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Mesmo com produção e estoques elevados, preços do trigo devem continuar altos

Além das questões relacionadas ao clima em países exportadores, o mercado do grão, em geral, apresenta tendência de alta, influenciando os preços do trigo

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Divulgação/AENPr

O trigo é um dos principais cereais de inverno. Neste ano, mesmo com os principais países produtores do grão sofrendo com problemas climáticos, a estimativa, segundo a StoneX, é que haja crescimento da produção e dos estoques. Além disso, a perspectiva é que também os preços permaneçam elevados. “O que vemos é uma situação de equilíbrio entre a oferta e a demanda”, afirma a especialista em Inteligência de Mercado da StoneX, Ana Luiza Lodi.

Ela esclarece que além das questões relacionadas ao clima em países exportadores, o mercado do grão, em geral, apresenta tendência de alta, influenciando os preços do trigo. “Vemos essa tendência de alta desde o início da pandemia, em abril. Houve uma puxada nos preços, com muitos moinhos adiantando as compras e os países adiantando as importações. O mercado de grãos em geral está apresentando uma tendência altista”, analisa.

Ana Luiza comenta que se fazer um balaço mundial é possível observar que na passagem da safra 2019/2020 para 2020/2021 a estimativa mostra um aumento na produção de mais de oito milhões de toneladas. Além disso, o consumo também deve crescer, mas em um ritmo mais lento. “Com isso, estamos esperando que os estoques finais mundiais possam crescer mais de 20 milhões de toneladas na safra 2020/2021, o que daria uma relação de estoque/uso acima de 42%”, explica.

De acordo com a analista, este aumento na produção se deve especialmente a alguns países que passaram a produzir mais na safra 20/21. “É possível observar com mais destaque a Austrália e a Rússia, os principais países onde podemos observar um crescimento da produção de trigo”, comenta. Segundo Ana Luiza, a Austrália mostra uma tendência de praticamente dobrar a produção do ano anterior, chegando a casa de 29 milhões de toneladas, dobrando o que teve no ciclo anterior. Além disso, a Rússia também caminha para um momento de aumento de produção, de 5 milhões de toneladas. Por outro lado, entre os países que estão perdendo produção, o destaque vai para os países da União Europeia. “Isso acontece por questão de eles terem plantado uma área menor e ter sofrido com o excesso de chuvas”, explica.

A analista conta que mesmo estando com estoques favoráveis é preciso observar que os estoques estão bastante concentrados na China e na Índia. “Estes países tem estoque de trigo consideráveis, mas eles não participam do mercado exportador. A China importa um volume considerável de trigo. Na safra 20/21 as estimas apontam que o país asiático pode ser o terceiro maior importador mundial de trigo, com 7,5 milhões de toneladas importadas”, conta.

Mesmo importando bastante, Ana Luiza explica que a China não tem relevância quando o assunto é o mercado exportador. “Dessa forma, por mais que os estoques estão crescendo, eles estão bastante concentrados em China e Índia, que são os países que não vão reforçar as exportações de trigo”, diz.

Já os outros países que exportam bastante trigo, como Rússia, Austrália, Europa e Ucrânia devem ter um crescimento, mas bem menor em comparação a China e Índia. “Então mesmo com um crescimento muito relevante dos estoques de trigo, os preços do cereal continuam sustentados em países que tem uma demanda forte e isso está dando suporte aos preços internacionais”, explica.

Além disso, a analista comenta que o mercado está olhando bastante para o clima dos principais produtores do grão no mundo. “A Argentina, por exemplo, vem de um clima bem seco recentemente. Várias regiões do país está com 20 a 40% do normal de chuva, somente. E isso já tem afetado as estimativas da produção argentina, e é um fator que está sendo monitorado”, comenta. Ana Luiza diz que a preocupação da Argentina agora também é com a La Niña, que neste período do ano tende a trazer clima mais seco para Argentina e Sul do Brasil.

