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Bovinos / Grãos / Máquinas Cultivo consorciado de milho

Nova braquiária para ILP permite aumentar lotação de animais em 20%

A prática mantém o solo coberto por mais tempo, proporciona maior umidade com a formação de palha e/ou pasto e contribui consideravelmente na melhoria das condições físicas, químicas e biológicas. Além de proporcionar maior retorno econômico para a sucessão soja-milho safrinha.

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Divulgação/Embrapa

Através da Integração Lavoura-Pecuária (iLP), o cultivo consorciado de milho segunda safra com braquiária tornou-se uma prática comum no Brasil. O sistema foi reconhecido pelo Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) em 2010, porém já era praticado muito antes, dentro das possibilidades e conhecimentos da época.

Entretanto, ao longo dos anos, com os avanços em estudos e pesquisas, a implantação de forrageiras em consórcio com milho safrinha tem se mostrado cada vez mais eficiente, especialmente em tempos de escassez hídrica, em que se aproveitar ao máximo a umidade do solo tornou-se fundamental.

A prática mantém o solo coberto por mais tempo, proporciona maior umidade com a formação de palha e/ou pasto e contribui consideravelmente na melhoria das condições físicas, químicas e biológicas. Além de proporcionar maior retorno econômico para a sucessão soja-milho safrinha.

Dentro desse contexto, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolveu a BRS Integra, uma nova cultivar de Brachiaria ruziziensis específica para integração lavoura-pecuária.

Difusor de tecnologia da Embrapa Gado de Corte, Haroldo Queiroz: “As pessoas que ainda não acreditavam no sistema integração Lavoura-Pecuária (iLP) ou na importância de se ter uma boa cobertura durante o período de seca, perceberam que o vizinho teve mais sucesso” – Fotos: Sandro Mesquita/OP Rural

Segundo Haroldo Queiroz, difusor de tecnologia da Embrapa Gado de Corte, a Integra pode ser instalada na sequência de uma lavoura de soja, para formação de palhada, pastejo ou em consórcio com o milho safrinha. “Após colher o milho o produtor terá uma ótima pastagem para os períodos de seca ou inverno”, menciona.

Uma das características da nova cultivar, de acordo com Queiroz, é a eficiência nutricional por conta das folhas mais largas, o que permite uma lotação 20% maior de animais em comparação a ruziziensis Kenedy. “Ela tem uma produção de folhas em relação a talos, melhor do que ruziziensis já existente no mercado”, explica.

De acordo com Queiroz, a cultivar Integra aumenta a produtividade do rebanho de 12% a 25%. “A massa maior de folhas aumenta a ingestão diária de forragem, fornece mais proteína e favorece a produção de leite”, ressalta.

Recuperação de nutriente

Segundo Queiroz, a cultivar auxilia na recuperação de nutrientes que seriam perdidos, uma vez que a soja utiliza apenas 40% do potássio aplicado no solo para se desenvolver. “As raízes amplas e profundas da Integra recuperam esse nutriente, o trazem para as folhas e quando elas apodrecem o potássio é liberado novamente para a soja.

Raízes profundas da Brachiaria ruziziensis Integra auxilia na recuperação do potássio, um dos nutrientes mais requerido pelas plantas, e que exerce papel fundamental na forma com que elas controlam a entrada de água

Cobertura de solo

Para Queiroz, a estiagem registrada principalmente em parte da região Sul evidenciou a importância da implantação e manejo de forrageiras em consórcio com milho safrinha, sobretudo pelo fato do sistema aumentar a capacidade de retenção de água no solo.

De acordo com ele, a quebra em áreas com o sistema de integração foi 30% menor do que em lavouras com soja “solteira”, ou seja, sem planta de cobertura. “Não é comum termos uma seca como essa, e os produtores que já vinham usando o sistema obtiveram melhores resultados”, salienta Queiroz.

Olhar do produtor

O pecuarista e produtor de silagem Edimar Eleodoro, da cidade de Santo Antônio da Platina, Norte do Paraná, cultiva braquiária e presta serviço de plantio, pulverização e assistência de campo em outros 300 hectares em propriedades da região.

