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Nova avaliação genômica seleciona bovinos de corte para eficiência alimentar

Com a nova avaliação genômica, busca-se selecionar animais que sejam mais eficientes no uso dos alimentos fornecidos na dieta.

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Foto: Fagner Almeida

A partir deste ano, os criadores da raça Angus poderão selecionar reprodutores com capacidade de transmitir características relacionadas à eficiência alimentar aos seus descendentes. Isso porque a Embrapa, em parceria com a Associação Brasileira de Angus, Associação Nacional de Criadores Herd-Book Collares (ANC) e BioData Ciência de Dados, desenvolveu uma nova avaliação genômica que prediz a capacidade de transmissão dessas características pelos progenitores. A tecnologia, em lançamento durante a 46ª edição da Expointer, possibilitará, na prática, que o pecuarista comece a introduzir nos seus rebanhos animais mais eficientes na conversão dos alimentos que consomem em carne.

A base de dados para a geração do novo referencial de avaliação genômica foi constituída durante as provas de eficiência alimentar (PEA) desenvolvidas na Embrapa Pecuária Sul (RS) durante os últimos quatro anos, e também pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pela Central CRV Brasil, pela Verdana Agropecuária e pela Casa Branca Agropastoril. No total, foram 22 provas, com a análise dos dados de 589 animais da raça Angus.

A avaliação genômica é baseada em três novas predições DEPGs (diferença esperada na progênie aprimorada pela genômica) que estão inter-relacionadas: Consumo de Matéria Seca (CMS), Consumo Alimentar Residual (CAR) e Ganho Médio Diário Residual (GMDR).

O CMS é o consumo médio diário de alimento do animal com base na matéria seca, descontando a água que tem nos componentes da dieta; o CAR é a diferença entre o consumo de alimento observado e o esperado em função do peso metabólico do animal e do ganho médio diário; o GMDR é a diferença entre o Ganho Médio Diário (GMD) observado para cada animal durante a prova e o estimado com base no consumo de matéria seca e peso metabólico.

As características se relacionam, e, em síntese, busca-se selecionar animais que sejam mais eficientes no uso dos alimentos fornecidos na dieta. Por meio do Consumo Alimentar Residual são identificados animais com ganho de peso igual à média do grupo em teste, mas com menor consumo diário de alimento. São aqueles que tenham, portanto, CAR negativo, e a capacidade de manter níveis adequados de produção usando menos recursos. Por outro lado, o Ganho Médio Diário Residual positivo seleciona animais que ganham mais peso do que a média do grupo, comendo a mesma quantidade, ou seja, têm maior produção sem aumentar a necessidade de recursos alimentares. As características possuem herdabilidade de média a alta.

“A partir da avaliação de reprodutores mais eficientes na conversão alimentar, realizada durante as Provas de Eficiência Alimentar, temos agora a oportunidade de selecionar animais que consumam menos para alcançar melhores índices produtivos”, destaca Fernando Cardoso, chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul.

Conforme Cardoso, a tecnologia é de grande relevância para o setor produtivo, pois garante eficiência e melhor lucratividade aos pecuaristas. “Os gastos com alimentação são em geral de 70% a 90% dos custos totais no período de terminação dos animais. Então, a melhor conversão alimentar é fundamental nos sistemas de produção”, ressalta.

“As novas DEPGs para as características de eficiência alimentar são mais um marco no melhoramento genético da raça Angus no Brasil e foram construídas com o apoio e participação de muitos selecionadores que acreditam na evolução da raça. É essencial conseguirmos selecionar reprodutores mais eficientes entre o consumo e ganho de peso”, comemora Mateus Pivato, gerente de fomento da Associação Brasileira de Angus.

Seleção genômica

Foto: Felipe Rosa

A seleção genômica tem seu fundamento no uso de marcadores genéticos moleculares do tipo SNP (polimorfismo de um único nucleotídeo). Assim, por meio da marcação de uma determinada característica presente no DNA do animal, a seleção genômica permite a identificação de indivíduos geneticamente superiores, principalmente no caso de características de difícil coleta de dados, acelerando o processo de seleção de atributos de interesse.

