de ingrediente ativo por hectare (g.i.a./ha), entre os produtos lançados na década de 1970 (1.200 g.i.a/ha) e os produtos atuais (180 g.i.a/ha).
Agricultura de precisão: reduções na aplicação entre 30% e 50%, pois essas tecnologias permitem identificar pragas e doenças de forma mais precisa, aplicando os produtos químicos apenas nas áreas necessárias.

Técnicas de Manejo Integrado de Pragas, Doenças e Plantas Daninhas: o Programa MIP-Soja Paraná, liderado pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR) e a Embrapa Soja, reduziu em 50% o uso de inseticidas para controlar pragas na cultura da soja. Além da soja, o sucesso do MIP para a redução do número de aplicações de agrotóxicos já foi relatado nos cultivos de algodão, café, milho e tomate, dentre outros.

Evolução tecnológica e crescimento do mercado de bioinsumos: O uso de controle biológico com a Cotesia flavipes é um bom exemplo. Trata-se de uma vespa parasitoide que ataca a broca-da-cana (Diatraea saccharalis), que tem se mostrado uma estratégia eficaz para reduzir a necessidade de aplicação de inseticidas químicos em 50 e 70% na cultura da cana-de-açúcar. Vale destacar que o controle biológico é parte integrante do MIP e são vários os casos de sucesso com bioinsumos.
Na contramão das iniciativas que estão dando certo, vale destacar dois episódios recentes que tentaram impor uma agenda regulatória para reduzir o uso de agrotóxicos e falharam:

Sri Lanka: em 2021, o então presidente Gotabaya Rajapaksa implementou uma política de proibição total de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, como parte de um plano para converter a agricultura do país em 100% orgânica. O resultado foi uma queda na produção de alimentos, crise econômica e social, que resultou em grandes protestos contra o governo. Em julho de 2022, o presidente foi forçado a renunciar e fugir do país após meses de manifestações intensas.

União Europeia: em 2019 foi lançado o “Green Deal” (Pacto Verde Europeu). No que diz respeito ao uso de pesticidas, o Pacto incluía a estratégia “Farm to Fork” (Do Campo à Mesa), que visava reduzir em 50% o uso de pesticidas químicos até 2030. Diante de uma onda de protestos em 2024, uma proposta para a regulamentação do uso de pesticidas foi rejeitada, o que foi visto como um revés importante na implementação da estratégia, enfraquecendo os objetivos originais. Estas ações impactaram os resultados das eleições, estabelecendo limites para a onda de populismo verde no velho continente.

A conclusão é que o volume absoluto de agrotóxicos (químicos e biológicos) vai continuar crescendo no Brasil, pois a agricultura do país está em processo de expansão e de intensificação no uso de tecnologias. Produtos mais tóxicos tendem a ser substituídos por outros menos tóxicos, desde que não comprometam a eficácia agronômica e o manejo de resistências. Com relação ao uso de agrotóxicos por área tratada, a tendência é continuar reduzindo, pois os agricultores estão em busca de soluções cada vez mais sustentáveis, visando melhorar a eficiência na gestão das propriedades rurais. A otimização do uso de insumos agrícolas é uma agenda com forte apelo econômico, ambiental e social. Para avançar mais rapidamente, será necessário aperfeiçoar as políticas públicas, criando incentivos e aumentando os investimentos em educação profissionalizante e em assistência técnica. A solução passa longe dos movimentos ideológicos e protecionistas que vivem tentando impor barreiras e restrições de ordem regulatória ao agro brasileiro.

Fonte: Por Roberto Araújo, Engenheiro agrônomo, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), mestre em Agronegócios e pós-graduado em Engenharia de Irrigação e Proteção de Plantas

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O agro que não cabe no estereótipo

Produzir em escala global exige método, previsibilidade e estratégia, atributos que colocam o Brasil em um patamar já distante da ideia de setor “em desenvolvimento”.

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Há uma diferença fundamental entre produzir muito e produzir de forma estruturada. O Brasil atravessou essa fronteira e isso muda tudo.

Ser o terceiro maior exportador de carne suína, o maior produtor e exportador de carne bovina do planeta e o maior exportador mundial de carne de frango, não é uma coleção de medalhas. É a evidência de que o agro brasileiro deixou – há tempo – de ser um setor “em desenvolvimento” para operar como um sistema maduro, previsível e estratégico no tabuleiro global de alimentos.

