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Novos inimigos nas lavouras

Fungo das podridões tem atacado plantações de soja no Paraná, levando produtores a roçarem parte da área plantada. Fenômeno que leva ao abortamento de vagens também tem preocupado agricultores

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Chegando perto do período em que a colheita finalmente começará no ano safra 2017/18 na região Oeste do Paraná, agricultores da região têm enfrentado um novo vilão nas lavouras: a antracnose. Apesar de o fungo Colletotrichum truncatum não ser desconhecido para agrônomos e técnicos da área agrícola, um produtor* do interior de Nova Santa Rosa precisou roçar uma área de seis alqueires que foi atingida pelo “fungo das podridões”. “Planto soja há cerca de 20 anos e nunca tinha visto nada parecido. Quando fomos roçar não havia uma única vagem na planta, estava tudo no chão”, relembra. O buraco em meio aos 22 alqueires de soja retrata a perda do custeio desta área plantada e do lucro que o agricultor  teria oriundo da soja que foi atingida pelo fungo – que não dá trégua. Um pouco mais à frente, em outra área cultivada por ele também no município, as plantas já dão os mesmos sinais de apodrecimento e abortamento das vagens na mesma variedade roçada há duas semanas.

Além do agricultor de Nova Santa Rosa, produtores de Palotina, Marechal Cândido Rondon, em localidades como Lira e Linha Ajuricaba, e na divisa entre Quatro Pontes com Novo Sarandi, também têm relatado grandes perdas de plantas por conta da ação do fungo. Entretanto, o engenheiro agrônomo Cristiano da Cunha explica que há outros pontos espalhados pela região em que as lavouras têm incidência menor, de 20% a 30% da área plantada. “Na soja é possível perceber nitidamente que o ataque do fungo Colletotrichum truncatum é na vagem. Ela apodrece e cai da planta”, ressalta.

Danos Diferentes

Entretanto, neste ano-safra há outra situação que está tirando o sono de agricultores: o abortamento das vagens. Cunha pontua que neste caso nem a lavoura nem plantas específicas apresentam sinais de doença e as perdas podem chegar a 100% da área. “A planta derruba totalmente as vagens ou acima de 90% e isso está relacionado a um distúrbio fisiológico da planta causado por algum fator do meio ambiente, como excesso de chuva ou falta de luminosidade, que causa esse distúrbio fisiológico natural da planta”, ressalta. Ele pontua que cada material genético corresponde de alguma maneira ao fator ambiente. “Em algumas áreas está ocorrendo de 30% a 50% de queda de vagens. Depende do material genético, da variedade que o agricultor plantou se comporta de forma diferente de uma lavoura para outra”, explicita.

O engenheiro agrônomo pontua que é importante diferenciar as duas situações porque, no caso do abortamento da vagem, não há sintoma de doença na planta. De um dia para o outro simplesmente a vagem amarela e cai. “Já na antracnose tem sintoma, que é o apodrecimento a olho nu com queda da vagem podre”, complementa Cunha.

Em nota técnica divulgada na última quinta-feira (25), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Soja) sinalizou que “de forma generalizada, tal abortamento e deficiente enchimento de grãos têm sido atribuídos ao clima (…) praticamente todas as áreas sojícolas da região Centro-Sul do Brasil permaneceram por vários dias sob chuva e sol encoberto. Porém, nestas mesmas regiões, são comuns as situações de um talhão de soja com problemas nas vagens e a poucos metros de distância, talhões adjacentes com estádios fenológicos semelhantes ao da área prejudicada apresentarem desenvolvimento normal e elevado potencial produtivo. Assim, apenas os fatores climáticos não são suficientes para explicar tal fenômeno/situação”.

O relatório enfatiza que o abortamento anormal de vagens ou o deficiente enchimento dos grãos são pontuais e de distribuição aleatória, com baixa representatividade perante o total de lavouras comerciais. Além disso, a Embrapa Soja estima que “não haverá redução significativa da produção de soja por abortamento e queda de vagens. O que se pode concluir é que não há técnicas que resolvam ou minimizem o problema já estabelecido”, diz a nota técnica.

De onde vem?

A antracnose, conforme salienta Cunha, é um fungo oportunista, ou seja, demanda de uma combinação de fatores para se desenvolver ou causar maior dano as lavouras – como muitas horas de planta molhada, por exemplo, além de alta temperatura. “Como estávamos tendo essa situação, principalmente as lavouras que tiveram crescimento exagerado somado ao fato de que a luminosidade não conseguia chegar às folhas, na parte debaixo das plantas, o fungo conseguiu se desenvolver”, resume.

