Bovinos / Grãos / Máquinas
Microminerais são aliados da saúde, longevidade e produtividade dos animais
Alimentação equilibrada é o principal insumo responsável pela eficiência produtiva do animal, atuando diretamente na saúde, na longevidade e na produtividade
Artigo escrito por Rogério Isler, gerente de Contas Ruminantes da Zinpro Animal Nutrition Brasil
A alimentação equilibrada é o principal insumo responsável pela eficiência produtiva do animal, atuando diretamente na saúde, na longevidade e na produtividade. E, para garantir esse bom desenvolvimento, os microminerais são importantes aliados para suprir as necessidades nutricionais e para a obtenção desses resultados. A ingestão e absorção adequada dos nutrientes é necessária para uma variedade de funções metabólicas, incluindo a resposta imunológica, a reprodução e o crescimento.
Nesse contexto, as estratégias de suplementação mineral tornam-se complexas, pois variações no status micromineral dos animais são comuns, e a adequação é importante para obter a produção ideal em sistemas produtivos modernos. Por isso, é importante estar atento às suas deficiências, em especial aos tipos subclínicas ou marginais, que podem se tornar um problema maior do que a deficiência mineral aguda, devido a seus sintomas clínicos específicos, muitas vezes, não evidentes ao produtor. Nesse quadro silencioso, antes mesmo de aparecerem as evidências de deficiência clínica, os animais continuam a crescer e a se reproduzir, mas a uma taxa reduzida. À medida que o estado micromineral dos animais diminui, sua imunidade e funções enzimáticas são comprometidas, acarretando, posteriormente, perda na capacidade do crescimento máximo e da fertilidade, finalmente, impactar nas taxas normais de crescimento e fertilidade antes da evidência das deficiências clínicas.
Efeito do declínio do status de micromineral no desempenho do animal
A prevenção desse cenário depende da manutenção dos animais em estado de nutrição mineral adequado, a partir da ingestão equilibrada e da absorção dos microminerais. Para entender melhor o papel desses nutrientes na produção animal, é importante reconhecer que os microminerais são componentes funcionais de numerosos eventos metabólicos. Suas funções podem ser descritas por quatro grandes categorias: estruturais, fisiológicas, catalíticas e reguladoras.
A estrutural refere-se aos microminerais como formadores de componentes estruturais dos órgãos e dos tecidos do corpo. Um exemplo é a contribuição do zinco para a estabilidade molecular e da membrana.
A função fisiológica ocorre quando minerais em fluídos corporais e tecidos agem como eletrólitos para manter a pressão osmótica, equilíbrio ácido base e permeabilidade da membrana.
A função catalítica é provavelmente a maior categoria de microminerais, uma vez que se refere ao papel catalítico das metaloenzimas em sistemas enzimáticos e hormonais. Neste caso, os microminerais servem como componentes estruturais das metaloenzimas e sua remoção ou falta de níveis adequados representa a perda da atividade enzimática. As metaloenzimas têm uma ampla diversidade e são necessárias para várias atividades metabólicas, como a produção de energia, digestão de proteínas, replicação celular, atividade antioxidante e cicatrização de feridas.
Já na função reguladora, os microminerais contribuem para o funcionamento de outros elementos, como é o caso do zinco, que influencia a transcrição, e do iodo, que serve como componente da tiroxina, um hormônio associado à função da tireoide e ao metabolismo energético.
A importância da função enzimática em relação ao desempenho animal foi demonstrada por estudos de depleção-repleção de zinco. O zinco demonstrou ter um papel crítico nos sistemas de enzimas proteolíticas associadas à renovação das proteínas musculares. A análise mostra que o acúmulo de proteína muscular diminuiu quando o zinco suplementar foi removido da dieta de forragem basal durante 21 dias; contudo, quando o zinco foi adicionado de volta à dieta por 14 dias, o acúmulo de proteína muscular retornou aos níveis normais. Um outro estudo complementar demonstra a função do zinco em sistemas de enzimas proteicas. Após a remoção do mineral suplementar durante um período de depleção, o ganho médio diário, a conversão alimentar e a resposta imunitária mediada por células diminuíram em até 21 dias. O declínio no desempenho animal foi evidente sem uma alteração na concentração de zinco no plasma ou no fígado, sugerindo que o desempenho foi mais sensível ao estado de deficiência marginal do animal. Já a repleção, com um complexo de zinco-aminoácidos, aumentou o ganho e a conversão alimentar em três dias, potencializando a resposta imunológica dentro de 14 dias. Estes resultados sugerem que as deficiências marginais podem ocorrer em um curto período de tempo, como indicado pela perda mensurável de desempenho animal.