“A seleção genômica é uma tecnologia comprovada e amplamente utilizada na maioria dos programas de melhoramento genético no Brasil. Junto à medição dessas características, é de suma importância coletar material biológico dos animais que participarem da prova e enviá-lo para genotipagem. Após o programa receber essas informações dos marcadores SNPs, elas serão incorporadas na avaliação genética, contribuindo para o aumento da população de referência (animais com fenótipo e genótipo) dessas características e, consequentemente, acelerando o ganho genético. Além disso, podemos selecionar animais jovens e mais eficientes de forma mais acurada com o auxílio da genômica”, destaca Gabriel Campos, diretor técnico da BioData Ciência de Dados.

Para a implementação da seleção genômica, são necessárias três etapas:

– População de descoberta: genotipagem de uma ampla população de referência, que dará suporte para a obtenção de dados fenotípicos e genotípicos da característica avaliada; sua localização e consolidação para uso dos SNPs;

– População de validação: quando é feita a validação dos efeitos estimados em um grupo de animais que não pertence à população referência;

– População de seleção: a predição dos valores genéticos de indivíduos candidatos à seleção, baseados nos genótipos dos marcadores, que foram validados como SNPs para a característica selecionada.

Prova de Eficiência Alimentar

A Prova de Eficiência Alimentar (PEA) conduzida pela Embrapa Pecuária Sul tem como objetivo identificar os animais que melhor convertam o alimento consumido em desempenho produtivo. O objetivo é comparar e identificar, dentro de um mesmo sistema de produção, reprodutores com menor consumo e crescimento mais acelerado. Para isso são usadas duas medidas principais de aferição de eficiência alimentar: o Consumo Alimentar Residual e o Ganho de Peso Residual. Os indivíduos mais eficientes são aqueles com CAR negativo e GPR positivo.

Para o cálculo do índice de classificação final (ICF) da prova leva-se em consideração 50% para cada característica. De acordo com valores de ICF de cada raça, os reprodutores são divididos e classificados em três grupos: Elite (animais com ICF maior que a média + 1 desvio padrão); Superior (animais com ICF entre a média e 1 desvio padrão); e Comercial (animais com ICF menor que a média).

Os dados de consumo de cada animal participante da PEA são coletados por meio de cochos eletrônicos. Esses equipamentos possuem comedouros que ficam apoiados sobre células de carga e, em conjunto com sensores e coletores inteligentes, possibilitam o registro eletrônico do alimento consumido por indivíduo. Os participantes da prova recebem um brinco eletrônico para a leitura no comedouro em todas as vezes que se alimentam, gerando os dados de consumo pela diferença entre a quantidade de alimento abastecida no cocho e o que foi consumido nas visitas pelos animais.

Essas informações sobre consumo são correlacionadas com as pesagens realizadas durante a prova. Para participar, os reprodutores devem pertencer ao mesmo sexo e à mesma raça e idade, com variação máxima de 90 dias e ter menos de 24 meses ao encerrar a prova. A PEA tem duração de 90 dias, sendo 20 dias para adaptação à nova dieta e grupo de manejo, mais 70 dias de avaliação. As pesagens são realizadas ao início da prova e a cada 14 dias até o seu encerramento.

Mariana Tellechea, presidente da Associação Brasileira de Angus, pondera que a PEA Angus só foi possível graças à participação e comprometimento dos selecionadores que enviaram seus animais para a prova. “Os projetos que desenvolvemos são fruto de anos de pesquisa, desenvolvimento e trabalho. Foram avaliados mais de 500 animais ao longo de diversos anos de prova, e podermos contar com o apoio dos nossos criadores e, principalmente, com a confiança deles, ao disponibilizarem seus animais para esse estudo, é muito gratificante”, finaliza.

Fonte: Assessoria Embrapa Pecuária Sul

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Brasil e Uruguai unem esforços para padronizar diagnóstico de resistência de carrapatos

Capacitação no Rio Grande do Sul integra projeto global da FAO e reforça o papel do IPVDF como referência regional em sanidade animal.

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Foto: Fernando Dias

Técnicos do laboratório oficial de Medicina Veterinária do Ministério da Agricultura do Uruguai participaram, nesta semana, de uma capacitação prática em bioensaios no Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa em Saúde Animal Desidério Finamor (IPVDF), no Rio Grande do Sul. O treinamento é voltado ao diagnóstico de resistência de carrapatos a produtos carrapaticidas, um desafio crescente para a pecuária da América do Sul.