Muitas vezes, em uma mesma lavoura a primeira linha de plantas não estava atingida pelo fungo enquanto que, no meio da plantação, o problema estava se alastrando, justamente pelo fato de a primeira linha receber ventilação e luminosidade para a secagem das folhas.

Cunha também aponta que o método de defesa da planta é fazer a derrubada da vagem. Naturalmente, a planta é programada para perpetuar a espécie e não para ter alta produtividade. “Se ela tiver que derrubar todas as vagens em detrimento de uma, ela fará isso para deixar uma semente viável para perpetuar sua espécie”, salienta o profissional, assinalando que, quando ocorrem estresses como o registrado neste ano-safra, normalmente a planta se comporta desta forma.

Manejo

De fácil identificação, a antracnose pode ser detectada a olho nu, entretanto, o controle é mais preventivo do que curativo. Quando a doença aparece, diz Cunha, é porque o produtor já falhou no controle. “Se atinge uma menor parte ainda há outra possibilidade que não roçar toda a área, porque a doença começa na parte debaixo da planta. Quando o agricultor vê sintoma no baixeiro da planta, é possível fazer as aplicações preventivas para curar ou prevenir toda a parte que está para cima”, considera.

Bem como pontuado pelo agrônomo, o agricultor de Nova Santa Rosa percebeu que a soja começou a ser atingida pelo fungo pela parte debaixo. “Acredito que, especialmente porque o plantio foi tardio, a soja cresceu muito, fechou, estava bem viçosa, mas o clima também estava bem fechado: bastante chuva e sem sol para permitir a fotossíntese”, avalia.

Quando notou a queda das vagens, o nova-santa-rosense chamou a assistência técnica para verificar e, após análise, a melhor solução seria a limpeza da área. Ele conta que há outros pontos em que a antracnose e o abortamento de vagens já estão aparecendo, em uma mesma variedade desta área que foi roçada. “Tem lugares que parece normal, outros pontos têm bastante vagem caída e outra área, que é um ciclo superprecoce, uma variedade que não se planta no começo de setembro, então foi plantada na época certa, que está se desenvolvendo bem”, conta o produtor, que emenda: “A nossa preocupação é sempre a ferrugem asiática e agora estamos sendo surpreendidos por esse problema. Estamos seguindo com o manejo nessas áreas, onde a doença ainda não está avançada. Daqueles seis alqueires, provavelmente o seguro deva cobrir, porque é uma área financiada, mas apenas o custeio. O que seria lucro foi perdido”, lamenta.

Cunha ressalta que, nos últimos anos-safra, algumas lavouras da região apresentaram antracnose, porém em porcentagens muito menores, de 1% a 2%, uma severidade normal. “O fungo está presente em nossa região, porém não em um índice tão alarmante quanto neste ano”, pontua.

Além da infecção e o desenvolvimento da doença favorecidos pelas altas umidade e temperatura, o espaçamento no momento do plantio também implica no aparecimento do fungo da podridão, pois tem relação com a aeração da planta. “Quando a planta está muita adensada, tanto planta por metro quanto na linha de plantio, há menor ventilação na lavoura e, consequentemente, a planta não seca, relacionado à questão da umidade”, constata.

O engenheiro agrônomo acredita que a antracnose deve diminuir a produtividade nas áreas atacadas. Já a qualidade pode ter impacto por conta de apodrecimento de grãos. “Pode-se considerar que nessas áreas com maior incidência do fungo, neste ano a antracnose é uma preocupação maior do que a ferrugem”, frisa.

Sementes salvas são risco

O uso de sementes infectadas pelo fungo também pode ser uma das causas para o aparecimento da antracnose. Cunha explica que, para sementes compradas no comércio, as que são fiscalizadas, o problema não ocorre. O que pode acontecer é quando o produtor salva a própria semente colhida em um período chuvoso e o fungo já estava começando a infectar esta semente. “O agricultor salva esta semente, armazena para plantar no próximo ano, mas ela já estava com o fungo, então este também é um agravante”, ressalta.

