Bovinos / Grãos / Máquinas
Nutrição no período de transição é estratégica para eficiência de vacas e bezerros
Ter atenção em todas as fases de produção do animal e bom manejo nutricional garantem maior produção e lucratividade para o pecuarista
O grande diferencial de vacas saudáveis e produtivas é o bom manejo nutricional. Um importante fator para garantir lucratividade e produção é a correta nutrição das vacas em todas as fases de vida do animal. Fazer o correto acompanhamento e definir estratégias nutricionais são alguns dos fatores que o pecuarista pode se atentar para garantir uma boa produção o ano inteiro. O planejamento nutricional deve ser preciso antes e após o parto.
O médico veterinário Ricardo Rocha explica que a vida produtiva da vaca é dividida em dois períodos, sendo eles o seco, em que a vaca não está em fase produtiva de leite, e o período de lactação, que representa a fase produtiva da vaca. “Podemos dividir o período seco em duas fases de acordo com o nível de exigência nutricional e desafios metabólicos”, explica. De acordo com Rocha, a fase 1 do período seco inicia no momento da secagem da vaca, ou seja, quando encerra a lactação (aproximadamente 60 dias antes da data prevista para o parto) e se estende até os 30 dias que antecedem o parto. “Nesta fase, comumente comete-se um erro no manejo nutricional de vacas leiteiras, pois como os requerimentos e os desafios metabólicos são baixos, muitas vezes por restrição na quantidade e na qualidade de alimentos os animais são mantidos com alimentação abaixo da exigência para esta fase”, comenta.
Fase dois
Ele diz que é verdade que a exigência nesta fase é baixa, no entanto, também é verdade que este é o momento de preparação das vacas para a período de pré-parto imediato. “Sendo assim, a manutenção de um rúmen saudável – adaptado à dieta de lactação – e o atendimento dos requerimentos nutricionais – energia, proteína, minerais, vitaminas – são fundamentais para garantir uma boa formação de colostro e uma lactação futura com bom desempenho”, comenta.
Já fase 2 do período seco, cita o profissional, inicia 30 dias antes da data prevista do parto e tem duração até o evento do parto. “Chamada de período pré-parto imediato, é um dos pontos mais críticos da atividade leiteira, quando a transição da fase não lactante para lactante representa mudanças nas exigências nutricionais, no metabolismo de hormônios, na capacidade que a vaca tem de ingerir alimento e consequentemente na suscetibilidade a doenças”, conta.
Rocha informa que estratégias nutricionais nesta fase envolvem o adensamento de dieta (uso de concentrados) para o atendimento de ingestão de matéria seca, preparação do rúmen e também de alguns componentes da dieta como nível proteico, uso de dietas aniônicas com o objetivo de reduzir a ocorrência, principalmente, de hipocalcemias e assim reduzir os casos de cetose, retenções de placenta, infecção uterinas e desordens do trato digestório, como por exemplo o deslocamento de abomaso. “Alternativas nutricionais para esta fase também envolve a redução do grau de imunossupressão, em especial no que se refere a melhoria nas condições do sistema de defesa antioxidante, diminuindo o impacto negativo do estresse oxidativo que é característico desta fase”, informa.
Lactação
Já para o período de lactação, o médico veterinário conta que a divisão é feita em três fases produtivas, facilitando o atendimento dos requerimentos nutricionais e otimizando os recursos nutricionais da fazenda para cada fase. A fase 1 Rocha explica que tem início no parto e encerramento aos 100 dias de lactação (DEL100). “É a fase de maior exigência nutricional e, especialmente no início, o momento de menor ingestão de matéria seca, ou seja, é necessário o adensamento da dieta nesta fase para conseguirmos atender os requerimentos nutricionais”, diz.
A fase 2, que é dos 100 aos 200 dias de lactação, Rocha conta que é uma fase intermediária em relação à exigência, quando as vacas que tendem a ter permanência de pico de lactação continuam com requerimentos próximos à fase 1. E a fase 3 de lactação são os animais que já entram na fase de declínio de produção, ou seja, requerimento menor, e os ajustes nutricionais para esta fase servem para não haver incremento na condição corporal (não ganhar peso). “Esta separação de fases de lactação é importante juntamente com o controle leiteiro (saber a produção das vacas), controle reprodutivo (conhecer o DEL – dias em lactação) para definir a formação dos lotes de produção”, diz.
De acordo com o profissional, esta estratégia de manejo nutricional é uma das mais relevantes em uma fazenda de leite, já que possibilita o ajuste de dieta para os diferentes níveis produtivos, atendendo assim o requerimento nutricional e otimizando os recursos alimentares e financeiros.