A iniciativa integra um projeto multicêntrico global da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), que tem como objetivo a harmonização dos métodos de diagnóstico da resistência de carrapatos. O programa prevê ações presenciais de capacitação, intercâmbio técnico entre países e validação conjunta de metodologias laboratoriais.

Segundo o pesquisador Guilherme Klafke, do IPVDF, o trabalho busca consolidar o laboratório gaúcho como centro de referência regional na área. “A intenção é padronizar protocolos. Queremos que os laboratórios da América do Sul, como os do Uruguai, da Argentina e da Colômbia, trabalhem da mesma maneira, com resultados comparáveis e confiáveis”, afirma.

A preocupação é compartilhada pelos dois países. Assim como ocorre no Rio Grande do Sul, o Uruguai já registra casos relevantes de resistência dos carrapatos aos produtos utilizados no controle do parasita. “No Norte do país, praticamente toda a população de carrapatos é multirresistente. Por outro lado, temos uma zona livre de carrapatos no Sul do Uruguai, que precisamos proteger”, explica Diana Martinez, do Ministério da Agricultura uruguaio.

De acordo com a técnica, o trabalho no país é conduzido em áreas de controle e erradicação, com foco na proteção sanitária, no uso correto dos produtos carrapaticidas e na mitigação de problemas relacionados a resíduos, garantindo a segurança alimentar e a sustentabilidade da produção pecuária.

O Uruguai disponibiliza aos produtores rurais, há cerca de quatro anos, o biocarrapaticidograma, teste que avalia a resistência dos carrapatos aos princípios ativos disponíveis no mercado. No Rio Grande do Sul, esse serviço é oferecido gratuitamente há quatro décadas pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), por meio do IPVDF, reforçando a longa trajetória do Estado na sanidade animal e no apoio técnico aos produtores.

Detalhes sobre o teste, e como solicitá-lo, estão disponíveis na Carta de Serviços do Governo do Rio Grande do Sul.

Fonte: Assessoria Seapi
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Santa Catarina sanciona lei que protege produtores catarinenses e proíbe reconstituição de leite em pó importado

Nova lei busca equilíbrio de mercado e fortalecimento da cadeia leiteira no estado.

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O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, sancionou na última quarta-feira (21) a lei que proíbe a reconstituição e comercialização de leite em pó importado como leite fluido em Santa Catarina. A medida reforça as políticas públicas do Governo do Estado para fortalecimento da cadeia produtiva leiteira.

O projeto de Lei é de autoria do deputado estadual Oscar Gutz, com proposta apensada do deputado Altair Silva. A nova legislação impede que o leite em pó estrangeiro seja reconstituído para venda como leite líquido em Santa Catarina.

Nova legislação impede que o leite em pó estrangeiro seja reconstituído para venda como leite líquido em Santa Catarina – Foto: Guilherme Bento/SECOM

A lei visa manter mais equilíbrio ao mercado, fortalecer a economia regional, produção local e contribuir para a manutenção no meio rural. “A medida fortalece a cadeia produtiva do leite, combate a concorrência desleal e garante mais segurança econômica para milhares de famílias do meio rural. É com firmeza que Santa Catarina irá garantir mais proteção da cadeia leiteira”, declarou o governador Jorginho Mello.

Santa Catarina é o 4º maior produtor de leite do país, são mais de 24,5 mil produtores. Em 2024, o Estado alcançou 3,3 bilhões de litros produzidos, o equivalente a 9% da produção nacional. “Essa medida irá incentivar o consumo de leite produzido pelos produtores e laticínios de Santa Catarina. É mais uma ação importante para ampliarmos as condições de permanência na atividade e valorizar toda a cadeia produtiva”, afirmou o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária em exercício, Admir Dalla Cort, que representou o secretário Carlos Chiodini no ato.

Incentivos ao setor

Com o objetivo de assegurar a competitividade do setor leiteiro em Santa Catarina, os produtores de leite podem contar com programas do Governo do Estado. O Programa Leite Bom SC compreende linhas para subsidiar juros de empréstimos bancários e conceder financiamentos, sem juros, para investimentos em processos produtivos. Esse programa também contempla a execução medidas como incentivos tributários à indústria leiteira catarinense de maneira escalonada e a suspensão de benefícios para a importação de leite e derivados.

A cadeia leiteira também conta com o Programa Terra Boa, para melhoria das pastagens e aumentar a produtividade. Além disso, o leite produzido em Santa Catarina também segue rigorosos controles de qualidade, inspeção e rastreabilidade.

