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Micotoxinas: histórico e aspectos gerais
Muitas vezes, é possível prever a contaminação por micotoxinas nos grãos baseados na observação das doenças nas lavouras

*Por André Viana, Doutor e Gerente Geral de Serviços Técnicos e P&D com coautoria de Jaqueline de Paula Gobi, Doutora e Gerente de Nutrição e Formulação da Polinutri
Microtoxinas são conjuntos de substâncias tóxicas ao homem e aos animais domésticos, quimicamente complexas e pouco relacionadas entre si, sintetizadas como metabólitos secundários (não necessários ao crescimento normal, desenvolvimento e reprodução) por certos fungos pluricelulares ou filamentosos, também conhecidos como bolores ou mofos (COKER; JONES; NAGLER, 1984). Acredita-se que a função biológica das micotoxinas seja atuar como fator de competição com bactérias pelo substrato ou, ainda, que as micotoxinas sejam produzidas como um erro ou desvio do metabolismo fúngico durante estresse ambiental ou como simples acaso da programação genética de fungos.
Estima-se que hoje sejam conhecidos 20% dos fungos e que as 300 micotoxinas conhecidas representem cerca desse 2% total. Segundo a FAO, 25% dos alimentos do mundo estão contaminados por micotoxinas e, de acordo com o Banco Mundial, 40% do tempo de vida de indivíduos de países em desenvolvimento são perdidas em função de doenças moduladas por toxinas fônicas. No Brasil, dados do LAMIC de 215 mil amostras de ingredientes e rações analisadas apontam para uma contaminação de aproximadamente 35% dessas amostras por aflatoxinas, 33% para zearalenona, 69% para fumonisinas, 44% de desoxinivalenol, 4% para ocratoxina e diacetoxyscirpenol e 1% para toxina T-2.
Há muitos séculos se conhece a toxidade de certos fungos, havendo relatos de problemas ocasionados pela contaminação de alimentos por fungos na China, Grécia e Egito. Entretanto, somente por volta de 1850 – quando se relacionou a ingestão de centeio infectado pelo fungo Claviceps purpurea com as características clínicas do ergotismo, tais como gangrenas, convulsão e alucinações (Figura 1) — foi levantada a possibilidade de haver risco à saúde humana e animal pela ingestão de metabólitos tóxicos produzidos por fungos (SANTURIO, 2000). Algum tempo depois, foram observadas outras micotoxicoses que afetavam os seres humanos, com a identificação de uma síndrome relacionada com o consumo de pão contaminado por Fusarium graminearum: a chamada estaquibotritoxicose humana, além de estudos sobre a chamada aleucia tóxica alimentar (ATA) e o consumo de cereais de inverno infectados por Fusarium poae e Fusarium sporotrichioides.
Os fungos produtores das micotoxinas de maior importância pertencem aos gêneros Aspergillus (produtores de aflatoxinas), Penicillium (produtores de ocratoxinas) e Fusarium (produtores de desoxinivalenol, toxina T-2, zearalenona, ergotoxinas e fumonisinas). Fungos desses gêneros têm alta capacidade de acumulação em alimentos e rações, em quantidades capazes de causar efeitos tóxicos, denominado micotoxicoses, tanto em animais quanto em seres humanos.
Os diferentes gêneros e espécies de fungos apresentam diferentes temperaturas ótimas de crescimento, o que explica por que em zonas tropicais e subtropicais em geral há uma prevalência de ocorrência de aflatoxinas, enquanto em zonas temperadas há uma prevalência de tricotecenos.
As micotoxicoses têm seu grau de severidade influenciado por inúmeros fatores, dentre os quais podemos citar espécie animal, sexo, idade, estado de saúde e conforto do animal e quantidade ingerida e acumulada no organismo da micotoxina. A presença de determinada micotoxina pode ainda potencializar a ação de outra, exemplificada pelo sinergismo entre aflatoxinas e fumonisinas. A ação combinatória de ambas é capaz de causar câncer, teratogênese, alterar a fisiologia reprodutiva dos animais, diminuirá atividade do sistema imune de animais, aumentando a susceptibilidade a doenças, reduzir o desempenho dos animais, ocorrendo queda no ganho de peso e consumo de ração e aumento do índice de conversão alimentar. Podem, ainda, provocar lesões em músculos ou órgãos (fígado, moela, rins, pâncreas, intestino, bolsa de fabricius, coração, sistema nervoso, etc.) causando rejeição de carcaças nos abatedouros e frigoríficos. Provocam redução na secreção e atividade de enzimas digestivas. Assim, níveis aparentemente baixos de toxinas individuais tornam-se importantes quando combinados.
