Suínos
“Mais que manejo, a inseminação impulsionou o avanço genético”, afirma pioneira da técnica em suínos
Pioneirismo e dedicação transformaram a inseminação artificial em ferramenta estratégica de melhoramento genético, abrindo caminho para avanços tecnológicos e maior participação feminina na suinocultura brasileira.

Em meados da década de 1970, quando o Brasil ainda engatinhava na adoção de tecnologias reprodutivas e o campo era um território essencialmente masculino, uma jovem médica-veterinária decidia trilhar um caminho que abriria espaço para tantas outras mulheres. Formada em dezembro de 1974, Isabel Regina Scheid seria, meses depois, a primeira mulher a integrar a equipe que implantou a primeira Central de Inseminação Artificial em Suínos do Brasil, em Estrela, no Rio Grande do Sul. “A inseminação artificial em suínos pautou a minha vida profissional. Foi extremamente marcante”, recorda Isabel, completando: “Eu me formei em dezembro e, em janeiro, já estava em Botucatu para fazer residência na área de reprodução, algo nada comum para uma mulher na época.”
Foi durante uma viagem para visitar a família em Porto Alegre (RS), em 1975, que Isabel assistiu a um seminário sobre suinocultura e ouviu, pela primeira vez, falar em inseminação artificial em suínos, um tema praticamente desconhecido no país. A palestra, ministrada pelo professor Ivo Wentz, a impressionou. “Eu o admirava muito e, ao final da palestra, conversei um pouco com ele e disse que, se houvesse uma oportunidade, gostaria de trabalhar na área”, relembra. “Algum tempo depois, o professor Ivo entrou em contato. O programa estava sendo implantado e havia uma vaga. Eu não pensei duas vezes”, emendou.
Foi assim que Isabel se viu no coração de uma iniciativa inédita, em um espaço onde praticamente tudo ainda estava por ser construído. “Quando cheguei a Estrela, encontrei literalmente o início de tudo. Tínhamos o entusiasmo, o conhecimento básico e a vontade de fazer acontecer. O resto, nós aprendemos no dia a dia”, relata.
Essa disposição para não deixar passar boas oportunidades se tornaria uma marca na carreira da veterinária. “Talvez um dos pontos mais importantes da minha vida profissional tenha sido esse: quando eu avaliava que uma oportunidade valia a pena, eu não perdia”, afirma.
Na época, as instalações da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs) e da Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS) dividiam o mesmo espaço físico, e o projeto contava com figuras decisivas, como o engenheiro agrônomo Hélio Miguel de Rose, então presidente da ABCS, que havia trazido da Europa a ideia da inseminação artificial. “Hélio era um visionário. Foi ele quem plantou a semente da inseminação no Brasil e acreditou que aquilo poderia transformar a forma de produzir suínos”, conta Isabel.
Tudo por construir
A equipe era pequena, mas extremamente comprometida. Além de Isabel, estavam o professor Ivo Wentz, o médico-veterinário Werner Meincke e o técnico do Ministério da Agricultura, Auri Braga. “Éramos poucos, mas tínhamos um propósito imenso. Construímos a central com o que havia disponível. O primeiro manequim que fizemos, por exemplo, não deu certo. Mas a cada tentativa, aprendíamos e avançávamos”, relembra.
Os primeiros reprodutores pertenciam a raças puras Landrace, Large White e Duroc, e formaram a base genética que impulsionaria a suinocultura brasileira nas décadas seguintes. Instalados no Vale do Taquari, região de forte tradição na criação de suínos, foi o cenário ideal para essa experiência pioneira. “Estávamos cercados de produtores apaixonados, que acreditaram no projeto e abriram suas granjas para as primeiras inseminações. Eles foram os verdadeiros protagonistas dessa história. Acreditaram na técnica e confiaram em nós”, ressalta Isabel, com uma emoção contida ao se dar conta de tudo que fizeram.
Os experimentos da equipe logo renderam frutos: a primeira inseminação bem-sucedida e o nascimento dos primeiros leitões. “Foi um momento emocionante. A gente percebia o clima de confiança, de que algo grande estava começando. Era o resultado de muito trabalho, estudo e, principalmente, de fé naquilo que estávamos construindo”, relembra Isabel, orgulhosa de poder ter vivenciado tamanho avanço para o setor.
Confiança dos produtores
Mais do que o esforço técnico, Isabel destaca o papel decisivo dos produtores. “Os grandes atores do início da inseminação artificial foram os produtores que acreditaram na técnica. Eles compraram a ideia, abriram as portas das granjas, acompanharam cada passo. Acreditaram antes mesmo de verem os resultados”, enaltece.
Essa confiança foi essencial para que a inseminação artificial se tornasse uma ferramenta estratégica, não apenas para melhorar o manejo, mas sobretudo para impulsionar o melhoramento genético, algo que transformaria definitivamente a suinocultura brasileira nas décadas seguintes.
Abrindo caminho

