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Médico veterinário provoca (no bom sentido) pecuarista a melhorar qualidade do leite

Para conseguir ter na propriedade a qualidade do leite exigida, basta o produtor investir em pontos simples na propriedade, como manejo, sanidade, higiene e biosseguridade

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Arquivo/OP Rural

Um assunto muito discutido e que ainda gera muitas dúvidas na pecuária leiteira é sobre a qualidade do leite. Ainda são muitos os desafios enfrentados por produtores para conseguir alcançar os índices exigidos e também para serem melhor remunerados por conta da qualidade. A Contagem de Células Somáticas (CCS) e a Contagem Bacteriana Total (CBT) são dois dos maiores problemas enfrentados para conseguir estes resultados. Porém, segundo o médico veterinário e gerente de Treinamentos da Bayer Animal Health, Luciano Rodrigues, conquistar isso é muito mais simples do que se imagina.

 De acordo com ele, quando se fala em qualidade do leite, o primeiro pensamento que surge para o produtor é a necessidade de se fazer investimentos. “Ele sabe da importância da qualidade, todos são preocupados com isso. Mas eles atrelam isso à necessidade de se fazer investimentos na propriedade, e não é nada disso”, afirma.

Rodrigues comenta que quando se fala em qualidade do leite, muitos produtores perguntam o que eles ganham com isso. “Eu já respondo: você consome algo que não é controlada a qualidade? Por isso é importante deixar claro o que ele ganha fazendo isso. Porque é importante que o produtor olhe para um todo, e não somente ele, somente o indivíduo”, conta. Ele explica que é preciso que o produtor olhe para si como um empresário. “Dentro do empreendedorismo você consegue afetar ou atuar em algumas circunstâncias e em outras não. Dessa forma, sempre falamos da fazenda ideal, que é aquela que dá lucros. E para ela dar estes resultados é preciso considerar seis aspectos que são muito importantes: gestão, sanidade, nutrição, funcionários, manejo e genética”, esclarece. E quando se fala em qualidade do leite, conta Rodrigues, ele afirma que dos seis aspectos, um dos mais importantes é a sanidade.

O médico veterinário conta que é preciso considerar a importância que o leite tem no Brasil. “Somo o terceiro maior produtor mundial, é um tipo de atividade que está presente em 99% dos municípios e que gera mais de quatro milhões de empregos. Por isso é importante perceber que há 20 anos se produzia de um jeito, mas agora se produz de outro. Usamos tecnologias. E assim como o produtor está se adaptando, é preciso ver que o consumidor também está”, comenta.

Além disso, algo que muitas vezes atrapalha, “e muito”, na produção e, principalmente, no consumo do leite é a quantidade de fake news que são produzidas. “Por isso é importante também que o produtor leve boas informações ao público. Produzir leite com qualidade e levar boas informações é essencial, porque tem um monte de gente falando que leite de vaca faz mal, o que é uma mentira. Temos várias pesquisas mostrando a qualidade do leite para o ser humano”, diz.

Desafios e oportunidades na produção leiteira

Segundo Rodrigues, quando se olha toda a cadeia do leite, o consumidor, supermercado, transportador, laticínio, laboratório e então a fazenda, o único lugar onde o produtor pode interferir é no último. “Então os desafios e as oportunidades na fazendo que o produtor tem é da porteira para dentro. E neste quesito destaco três pilares essenciais: o manejo antes da ordenha, onde o produtor pode interferir controlando a mastite; o manejo no momento da ordenha, limpando os equipamentos; e o manejo depois da ordenha, com o controle de temperatura no resfriador”, afirma.

O médico veterinário apresenta os desafios e as oportunidades para o produtor como quatro super-heróis e quatro vilões. “Dessa forma, quais são os quatro desafios? A falta de higiene, bactérias (CBT), alta temperatura e a CCS alta”, explica. Já as quatro oportunidades, de acordo com ele, são a boa higiene, as células de defesa do organismo (leucócitos), a temperatura “fria” e o gerenciamento.

Entender estes conceitos ajuda também o produtor a entender como é simples a forma de conseguir um leite de boa qualidade sem muito esforço. “Quando há bactérias no ambiente e esta bactéria entra no úbere, as células de defesa também vão para este local, e assim a CCS aumenta. Então, quando você não tem uma boa higiene a CCS aumenta”, informa. Assim, quando a CCS aumenta, são diversos os prejuízos para o produtor, como a perda de produção de leite, o descarte prematuro de vacas, leite descartado devido a resíduos e despesas com tratamento. Rodrigues afirma ter medidas para tratar a mastite com higiene.

