Conectado com

Suínos

Mão de obra com mais eficiência: o papel da genética na simplificação do manejo

Seleção genética de matrizes mais dóceis, produtivas e resilientes tem se mostrado uma aliada estratégica das granjas, reduzindo a necessidade de intervenção humana e otimizando o uso da mão de obra no dia a dia da produção.

Publicado em

em

Fotos: Divulgação/Topgen

Artigo escrito por João Cella, zootecnista e coordenador Comercial na Topgen Genética Suína

A disponibilidade e qualidade da mão de obra é uma das principais preocupações das granjas de suínos em todo o mundo. A dificuldade em atrair e reter profissionais, somada ao aumento da complexidade nos sistemas de produção, tem levado produtores e gestores a buscar soluções que promovam eficiência sem comprometer o bem-estar animal nem a produtividade. Nesse contexto, a seleção genética da matriz torna-se uma aliada poderosa, contribuindo para a formação de plantéis mais produtivos e com menor exigência de medidas de intervenção.

Um dos grandes desafios do manejo diário está relacionado ao comportamento das fêmeas, especialmente em fases críticas como lactação, desmame e transferências de baia. Fêmeas agressivas ou com temperamento instável exigem mais tempo, mais habilidade técnica e, muitas vezes, mais funcionários para realizar tarefas simples.

A seleção genética voltada para temperamento mais calmo e previsível reduz a necessidade de contenção física, diminui o risco de acidentes e facilita a atuação da equipe, inclusive de profissionais menos experientes. A docilidade também contribui para um ambiente de trabalho mais seguro e produtivo.

Habilidade materna: menos intervenção, mais autonomia

A capacidade da matriz em cuidar bem da leitegada, produzir leite em volume e qualidade adequados, evitar esmagamentos e proteger os leitões é uma das características mais valorizadas nos programas de seleção modernos.

Matrizes com alto desempenho materno reduzem a necessidade de adoções cruzadas frequentes, suplementações alimentares e supervisão constante nas primeiras horas pós-parto. Essa autonomia da fêmea impacta diretamente o tempo e o esforço da equipe de maternidade, permitindo foco em tarefas estratégicas e redução do retrabalho.

Leitegadas mais uniformes e viáveis

A seleção genética da matriz também tem favorecido a redução da variabilidade no peso ao nascimento, gerando leitegadas mais uniformes e com maior viabilidade desde os primeiros dias. A leitegadas mais homogêneas exigem menos medidas de manejo individualizado, apresentam desempenho mais previsível e facilitam o planejamento nutricional e sanitário. Em resumo, o manejo se torna mais padronizado, rápido e eficiente.

Resistência a doenças e robustez geral

A inclusão de características associadas à resiliência imunológica nos critérios de seleção das fêmeas suínas tem permitido formar plantéis mais resistentes a doenças, com menor necessidade de medicamentos e monitoramento constante.

Com matrizes mais robustas, a equipe gasta menos tempo com tratamentos, manejo de surtos ou cuidados especiais, especialmente em momentos de desafio sanitário. Essa resistência é parte essencial de uma granja que busca a otimização do trabalho com equipes enxutas e eficientes.

Eficiência alimentar e desempenho precoce

A capacidade dos leitões de converter alimento em crescimento desde os primeiros dias pós-nascimento também tem sido foco da seleção genética das matrizes. Animais com desempenho precoce adequado mamam melhor, crescem mais rápido e enfrentam com mais facilidade o período pós-desmame. Essas características reduzem a necessidade de atenção especial nas fases iniciais, que tradicionalmente são as que mais exigem mão de obra direcionada.

Longevidade produtiva e redução do descarte

Fêmeas com boa conformação estrutural, aprumos corretos e menor incidência de problemas locomotores apresentam maior longevidade no plantel. Isso resulta em menos descartes precoces, reduz a necessidade de manejos relacionados à remoção e destinação de carcaças, e diminui a frequência de entrada de novas leitoas, o que economiza tempo e recursos com adaptação e treinamento.

Além dos ganhos zootécnicos, um plantel mais estável e saudável reduz o esforço físico e emocional da equipe, que lida com menos situações de emergência, menos descarte de matrizes em condições debilitantes e menos rotatividade no manejo reprodutivo. O ambiente de trabalho se torna mais previsível, organizado e menos desgastante, favorecendo tanto a produtividade quanto o bem-estar da mão de obra envolvida.