Influência da depleção de zinco sobre a eficiência alimentar de bezerros
Uma produção animal ideal está diretamente ligada ao equilíbrio entre os nutrientes, as proteínas, a energia, os minerais e as vitaminas. Já o equilíbrio entre os microminerais, muitas vezes, representa um grande desafio, que merece considerações a parte, devido às interações de antagonismo que podem ocorrer entre os minerais. Alguns exemplos reconhecidos incluem o impacto negativo dos altos níveis de molibdênio e enxofre na absorção de cobre, a interferência causada por altos níveis de ferro para absorção de zinco, cobre e manganês e a diminuição da absorção de zinco na presença de cálcio elevado na dieta.
Efeito antagonista do enxofre e molibdênio na absorção de cobre
Uma interação que é frequentemente negligenciada acontece entre o zinco e o cobre. A fim de manter o status ótimo de ambos os elementos, os níveis dietéticos devem estar dentro de uma razão 1:3 até 1:5 de cobre : zinco. Dados relatados por um autor mostraram o efeito negativo do zinco sobre o status do cobre. O cobre do fígado diminuiu 41% em 90 dias quando o zinco foi adicionado à dieta para fornecer 90 ppm na ingestão diária de matéria seca, sem o acréscimo de nenhum elemento adicional. O estudo também mostrou um efeito sinérgico da suplementação de zinco e cobre. O cobre do fígado aumentou 103% a partir da adição conjunta de zinco e cobre, enquanto, com a inclusão exclusiva do zinco, o crescimento chegou a 26%. Uma outra análise realizada por outro autor comprova essa influência sob a perspectiva de desempenho animal. O pesquisador submeteu grupos de bezerros a pastagens de trigo com a adição de zinco e cobre e com a suplementação isolada desses minerais. O resultado mostrou uma melhora no ganho dos animais expostos à pastagem enriquecida com os dois elementos, que apresentaram taxas superiores aos outros grupos que receberam apenas zinco ou apenas cobre.
Muitos dos sistemas produtivos atuais e as expectativas de desempenho induzem períodos de estresse para o animal, fazendo com que seu status de microminerais seja crítico para minimizar os efeitos negativos sobre a produção. Um estudo realizado por outro pesquisador aponta esse reflexo do estresse sobre a retenção de cobre. Na pesquisa, uma sequência de eventos foi realizada para simular o estresse encontrado por bezerros transportados e o valor de retenção de cobre de linha de base foi de 8,1% para o sulfato de cobre, o que está de acordo com o valor de retenção de 7,8%, pré-determinado em outro estudo de metabolismo. Mas, após a tensão induzida, a retenção de cobre diminuiu para 3,3%, devido a um aumento na excreção de cobre biliar. Estes resultados sugerem que o estresse pode potencialmente reduzir o status devido a um declínio na capacidade do animal de reter minerais específicos. Já outros autores relataram o impacto das placentas retidas, consideradas estresse, nos parâmetros de reprodução em vacas leiteiras. As vacas de controle com placentas retidas aumentaram os dias para o primeiro estro, a primeira atividade lútea e o primeiro corpo lúteo. Enquanto aquelas com status micromineral adequado, antes do estresse, não tiveram efeito nos parâmetros de reprodução quando houve retenção de placenta. Estes estudos implicam que é importante ter animais em status adequado antes e após os períodos de maior risco.
Saúde Animal
A preocupação com a saúde na produção animal é universal. Custos de medicação, perda de desempenho em animais doentes e sua morte podem reduzir muito a rentabilidade em uma operação. Por isso, é fundamental garantir um bom funcionamento do sistema imunológico do animal, que protegerá o hospedeiro contra a invasão de bactérias, fungos, parasitas e vírus. Os microminerais – zinco, ferro, cobre, manganês e selênio – são importantes aliados nesse desafio, favorecendo o desempenho normal da função imune e a resistência às doenças. Contudo, a deficiência em um ou mais desses elementos pode comprometer a imunocompetência de um animal.
