Bovinos / Grãos / Máquinas
Nem sempre o olho do dono engorda o gado
Maiores prejuízos da pecuária podem estar justamente nos parasitas que o produtor não consegue ver no rebanho

Artigo escrito por Leydson Martins, médico veterinário, Vaxxinova
Há uma expressão antiga na pecuária brasileira: “O olho do dono é que engorda o gado.” Ela traduz bem o cuidado e o capricho que muitos produtores dedicam ao rebanho, e de fato o acompanhamento próximo faz toda a diferença nos resultados da fazenda. Mas, de maneira didática, vale refletir: em que situações essa expressão não se aplica?
O objetivo deste artigo é lançar um olhar sobre as parasitoses bovinas, pois existem pelo menos duas situações claras em que o “olho do dono” pode ser enganado quando o assunto é produtividade.
Nas parasitoses que afetam bovinos, é fundamental compreender a diferença entre ectoparasitas e endoparasitas. Os ectoparasitas vivem externamente no animal, como carrapatos, moscas e bernes, sendo facilmente observados durante o manejo. Já os endoparasitas habitam o interior do organismo, especialmente o trato gastrointestinal e, em alguns casos, o sistema respiratório, tornando sua presença menos evidente a olho nu.

Primeira falha de percepção
Essa é a primeira diferença clara: muitas vezes o controle parasitário é intensificado quando o produtor vê seu rebanho sendo pressionado por carrapatos, mosca-do-chifre, berne, mosca-dos-estábulos ou bicheiras. Essa diferença de visibilidade cria frequentemente uma percepção equivocada no campo: aquilo que é visto tende a receber mais atenção. No entanto, nem sempre o problema mais visível é o mais impactante.
Nesse ponto, a ciência demonstra claramente que, quando se trata de perdas produtivas na pecuária, as parasitoses mais prejudiciais são justamente aquelas que passam despercebidas.
Um grupo de pesquisadores brasileiros de diversas regiões, liderado pelo professor Laerte Grisi, realizou um amplo estudo mensurando quanto cada uma das principais parasitoses bovinas representa em perdas para a pecuária brasileira.
Os resultados mostram que as perdas causadas por parasitas invisíveis aos olhos do produtor são as que geram maiores prejuízos econômicos. É como se houvesse um vazamento silencioso no bolso do produtor, no qual parte dos investimentos em nutrição e genética acaba sendo desviada para sustentar os parasitas em vez de gerar produtividade para o rebanho.

Enquanto os ectoparasitas chamam atenção por sua presença evidente, os endoparasitas podem atuar de forma silenciosa, comprometendo ganho de peso, eficiência alimentar e desenvolvimento dos animais. Na pecuária, portanto, vale a reflexão: nem sempre aquilo que se vê é o que mais preocupa — muitas vezes os maiores prejuízos estão justamente nos parasitas invisíveis aos olhos do produtor.
Segunda falha de percepção
A segunda falha de percepção está novamente relacionada à verminose. De fato, em muitos casos é possível identificar pela observação que um animal está acometido por verminose.
Um bovino com verminose clínica geralmente apresenta sinais evidentes. Entre as características mais comuns estão o emagrecimento e o baixo escore corporal, contrastando com um abdômen volumoso que confere ao animal um aspecto “barrigudo”. A pelagem costuma estar arrepiada, opaca e sem brilho, indicando perda de condição geral. Esses animais também podem demonstrar apatia, má postura, redução no ganho de peso e atraso no crescimento, especialmente em animais jovens.
Com o avanço tecnológico da pecuária e o encurtamento dos ciclos produtivos, é cada vez menos comum observar animais com sinais clínicos evidentes de verminose. Entretanto, muitos animais aparentemente saudáveis carregam uma carga parasitária capaz de drenar parte importante dos ganhos produtivos da fazenda — condição conhecida como verminose subclínica.