O mais conhecido subgrupo de micotoxinas pelo homem são as aflatoxinas, que foram identificadas na década de 1960, devido a uma intoxicação conhecida como “Turkey X Disease”, episódio no qual milhares de perus morreram ao consumirem tortas de amendoim oriundas do Brasil. A elucidação da estrutura dos metabólitos tóxicos e a descoberta de propriedades hepatotóxicas e hepatocarcinogênicas de algumas linhagens de Aspergillus flavus e Aspergillus parasiticus ocasionou uma verdadeira revolução já que pela primeira vez na história encontrava-se uma substância produzida por um ser vivo capaz de causar câncer.
A identificação desse episódio deu-se por Stevens et al. (1960) embora, na ocasião, pesquisadores brasileiros já tivessem identificado o farelo de amendoim como responsável por anomalias em aves. Nesses casos, os animais morriam geralmente dentro de uma semana, tendo como principais sintomas perda de apetite, diminuição da mobilidade, fraqueza das asas e pernas com lesões necróticas no fígado e congestionamento dos rins à necropsia, sem isolamento de agentes infecciosos. A mudança na alimentação dos animais frequentemente cessava a mortalidade.
A então chamada “Turkey X Disease”, batizada por W. P. Blount em agosto de 1960, foi responsabilizada pela morte de mais de 100 mil aves de maio a agosto de 1960. O fato provocou inclusive o acionamento da Scotland Yard para pesquisa de inseticidas e venenos nas rações. Logo depois, entretanto, vários pesquisadores passaram a indicar a torta de amendoim proveniente do Brasil como fator comum à enfermidade (ASPLIN; CARNAGHAN, 1961; CARNAGHAN; SARGEANT, 1961; LANCASTER et al., 1961; SARGEANT et al., 1961), e outros, paralelamente, notaram que alguns lotes de torta de amendoim oriundos de outros países também causavam os sintomas (ASPLIN; CARNAGHAN, 1960).
Nesse cenário, logo se estabeleceu que um conjunto de substâncias produzidas por fungos de gênero Aspergillus, solúveis em clorofórmio e que apresentavam fluorescência sob a lâmpada de UV, eram as responsáveis pela enfermidade das aves. Tal substância recebeu o nome de aflatoxina (A. flavus toxina). Estudos desenvolvidos por De longh et al. (1962) e Hartley et al. (1963) demonstraram que o extrato clorofórmico possuía quatro frações, duas com fluorescência azul (Blue — B1 e B2) e duas com fluorescência verde (Green — G1 e G2). Hartley et al. (1963) evidenciaram, ainda, a presença de anéis bisfuranos nas aflatoxinas B1 e G1, o qual é hidrogenado nas aflatoxinas B2 e G2. Finalmente, Asao et al. (1963), Chang et al. (1963) e Van Dorp et al. (1963) determinaram as estruturas completas dessas quatro aflatoxinas.
Posteriormente, verificou-se que as aflatoxinas podiam ser biotransformadas no organismo, sendo encontradas nos tecidos, no leite de vacas e ovelhas e até em ovos. Essa toxina foi denominada aflatoxina M (milk) para indicar o isolamento inicial que foi realizado no leite e é considerada o metabólico mais tóxico dentre todos os produzidos pela aflatoxina B1. A conversão de aflatoxina B1 para aflatoxina M1 ocorre no fígado — produzida pela hidroxilação do quarto carbono da molécula de aflatoxina B1 — de animais que tenham consumido alimentos contaminados por aflatoxina B1 (APPLEBAUM, 1982).
A espécie Aspergillus flavus não é a única a produzir aflatoxinas. A. nominus e A. parasiticus também podem produzir essa toxina. A. flavus pode ainda sintetizar outras micotoxinas que, por sua vez, podem ter efeito sinérgico sobre aflatoxinas.
A simples presença dos fungos, entretanto, não basta para que se possa afirmar que o substrato esteja contaminado por micotoxinas, do mesmo modo que a ausência de fungos no substrato não garante a ausência de micotoxinas. Problemas de amostragem são um pesadelo para os profissionais da área. Se apenas uma pequena parte do substrato (um local de condensação de umidade no silo, por exemplo) estiver contaminada, conseguir retirar uma amostra desse local pode ser muitas vezes comparado a, literalmente, achar uma agulha no palheiro. E caso esse local venha a ser amostrado, a concentração de micotoxinas à análise deverá ser infinitamente superior à média geral do lote.
