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Mercado de carbono: uma oportunidade de ouro para o agronegócio brasileiro
O produtor brasileiro, na média, já é mais sustentável que o de outras geografias. Plantio direto, por exemplo, é uma realidade. Uso de culturas de cobertura só cresce. Chegou a hora de dividir a conta de fazer essa transição no campo e de criar os incentivos para os guardiões da terra virarem também os guardiões da Terra.

Falar sobre “mercado de carbono” no contexto da agricultura é algo recente, mas que veio para ficar e já vem mudando, aos poucos, a forma como o setor opera.
Carbono vem de carona numa discussão mais ampla, sobre sustentabilidade. Sustentabilidade (com o risco de falar o óbvio) é suprir as necessidades humanas atuais garantindo que gerações futuras possam fazer o mesmo. É harmonizar desenvolvimento econômico e conservação ambiental.

Fotos: Divulgação/Arquivp OPR
Dentro da agenda de sustentabilidade, uma das principais discussões é como podemos diminuir a emissão de gases de efeito estufa (GEE), protagonistas no aquecimento global. Essas discussões seguem há décadas, mas um marco foi a COP21, em Paris, onde países se comprometeram com reduções de emissões que levem a um aumento de temperatura global de no máximo 1.5°C em 2030 e net-zero até 2050. Empresas seguiram a tendência (e a pressão) de também divulgarem seus compromissos sustentáveis, cada vez mais comuns, ainda que variem muito em escopo, cronograma e granularidade.
E a agricultura nessa história?
Falando novamente do óbvio (aviso: isso vai acontecer algumas vezes nesse artigo), agricultura é uma das formas mais antigas e essenciais de como interagimos com a natureza e moldamos o planeta. Sua criação foi um ponto de inflexão no crescimento da população da nossa espécie, saindo de ~0,5M em 50.000 BC para os quase 8B em 2024.
Agricultura é como alimentamos e vestimos essa turma toda. Para dar uma noção de grandeza:
Quase metade (46%) da superfície terrestre habitável do planeta é usada para agricultura (incluindo criação de animais)
930M de pessoas trabalham em agricultura
94% da biomassa não-humana de mamíferos é de gado (~15x maior que animais silvestres)
Pela grandeza e contato direto com a natureza, é natural de se esperar que o setor tenha um impacto ambiental relevante
70% da água doce usada é usada para agricultura
20% – 25% de emissões de GEE vem da produção de alimentos. Agricultura é o quarto maior setor em emissões depois de eletricidade e aquecimento, transporte e indústria & construção.
Mas a agricultura tem um trunfo, algo que diferencia o setor e é uma alavanca poderosa na agenda de sustentabilidade. O setor pode ser um “capturador/removedor de carbono”. Fotossíntese é uma tecnologia natural para se capturar CO2 do ar. Dependendo de como o processo produtivo é gerenciado, o setor não só pode diminuir suas emissões atuais de GEE como pode sequestrar carbono no solo.
Nesse processo produtivo existem práticas que são mais sustentáveis/regenerativas que outras, e que ao longo do tempo promovem essa redução de emissões e sequestro. Você provavelmente já ouviu falar de plantio direto, rotação de culturas, culturas de cobertura, produtos biológicos, integração lavoura-pecuária. Esses são alguns exemplos.