Já nos Estados Unidos, se observar as chuvas do mês de outubro, é possível ver que as regiões das planícies, que é onde está o trigo de inverno do país, também está com um padrão climático bem seco. “É outro país que está sendo monitorado quanto ao clima e quanto aos possíveis impactos do La Niña também”, comenta. A Europa, explica a analista, diferente dos outros países, no mês de outubro contou com um clima mais chuvoso. E na região do Mar Negro Ana Luiza informa que o baixo nível de precipitação no mês de outubro também foi observado pelo mercado, com destaque para a Rússia que choveu 60% do normal.

Dessa forma, explica a analista, observando o comportamento mundial quanto ao trigo, a Rússia está com a produção crescente, assim com a Austrália. Por outro lado, a produção Europeia deve ficar menor na safra 20/21.

Ana Luiza diz que o Brasil também está com uma projeção positiva para produção de trigo nesse ano, apesar da geada em algumas regiões produtoras. E os Estados Unidos com uma pequena queda de produção. “Mas no geral há crescimento da produção. A Rússia crescendo, por outro lado a Europa caindo e a Austrália crescendo muito fortemente. Agora na Argentina, que é o principal exportador de trigo para o Brasil a preocupação com o clima continua, principalmente com ajustes para baixo da estimativa de safra, tanto do USDA quanto das Bolsas Argentinas”, comenta.

O trigo na América do Sul

A analista explica que na América do Sul a Argentina está com preocupação com relação ao clima seco, enquanto o Brasil tem uma perspectiva positiva para a safra de 2020. “Vendo os números da Argentina, observamos que as Bolsas do país, de Rosário e Buenos Aires, estão mais pessimistas do que as outras estimativas de produção, já estão na casa dos 17 milhões de toneladas com exportações na casa dos 11,5 milhões de toneladas, o que resultaria em um estoque final em torno de 850 mil toneladas de trigo”, comenta.

Ana Luiza informa que já o USDA está com uma projeção maior quanto a safra argentina, com um montante de 19 milhões de toneladas. “Com isso, mesmo estimando uma exportação ainda mais aquecida, os estoques da Argentina, segundo o USDA, ficariam um pouco mais folgados, em 1,6 milhão de toneladas”, conta. Já a estimativa da StoneX, informa a analista, aponta uma produção intermediária, com uma exportação mais alta do que do mostram as Bolsas argentinas e estoques abaixo de um milhão de toneladas. “A Argentina tem se consolidado como um grande exportador de trigo e não somente para o Brasil. Nós estimamos que ela deve exportar para o Brasil cerca de 5,6 milhões de toneladas, enquanto as exportações para outros destinos devem superar esse valor. Então nos últimos anos a Argentina tem diversificado bastante os destinos das exportações de trigo. Assim, por mais que o Brasil continue sendo o principal comprador do trigo argentino, o nosso vizinho tem atuado numa diversificação”, conta.

O que esperar da safra brasileira

Já olhando para a safra brasileira, a analista comenta que este ano a safra de trigo começou com uma perspectiva positiva, tendo crescimento de área significativo e a safra vinha muito bem de um modo geral, com estimativa de produção recorde. “A Conab ainda indica um recorde de produção, mas houveram geadas que afetaram o trigo em algumas regiões do Sul do país, e há redução nas estimativas de produção, não foram reduções grandes, então as estimas continuam ao redor de 6,5 milhões de toneladas produzidas de trigo no país, mas aquém do potencial inicial”, comenta.

Ana Luiza diz que o consumo brasileiro tem uma perspectiva positiva também, sendo que o Brasil deve importar 5,6 milhões de toneladas da Argentina e de outros países um pouco mais de um milhão de toneladas de trigo nessa safra. “Estamos em um momento de preços muito fortes, de dólar fortalecido, que além de impactar os preços encarece as importações. É mais caro importar com um câmbio fortalecido, um dólar forte e o Real desvalorizado e o Brasil é dependente da importação, ele não tem como não importar trigo porque a nossa produção não atende à demanda. Mas com esse cenário de preços fortes a gente deve continuar numa situação de balanço de oferta e demanda bem apertada com estoques baixos”, analisa.