Artigo escrito por Giuliano De Luca, jornalista e editor-chefe de O Presente Rural.

Essas posições não se sustentam com discurso. Exigem sanidade rigorosa, rastreabilidade, escala, eficiência logística, genética, nutrição de precisão, indústria integrada e capacidade de cumprir contratos quando o mundo inteiro está comprando – e quando parte dele está em crise. Países que não dominam processos não chegam a esse patamar. Chegam a picos. O Brasil sustenta.

O mesmo raciocínio vale para as lavouras. O país é o maior produtor mundial de soja, figura entre os líderes globais em milho, domina cadeias como açúcar, café, suco de laranja e algodão, e avança em segmentos que raramente entram no debate público, mas dizem muito sobre eficiência: a produção brasileira de ovos, por exemplo, caminha para um consumo médio superior a 300 unidades por habitante ao ano em 2026. Isso não acontece por acaso. Acontece quando há oferta contínua, custo controlado e confiança do consumidor.

O que une todas essas cadeias não é apenas o clima ou a terra. É método. É repetição de desempenho. É um agro que aprendeu a operar sob pressão ambiental, sanitária, econômica e reputacional – muitas vezes simultaneamente.
E aqui surge o paradoxo brasileiro.

Enquanto o país se consolida como um dos maiores provedores de alimentos do mundo, parte do debate interno ainda trata o agro como se fosse uma atividade rudimentar, predatória por definição, incompatível com ciência ou sustentabilidade. Essa narrativa não vive apenas nas redes sociais. Ela aparece em discursos acadêmicos simplificados, em livros didáticos desatualizados e em análises urbanas que observam o campo à distância, com visões míopes que já não explicam a realidade.

Não se trata de negar conflitos, impactos ou desafios. O agro brasileiro tem problemas. Mas reduzi-lo a caricaturas é intelectualmente pobre e estrategicamente perigoso. Um país que não compreende o seu principal sistema produtivo caminha para decisões ruins, políticas frágeis e debates estéreis.

Sem o agro, o Brasil não seria apenas menos competitivo. Seria menos relevante. Menos soberano. Menos capaz de alimentar a própria população a preços acessíveis. Menos preparado para responder às crises globais que, cedo ou tarde, sempre chegam.

O agro moderno não pede aplauso. Pede compreensão. Não busca unanimidade. Busca racionalidade. Ele não é perfeito, mas é, hoje, um dos raros setores nacionais capazes de transformar conhecimento em escala, eficiência em constância e produção em poder geopolítico.

Os números recentes não são um ponto de chegada. São um aviso: o Brasil já opera em outro patamar. A pergunta que fica não é se o agro avançou. É se o debate público vai conseguir alcançá-lo.

A pergunta que fica não é se o agro avançou. É se o debate público vai conseguir alcançá-lo

Fonte: Artigo escrito por Giuliano De Luca, jornalista e editor-chefe de O Presente Rural.
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Bovinos / Grãos / Máquinas

Volatilidade expõe limites do curto prazo no mercado do leite

Alta oscilação de preços e assimetrias de informação reforçam a importância de dados confiáveis para decisões de produtores e indústrias.

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O sistema agroindustrial (SAG) do leite vive um momento de transformação. A evolução do ambiente institucional (incluindo definições de padrões de qualidade em Instruções Normativas), o aumento da intensificação, da escala, da produtividade e da qualidade da base produtiva, e o contínuo processo de concentração nos segmentos produtivo e industrial têm alterado a estrutura do SAG, os padrões de concorrência e as estratégias dos agentes para lidar com as crescentes incertezas do mercado.

Em minha tese de doutorado, abordo a influência das incertezas na comercialização do leite cru e observo que elas estão relacionadas, sobretudo, às dificuldades dos agentes em avaliar (a) seu desempenho frente a concorrentes e fornecedores e (b) as flutuações de oferta e demanda, o que, por sua vez, se traduz em elevada volatilidade dos preços do leite cru. Esse contexto cria barreiras ao estabelecimento de relações de longo prazo entre produtores, cooperativas e indústrias, reduz o alinhamento entre agentes e eleva os custos de transação.

Artigo escrito por Natália Grigol, pesquisadora da Equipe Leite do Cepea.