Doutora em Medicina Veterinária, Isabel Regina Scheid: “A credibilidade se constrói com resultados. E eles apareceram. A inseminação não foi apenas uma ferramenta de manejo, mas de melhoramento genético. Era o que o setor esperava há muito tempo”
Em um ambiente predominantemente masculino, Isabel se tornou um símbolo do pioneirismo feminino. Ainda assim, afirma não ter enfrentado resistência do ser por ser mulher, mas reconhece que naquele contexto representava um rompimento de barreiras. “Eu não senti resistência por ser mulher, pelo contrário, encontrei curiosidade e acolhimento”, ressalta, justificando: “Talvez porque muitas granjas eram familiares e, em boa parte delas, quem realmente conduzia o trabalho no campo eram as mulheres. Havia uma identificação natural”.
Essa empatia foi essencial para a aceitação da técnica e para o fortalecimento do papel feminino na suinocultura. “As mulheres do campo foram grandes aliadas. Elas entenderam rapidamente o valor da tecnologia e o que ela representava em termos de eficiência e autonomia”, recorda, destacando que a aceitação veio também da seriedade com que o trabalho era conduzido. “A credibilidade se constrói com resultados. E eles apareceram. A inseminação não foi apenas uma ferramenta de manejo, mas de melhoramento genético. Era o que o setor esperava há muito tempo”, afirma.
Com o avanço da técnica, a suinocultura brasileira entrou em um novo patamar de eficiência. As centrais se multiplicaram, os produtores se profissionalizaram, e a presença feminina passou a ocupar espaço também na pesquisa, na assistência técnica e na gestão. “Ver tantas mulheres hoje liderando projetos, pesquisas e empresas é algo que me emociona. Cada uma, à sua maneira, está ajudando a construir um setor mais diverso e mais forte”, enfatiza.
De experimento à base da suinocultura
A inseminação artificial cresceu junto com o Brasil. Nos anos seguintes, o uso da técnica se expandiu, especialmente a partir da década de 1980, quando a suinocultura passou a adotar sistemas mais organizados e integrados.
A chegada das empresas de genética e a transição das raças puras para composições comerciais aceleraram o processo. A inseminação se tornou peça central para viabilizar granjas maiores com animais geneticamente superiores, um salto de escala e de eficiência que transformou a produção nacional. “Hoje, mais de 95% das fêmeas suínas brasileiras são inseminadas artificialmente, reflexo direto daquele trabalho pioneiro iniciado em Estrela há meio século”, enfatiza a doutora em Medicina Veterinária.
Isabel menciona que a chegada, na década de 1990, das empresas fornecedoras de insumos para inseminação artificial – como diluentes, pipetas, frascos para doses de sêmen, equipamentos de laboratório e sistemas de automação – representou um avanço decisivo para o setor. “Além de melhorar a qualidade dos processos laboratoriais e a aplicação em campo, essas empresas contribuíram para a geração de dados precisos sobre o uso da inseminação artificial no Brasil”, exalta.
Lições de uma trajetória
Ao longo de mais de quatro décadas dedicadas à reprodução suín, com atuação em instituições como a Acsurs, a Embrapa Aves e Suínos e a iniciativa privada, Isabel viu o Brasil se consolidar como uma potência em genética e tecnologia. “Tive o privilégio de acompanhar essa evolução desde o início. Foi uma caminhada longa, exigiu muito esforço, e sim, houve sacrifícios pessoais. Mas valeu a pena. Eu faria tudo de novo”, resume.
Para as novas gerações, especialmente para as mulheres que hoje se destacam na suinocultura, Isabel deixa uma mensagem de inspiração e responsabilidade. “O espaço precisa ser conquistado com competência, seriedade e visão. Para isso, a qualificação, a seriedade e a responsabilidade são essenciais. Mas nunca deixem de valorizar aquilo que é genuinamente nosso: a sensibilidade, a clareza nas decisões e a enorme capacidade de relacionamento. São essas qualidades que fazem a diferença”, reflete. “O importante é se valorizar e acreditar no próprio potencial”, complementa.
Cinquenta anos depois, aquela jovem veterinária que atravessou o país para trabalhar onde tudo estava por fazer continua sendo uma referência. Sua história é a de uma mulher que ajudou a construir as bases da suinocultura moderna e, ao fazê-la, abriu espaço para que muitas outras pudessem seguir pelo mesmo caminho.
A versão digital está disponível gratuitamente no site oficial de O Presente Rural. A edição impressa já circula com distribuição dirigida a leitores e parceiros em 13 estados brasileiros.