Resfriamento em números

O médico veterinário comenta da importância da higiene em todos os momentos. “Quando você tem uma ordenha suja, uma vaca com mastite, logo você terá um leite de menor qualidade”, frisa. “Se no momento da ordenha o produtor tem um local sujo, já terá um número de bactérias alto e assim ele ainda leva essas bactérias para o tanque”, comenta. Ele explica que se, por exemplo, a CBT no momento da ordenha foi de um milhão, mas o tanque estiver a 4°C, ela irá continuar com um milhão, mas não vai aumentar ou diminuir. Porém, caso seja um milhão de CBT e o produtor demorou para resfriar o leite e ele ficar, por exemplo, um dia a 15°C, esse um milhão já passará para 20 milhões. “Olha o quanto multiplicou. Isso vai afetar a qualidade do leite”, exemplifica.

Contudo, caso o produtor tenha uma ordenha limpa, controle de mastite e higiene, ele terá quatro mil CBT. “Em 24 horas essa quantidade será a mesma. Isso é o básico do controle de CCS e CBT”, conta.

Dinheiro a mais

Rodrigues comenta que o produtor não vai conseguir afetar o preço do leite no mercado mundial, mas ele consegue melhorar o preço do leite que ele recebe pela qualidade do leite. “Hoje a maioria dos laticínios paga alguns centavos a mais por qualidade do leite. Por isso eu friso que entre os quatro heróis na produção leiteira está a higiene, porque a forma de defesa do organismo da CCS é boa porque o produtor tem uma vaca com uma imunidade boa”, diz.

Registro de atividade é essencial 

O médico veterinário afirma que não tem como o produtor saber como tratar uma vaca de mastite se ele não faz o acompanhamento com anotações. “Não adianta ele comprar um monte de produtos veterinários ou tentar fazer toda uma higiene, se não tem controle dentro da fazenda. Uma vaca com mastite subclínica, por exemplo, que o produtor não anota e ordenha ela primeiro, fará com ela contamine todas as outras. E isso o pecuarista evita simplesmente anotando e fazendo o manejo, gerenciando a fazenda corretamente”, afirma.

Ele reitera que possuindo uma rotina de limpeza e fazendo as anotações corretamente, o produtor consegue diminuir, e muito, os casos de animais doentes. “Uma vaca com mastite clínica ou subclínica que o produtor ordenha por último para não afetar as outras e o gerenciamento das vacas secas diminui em 90% as infecções e também cai 90% os casos subclínicos”, menciona.

Outro gargalo importante citado pelo profissional é sobre a mensuração de dados. “O produtor brasileiro é empreendedor. Mas infelizmente não está acostumado na sua rotina em fazer anotações e ficar analisando os pontos críticos. Infelizmente o maior gargalo do gado de leite e onde ele perde em qualidade é no manejo. Ele está fazendo, mas se não mensura, não vai identificar onde atua, onde está o problema”, diz.

Qualidade não significa gastar dinheiro

Um dos grandes entraves de alguns produtores imaginam é que para ele alcançar os índices de qualidade que são exigidos, ele precisa fazer altos investimentos na fazenda. Rodrigues assegura que isso não é verdade. “Todas as técnicas são básicas para o produtor tirar leite. Hoje, ninguém mais tira leite no latão, além de possuir um resfriador. Sendo uma ordenha mecânica ou manual, seguindo os passos (higiene, células de defesa do organismo, temperatura “fria” e gerenciamento) o produtor consegue bons resultados”, garante.

Por isso, reitera, é preciso que o produtor controle o ambiente e a mastite. “São coisas que todos podem controlar, seja uma fazenda grande ou pequena. A ordenha pode ser manual, mecânica ou um robô, é possível controlar. Os equipamentos que o produtor vai usar, seja de alta ou baixa tecnologia, o que faz a diferença é a limpeza deles e o manejo das vacas secas”, afirma. Rodrigues comenta que quando fala nos desafios e oportunidades da pecuária leiteira, muitos produtores já pensam que é investimento, gastar dinheiro. “E não é nada disso, é cuidado”, reafirma.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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Nova gestão da Girolando prioriza crise do leite e inovação no campo

À frente da entidade, Alexandre Lacerda defende combate às importações e ampliação do acesso ao melhoramento genético para pequenos e médios pecuaristas.