Diante disso, o setor tende a se organizar segundo uma lógica predominantemente de curto prazo, como forma de adaptação a mudanças imprevisíveis. Adota-se, assim, flexibilidade elevada nas relações comerciais e nos fatores de produção — o que, por um lado, permite resposta rápida a choques, mas, por outro, limita a coordenação entre segmentos, os ganhos de eficiência e a inovação no longo prazo. Em outras palavras, o setor lácteo brasileiro demonstra resiliência imediata, mas baixa capacidade de transformação estrutural, o que restringe sua evolução diante de incertezas prolongadas e mudanças de mercado.

Para reverter esse quadro, é necessário focar na mitigação da incerteza. E isso ocorre quando fatores geradores de incerteza passam a ser monitorados e mensurados, convertendo-se em informação. É o acesso dos agentes do SAG a informações de mercado que transforma a incerteza em risco — e o risco, ao contrário da incerteza, pode ser gerenciado.

Nesse sentido, a problemática setorial pode ser sintetizada pela elevada volatilidade das cotações, pela ausência de mecanismos eficientes de proteção e de gestão de riscos na comercialização e, portanto, pela necessidade de informações estratégicas e confiáveis que reduzam a incerteza na tomada de decisão, especialmente no que se refere à comercialização do leite cru e dos derivados lácteos. Em ambientes de alta volatilidade, referências comuns reduzem custos de negociação, organizam expectativas e ampliam a previsibilidade operacional.

A produção e a difusão de informação econômica confiável são, portanto, condição necessária para fortalecer a resiliência do SAG e viabilizar mecanismos mais sofisticados de governança e gestão de risco, como instrumentos de hedge e contratos futuros, por exemplo. No entanto, a eficácia desses mecanismos depende de um ecossistema institucional sólido: geração contínua de dados, transparência metodológica, educação de mercado e confiança entre os agentes.

É nesse ponto que se ancora a missão do Cepea — Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada [1]: elaborar séries históricas e indicadores de preços, contribuindo, assim, para reduzir assimetrias de informação, apoiar a tomada de decisão e favorecer a coordenação dos agentes do SAG no curto e no longo prazo.

Um indicador de preços tem como objetivo refletir o preço médio das transações observadas, capturando o comportamento competitivo dos preços — isto é, o preço efetivamente praticado no mercado. Por definição, sintetiza transações já realizadas (negócios efetivados), e não projeções ou referências futuras. Por isso, trata-se de instrumento estratégico em um contexto de incerteza: não apenas reporta cotações, mas amplia a capacidade de decisão e de planejamento dos agentes. Essas informações permitem mensurar desempenho, inferir condições de oferta e demanda e avaliar os impactos de diferentes estratégias de produção e comercialização. Ao se munirem de informação, os agentes compreendem melhor o cenário corrente e se preparam para cenários futuros, reforçando a resiliência no curto prazo e a capacidade de adaptação no longo prazo.

O Cepea conduz pesquisas em 32 cadeias agropecuárias e, no caso do leite, a estrutura de monitoramento abrange indicadores do preço do leite cru pago ao produtor; do leite cru negociado no mercado spot entre laticínios; e de preços de derivados lácteos negociados entre indústrias e canais de distribuição. Esse monitoramento do SAG do leite só é possível porque uma rede de produtores, cooperativas e laticínios compartilha dados com o Centro, de forma voluntária, para a geração das estatísticas. Também é viabilizado pelo apoio institucional e financeiro da OCB e da Viva Lácteos na elaboração de informativos, o que contribui para custear as atividades da equipe.

O indicador do preço do leite ao produtor tem grande impacto no setor, na medida em que a precificação do leite cru, principal matéria-prima dos laticínios, é cercada de incertezas. O preço do leite cru permanece elemento-chave da estratégia das firmas, sejam fazendas ou laticínios: reflete decisões de custo, capacidade produtiva e eficiência operacional, estratégias de diferenciação e segmentação e, também, a própria estrutura de governança.

O indicador do Cepea é calculado mensalmente com metodologia robusta, validada e pública, disponível no site da instituição. Trata-se de uma média ponderada pelo volume, construída a partir de uma rede de colaboradores (produtores, cooperativas e laticínios) que compartilha informações de forma contínua. Para se ter uma dimensão, mensalmente são coletadas mais de 65 mil informações de negócios efetivados, obtidas de forma voluntária junto a mais de 120 agentes do mercado. Esses agentes contribuem com a pesquisa porque recebem, como retorno, informações em prazo diferenciado e porque reconhecem a importância do indicador para o desenvolvimento do setor.