Suínos
Canetas emagrecedoras redesenham dieta do brasileiro e impulsionam consumo da carne suína
Avanço de medicamentos à base de GLP-1 muda o consumo de calorias, reduz carboidratos e fortalece a demanda por proteínas, colocando a suinocultura brasileira em posição estratégica em 2026.

O ano de 2026 começou e já anuncia grandes mudanças para o agronegócio e o varejo alimentício no Brasil: a redistribuição no consumo de calorias. Se em anos anteriores o foco era o preço, hoje a dieta do brasileiro é ditada por uma combinação de busca por longevidade e o avanço crescente de medicamentos análogos de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, as chamadas canetas emagrecedoras. Um relatório divulgado pelo Itaú BBA indica que o fenômeno, que começou como uma tendência de saúde, agora redesenha a demanda da porteira para dentro, alterando o equilíbrio entre as lavouras e a pecuária.

Foto: Claudio Pazetto
Projeções de mercado das consultorias IQVIA e Itaú BBA estimam que o Brasil tenha entre 4 e 6 milhões de usuários regulares desses medicamentos, com maior concentração nas classes A e B, consolidando o país como o segundo maior mercado mundial da categoria. É importante ressaltar que esses dados refletem o mercado auditado, mas o alcance real é ainda maior ao considerarmos o uso off-label (uso de remédios adquiridos de forma clandestina).
Além disso, o acesso facilitado e a quebra de patentes prevista para este ano impulsionam o setor; a expectativa, segundo analistas do mercado financeiro como o BTG Pactual, é que o volume de vendas mantenha um crescimento significativo, podendo atingir até 80% com a chegada dos genéricos.
Neste cenário de redução do apetite, o consumidor come menos e escolhe melhor. Segundo dados do setor, cerca de 56% dos usuários desses fármacos afirmam fazer escolhas mais saudáveis, priorizando porções menores e nutricionalmente superiores. O impacto direto é uma queda acentuada na demanda por carboidratos refinados e uma ascensão das proteínas.
Essa mudança ocorre porque a recomendação nutricional para quem utiliza esses tratamentos subiu para até 1,6g de proteína por quilo corporal (visando a manutenção da massa magra), enquanto a estimativa de queda no consumo de carboidratos chega a -10,1% em snacks e -8,8% em panificação. Isso coloca os frigoríficos e produtores de proteína animal como os grandes beneficiados a longo prazo.
Neste cenário, a carne suína consolida sua posição estratégica. O relatório indica que o Brasil deve liderar o crescimento global de

Fotos: Divulgação/HB Audiovisual
produção de carne suína em 2026 (projeção de +1,3% a +3,8%) beneficiado pelo baixo custo da ração e pela migração do consumo de carboidratos para carnes. A tendência de “Smart Foods”, apontada pela Euromonitor, também abraça a carne suína pela sua praticidade, impulsionando o desenvolvimento de embutidos de alta qualidade, com menor teor de sódio e rótulos mais limpos, atendendo ao público que busca saciedade rápida com densidade nutricional.
Já no varejo, a palavra de ordem é a “Servitização”. Supermercados deixaram de ser apenas depósitos de produtos para se tornarem centros de consultoria e experiência, a exemplo de redes que já oferecem nutricionistas em loja e curadoria de produtos.
A tendência apontada por consultorias como Kantar e Mintel é a hiperpersonalização nutricional: com o auxílio de IA e Retail Media, as redes passarão a oferecer ofertas baseadas no perfil metabólico e necessidades de saúde do cliente. As marcas próprias também irão evoluir em 2026, se consolidando como escolhas premium para quem busca alimentos funcionais, como snacks de proteína e itens prontos para o consumo.