O profissional pontua que, por outro lado, a doença pode atingir qualquer variedade de sementes fiscalizadas, por isso a antracnose não tem relação com qualquer semente em específico, já que cultivares iguais plantadas no mesmo dia e recebendo a mesma adubação e manejo apresentam o fenômeno, enquanto outras resistiram e continuam normais.

Ferrugem asiática também preocupa

Muito além das duas novas preocupações aos sojicultores em relação a outros anos safra, a terceira situação que já é comum na lavoura é a ferrugem asiática. Conforme Cunha, o fungo Phakopsora pachyrhizi está em praticamente 100% das lavouras, em maior ou menor grau. “Quem conseguiu fazer as aplicações preventivas com produtos eficientes para controlar a ferrugem, a lavoura está muito melhor, mas aqueles que não conseguiram entrar em função da chuva, deixaram de fazer as aplicações ou ainda utilizaram produtos com eficiência mais baixa, estão com mais problemas”, define.

Apesar de áreas com o ataque severo do fungo, há pontos em que a formação do grão já está bastante adiantada, em torno de 80% a 90% do grão pronto. Por isso, o agricultor pode ter apenas 10% de perdas, já que quando a ferrugem terminar de desfolhar a planta a soja já estará pronta para ser colhida. “Entretanto, nas lavouras mais atrasadas o agricultor deve continuar com as aplicações de fungicidas e inseticidas para evitar prejuízos”, conclui Cunha.

*A identidade foi preservada a pedido da fonte.

Fonte: O Presente

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“Outros países usam estratégia ambiental como fator protecionista”, avalia assessor do Mapa

A questão das queimadas na Amazônia e o desmatamento ilegal é a bola da vez que concorrentes estão utilizando para atacar o agronegócio nacional

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Arquivo/OP Rural

Produzir com qualidade e sustentabilidade, em uma quantia considerável, mas sem precisar ocupar um grande espaço tem suas consequências. O Brasil é hoje um dos maiores produtores de alimentos do mundo e cada vez mais vem conquistando mercados. Isso pode incomodar alguns concorrentes, que não estão gostando desse protagonismo verde e amarelo, podendo então utilizar de alguns pretextos para tentar manchar a imagem do Brasil no mercado internacional. A questão das queimadas na Amazônia e o desmatamento ilegal é a bola da vez que concorrentes estão utilizando para atacar o agronegócio nacional.

 Para se ter uma ideia, nos últimos 40 anos a agropecuária brasileira aumentou sua produtividade em 380%, enquanto a área foi somente 30%. “Aqui temos um claro indício de que a nossa produção e produtividade crescem cada vez mais. Se tivéssemos mantido a produção como acontecia nos anos 1980, estimamos que mais de 120 milhões de hectares deveriam ter sido abertos para produção. A medida que aumentamos a nossa produtividade, reduzimos a necessidade de abertura de novas áreas”, explica o assessor de Assuntos Socioambientais no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), João Francisco Adrien Fernandes.

Estes resultados, segundo Fernandes, são decorrentes de toda a tecnologia que o produtor brasileiro utiliza. “O Brasil tem estas tecnologias que chamamos de agricultura tropical brasileira. Nós desenvolvemos uma agricultura adaptada aos trópicos. Assim, temos de fato uma agricultura tropical, que cresce em produtividade. Desenvolvemos tecnologias como a Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF) e a Integração Lavoura Pecuária (ILP) que contribuíram para que o Brasil de fato consiga aumentar a produção, produzir mais na mesma área, sem a necessidade de demandar novos espaços. O Brasil é um dos poucos países do mundo que consegue fazer isso”, afirma.

De acordo com o assessor, esta alta produtividade faz que o Brasil ganhe um destaque em âmbito internacional, fazendo com que receba críticas de concorrentes que não conseguem fazer o mesmo. “Entendemos que boa parte destas críticas ao setor vem dessa preocupação que a nossa agropecuária de fato é muito competitiva. Acho que os outros países usam essa estratégia ambiental como um fator protecionista. Temos que tomar cuidado com isso para que essas questões ambientais não venham a ser utilizadas como um termo de proteção, temos que ficar bastante atentos a isso”, alerta.

Fernandes comenta que no âmbito internacional a questão de o Brasil produzir bastante em um espaço menor de área com sustentabilidade acaba comprometendo outros países na questão de competitividade. “Nós temos feito um trabalho também em termos de comunicação, mostrando que o Brasil e os países consumidores tem muito a ganhar com uma parceria, porque nós podemos suprir o mundo com alimentos de qualidade, seguros, saudáveis e sustentáveis. Mostramos que a ideia de boicotar os produtos brasileiros certamente não é a melhor solução”, conta.