Fonte: Assessoria da Secretaria de Estado da Agricultura
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Preços em queda e importações pressionam leite em 2025 com perspectivas de recuperação gradual em 2026

gravidade do cenário desencadeou manifestações, mobilização de entidades representativas e sucessivas articulações políticas em busca de respostas rápidas por parte do governo federal.

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Fotos: Shutterstock

A cadeia leiteira brasileira atravessou, em 2025, uma das fases mais críticas de sua história, caracterizada por preços baixos, forte aumento das importações e prejuízos sistemáticos para produtores em todas as regiões do País. A gravidade do cenário desencadeou manifestações, mobilização de entidades representativas e sucessivas articulações políticas em busca de respostas rápidas por parte do governo federal.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), Geraldo Borges, a crise de 2025 tem raízes diretas no comportamento do mercado nos anos anteriores. “A cadeia leiteira teve uma consequência do que aconteceu no mercado no segundo semestre de 2024 e no primeiro trimestre de 2025, período em que houve um aumento expressivo na produção influenciado pela melhora temporária de preços”, explica.

Borges lembra que o setor já havia enfrentado forte queda de preços em 2023, atingindo tanto pequenos quanto grandes produtores e cooperativas. Com a recuperação do valor pago ao produtor no ano seguinte, a produção voltou a crescer. “Houve um incremento próximo de 8% a 9% no segundo semestre de 2024 em relação ao mesmo período de 2023, ampliando a oferta e pressionando novamente o mercado no início de 2025”, pontua.

Sete meses de quedas consecutivas

Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), Geraldo Borges: “O mercado está mostrando uma crise maior que a de 2023, com preços mais estrangulados, produtores no Brasil inteiro trabalhando com prejuízo” – Foto: Divulgação/Abraleite

A partir de abril de 2025, o preço do leite ao produtor iniciou uma trajetória de retração contínua. “O mercado está mostrando uma crise maior que a de 2023, com preços mais estrangulados, produtores no Brasil inteiro trabalhando com prejuízo”, reforça Borges, enfatizando que a situação é especialmente grave para os pequenos produtores. “Eles não têm condições de continuar na atividade, com o preço que está sendo praticado principalmente nos últimos meses”, aponta.

Dados do Cepea reforçam a dimensão do problema. A chamada Média Brasil registrou R$ 2,29 por litro em outubro de 2025, queda de 5,9% em relação a setembro. Os valores pagos aos produtores variaram entre os estados monitorados: no Rio Grande do Sul, R$ 2,21; em Santa Catarina, R$ 2,20; no Paraná, R$ 2,29; em São Paulo, R$ 2,41; e em Minas Gerais, R$ 2,38. Na avaliação da Abraleite, esses patamares inviabilizam a atividade para grande parte das propriedades diante dos custos operacionais elevados.

Cobrança por respostas imediatas

O agravamento da crise levou produtores, cooperativas e indústrias a se mobilizarem com mais força ao longo de 2025. Audiências públicas, reuniões com parlamentares e articulação entre entidades setoriais passaram a fazer parte da rotina. “É por isso que a gente está vendo essa onda de manifestações, entidades do setor como a Abraleite lutando junto com parlamentares, cobrando o governo federal por medidas que atenuem essa crise”, destaca Borges.

As reivindicações incluem medidas emergenciais para evitar o colapso financeiro de produtores, cooperativas e laticínios, mas também ações estruturantes que corrijam distorções históricas da cadeia. Para o presidente da Abraleite, o Brasil precisa de uma política de longo prazo. “Estamos cobrando medidas estruturantes para que a cadeia seja mais bem estruturada e mais competitiva, com capacidade de produzir a custos menores, condição essencial para evitar recorrência de crises”, salienta.

Estruturação do setor

Foto: Fernando Dias

Diante do aumento expressivo das importações de lácteos e da perda de competitividade interna, a Abraleite levou ao governo federal um conjunto de solicitações. Borges relata que sugeriu medidas imediatas para conter a queda de preços ao produtor e uma intervenção temporária nas importações, ao mesmo tempo em que se investe na reorganização da cadeia.

Ele reforça ainda a necessidade de reativar o grupo interministerial criado em 2023 para tratar da estruturação do setor. O colegiado, segundo o dirigente, deixou de funcionar em 2024 e 2025. “Eu cobrei que os ministros reativem o grupo e que trabalhem tanto nos períodos de baixa de preço, como também nos períodos em que os preços estiverem mais estabilizados”, afirma.