Pecuarista e produtor de silagem, Edimar Eleodoro: “O solo fica compactado quando não tem braquiária, a água escorre, não é absorvida. É muito melhor plantar braquiária do que fazer a descompactação da terra”

Eleodoro planta milho em consórcio com a variedade comum da braquiária ruziziensis em 40 hectares de sua propriedade. “Fazemos a integração para cuidar do solo, mas como temos gado, aproveitamos para soltar os animais no pasto”, relata. Segundo ele, apesar de estar satisfeito com a variedade comum da ruziziensis, afirma que pretende fazer um experimento com a cultivar Integra, principalmente por conta do maior número de animais por área na área de pastejo. “Não dá para ir plantando uma área grande, primeiro temos que ver como vai se adaptar, pois cada região tem características diferentes, como solo, clima e altitude, mas acredito que não teremos problema”, comenta.

Uma das dúvidas do agricultor é se o maior sombreamento da nova cultivar prejudica, ou não, o desenvolvimento da cultura. “A preocupação é que as folhas mais largas abafem o milho”, comenta.

Mas, segundo o difusor de tecnologia da Embrapa, Aroldo Queiroz, os experimentos mostraram que em condições iguais, tanto o milho BRS 3046 instalado com a braquiária, quanto o mesmo milho plantado sem o cultivo da ruziziensis Integra, se desenvolveram igualmente. “A única diferença é o espaçamento. O volume de espiga e a altura da planta são os mesmos em ambas situações”, pontua Aroldo.

Outra dúvida do produtor rural Edimar é sobre a capacidade de enraizamento da nova cultivar, mas segundo o profissional da Embrapa, essa característica é similar à ruziziensis comum.

Outra característica da nova ruziziensis da Embrapa que chamou a atenção do produtor é a alta produção de raízes, que é similar à da cultivar comum.

Segundo ele, essa característica é importante especialmente em razão da estiagem em algumas regiões do país. “Em um ano que chove pouco e fazemos o plantio em uma área de braquiária a diferença é visível. Aquilo que veio de chuva você conseguiu captar e armazenar o máximo possível, e isso reverte lá na frente”, menciona Edimar.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

Fonte: O Presente Rural

Bovinos / Grãos / Máquinas Encadeamento produtivo

Investimento na melhoria genética proporciona evolução na cadeia láctea em Santa Catarina 

Ações de aprimoramento da cadeia láctea fazem parte do Programa Encadeamento Produtivo, que oportuniza conhecimentos e técnicas para melhorar a gestão do empreendimento, a avaliação de oportunidades e a inserção de inovações.

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Foto: Shutterstock

Apresentar os resultados obtidos com o melhoramento genético na bovinocultura leiteira. Com esse objetivo o Sebrae/SC e a Aurora Coop promovem nesta quinta-feira (20), uma missão técnica com visita em duas empresas rurais na região Oeste catarinense. As ações de aprimoramento da cadeia láctea fazem parte do Programa Encadeamento Produtivo, que oportuniza conhecimentos e técnicas para melhorar a gestão do empreendimento, a avaliação de oportunidades e a inserção de inovações.

A programação consiste em visita às 09h45 na propriedade de Laudir Bisolo, localizada na Linha Chapada, interior do município de Arvoredo. Na sequência, no período vespertino, a visita será na empresa rural de Ivonei Nespolo, situada na Linha São Geraldo, no município de Concórdia. A intenção é observar a campo os ganhos genéticos e os benefícios proporcionados a esses produtores associados à Copérdia e que fazem parte do projeto Modelo Genético Aurora Coop (MGA). Por fim, às 16 horas, está previsto encerramento com debate sobre as visitas.

De acordo com o gerente corporativo lácteos da Aurora Coop, Selvino Giesel, essa iniciativa evidenciará o progresso genético obtido a partir de características de interesse econômico (produção, qualidade, volume, percentual de proteína e gordura, redução de contagem de células somáticas) e de conformação do rebanho (animais para a produção de sólidos, mais longevos, mais saudáveis, livres de doenças genéticas e que proporcionam melhor rendimento para a indústria e maior remuneração aos produtores).

