Bovinos / Grãos / Máquinas
Manejo nos primeiros dias define desempenho das futuras vacas de leite
Cuidados no nascimento, alimentação por colostro e higienização são detalhes que fazem toda a diferença quando o produtor pensa no futuro de suas vacas em lactação
Cuidados com as terneiras logo ao nascer ainda é um assunto muito discutido entre os criadores. A importância dos cuidados necessários para estes animais nas primeiras 24 horas de vida, apesar de parecer clichê, ainda é destaque entre profissionais. E para alertar técnicos da área, produtores e estudantes foi sobre isso que a médica veterinária Cristiane Azevedo falou durante o 13° Simpósio do Leite, que aconteceu nos dias 08 e 09 de junho em Erechim (RS). Com o auditório lotado, a profissional falou como ainda muitos erros que já deveriam ter sido abolidos são vistos em muitas salas de ordenha. Para Cristiane, pequenos detalhes fazem toda a diferença.
Durante a palestra “Criação de terneiras: como criar a futura vaca em lactação”, a médica veterinária mostrou aos participantes alguns números referentes à criação. “A quantidade de natimortos que vemos ainda é muito elevada. A cada 100 nascimentos, 7,5% nascem mortos ou morrem nas primeiras 24 horas”, conta. Segundo ela, dentro de alguns rebanhos assistidos por ela e a equipe, a taxa de mortalidade fica em torno de 7%. “Temos uma meta audaciosa, de baixar esse número para 5%”, diz.
E para que a realidade chegue ainda mais perto do produtor, a profissional demonstrou estes números em valores de produção. “Uma terneira nascida de inseminação artificial custa em torno de R$ 350 a R$ 700. Uma bezerra de embrião fica entre os R$ 1,5 mil e R$ 2 mil. Ou seja, o produtor demorou para emprenhar, investiu e a terneira morre por falta de assistência ao parto ou nas primeiras 24 horas, que é crucial para a sobrevivência da bezerra. Isso realmente é muito complexo”, afirma.
Para que este tipo de prejuízo não aconteça com o produtor, Cristiane deu algumas dicas aos presentes. “Alguns pontos básicos são manter a bezerra sadia, em um ambiente confortável e sem estresse”, aconselha. Ela alerta que a bezerra também sofre muito. “Elas são realmente bebês e precisam de todos os cuidados necessários para crescerem fortes e sadias”, diz.
A profissional ainda falou sobre o estresse térmico, muito comum em terneiras recém-nascidas. “Se a vaca sofre estresse térmico, a bezerra também sofre, já que ela não consegue regular a temperatura corporal em temperaturas muito baixas. E com essas situações de estresse a imunidade cai, causando assim diferentes problemas respiratórios”, informa.
Outro ponto destacado por Cristiane foi o fornecimento de água para as bezerras recém-nascidas. “Muitos acham que não, mas a bezerra no Brasil passa muita sede. 74% do peso desse animal é água. Se deixar ela sem a quantia necessária, ela morre de desidratação”, comenta. A médica veterinária confirma que deve ser fornecida água para os animais a partir do terceiro dia de vida. “E é água à vontade. O leite fornece água sim, mas é preciso que este animal tome também água e não somente o leite”, diz.
Custos
A profissional destaca que é importante trabalhar do nascimento à desmama, que varia entre 60 e 90 dias, para controlar a mortalidade. Segundo ela, em algumas regiões no Brasil este período de 90 dias é vital para o animal. “Há locais em que há 40% de taxa de mortalidade de bezerras, e este número é extremamente elevado”, afirma. Além disso, outro ponto destacado por Cristiane foi que os produtores criam somente fêmeas. “Então, quase 50% vai nascer fêmea e, considerando estes números, eu já estou perdendo 30% das minhas bezerras nos primeiros 90 dias vitais. Além disso, outros 10% eu vou perder no nascimento. Ou seja, entre nascer e desmamar, eu já perdi quase 50% da minha criação. E isso custa muito dinheiro”, alega. A profissional explica que dentro do sistema de produção o valor varia entre R$ 8 e R$ 12 por dia. “Se eu estou desmamando minha terneira com 90 dias, então, do nascimento à desmama eu já gastei R$ 1,5 mil até R$ 3 mil na minha futura vaca em lactação”, diz.
