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Mapa inédito revela intensificação do uso do solo e consolida 2ª safra como eixo da produção agrícola no Brasil
Levantamento do MapBiomas mostra que 32% do território nacional já é ocupado por agropecuária, com avanço do cultivo em múltiplos ciclos, forte predominância do milho na segunda safra e pastagens majoritariamente em médio e alto vigor, ampliando a produção sem abertura de novas áreas.

As atividades agropecuárias já ocupam cerca de 32% do território brasileiro, segundo dados do MapBiomas, com predominância das pastagens plantadas, que respondem por 56,7% dessa área, enquanto a agricultura representa 23%. As imagens de satélite analisadas pela iniciativa indicam um processo consistente de intensificação do uso do solo tanto nas lavouras quanto nas áreas destinadas à pecuária.
No caso da agricultura, quase dois terços das áreas ocupadas por lavouras temporárias, como soja, milho e algodão, apresentaram mais de um ciclo produtivo ao longo do ano. Ao todo, 64% dessas áreas, o equivalente a 31,4 milhões de hectares, foram cultivadas com uma segunda cultura ou com plantas de cobertura após a colheita da safra principal. Já nas pastagens, 78% da área mapeada, ou 121,4 milhões de hectares, exibem médio ou alto vigor, condição que permite elevar a taxa de lotação e aumentar o número de animais por hectare.
Esse avanço da intensificação agrícola ganha um novo retrato com o lançamento da primeira versão do mapa de agricultura de segunda safra do MapBiomas. O levantamento identifica os cultivos implantados após a colheita da safra de verão e complementa o mapa de quantidade de ciclos divulgado no ano passado. Ainda em versão beta, a base de dados cobre o período de 2000 a 2024 e se concentra nos estados com maior produção de milho e algodão de segunda safra, classificando as áreas em três categorias: milho, algodão e outras lavouras temporárias ou cultivos de cobertura.

Foto: Esmael Lopes dos Santos
Os dados mostram que o milho é, de longe, a principal cultura de segunda safra no país. Em 2024, foram identificados 14,7 milhões de hectares cultivados com milho nesse sistema, além de 2,5 milhões de hectares de algodão e 6,5 milhões de hectares ocupados por outros cultivos temporários ou espécies usadas para cobertura do solo.
De acordo com o MapBiomas, cerca de 95% das lavouras de milho de segunda safra foram implantadas após a colheita da soja, evidenciando a consolidação desse arranjo produtivo em grandes regiões agrícolas.
Para o professor Eliseu Weber, um dos coordenadores do tema de agricultura do MapBiomas, a segunda safra é um elemento central da competitividade da agricultura brasileira. “A segunda safra é um trunfo da agricultura tropical na produção de grãos. Ela incrementa o retorno econômico ao produtor e colabora na conservação da vegetação nativa, pois permite aumentar a produção sem abrir novas áreas”, afirma.
Segundo Weber, o sistema também traz ganhos agronômicos relevantes. “Além de aproveitar nutrientes remanescentes da cultura anterior, a segunda safra eleva o potencial de sequestro de carbono. O milho, em especial, deixa uma palhada abundante após a colheita, fundamental para a conservação do solo e da água e para a fixação de carbono no solo via plantio direto”, diz.
Apesar dos benefícios, o pesquisador alerta para os riscos associados ao uso mais intensivo do solo. “A expansão da segunda safra enfrenta desafios importantes. Um deles é a degradação do solo pelo uso mais intensivo, o que exige atenção redobrada às práticas de manejo”, observa. Ele acrescenta que as mudanças climáticas também impõem limites ao sistema. “Há uma tendência de redução das chuvas e de alongamento da estação seca, que pode inviabilizar a segunda safra no futuro, especialmente a do milho, em algumas regiões”, conclui.
Concentração nos principais polos do agro brasileiro

Foto: Gilson Abreu
No recorte regional, o levantamento evidencia a forte concentração da segunda safra nos principais polos do agronegócio brasileiro. Em 2024, o Mato Grosso manteve a liderança absoluta, com 7,1 milhões de hectares cultivados com milho, o equivalente a 48% de toda a área mapeada dessa cultura na segunda safra, além de 1,6 milhão de hectares de algodão. O Paraná aparece na sequência, com 5 milhões de hectares destinados à segunda safra, dos quais 2,2 milhões de hectares com milho e 2,8 milhões de hectares ocupados por outras culturas temporárias ou por plantas de cobertura.