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Foto: Divulgação/Girolando

Uma das maiores entidades do setor leiteiro do país, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando passa a ser comandada pelo pecuarista e advogado Alexandre Lopes Lacerda. A posse da Diretoria e Conselhos eleitos para o triênio 2026/2028 ocorreu na quinta-feira (26), em Uberaba (MG), e contou com a presença de diversas lideranças do agro e criadores, dentre elas a prefeita de Uberaba Elisa Araújo, os deputados federais Emidinho Madeira e Rafael Simões e o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento Thales Fernandes.

Entre as prioridades do novo presidente estão: defesa dos direitos dos produtores de leite, incluindo ações para combater a atual crise do leite; facilitar o acesso de pequenos e médios produtores às tecnologias de melhoramento genético e a animais de alta qualidade. “Queremos fortalecer o programa de melhoramento da raça Girolando, o PMGG, desenvolvendo ferramentas para potencializar a utilização das informações genética pelos criadores, permitindo a customização de índices genéticos para cada fazenda e acompanhando a evolução a cada geração. Vamos nos empenhar nesses próximos três anos para que mais e mais produtores adotem essas inovações, visando produzir um Girolando moderno, eficiente e sustentável”, assegura Lacerda.

Durante a solenidade, as lideranças presentes reforçaram a necessidade de unir forças na defesa dos direitos dos produtores rurais. Segundo o deputado Rafael Simões, uma das ações em andamento é para inibir a importação de leite do Uruguai e da Argentina, que vem prejudicando o setor. O secretário de Minas Thales Fernandes disse que o governo mineiro também vem trabalhando para vencer a atual crise do leite e para levar mais tecnologia par ao campo. O deputado Emidinho Madeira destacou a parceria com a Girolando para levar mais genética de qualidade para as pequenas propriedades leiteiras. A prefeita de Uberaba Elisa Araújo assegurou que o agro é importante para a economia da cidade e que vários projetos voltados para a pecuária estão levando mais renda para o campo.

Em seu discurso de despedida, Domício Arruda, que comandou a Girolando na gestão 2023/2025, ressaltou as realizações feitas, dentre elas a construção da Casa do Girolando no Parque Fernando Costa, a aquisição de um terreno para construção de uma nova sede, os dois anos seguidos de recordes nos registros. Segundo ele, a raça chega a 2026 mais consolidada, com várias tecnologias  de seleção dentro do PMGG e reconhecida pelo mercado internacional como a genética leiteira ideal para os trópicos.

Com mais de quatro mil associados em todo o país, a Associação de Girolando intensificará este ano ações promocionais para ampliar o consumo de leite na sociedade brasileira. Durante a Megaleite 2026, exposição nacional da raça marcada para junho, a entidade levará o tema “Aqui tem leite”, mostrando que nos mais diversos produtos, como medicamentos, alimentos, suplementos, o leite é utilizado como matéria-prima. “O leite é um produto fundamental no dia a dia das pessoas e precisamos reforçar com informações relevantes suas qualidades para o público em geral, até para combater tantas fake news que existem sobre o alimento”, diz Alexandre Lacerda, que é criador da raça Girolando há duas décadas, na Fazenda Miraí, localizada na região da Serra do Cipó, além de atuar na área de advocacia.

Fonte: Assessoria Girolando
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Lei Complementar eleva custo tributário nas cadeias de leite, café, trigo e soja

Redução linear de 10% nos benefícios fiscais federais altera créditos presumidos, cria pontos de cumulatividade e deve pressionar preços ao consumidor, com impacto também sobre fertilizantes e insumos agropecuários.

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Foto: Isabele Kleim/Divulgação

A publicação da Lei Complementar 224/2025, que promoveu um corte linear de 10% nos benefícios fiscais federais incidentes sobre diferentes elos do agronegócio, deve elevar custos ao longo das cadeias de leite, café, trigo e soja. A expectativa é de repasse gradual ao consumidor final e de reabertura do debate sobre a cumulatividade de tributos que, até então, operavam sob lógica não cumulativa.

Foto: Gilson Abreu/AEN

Na avaliação da advogada tributarista Cintia Meyer, a nova sistemática tende a gerar efeito cascata. Ao reduzir créditos presumidos e alterar incentivos, a medida amplia o custo tributário em segmentos que já enfrentam compressão de margens, pressionados por custos elevados de produção e preços internacionais deprimidos de commodities.