Para Borges, a função do grupo não é combater crises pontuais, mas desenhar uma política de médio e longo prazo. “Temos que criar medidas estruturais para que não aconteçam novas crises como esta que está acontecendo, garantindo continuidade operacional e planejamento permanente,” ressalta.

As causas profundas da crise

O presidente da Abraleite destaca que os problemas enfrentados em 2025 decorrem de um conjunto de fatores acumulados ao longo dos últimos anos. O primeiro deles é o alto custo de produção, agravado pelo chamado custo Brasil. Além disso, a atividade é extremamente pulverizada. “Produzimos leite em 98,8% dos municípios”, frisa, reforçando que esse modelo, baseado majoritariamente em pequenos produtores, opera com baixa produtividade e pouca assistência técnica e gerencial.

A estrutura industrial também enfrenta gargalos. Borges cita problemas de ociosidade em laticínios e custos elevados de captação, consequência direta da dispersão geográfica da produção. Ele compara o Brasil a grandes players internacionais. “Nos Estados Unidos, a atividade é concentrada em regiões específicas, o que reduz custos logísticos; na Nova Zelândia, o território reduzido facilita a coleta e a inserção no mercado mundial. Já no Brasil, o custo é duas vezes mais caro do que o custo de captação de leite desses países”, aponta.

A baixa competitividade interna abre espaço para produtos importados, especialmente de Argentina e Uruguai. Borges ressalta que há indícios de práticas desleais no comércio internacional, tema atualmente em investigação: “Há um pedido de investigação de dumping, prática de exportar produtos a preços muito baixos, porque há indícios dessa concorrência desleal principalmente por parte da Argentina”, relata Borges, ressaltando que esse cenário forma a receita perfeita para gerar desequilíbrio e outra crise no setor.

Custo de produção e endividamento

A crise de rentabilidade que marcou 2025 também expôs a distância entre o preço recebido e o custo operacional médio nas propriedades. De acordo com o presidente, embora o custo varie entre sistemas produtivos, portes e níveis de eficiência, a referência atualizada pela Abraleite demonstra que o produtor opera no limite. “O custo médio de produção do leite no Brasil atualmente é de aproximadamente R$ 2,20 por litro, quase o mesmo valor que os produtores recebem, ou seja, estão trabalhando no vermelho”, reiterou.

Borges detalha que cada propriedade apresenta uma composição de custos muito distinta, influenciada por fatores como produção de silagem, compra de milho, eficiência na mão de obra e escala produtiva. “Em sistemas menores, o peso dos custos fixos tende a ser proporcionalmente maior, agravando a situação financeira nos períodos de baixa de preços. O reflexo é direto: endividamento crescente, renegociação de financiamentos e falta de capital para custeio e investimentos”, relatou.

Saída de produtores

A perda de produtores não é um fenômeno recente, mas ganhou intensidade nos períodos críticos. Borges destaca que os censos do IBGE já registram queda contínua no número de produtores ao longo das últimas décadas, e estudos regionais apontam retração acentuada. Ele cita o levantamento da Emater do Rio Grande do Sul, que observou redução pela metade no número de produtores em 10 anos no estado.

Crises sucessivas como as vividas em 2023 e em 2025 têm ampliado esse movimento. Muitos produtores saem da atividade durante os momentos de baixa; outros tentam se manter, mas não conseguem se reerguer no pós-crise, devido ao endividamento acumulado e à perda de capacidade produtiva.

Apesar disso, a base produtiva brasileira segue majoritariamente composta por pequenos e médios produtores. O último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou 1,17 milhão de propriedades que produziam algum volume de leite, número que reforça a capilaridade da produção no país.

Consumo interno estagnado há uma década

Se de um lado o produtor enfrenta custos elevados e preços deprimidos, do outro lado o mercado doméstico não reage. O consumo per capita brasileiro, quando se convertem todos os lácteos em equivalente-litro, permanece há cerca de 10 anos entre 160 e 170 litros por habitante/ano. “Esse volume está abaixo do recomendado por organismos internacionais e distante do registrado em países desenvolvidos. Por exemplo, na França são consumidos em torno de 340 litros per capita/ano, na Suíça 360 litros por cada habitante/ano. Então o Brasil tem muito o que crescer no consumo de lácteos”, salienta.