Promissor, não? Muito, porém essas práticas não são adotadas de maneira generalizada. Por quê? Entra em cena um ator essencial: o produtor rural.
O produtor é o “empreendedor original”. Ele toma risco – de preço de insumos, de preço de commodities, climático, logístico, para citar alguns. Ele toma decisões regularmente que podem ser a diferença entre ter
ou não margem positiva no final do ano. Além disso, são apaixonados pelo que fazem e a maioria não consegue se imaginar fazendo outra coisa. De certa forma, a relação do produtor com a terra simboliza a harmonia entre o desenvolvimento econômico e a conservação ambiental que falamos há pouco. Ele precisa extrair valor da terra para viver no presente e ao mesmo tempo conservá-la para poder viver dela no futuro e passá-la para a próxima geração. Ele é o guardião da terra.
Mais um ponto óbvio: se práticas sustentáveis não forem adotas no nível da fazenda, os benefícios não são capturados. Logo, é o produtor quem decide adotar ou não essas práticas…na prática. Essa decisão não é óbvia. Adotar essas práticas requer tempo, esforço e investimento. E se a execução não sair como o planejado – e lembre-se que a operação é a céu aberto e pragas e doenças não ligam para o seu planejamento – a produtividade da lavoura pode cair. Perda de produtividade = perda de margem na veia. E como grande parte da produção é financiada, isso pode significar ficar inadimplente frente a credores, dificultando novos financiamentos.
Para quem está no campo, fica claro que a não adoção massiva de práticas regenerativas não acontece por falta de conhecimento ou interesse dos produtores. A grande maioria sabe dos benefícios, mas eles se veem no dilema de tomar um risco econômico mensurável no curto prazo para capturar benefícios menos mensuráveis no médio prazo. O retorno vai estar lá? Eu, arrendatário, vou continuar tocando essa área? Meu negócio vai sobreviver até lá na frente para eu capturar esses benefícios?
Então a pergunta certa é: como incentivar produtores a adotarem práticas sustentáveis de maneira generalizada, reduzindo emissões de GEE e sequestrando carbono em solo?
Se o interesse em combater as mudanças climáticas não é só do produtor, mecanismos devem ser usados para compartilhar o risco de transição com outros atores interessados. Programas do governo como o ABC+ e linhas de financiamento de bancos especificas para agricultura sustentável/regenerativa são iniciativas importantes e necessárias, mas que sozinhas não resolvem o problema.
Empresas e consumidores finais também precisam ser catalizadores de mudança. A boa notícia é que eles estão entrando em campo cada vez mais. Como falamos, o número de empresas definindo e publicando seus objetivos de redução de GEE só aumenta. Isso também é verdade para empresas do agronegócio, especificamente. E mais, outros setores progressivamente veem a agricultura como uma alavanca para compensarem suas emissões.