Presidente da ABCS, Marcelo Lopes: “A ABCS atua como o elo estratégico que traduz essas novas demandas de consumo em oportunidades reais, garantindo que a suinocultura brasileira esteja sempre um passo à frente, e pronta para atender” – Foto: Divulgação/Arquivo OP Rural
Ainda de acordo com o Itaú BBA, embora o cenário seja favorável para as proteínas, o setor de grãos enfrenta o desafio de se adaptar. A redução gradual no consumo de cereais para alimentação humana direta obriga o campo a focar ainda mais na eficiência da ração animal, já que a demanda por carne segue em níveis históricos.
Para o presidente da ABCS, Marcelo Lopes, a mensagem é clara: quem não entender que o consumidor mudou o hábito na farmácia, perderá competitividade na gôndola. “Em um mercado que se redefine em tempo recorde, a antecipação é o nosso maior diferencial. A ABCS atua como o elo estratégico que traduz essas novas demandas de consumo em oportunidades reais, garantindo que a suinocultura brasileira esteja sempre um passo à frente, e pronta para atender”, finaliza.
Suínos
Embrapa estrutura rede nacional de dados para antecipar riscos sanitários na suinocultura
Central integra informações de granjas de todo o Brasil para reforçar vigilância epidemiológica, biosseguridade, sustentabilidade e competitividade do setor.

A Embrapa Suínos e Aves disponibiliza nesta semana a Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS), uma plataforma estratégica que integra e analisa dados sanitários de granjas de todo o País para apoiar a tomada de decisão, fortalecer a vigilância epidemiológica, biosseguridade, controle de doenças e ampliar a sustentabilidade da suinocultura brasileira.

Foto: Monalisa Pereira/Embrapa
De grande relevância no cenário mundial, a suinocultura se destaca pelos elevados padrões sanitários, pela produtividade e pelo compromisso com a sustentabilidade. Diante do desafio do monitoramento contínuo desses parâmetros, a Embrapa e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se uniram para estruturar a ferramenta, que agrega dados sanitários estratégicos para a cadeia produtiva, a partir de parcerias com Laboratórios de Diagnóstico Veterinário (LDVs).
Santa Catarina, estado que abriga a Unidade da Embrapa, é o maior produtor e exportador de suínos do Brasil. Em 2024, alcançou um recorde histórico, com 17,97 milhões de suínos abatidos, reforçando a importância de ações estruturadas para a sanidade dos rebanhos. A saúde animal é um fator decisivo para a produtividade e para a redução de perdas nas granjas e no abate.
Entre os principais desafios estão as Doenças do Complexo Respiratórios Suíno (PRDC), responsáveis por perdas significativas devido à

Pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves, Janice Zanella: ” – Foto: Monalisa Pereira/Embrapa
redução de ganho de peso, condenação de carcaças, aumento da mortalidade e maior uso de antibióticos. O PRDC é uma enfermidade multifatorial, resultante da interação entre fatores não infecciosos e patógenos virais e bacterianos, como o vírus da Influenza suína, o vírus da Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos (PRRSV), o Circovírus Suíno Tipo 2 (PCV2), Mycoplasma hyopneumoniae e outros agentes bacterianos. “Como o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores mundiais de carne suína, manter a saúde dos rebanhos é essencial”, afirma a pesquisadora Janice Zanella, líder da pesquisa.
E conhecer e entender os dados e informações sanitárias, realizando análises preditivas e retrospectivas é parte da estratégia, o que torna a CISS um instrumento inovador.
Central de inteligência transforma dados em ação
A Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS) também materializa o conceito de Saúde Única ao integrar saúde animal, saúde humana e proteção ambiental. “Animais saudáveis reduzem o uso de antibióticos, a mortalidade, o impacto ambiental e, consequentemente, geram alimentos mais seguros”, destaca Janice.
Da mesma forma, o monitoramento de agentes zoonóticos, principalmente vírus emergentes, visa identificar precocemente a circulação de patógenos na interface humano-animal-ambiente, antecipar riscos de surtos e epidemias, orientar medidas de prevenção e controle, e proteger a saúde pública, a produção animal e a segurança ambiental dentro da abordagem de Saúde Única.
Na prática, a Embrapa atua por meio da CISS em parceria com Laboratórios de Diagnóstico Veterinário (LDVs), que fornecem dados provenientes de milhares de amostras coletadas em granjas de todo o País. Essa cooperação é um pilar estratégico para o funcionamento da plataforma, pois possibilita a consolidação estruturada de resultados de diagnósticos laboratoriais, como testes de PCR, análises patológicas e outros exames de rotina relacionados a doenças endêmicas da suinocultura. Com isso, forma-se um banco de dados amplo e representativo da situação sanitária dos rebanhos suínos brasileiros.
A integração contínua dessas informações permite identificar e acompanhar mudanças nos padrões sanitários ao longo do tempo, considerando variáveis como faixa etária, unidades da federação, tipo de amostra analisada, natureza do problema sanitário e sistema de produção. Inspirada no modelo do Swine Disease Reporting System (SDRS), da Universidade Estadual de Iowa, nos Estados Unidos, a CISS oferece análises dinâmicas e atualizadas para diferentes atores do setor.