Entre os fatores que limitam essa expansão, Borges menciona a restrição imposta pelo contexto econômico. “Na população de menor renda, produtos lácteos mais elaborados como leite UHT, leite em pó e derivados são diretamente afetados pela perda de poder de compra, se tornando itens facilmente suprimidos do orçamento familiar em períodos de aperto financeiro”, enfatiza.

Desinformação

Outro obstáculo citado pelo presidente da Abraleite é a desinformação da população. Borges compara o cenário brasileiro ao dos Estados Unidos, onde campanhas como Got Milk? ajudaram a consolidar a imagem positiva do leite junto ao consumidor. No Brasil, segundo ele, não há iniciativas semelhantes, enquanto discursos desinformados têm ganhado cada vez mais espaço. “O que nós vemos muito é uma quantidade enorme de pessoas desinformadas, denegrindo a imagem do leite, como se o leite fizesse mal para a saúde humana”, criticou.

A Abraleite tem buscado reverter essa narrativa por meio de ações com nutricionistas, médicos, pediatras, ortopedistas e profissionais de Educação Física, com o objetivo de resgatar a confiança da população nos benefícios nutricionais do leite. Borges ressalta que o alimento é extremamente saudável e relevante em todas as fases da vida. “A Organização Mundial da Saúde revisou recentemente a recomendação sobre o consumo de leite de vaca por bebês, autorizando o uso a partir dos seis meses na ausência do leite materno. Antes a orientação era a partir de um ano de idade. Isso demostra a segurança desse alimento”, destacou.

Peso das importações

O peso das importações na crise de 2025 foi outro ponto enfatizado pelo presidente da Abraleite. Desde 2022, o país vive um ciclo de forte entrada de lácteos do Mercosul, especialmente Argentina e Uruguai. A participação do leite importado, historicamente próxima de 3% do consumo nacional, chegou a 12% em determinados momentos e permaneceu, em 2025, entre 8% e 10%. “Esse extra acima dos 3% causa esse enorme transtorno de baixa de preço ao produtor e quebra da cadeia produtiva nacional”, avaliou.

As importações não se concentram apenas em grandes laticínios. Borges explica que indústrias do ramo alimentício, como fabricantes de chocolates, biscoitos e sorvetes, além de traders e atacadistas, também têm recorrido à compra externa. “Esse aumento das importações está diretamente ligado ao alto custo de produção do leite no Brasil. Temos uma produção muito pulverizada, logística complexa, insumos caros e nenhum tipo de subsídio. Com tudo isso, fica difícil competir com os nossos vizinhos do Mercosul”, reforça.

Medidas emergenciais e estruturais

Foto: Jaelson Lucas

Diante do agravamento da crise, Borges reiterou que a Abraleite tem cobrado ações rápidas do governo federal. Ele cita medidas como contenção ou redução de importações e, sobretudo, a reativação do grupo interministerial criado em 2023 para trabalhar na estruturação da cadeia, mas que permaneceu inoperante ao longo de 2024 e 2025. “Esse grupo tem que trabalhar até as medidas estruturantes acontecerem. Sabendo que são medidas de médio e longo prazo, não são medidas emergenciais para apagar o incêndio que está agora”, frisou.

Entre as principais medidas estruturais consideradas essenciais para fortalecer a cadeia leiteira estão o fortalecimento da assistência técnica e gerencial, especialmente para pequenos e médios produtores; a ampliação das compras governamentais de lácteos; a manutenção, substituição ou reformulação do programa Mais Leite Saudável após sua extinção prevista pela reforma tributária; a revisão de questões tributárias; o fortalecimento das ATERs públicas; e a implementação de políticas de incentivo à competitividade e à redução de custos.

Os estudos do Centro de Inteligência do Leite (CiLeite) da Embrapa Gado de Leite apontam que, sem medidas emergenciais, o mercado pode começar a se estabilizar a partir de março deste ano, com recuperação gradual dos preços no segundo semestre. Borges lembra que movimento semelhante ocorreu após a crise de 2023, com melhora do mercado ao longo de 2024. “Talvez a partir de abril, a gente comece a ver um cenário melhor para os produtores”, afirmou, destacando que a recuperação deve alcançar toda a cadeia nacional.

Fonte: O Presente Rural
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