Compensação de emissões? Como funciona isso? Entra em cena o tal do mercado de carbono.
De forma (muito) simplicista, o mercado de carbono é um mercado onde empresas (e países) que reduzem suas emissões a mais que o esperado/desejado podem vender essa diferença para outros que emitiram acima. Cada crédito de carbono representa uma tonelada de CO2eq.
Há diferentes ambientes de mercado de carbono. Via de regra, quando falamos de agricultura, estamos falando do mercado voluntário. Para mais informações sobre o funcionamento e dinâmica desses diferentes ambientes, sugiro leitura do Relatório “Oportunidades para o Brasil em Mercados de Carbono”.
Empresas podem incentivar essa adoção de práticas sustentáveis no campo e uma transição em direção a uma agricultura mais regenerativa de duas formas.
Primeiro, elas podem comprar um crédito de carbono gerado por projetos em agricultura. Desenvolvedores desses projetos garantem que as práticas regenerativas foram adotadas e seus impactos em redução de emissões e sequestro de carbono em solo foram quantificados. Esses impactos geram créditos, que são comercializados. O preço é definido pela oferta e demanda por aquele tipo de crédito. Compradores podem ser de qualquer setor e vão usar esses créditos para compensar (offset) parte de suas emissões. Do valor do crédito, uma menor parte vai para o desenvolvedor do projeto e a maior para o produtor. Esse é um incentivo adicional para a adoção das práticas.
E segundo, elas podem pagar um prêmio diretamente a produtores que produzem grãos (por exemplo) “de baixo carbono” ou “sustentáveis” – produzidos usando práticas regenerativas onde, de novo, o impacto foi quantificado. Compradores definem o valor desse prêmio – um adicional ao preço do grão “comum”. Compradores vão processar esses grãos, logo são empresas que participam da cadeia. Essas empresas podem usar as reduções de emissões quantificadas e abatê-las de seu inventário de emissões de escopo 3 (para entender o que entra em cada escopo. Aqui, o prêmio é o incentivo e não existe a emissão do crédito. Então tecnicamente não estamos falando do mercado de créditos de carbono ainda que o incentivo para a transição exista.
Essas práticas – culturas de cobertura, integração lavoura-pecuária, etc. – não são novas. Por que esses créditos e prêmios já não geram receita adicional para os produtores há muito tempo? Dois principais desafios:
Primeiro, quantificar os impactos benéficos dessas práticas não é trivial. Medir o aumento ou diminuição de moléculas no campo, a céu aberto, onde temos interação de clima, solo, planta, microrganismos, pragas, doenças, fertilizantes, defensivos e todos os tratos culturais é complexo. E mais, essa quantificação tem que ser precisa o bastante para atender os requisitos de protocolos reconhecidos e verificadoras, e (e esse é um grande “e”) precisa ser economicamente viável para o criador do programa querer fazê-lo. Esse é um balanço sensível e complexo de ser alcançado.
E segundo, conectar produtores com atores que tenham interesse em sustentabilidade de uma maneira confiável e rastreável também é desafiador. Nossa cadeia é fragmentada e tem inúmeros atores, o que deixa o
link entre o que é colhido no campo e o produto final pouco claro. Esse link é essencial para que os incentivos fluam corretamente e é um desafio executá-lo na escala gigantesca e no dinamismo da produção e comercialização agrícola.
Antes de desanimarem, a boa notícia: novas tecnologias já resolvem esses problemas.
Para atacar o problema de quantificação, com um mix de modelos biogeoquímicos, machine learning e análise de ciclo de vida conseguimos quantificar com confiança (i.e. sabendo o grau de incerteza) esses impactos. Esses modelos são comparados com experimentos e amostragens de solo para garantir aderência, mas (e esse é o pulo do gato) não dependem deles extensivamente.
Para o problema de rastreabilidade, com imagens de satélite, otimização, machine learning e plataformas digitais, empresas conseguem ter visibilidade sobre áreas que produziram os grãos que convergem para os seus armazéns (ou armazéns de intermediários de quem eles compram). Elas podem, então, estimar sua pegada de maneira contínua e ágil, tomando melhores decisões de originação.
Apesar da alta sofisticação dessas tecnologias, elas não são uma promessa. Elas já são realidade hoje.
Um exemplo é o Carbon da Indigo Ag, nos EUA. A empresa desenvolve tecnologias para agricultura sustentável e um dos carros-chefes é esse programa de créditos de carbono em agricultura, verificados pelo Climate Action Reserve (CAR), umas das principais verificadoras internacionais. Desde a sua criação esse programa tem a maior emissão acumulada de créditos verificados em agricultura do mundo, tendo mitigado ou sequestrado, em 3 safras, ~300.000 tons de CO2eq e gerado ~$12M em receita adicional para produtores.
Colocando tudo junto: práticas sustentáveis reduzem emissões e capturam carbono no solo. Produtores adotam essas práticas incentivados pelos benefícios para o solo, pelo orgulho de contribuírem (mais) com o planeta, mas também pela receita adicional. Essa receita adicional vem de duas formas, pelo crédito ou prêmio pagos. Quem paga são atores da cadeia ou empresas de outros setores com uma agenda de sustentabilidade e que querem dividir o risco da transição. Agricultura sustentável é uma alavanca poderosíssima para atacarmos o aquecimento global. Isso já é realidade.
No Brasil, especificamente, essas tecnologias ainda estão dando os primeiros passos, mas a oportunidade é enorme. O produtor brasileiro, na média, já é mais sustentável que o de outras geografias. Plantio direto, por exemplo, é uma realidade. Uso de culturas de cobertura só cresce. Chegou a hora de dividir a conta de fazer essa transição no campo e de criar os incentivos para os guardiões da terra virarem também os guardiões da Terra.