Foto: Lucas Scherer/Embrapa
Outro aspecto central do trabalho é a padronização e a interoperabilidade dos dados. Um dos principais desafios da integração, segundo a pesquisadora, é o fato de os LDVs utilizarem testes, ensaios e sistemas de gestão de informações laboratoriais (SGIL) distintos. Para viabilizar a troca e a análise conjunta das informações, é fundamental a adoção de padrões diagnósticos internacionalmente reconhecidos, como o Logical Observation Identifiers, Names and Codes (LOINC) e o SNOMED CT, que garantem a representação consistente do conteúdo clínico. Esse processo de codificação é conduzido pelo professor Rafael Nicolino, da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com os analistas da Embrapa Dirceu Benelli e Armando Amaral.
Os dados consolidados pela CISS subsidiam a elaboração de relatórios técnicos agregados e anonimizados, que apoiam a formulação de políticas públicas e ações estratégicas de órgãos de defesa sanitária, indústrias e produtores. No projeto piloto, a prioridade é a pneumonia enzoótica suína, permitindo o planejamento de estratégias mais proativas de prevenção e controle.
Além disso, a iniciativa fortalece a rede laboratorial brasileira ao ampliar a cooperação técnico-científica entre a Embrapa e os laboratórios colaboradores, contribuindo para a capacitação de equipes, padronização de processos e consolidação de uma rede nacional de vigilância em saúde suína. Esse trabalho estruturado representa o primeiro passo para transformar informações dispersas em inteligência estratégica, fortalecendo a sanidade, a sustentabilidade e a competitividade da suinocultura brasileira.
Resultados preliminares
O projeto-piloto da CISS focou inicialmente no teste de PCR para o agente da pneumonia enzoótica dos suínos, o Mycoplasma

Foto: Diuvlgação/Embrapa
hyopneumoniae (MHyo), um dos patógenos mais relevantes do Complexo Respiratório Suíno (PRDC). Entre outubro de 2019 e dezembro de 2025 foram analisadas 253.674 amostras submetidas para PCR de MHyo, gerando 10.821 registros. Os estados com maior frequência de submissões ao longo dos anos estudados foram Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
As análises revelaram tendências claras e sazonalidade. A maior ocorrência e o pico de positividade foram observados no primeiro semestre de 2022. Em maio daquele ano, por exemplo, 38% dos registros de MHyo foram positivos. O maior índice de submissões coincidiu com a maior positividade, o que demonstra que o diagnóstico laboratorial é um grande aliado para embasar medidas de tratamento, prevenção e controle na prática.
Outro trabalho recente mostrou uma alta taxa de positividade no diagnóstico de circovirus suíno tipo 2 (PCV2) entre 2020 e 2025. Esses estudos indicaram que o genótipo PCV2d é o predominante atualmente no Brasil, embora as coinfecções de genótipos (PCV2b + PCV2d) ainda sejam consideradas relevantes.