No Mato Grosso do Sul, a segunda safra somou 2 milhões de hectares, com predominância do milho, que respondeu por 1,9 milhão de hectares, enquanto o algodão ocupou cerca de 100 mil hectares. Goiás apresentou configuração semelhante, com 2 milhões de hectares cultivados na segunda safra, sendo 1,7 milhão de hectares com milho e 300 mil hectares com algodão.
Expansão da segunda safra
A expansão da segunda safra está diretamente ligada ao avanço da soja na safra de verão. Segundo o MapBiomas, a área cultivada com soja no Brasil saltou de 4,5 milhões de hectares em 1985 para 40,7 milhões de hectares em 2024. Atualmente, quase dois terços da área agrícola mapeada no país, cerca de 65%, correspondem a lavouras de soja de primeira safra.
Intensificação do uso do solo

Foto: SAA SP
Os dados mostram ainda que a intensificação do uso do solo é regra nesse sistema. Em 2024, 65% da área ocupada por soja na primeira safra apresentou dois ciclos de cultivo, o equivalente a 26,3 milhões de hectares, enquanto 6,1% passaram por três ciclos, somando 2,5 milhões de hectares. Apenas 21% da área, cerca de 8,6 milhões de hectares, foi cultivada em um único ciclo.
Após a colheita da soja, o milho se consolida como a principal cultura sucessora. Em 2024, foram cultivados 14 milhões de hectares de milho na segunda safra, além de 2,4 milhões de hectares de algodão e 6 milhões de hectares de outras culturas temporárias. O Mato Grosso concentra a maior parte dessa dinâmica: 6,7 milhões de hectares de milho foram plantados após a soja, o que significa que 94% de todo o milho produzido no estado ocorre em sucessão à safra de verão. Na sequência aparecem o Paraná, com 2,2 milhões de hectares, e o Mato Grosso do Sul, com 1,8 milhão de hectares.
Para Kenia Mourão, coordenadora de Agricultura do MapBiomas, o novo mapeamento representa um avanço relevante na leitura do uso do solo agrícola no país. “O mapeamento das principais culturas de segunda safra no Brasil representa um avanço no entendimento do uso das áreas agrícolas do país, e sua disponibilização pelo MapBiomas marca um passo importante na superação dos desafios associados a esse tipo de monitoramento”, afirma.
Segundo ela, a diversidade climática e a extensão territorial do Brasil exigiram o desenvolvimento de uma metodologia capaz de captar diferentes calendários agrícolas. “Esse processo envolveu a análise detalhada da dinâmica agrícola de cada estado e a coleta manual e sistemática de amostras ao longo do tempo”, explica Kenia, ressaltando que os resultados estão alinhados a estimativas oficiais, como as da Conab, mas reconhece que ainda há lacunas, especialmente em estados como Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Culturas permanentes e semipermanentes
Além das lavouras temporárias, o MapBiomas também registrou a expansão de culturas permanentes e semipermanentes ao longo das últimas décadas. A área de cana-de-açúcar passou de 2,2 milhões de hectares em 1985 para 10,1 milhões de hectares em 2024.
No mesmo período, o cultivo de arroz cresceu de 390 mil para 1,1 milhão de hectares, enquanto os pomares de citrus avançaram de 100 mil para 400 mil hectares. O dendê apresentou um crescimento expressivo, saindo de 10 mil hectares em 1985 para 240 mil hectares em 2024, movimento concentrado principalmente no Pará. Já as áreas de silvicultura saltaram de 1,56 milhão para 9 milhões de hectares no período.
Uso do território
O levantamento também evidencia mudanças estruturais no uso do território. A expansão da agricultura ocorreu majoritariamente sobre áreas de pastagens, enquanto o avanço das próprias pastagens se deu, em grande parte, sobre áreas de vegetação nativa, especialmente formações florestais e savânicas.