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Produzir mais já não basta para manter a competitividade
Nova vantagem competitiva da agricultura está na capacidade de reduzir riscos, estabilizar resultados e transformar sustentabilidade em valor econômico.

Nas últimas décadas, a agricultura mundial passou por uma profunda transformação. Avanços em genética, mecanização, nutrição, manejo, agricultura digital e gestão permitiram ampliar significativamente a produção de alimentos, fibras e energia renovável. O Brasil participou ativamente desse processo, consolidando-se como uma das principais potências agroambientais do mundo e como um dos maiores produtores globais de biomassa.
Entretanto, o contexto em que a agricultura opera está mudando rapidamente. Eventos climáticos extremos tornaram-se mais frequentes e intensos. Secas, ondas de calor, chuvas concentradas e maior variabilidade climática aumentam a exposição dos sistemas produtivos ao risco. Ao mesmo tempo, os mercados tornaram-se mais competitivos, o capital mais seletivo e a sociedade mais exigente em relação aos aspectos ambientais, sociais e de governança. Nesse cenário, uma nova agenda emerge como elemento central da competitividade agrícola: a previsibilidade produtiva.

Foto: Divulgação/Arquivo OPR
Produzir bem continua sendo importante. Produzir de forma sustentável também. Mas, cada vez mais, torna-se essencial produzir de forma consistente, resiliente e previsível. A capacidade de reduzir vulnerabilidades, mitigar riscos e estabilizar resultados passa a ter valor econômico crescente para produtores, agroindústrias, investidores e consumidores. Essa discussão é especialmente relevante porque a demanda global por biomassa continuará crescendo nas próximas décadas. O mundo precisará de mais alimentos, mais fibras, mais energia renovável, mais biocombustíveis, mais biomateriais e mais produtos de origem biológica. Em outras palavras, a agricultura deixa de ser vista apenas como fornecedora de alimentos e passa a ocupar papel estratégico na construção da bioeconomia global.
Nesse contexto, sustentabilidade e competitividade não devem ser interpretadas como objetivos conflitantes. Ao contrário. Os sistemas produtivos mais eficientes tendem também a apresentar melhor desempenho ambiental. Produzir mais valor por hectare significa reduzir a pressão sobre novas áreas, melhorar o aproveitamento da infraestrutura existente, aumentar a eficiência no uso de água, energia e insumos e reduzir impactos por unidade produzida. A intensificação sustentável da produção constitui, portanto, uma importante agenda ambiental.

Foto: Shutterstock
A experiência brasileira oferece exemplos relevantes dessa transformação. Entre eles, destaca-se a cadeia da cana-de-açúcar. Ao longo das últimas décadas, o setor passou por um processo intenso de modernização envolvendo mecanização, gestão de resíduos agrícolas, agricultura digital, bioenergia, bioeletricidade, bioinsumos, melhoramento genético e sistemas irrigados mais eficientes. A principal lição dessa trajetória é que os maiores avanços raramente resultaram da adoção isolada de uma única tecnologia. Eles decorreram da integração de diferentes estratégias dentro de sistemas produtivos mais sofisticados.
Essa lógica é aplicável a diversas cadeias agrícolas. Irrigação, bioinsumos, agricultura digital, genética e mecanização são ferramentas importantes, mas seus resultados dependem da forma como são integradas ao sistema produtivo. O foco deixa de ser a tecnologia isolada e passa a ser o desempenho do sistema como um todo. A previsibilidade produtiva nasce justamente dessa integração. Sistemas mais resilientes conseguem reduzir oscilações produtivas, aumentar estabilidade, proteger investimentos e melhorar a capacidade de planejamento de longo prazo. Em mercados de commodities, onde o produtor não controla o preço internacional, essa capacidade torna-se ainda mais relevante.
O produtor não controla o preço. Mas controla a forma como produz. Controla sua eficiência operacional, sua produtividade, seu nível de risco, seu custo por unidade produzida e sua capacidade de adaptação. É nesse espaço que se constrói a competitividade sustentável. Entretanto, essa adaptação não ocorre no vazio. Para transformar sistemas produtivos, o produtor precisa encontrar condições mínimas para investir, assumir risco e capturar valor. Quando essa transformação não é adequadamente remunerada, ou quando o ambiente econômico, jurídico e financeiro torna o investimento excessivamente incerto, os caminhos disponíveis se estreitam.