Foto: Divulgação
O modelo do SDRS dos EUA, que analisou a intensificação da vigilância diagnóstica de influenza (comparando dados em suínos e humanos) durante pandemias, apoia as estratégias de monitoramento e prevenção de influenza com risco zoonótico no Brasil via CISS.
Em resumo, a ferramenta CISS, é versátil, e quando embasada em dados de qualidade poderá ser empregada em diversos estudos e análises, que por sua vez poderão derivar para outros trabalhos.
IA e genômica
Os próximos passos da Embrapa, de acordo com Janice, incluem a ampliação do monitoramento para outros agentes importantes além do Mycoplasma hyopneumoniae e a incorporação de mais laboratórios de diagnóstico veterinário parceiros. “O objetivo é criar uma rede nacional integrada, além de um comitê gestor”, enfatiza.
Outra iniciativa que está no planejamento da equipe é disponibilizar relatórios mensais ao setor e realizar encontros virtuais para debater sobre os dados oriundos das análises.
A tecnologia será um pilar essencial para o futuro da vigilância sanitária. O uso de inteligência artificial (IA), análise de big data e sequenciamento genômico tem o potencial de transformar os estudos epidemiológicos. Essas ferramentas permitirão a previsão de surtos, a identificação de variantes emergentes e a aceleração das respostas sanitárias. “O desafio, contudo, é transformar esses avanços em ferramentas acessíveis e sustentáveis para o setor produtivo”, observa a pesquisadora.
Ela complementa que o médico-veterinário e o pesquisador da área animal atuam diretamente em saúde pública, sendo considerados

Foto: Divulgação
agentes de saúde global. Eles estão na linha de frente na identificação de doenças, na comunicação de riscos às autoridades de saúde e na pesquisa.
Comunicar esse papel é fundamental para mostrar que a saúde animal está intrinsecamente ligada à saúde das pessoas e ao equilíbrio ambiental. A CISS não será apenas uma plataforma para analisar dados, mas sim para dar suporte a quem realmente está na linha de frente. “Fazer parte dessa linha de frente da saúde global é uma responsabilidade e um privilégio, e demonstra que o Brasil pode liderar soluções em sanidade animal que impactam, positivamente, todo o planeta”, enfatiza a pesquisadora.
Pesquisar suínos é estratégico para a saúde global
A intensificação da vigilância de vírus em animais de produção se tornou crucial após eventos como as pandemias de influenza e covid-19, que expuseram o risco global da circulação silenciosa de patógenos. Os suínos são considerados uma espécie-chave, uma vez que podem ser infectados por vírus humanos e de aves, como a influenza A zoonótica, o que abre caminho para a recombinação genética e a eventual criação de novos vírus.

Foto: Divulgação
A influenza, por exemplo, é endêmica em rebanhos suínos de países produtores, incluindo o Brasil. Agentes endêmicos na suinocultura causam grande impacto econômico, afetando a biosseguridade, o bem-estar animal, e ocasionando o uso excessivo de antimicrobianos. Para o Brasil, a manutenção da saúde do rebanho é vital para fornecer proteína de qualidade e nutritiva, tanto para o mercado doméstico como o de exportação. E preservar a credibilidade brasileira como produtor e exportador confiável de proteína animal, garantindo o cumprimento das exigências dos mercados.
Entenda as semelhanças entre vigilância sanitária e tráfego aéreo
Para entender a integração dos dados na vigilância sanitária, é possível compará-la a um grande sistema de tráfego aéreo.
Cada laboratório de diagnóstico veterinário (LDV) é como uma torre de controle local, gerenciando voos (amostras) de sua região. O desafio é que cada torre usa um sistema de rádio e coordenadas ligeiramente diferentes (SGILs e terminologias únicas).
A Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS) age como um sistema de radar nacional unificado, que obriga todas as torres a usar a mesma linguagem e os mesmos códigos de identificação (como LOINC e SNOMED CT). Isso permite que os “pilotos” (veterinários e produtores) vejam em tempo real onde estão os congestionamentos (picos de positividade) e quais são as rotas de riscos (novos surtos), protegendo assim a malha aérea inteira (a cadeia produtiva e a saúde pública global).
Conceito de Saúde Única
A abordagem de Saúde Única (ou Uma Só Saúde, One Health em inglês) parte da compreensão de que existe interconexão entre a saúde