Foto: Divulgação/Arquivo OPR

Genética avançada
Em julho de 2014, a Aurora Coop foi pioneira com o levantamento genético pela técnica de genotipagem do gado leiteiro. A tecnologia foi desenvolvida por cientistas de vários países com apoio do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e Universidades do Canadá e EUA. O objetivo foi auxiliar o modelo de seleção genética existente até então, o chamado teste de progênie.

Foram coletadas amostras de 2.500 animais de vários produtores, inicialmente das raças Jersey e Holandesa, para identificar e aferir a situação do patrimônio genético da região, seus pontos fortes e fracos. A análise permitiu conhecer 94 características do genoma dos animais, proporcionando analisar o mapa genético do rebanho, o que inclui informações sobre produção, saúde e conformação. Com base na definição do padrão genético foi desenvolvido o MGA.
O estímulo para a adoção dessa tecnologia foi a constatação de que muitas propriedades apresentavam dificuldades para atender as exigências da Instrução Normativa nº 62 (IN-62) – que estabelece padrões definitivos para a qualidade do leite cru refrigerado –, mesmo com assistência técnica, aperfeiçoamento do manejo, nutrição e outras modalidades de apoio e assistência. Isso porque muitos problemas estavam relacionados à genética, a exemplo de doenças deletérias e imperfeições no composto de úbere, composto de patas e pernas.

Esse investimento proporcionou informações para que os empreendedores rurais pudessem tomar as melhores decisões no uso da genética, atendessem a legislação vigente, maximizassem os ganhos e produzissem um leite de melhor qualidade, com mais sólidos, animais mais saudáveis e com maior longevidade. Além de contribuir para que o empresário rural e a indústria obtivessem melhor rendimento.

E, as ações para melhoramento na cadeia láctea prosseguiram após a genotipagem. Atualmente, são realizados o Controle Leiteiro das Filhas do MGA, Modelo Genético Próprio (MGP), Análise Genômica e Controle Morfométrico das Filhas do MGA. Como resultados obtidos estão a melhoria nos sólidos do leite, diminuição das taxas de doenças genéticas nos animais, correção dos aprumos, sistema mamário e características de estrutura e aumento nos índices de saúde e bem-estar animal.

Encadeamento produtivo

A iniciativa é do Sebrae e da Aurora Coop com o apoio de vários parceiros. Em Santa Catarina com Senar, Sescoop, Sicoob, Cooperalfa, Itaipu, Auriverde, Coolacer, Copérdia, Caslo, Cooper A1, Copercampos e Coopervil. No Rio Grande do Sul, conta com a parceria do Sebrae, Sicredi, Cooperalfa, Cooper A1, Copercampos e Copérdia. No Paraná participam o Sebrae, a Cooperalfa, a Copérdia e a Cocari e, no Mato Grosso do Sul, Sebrae, Cooasgo e Cooperalfa.

Fonte: Assessoria
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Bovinos / Grãos / Máquinas

Economista aponta 12 tendências do setor de leite e derivados até 2030

Panorama revela como os produtores precisam se preparar para um futuro onde a eficiência, a sustentabilidade e a organização serão determinantes para o sucesso da atividade.

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A indústria de leite e derivados está em constante transformação, impulsionada por mudanças demográficas, econômicas e tecnológicas. Para entender as principais tendências que vão moldar este setor até 2030, o Jornal O Presente Rural entrevistou com exclusividade o economista, doutor em Economia Aplicada, pesquisador e assessor da Presidência da Embrapa, Paulo Martins.

Economista, doutor em Economia Aplicada, pesquisador e assessor da Presidência da Embrapa, Paulo Martins: “A demanda por produtos lácteos no Brasil deve continuar crescendo, impulsionada por uma combinação de avanços tecnológicos, mudanças nas preferências dos consumidores e um aumento na renda per capita” – Foto: Arquivo pessoal

O especialista apresenta 12 tendências da pecuária leiteira, abordando desde o crescimento do consumo global e regional até a necessidade de inovação tecnológica e adaptação às demandas dos novos consumidores. Este panorama revela como os produtores precisam se preparar para um futuro onde a eficiência, a sustentabilidade e a organização serão determinantes para o sucesso da atividade. A seguir, vamos explorar em detalhes cada uma dessas tendências, oferecendo uma visão abrangente e estratégica para todos os envolvidos na cadeia produtiva de leite e derivados. Confira!