Outro ponto importante para diminuir esses índices é acelerar o ganho de peso. Segundo ela, é preciso saber o quanto de peso cada bezerra ganha por dia. “A nossa meta é de no mínimo 800 gramas por dia. E quanto mais peso a bezerra ganha, mais leite ela vai produzir na primeira lactação, porque nessa fase de 90 dias, a bezerra tem um crescimento isométrico, ou seja, o crescimento da glândula mamária é proporcional ao corpo”, explica. Cristiane acrescenta que, como essa bezerra cresceu mais, ela desenvolveu mais a glândula e, dessa forma, vai produzir mais leite. “E isso pode variar de 700 a 1,5 litro (por dia) a mais na primeira lactação”, justifica.
Assistência
Outro ponto muito importante é a assistência que deve ser dada durante o parto. A profissional destaca que a assistência dada por um médico veterinário só é necessária quando o parto é difícil, já que o animal está preparado para fazer o parto fisiológico. Cristiane ainda acrescenta que existem algumas fases que são cruciais no momento do parto. “As duas primeiras são realmente fases em que é preciso correr contra o tempo”, diz. A médica veterinária explica que na primeira fase, quando o animal é separado do lote, o tempo pode demorar de duas a seis horas. “Novilha podemos esperar até três horas para intervir, já na vaca, duas horas”, conta. Agora, quando apontou a bolsa, que é o estágio dois do parto, isso é correr contra o relógio. De 30 a 45 minutos a terneira deve nascer. E aqui mora o grande problema, já que o maior índice de mortalidade está no estágio dois”, comenta. Ela informa que se o produtor não monitorar, não há como saber quanto tempo que está acontecendo cada estágio. Dessa forma, aumenta a possibilidade de morte. E, segundo a médica veterinária, 65% dos natimortos nas criações são fêmeas.
Ela ainda destaca que é necessário não somente dar assistência ao parto, mas também é muito importante ver e cuidar em que ambiente a vaca vai fazer o parto. “Se for no sistema pasto, é necessário ter uma boa cobertura vegetal e drenagem, pensando na terneira e na vaca”, diz. A profissional ainda recomenda que a bezerra seja retirada da vaca pelo menos duas horas após o parto para que ela não tenha contato com o ambiente. “Esse é um tempo mínimo para a vaca lamber a terneira”, conta. Cristiane ainda acrescenta que detalhes como umbigo, colostro e cuidados no parto respondem por mais de 70% da eficiência na criação de bezerros.
Cristiane informa que passos como cortar o umbigo da bezerra, desinfetar o animal em pé, com um frasco de boca larga, no mínimo duas vezes durante cinco dias seguidos, é o que faz toda a diferença. “A primeira cura do umbigo é a mais importante. Se eu não conseguir desinfetar bem a primeira cura, não é possível corrigir as curas consecutivas”, afirma. Ela informa que ao fazer isso o cordão umbilical está extremamente aberto, e assim facilita a penetração de bactérias. “A grande causa de morte em bezerras é por infecção interna do umbigo, e isso acontece muito”, diz.
Colostro
O colostro é outro ponto que a médica veterinária cita como essencial para o bom desenvolvimento da terneira. “É preciso dar a essa terneira recém-nascida um colostro de boa qualidade”, afirma. Cristiane comenta que a boa colostragem começa com uma boa higiene. “Se você higieniza bem o teto e não o tambor, nós pegamos um colostro com um milhão de bactérias, e assim esse colostro já não é mais de qualidade, já que eu estou dando mais bactérias do que anticorpos para a minha terneira, e dessa forma, já perde-se a eficiência da colostragem”, afirma. Também as mamadeiras devem ser muito bem higienizadas.