O case de sucesso suíço: genética moldada por décadas de criação em baia

Um exemplo real e valioso dessa relação entre genética e facilidade de manejo vem da Suíça, onde as exigências legais influenciaram diretamente o direcionamento da seleção genética. No país, a gestação em baias (fora de gaiolas) é obrigatória desde 2002, e a maternidade também deve ser em baia desde 2007. Isso significa que, há mais de duas décadas, as fêmeas suíças são criadas e selecionadas em ambientes sem contenção individual. Para que esses sistemas funcionassem, foi necessário selecionar matrizes com características comportamentais compatíveis com a criação em grupo e com menos supervisão direta.

Após várias gerações de seleção nesse ambiente, o resultado são matrizes com temperamento mais dócil, comportamento previsível, habilidades maternas bem desenvolvidas e capacidade de se adaptar naturalmente à criação livre de gaiolas. Esse exemplo comprova que a seleção genética impacta positivamente no manejo da granja, exigindo menos intervenção humana sem comprometer o desempenho.

Impacto direto na gestão da mão de obra

Granjas que adotam programas genéticos que consideram características ligadas à docilidade, habilidade materna, robustez e produtividade sustentável observam impactos claros na rotina operacional, como redução de tempo por parto, menos necessidade de assistência neonatal, aumento da produtividade por colaborador e diminuição da rotatividade de pessoal.

Com fêmeas geneticamente adaptadas ao sistema de produção, a mão de obra pode ser melhor aproveitada, com menos retrabalho e maior foco em ações preventivas e estratégicas.

Conclusão: genética como suporte ao trabalho humano

A realidade da suinocultura exige produtividade com racionalização de recursos, e a mão de obra é um dos mais críticos. Mais do que reduzir mão de obra, o objetivo é estruturar um sistema produtivo onde o trabalho humano seja direcionado de forma mais técnica, eficiente e estratégica, aumentando o desempenho geral da granja. A seleção genética desempenha um papel central nesse processo, contribuindo com animais que se adaptam melhor ao manejo moderno, exigem menos intervenções e elevam a eficiência do sistema como um todo.

Exemplos como o da Suíça mostram que é possível – e viável – construir plantéis de matrizes que aliam desempenho produtivo com facilidade de manejo. Ao investir em genética alinhada ao seu sistema de produção, o produtor também está investindo em uma gestão de mão de obra mais inteligente, valorizada e otimizada.

Com distribuição nacional nas principais regiões produtoras do agro brasileiro, O Presente Rural – Suinocultura também está disponível em formato digital. O conteúdo completo pode ser acessado gratuitamente em PDF, na aba Edições Impressas do site.

Fonte: O Presente Rural

Suínos

Primeiro clone suíno da América Latina nasce em unidade da Secretaria de Agricultura de SP

Avanço inédito combina ciência da USP com estrutura do Instituto de Zootecnia e reforça papel da pesquisa paulista na geração de soluções para a saúde e o agro

Publicado em

em

Primeiro clone da América Latina nasceu na unidade de Tanquinho do Instituto de Zootecnia, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

O primeiro clone suíno da América Latina nasceu na unidade do Instituto de Zootecnia, em Piracicaba, vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O feito inédito é resultado de pesquisa conduzida pela Universidade de São Paulo, com apoio da Agência Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), responsável pela estrutura, manejo e cuidado dos animais por meio do Instituto de Zootecnia.

O nascimento ocorreu no dia 24 de março, na unidade experimental do IZ em Tanquinho, onde as instalações foram readequadas conforme a legislação para a produção desses animais, com rigor em biossegurança, bem-estar e controle sanitário.

A iniciativa integra um projeto voltado à produção de suínos com potencial para doação de órgãos e tecidos para humanos, dentro do campo do xenotransplante — técnica que busca reduzir a fila por transplantes e ampliar as possibilidades de compatibilidade entre doadores e receptores.

A pesquisa mobiliza uma equipe multidisciplinar, envolvendo especialistas em zootecnia, medicina veterinária e biotecnologia. No Instituto de Zootecnia, foram desenvolvidos protocolos específicos de manejo produtivo, sanitário, nutricional e ambiental, além de técnicas reprodutivas e cirúrgicas para implantação dos embriões, incluindo sincronização de cio e procedimentos de alta complexidade.

De acordo com a equipe envolvida, os manejos são minuciosamente acompanhados para garantir o sucesso da gestação e o desenvolvimento dos animais. A próxima etapa do projeto prevê o monitoramento dos clones até a maturidade sexual, com geração de dados para subsidiar futuras aplicações científicas e tecnológicas.