Foto: Rafael Soares
Em muitos casos, o produtor pode permanecer em práticas de menor custo imediato, porém menos eficientes e menos sustentáveis no médio prazo. Essas escolhas podem funcionar temporariamente, mas tendem a aumentar a vulnerabilidade e comprometer a permanência no negócio. Em outros casos, o produtor pode simplesmente decidir migrar para outras atividades, justamente no momento em que o mundo demanda mais alimentos, energia renovável e biomassa.
Essa tensão aparece de formas diferentes conforme o perfil do produtor. Pequenos produtores são frequentemente mais vulneráveis por limitações de acesso à informação, assistência técnica, crédito, seguros e escala operacional. Mas médios e grandes produtores também enfrentam desafios relevantes. Muitas das transições necessárias — irrigação eficiente, agricultura digital, mecanização avançada, recuperação de solo, bioinsumos, infraestrutura, rastreabilidade e adaptação climática — exigem investimentos elevados, planejamento de longo prazo e capacidade de remunerar capital. Isso se torna especialmente difícil em um ambiente de insegurança jurídica, políticas públicas instáveis, custo financeiro elevado e mercados sujeitos a grande volatilidade.
Portanto, o desafio não é apenas climático. É climático e econômico ao mesmo tempo. Quando eventos extremos, secas, ondas de calor e maior variabilidade produtiva se combinam com juros altos, margens apertadas, preços incertos e políticas públicas pouco previsíveis, forma-se uma espécie de tempestade perfeita. Nessas condições, mesmo produtores tecnicamente competentes podem reduzir investimentos, postergar renovação tecnológica, perder eficiência e aumentar sua exposição ao risco.
A trajetória recente do setor sucroenergético ilustra bem esse ponto. Em um período de políticas públicas mais favoráveis, crédito mais acessível e expectativa positiva para o etanol e a bioenergia, o setor investiu, expandiu capacidade produtiva e avançou em eficiência. Posteriormente, a combinação de políticas econômicas desfavoráveis, juros elevados, crise econômica, insegurança regulatória e agravamento climático contribuiu para um ciclo severo de endividamento, recuperação judicial e falências.

Foto: Divulgação
É possível que a crise econômica e política tivesse causado menor impacto se não tivesse ocorrido simultaneamente ao agravamento das secas e da instabilidade climática. Mas o inverso também é verdadeiro: um ambiente econômico mais favorável, políticas públicas mais estáveis e menor custo de capital poderiam ter reduzido o impacto das quebras produtivas causadas por secas mais intensas e sucessivas. Clima ruim em um mercado favorável pode significar perda produtiva. Clima ruim em um mercado desfavorável muda a natureza do problema: afeta caixa, capacidade de investimento, renovação tecnológica, competitividade e, em muitos casos, a própria sobrevivência do negócio.
Essa experiência mostra que sustentabilidade não pode ser tratada apenas como exigência sobre o produtor. Ela precisa ser também uma agenda de viabilidade. Sem ambiente favorável ao investimento, a transição produtiva fica mais lenta, mais cara e mais arriscada. Ao mesmo tempo, sem adaptação dos sistemas produtivos, o produtor tende a perder eficiência, aumentar sua vulnerabilidade e ampliar o risco de perda de competitividade, rentabilidade e permanência no mercado. Se o produtor não consegue remunerar adequadamente o risco de produzir melhor, a sociedade perde uma oportunidade estratégica de avançar em segurança alimentar, bioeconomia, descarbonização e competitividade.
A redução do custo por unidade produzida constitui um dos principais mecanismos pelos quais produtividade, sustentabilidade e competitividade convergem. Quanto maior a produção sustentável ao longo do tempo, maior a diluição dos custos operacionais, de capital e de estrutura. Ao mesmo tempo, sistemas mais estáveis reduzem exposição ao risco climático e econômico, aumentando a resiliência financeira dos empreendimentos.

