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Novos inimigos nas lavouras

Fungo das podridões tem atacado plantações de soja no Paraná, levando produtores a roçarem parte da área plantada. Fenômeno que leva ao abortamento de vagens também tem preocupado agricultores

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Chegando perto do período em que a colheita finalmente começará no ano safra 2017/18 na região Oeste do Paraná, agricultores da região têm enfrentado um novo vilão nas lavouras: a antracnose. Apesar de o fungo Colletotrichum truncatum não ser desconhecido para agrônomos e técnicos da área agrícola, um produtor* do interior de Nova Santa Rosa precisou roçar uma área de seis alqueires que foi atingida pelo “fungo das podridões”. “Planto soja há cerca de 20 anos e nunca tinha visto nada parecido. Quando fomos roçar não havia uma única vagem na planta, estava tudo no chão”, relembra. O buraco em meio aos 22 alqueires de soja retrata a perda do custeio desta área plantada e do lucro que o agricultor  teria oriundo da soja que foi atingida pelo fungo – que não dá trégua. Um pouco mais à frente, em outra área cultivada por ele também no município, as plantas já dão os mesmos sinais de apodrecimento e abortamento das vagens na mesma variedade roçada há duas semanas.

Além do agricultor de Nova Santa Rosa, produtores de Palotina, Marechal Cândido Rondon, em localidades como Lira e Linha Ajuricaba, e na divisa entre Quatro Pontes com Novo Sarandi, também têm relatado grandes perdas de plantas por conta da ação do fungo. Entretanto, o engenheiro agrônomo Cristiano da Cunha explica que há outros pontos espalhados pela região em que as lavouras têm incidência menor, de 20% a 30% da área plantada. “Na soja é possível perceber nitidamente que o ataque do fungo Colletotrichum truncatum é na vagem. Ela apodrece e cai da planta”, ressalta.

Danos Diferentes

Entretanto, neste ano-safra há outra situação que está tirando o sono de agricultores: o abortamento das vagens. Cunha pontua que neste caso nem a lavoura nem plantas específicas apresentam sinais de doença e as perdas podem chegar a 100% da área. “A planta derruba totalmente as vagens ou acima de 90% e isso está relacionado a um distúrbio fisiológico da planta causado por algum fator do meio ambiente, como excesso de chuva ou falta de luminosidade, que causa esse distúrbio fisiológico natural da planta”, ressalta. Ele pontua que cada material genético corresponde de alguma maneira ao fator ambiente. “Em algumas áreas está ocorrendo de 30% a 50% de queda de vagens. Depende do material genético, da variedade que o agricultor plantou se comporta de forma diferente de uma lavoura para outra”, explicita.

O engenheiro agrônomo pontua que é importante diferenciar as duas situações porque, no caso do abortamento da vagem, não há sintoma de doença na planta. De um dia para o outro simplesmente a vagem amarela e cai. “Já na antracnose tem sintoma, que é o apodrecimento a olho nu com queda da vagem podre”, complementa Cunha.

Em nota técnica divulgada na última quinta-feira (25), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Soja) sinalizou que “de forma generalizada, tal abortamento e deficiente enchimento de grãos têm sido atribuídos ao clima (…) praticamente todas as áreas sojícolas da região Centro-Sul do Brasil permaneceram por vários dias sob chuva e sol encoberto. Porém, nestas mesmas regiões, são comuns as situações de um talhão de soja com problemas nas vagens e a poucos metros de distância, talhões adjacentes com estádios fenológicos semelhantes ao da área prejudicada apresentarem desenvolvimento normal e elevado potencial produtivo. Assim, apenas os fatores climáticos não são suficientes para explicar tal fenômeno/situação”.

O relatório enfatiza que o abortamento anormal de vagens ou o deficiente enchimento dos grãos são pontuais e de distribuição aleatória, com baixa representatividade perante o total de lavouras comerciais. Além disso, a Embrapa Soja estima que “não haverá redução significativa da produção de soja por abortamento e queda de vagens. O que se pode concluir é que não há técnicas que resolvam ou minimizem o problema já estabelecido”, diz a nota técnica.

De onde vem?

A antracnose, conforme salienta Cunha, é um fungo oportunista, ou seja, demanda de uma combinação de fatores para se desenvolver ou causar maior dano as lavouras – como muitas horas de planta molhada, por exemplo, além de alta temperatura. “Como estávamos tendo essa situação, principalmente as lavouras que tiveram crescimento exagerado somado ao fato de que a luminosidade não conseguia chegar às folhas, na parte debaixo das plantas, o fungo conseguiu se desenvolver”, resume.

Muitas vezes, em uma mesma lavoura a primeira linha de plantas não estava atingida pelo fungo enquanto que, no meio da plantação, o problema estava se alastrando, justamente pelo fato de a primeira linha receber ventilação e luminosidade para a secagem das folhas.

Cunha também aponta que o método de defesa da planta é fazer a derrubada da vagem. Naturalmente, a planta é programada para perpetuar a espécie e não para ter alta produtividade. “Se ela tiver que derrubar todas as vagens em detrimento de uma, ela fará isso para deixar uma semente viável para perpetuar sua espécie”, salienta o profissional, assinalando que, quando ocorrem estresses como o registrado neste ano-safra, normalmente a planta se comporta desta forma.