O manejo dos animais nas baias do Instituto de Zootecnia segue protocolos técnicos rigorosos, especialmente por se tratar de uma pesquisa sensível, voltada à produção de suínos com finalidade biomédica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O trabalho conduzido pelo Instituto de Zootecnia e pela Universidade de São Paulo marca um avanço decisivo para a ciência paulista e reforça o papel da pesquisa em gerar soluções concretas. O trabalho das nossas instituições abre novas fronteiras para a saúde humana, a produção animal e a bioeconomia. É esse investimento em ciência que sustenta a liderança de São Paulo e prepara o Estado para o futuro”, afirma o secretário de Agricultura e Abastecimento, Geraldo Melo Filho.

O coordenador do Instituto de Zootecnia destaca o papel da instituição no projeto. “A estrutura e a expertise do IZ são fundamentais para garantir o manejo adequado dos animais, com foco em biossegurança e bem-estar. É essa base que permite que a ciência avance com segurança e responsabilidade”, afirma.

As pesquisas voltadas ao xenotransplante têm como objetivo enfrentar um dos principais desafios da saúde pública: a escassez de órgãos para transplante. Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes, pacientes morrem diariamente à espera de um órgão compatível, cenário que reforça a relevância de iniciativas científicas dessa natureza.

Além do impacto na saúde humana, o avanço posiciona São Paulo na vanguarda da biotecnologia aplicada ao agro, consolidando o papel das instituições públicas de pesquisa como ativos estratégicos para o desenvolvimento do Estado.

O projeto segue em desenvolvimento, com novas etapas já em andamento, incluindo a gestação de outros clones, ampliando o potencial de aplicação da tecnologia e reforçando a integração entre ciência, produção e inovação no Estado de São Paulo.

De acordo com a pesquisadora do Instituto de Zooctenia, Simone Raymundo de Oliveira, os manejos produtivos – sanitário, nutricional e ambiental – são minuciosamente estudados pela equipe para garantir o sucesso da gestação. “Nosso objetivo agora é acompanhar o crescimento dos clones até a maturidade sexual, fornecendo dados sobre este animal para futura tomadas de decisões”.

Fonte: Assessoria
Continue Lendo

Suínos

Qualidade de carne suína: a genética da matriz como escolha estratégica

Quando se discute qualidade de carne suína, é comum que o foco recaia sobre o macho terminador, uma vez que suas características genéticas estão diretamente associadas ao ganho de peso, ao rendimento de carcaça e à composição corporal dos animais abatidos.

Publicado em

em

Fotos: Divulgação/Topgen

Artigo escrito por João Cella, Zootecnista, coordenador Comercial na Topgen Genética Suína

Quando se discute qualidade de carne suína, é comum que o foco recaia sobre o macho terminador, uma vez que suas características genéticas estão diretamente associadas ao ganho de peso, ao rendimento de carcaça e à composição corporal dos animais abatidos. No entanto, essa abordagem desconsidera um fator estrutural do sistema produtivo: a genética da matriz, que contribui com 50% do patrimônio genético dos leitões e influencia de forma decisiva o desempenho produtivo e a qualidade final da carne.

A matriz não é apenas a base reprodutiva da granja. Ela exerce influência direta sobre o peso ao nascimento, a uniformidade da leitegada e a capacidade de crescimento dos leitões nas fases subsequentes. Esses fatores iniciais condicionam respostas metabólicas, eficiência alimentar e padrões de deposição de músculo e gordura, que se refletem até o abate. Assim, a qualidade da carne começa a ser definida muito antes da escolha do macho, ainda na seleção genética das fêmeas.

Os programas de melhoramento genético de matrizes tradicionalmente priorizam características como prolificidade, habilidade materna, produção de leite e longevidade produtiva. Esses atributos seguem sendo fundamentais para a eficiência econômica da granja. Entretanto, uma visão moderna de genética reconhece que desempenho reprodutivo e qualidade de carne caminham juntos. A matriz transmite genes que influenciam diretamente a conversão alimentar, o ganho de peso diário, a uniformidade dos lotes e a composição da carcaça, especialmente o equilíbrio entre gordura e carne magra.

