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Mais de 68 mil marcações a fogo são eliminadas da pecuária brasileira
Projeto pioneiro substitui métodos tradicionais por identificação individual na orelha, reduzindo dor, estresse e riscos para bovinos e equipes, e reforçando práticas de bem-estar animal e sustentabilidade.

Procedimento antigo e que carrega um tradicionalismo em torno da prática, a marcação a fogo é cientificamente comprovada como um estímulo doloroso agudo, que compromete o bem-estar dos animais e pode levar a erros na hora da identificação dos bovinos.
Com o intuito de mudar esse cenário e incentivar o uso de alternativas mais assertivas e avançadas, o projeto Redução da Marca a Fogo foi aplicado em quatro propriedades brasileiras e, após um ano de realização, soma mais de 68 mil eliminações de marcações nos animais, fortalecendo o uso de identificadores individuais na orelha.
A Fazenda das Palmeiras, localizada em Ituiutaba (MG), está entre as propriedades referenciais do projeto conduzido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal, da Unesp Jaboticabal, pela Fazenda Orvalho das Flores e pela empresa BE.Animal, além de ter o apoio da MSD Saúde Animal e da JBS. Como resultado, eles deixaram de realizar até 10 marcações a fogo por bovino, em um rebanho atual de 1.880 animais. “Trabalhamos com o sistema de recria e engorda de bovinos e, até 2021, quando os animais chegavam à fazenda, recebiam todo processo de identificação (mês, ano e ordem de chegada e marca da fazenda) via marcação a fogo. Mas isso mudou com o projeto e tivemos um grande avanço no bem-estar animal”, afirma Antônio Campbell Penna, proprietário da fazenda.

A propriedade manteve apenas uma marcação, da marca da fazenda, pois ainda é indispensável para segurança. Ela é realizada de acordo com a legislação brasileira, nas áreas abaixo das articulações fêmuro-rótulo-tibial (joelho) e úmero-rádio-cubital (cotovelo), para evitar danificar o “grupon” (área que mais se utiliza na indústria do couro) e por serem locais com menor sensibilidade, causando menos agressão e dor no animal. Do restante, todas foram eliminadas. Essa ação impacta, inclusive, a equipe de trabalho do local. “Todos que participavam das marcações a fogo sentiam-se desconfortáveis e incomodados pelo sofrimento aplicado aos animais. Não era, de forma alguma, um momento agradável. Além de todos os malefícios aos bovinos, a técnica era responsável por alta temperatura ambiental e grande tempo de exposição da equipe a acidentes”, detalha Penna.
O pecuarista ainda conta que, com essa mudança de técnicas, diminuíram o tempo de contenção e a manipulação dos bovinos, reduzindo o estresse e a exposição dos animais e de todos os funcionários aos riscos de traumas e acidentes. “Hoje, demoramos uma média de 40 segundos para aplicarmos os brincos, a marca a fogo necessária e fazer a vermifugação, a aplicação de vacinas e de antiparasitário em cada animal”, expõe.
Mudança de atitude e foco em bem-estar animal
Tulio Ibanez Nunes, administrador, diretor e sócio na Rio Corrente Agropastoril SA, localizada em Coxim (MS), especializada em criação de bovinos para corte e outra propriedade integrante do projeto Redução da Marca a Fogo, pontua que a implementação da identificação por botton ou brinco permitiu eliminar cinco marcas a fogo de cada bovino. “Em um rebanho de sete mil matrizes, evitamos cerca de 35 mil marcas, o que diminuiu horas de trabalho da equipe, além de reduzir o risco de acidentes e a dor dos animais”, ressalta.
Outro ponto importante da participação no projeto, segundo Nunes, é que incentivou a mudança da atitude dos vaqueiros com os animais. “Também tivemos melhorias na maternidade e nos cuidados com o bezerro desde o nascimento, além de fortalecermos a nossa jornada de bem-estar animal. Hoje, temos um gado muito manso e fácil de manejar”, salienta.
O avanço das técnicas
Embora frequentemente utilizada, a marcação a ferro quente não é o melhor método de identificação para bovinos, pois não fornece precisão ou confiabilidade suficientes, como demonstrado em estudo realizado em propriedade brasileira. Os resultados mostraram erro de 18% na identificação das vacas por essa técnica, além de prejudicar o bem-estar animal e a imagem da cadeia produtiva da pecuária de corte.
Um dos responsáveis pelo estudo e que encabeçou o projeto Redução da Marca a Fogo foi o zootecnista Mateus Paranhos. O profissional, que faleceu em julho, deixou um grande legado em bem-estar animal e posicionava que a adoção de métodos de identificação animal eficientes e confiáveis, como as etiquetas auriculares eletrônicas, era essencial. Mateus pontuava que a marca a fogo, antes de provocar um dano no couro, era uma agressão à pele do animal.