Estima-se que menos de 20% do erro total quando se estima a contaminação de um lote de grãos por micotoxinas esteja relacionado à metodologia analítica. Aproximadamente 50% do erro é atribuído à amostragem do lote e cerca de 30% ao próprio quarteamento da amostra no laboratório. Por esse motivo, quando encontramos um baixo valor de alguma micotoxina, devido a toda essa variação não devemos desprezar a possibilidade de haver partes do lote com contaminação capaz de causar danos e, por isso, é importantíssimo o diagnóstico veterinário dos sintomas específicos e inespecíficos das diferentes micotoxinas. É como se estivéssemos apenas enxergando a ponta do iceberg.
Sintomas de micotoxicoses podem desaparecer tão rapidamente quanto aparecem, sem que uma amostra de ração analisada apresente resultado positivo, devido às características de várias micotoxinas apresentarem efeito cumulativo, demonstrando sintomas mais característicos quando o lote contaminado já foi todo consumido; por isso, recebe a denominação de “o mal invisível”. Entretanto, as micotoxinas não devem ser usadas como resposta para todos os problemas que aparecem nas granjas, que muitas vezes não são causados por elas, mas que acabam assim sendo responsabilizadas por vários erros de manejo, ambiência, alimentação, etc.
A contaminação dos substratos estende-se desde o campo até a estocagem. No campo, a contaminação pode iniciar-se antes mesmo da colheita por infestação de insetos nos grãos, os quais criam aberturas de galerias e assim facilitam a inoculação de esporos durante a mecanização, no transporte e na secagem dos grãos, sobretudo se realizada de forma inadequada. A contaminação durante a industrialização também são momentos de grande susceptibilidade ao desenvolvimento dos fungos, porém, acredita-se que seja na estocagem que a contaminação por Aspergillus flavus e outros fungos, acentua-se.
Assim, levando-se em conta as condições ambientais favoráveis a estes fungos, podemos entender o porquê de em zonas tropicais, como o Brasil, 80% dos problemas com micotoxinas estarem relacionados ao Aspergillus flavus, um fungo que cresce com temperatura e umidade elevadas (RUSTOM, 1997).
Muitas vezes, é possível prever a contaminação por micotoxinas nos grãos baseados na observação das doenças nas lavouras. Podemos associar à aflatoxina a ocorrência da podridão da espiga por Aspergillus, a fumonisina à podridão da espiga e da haste por Fusarium, a zearalenona e o desoxinivalenol à ocorrência da podridão da espiga por Gibberella e à ferrugem no trigo, e os alcaloides do Ergot a ocorrência do esporão-do-centeio.
Para reduzir a contaminação por micotoxinas antes da colheita dos grãos, as principais estratégias usadas pela indústria são o uso de genótipos resistentes a contaminação por fungos, práticas agrícolas que reduzem a exposição aos fungos, acompanhamento das condições climáticas na semana da colheita e o uso de sementes transgênicas (com menores danos por insetos, os grãos de sementes transgênicas são em geral menos contaminados).
Após contaminados, os grãos passam a ser um problema na cadeia de produção animal e na alimentação humana. Mas ainda há alternativas, sendo as principais:
• detecção do problema por meio de boas técnicas de amostragem e análise;
• boas condições de transporte e de secagem e armazenamento dos grãos;
• uso de pré-limpeza removendo pó e partículas de grãos quebrados;
• prevenção de roedores e insetos;
• segregação dos lotes contaminados para uso por espécies animais mais resistentes, evitando animais novos ou em reprodução;
• uso de adsorventes e de componentes que degradam as enzimas;
• reforço das rações com vitaminas e outros nutrientes associados à eliminação das toxinas pelo organismo animal.
As principais micotoxinas de interesse na avicultura e suinocultura são as aflatoxinas, fumonisinas, zearalenona, tricotecenos, ocratoxinas, citrininas e ergotaminas.
Referências bibliográficas estão com o autor*