O assessor comenta que as comercializações brasileiras não foram afetadas diretamente, mas tem gerado questionamentos. “Nós somos constantemente questionados a respeitos da nossa sustentabilidade. Então temos que de fato tomar cuidado para que isso não venha de fato a ser utilizado contra nós. Mesmo assim, temos respondido constantemente perguntas de outros países que querem saber se estamos desmatando, ou seja, o questionamento está ocorrendo, mas nós conseguimos responder muito bem. Nós estamos bem cientes da situação, combatendo a ilegalidade, implementando o Código Florestal e separando o joio do trigo, ou seja, o desmatamento legal do ilegal”, afirma.

Brasil é exemplo

De acordo com Fernandes, o Brasil possui uma das legislações mais rígidas e amplas em termos de preservação ambiental, que é o Código Florestal. “Temos a responsabilidade de respeitar, com as regras mais rígidas do mundo e temos avançado muito nessa agenda”, diz. Ele explica que o Mapa tem como desafio o fomento da agricultura às boas práticas agropecuárias, que são com grandes fatores de sustentabilidade. “Temos a agricultura tropical brasileira, que se torna cada vez mais intensiva e sustentável”, comenta.

O assessor informa que entre as responsabilidades do Mapa estão o Plano ABC, de baixa emissão de carbono, e a sustentabilidade. “Temos a competência de fomentar isso, e os resultados têm sido muito positivos”, revela. Segundo ele, nos últimos 10 anos do Plano ABC foram melhorados aproximadamente 35 milhões de hectares. “Ou seja, áreas degradas que passaram a ser áreas de melhor qualidade. Com isso reduzimos a emissão, que melhora a qualidade do solo e assim reduz a necessidade de abertura de novas áreas”, conta. “Nós temos um setor que consegue produzir alimento de forma competitiva e sustentável”, complementa.

Um grande problema que ocorre na região da Amazônia, segundo Fernandes, é o fato da questão fundiária. “A falta da regularização fundiária é um problema para aquela região. Por isso, não conseguimos saber exatamente quem está ocupando aquela região, e assim fazer a lei se aplicar em algumas situações”, expõe. Para ele, isso é um bom indicativo da importância da regularização fundiária e titulação de terras daquele local. “Isso não foi feito no passado e agora estamos com essa questão da regularização fundiária, em que temos uma situação de ilegalidade naquela região. Portanto, fazendo isso, conseguimos separar o que é legal do que é ilegal”, afirma.

Fernandes reitera que é importante deixar claro que essa situação de irregularidade é totalmente minoritária e muito localizada. “Vemos que mais de 90% dos produtores produzem de acordo com a lei. É importante defender que a grande maioria dos produtores rurais brasileiros estão de acordo com a legislação”, expõe. “Essas críticas (externas) não convêm. Vemos pessoas querendo colocar todo mundo no “mesmo balaio”, mas temos que separar, caso contrário não vamos conseguir combater a ilegalidade, punir os infratores e dar benefícios da lei para aqueles que fazem a atividade de forma legalizada”, acentua.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Pecuária

Gestão da informação para um bom sistema de cria

O sucesso de uma fazenda começa com uma cria bem feita e organizada

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Rafael Moreira, médico veterinário e gerente de Produto da Zoetis

A pecuária de corte é caracterizada por três fases bem distintas – cria, recria e engorda. A etapa de cria, responsável pela produção e pela venda de bezerros, foi, durante muito tempo, negligenciada pelo produtor, por sua baixa rentabilidade em relação às outras atividades do ciclo. Felizmente, isso vem mudando.

A partir do momento em que o ciclo completo passa a ser enxergado de maneira holística e o pecuarista entende que obter o maior número de bezerros por vaca acasalada (taxa de natalidade) e no maior peso possível na desmama possibilita uma menor fase de recria e, com isso, que os animais sejam preparados para a etapa final de engorda mais rápido, a cria começa a ser exercida de maneira mais sistematizada. Afinal, quanto mais rápido é esse ciclo, maior é o giro em uma fazenda e menor é o custo fixo por animal comercializado.