A primeira tendência é que o consumo de leite vai continuar crescendo no Brasil e no mundo, especialmente na Ásia, em que o consumo antes era baixo devido à falta de hábito e de renda da população. No entanto, essa região, que abriga 51% da população mundial, está se tornando uma grande compradora de leite. Com o crescimento da renda per capita, o consumo de proteína animal, especialmente o leite, que é o mais barato, está aumentando. Apesar dos esforços para aumentar a produção local, a Ásia enfrenta limitações específicas em terras agrícolas e água renovável. Portanto, a demanda por leite nessa região deve ser suprida por importações de outros países. No Brasil, também há uma perspectiva de crescimento contínuo do consumo de leite. Em 1996, o brasileiro consumia, em média, 133 litros por ano, e agora esse número subiu para 170 litros. Isso reflete tanto o crescimento da população quanto o aumento do consumo per capita. À medida que o rendimento melhora, a população tende a consumir mais, e um exemplo disso é o aumento no consumo de queijo, que é uma forma concentrada de consumir leite.

A segunda tendência é a redução no número de produtores, sendo que cada produtor vai passar a ter uma produção cada vez maior. Isso representa um desafio, pois os pequenos produtores vão precisar se esforçar para crescer e, ao mesmo tempo, buscar a integração em cooperativas para aumentar sua capacidade de negociação na compra de insumos e na venda de seus produtos. Essa dinâmica já está em andamento no Brasil há algum tempo, especialmente entre os maiores laticínios.

A terceira tendência observada globalmente é o aumento do número de vacas por propriedade. Não se trata apenas de vacas com maior produtividade, mas de um crescimento real do rebanho. Isso torna mais atraente para os laticínios comprarem leite desses produtores, pois conseguem adquirir maior quantidade de leite em um único local. É preciso estimular os produtores para aumentar seus rebanhos, seja comprando mais animais ou melhorando a reprodução em suas propriedades, para que possam expandir suas operações.

A quarta tendência é a alteração no perfil dos produtores. À primeira vista, parece que nada mudou, já que a produção de leite no Brasil tem se mantido estável nos últimos 10 anos. No entanto, houve uma transformação substancial. Os maiores produtores estão investindo pesado e não falam em crise. Eles aumentaram significativamente a produção porque perceberam que, quanto maior a produção de leite, menor o custo unitário por litro. Isso ocorre devido à diluição dos custos fixos, como construções e manutenção dos animais. Ou seja, estão ampliando seus rebanhos e aumentando a produção para reduzir os custos de produção.

A quinta tendência é a especialização regional da produção de leite. Embora praticamente todo o Brasil produza leite, há uma concentração significativa entre Cascavel e Passo Fundo, abrangendo o Oeste do Paraná até o Rio Grande do Sul, região em que já temos uma “Minas Gerais do leite”. Outras regiões também estão se especializando, como o Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, além do Sudeste, Nordeste e algumas áreas do Norte, que vêm aumentando a sua produção. Essa especialização regional é interessante e tem levado os laticínios a migrar para essas regiões.

Foto: Ari Dias

A sexta tendência diz respeito ao crescimento da cadeia produtiva. A produção vai crescer não em propriedades que se tenha vacas de melhor genética, mas em regiões em a cadeia seja mais organizada fora da fazenda. O sucesso no setor é definido pela colaboração entre instituições, produtores, sindicatos, cooperativas e todos os níveis de governo, especialmente o municipal. A forma como cada comunidade se organiza define o sucesso na produção de leite. Coincidentemente, as regiões onde a produção de leite está crescendo e se tornando mais densa são também aquelas com maior organização social.