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Geopolítica, clima e logística entram no centro do debate da cadeia da soja
Seminário em Londrina (PR) vai reunir especialistas para discutir os desafios que podem definir a competitividade da soja brasileira nos próximos anos. As inscrições são gratuitas.

A relação comercial entre Brasil e China, os impactos das mudanças climáticas, os gargalos logísticos e a descarbonização da produção estarão entre os principais temas do 8º Seminário Desafios da Liderança Brasileira no Mercado Mundial de Soja, que será realizado nos dias 04 e 05 de agosto, na Embrapa Soja, em Londrina (PR).

Foto: R.R.Rufino/Embrapa Soja
O evento vai reunir cerca de 150 participantes, entre pesquisadores, técnicos, representantes da indústria, produtores rurais e especialistas da cadeia da soja. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo site do seminário, enquanto houver vagas.
Segundo o pesquisador Marcelo Álvares de Oliveira, da Embrapa Soja, a programação foi estruturada para discutir fatores que influenciam diretamente a competitividade do setor. “Vamos debater a geopolítica e a relação comercial entre Brasil e China, além dos desafios e oportunidades da cadeia da soja brasileira. Também teremos discussões sobre cultivares adaptadas às mudanças climáticas, logística, descarbonização e o papel do biodiesel na sustentabilidade da produção”, afirma.
Para Daniel Amaral, diretor de Economia e Assuntos Regulatórios da Abiove, manter a liderança brasileira no mercado internacional depende não apenas do volume produzido, mas também da qualidade do produto.”Preservar nossa liderança exige um debate técnico constante sobre a qualidade da soja brasileira. Garantir um produto de alto

Foto: Shutterstock
padrão para as indústrias nacional e internacional de óleos e farelos é o que realmente define a competitividade do setor”, destaca.
O seminário é promovido pela Embrapa Soja em parceria com entidades representativas da produção, da indústria e da exportação de grãos, entre elas Abiove, Anec, Aprosoja Brasil, CNA, Sistema OCB e Sindirações.
Brasil amplia liderança
O encontro ocorre em um momento de expansão da produção brasileira. Na safra 2025/26, o país colheu 180 milhões de toneladas de soja, em uma área próxima de 48 milhões de hectares, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No mesmo período, os Estados Unidos produziram 116 milhões de toneladas.
Além da produção recorde, o processamento industrial também segue em crescimento. A Abiove estima que o Brasil processe 63 milhões de toneladas de soja em 2026, com produção de 48,6 milhões de toneladas de farelo e 12,65 milhões de toneladas de óleo de soja.
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El Niño pode encher os silos e esvaziar as margens
Pesquisa aponta que o clima deve favorecer a produção agrícola, enquanto a maior oferta tende a pressionar as cotações das commodities.

O El Niño previsto para o ciclo 2026/2027 tem potencial para se tornar um dos eventos climáticos mais intensos da última década. Para a agricultura da América Latina, especialmente no Brasil e na Argentina, o fenômeno pode favorecer a produção de grãos e oleaginosas, mas também trazer um efeito colateral: mais oferta no mercado e menor rentabilidade para o produtor.