Não errar no suplemento
Quando se fala em suplementos na ração animal, Rocha alerta que é importante ter bem claro o significado das palavras suplemento e aditivo. “Ambas têm por objetivo atender e/ou suprir alguma falta que a dieta básica não está atendendo. Muitas vezes os suplementos e os aditivos são confundidos como substitutos de ingredientes de uma dieta e assim o efeito desejável destas substâncias não ocorrer é muito alto e por vezes condenando a tecnologia. Um exemplo disso é o uso de tamponantes exógenos da dieta de vacas em lactação”, comenta.
O médico veterinário diz que pela evolução do nível produtivo das vacas leiteiras e consequentemente nos requerimentos nutricionais e necessidade de adensamento de dieta, o uso de tamponantes e estabilizantes em um “cardápio” é indispensável para atender em torno de 10% da capacidade tamponante em um rúmen. Porém, o profissional alerta que se não houver uma análise criteriosa do estímulo de ruminação que representa 80% da capacidade tamponante (CNF, amido, FDN e terceira refeição) não se pode esperar do suplemento/aditivo uma ação milagrosa. “Mas, infelizmente, é o que se busca muitas vezes, um pó milagroso e não ajustar as condições nutricionais básicas para uma vaca”, afirma.
Rocha cita que outros aditivos e suplementos podem gerar um efeito benéfico para a vaca como também para o consumidor. “Exemplo disso é o uso de um adsorvente de micotoxina que melhora condição de saúde geral da vaca em função na inibição do efeito das micotoxinas no organismo (imunossupressão, problemas reprodutivos, etc.) e reduzem a eliminação de micotoxinas através do leite”, conta.
Além do mais, o aumento de saúde para a vaca pode vir através do uso de suplementos e aditivos que melhoram a absorção de minerais (sistema de proteção de micro minerais), pela presença de blend de antioxidantes, reduzindo assim efeitos nocivos dos radicais livres de imuno moduladores, com o AGCM – ácidos graxos de cadeia média, levedura, etc., explica. “Algumas vitaminas, como exemplo a biotina (formação de glicose no fígado) e a colina (precursor do VLDL), são importantes para o metabolismo energético, promovendo efeitos benéficos na produção, reprodução e status metabólico”, conta.
Melhor manejo nutricional = mais nutrição
Rocha explica que a nutrição correta associada a um manejo nutricional correto e à interação destes com o ambiente possibilita que o animal expresse seu potencial produtivo. “Muitos fatores estão envolvidos para que se tenha sucesso na lactação de uma vaca de leite. Alguns pontos são extremamente importantes de serem verificados ao se implantar um programa nutricional em uma fazenda de leite”, informa. Entre os pontos citados pelo médico veterinário estão a disponibilidade de água, sendo este um ponto crítico nas fazendas, especialmente naquelas com sistema semi intensivo; o planejamento forrageiro, para garantir que a fazenda tenha alimento para todo o ano, de preferência com sobra; o investimento em um ambiente agradável para a vaca; e definição de um plano nutricional para cada uma das fases produtivas.
Além do mais, o profissional cita que a fase com maior impacto na produção de leite e que merece mais atenção é o período de transição, aquele que compreende os últimos 30 dias de gestação e as três primeiras semanas de lactação. “Uma falha de manejo ou nutricional especialmente no período de pré-parto (fase 2 do período seco) irá influenciar de forma negativa a lactação, ou seja, podemos dizer que uma lactação de sucesso depende de um período pré-parto de sucesso”, comenta.
De acordo com ele, esta afirmação se dá em função de que havendo falhas nesta fase, a ocorrência de doenças é maior – como a retenção de placenta, infecções uterinas, cetose, deslocamento de abomaso, metrites – e consequentemente a produção de leite será inferior. “Os impactos negativos de uma transição de uma vaca gestante para uma vaca lactante envolvem a perda da eficiência reprodutiva de um rebanho, o que resulta em vários problemas como, por exemplo, aumento de DEL e assim diminuição na rentabilidade da atividade em função da redução na produção e perdas na qualidade de leite”, afirma.
Para Rocha, na atividade leiteira, quando se fala em nutrição é preciso fazer o simples bem feito, ou seja, em primeiro lugar atender as condições de exigências nutricionais e de manejo para vacas leiteiras. “A partir disso, existem estratégias nutricionais, chamados de pacotes tecnológicos – suplementos e aditivos – que têm por objetivos possibilitar que as vacas expressem seu potencial produtivo com saúde e garantia de um produto saudável ao consumidor”, aponta.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2018 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