Além da metodologia, a robustez do indicador pode ser apreciada pela abrangência da amostra em termos de volume industrializado monitorado (em comparação com dados do IBGE). Atualmente, o Cepea monitora cerca de 65% do leite industrializado em Minas Gerais — ou seja, a cada 5 litros, aproximadamente 3 estão na amostra. No Rio Grande do Sul, a cobertura é de cerca de 80% — a cada 5 litros, 4 estão na amostra. Em Goiás, a cada 2 litros, 1 está na amostra. Na Bahia, a cada 3 litros, 1 está na amostra. No Paraná e em Santa Catarina, a cada 4 litros, 1 está na amostra. Em São Paulo, a cada 6 litros, 1 está na amostra do Cepea.

Uma forma objetiva de avaliar a representatividade do indicador do preço do leite pago ao produtor em relação ao mercado é observar o grau de correlação [2] entre o preço da matéria-prima (leite ao produtor e leite spot) e indicadores de produtos derivados. Observam-se coeficientes de correlação elevados, sugerindo forte co-movimento entre preços no campo e preços negociados entre indústrias e canais de distribuição. Em outras palavras, correlações altas com derivados e com o leite spot reforçam a aderência do indicador à realidade do mercado, ainda que diferenças de produto e canal impliquem intensidades de co-movimento distintas. Em conjunto, esses elementos ajudam a explicar por que o indicador do preço do leite ao produtor se consolidou como referência nacional e por que indicadores de lácteos (como UHT, leite em pó e muçarela) são acompanhados diária e semanalmente pelos agentes de mercado.

Foto: Arnaldo Alves

Esses aspectos reforçam, também, que a manutenção e o aprimoramento dessas pesquisas são estratégicos para a competitividade do setor lácteo brasileiro, sobretudo no que se refere à evolução das estruturas de governança envolvidas na transação do leite cru entre produtores, cooperativas e laticínios.

A maior parte das negociações ainda ocorre por meio de contratos informais, apoiados sobretudo em mecanismos de confiança e lealdade. Nesses arranjos, o volume a ser entregue tende a ser conhecido (ainda que com flexibilidade), enquanto o preço é ajustado ex post, após avaliação posterior de quantidade e qualidade. Nos últimos anos, porém, observa-se aumento considerável de contratos formais nas negociações com produtores. Esses contratos costumam explicitar mais definições ex ante e, com frequência, adotam preços indexados a indicadores, sobretudo ao indicador do preço do leite ao produtor do Cepea.

Cabe, no entanto, uma distinção importante: o indicador de preços do Cepea é uma referência; não é um mecanismo de formação de preços, nem um instrumento de coordenação comercial entre agentes. Ele reflete os preços praticados no ambiente competitivo de mercado. Seu uso como indexador em contratos é uma decisão dos agentes do setor, normalmente motivada pela necessidade de reduzir incerteza e aumentar previsibilidade, ainda que com alguma defasagem em relação ao momento do mercado (uma vez que a precificação do leite do mês corrente pode se apoiar na cotação de um ou dois meses anteriores).

Foto: Divulgação/OP Rural

Em minha tese de doutorado, entrevistei 33 indústrias de laticínios, que captam quase 24% do leite brasileiro. Entre elas, quase 88% concordam que as informações do Cepea são importantes para avaliar desempenho (comparação de preços recebidos/pagos com a média de mercado), e 72,8% consideram que se tratam de informações relevantes como referência de precificação — seja no balizamento de rodadas de negociação (ancoragem de expectativas e justificativas de repasse), seja na indexação em contratos (fórmulas de reajuste que vinculam o preço ao indicador, com prêmios e descontos por qualidade, volume, logística e serviços).

Ao funcionar como “linguagem comum”, os indicadores de preços do Cepea contribuem para tornar divergências mais objetivas: em vez de discussões baseadas apenas em percepções, os agentes passam a negociar diferenças e ajustes (prêmios, bônus, bonificações e penalizações) em torno de uma referência observável. Passam, também, a avaliar seus negócios em relação à concorrência de modo mais objetivo e podem ajustar expectativas ao acompanhar os mercados de derivados, que são mais dinâmicos do que o de leite cru.