O Demonstrativo de Gastos Tributários (DGT) que integra a Lei Orçamentária Anual lista cerca de 300 hipóteses de benefícios fiscais, além de outras 14 tratadas especificamente na Lei Complementar 224/2025. Segundo Meyer, empresas que utilizam qualquer desses mecanismos precisarão revisar suas estruturas tributárias. “Se a empresa conta com algum desses benefícios, o impacto pode ser direto no resultado”, afirma.

Como a norma foi sancionada em dezembro, seus efeitos já alcançam o IRPJ e o Imposto de Importação desde 1º de janeiro, em respeito ao princípio da anterioridade. Para PIS, Cofins, IPI, CPS e CSLL, as novas regras passam a valer a partir de 1º de abril, ampliando o alcance da medida ao longo do primeiro semestre.

Leite tem corte em créditos e nova tributação sobre derivados

Foto: Fernando Dias

Na cadeia do leite, a Lei Complementar 224/2025 reduz de forma direta os créditos presumidos concedidos à indústria. Para os laticínios em geral, o percentual cai de 1,85% para 1,67%. Já no caso das empresas enquadradas no Programa Mais Leite Saudável, o crédito passa de 4,63% para 4,17%. Embora se trate de um benefício condicionado à realização de investimentos, o texto legal não explicita se esse mecanismo poderia ser exceção ao corte linear, o que amplia a insegurança jurídica do setor.

Em documento de perguntas e respostas, a Receita Federal informou que a aplicação do benefício deverá ser analisada “caso a caso”, de acordo com a execução dos projetos aprovados no programa, abrindo margem para interpretações distintas e potenciais questionamentos administrativos ou judiciais.

No consumo doméstico, os produtos que integram a cesta básica seguem com alíquota zero. No entanto, itens relevantes do portfólio dos laticínios, como leite fluido, soro de leite, leite fermentado e bebidas lácteas, passam a ser tributados em 0,925% de PIS/Cofins, elevando o custo ao longo da cadeia e pressionando as margens da indústria. As exportações, por força da imunidade constitucional, permanecem isentas de tributação.

Exportações de café têm redução de crédito presumido

Foto: Divulgação/Governo da Bahia

Na cadeia do café, a indústria de torrefação mantém a aplicação de alíquota zero nas vendas internas, por se tratar de produto incluído na cesta básica. A mudança ocorre nas operações de exportação. Com a Lei Complementar 224/2025, houve redução dos créditos presumidos vinculados às vendas externas.

Para o café cru, o crédito presumido sobre a aquisição de insumos recua de 7,4% para 6,66%. Já no café torrado ou solúvel, o percentual calculado sobre a receita de exportação cai de 0,925% para 0,8325%. A diminuição reduz a margem das empresas exportadoras e altera a estrutura de custos em um segmento altamente dependente do mercado internacional.

Trigo concentra efeitos mais sensíveis da mudança

Na cadeia do trigo, os efeitos são distintos e considerados mais sensíveis. Segundo a tributarista, a principal mudança atinge a aquisição do grão destinado à produção de farinha. “A operação, que antes estava sujeita à alíquota zero, passa a ser tributada sem direito a crédito para o comprador. Na prática, trata-se de um tributo não recuperável, incorporado diretamente ao custo de aquisição”, explica Cintia.

Como a farinha é insumo básico para a fabricação de pães, o impacto tende a se propagar ao longo da cadeia, elevando o custo do produto final e pressionando o preço ao consumidor.

Foto: Cleverson Beje

Além da tributação na aquisição do grão, a Lei Complementar 224/2025 também reduziu o crédito presumido de 3,24% para 2,92% para o trigo. “As vendas no mercado interno permanecem inalteradas para os produtos incluídos na cesta básica, como farinha de trigo e pré-mistura para pão, que seguem com alíquota zero. Já os itens fora desse rol, como pré-misturas para bolos, mantêm a tributação anteriormente aplicada”, detalha Cintia.

Para o advogado tributarista Luiz Eduardo Costa Lucas, a alteração cria uma distorção no sistema. Segundo ele, trata-se de um caso em que um produto que operava com alíquota zero passa a gerar incidência tributária no meio da cadeia, sem possibilidade de creditamento. “Na prática, o imposto recolhido não é recuperável, incorpora-se ao custo e reabre a discussão sobre a não cumulatividade, tema debatido desde 2004. O resultado é a transferência do encargo ao consumidor final”, pontua.