Ainda assim, os dados indicam um movimento relevante de regeneração: ao longo das décadas, milhões de hectares de pastagens retornaram à condição de vegetação nativa, sobretudo savânica. Foram 1,4 milhão de hectares entre 1985 e 1994, 3,5 milhões entre 1995 e 2004, 3,9 milhões entre 2005 e 2014 e 4,9 milhões de hectares entre 2015 e 2024.
Áreas de pastagens brasileiras

Foto: Gisele Rosso
Apesar de metade das pastagens brasileiras ter mais de 30 anos de idade, cerca de 77,8 milhões de hectares, e um terço existir desde 1985, os indicadores de vigor apontam para um quadro relativamente favorável. Apenas 21,6% da área mapeada, ou 33,4 milhões de hectares, apresenta baixo vigor, caracterizado por menor produção de forragem e maior exposição do solo. A maior parte das pastagens está classificada entre médio vigor (43%, ou 66,6 milhões de hectares) e alto vigor (35,4%, ou 54,8 milhões de hectares).
Entre 2000 e 2024, houve ganho líquido de vigor em 6,2 milhões de hectares de pastagens. Nesse período, o vigor aumentou em 20,8 milhões de hectares, enquanto diminuiu em 14,6 milhões. Outras 62 milhões de hectares mantiveram estabilidade e 11,1 milhões de hectares evoluíram para a condição de alto vigor, reforçando o papel da intensificação e do manejo como fatores centrais para a sustentabilidade da pecuária brasileira.
Produção de biomassa
o MapBiomas incorporou ao levantamento um indicador considerado central para avaliar a capacidade produtiva das pastagens: a produção de biomassa, que expressa a quantidade de matéria vegetal disponível para a alimentação do rebanho. Quanto maior esse volume, maior é a capacidade de suporte da área. Em 2024, as pastagens brasileiras produziram cerca de 3,63 gigatoneladas de biomassa ou forragem, reforçando o papel estratégico da pecuária no uso do território nacional.
Os dados mostram diferenças relevantes entre biomas. A Amazônia apresentou a maior produtividade de biomassa de pastagem, com valores superiores a 25 toneladas por hectare ao ano. No Cerrado e no Pantanal, a produção predominante ficou na faixa de 15 a 20 toneladas por hectare ao ano.
Já na Caatinga, as pastagens exibiram produtividade mais baixa, em geral inferior a 15 toneladas por hectare ao ano. Na Mata Atlântica, a biomassa das pastagens apresentou maior variabilidade, com valores que oscilaram entre 10 e 25 toneladas por hectare ao ano, refletindo a heterogeneidade ambiental do bioma.

Foto: Breno Lobato
Apesar dos indicadores positivos, o levantamento aponta que uma parcela relevante das áreas de pastagem ainda enfrenta problemas estruturais. “Apesar dos bons indicadores de vigor e produção de forragem das pastagens brasileiras, os quase 22% de pastagens plantadas mapeadas como sendo de baixo vigor em 2024 sugerem uma condição de degradação severa”, afirma Laerte Guimarães Ferreira, coordenador do tema Pastagem no MapBiomas.
De acordo com ele, essa área, estimada em aproximadamente 34 milhões de hectares, representa um potencial estratégico. “Trata-se de uma enorme oportunidade enquanto reserva de terras para outros usos, em convergência com o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas implementado pelo governo federal”, destaca.
Concentração territorial das pastagens
A concentração territorial das pastagens também é marcante. Seis estados reúnem quase 70% de toda a área ocupada por pastagens no país. O Pará lidera, com 21,7 milhões de hectares, seguido por Mato Grosso (20,2 milhões de hectares), Minas Gerais (19,3 milhões de hectares), Bahia (14,6 milhões de hectares), Mato Grosso do Sul (12,2 milhões de hectares) e Goiás (12 milhões de hectares).
Juntos, esses estados respondem por 69,8% dos 155 milhões de hectares de pastagens mapeados no Brasil, consolidando seu peso na dinâmica da pecuária e no debate sobre intensificação produtiva e uso sustentável do solo.

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Satélite e IA mapeiam mais de 13 mil hectares de terras agrícolas abandonadas no Cerrado
Estudo pioneiro da Embrapa e UnB identifica áreas de eucalipto e pastagens subutilizadas, orientando políticas de restauração e sequestro de carbono.