Manejo

De fácil identificação, a antracnose pode ser detectada a olho nu, entretanto, o controle é mais preventivo do que curativo. Quando a doença aparece, diz Cunha, é porque o produtor já falhou no controle. “Se atinge uma menor parte ainda há outra possibilidade que não roçar toda a área, porque a doença começa na parte debaixo da planta. Quando o agricultor vê sintoma no baixeiro da planta, é possível fazer as aplicações preventivas para curar ou prevenir toda a parte que está para cima”, considera.

Bem como pontuado pelo agrônomo, o agricultor de Nova Santa Rosa percebeu que a soja começou a ser atingida pelo fungo pela parte debaixo. “Acredito que, especialmente porque o plantio foi tardio, a soja cresceu muito, fechou, estava bem viçosa, mas o clima também estava bem fechado: bastante chuva e sem sol para permitir a fotossíntese”, avalia.

Quando notou a queda das vagens, o nova-santa-rosense chamou a assistência técnica para verificar e, após análise, a melhor solução seria a limpeza da área. Ele conta que há outros pontos em que a antracnose e o abortamento de vagens já estão aparecendo, em uma mesma variedade desta área que foi roçada. “Tem lugares que parece normal, outros pontos têm bastante vagem caída e outra área, que é um ciclo superprecoce, uma variedade que não se planta no começo de setembro, então foi plantada na época certa, que está se desenvolvendo bem”, conta o produtor, que emenda: “A nossa preocupação é sempre a ferrugem asiática e agora estamos sendo surpreendidos por esse problema. Estamos seguindo com o manejo nessas áreas, onde a doença ainda não está avançada. Daqueles seis alqueires, provavelmente o seguro deva cobrir, porque é uma área financiada, mas apenas o custeio. O que seria lucro foi perdido”, lamenta.

Cunha ressalta que, nos últimos anos-safra, algumas lavouras da região apresentaram antracnose, porém em porcentagens muito menores, de 1% a 2%, uma severidade normal. “O fungo está presente em nossa região, porém não em um índice tão alarmante quanto neste ano”, pontua.

Além da infecção e o desenvolvimento da doença favorecidos pelas altas umidade e temperatura, o espaçamento no momento do plantio também implica no aparecimento do fungo da podridão, pois tem relação com a aeração da planta. “Quando a planta está muita adensada, tanto planta por metro quanto na linha de plantio, há menor ventilação na lavoura e, consequentemente, a planta não seca, relacionado à questão da umidade”, constata.

O engenheiro agrônomo acredita que a antracnose deve diminuir a produtividade nas áreas atacadas. Já a qualidade pode ter impacto por conta de apodrecimento de grãos. “Pode-se considerar que nessas áreas com maior incidência do fungo, neste ano a antracnose é uma preocupação maior do que a ferrugem”, frisa.

Sementes salvas são risco

O uso de sementes infectadas pelo fungo também pode ser uma das causas para o aparecimento da antracnose. Cunha explica que, para sementes compradas no comércio, as que são fiscalizadas, o problema não ocorre. O que pode acontecer é quando o produtor salva a própria semente colhida em um período chuvoso e o fungo já estava começando a infectar esta semente. “O agricultor salva esta semente, armazena para plantar no próximo ano, mas ela já estava com o fungo, então este também é um agravante”, ressalta.

O profissional pontua que, por outro lado, a doença pode atingir qualquer variedade de sementes fiscalizadas, por isso a antracnose não tem relação com qualquer semente em específico, já que cultivares iguais plantadas no mesmo dia e recebendo a mesma adubação e manejo apresentam o fenômeno, enquanto outras resistiram e continuam normais.

Ferrugem asiática também preocupa

Muito além das duas novas preocupações aos sojicultores em relação a outros anos safra, a terceira situação que já é comum na lavoura é a ferrugem asiática. Conforme Cunha, o fungo Phakopsora pachyrhizi está em praticamente 100% das lavouras, em maior ou menor grau. “Quem conseguiu fazer as aplicações preventivas com produtos eficientes para controlar a ferrugem, a lavoura está muito melhor, mas aqueles que não conseguiram entrar em função da chuva, deixaram de fazer as aplicações ou ainda utilizaram produtos com eficiência mais baixa, estão com mais problemas”, define.

Apesar de áreas com o ataque severo do fungo, há pontos em que a formação do grão já está bastante adiantada, em torno de 80% a 90% do grão pronto. Por isso, o agricultor pode ter apenas 10% de perdas, já que quando a ferrugem terminar de desfolhar a planta a soja já estará pronta para ser colhida. “Entretanto, nas lavouras mais atrasadas o agricultor deve continuar com as aplicações de fungicidas e inseticidas para evitar prejuízos”, conclui Cunha.

*A identidade foi preservada a pedido da fonte.

Fonte: O Presente

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira

Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

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A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.

O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta

Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.

Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.

Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem

É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.

Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

 

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.

Ajuste fino, não ruptura

A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.

Fonte: Assessoria Biond Agro
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026

Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

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Fotos: Shutterstock

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.

No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.

O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.

Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.

Padronização da produção

O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.

Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.

Mercados internacionais em expansão

O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.

Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.

Oscilações do mercado

Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.

Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.

Processo de adaptação

Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.

A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.

Gargalos persistem

Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.

A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.

Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.

Dependência do mercado interno

Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.

No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.

Pilares da pecuária

A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.

Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.

Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.

Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.

Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.

Visão de futuro

Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.

Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.

Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.

Fonte: O Presente Rural
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium

Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

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Foto: Edu Rocha

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.

Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.

O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.

Foto: Fernando Goss (bovinos Angus)

“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.

 

Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.

Participação técnica da Embrapa

Foto: Renata Suñe (Holandesas)

A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.

 

A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.

Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.

Fonte: Assessoria Embrapa Pecuária Sul
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