Tulio Ibanez Nunes
A marcação a ferro quente também é desgastante para os funcionários responsáveis pelo serviço e não está de acordo com os preceitos de bem-estar animal. “Em alguns animais, as feridas provocadas pelas queimaduras podem sofrer contaminação por bactérias e parasitas, chegando até o estágio de necrose do tecido afetado, necessitando medicação local por longo tempo até a completa cicatrização. Identificar os animais com brincos em vez da marca a fogo traz diversos benefícios, como a redução do estresse animal e valorização do couro do bovino. Substituir a marcação a ferro quente de forma permanente é urgente e necessário, e o professor Mateus Paranhos foi um grande entusiasta do tema. Agora, seguiremos com a mesma missão, empenhados em dar continuidade ao projeto Redução da Marca a Fogo, que é um movimento progressista na pecuária brasileira”, enfatiza Janaína Braga, sócia-fundadora da BE.Animal.
No avanço das práticas, a metodologia de identificação na orelha do animal permite usar, por exemplo, diferentes cores para indicar as informações necessárias, sem agredir a pele ou o bem-estar animal. “É possível adaptar cores diferentes para determinar o manejo por categoria, ano de chegada, entre outros tópicos. Os identificadores, sejam eles visuais ou eletrônicos, são de grande contribuição para os produtores em gestão, rastreabilidade e produtividade, além de auxiliar o bem-estar dos animais e a sustentabilidade do negócio rural”, menciona Antony Luenenberg, coordenador de Bem-estar Animal para Ruminantes na MSD Saúde Animal, ressaltando que os gastos extras com a compra dos dispositivos são neutralizados pelo ganho de tempo disponível para que a equipe execute suas atividades rotineiras.
Próximos passos
A partir da segunda quinzena de outubro, o projeto Redução da Marca a Fogo ganha nova etapa com o lançamento de um site exclusivo do projeto. Os produtores poderão acessar informações gratuitas sobre o tema e baixar o Guia de Boas Práticas para a Redução da Marca a Fogo, além de ter um canal direto para solicitar a implementação da iniciativa na propriedade. Também haverá uma página no Instagram dedicada somente para a iniciativa. “São ferramentas de comunicação para ampliar a divulgação das boas práticas de bem-estar animal, fortalecer o diálogo com todos os elos da cadeia pecuária, incentivar a evolução das práticas de manejo e inspirar as transformações reais no campo, sempre unindo a ciência do bem-estar animal com a aplicabilidade prática”, afirma Janaína.

Colunistas
Desperdício pode custar US$ 540 bilhões ao setor de alimentos em 2026
Estudo mostra que perdas começam antes do consumidor e estão ligadas à falta de visibilidade e método de gestão.

O mundo pode perder US$ 540 bilhões com desperdício de alimentos em 2026, como aponta o relatório da Avery Dennison. Esse número não é apenas grande. Ele é revelador porque mostra algo que o varejo ainda evita encarar: o desperdício não é exceção, é estrutural. E mais do que isso, não é um problema de sustentabilidade. É, antes de tudo, um problema de negócio.
Ao longo da cadeia ou ciclo de vida do produto – da produção ao ponto de venda – o desperdício continua sendo tratado como parte do jogo. Perde-se na colheita, no transporte, no armazenamento e na loja. E no final, essa perda é diluída no resultado, como se fosse inevitável. Mas não é.