A sétima tendência é que o leite não pode mais ser tratado de forma amadora; é um negócio sério. Quem está na atividade precisa pensar como um capitalista, fazendo muitas contas antes de gastar ou investir qualquer quantia. Ao mesmo tempo, é necessário ser audacioso, como todo empresário, equilibrando a cautela financeira com a coragem para inovar. Além disso, é essencial ser um bom administrador e, se possível, participar do trabalho na propriedade para entender melhor os problemas administrativos.

A oitava tendência é a necessidade de medir o desempenho do negócio de forma eficaz. Existem várias maneiras de fazer isso na propriedade, incluindo o uso de aplicativos modernos que facilitam o monitoramento. Contudo, é igualmente importante observar fatores externos, como a variação dos preços. Por exemplo, atualmente o preço do leite está subindo rapidamente. No entanto, é irreal esperar que o preço se mantenha em R$ 3 por litro a longo prazo. Portanto, quando o preço atingir esse valor os produtores não devem se precipitar em fazer investimentos de longo prazo, como comprar vacas, com base em um aumento momentâneo. É preciso ter cautela.

A nona tendência é que, além de medir o desempenho, é fundamental acompanhar os mercados. É importante monitorar os mercados de soja e milho para decidir sobre a alimentação animal, além de estar atento às decisões governamentais. Não basta focar apenas na propriedade; é necessário ter uma visão ampla e olhar para fora dela também.

A décima tendência é que o setor de leite vai continuar operando com margens muito estreitas. Essa é uma característica específica do setor, onde a margem, que é a diferença entre o preço e o custo, é limitada. Com o preço sendo praticamente fixo, os produtores precisarão se esforçar cada vez mais para reduzir seus custos. Isso exige o uso de planilhas de custos planejadas para identificar onde o dinheiro está sendo gasto e encontrar pontos de desperdício. É essencial monitorar e controlar essas áreas, pois as margens no setor de leite são extremamente baixas em todo o mundo.

Foto: Divulgação

A décima primeira tendência é a necessidade de se conectar claramente com o novo perfil de consumidor. Esse consumidor quer saber mais do que apenas se o produto é gostoso; ele quer saber como é produzido, se os animais são bem tratados e se há preocupação com questões ambientais. Para atender a essas demandas, os produtores precisam fazer mudanças importantes, mas não podem fazer isso sozinhos. É necessário o apoio dos laticínios, da pesquisa e da assistência técnica. Estamos entrando em um novo mundo, onde o consumidor está altamente preocupado com a sustentabilidade ambiental, a responsabilidade social e a transparência nos negócios. O setor de leite precisa se adaptar a essa nova realidade, pois essa tendência veio para ficar.

A décima segunda tendência é que o leite hoje não é apenas mais uma commodity; ele exige tecnologia avançada. É o que a gente chama de food truck. É o único produto que, por força de lei, deve obrigatoriamente passar pela indústria antes de chegar ao consumidor, ao contrário de outros produtos que podem ser comercializados diretamente. Portanto, tanto os laticínios quanto as propriedades precisam se tornar cada vez mais digitais, utilizando aplicativos para tomar decisões mais assertivas. É preciso ter mais precisão na tomada de decisões, uma vez que não há mais espaço para decisões baseadas no achismo.

Demanda por produtos lácteos até 2030

A evolução da demanda por produtos lácteos até 2030 será marcada por uma série de fatores, incluindo mudanças nas perspectivas do consumidor e avanços tecnológicos. Segundo Martins, essa questão é central nas tendências observadas atualmente no mercado. “Um dos principais elementos a considerar é a preocupação crescente dos jovens consumidores com a sustentabilidade e a produção do leite. Há estudos internacionais que apontam que o arroto da vaca e dos bezerros causa impacto ambiental. No entanto, pesquisas realizadas pela Embrapa e universidades brasileiras demonstram que a atividade leiteira pode mitigar esses efeitos por meio de práticas inovadoras e sustentáveis, como o sistema de integração lavoura, pecuária e floresta, que é facilitado pelo ambiente tropical brasileiro. Além disso, há esforços contínuos para minimizar a produção de gases no rúmen dos animais, com a introdução de produtos específicos que são importantes para essa redução”, explica o assessor da Presidência da Embrapa.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Martins acredita que, com esses avanços, será possível entregar leite carbono zero de forma mais rápida do que se imagina. “Esse desenvolvimento é essencial para manter o interesse dos jovens consumidores em produtos lácteos. Com o aumento da renda per capita brasileira, que atingiu em média US$ 10 mil, há uma tendência de crescimento no consumo de queijos e outros derivados lácteos, enquanto o consumo de leite fluído se mantém estável”, aponta o economista.