Estudo pioneiro desenvolvido pela Embrapa e pela Universidade de Brasília (UnB) utilizou imagens de satélite e inteligência artificial (IA) para mapear o abandono de áreas agrícolas no Cerrado brasileiro. Resultados obtidos no município de Buritizeiro, no norte de Minas Gerais, apontam mais de 13 mil hectares de terras agrícolas abandonadas entre 2018 e 2022, o equivalente a quase 5% da área agrícola existente no início do período. Esse mapeamento detalhado representa a primeira avaliação desse tipo no bioma e pode orientar políticas públicas voltadas à restauração ecológica, à contabilização de carbono e ao planejamento territorial sustentável.
Os estudos foram conduzidos por equipes da Embrapa Cerrados (DF), Embrapa Agricultura Digital (SP) e Embrapa Meio Ambiente (SP), além da UnB. A pesquisa utilizou imagens do satélite Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia (ESA), combinadas a técnicas de aprendizado profundo (deep learning), para mapear mudanças no uso e cobertura da terra. Por meio da Rede Neural Totalmente Conectada (FCNN, sigla em inglês), modelo computacional capaz de reconhecer padrões nas imagens, os pesquisadores conseguiram classificar diferentes categorias: vegetação nativa, pastagens cultivadas, lavouras anuais, plantações de eucalipto e, de forma inédita, áreas agrícolas abandonadas. A acurácia do mapeamento foi de 94,7%, considerada excelente para classificações de uso da terra com sensoriamento remoto.
Segundo o levantamento, a maior parte das áreas abandonadas (87%) corresponde a antigas plantações de eucalipto destinadas à produção de carvão vegetal. O município de Buritizeiro destaca-se pela extensa área plantada com eucalipto, além da criação de gado bovino. “A região caracteriza-se por desafios produtivos, como baixa produtividade em pastagens durante períodos secos e custos crescentes de insumos fertilizantes, fatores que contribuem para o abandono de áreas agrícolas”, afirma o pesquisador da Embrapa Cerrados Edson Sano.
De acordo com ele, a partir das imagens analisadas, os cientistas identificaram que a maior parte das áreas abandonadas correspondia a plantios de eucalipto, tanto mal-mantidos como que transicionaram para vegetação campestre ou arbustiva depois da extração da madeira. “A predominância do abandono em áreas de eucalipto está associada à queda da atratividade econômica da produção de carvão vegetal em função de fatores como o aumento nos custos logísticos e de produção. O principal destino do carvão vegetal era o polo siderúrgico do estado de Minas Gerais em Sete Lagoas”, explica Sano.
Segundo o pesquisador, além disso, o aumento dos preços de fertilizantes e de insumos agrícolas tem incentivado a descontinuação de atividades produtivas. “Embora a maioria das terras abandonadas tenha sido identificada em áreas de silvicultura, nenhum abandono significativo de lavouras anuais (como soja ou milho) foi observado no período analisado. Isso sugere que os sistemas agrícolas mais intensivos mantiveram sua produtividade ao longo dos cinco anos analisados”, complementa.
Implicações para políticas públicas
De acordo com Gustavo Bayma, analista da Embrapa Meio Ambiente, os mapas gerados por essa metodologia trazem informações espaciais detalhadas sobre o abandono de terras. Esses dados podem ser usados para incluir áreas subutilizadas em estratégias nacionais de restauração ambiental e de mitigação das mudanças climáticas. Tais estratégias podem consistir, por exemplo, na estimativa do potencial de sequestro de carbono ou na criação de corredores de restauração ecológica no Cerrado.
“O estudo também ressalta a importância de políticas que reduzam a volatilidade dos preços de insumos agrícolas e incentivem alternativas econômicas sustentáveis para pequenas e médias propriedades, uma vez que fatores econômicos foram identificados como motor importante do abandono das áreas de pastagem na região”, afirma Bayma. Ele observa que a pesquisa mostra, contudo, que o monitoramento ainda enfrenta limitações, como a necessidade de séries históricas mais longas para separar abandono permanente de períodos temporários de pousio (descanso da terra por um ano ou menos).