Foto: Fernando Dias
A avaliação é da Allianz Research, divisão de pesquisa macroeconômica da Allianz Trade, que analisou os impactos econômicos do fenômeno climático sobre diferentes regiões do mundo. Confira aqui o estudo completo.
Com base em episódios anteriores de El Niño, o estudo mostra que a produção agrícola brasileira tende a superar a média histórica. Em 2015, por exemplo, a safra de soja ficou cerca de 4% acima da tendência dos cinco anos anteriores, enquanto a produção de café arábica registrou desempenho aproximadamente 5% superior ao esperado.
Segundo os pesquisadores, o aumento das chuvas no Sul da América do Sul favorece o desenvolvimento das lavouras e amplia a oferta de alimentos. No entanto, esse crescimento da produção pode pressionar as cotações das commodities agrícolas, reduzindo a margem dos produtores.
Outro desafio apontado pelo levantamento é a capacidade de armazenagem. Em anos de safra cheia, a oferta elevada

Foto: Shutterstock
tende a ocupar rapidamente os silos, elevando os custos de estocagem tanto para produtores quanto para tradings.
Efeitos diferentes dentro do Brasil
Embora o El Niño favoreça boa parte das áreas agrícolas do Centro-Sul, seus efeitos não são uniformes. O estudo destaca que a Região Norte e a Amazônia podem enfrentar períodos de seca mais severos, com reflexos sobre a navegação fluvial, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento de alimentos.
Esse cenário também pode exercer pressão sobre a inflação em países como Brasil, Colômbia e Peru, principalmente por impactos na logística e nos custos de produção.
Oferta maior e preços menores
No mercado internacional, a expectativa é que o aumento da produção de soja e milho na América Latina contribua para ampliar a oferta global de alimentos e aliviar parte das pressões inflacionárias observadas em outras regiões.
Por outro lado, exportadores brasileiros podem se beneficiar do maior volume embarcado, enquanto indústrias processadoras e empresas expostas à volatilidade das commodities agrícolas tendem a enfrentar um ambiente mais desafiador diante da possibilidade de queda nos preços.
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Frete rodoviário terá novas regras, mas sem piso nacional para caminhoneiros
Proposta amplia as penalidades para quem descumprir o piso do frete, altera as regras de fiscalização e prevê atualização semestral da tabela de preços.

O piso salarial nacional de R$ 5 mil para caminhoneiros de longa distância ficou fora da versão final da Medida Provisória nº 1343/2026 que atualiza as regras do frete rodoviário. Aprovado pelo Senado, o texto segue para sanção presidencial com mudanças no cálculo do piso mínimo do frete, na fiscalização do transporte de cargas e nas penalidades aplicadas ao setor.

Foto: Geraldo Bubniak
A previsão de uma remuneração mínima mensal não fazia parte da proposta original do governo. O dispositivo foi incluído durante a tramitação na Câmara dos Deputados, mas acabou retirado pelo Senado sob o entendimento de que o tema não tinha relação direta com o conteúdo da medida provisória.
Com isso, a remuneração dos motoristas profissionais de longa distância continuará sendo definida por acordos e convenções coletivas de trabalho.
Anistia a multas
Além das mudanças nas regras do frete, a proposta concede anistia a caminhoneiros multados por bloqueios em rodovias durante as manifestações de 2022. O perdão das penalidades foi incluído durante a tramitação da medida provisória no Congresso.
O texto também transforma em advertência as multas aplicadas até a publicação da futura lei por descumprimento

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das regras do piso mínimo do frete, como o pagamento abaixo dos valores previstos na Lei nº 13.703/2018. A medida vale para processos ainda em andamento, penalidades sem decisão definitiva e multas que ainda não foram quitadas.
A conversão não se aplica a casos de fraude, uso de documentos falsos ou omissão deliberada de informações. Também não haverá devolução de valores já pagos. O direito dos transportadores de cobrar diferenças de frete e indenizações previstas em lei permanece assegurado.
Além das anistias, a proposta promove uma ampla atualização da legislação do transporte rodoviário de cargas. Entre as principais mudanças estão novos critérios para o cálculo do piso mínimo do frete, atualização semestral da tabela de referência, reforço da fiscalização, endurecimento das penalidades para quem pagar abaixo do piso, novas regras para o cadastro de transportadores e alterações na fiscalização do peso dos caminhões.