Ela explica ainda que as três estimativas, da Conab, USDA e StoneX, estão com estoques abaixo de um milhão de toneladas estimadas para o final do ciclo e nos estoques de passagem também da safra anterior para essa safra foram muito baixos, porque os preços do trigo estão bem fortalecidos no mercado externo e as importações ficam bastante custosas. “No Brasil a gente também tem esse cenário de preços elevados. Se a gente olhar o preço doméstico do trigo em Real por toneladas nós vemos que houve uma leve tendência de queda recentemente, mas já começou a subir e continua sustentado mesmo com a colheita avançando”, afirma.

Gerenciando o risco na compra do trigo

Atualmente, quando alguém vai negociar trigo, existem perguntas que são feitas para saber se está bom ou não para comprar como: a quanto chega o trigo argentino no porto? Como está a paridade? E o americano? Quanto está o dólar? Será que volta ou sobe mais? “Esse é um ano difícil que nós temos que entender como uma mudança para o mercado de trigo”, afirma o analista da StoneX, Roberto Sandoli Jr.

O analista explica que há uma similaridade entre todas as perguntas feitas: trigo argentino, americano, russo e câmbio são produtos negociados em Bolsa, são todos comodities de alguma forma. “O trigo tem várias bolsas que você consegue fazer essas operações. O câmbio, que é o motivo tão falado pelo mercado de trigo, é uma ferramenta que você consegue se proteger tanto como os trigos. Hoje a dependência que temos do trigo importado, das oscilações de mercado, elas são muito grande, a volatilidade é imensa. Temos que parar de usar a bola de cristal para tomar as decisões, chegou o momento de o mercado evoluir. Nós não podemos ficar somente achando que porque tem pressão de safra o preço vai cair. Porque a Argentina vai ter uma safra grande, o preço vai cair. Nós temos que entender que fatores como pandemia, clima, El Niño, La Niña, fatores políticos e econômicos, eles não podem ser previsíveis. Você pode ter uma ideia muito interessante do que pode acontecer, mas basear as suas decisões apenas nisso, acho que é um momento de nós começarmos a repensar a forma de como é feita essa negociação de trigo. E esse ano foi o exemplo perfeito sobre isso”, afirma.

Segundo Sandoli, para que o produtor e os moinhos não tenham prejuízos na hora da compra ou da venda do trigo é preciso começar a usar as ferramentas de hedge. “As correlações existem, a dependência que temos do trigo importado é muito maior do que há cinco anos. Por isso, precisamos dar esse passo adiante e começar a usar as ferramentas que estão disponíveis para que nós não deixemos dinheiro na mesa, que é o que está acontecendo agora”, diz.

Algumas recomendações dadas pelo analista são que é preciso usar estas ferramentas que estão disponíveis e não deixar para depois. Além disso, ele diz que o mercado é soberano, por isso não devemos desafiá-lo, mas sim entendê-lo. “Se você for brigar com o mercado, vai acontecer o que está acontecendo este ano. Quase ninguém está comprando trigo, houve a oportunidade para comprar a US$ 200, não compraram e hoje está quase US$ 250. Vocês estão deixando dinheiro na mesa. Comecem a entender as ferramentas e o mercado, aceitem as mudanças, não briguem com elas”, aconselha.

Outras notícias você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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Registros genealógicos de Girolando crescem 5% e atingem marca histórica em 2025

Demanda por animais mais produtivos sustenta mercado aquecido apesar do baixo preço do leite.

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Foto: Girolando

Por mais um ano consecutivo, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando encerrou 2025 com um novo recorde histórico no Serviço de Registro Genealógico da raça. Ao todo, foram realizados 113.690 registros em todo o país, resultado 5% superior ao de 2024, quando a entidade contabilizou 108.404 animais registrados.