Mesmo assim, os resultados demonstram o potencial das tecnologias de inteligência artificial para apoiar políticas públicas de restauração ambiental, planejamento territorial e adaptação às mudanças climáticas no Cerrado. “A análise se baseou em apenas duas datas de aquisição de imagens durante um período de quatro anos, o que impede distinguir com precisão entre abandono permanente e práticas temporárias de pousio. Embora o uso de imagens de alta resolução e de visualizações auxiliares tenha ajudado na validação, a confirmação de abandono ainda depende, em parte, da interpretação visual e do conhecimento local”, acrescenta o pesquisador da Embrapa Agricultura Digital Édson Bolfe.
Outro desafio destacado por ele é a dificuldade de diferenciar pastagens degradadas de vegetação nativa (como gramíneas e arbustos) apenas por sensoriamento remoto, uma vez que suas assinaturas espectrais podem ser muito semelhantes. Segundo os especialistas, o estudo comprovou que métodos de aprendizado profundo, aliados a imagens de satélite, podem mapear terras agrícolas abandonadas no Cerrado de forma robusta e precisa, um avanço metodológico importante para a avaliação de transições de uso da terra em savanas tropicais. “Os resultados fortalecem a necessidade de incorporar áreas abandonadas em políticas ambientais e agrícolas, com vistas à restauração ecológica, à mitigação climática e à sustentabilidade rural”, afirma Bolfe.
Informações mais detalhadas sobre o estudo estão disponíveis no artigo Putting Abandoned Farmlands in the Legend of Land Use and Land Cover Maps of the Brazilian Tropical Savanna.
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Agricultura familiar ganha força com invenções que aumentam produtividade
Concurso Nacional de Inventos seleciona soluções como debulhadora de feijão, envasadora de mel e veículos elétricos solares para pequenas propriedades.

Debulhadora de feijão verde, veículo elétrico solar para pulverização e roçagem, envasadora semiautomática de mel, cultivador equipado com três enxadinhas para cobertura em substituição ao uso da carpideira e motocicleta adaptada como triciclo para uso por pequenas propriedades rurais no lugar de tratores de alto custo. Essas e outras invenções foram selecionadas no 1º Concurso Nacional de Inventos de Máquinas, Equipamentos e Implementos voltados à realidade da agricultura familiar, que mobilizou criadores de todas as regiões do País e recebeu 242 inscrições.
São inventos de autoria de agricultores e empreendedores da agricultura familiar que têm como objetivo serem utilizados em pequenas propriedades rurais para melhorar o manejo, aumentar a produtividade e a renda, reduzir a penosidade e assegurar mais qualidade de vida ao homem do campo. São, enfim, soluções pensadas para enfrentar desafios cotidianos da produção no campo, como reduzir o esforço físico do trabalho, melhorar processos produtivos e ampliar a eficiência das atividades agrícolas. O resultado final do concurso já está disponível na página oficial da iniciativa, acesse clicnado aqui.
A premiação será entregue aos inventores na terça-feira (17), na Feira Nacional de Máquinas e Tecnologias para a Agricultura Familiar que ocorrerá até nesta quarta-feira (18), na Expo Dom Pedro, em Campinas (SP). Os equipamentos (protótipos) estarão expostos no local da premiação. Veja a programação completa do evento aqui.
Inclusão produtiva
Promovida pela Embrapa, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e Conab, a Feira é um marco para a inovação e a mecanização do setor produtivo rural, reunindo lideranças governamentais, entidades de pesquisa, setor industrial, agricultores e cooperativas em prol do fortalecimento da soberania alimentar brasileira. Tem como objetivo promover o acesso a tecnologias e máquinas, reafirmando o compromisso do governo federal com a inclusão produtiva, o desenvolvimento sustentável e a valorização da agricultura familiar como pilar da economia nacional.
Embrapa lança com parceiros 2 catálogos de máquinas e equipamentos
Durante a feira, será lançada a página Mecaniza Social, acesse clicando aqui, um espaço virtual onde estão disponíveis dois catálogos, Catálogo Tecnológico da Sociobioeconomia e Catálogo de Máquinas e Equipamentos da Agricultura Familiar.