O estabelecimento de um período de monta auxiliou o produtor a obter melhor eficiência em seu sistema de cria, já que, além de ajustar as outras atividades de manejo, faz com que o momento de maior oferta de alimentos de qualidade seja também o de maior demanda nutricional por parte dos animais, reduzindo, assim, os custos com suplementação.

O sucesso de uma fazenda começa com uma cria bem feita e organizada. Para isso, planejamento, mensuração e gestão são fatores primordiais. E, aqui, a coleta de informações tem papel fundamental porque é a partir desses dados que o produtor tem condições não só de monitorar se os resultados alcançados estão de acordo com o que foi traçado em seu planejamento como também de tomar decisões. Sem números conhecidos, não é possível controlar ou gerenciar o negócio. Os descartes de animais, por exemplo, sem dados concretos, aconteceriam com base somente em percepções e observações, o que, possivelmente, pode impactar a evolução do rebanho e a perda genética.

No processo de evolução do sistema de cria, algumas tecnologias foram sendo adotadas. A principal delas, sem dúvida, é a IATF (inseminação artificial em tempo fixo) porque, além de auxiliar na organização de todo o sistema, aumenta a capacidade reprodutiva das vacas, principalmente em anestro (período onde não há manifestação de cio), e possibilita o uso de touros geneticamente superiores, melhoradores nos rebanhos.

Claro que nenhuma tecnologia isolada é responsável pela conquista de bons resultados. Assim também é com a IATF, que deve estar sempre associada a outras ações importantes na preparação das fêmeas para a estação de monta, como nutrição adequada, prevenção das principais doenças reprodutivas e de parasitoses. De nada adianta inseminar um lote de vacas magras ou debilitadas, já que estão com a saúde comprometida e não responderão aos trabalhos técnicos (IATF) realizados, e, com isso, o retorno ao investimento será menor.

Existem hoje softwares de fácil acesso e utilização para coleta de dados e gestão. Essa tecnologia é fundamental para a fase de cria e condução da IATF, por exemplo.

Diante desse cenário e de muitas variáveis, é imprescindível que o pecuarista, se baseie em muitas informações, diante de dados coletados de seu rebanho, e saiba utilizá-los para tomada de decisão. Para isso, é preciso que ele trabalhe com conhecimento, serviços técnicos e produtos reconhecidamente eficazes. Só assim conseguirá aproveitar melhor os investimentos, atingir seus objetivos e evoluir em suas operações na pecuária.

Fonte: Assessoria
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Bovinos / Grãos / Máquinas Mercado

Estudo detalha impactos da Covid-19 na cadeia da carne bovina do Brasil

Mesmo com um bom desempenho, as incertezas do ambiente atual levam a tensões que geram desequilíbrios no mercado

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Arquivo/OP Rural

Apesar da pandemia da Covid-19 e seus impactos na economia, as exportações do agronegócio brasileiro não foram afetadas negativamente. Ao contrário, as vendas externas do agronegócio em março de 2020 foram de US$ 9,29 bilhões, 13,3% a mais do que março de 2019, com destaque para a carne bovina, a principal proteína animal exportada pelo Brasil, com vendas externas de US$ 637,81 milhões em março. Entretanto, mesmo com um bom desempenho, as incertezas do ambiente atual vividas pelos agentes econômicos levam a tensões que geram desequilíbrios no mercado, afetando a conduta e o desempenho das empresas e demandando ajustes em toda a cadeia produtiva.

As consequências vão sendo conhecidas no dia a dia, à medida em que a crise vai evoluindo. Buscando contribuir para o debate sobre os impactos, a Embrapa lançou em abril o estudo “Os impactos da Covid-19 para a cadeia produtiva da carne bovina brasileira”, que apresenta um resumo dos acontecimentos, no período de 16 de março a 16 de abril de 2020, daquilo que é ou pode vir a ser vetor de alteração no modus operandi e impactar o desempenho da produção, distribuição e consumo da mencionada cadeia produtiva. Para a captura e análise dos dados e notícias necessárias ao estudo, a Embrapa utilizou ferramentas de Business Intelligence apropriadas para este tipo de trabalho e entrevistas estruturadas com especialistas do setor.