Foto: Divulgação/C.Vale
A construção dessa nova agricultura não depende apenas dos produtores. Ela exige ecossistemas de inovação capazes de conectar pesquisa, agroindústria, empresas de tecnologia, instituições financeiras, certificadoras, investidores e organizações de articulação setorial. A velocidade de transformação dos sistemas produtivos está diretamente relacionada à capacidade de integrar essas diferentes competências em torno de objetivos comuns.
Nesse contexto, iniciativas como a Rede BRCana-ACI — uma rede constituída pela Embrapa para fomentar a adaptação da produção de cana-de-açúcar à Agricultura Climaticamente Inteligente — buscam criar ambientes para inovação, validação tecnológica, adaptação climática e construção de modelos produtivos mais resilientes.
A proposta não é apenas desenvolver novas tecnologias, mas acelerar sua adoção, ampliar sua escala de impacto e gerar evidências que apoiem decisões de investimento, financiamento e políticas públicas. Além da geração de conhecimento, sua contribuição está na transformação desse conhecimento em protocolos, metodologias, pilotos, redes colaborativas e instrumentos capazes de aumentar a confiança dos diferentes atores envolvidos na transição para sistemas produtivos mais sustentáveis e resilientes.
O Brasil reúne características singulares para liderar parte importante dessa agenda. Poucos países combinam simultaneamente escala agrícola, biodiversidade, disponibilidade de energia renovável, conhecimento tropical acumulado e capacidade de produzir alimentos, biomassa, biocombustíveis — como etanol, biometano e hidrogênio verde —, bioeletricidade, bioplásticos, biopolímeros e outros materiais e produtos de origem biológica em grande escala. Essas vantagens criam oportunidades relevantes para que o país amplie sua participação na bioeconomia global.

Foto: Shutterstock
Contudo, essa liderança não é automática. Ela dependerá da capacidade de continuar investindo em ciência, inovação, infraestrutura, qualificação profissional, adaptação climática e integração entre os diversos atores do ecossistema agroindustrial.
A nova fronteira da agricultura não será definida apenas por quem produz mais. Será definida por quem consegue produzir mais valor, com maior previsibilidade, maior resiliência climática, maior eficiência ambiental e maior competitividade econômica. Essa lógica pode ser observada na micro e na mesoescala, quando olhamos para produtores, usinas, agroindústrias, cooperativas e cadeias produtivas, considerando sua produtividade, eficiência, previsibilidade, resiliência, sustentabilidade e competitividade. Mas também pode ser vista na escala macro, quando pensamos no futuro do agro brasileiro e do próprio país: nossa previsibilidade, nossa resiliência, nossa sustentabilidade e nossa competitividade.
Nesse sentido, a agricultura brasileira não deve ser vista apenas como parte da agenda climática. Deve ser vista como uma das principais plataformas econômicas para a construção da bioeconomia do século XXI. E, nessa nova etapa, sua liderança dependerá não apenas da capacidade de produzir mais, mas da capacidade de transformar produtividade, eficiência e sustentabilidade em previsibilidade produtiva, econômica e ambiental.
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Lista de exceções reduz efeitos da nova tarifa dos Estados Unidos sobre o agro brasileiro
Medida mantém a competitividade de importantes produtos exportados pelo Brasil no mercado norte-americano.

Após semanas de expectativa, o governo dos Estados Unidos confirmou, no dia 15 de julho, a aplicação de uma tarifa adicional mínima de 25% sobre milhares de produtos brasileiros. Para os setores de frutas, legumes e verduras (FLV) e café, contudo, o impacto imediato tende a ser relativamente limitado. Isso porque grande parte dos principais produtos exportados pelo Brasil ao mercado norte-americano permaneceu na lista de exceções divulgada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), preservando a competitividade de importantes cadeias do agronegócio brasileiro.
Entre os produtos isentos estão laranja, limão, manga, mamão, abacaxi, banana, abacate, goiaba, kiwi, coco e diferentes tipos de castanhas, além do suco de laranja, do café verde, do café torrado e do café solúvel sem aromatização, bem como diversos produtos processados à base de frutas. A decisão reduz significativamente os impactos diretos da medida sobre as exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos.
Suco de laranja: principal beneficiado