O Catálogo da Sociobioeconomia traz inventos importantes que têm como objetivo contribuir para a melhoria das condições de trabalho na Amazônia Legal, em especial para as cadeias do açaí, babaçu, castanha-da-amazônia e cupuaçu. Um exemplo é o trabalho de estudantes do ensino médio do Instituto Federal do Maranhão e do Instituto Estadual do Maranhão. Os grupos, respectivamente sob orientação dos professores Fernando Tocantins e Felipe Borges Pereira, desenvolveram uma colheitadeira manual de coco babaçu e uma estufa para secagem do mesocarpo do babaçu, a partir de demandas de quebradeiras de coco.
Ainda na cadeia do babaçu, destaca-se o equipamento de uso individual acionado manualmente através de alavanca. Iniciativa da Embrapa Maranhão, o equipamento foi desenvolvido para melhorar ergonometricamente as condições de trabalho. Na foto ao lado, quebradeiras de coco de babaçu trabalham com o equipamento.
A plataforma de colheita de açaí com debulhador hidráulico é outro protótipo desenvolvido por um produtor rural para reduzir a penosidade da colheita do açaí cultivado em terra firme. Trata-se de uma carretinha rebocável por trator, com estrutura em aço e fechamento em madeira. Graças à técnica aplicada, não é necessário o uso de gancho junto a foice, pois o corte é direcionado de forma precisa, fazendo com que o cacho caia diretamente dentro das asas da plataforma. Trata-se da Plataforma BIO-1, um equipamento agrícola semimecanizado projetado para a colheita eficiente do açaí em sistemas de plantio solteiro (uma estipe). Combina segurança, agilidade e baixo desperdício, sendo ideal em plantas de médio a grande porte.
A analista da Embrapa Amazônia Oriental (Belém/PA), Mazillene Borges, trabalhou na prospecção de equipamentos e protótipos que compõem o Catálogo Tecnológico da Sociobioeconomia das cadeias produtivas do açaí e do cupuaçu.
“Conhecer a realidade de como produtores, extrativistas e agricultores familiares das cadeias do açaí e do cupuaçu estão criando alternativas para melhorar a produção dos produtos da biodiversidade foi uma grande experiência. Fizemos a prospecção em seis estados da Amazônia: Roraima, Amapá, Acre, Tocantins, Rondônia e Amazonas. Foi uma equipe multidisciplinar, com cinco unidades da Embrapa”, relata Mazillene Borges.
O trabalho de prospecção consistiu em fazer o levantamento das cadeias de produção, identificando a quantidade produzida e comercializada, em seguida, a equipe buscou conhecer os equipamentos que usavam na coleta e produção e que estão no mercado. Foram identificados motosserras, roçadeiras, modelos de motos de embarcação para transporte do açaí das áreas de manejo para comercialização, bem como as agroindústrias estão fazendo seus próprios equipamentos. Também foram visitadas pequenas indústrias metalúrgicas instaladas no Pará para produzir máquinas para as agroindústrias.
“O mais fantástico foi perceber como as pessoas foram se atentando para essas necessidades e inventando máquinas para atender a demanda do processamento industrial do açaí, por exemplo”, conta a analista. Com este trabalho, foi possível identificar mais de 25 modelos de equipamentos inventados pelos produtores para colher o açaí, melhorar a produtividade e a penosidade do trabalho. E por fim, levantamos também a questão da segurança do trabalho, as necessidades e lacunas tecnológicas que precisamos ficar atentos”, afirma.
Família de inventores
A foto ao lado traz o apanhador de açaí (vara) – uma ferramenta criada pelo extrativista Edilson Cavalcante Costa (camisa rosa) de Abaetetuba, no Pará, para facilitar a coleta do fruto na floresta, que ainda se encontra em desenvolvimento, ou seja, já existe o protótipo, e necessita de parceria para ser replicado em maior quantidade. Na foto, Mazillene Borges entre Edilson Costa e o filho que também é inventor. Ele criou o debulhador de cacho de açaí.
No catálogo, também é possível conhecer e adquirir o classificador de castanha-da-amazônia com separador de cascas, que classifica as amêndoas por tamanho no processamento. O classificador de castanha-da-amazônia encontra-se disponível para comercialização.