A cada 10 vacas, 70% delas tem o colostro de boa qualidade, mas é preciso monitorar, alerta a médica veterinária. “É muito importante monitorarmos para saber se o colostro é bom”, informa.
Cristiane ainda comenta que, quando o rebanho é maior, é importante que o colostro considerado bom de uma vaca que deu excedente seja congelado. “Às vezes outra vaca cria três dias depois e o colostro é ruim, então, eu posso pegar aquele colostro ótimo no banco de colostro”, comenta. Porém, segundo a profissional, apesar de o colostro congelado também ser de qualidade, o fresco contém mais propriedades imunológicas e imunidade celular.
A médica veterinária ainda alerta o colostro deve ser ofertado o mais rapidamente possível para a terneira, já que em seis horas as células do material morrem. “Até seis horas após o nascimento, há 100% de absorção, após 12 horas essa absorção passa para apenas 50% e depois de 24 horas, há apenas 30% de absorção”, esclarece. Outro ponto importante destacado pela profissional foi a quantia de colostro oferecido à terneira. “É importante pesar a terneira para dar os 10% do colostro. Se ela pesar 30 quilos, serão três litros, se pesar 40, serão quatro litros de colostro”, orienta.
Sonda
Cristiane ainda comenta que não é incomum ser preciso utilizar a sonda esofágica. A profissional alerta que, às vezes, a terneira não tomará a quantidade de colostro necessária no tempo que deve. Uma das alternativas é complementar a nutrição por meio de uma sonda. Até mesmo, na hidratação de uma terneira muito doente, não é somente o colostro que auxiliará, e assim, a sonda é uma excelente ferramente de hidratação, auxiliando no tratamento. Outro ponto destacado por Cristiane é a utilização da sonda quando o produtor não sabe quanto colostro a terneira ingeriu após o nascimento. Ela acrescenta que a mamadeira ajuda a atingir as metas necessárias, mas o trabalho realizado deve ser muito rápido. “Quando a terneira nasce durante o dia é fácil fazer isso, já que esse animal está sedento para tomar mais leite. Mas e quando a bezerra nasce a noite e pousa com a vaca? Nesses casos a sonda é uma ótima opção para atingir as metas necessárias”, afirma, acrescentando que no mínimo dois litros devem ser dados pela sonda, ou mesmo os 10% de colostro, dependendo da fazenda.
Quantidade
Cristiane ainda alerta sobre a quantia de leite dada para a terneira. “Quatro litros ao dia não atende a exigência nutricional da terneira. 10% do peso ao nascimento é a manutenção do animal, mas com isso ele não ganha peso, só mantém a terneira viva”, avisa. Ela comenta que caso uma bezerra com uma média de 40 quilos receber quatro litros de leite por dia não vai atingir a meta de crescimento e contrairá doenças como diarreia ou pneumonia. “É preciso dar no mínimo de 15 a 20% do peso ao nascimento”, conta. Cristiane ainda ressalta que do primeiro ao terceiro dia de vida é necessário dar de quatro a cinco litros de leite, já que é neste alimento que existem os anticorpos e hormônios de crescimento necessários para o desenvolvimento do animal.
É importante que a quantia de leite seja bem regulada para que em uma média de 40 dias a terneira já esteja desmamada. “A desmama precisa ser gradual para a terneira, de forma que ela sinta pouco a transição”. A profissional ainda alerta sobre a necessidade de também, aos poucos, já inserir na dieta do animal feno ou outras rações e não somente o leite. “Podem ser dicas simples, mas que fazem a diferença no dia a dia para que o produtor não perca dinheiro e tenha aumento na sua produção”, finaliza.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2016 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