Esses animais com verminose subclínica muitas vezes se assemelham a animais saudáveis. Porém, apenas medições criteriosas de desempenho revelam que eles não estão expressando todo o seu potencial produtivo. É como se o motor do animal estivesse funcionando com perda de potência, impedindo que alcance sua máxima performance.
A ciência alerta que a perda de desempenho não ocorre apenas pelo consumo de nutrientes pelos parasitas. Estudos demonstram que a infecção parasitária também pode reduzir o consumo voluntário de alimentos. Em infecções subclínicas e crônicas, essa redução pode chegar a 20% ou mais, enquanto infecções agudas podem levar até mesmo à anorexia completa.
Como escolher o vermífugo?
A escolha entre um vermífugo de longa ou curta ação pode fazer grande diferença nos resultados produtivos da fazenda. Cada tipo de produto possui uma função específica e sua utilização deve considerar a categoria animal e o nível de desafio parasitário do sistema.
Os vermífugos de curta ação atuam rapidamente e são indicados quando há necessidade de controle imediato, sendo comuns em animais de confinamento, em fase de terminação ou em situações de alta carga parasitária.
Já os vermífugos de longa ação oferecem proteção prolongada, sendo especialmente indicados para bezerros, animais em desmama, recria a pasto e períodos de maior desafio parasitário. Em síntese, enquanto a curta ação proporciona resposta rápida, a longa ação garante proteção contínua no controle das verminoses.
Em quais momentos utilizar esses vermífugos?
Para reduzir os prejuízos, o controle parasitário deve ser estruturado em duas frentes complementares: controle estratégico e controle tático.
O controle estratégico baseia-se no planejamento das intervenções ao longo do ano, levando em consideração fatores como estação, categoria animal e histórico parasitário da fazenda. O objetivo é reduzir a contaminação das pastagens e manter a pressão parasitária sob controle.
Já o controle tático ocorre em momentos específicos de maior risco, como desmama, entrada de animais de compra, mudanças de manejo ou períodos de estresse, quando os animais se tornam mais suscetíveis à ação dos parasitas. Nesses casos, a intervenção é realizada para proteger o desempenho dos animais e evitar perdas produtivas.
Dessa forma, o controle estratégico e o controle tático não competem entre si – eles se complementam dentro de um programa eficiente de controle parasitário. Na pecuária moderna, produtividade não depende apenas do que os olhos enxergam – controlar bem as verminoses é proteger o potencial produtivo do rebanho.
As referências bibliográficas estão com o autor.
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Novo status sanitário do Brasil fortalece exportações paranaenses para a China
Setor pecuário do Estado espera ganhos em competitividade, demanda por proteínas e valorização da cadeia bovina.

O reconhecimento do território brasileiro como área livre de febre aftosa sem vacinação pela China terá impacto positivo para a pecuária do Paraná, conforme análise do Sistema Faep. A medida tem potencial de ampliar oportunidades comerciais para o Estado, já reconhecido como área livre da doença desde 2021. A decisão do governo chinês ocorre após mais de duas décadas de negociações e elimina restrições sanitárias que ainda limitavam parte das exportações brasileiras de produtos da pecuária.

Foto: Shutterstock
O anúncio ocorre um ano após a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) reconhecer o Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação, resultado de um processo de décadas envolvendo produtores rurais, serviços veterinários oficiais e governos estaduais.
“O elevado status sanitário paranaense e a organização da cadeia pecuária colocam o Estado em posição favorável para aproveitar o novo cenário comercial. O principal reflexo esperado é o fortalecimento da competitividade das nossas proteínas, ainda mais para um mercado consumidor com alta demanda, como a China”, avalia o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette.
Na prática, a decisão pode resultar em aumento da demanda chinesa por proteínas animais produzidas no Brasil, mais oportunidades para frigoríficos exportadores instalados no Paraná, sustentação ou valorização dos preços do boi gordo em caso de crescimento das exportações e efeitos positivos no mercado de reposição, especialmente para bezerros e garrotes.