Catálogo de Máquinas para a Agricultura Familiar
Além das inovações para as cadeias da sociobiodiversidade, a plataforma integra o Catálogo de Máquinas para a Agricultura Familiar. Esta seção reúne ativos estratégicos como máquinas de plantar alho e colhedoras de espigas de milho, focadas no ganho de eficiência produtiva. A estrutura do portal foi desenhada para facilitar o acesso ao mercado, conectando o homem do campo a empresas parceiras e agentes financeiros, garantindo que a tecnologia chegue à ponta com o suporte de instituições como o BNDES.
“Os catálogos estão disponíveis em um ambiente virtual desenvolvido pela Embrapa que também realizou o mapeamento, a seleção e a caracterização dos equipamentos indicados no site Mecaniza. Queremos ofertar ao produtor rural um espaço onde ele se sinta seguro para fazer suas aquisições”, explica Daniel Papa, analista da Gerência-Adjunta de Inclusão Socioprodutiva e Digital da Embrapa, e coordenador do projeto de criação do catálogo.
Segundo ele, as soluções tecnológicas dos inventores estão organizadas em dois grandes grupos, o Catálogo de Máquinas e Equipamentos da Agricultura Familiar, trabalho realizado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, em parceria com a Embrapa. E o Catálogo Tecnológico da Sociobioeconomia, trabalho realizado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC.
“Na Embrapa, compreendemos que a mecanização da agricultura familiar e do extrativismo não deve ser vista apenas como um incremento produtivo, mas como um instrumento fundamental de dignidade e soberania alimentar, capaz de reduzir a penosidade do trabalho e assegurar mais qualidade de vida ao homem e à mulher do campo. Ao lançarmos ferramentas como Plataforma Mecaniza Social e dos dois catálogos, reafirmamos nosso compromisso institucional de entregar inovações que nascem da própria realidade rural, transformando protótipos e invenções em ativos de mercado escalonáveis que fortalecem a inclusão produtiva em todas as regiões do Brasil”, ressalta a presidente da Embrapa Silvia Massruhá.
Para a presidente, as mulheres rurais da Amazônia, especialmente aquelas que vivem do da cadeia produtiva do açaí, do babaçu, da castanha e do babaçu, a tecnologia apropriada representa um passo decisivo em direção à equidade e à valorização do seu papel sistêmico na bioeconomia. O desenvolvimento de equipamentos ergonômicos — como as máquinas adaptadas para as quebradeiras de coco ou as plataformas semi- mecanizadas para a colheita de açaí — é essencial para reduzir o esforço físico e garantir a segurança no manejo desses produtos da biodiversidade. “Integrar a inovação científica aos saberes tradicionais permite que essas mulheres liderem a gestão de suas propriedades com eficiência, consolidando a agricultura familiar como um pilar resiliente e sustentável para o futuro do país”, finaliza a presidente.
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Sisbi-POA gera novas oportunidades para produtores e agroindústrias mato-grossenses
Adesão ao sistema permite formalização, padronização e expansão das vendas para outros estados do Brasil.

Oestado de Mato Grosso avançou na ampliação da participação no Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi-POA) com a integração de quatro novos consórcios públicos municipais – Vale do Rio Cuiabá, Região Sul, Vale do Guaporé e Médio Araguaia. A iniciativa fortalece a organização regional da inspeção sanitária e amplia as oportunidades para que agroindústrias locais comercializem seus produtos em todo o território nacional.
Com essa adesão, Mato Grosso passa a contar com seis consórcios integrados ao sistema, abrangendo 72 municípios. Considerando que o estado possui 142 municípios, isso significa que aproximadamente 51% dos municípios mato-grossenses já estão vinculados ao sistema por meio de consórcios.
“O Sisbi é uma política pública fundamental porque permite que os produtos das agroindústrias sejam comercializados em todo o território nacional, abrindo oportunidades para produtores e gerando renda no interior do país. Quando assumimos, apenas 331 municípios brasileiros tinham adesão ao sistema e Mato Grosso não tinha nenhum. O que estamos vendo agora é resultado de um trabalho conjunto que fortalece a inspeção sanitária e permite que essa política pública chegue a quem mais precisa”, afirmou o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro.