Equilíbrio entre gordura, carne magra e marmoreio

A gordura não deve ser interpretada de forma isolada como um componente indesejado da carcaça, mas como parte essencial do equilíbrio entre gordura e carne magra que sustenta a qualidade da carne suína. A genética exerce influência direta não apenas sobre a quantidade total de gordura depositada, mas também sobre sua distribuição e composição, determinando o perfil de ácidos graxos, a estabilidade oxidativa e a interação entre os tecidos muscular e adiposo. Nesse contexto, a gordura contribui para atributos fundamentais da carne suína, como sabor, textura e suculência.

Matrizes geneticamente equilibradas favorecem níveis adequados e estáveis de marmoreio, resultando em melhor qualidade tecnológica da carne, com maior capacidade de retenção de água, coloração mais uniforme e menor variabilidade entre lotes destinados à indústria.

O marmoreio, resultante da gordura intramuscular entremeada às fibras musculares, é um dos principais indicadores desse equilíbrio fisiológico. Níveis adequados de marmoreio contribuem para maior maciez, suculência e intensidade de sabor, ao mesmo tempo em que preservam os padrões industriais de rendimento e proporção de carne magra.

Esse ajuste fino entre deposição muscular e gordura intramuscular pode ser conduzido de forma consistente por meio de programas de melhoramento genético de matrizes, reforçando o papel estratégico da genética na construção da qualidade final da carne suína.

Genética da matriz e bem-estar animal

Matrizes selecionadas para equilíbrio fisiológico e temperamento contribuem para a produção de suínos mais dóceis, com melhor adaptação ao manejo e menor sensibilidade ao estresse, especialmente no pré-abate.

Animais menos reativos apresentam menor risco de oscilações de pH muscular, reduzindo a incidência de alterações como PSE e DFD. Isso resulta em carne com melhor coloração, maior capacidade de retenção de água e maior consistência entre lotes. Esses fatores impactam diretamente os processos industriais e ampliam a janela de comercialização no varejo.

É importante destacar que protocolos corretos de manejo, jejum, transporte, descanso e resfriamento são indispensáveis. Contudo, sem uma base genética adequada, esses cuidados têm sua eficácia limitada. A genética atua como o alicerce sobre o qual todas as demais práticas produtivas se apoiam.

Qualidade de carne como estratégia de longo prazo

Considerar a genética da matriz sob a ótica da qualidade de carne representa uma mudança de mentalidade na suinocultura. Trata-se de enxergar a fêmea não apenas como produtora de leitões, mas como agente estratégico na construção do valor do produto final. Essa abordagem atende a um mercado consumidor cada vez mais atento à qualidade sensorial, à padronização e à imagem da carne suína como proteína saudável, saborosa e versátil.

Para o produtor rural, os benefícios se refletem em melhor conversão alimentar, maior ganho de peso diário, uniformidade dos lotes, menor mortalidade e maior previsibilidade dos resultados. Para a indústria, significam carcaças mais consistentes, processos mais eficientes e menor variabilidade. Para o consumidor, resultam em carne com melhor sabor, maciez e estabilidade.

Nesse cenário, a genética animal assume papel central. A evolução da carne suína como carne de qualidade passa, inevitavelmente, pela escolha criteriosa das matrizes.

A edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

Suínos

Micotoxinas começam no silo: por que o controle fúngico define a saúde dos suínos

Zootecnista Fernanda de Andrade explica como o armazenamento inadequado de grãos favorece fungos e a formação de micotoxinas, impactando desempenho, saúde e produtividade na suinocultura.

Publicado em

em

Fotos: Shutterstock

Artigo escrito por Fernanda de Andrade, zootecnista, gerente de Feed Safety and Nutritional Solution da Trouw Nutrition

Embora frequentemente subestimado, o controle fúngico ao longo da cadeia de produção de ração tem papel determinante na saúde e no desempenho dos suínos. A presença de fungos nos ingredientes utilizados na formulação é a principal causa da formação de micotoxinas, substâncias tóxicas que representam um dos maiores desafios sanitários e produtivos da suinocultura moderna.

Nos últimos anos, a incidência de micotoxinas cresceu de maneira significativa em diversas regiões produtoras. Mesmo com avanços em manejo nutricional, a ocorrência de contaminações por fungos ainda é tratada com menos prioridade do que deveria, sobretudo no armazenamento de grãos e na higienização das fábricas de ração. Trata-se de etapas frequentemente negligenciadas, mas que determinam grande parte da qualidade final do alimento fornecido aos animais.