Milho tem crédito presumido reduzido ao longo da cadeia

Foto: Fernando Dias/Ascom Seapi

Estrutura semelhante foi adotada na cadeia do milho. Embora os insumos não tenham sido diretamente afetados, o crédito presumido sobre aquisições de pessoas físicas foi reduzido de 3,24% para 2,92%. No óleo de milho, tanto as vendas no mercado interno quanto as exportações tiveram o crédito presumido diminuído, de 2,498% para 2,248, ampliando a pressão sobre as margens do setor.

Óleo de soja perde desoneração e crédito é reduzido

Na cadeia da soja, a aquisição de insumos permanece sem alterações. A mudança ocorre na etapa de comercialização. O óleo de soja, atualmente enquadrado na cesta básica e sujeito à alíquota zero de PIS/Cofins, mas fora do rol previsto na reforma tributária, passará a recolher 0,925% desses tributos.

Além disso, o crédito presumido sobre as vendas de farinha de soja, óleo e resíduos foi reduzido em 10%, caindo de 2,498% para 2,248%, o que comprime as margens ao longo da cadeia.

Fertilizantes passam a ter tributação na entrada e na saída

Foto: Claudio Neves

Impacto mais amplo é observado na indústria de fertilizantes. Insumos agropecuários que até então operavam com alíquota zero de PIS/Cofins passam a ser tributados em 0,925%. O mesmo percentual incidirá sobre as vendas no mercado interno de adubos, defensivos, sementes, mudas e corretivos, que também eram desonerados.

Segundo Cintia, o efeito é cumulativo. “O segmento passa a ser tributado na aquisição, sem direito a crédito, e também na saída. No caso da importação, a indústria de fertilizantes terá de recolher PIS e Cofins sem possibilidade de compensação”, afirma a tributarista.

Na prática, trata-se de um custo adicional incorporado à formação de preços, com potencial de repercussão direta sobre os produtores rurais e, ao final da cadeia, sobre o consumidor.

Insegurança jurídica amplia risco de cumulatividade e judicialização

Diante da ausência de uma lista expressa sobre quais benefícios foram efetivamente alcançados pela Lei Complementar 224/2025, Cintia recomenda uma análise criteriosa caso a caso. Segundo ela, é necessário verificar se o tributo envolvido está entre aqueles abrangidos pela norma, como PIS, PIS-Importação, Cofins, Cofins-Importação, Imposto de Importação (II), IPI, IRPJ, CSLL e CPP.

Além disso, o benefício precisa constar no Demonstrativo de Gastos Tributários da Lei Orçamentária Anual (LOA), enquadrar-se como incentivo fiscal e não se tratar de uma exceção legal específica.

Fonte: Martinelli Advogados

Segundo Cintia, os critérios mencionados não esgotam as possibilidades de enquadramento e a interpretação dependerá, em grande medida, do entendimento adotado pela Receita Federal, aspecto que não está detalhado na Lei Complementar 224/2025. “Há situações que, em tese, não se enquadram, mas a Receita pode interpretar de forma diferente, o que pode gerar discussões amplas e até judicialização”, menciona a advogada.

Por sua vez, Costa Lucas observa que, até o fim do ano passado, não havia preocupação prática em diferenciar, sob a ótica do governo, o que seria benefício fiscal e o que configuraria gasto tributário. Anualmente, a Receita encaminha a relação de gastos, mas a nova regra levanta a dúvida sobre se todos os itens listados podem ser automaticamente classificados como benefícios. “Nem tudo que está ali necessariamente é benefício”, pontua.

Foto: Divulgação/Governo da Bahia

Para ele, é essencial verificar se o item está previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) e, além disso, se efetivamente se caracteriza como incentivo fiscal. Como não há definição legal clara sobre esse enquadramento, forma-se uma zona de incerteza. Costa Lucas destaca que o debate sobre a natureza dessas rubricas estava adormecido e volta agora ao centro da discussão. Na avaliação dele, a redução linear pode atingir mecanismos básicos do sistema, reintroduzindo cumulatividade, especialmente em cadeias do agronegócio.

Na ponta, o impacto tende a alcançar o consumidor. Isso porque o varejo passará a adquirir produtos que sofreram tributação ao longo da cadeia sem possibilidade de crédito. Como o imposto é calculado ‘por dentro’, o custo se incorpora ao preço. Na prática, segundo a tributarista, um modelo concebido como não cumulativo passa a operar com efeitos cumulativos, pressionando o valor final pago pelo consumidor.

Fonte: O Presente Rural com Martinelli Advogados
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Nelore, o boi que samba

Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

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Foto: Divulgação/ACNB

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.

A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB

Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.

Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.

A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.

À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.

Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.

O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.

Fonte: Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB).
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