“Esse é um avanço concreto dentro de uma agenda estratégica conduzida pelo ministro Carlos Fávaro para fortalecer a inspeção sanitária no país e ampliar oportunidades, especialmente para pequenos e médios produtores. Na prática, isso significa criar condições para que eles possam formalizar a produção, agregar valor aos produtos e acessar novos mercados com garantia sanitária. É exatamente esse movimento que estamos vendo acontecer em Mato Grosso, que se torna o primeiro estado do país a conduzir uma versão estadual do projeto”, destacou o secretário-adjunto de Defesa Agropecuária, Alan Alvarenga.
Em Mato Grosso, a Superintendência de Agricultura e Pecuária tem atuado em parceria com consórcios e municípios para ampliar a adesão ao sistema.
“Quando assumi a superintendência, o ministro me deu uma missão clara de fazer o Sisbi avançar em Mato Grosso. Com o apoio dos consórcios, prefeitos, do Tribunal de Contas e das associações municipais, e o trabalho de uma equipe técnica qualificada, conseguimos transformar esse objetivo em realidade. Agora nossa responsabilidade aumenta, e a superintendência segue de portas abertas para trabalhar junto com os municípios e ampliar ainda mais esse avanço no estado”, relatou o superintendente em Mato Grosso, Edson Paulino.
A produtora de queijos Larissa Berté, de Nossa Senhora do Livramento, município integrado ao sistema nesta sexta-feira, destaca o potencial de expansão que o Sisbi oferece aos produtores artesanais. “Nossa expectativa com o Sisbi é ampliar a presença dos nossos produtos em nível nacional, levando o sabor de Mato Grosso para outros estados e outras localidades. Isso também incentiva pequenos produtores, como nós, a crescer e aumentar a produção, impactando diretamente a economia local”.
Protocolos de intenções
Além da integração dos novos consórcios, também foram assinados protocolos de intenção com outros oito consórcios – Araguaia, Norte Araguaia, Portal do Araguaia, Portal da Amazônia, Vale do Juruena, Vale do Teles Pires, Vale do Rio Arinos e Alto do Rio Paraguai – que iniciarão o processo de qualificação para futura integração ao Sisbi-POA.
Essa nova etapa poderá alcançar cerca de 62 municípios adicionais. Caso todos avancem no processo de integração, Mato Grosso poderá chegar a 134 municípios vinculados ao sistema, o que representa aproximadamente 95% dos municípios do estado.
Pordutores relatam impactos positivos
Os efeitos da adesão ao sistema já são percebidos por produtores que passaram a integrar o modelo de inspeção.
Proprietário do Pavin Sertanejo, Aparecido Pavin conta que a regularização da atividade abriu novas perspectivas para o negócio. “Para nós, abriu mais possibilidades de portas para trabalhar e vender. Temos muita procura pelos nossos produtos e dobramos nossas vendas”, relata. Segundo ele, o crescimento da demanda já exige novos investimentos na estrutura da agroindústria. “Estamos até pensando em instalar uma câmara fria porque hoje armazenamos o produto final no freezer e já está ficando apertado. Produzimos linguiça, salame, bacon e vários produtos defumados”.
Para o produtor Jeferson Gonçalves Silva, da Granja Alvorada da Serra, em Cáceres, a adesão ao Sisbi representou um marco na profissionalização da propriedade. “Foi um divisor de águas para a nossa propriedade. Trouxe mais organização, padronização dos processos e maior controle sanitário. Passamos a comercializar nossos produtos em outros municípios, outras regiões e até em outros estados do Brasil. Isso ampliou nossas oportunidades com novos parceiros comerciais e teve impacto direto no crescimento da produção e na valorização da marca”, afirmou.
Contexto nacional do Sisbi-POA
O Sisbi-POA foi criado em 2006 com o objetivo de integrar os serviços de inspeção de produtos de origem animal no país e ampliar as oportunidades de comercialização para as agroindústrias brasileiras.
Durante os primeiros 16 anos do sistema, entre 2006 e 2022, foram integrados 331 municípios em todo o Brasil. Entre 2023 e março de 2026, esse processo ganhou novo ritmo, com a integração de 1.184 novos municípios, elevando o total nacional para 1.515 municípios.
Grande parte desse crescimento tem sido impulsionada pelo fortalecimento dos consórcios públicos municipais, modelo que permite compartilhar estrutura técnica, otimizar recursos e estruturar serviços de inspeção mais robustos e eficientes.