Artigo escrito por Margarete Boteon, professora da Esalq/USP e coordenadora da área hortifrúti do Cepea.
O principal destaque positivo é o suco de laranja, cuja participação na pauta exportadora brasileira para os Estados Unidos permanece estratégica. Na safra 2025/26, os Estados Unidos responderam por cerca de 45% de todo o volume exportado pelo Brasil, participação semelhante à da União Europeia, consolidando-se como um dos principais destinos do produto.
Na mesma temporada, as exportações brasileiras de suco não concentrado (NFC) para os Estados Unidos cresceram cerca de 15%. Considerando-se o conjunto formado pelo suco concentrado congelado (FCOJ) e pelos demais sucos de laranja, os embarques destinados ao mercado norte-americano avançaram 18,3% em relação à safra anterior, impulsionados sobretudo pelo aumento das compras de FCOJ. A manutenção desses produtos na lista de exceções preserva a competitividade brasileira em um mercado responsável por aproximadamente 45% das exportações nacionais de suco de laranja. Embora o suco brasileiro já esteja historicamente sujeito à tarifa de importação nos Estados Unidos, a não aplicação da sobretaxa adicional de 25% evita uma perda ainda maior de competitividade frente aos concorrentes. A decisão também beneficia outros derivados da citricultura, como a polpa cítrica e os óleos essenciais, que, segundo a CitrusBR, em sua maioria também foram incluídos entre os produtos isentos da tarifa adicional.
Café: inclusão do solúvel reduz risco ao setor

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
A decisão também foi favorável ao setor cafeeiro. Em relação à proposta inicial apresentada pelo USTR, a versão final ampliou a lista de exceções, incluindo não apenas o café verde, mas também o torrado e o solúvel sem aromatização. Com isso, praticamente toda a pauta exportadora brasileira de café destinada aos Estados Unidos permaneceu fora da tarifa adicional de 25%.
A preservação dessas categorias é particularmente importante porque os Estados Unidos seguem entre os principais compradores do café brasileiro. Segundo o Cecafé, o Brasil exportou 38,46 milhões de sacas de 60 kg na temporada 2025/26, volume 15,7% inferior ao ciclo anterior em razão da menor oferta nacional. Ainda assim, a receita cambial atingiu US$ 14,6 bilhões, a segundo maior da série histórica, sustentada pelos elevados preços internacionais.
Embora o café brasileiro continue sujeito às oscilações da política comercial norte-americana, a inclusão do café torrado e, principalmente, do café solúvel entre os produtos isentos elimina um dos principais riscos apontados pelo setor durante a consulta pública conduzida pelo USTR. A decisão preserva a competitividade das exportações brasileiras e reduz potenciais impactos sobre a indústria norte-americana, altamente dependente do abastecimento externo.
Uva: principal preocupação

Fotos: Cláudio Neves
No segmento de frutas frescas, a principal preocupação concentra-se na uva. Os códigos da posição HTSUS 0806, referentes a uvas frescas e secas, não aparecem na relação oficial de exceções consultada. Caso essa condição seja mantida na versão definitiva da medida, a uva brasileira ficará sujeita à tarifa adicional de 25%.
Ainda assim, o impacto econômico tende a ser mais restrito do que em outros segmentos. As exportações brasileiras de uva para os Estados Unidos já vinham perdendo competitividade desde a imposição da tarifação anterior, reduzindo significativamente a participação desse destino nas vendas externas da fruta. Embora o mercado norte-americano representasse uma importante janela comercial, a Europa continua sendo o principal destino da uva brasileira. No entanto, a limitação dos embarques para os Estados Unidos pode impedir uma expansão dos embarques.
Cenário geral