Foto: Thais Rodrigues de Sousa
Segundo o técnico do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema Faep Fábio Peixoto Mezzadri, os números já demonstram a relevância do mercado chinês para a pecuária de corte bovino paranaense. “Em 2025, o Paraná exportou 23,5 mil toneladas de produtos bovinos para China, movimentando US$ 126,9 milhões. O principal volume corresponde às carnes bovinas congeladas desossadas, responsáveis pela maior parte do valor exportado pelo Estado”, explica.
Principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, a China respondeu por mais de US$ 50 bilhões em compras do setor em 2025. “O reconhecimento sanitário reforça a confiança nas cadeias produtivas nacionais e fortalece a parceria estratégica entre os dois países, ao mesmo tempo em que cria novas possibilidades de expansão para produtores e exportadores brasileiros e, especialmente, os paranaenses”, conclui Mezzadri.
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Pecuária impulsiona alta de 4% nas vendas de suplementos minerais
Exportações aquecidas, valorização da cria e período seco sustentam crescimento do mercado.

As vendas de suplementos minerais para pecuária começaram 2026 em ritmo de crescimento. Entre janeiro e abril, as indústrias associadas à Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (Asbram) comercializaram 764,8 mil toneladas de produtos, volume 4% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Apenas em abril, as vendas alcançaram 210,4 mil toneladas, alta de 4,9%.
Os números foram apresentados durante o Painel de Mercado da entidade, realizado em São Paulo, e refletem um cenário favorável para a pecuária brasileira, impulsionado pela valorização dos animais, pelo avanço das exportações e pela necessidade de suplementação durante o período seco.

O aumento no volume comercializado foi acompanhado por uma expansão ainda mais expressiva do número de animais atendidos. Segundo o economista Felippe Cauê Serigati, pesquisador da FGV Agro, a quantidade de bovinos suplementados cresceu 8% no primeiro quadrimestre, alcançando 68 milhões de cabeças.
O crescimento foi puxado principalmente pelos produtos das categorias Núcleos e Pronto para Uso. “A tendência é que os bons resultados continuem durante o período seco de outono-inverno, impulsionados pela necessidade de suplementação nutricional, pela valorização da cria e pelo bom momento da pecuária brasileira. Apesar dos desafios internos e externos, a economia brasileira deve seguir crescendo e a carne bovina continuará forte em produção, exportações, abates e consumo interno”, afirmou Serigati.
Exportações sustentam otimismo na pecuária

Foto: Gisele Rosso
Durante o encontro, o professor da Universidade de São Paulo (USP) Marcos Fava Neves destacou o fortalecimento das cadeias de proteína animal como um dos principais motores da economia brasileira. “Estamos assistindo a uma verdadeira ‘carnificação’ da economia brasileira, fortalecendo o interior do país e integrando cadeias produtivas como DDG, farelo de soja, biogás, biometano e biodiesel. O agro brasileiro está construindo um modelo cada vez mais eficiente e sustentável”, enfatizou.
Segundo o profissional, o mercado internacional segue favorecendo a pecuária brasileira. Ele destacou o aumento das compras pelos Estados Unidos e a manutenção da demanda chinesa pela carne bovina nacional. “Os Estados Unidos estão comprando muito e a China segue demandando carne brasileira, inclusive por caminhos alternativos. Hoje, exportamos cerca de 4 milhões de toneladas por ano e podemos chegar a 5 milhões até 2035”, frisou.
Economia cresce, mas desafios permanecem
A avaliação dos participantes do painel é que o Brasil continua apresentando crescimento econômico em 2026, apesar do ambiente marcado por inflação elevada, juros altos e aumento do custo dos alimentos.
A projeção apresentada por Serigati aponta expansão de aproximadamente 1,9% do PIB neste ano, sustentada pelo consumo das famílias, aumento da renda e desempenho das exportações, especialmente do agronegócio. “O Brasil possui petróleo para exportar e está menos vulnerável do que outras economias globais. Porém, o crescimento atual ocorre sem sustentação fiscal, os juros devem cair lentamente e o endividamento das famílias continua elevado”, ponderou.
Cenário internacional exige atenção
As tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã também entraram na pauta do evento. A possibilidade de interrupções no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz tem provocado volatilidade nos mercados de energia e insumos.
Mesmo assim, a avaliação dos especialistas é que o Brasil permanece em posição relativamente favorável por sua condição de exportador de alimentos e energia.
Para Fava Neves, as oportunidades para o agronegócio continuam robustas, mas exigem gestão profissional dentro das propriedades. “O mundo está turbulento, mas continuará precisando de alimentos. O Brasil é a cozinha do planeta e terá papel fundamental no abastecimento global diante da urbanização, do aumento da renda e do crescimento do consumo de proteína animal”, ressaltou.
Ele acrescentou que fatores como clima, custos de produção, sanidade, mão de obra e endividamento devem permanecer no radar dos produtores.
Logística reversa preocupa empresas
Além das questões de mercado, o encontro abordou temas regulatórios que preocupam o setor. Um deles é a logística reversa das embalagens, assunto que ainda não possui regulamentação definitiva para a cadeia de suplementos minerais.
Segundo a Asbram, empresas vêm sendo autuadas em estados como Goiás, Mato Grosso e São Paulo, apesar da ausência de obrigatoriedade formal para implantação do sistema. A recomendação da entidade é que as companhias apresentem recursos administrativos enquanto o tema continua em discussão.
Asbram prepara livro sobre 30 anos de atuação
A associação também anunciou o lançamento de um livro comemorativo aos seus 30 anos, previsto para ser apresentado durante o simpósio da entidade em 2027. A publicação reunirá a trajetória da Asbram e das cerca de 100 empresas associadas, registrando três décadas de atuação na nutrição do rebanho bovino brasileiro. “Vamos registrar nossa história, nossas ações, eventos, campanhas, debates e o trabalho técnico desenvolvido ao longo dessas três décadas. 2026 é um ano desafiador, mas acreditamos que, nos próximos dez anos, a pecuária será o maior setor do agronegócio brasileiro”, salientou Elizabeth Chagas.
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Carne bovina está entre os cinco produtos brasileiros mais exportados para os Estados Unidos
Levantamento da Comex Stat mostra que siderurgia, petróleo, proteína animal e setor aeronáutico lideram as vendas brasileiras ao mercado norte-americano.