Foto: Divulgação
de humanos, animais, plantas e meio ambiente. Rompe com a visão fragmentada de saúde humana, animal e ambiental, que ainda prevalece em alguns setores, dificultando a vigilância e o controle de doenças transmissíveis e a gestão de riscos ambientais.
Janice menciona aspectos contemplados nos pilares do conceito de Saúde Única. Dentro da saúde humana, são tratadas as preocupações com doenças, gestão de resíduos, resistência a antimicrobianos e sanidade vegetal nos sistemas agroalimentares, bem com a qualidade e saudabilidade dos alimentos. São questões que se replicam no caso da saúde animal em que se incluem os aspectos de biosseguridade e bem-estar dos indivíduos.
Dentro da saúde ambiental, a perda dos recursos naturais, a conservação da biodiversidade, a degradação ambiental e os resíduos nocivos, a vulnerabilidade das mulheres e das comunidades tradicionais e ribeirinhas aos efeitos da mudança climática e de práticas como o desmatamento ou a mineração não foram esquecidas.

Foto: O Presente Rural
No caso da ciência, diante de possíveis futuras pandemias e, internamente, quando da condução de pesquisas na Embrapa relacionadas à Saúde Única, a pesquisadora chama a atenção para a importância da interdisciplinaridade e integração de conhecimentos. “Temos que trabalhar fora das caixinhas, fora dos silos, apesar de nossas formações de origem. E precisamos de bons dados para estudos preditivos”, destaca.
O tema Saúde Única vem recebendo atenção e direcionamento expressivos na agenda institucional da Embrapa. Está conectado a todos os objetivos estratégicos do Plano Diretor da Embrapa (PDE) e a vários portfólios de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Exemplo recente é o livro lançado em novembro de 2025, durante a COP 30, Saúde Única: Caminho para Resiliência do Planeta. Em 142 páginas, 12 autores da Empresa, entre eles a pesquisadora Janice Zanella (primeira autora), se dedicam a um tema que amplia a percepção sobre saúde, trazendo-a para uma abordagem mais holística.
Suínos
Suíno vivo acumula queda em janeiro e amplia pressão sobre produtor
Indicadores do Cepea mostram desvalorização mensal acima de 10% em praças-chave, enquanto carcaça segue estável no atacado paulista.

Os preços do suíno vivo seguem em trajetória de queda na segunda quinzena de janeiro, conforme apontam os Indicadores do Suíno Vivo Cepea/Esalq. Na última sexta-feira (23), todas as principais praças acompanhadas pelo centro de pesquisas registraram recuo diário e perdas expressivas no comparativo mensal, refletindo um cenário de pressão sobre a rentabilidade do produtor.

Foto: Jaelson Lucas
Em São Paulo, o indicador posto foi cotado a R$ 7,87/kg, com baixa de 0,63% no dia e retração acumulada de 11,67% no mês. Santa Catarina, referência nacional na produção suinícola, apresentou um dos recuos mensais mais intensos, com desvalorização de 10,42%, a R$ 7,48/kg na modalidade a retirar. Minas Gerais registrou preço de R$ 7,63/kg, queda diária de 1,68% e perda mensal de 9,49%.
No Paraná, o indicador ficou em R$ 7,54/kg, com recuo de 1,31% no dia e de 8,83% no mês. Já no Rio Grande do Sul, o preço foi de R$ 7,65/kg, com variação negativa diária de 0,91% e queda mensal de 7,83%. Segundo o Cepea, os valores refletem o preço recebido pelo produtor, à vista, em reais por quilo.
No mercado atacadista, os preços da carcaça suína especial negociados na Grande São Paulo permanecem estáveis desde o dia 21 de janeiro. Em 23 de janeiro, a média foi mantida em R$ 11,68/kg, sem variação diária, mas ainda acumulando queda de 9,18% no mês. O movimento indica que, apesar da estabilidade recente, o atacado já incorporou parte significativa do ajuste observado desde o início do ano.
A análise mensal dos indicadores do suíno vivo reforça o quadro de enfraquecimento dos preços. Em dezembro de 2025, os valores médios

Foto: Ari Dias
já haviam recuado em relação aos meses anteriores, com São Paulo a R$ 8,84/kg e Santa Catarina a R$ 8,30/kg. Em comparação com setembro, quando os preços superavam R$ 9,00/kg em algumas praças, o ajuste negativo é ainda mais evidente.
De acordo com o Cepea, a combinação de oferta elevada, consumo doméstico ainda limitado e dificuldade de repasse ao longo da cadeia segue como principal fator de pressão sobre as cotações do suíno vivo neste início de ano, exigindo cautela dos produtores e atenção redobrada aos custos de produção.