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Frete mínimo
O projeto altera as regras de cálculo dos pisos mínimos do transporte rodoviário de cargas. A tabela deverá considerar os custos operacionais da atividade, como os relacionados a combustível, manutenção, pneus, seguros, tributos, salários e tempo de carga e descarga.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) poderá firmar parceria com a Infra S.A. para elaborar os cálculos dos pisos. O texto também atualiza conceitos da legislação e cria a definição de veículo de carga de pequeno porte (com capacidade útil superior a 500 quilos e peso bruto total de até 3,5 toneladas) e a de carga a granel pressurizada (categoria utilizada para determinados tipos de transporte especializado).
A atualização da tabela de frete deverá ser semestral. Quando houver variação igual ou superior a 5% no preço dos combustíveis, a ANTT deverá publicar os novos valores em até três dias úteis.
Fiscalização
O texto aprovado também altera regras de fiscalização, cadastro e penalidades no transporte de cargas. Empresas que

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pagarem frete abaixo do piso mínimo poderão ter o registro suspenso em caso de descumprimento reiterado (com mais de quatro infrações em seis meses). As multas para reincidentes poderão variar de R$ 100 mil a R$ 1 milhão e, em caso de nova reincidência, poderão ser aplicadas em dobro. Nos casos mais graves, o Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC) poderá ser cancelado por até 24 meses.
A proposta mantém a obrigatoriedade do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), estabelece prazo de até 30 dias úteis para pagamento do frete e prevê adiantamento mínimo de 70% para transportadores autônomos. O texto também determina a revalidação anual do RNTRC e permite que inscrição, atualização e manutenção do cadastro sejam feitas gratuitamente por plataforma digital do governo federal.

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A medida também altera as regras de fiscalização do peso dos veículos de carga. Para caminhões com peso bruto total regulamentar (definido pela regulamentação) de até 74 toneladas, a verificação deverá considerar inicialmente apenas o peso total do veículo. A medição por eixo será feita quando houver excesso acima da tolerância de 5% no peso bruto total ou em situações específicas definidas pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran). O limite de tolerância para o peso por eixo permanece em 12,5% acima do permitido.
Segundo o texto, a regra busca adequar a verificação às características das operações de transporte, preservando a segurança nas rodovias e a conservação do pavimento. A proposta também prevê inspeções periódicas dos registradores de velocidade e tempo, e permite o uso dos dados do tacógrafo como prova de infrações por excesso de velocidade.
Além disso, o texto transforma em advertência as infrações administrativas relacionadas ao excesso de peso por eixo cometidas até a publicação da lei resultante da proposta. A medida alcança processos em andamento, penalidades sem decisão definitiva e multas aplicadas que ainda não tenham sido pagas. Valores já quitados não serão devolvidos.
Outros pontos
Na área previdenciária, o transportador autônomo poderá optar por recolher diretamente sua contribuição ao

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Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), desde que formalize a escolha. Com a adesão ao modelo, o próprio profissional passa a ser responsável pelo recolhimento, sem alteração das demais obrigações previdenciárias das empresas contratantes.
A MP amplia os objetivos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Transporte de Cargas Nacional (Procargas), que poderá apoiar iniciativas de renovação de caminhões e implementos rodoviários, capacitação de motoristas, adoção de tecnologias e ações de saúde e segurança. O texto também cria uma Política Nacional Permanente de Renovação da Frota, com prioridade para transportadores autônomos e cooperativas.
As novas regras terão período de transição. Sistemas, registros e autorizações atuais continuarão válidos até a regulamentação das mudanças, que deverá ser feita em até 180 dias. Empresas e transportadores terão prazo mínimo de 60 dias para adaptação às novas obrigações.