Os indicadores do preço do leite ao produtor e dos derivados lácteos do Cepea são relevantes porque respondem a um problema central do SAG do leite: a incerteza derivada de assimetrias de informação em um mercado volátil. Ao sintetizar transações efetivadas com metodologia pública e ampla rede amostral, essas informações se tornam uma referência objetiva do momento do mercado, sobretudo para avaliação de desempenho. E, mesmo que o indicador não tenha sido desenhado, em sua origem, para indexar transações, ele vem sendo apropriado pelo setor para negociação e indexação de contratos, na ausência de outros mecanismos capazes de gerenciar o risco de comercialização.

Mas há um ponto adicional, talvez mais estrutural: ao longo do tempo, os indicadores do Cepea não apenas retrataram o mercado; ajudaram a moldar seu desenvolvimento, ao oferecer uma base comum de informação que reduz resistências e viabiliza mudanças graduais na governança. Em setores em que o “melhor caminho” só se revela à medida que é trilhado, inovar exige coragem para alterar rotinas e acordos. Porém, mudar sob elevada incerteza é custoso e, muitas vezes, bloqueia a ação coletiva. Ao transformar parte da incerteza em risco mensurável, os indicadores funcionam como bússola: orientam decisões, calibram expectativas e sustentam discussões sobre a evolução de mecanismos de garantia e de gestão de risco na comercialização — exigência que se intensifica com a transformação da base produtiva e dos padrões de concorrência.

Foto: Fernando Dias

Retomo, nesse contexto, o exemplo dos contratos formais: a prática ganhou tração por haver uma referência legítima e compartilhada capaz de diminuir assimetrias, reduzir contestação e tornar as divergências negociáveis. Nesse sentido, o Cepea tem operado como um espaço de convergência e de articulação, no qual agentes heterogêneos (muitas vezes com interesses distintos) aceitam cooperar, compartilhar dados e sustentar um bem informacional coletivo em nome de um objetivo maior: o desenvolvimento do setor.

A consolidação desses indicadores cria uma linguagem comum entre os agentes, fortalece capacidades de gestão, acelera o amadurecimento institucional e assenta o terreno para formas mais coordenadas de comercialização. Tudo isso conduzido com transparência metodológica, por uma instituição neutra e de reconhecida credibilidade, que coloca a ciência e o desenvolvimento do setor como base de sua atuação. Em última instância, a existência e o uso desses indicadores sinalizam que, apesar da fragmentação, o SAG do leite tem amadurecido e buscado construir bases para evoluir.

Muito já foi feito, mas ainda há amplo espaço para avançar na superação dos gargalos que afligem o SAG do leite. Mudar a perspectiva do curto prazo para o longo prazo e elevar eficiência e qualidade exigirá recursos e capital humano, para ampliar o nível de gestão e profissionalização, além de continuidade no financiamento da geração de informações. Vale lembrar que, em países que hoje concorrem conosco no mercado internacional (como Argentina e Uruguai), as instituições que geram informação econômica contam com apoio direto do poder público, seja financeiro, seja na integração de bases de dados. Apesar disso, o Brasil não parte do zero no enfrentamento desse desafio, pois temos organizações sérias como o Cepea que contribuem tecnicamente com a geração de informação, a educação de mercado e a construção de novos instrumentos, oferecendo dados, análises e metodologias de referência.

Fonte: Artigo escrito por Natália Grigol, pesquisadora da Equipe Leite do Cepea.
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Do laboratório ao campo, controle biológico acelera a agricultura de baixo carbono

Tecnologias biológicas ganham escala na produção agrícola, reduzem emissões e reforçam sistemas produtivos mais eficientes, sustentáveis e alinhados às novas regras do mercado de carbono.

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Nos últimos anos, o Brasil vem reafirmando seu papel estratégico da agricultura mundial, não apenas como força produtiva, mas como eixo central de uma agenda ambiental cada vez mais estruturada. A discussão sobre agricultura de baixo carbono deixou de ser prospectiva e passou a refletir práticas que já estão em implementação no campo. Nesse contexto, os bioinsumos se consolidam como parte de um novo modelo produtivo, sustentado pela ciência, pela pesquisa aplicada e pela eficiência agronômica.​

Durante décadas, a lógica predominante da produção agrícola esteve associada à intensificação do uso de insumos químicos, correções rápidas e ganhos imediatos de produtividade. Esse modelo permitiu avanços importantes, mas também evidenciou limites técnicos, ambientais e econômicos.