As mudanças nos hábitos alimentares também estão impulsionando a demanda por derivados lácteos. “Os jovens adotam cada vez mais bebidas lácteas, enquanto os adultos continuam a preferir o leite fluído. Atualmente, o consumo de leite no Brasil é de cerca de 170 litros por habitante ao ano, mas há potencial para aumentar esse número para 270 litros nos próximos anos. A indústria láctea tem respondido a essa demanda com novas soluções, como o whey, que é o soro do leite e tem sido amplamente aceito pelos jovens devido aos seus diversos usos industriais e benefícios nutricionais”, afirma o doutor em Economia Aplicada.

Enquanto isso, o consumo de leites vegetais, que teve um crescimento significativo na Europa e nos Estados Unidos, agora está em declínio. No Brasil, esses produtos ainda são caros e atraem um público limitado, principalmente aqueles preocupados com questões ambientais. No entanto, Martins salienta que os leites vegetais não oferecem a mesma qualidade nutricional que o leite natural, sendo compostos por uma mistura de ingredientes que não replicam os benefícios do leite. “A demanda por produtos lácteos no Brasil deve continuar crescendo, impulsionada por uma combinação de avanços tecnológicos, mudanças nas preferências dos consumidores e um aumento na renda per capita. A indústria láctea está bem posicionada para atender a essa demanda, oferecendo produtos sustentáveis ​​e inovadores que atraem tanto os jovens quanto os adultos”, ressalta o profissional.

Evolução do setor de lácteos

As regulamentações e políticas governamentais também vão exercer um papel relevante na evolução do setor de lácteos nos próximos anos, especialmente em termos de segurança alimentar e práticas de bem-estar animal. Martins aponta que muitos produtores ainda não perceberam que as mudanças climáticas não devem ser assunto apenas da política, mas, sobretudo, do setor de produção. “As recentes enchentes no Rio Grande do Sul são um exemplo claro de como os fatores climáticos representam riscos significativos para a atividade leiteira”, salienta.

Foto: Rubens Neiva

A necessidade de conceber novas tecnologias que levem em conta a variabilidade climática é urgente. Universidades, institutos de pesquisa e a Embrapa estão trabalhando para desenvolver essas tecnologias, que não visam apenas a sustentabilidade ambiental, mas também a eficiência e a previsibilidade da produção. No entanto, é fundamental que haja uma política pública robusta para apoiar esses avanços tecnológicos.

O pesquisador é enfático ao afirmar que as políticas públicas devem focar na criação de seguros que protejam os produtores dos impactos climáticos extremos. Martins aponta que é fundamental que o Brasil reconheça a realidade das mudanças climáticas e implemente políticas que incentivem boas práticas de produção. “O setor privado, especialmente os laticínios, deve estimular a adoção de tecnologias mitigadoras de impactos ambientais. Por outro lado, o poder público, em suas diversas esferas, precisa fornecer infraestrutura básica como água e estradas, essenciais para a produção agrícola”, enfatiza.

De acordo com o pesquisador, o governo federal está em um debate intenso para melhorar a previsibilidade das crises climáticas e reduzir os riscos por meio de zoneamento agrícola. “A Embrapa, junto com o Ministério da Fazenda e o Banco Central, está desenvolvendo políticas de crédito agrícola para incentivos a boas práticas de produção. Os governos estaduais e municipais também têm um papel fundamental em criar mecanismos de apoio e garantir a infraestrutura básica para os produtores”, frisa.