Consumo

Entre os vários fatores que afetam a demanda por carne bovina, os mais importantes são os de ordem econômica, tais como a renda da população, o preço da carne e o preço de proteínas concorrentes. Hoje há no Brasil uma elevação no número de desempregados e uma diminuição da renda dos trabalhadores. Como a carne bovina é elástica à renda, era de se esperar uma redução do consumo interno. Se o consumidor não tem renda, ele passa a selecionar o que consome e aumentar a demanda por proteína de menor valor agregado, como carne de frango e ovos.

Além disso, o isolamento social leva ao fechamento de restaurantes, bares e hotéis, grandes compradores e importantes canais de distribuição de carne bovina, e o consumo passa a depender mais substancialmente do cliente doméstico, que busca preço, praticidade e mix de opções, atributos encontrados na carne de frango.

Uma redução substancial do consumo de carne bovina irá impor ajustes necessários nas escalas de abate das indústrias frigoríficas, visto que o consumo doméstico representa cerca de 80% do mercado total de carne bovina. A cada tonelada de carne bovina que deixa de ser consumida, diminui-se o abate de bovinos em números de cabeças, mantendo-se as exportações constantes. Nesse sentido, o mercado externo pode ser um fator determinante no desempenho do setor em 2020.

A China, maior comprador, retomou as importações de carne bovina em níveis muito superiores ao mesmo período de 2019. Apesar da pandemia, os chineses aumentaram as importações de carne bovina do Brasil para US$ 451,45 milhões (+101,%) em relação ao mesmo período de 2019, uma terça parte do valor exportado em carne bovina pelo Brasil, o que é explicado pelo aumento de plantas frigoríficas habilitadas para exportar para a China. Entretanto, a União Europeia, outro comprador importante para o Brasil, que gerou um déficit de contêineres no mercado e causou uma pressão no setor logístico do Brasil, com uma procura maior por contêineres refrigerados, encarecendo o frete dos compradores.

Por outro lado, no mercado interno, já ocorre a transferência de estoque de restaurantes e atacados para os domicílios, via canais de distribuição que incluem mercados de pequeno e médio porte, supermercados e hipermercados, o que vai exigir um rearranjo das cadeias de suprimento. Provavelmente, haverá canais de distribuição demandando maiores volumes do que antes da pandemia.

Como consequência, esses canais precisam aperfeiçoar suas formas de interagir com o consumidor, com o uso de mercados online. Sendo assim, percebe-se que a eficiência logística vai determinar quem ganha e quem perde espaço no mercado externo e interno. A cadeia produtiva de proteína animal mais eficiente em evitar o desabastecimento é quem irá obter ganhos significativos no momento atual. Quanto aos frigoríficos, diante das incertezas e das mudanças rápidas e acentuadas do consumo, as empresas estão se adaptando, adequando seus portfólios de produtos à nova realidade. Alavancar a venda de enlatados para a União Europeia, bem como o desenvolvimento de linhas de hambúrgueres para food service são iniciativas visíveis.

Espera-se que as maiores indústrias do setor de carne no Brasil, principalmente, aquelas habilitadas a exportar para países asiáticos, normalizem, no curto prazo, as suas escalas de abate. O grande problema está centrado naquelas indústrias que atendem somente o mercado interno e defrontam-se com a retração de consumo já mencionada anteriormente. Os abates nesse período de pandemia foram reduzidos consideravelmente e essas indústrias, atualmente com baixo nível de estoque, só irão às compras se tiverem uma demanda puxada pelo varejo, e por isso algumas plantas frigoríficas entraram em férias coletivas no início de abril, situação que levará a uma queda no desempenho operacional dessas empresas. Com dificuldade de escoar a carne, as plantas frigoríficas limitam o fluxo de compras, forçando a queda nos preços, conforme apresentado no gráfico 01.

Produção

Todo o cenário descrito acima refle­te no setor mais sensível, a produção pecuária. Muitos produtores estão retendo os animais prontos para abate no pasto à espera de uma melhora no preço da arroba. Entretanto, como já mencionado, os próximos meses se­rão cheios de incertezas no mercado, coincidindo com uma época tradicio­nalmente difícil para quem produz, devido às secas no Brasil Central e geadas no Sul, levando a preços mais baixos. Muitos produtores começarão a liquidar os animais terminados nesse período, mesmo com os preços mais baixos, para realizar fluxo de caixa para pagar despesas correntes e re­duzir o custo de manutenção de peso desses animais, num período em que a qualidade das forragens diminui em função da diminuição das chuvas.