De forma geral, a decisão do governo norte-americano preservou os principais produtos da pauta exportadora brasileira de frutas, suco de laranja e café. A permanência desses itens na lista de exceções reduz os impactos imediatos da medida sobre o agronegócio e evita perdas de competitividade em mercados considerados estratégicos para o Brasil.
Por outro lado, setores que permaneceram fora da lista, como o da uva, seguem acompanhando a regulamentação definitiva da medida e seus possíveis desdobramentos sobre o comércio bilateral.
Ressalva: Esta análise foi elaborada com base no Anexo oficial publicado pelo USTR em 4 de junho de 2026, que apresentou a proposta da medida e a relação detalhada dos códigos HTSUS inicialmente isentos, complementada pelas informações divulgadas após a decisão anunciada em 15 de julho de 2026. A confirmação definitiva para cada produto depende da publicação do Anexo consolidado correspondente à versão final da norma. Até o momento, não foi identificada evidência oficial de que a posição HTSUS 0806 (uvas frescas e secas) tenha sido incluída entre as exceções.
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Como o Brasil perdeu influência comercial
Sobretaxa imposta pelos Estados Unidos evidencia que comércio, segurança e política passaram a caminhar juntos.

O tabuleiro comercial sofreu um realinhamento profundo, e o Brasil moveu-se tarde e mal. A confirmação de que o USTR concluiu a investigação sob a Seção 301, oficializando a sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, é um revés severo. Mas, acima de tudo, é um diagnóstico implacável sobre o amadorismo e a saturação ideológica que paralisam nossa diplomacia governamental.
Diferentemente do tarifaço de 2025, derrubado por seu vício político, a investida atual possui blindagem técnica por ser um processo administrativo da Seção 301, de difícil reversão. O USTR apontou “práticas injustas”, misturando assimetrias reais (etanol, propriedade intelectual e tarifas) com pautas sobre soberania, como o escrutínio sobre decisões do STF contra big techs, combate à corrupção e desmatamento.

Artigo escrito por Márcio Coimbra, mestre em Ação Política, CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia.
Soma-se a isso a contaminação de agendas, a chamada linkage diplomacy. A recente classificação de facções brasileiras como organizações terroristas por Washington fundiu governança econômica e segurança nacional. O comércio virou moeda de troca geopolítica de alta complexidade, tabuleiro em que nossa diplomacia estatal demonstrou pouca agilidade de manobra.
Diante desse cerco previsível, Brasília respondeu com passividade técnica e retórica inflamada para consumo interno. O Planalto preferiu a inércia para explorar o desgaste eleitoralmente. Essa postura gerou forte reação da FIESP, que criticou o governo por alimentar “ruídos desnecessários” e priorizar conflitos personalistas em vez da economia. Estão certíssimos.
A ameaça da Fazenda de retaliar via “Lei de Reciprocidade” expõe um desconhecimento preocupante de mercado. Como ex-diretor da Apex-Brasil, sei que barreiras de vingança encarecem insumos, asfixiam importadores e destroem empregos logísticos. A obsessão por superávits ignora que potências modernas usam importações estrategicamente para criar dependência mútua, e não guerras emocionais.
Enquanto Brasília flerta com o confronto, os EUA dão uma aula de realpolitik. Junto aos 25%, o USTR aplicou 2.100 exceções, poupando setores como aeroespacial (Embraer), café e carnes. Onde o Brasil tem indispensabilidade estrutural, a tarifa caiu para blindar o americano da inflação e, onde somos substituíveis, fomos atingidos sem hesitação.

Foto: Marcos Oliveira/Agência Brasil
Esta assimetria ficou clara nos bastidores. Diante da omissão oficial, canais de representação setorial agiram. A articulação privada levou a Washington dados técnicos que provaram o impacto das tarifas nas próprias indústrias americanas, mitigando as sanções, esforço do qual participo ativamente nos EUA desde as primeiras medidas. A Casa Branca responde a dados e à articulação direta, não a notas de repúdio.
A lição é urgente: a inserção internacional do país não pode ser refém de voluntarismos. O protecionismo não se combate com indignação, mas com inteligência comercial. Para reaver a confiança, o Brasil precisa devolver o protagonismo à diplomacia corporativa privada. Sem eficiência interna e interlocução técnica despida de ideologia, assistiremos passivos à erosão de mercados que levamos décadas para conquistar.