Artigo escrito por Ana Dulce Botelho, engenheira agrônoma, com mestrado em Produção Vegetal, doutorado e pós-doutorado em Fitopatologia, além de especialização em Bioinsumos.

A evolução do setor passa, agora, por uma abordagem mais sistêmica, que considera o solo como um organismo vivo e o manejo como um processo integrado. É nesse ponto que os bioinsumos, incluindo biodefensivos, biofertilizantes e inoculantes, ganham relevância como ferramentas tecnológicas capazes de conciliar desempenho produtivo e sustentabilidade.​

Mais do que substituir insumos convencionais, os bioinsumos fortalecem os sistemas produtivos ao promover equilíbrio biológico, eficiência no uso de nutrientes e maior resiliência das lavouras. Trata-se de uma abordagem que exige conhecimento, planejamento e acompanhamento técnico, mas que oferece resultados consistentes nos médio e longo prazos. Essa capacidade de gerar efeito cumulativo, melhorar a qualidade do solo e reduzir emissões indiretas de gases de efeito estufa (GEE) coloca o tema no centro da discussão sobre a chamada Lei do Carbono.

É a Lei do Carbono 15.042/2024, elemento decisivo desse movimento, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE) e estabelece as bases do mercado regulado de carbono no país. A lei organiza o ambiente de transação de créditos, distingue o mercado regulado do voluntário e cria instrumentos para valorizar reduções e remoções de emissões.

Embora o agronegócio não esteja, neste primeiro momento, entre os setores obrigatoriamente regulados, o produtor rural passa a operar em um cenário em que o carbono deixa de ser apenas discurso e passa a ser ativo econômico, com regras e potencial de remuneração por serviços ambientais.

A expansão desse mercado acompanha o avanço de políticas públicas voltadas à agricultura de baixo carbono e de programas que estimulam práticas sustentáveis no campo. Esses instrumentos ampliaram o acesso ao crédito, incentivaram a difusão de conhecimento técnico e ofereceram maior previsibilidade para investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Com isso, a produção biológica deixou de ser uma alternativa restrita a nichos e passou a integrar estratégias de gestão agrícola em diferentes escalas.

Nesse contexto, práticas associadas à agricultura de baixo carbono, como o uso intensivo de bioinsumos, o plantio direto, a integração lavoura-pecuária-floresta e a recuperação de pastagens, passam a ser passíveis de mensuração em termos de carbono no solo e redução de emissões. O bioinsumo deixa de ser apenas substituto de um produto químico e passa a integrar sistemas capazes de gerar lastro técnico para projetos de crédito de carbono, à medida que avançam metodologias de medição, relato e verificação (MRV).

Os efeitos dessa mudança são observados tanto nas fazendas quanto nos centros de pesquisa, com avanço na qualificação técnica e aumento dos investimentos em inovação. O controle biológico já está presente em grandes culturas e diferentes regiões, contribuindo para a redução de resíduos químicos, preservação do solo e manejo eficiente de pragas, sem comprometer o equilíbrio do ecossistema. Além dos ganhos ambientais, produtores identificam benefícios econômicos associados à maior estabilidade produtiva.

Nenhuma transformação dessa magnitude se sustenta sem uma base regulatória eficiente. A consolidação de um marco legal específico para os bioinsumos é fundamental para o desenvolvimento do setor. A previsibilidade regulatória impacta prazos, custos e decisões de investimento. Nesse sentido, a nova Lei dos Bioinsumos (Lei nº 15.070/2024) segue em processo de regulamentação, com expectativa de fortalecimento definitivo do mercado a partir de 2026.

À vista disso, o Brasil reúne condições únicas para liderar essa transformação em escala global, apoiado por biodiversidade, capacidade técnica e estrutura de pesquisa. Para consolidar esse protagonismo, é essencial manter investimentos em ciência aplicada, fortalecer o ambiente regulatório e ampliar o diálogo entre pesquisa, produtores e mercado.

Fonte: Artigo escrito por Ana Dulce Botelho, engenheira agrônoma, com mestrado em Produção Vegetal, doutorado e pós-doutorado em Fitopatologia, além de especialização em Bioinsumos.
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