O primeiro nível de defesa no sistema imunológico é a pele, formada pelo tecido epitelial – que também reveste os tratos respiratório, gastrointestinal e reprodutivo. Os microminerais zinco e manganês são fundamentais para manter a integridade e saúde desse tecido, contribuindo para a redução da infiltração por agentes patogênicos. Estudos realizados com frangos de corte apontam que a partir da adição de complexo de zinco-aminoácidos e complexo de manganês-aminoácidos à dieta, houve menos escoriações de pele e maior porcentagem de patas aceitáveis, contribuindo para o aumento do valor de carcaça.
Para se desenvolver com eficiência produtiva, o animal necessita de um sistema imunológico capaz de responder a qualquer desafio, seja a um antígeno estranho – introduzido por vacina – ou situações prejudiciais enfrentadas no ambiente de produção. Para isso, produz células e proteínas específicas que vão neutralizar ou destruir esses antígenos específicos, o que chamamos de resposta imune adquirida. O sistema imunológico pode ser dividido em duas categorias: imunidade específica, referida como mediada por células e humoral, ou ação de imunidade inespecífica de fagócitos, macrófagos e neutrófilos polimorfonucleares.
A atuação do cobre sobre o sistema imunológico desencadeia a produção de energia e de enzimas antioxidantes, além da produção e atividade de neutrófilos, e do desenvolvimento de anticorpos e replicação de linfócitos. Sua importância para a manutenção das funções desse sistema foi demonstrada em vários estudos, que observam resultados relacionados à suplementação ou deficiência desses microminerais.
– Protetor para doenças infecciosas: os desafios virais e bacterianos aumentam a ceruloplasmina sérica e o cobre plasmático em bovinos bem suplementados com cobre
– Reflexo na imunidade: o baixo status de cobre resultou em diminuição da imunidade humoral e mediada por células, bem como diminuição da capacidade bactericida de neutrófilos em novilhos
– Linfócitos e neutrófilos: as atividades in vitro de linfócitos T e neutrófilos isolados de ratos machos adultos, alimentados cronicamente com uma dieta marginalmente baixa em cobre, foram suprimidas de forma significativa, sem alterações nos indicadores tradicionais de status do cobre
– Desenvolvimento de bezerros: reservas abaixo do normal em tecidos fetal de bezerros como resultado da deficiência na mãe podem prejudicar o desenvolvimento e o crescimento
– Saúde de bezerros: aumento da incidência de diarreia, ocorrência de úlceras abomasais logo após o nascimento e problemas respiratórios foram atribuídos a níveis inadequados de cobre em bezerros recém-nascidos
O zinco também desempenha funções importantes no sistema imunológico. Ele favorece a produção de energia, a síntese proteica, a estabilização de membranas contra endotoxinas bacterianas, a produção de enzimas antioxidantes e de anticorpos, além da manutenção da replicação de linfócitos. Estudos comprovam que sua deficiência impacta na diminuição da imunidade celular e da resposta de anticorpos e no crescimento desregulado do tecido T-dependente. Já sua suplementação aumenta a taxa de recuperação em bovinos estressados e infectados com o vírus da rinotraqueíte bovina; resulta em menos infecções da glândula mamária em vacas leiteiras durante a lactação; contribui de forma significativa para a redução da mortalidade precoce de perus, aliado ao aumento dos níveis de manganês e a variação dessas fontes na dieta, conforme apontam pesquisadores da Carolina do Norte, EUA. Já o estudo realizado por outro autor demonstrou que a zinco metionina aumenta o título de anticorpos contra herpesvirsu-1 bovino.
Todo esse panorama científico reitera a importância da nutrição micromineral e que a adição de complexos de microminerais-aminoácidos à alimentação trazem inúmeros benefícios para o animal ao longo de toda a sua vida – da fecundação a toda sua fase produtiva, com respostas marcantes no que se refere ao desenvolvimento do sistema imunológico, ao crescimento, à produção e reprodução. Por isso, é tão importante compreender as complexidades de cada categoria e identificar os nutrientes que farão a diferença no final do dia e contribuirão para uma eficiência produtiva rentável.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de março/abril de 2017 ou online.
Fonte: O Presente Rural

Bovinos / Grãos / Máquinas
Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