Aqueles produtores mais tecnifica­dos, que produzem animais com maior precocidade, tipo exportação, podem sentir menos o impacto da pandemia, pois as indústrias habilitadas a expor­tar estão com seus canais de distri­buição funcionando adequadamente. Já os produtores que não atendem o padrão exigido pelas cadeias de supri­mentos exportadoras irão se defrontar com uma demanda enfraquecida e com uma tendência de preços baixos praticados pelas cadeias de suprimen­tos que atuam somente no mercado interno.

Reflexões para a Cadeia Produtiva da Carne Bovina diante do cenário atual

Mesmo que a pandemia do Coronaví­rus, no que se refere a crise de saúde, seja estimada de curto prazo, não há perspectivas precisas quanto ao tempo de duração da mesma nas atividades econômicas. Entretanto, torna-se de ex­trema importância entender os seus des­dobramentos. A seguir, elenca-se alguns temas que necessitam de maior atenção e de um debate mais aprofundado por parte dos stakeholders envolvidos na ca­deia produtiva da carne bovina brasileira.

Torna-se imperativo entender que esta pandemia colocará no topo do deba­te global a preocupação com a sanidade animal, onde deve-se crescer as exigên­cias e consistência sobre os sistemas de vigilância e controle de doenças que atingem animais e humanos. Esta pode ser uma grande oportunidade para a ca­deia da carne bovina mostrar ao mundo, de forma transparente, como os processos produtivos, tanto no campo como na indústria, são confiáveis.

A preocupação com a segurança alimentar estará ainda mais fortemente pre­sente na agenda global, já que a recessão e os desajustes nas cadeias de suprimen­tos podem causar crise de abastecimento, volatilidade de preços e instabilidade social. Deverão crescer as restrições ao comércio internacional de alimentos, es­pecialmente, de proteína animal, através

de controles rígidos de fronteiras e uma provável preferência por produção local e/ou com indicação de procedência.

É de fundamental importância a cria­ção e fortalecimento dos diálogos entre stakeholders em rede no setor de carne bovina. A integração e coordenação da cadeia neste momento é extremamente necessária e estratégica. Talvez seja um momento oportuno para romper a cul­tura demarcada pela falta de relaciona­mentos sistêmicos e avançar em mode­los colaborativos em rede, já realizado com êxito por países como Austrália, Canadá, China, Estados Unidos, Reino Unido e Uruguai. A Câmara Setorial da Bovinocultura de Corte do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) poderia ser um fórum propício para germinar uma ação nesse sentido.

No que tange a políticas públicas, é im­portante pleitear junto a China a negocia­ção de alguns critérios técnicos quanto a exportação, pois o país asiático continuará sendo o maior comprador de carne bovina. Diante disso, a alteração da bar­reira técnica que impõem idade limite de trinta meses para os animais destinados às exportações viabilizaria a inclusão de muitos sistemas de produção pecuários. Acredita-se, também, ser de extrema relevância a inserção de linha de crédito aos pecuaristas no próximo Plano Safra, não esquecendo, também, da importância de estimular e aperfeiçoar ferramentas de seguro rural para os pecuaristas.

A onda digital irá impactar toda a cadeia produtiva da carne bovina. A maior trans­formação será no processo de distribuição, seja de insumos, gado ou da carne. A relevância da sanidade, qualidade e sus­tentabilidade crescerá via interação digital com o consumidor final. Entretanto, torna-se de fundamental pertinência melhoras no sistema de conectividade no território brasileiro, especialmente, no campo.

Por fim, este documento não teve qualquer pretensão de ser exaustivo, apenas buscou-se, amparado em méto­dos científicos, trazer um panorama atual do que vem acontecendo na cadeia pro­dutiva da carne bovina brasileira nesse curto espaço de tempo vivenciados pela pandemia Covid-19 e, apresentar algu­mas reflexões que possam vir a qualificar os debates sobre o tema pelos gestores públicos e privados nesse momento deli­cado que a sociedade atravessa.

Assinam o estudo Guilherme Cunha Malafaia, pesquisador da Embrapa Gado de Corte e coordenador do Centro de Inteligência da Carne Bovina, Paulo Henrique Nogueira Biscola, pesquisador da Embrapa Gado de Corte/Centro de Inteligência da Carne Bovina, e Fernando Rodrigues Teixeira Dias, pesquisador da Embrapa Pantanal/Centro de Inteligência da Carne Bovina.

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Fonte: O Presente Rural
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