A carne bovina ocupa a terceira posição entre os produtos brasileiros mais exportados para os Estados Unidos, segundo dados da Comex Stat. O produto respondeu por US$ 814,6 milhões em embarques e representou 7,5% do valor total exportado pelo Brasil para o mercado norte-americano no período analisado.

Foto: Shutterstock
O ranking evidencia a importância do agronegócio na pauta comercial entre os dois países, mas também mostra o peso de setores como siderurgia, petróleo e indústria aeronáutica nas exportações brasileiras.
Na liderança aparecem os produtos semiacabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço, com vendas de US$ 1 bilhão, equivalentes a 9,2% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. Em segundo lugar estão os óleos brutos de petróleo ou de minerais betuminosos crus, que somaram US$ 857,5 milhões e participação de 7,9%.
Além da carne bovina, a lista dos cinco principais produtos exportados inclui aeronaves e outros equipamentos,

Foto: Shutterstock
incluindo peças e componentes, com US$ 768,3 milhões e participação de 7% nas vendas externas. Fechando o ranking aparece o ferro-gusa, ferro-esponja, grânulos, pó de ferro ou aço e ferro-ligas, que movimentaram US$ 594,1 milhões, o equivalente a 5,4% do total exportado.
Agro ganha relevância em meio ao debate tarifário
Os números ganham relevância em um momento de atenção do setor exportador às medidas comerciais anunciadas pelos Estados Unidos. A carne bovina é um dos produtos mais relevantes do agronegócio brasileiro no mercado americano e figura entre os itens estratégicos da pauta bilateral.

Foto: Shutterstock
O levantamento também mostra que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos é marcada por uma diversificação de produtos, envolvendo commodities agrícolas, minerais, petróleo e bens industrializados de maior valor agregado.
Cinco produtos representam mais de um terço das exportações
Somados, os cinco principais produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos representam cerca de 37% do valor total embarcado ao país, demonstrando forte concentração em alguns segmentos específicos da economia.
A presença simultânea de produtos do agronegócio, mineração, energia e indústria reforça a importância do mercado norte-americano para diferentes cadeias produtivas brasileiras e ajuda a explicar a preocupação de exportadores diante de possíveis mudanças nas regras comerciais entre os dois países.