Impactos de alto custo

A suinocultura é especialmente sensível às micotoxinas, em particular à deoxinivalenol (DON) e à zearalenona (ZEA), que afetam diretamente fases críticas do ciclo produtivo. Entre os efeitos mais comuns estão queda de desempenho, redução da eficiência alimentar, comprometimento imunológico, lesões orgânicas e, no caso de matrizes, natimortos, abortos, prolapsos e irregularidades reprodutivas.

O cenário se agrava quando há policontaminação, isto é, a presença simultânea de diferentes micotoxinas. Estudos recentes mostram que, enquanto há alguns anos eram conhecidas cerca de 600 micotoxinas, o número já ultrapassa 700 compostos identificados no mundo, tornando o desafio ainda mais complexo. Mesmo considerando apenas as seis micotoxinas de maior relevância zootécnica, como Fumonisina, DON, ZEA, Aflatoxina, Ocratoxina e Toxina T-2, os impactos são amplos e multifatoriais.

Armazenamento de grãos

O armazenamento é o ponto de maior vulnerabilidade da cadeia. Um armazém sem monitoramento adequado de umidade, temperatura, higiene e ventilação cria as condições ideais para proliferação de fungos e produção de micotoxinas. Assim, o silo deve ser visto não como um simples depósito, mas como um ambiente dinâmico, sujeito à migração de umidade, variações térmicas e intensa atividade microbiológica.

Quando esses fatores não são controlados, ocorre oxidação de ingredientes, deterioração nutricional e formação de compostos tóxicos. São as chamadas “perdas invisíveis”: alterações que não são perceptíveis visualmente, mas que comprometem o valor nutricional e aumentam o risco sanitário. Além disso, falhas de higienização nas fábricas de ração podem perpetuar contaminantes e permitir o desenvolvimento contínuo de fungos nos equipamentos.

Controle fúngico

Diferentemente das micotoxinas já presentes no grão, situação em que apenas adsorventes podem atuar, a contaminação fúngica durante o armazenamento pode e deve ser prevenida. Entre as ferramentas disponíveis, os blends de ácidos orgânicos estão entre as soluções mais eficazes para controle direto de fungos em grãos, ingredientes e ambientes de produção de ração.

Esses blends podem atuar em versões líquidas ou em pó, dependendo da necessidade da operação. Em tecnologias mais avançadas, combinações específicas de ácidos orgânicos aceleram o efeito antifúngico e fortalecem a ação do ácido propiônico, resultando em rompimento mais rápido da membrana do fungo e, consequentemente, em maior eficiência de controle.

Como os ácidos orgânicos atuam sobre fungos

O mecanismo de ação é bem estabelecido na literatura científica. Primeiramente ocorre uma penetração na membrana fúngica na qual os ácidos orgânicos não dissociados atravessam a membrana plasmática, especialmente em pH mais ácido. Depois, acontece uma acidificação do citoplasma dentro da célula fúngica, que libera prótons (H⁺), reduzindo o pH interno.

Em seguida, vem um desbalanço osmótico e energético para tentar restabelecer seu equilíbrio interno, o fungo precisa gastar grandes quantidades de energia, consumindo ATP para bombear íons. A partir deste momento acontece uma inibição da síntese e do crescimento celular, onde a acidificação desestabiliza enzimas metabólicas e compromete a formação de proteínas, o que leva a morte celular do fungo. Sem energia e com a integridade da membrana comprometida, a célula fúngica entra em colapso.

Essa sequência reduz significativamente a proliferação fúngica e, por consequência, diminui o risco de formação de micotoxinas ao longo da estocagem e do processamento.

Estudos recentes comprovaram que a combinação de três ingredientes ao ácido propiônico potencializa essa ação e leva a um rompimento mais rápido da membrana dos fungos. Esta combinação acelera o efeito do ácido propiônico em até três vezes, ampliando sua eficácia.

Abordagem preventiva e integrada

O controle eficaz exige uma abordagem contínua, iniciando no recebimento do grão e se estendendo até a produção da ração. O uso de aditivos conservantes deve ser combinado com iniciativas como inspeção e limpeza dos silos, monitoramento de umidade e temperatura, boas práticas de armazenamento, higienização completa das fábricas e uma análise contínua de risco de contaminações.

Uma mudança de mentalidade é urgentemente necessária. A qualidade da ração começa no armazém. Não basta investir em formulações balanceadas se os ingredientes chegam comprometidos por má estocagem. Quando o controle fúngico deixa de ser tratado como etapa secundária e passa a ser parte estratégica da nutrição, os resultados aparecem em saúde animal, produtividade e rentabilidade.

A edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.