O desempenho chama atenção especialmente diante do cenário adverso enfrentado pela pecuária leiteira ao longo do ano. “Apesar de ter sido um ano difícil para o produtor, por conta do aumento significativo das importações de leite e do baixo preço pago pelo litro do produto, conseguimos superar tanto os números de 2024 quanto a meta estabelecida para 2025, que era de cerca de 111 mil registros. Isso confirma que a demanda pela raça Girolando segue muito firme”, afirma o presidente da Associação, Alexandre Lacerda.

Além do avanço no volume total, duas categorias do Serviço de Registro Genealógico também alcançaram marcas inéditas. O Registro Genealógico de Nascimento (RGN) fechou o ano com crescimento de 11,23%, somando 48.052 registros, enquanto o Registro Genealógico Definitivo (RGD – Genealogia Conhecida) apresentou alta de 3,69%, com 46.671 registros.

Única entidade delegada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária para executar o Serviço de Registro Genealógico da raça Girolando no Brasil – atribuição exercida desde 1989, a associação ultrapassou a marca de 2,45 milhões de registros acumulados em seu banco de dados.

Foto: Divulgacao/Girolando

Para o superintendente técnico da entidade, Leandro Paiva, a sequência de recordes está diretamente ligada à mudança de postura dos produtores diante da crise do setor. “Embora a pecuária leiteira venha enfrentando dificuldades, o mercado de animais Girolando segue aquecido. O produtor percebeu que trabalhar com animais de alto valor produtivo e genética agregada permite aumentar a produção de forma sustentável, sem elevação significativa dos custos”, explica.

Segundo Paiva, a estratégia adotada nas propriedades tem sido a substituição de vacas de baixa produção ou em final de lactação por animais mais jovens, eficientes e geneticamente superiores. “Isso tem garantido maior rentabilidade ao produtor”, ressalta. Ele acrescenta que o melhoramento genético passou a ser visto como um processo contínuo. “Quem trata o investimento em genética como uma ação pontual dificilmente alcança o ganho genético esperado. O Serviço de Registro Genealógico é a base de qualquer programa de seleção animal”, afirma.

Recém-empossado para o mandato até 2028, Alexandre Lacerda destaca que a prioridade da associação nos próximos três anos será ampliar o acesso dos criadores a tecnologias que permitam produzir mais leite com menor custo. “Dos pequenos aos grandes produtores, queremos levar soluções mais eficientes para a atividade”, pontua.

Dados da própria entidade indicam que, além do registro genealógico, os criadores têm intensificado o uso de ferramentas do Programa de Melhoramento Genético do Girolando (PMGG), como genômica, controle leiteiro, avaliações genéticas e teste de progênie. “Vamos continuar aprimorando o PMGG, que foi pioneiro na adoção da genômica no Brasil, ampliar o número de eventos oficializados e ranqueados da raça e defender políticas públicas mais justas em relação ao preço do leite”, conclui Lacerda.

Atualmente, o Girolando é a raça leiteira nacional líder na comercialização de sêmen no Brasil e na produção de embriões, consolidando sua posição estratégica na cadeia do leite.

Fonte: O Presente Rural com assessoria Girolando
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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira

Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

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Foto: Shutterstock

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.

O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta

Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.

Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.

Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem

É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.

Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

 

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.

Ajuste fino, não ruptura

A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.

Fonte: Assessoria Biond Agro
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026

Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

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Fotos: Shutterstock

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.

No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.

O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.

Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.

Padronização da produção

O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.

Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.

Mercados internacionais em expansão

O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.

Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.

Oscilações do mercado

Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.

Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.

Processo de adaptação

Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.

A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.

Gargalos persistem

Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.

A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.

Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.

Dependência do mercado interno

Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.

No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.

Pilares da pecuária

A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.

Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.

Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.

Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.

Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.

Visão de futuro

Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.

Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.

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Fonte: O Presente Rural
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