Esses temas foram amplamente discutidos no 2º Fórum Nacional do Leite, realizado em abril pela Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite). O evento destacou a importância de uma abordagem integrada entre o setor público e privado para enfrentar os desafios climáticos e garantir a sustentabilidade da produção láctea no Brasil.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura de leite e na produção de grãos acesse a versão digital de Bovinos, Grãos e Máquinas, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas

Por que monitorar os preços do leite e dos lácteos?

O crescimento econômico deriva, sim, de investimentos estruturais, como assistência técnica, melhoria em nutrição, saúde e reprodução animal, treinamento de mão de obra, adoção de ferramentas gerenciais nas fazendas e laticínios. Depende também de infraestrutura e logística. Mas tudo isso exige um ambiente institucional que favoreça a diminuição das assimetrias de informação e dos custos de transação.

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Foto: Rubens Neiva

A importância do sistema agroindustrial (SAG) do leite no Brasil é inegável. Nosso País é o quinto maior produtor de leite do mundo e nossa produção corresponde a quase 5% do total mundial, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). As estatísticas nacionais mostram que são mais de 1,17 milhão de produtores no campo e cerca de 130 mil pessoas empregadas na indústria de laticínios (IBGE, 2017; RAIS, 2022). Os últimos dados disponíveis do Cepea indicam que o setor lácteo gerou R$ 77,1 bilhões em 2020, valor que representou 4% do PIB do agronegócio naquele ano.

Fotos: Divulgação/Arquivo OPR

Apesar da grande importância que o setor tem no agronegócio brasileiro, ainda há gargalos expressivos para seu desenvolvimento, com relação a produtividade no campo, qualidade do leite cru, eficiência dos laticínios e, finalmente, competitividade brasileira. Isso fica claro ao se observar que o Brasil, embora tenha grande potencial na produção de proteína animal, não é autossuficiente na produção de lácteos, o que torna o País dependente de importações. Em 2023, os volumes adquiridos no mercado externo triplicaram e pressionaram as cotações internas. Se entre 2003 e 2022 as importações representavam, em média, 4% da captação industrial nacional, em 2023, elas passaram a corresponder por 9%.

A menor competitividade dos lácteos brasileiros frente aos estrangeiros não é a causa da fragilidade do setor, mas, sim, o sintoma mais agudo de uma estrutura produtiva que ainda carece de investimentos específicos e que engendra e é engendrada por estratégias de negócios apoiadas em estruturas de governança pouco coordenadas e focadas sobretudo nos retornos de curto prazo.

Pesquisas do Cepea indicam que as estruturas de governança que regem a aquisição do leite cru são fortemente influenciadas por incertezas, sendo as principais a dificuldade dos agentes em avaliar seu desempenho e a imprevisibilidade das flutuações de oferta e demanda, o que, por sua vez, se reflete em elevada volatilidade dos preços do leite cru.

Em termos práticos, essa incerteza torna a avaliação do contexto de mercado, a tomada de decisão e as ações dos agentes mais propensas à divergência. Isso significa dizer que a leitura do mercado pode destoar entre os agentes da cadeia produtiva, como se produtores tivessem acesso a uma foto do mercado e os laticínios, a outra. Essa divergência pode ocorrer até mesmo entre os agentes de um mesmo segmento, o que explicaria condutas diferentes para a organização dos negócios e para os investimentos, por exemplo.

De qualquer maneira, esse contexto de incerteza eleva as dificuldades de alinhamento dos segmentos da cadeia produtiva, levando a uma baixa intensidade de coordenação entre eles. As relações pouco coordenadas, por sua vez, dificultam a geração e a distribuição do valor dentro da cadeia produtiva, elevando os custos de transação. Com isso, fica cada vez mais difícil de se atingir objetivos estratégicos e comuns ao desenvolvimento do SAG.

Foto: Shutterstock

A redução da incerteza ocorre a partir da diminuição das assimetrias de informação. Quando fatores ligados à incerteza passam a ser monitorados e mensurados, criam-se informações. A distribuição e o acesso homogêneos a essas informações entre os agentes do SAG têm o potencial de transformar a incerteza em risco. E o risco, ao contrário da incerteza, pode ser gerenciado.

É aqui, então, que a pergunta feita no título desse texto é respondida: monitorar e mensurar aspectos de um mercado são importantes para diminuir a incerteza, gerar informação e reduzir os custos de transação. É nesse sentido que se estrutura a missão do Cepea de fornecer dados que possam orientar as estratégias dos agentes de mercado e contribuir para uma leitura mais precisa do curto e longo prazo.

Em entrevista realizada com 33 indústrias de laticínios, que captam quase 24% de todo leite brasileiro, quase 88% dos entrevistados concordam que as informações do Cepea são importantes para avaliar desempenho, e 72,8% concordaram que são informações relevantes para serem usadas como referência de precificação.

Ainda dentro da porteira, o Cepea monitora os custos de produção, identificando os coeficientes técnicos das fazendas modais brasileiras e analisando as variações dos preços dos insumos da atividade. No segmento produtivo, é divulgado mensalmente o indicador do preço do leite ao produtor. Para se ter ideia da extensão da rede de colaboradores que compõem esse projeto, a Média Brasil é calculada com base em mais de 48 mil dados mensais. Quinzenalmente, os colaboradores recebem os preços da pesquisa do leite spot, para, assim, acompanhar as movimentações do preço do leite cru no campo. No segmento industrial, a pesquisa do Cepea monitora quinzenalmente preços dos lácteos negociados com canais de distribuição. Para o estado de São Paulo, os indicadores são semanais, no caso do leite em pó fracionado (400g), e diários, nos casos do leite UHT e queijo muçarela.

Aqui, vale destacar o motivo da escolha destes três lácteos como indicadores para a pesquisa do Cepea. Estima-se que aproximadamente 30% de todo leite cru seja utilizado na produção de UHT; outros 30%, na fabricação de leite em pó; e mais 30%, na produção de queijos, com a muçarela sendo a mais comum. Esses lácteos são considerados commodities, mas possuem estratégias de fabricação e comercialização distintos. Tanto o UHT quanto o leite em pó são produtos que não necessitam de refrigeração e têm prazo de validade mais longo, permitindo aos laticínios estocagem e expansão do mercado de atuação. Por outro lado, a produção desses itens demanda um leite de qualidade superior, com alta estabilidade térmica. Já no caso da muçarela e dos queijos, em geral, há uma maior flexibilidade quanto à qualidade da matéria-prima. A variabilidade da qualidade faz com que haja maior impacto da marca na negociação. Como a muçarela é um produto que tem data de validade mais limitada, sendo dependente de refrigeração para a logística e venda, é necessário que a produção ocorra por encomenda.

A cadeia do leite é, assim, monitorada pela equipe do Cepea para que se possa compreender a geração de valor entre os segmentos. A síntese mensal desses resultados é publicada no Boletim do Leite, mas os participantes da rede de colaboradores do Cepea recebem outros informativos também.

O preço não é só uma cifra: ele é também uma informação, que auxilia os agentes de um SAG a mensurar seu desempenho, a oferta, a demanda e os impactos de diferentes estratégias que eles podem adotar para gerir seus negócios. Ao se munirem de informação, os agentes da cadeia do leite podem não apenas compreender melhor o cenário atual, mas se prepararem para cenários futuros. É essa constante adaptação, no curto e longo prazos, que possibilita a resiliência dos negócios, mesmo diante das adversidades do mercado.

Esse texto busca relembrar o papel da informação no desenvolvimento do agronegócio. O crescimento econômico deriva, sim, de investimentos estruturais, como assistência técnica, melhoria em nutrição, saúde e reprodução animal, treinamento de mão de obra, adoção de ferramentas gerenciais nas fazendas e laticínios. Depende também de infraestrutura e logística. Mas tudo isso exige um ambiente institucional que favoreça a diminuição das assimetrias de informação e dos custos de transação. Por isso, é preciso que a sociedade apoie, colabore, financie e valorize as iniciativas que geram informações sobre as cadeias produtivas.

Fonte: Por Natália Grigol, pesquisadora da equipe leite do Cepea
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