Artigo escrito pelo Anderson Ozawa, especialista em Prevenção de Perdas e Governança, consultor com mais de 40 programas de prevenção de perdas implantados com sucesso, palestrante, professor da FIA Business School e autor do livro Pentágono de Perdas: Transformando Perdas em Lucros.
Quando um setor chega ao ponto de ter custos de desperdício equivalentes a até 32% da receita no Brasil, não estamos falando de exceção operacional. Estamos falando de falta de governança. O problema não é falta de tecnologia. É falta de visibilidade
Um dado chama atenção: 61% das empresas ainda não têm clareza sobre onde o desperdício acontece. Esse é o ponto central. Não se gerencia o que não se mede e, no varejo alimentar, grande parte das perdas continua invisível (produtos que vencem no estoque, erros de armazenagem, falhas de reposição, excesso de compra, quebra operacional e perda no transporte).
Tudo isso acontece todos os dias, mas raramente é tratado como prioridade estratégica. O desperdício não dói quando acontece: dói no resultado, quando já é tarde.
A maior parte das perdas não acontece no consumidor, mas antes. A logística e a gestão de estoque concentram alguns dos principais gargalos: transporte sem controle adequado, armazenagem inadequada, previsão de demanda imprecisa e processos ainda manuais (67% das empresas ainda operam assim).
Existe um comportamento recorrente no varejo alimentar: quanto mais vende, mais perde, especialmente em períodos de alta demanda, promoções e sazonalidade. O aumento de volume traz mais ruptura, mais avaria, mais erro e mais desperdício.
E o mais perigoso: isso acontece enquanto o faturamento cresce, porque o volume mascara a ineficiência. Em uma operação supermercadista onde atuamos, o aumento de vendas em perecíveis foi comemorado como avanço de performance. Mas ao analisar o resultado consolidado, ficou evidente que a margem não acompanhou o crescimento. Parte do ganho foi consumida por excesso de compra sem ajuste fino de demanda, perda por vencimento e falhas no giro de estoque. Ou seja, o crescimento existiu, mas, o resultado não.
Existe um discurso crescente sobre sustentabilidade, muito importante. No varejo, a mudança não virá por consciência ambiental, mas pela pressão de resultado.
A provocação que o setor precisa ouvir é: enquanto o desperdício for tratado como efeito colateral, ele continuará existindo. Enquanto não houver visibilidade, não haverá controle. Enquanto não houver controle, não haverá margem.
O problema não é o alimento que se perde. É o modelo de gestão que permite que ele se perca. O desperdício global de alimentos não é apenas um número de US$ 540 bilhões. É um retrato claro de um sistema que ainda opera com baixa disciplina e pouca visibilidade.
A oportunidade não está apenas em reduzir perdas: está em transformar perda em resultado. E isso não exige revolução tecnológica. Exige algo mais simples e mais difícil: governança, método e execução.
Notícias
Mapa lança projeto para ampliar mercado de pequenas agroindústrias
Iniciativa busca facilitar acesso ao Sisbi-POA e fortalecer negócios rurais.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) apresentou, durante a Feira Brasil na Mesa, o projeto SIMples AsSIM, iniciativa desenvolvida em parceria com o Sebrae para ampliar a inserção de pequenas agroindústrias no mercado nacional e fortalecer os pequenos negócios rurais.
Durante a palestra, a coordenadora-geral do Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (Suasa), Claudia Valéria, destacou que os avanços do Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi-POA) abriram caminho para a criação do projeto. Segundo ela, a modernização dos processos foi essencial para ampliar a adesão ao sistema.
O projeto busca ampliar o acesso de produtos de origem animal ao mercado nacional por meio de qualificação técnica, modernização da inspeção, apoio à adequação sanitária, entre outras ações. A proposta também prevê identificar os principais desafios enfrentados pelos empreendedores e apoiar a integração ao Sisbi-POA.
A regularização de agroindústrias de pequeno porte é considerada estratégica para promover a inclusão produtiva, reforçar a segurança alimentar e impulsionar o desenvolvimento econômico local.
Durante a apresentação, Cláudia também ressaltou a importância de outras iniciativas, como o Projeto ConSIM, que contribuiu para a integração de consórcios públicos ao sistema. “Entre 2020 e 2025, 68 consórcios públicos no Brasil se integraram ao sistema, permitindo que muitos municípios ampliassem a comercialização de seus produtos”, afirmou.
Apesar dos avanços, o número de estabelecimentos ainda não acompanha o crescimento dos serviços de inspeção integrados. “Observamos um grande número de serviços integrados, mas os estabelecimentos não cresceram na mesma proporção. Por isso, surgiu a necessidade de fortalecer esses produtores e capacitá-los para acessar o mercado nacional”, pontuou.
O projeto está estruturado em três eixos: inclusão de agroindústrias no Sisbi-POA; fortalecimento dos Serviços de Inspeção Municipal com base em análise de risco; e apoio técnico à estruturação de agroindústrias de pequeno porte.
O projeto-piloto será iniciado em Santa Catarina, estado com grande número de agroindústrias e potencial de expansão. A iniciativa prevê diagnósticos in loco e planos de ação personalizados para apoiar a adequação dos estabelecimentos. “Mais de 80% das agroindústrias demonstraram interesse em expandir seus mercados. Isso mostra que há demanda e que precisamos criar condições para que esses produtores avancem”, concluiu a coordenadora-geral.
O analista do Sebrae Warley Henrique também apresentou os resultados iniciais do projeto. Entre eles, o diagnóstico on-line que identificou as principais dificuldades relacionadas à estrutura dos serviços de inspeção que limitam a integração dos estabelecimentos ao Sisbi, com 217 respondentes.
Também foi realizada pesquisa com técnicos dos estabelecimentos, que reuniu 114 participantes, sobre os principais entraves para obtenção do selo Sisbi, além do levantamento das orientações técnicas necessárias para cada estabelecimento.
Após a fase de levantamento, o projeto avança para a estruturação da metodologia de atendimento e para a implementação das ações em campo, com início previsto para maio de 2026, em Santa Catarina.
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Copacol recebe Prêmio de Melhor do Biogás pelo segundo ano consecutivo
Projeto premiado destaca eficiência na geração de energia a partir de resíduos e reforça liderança da cooperativa em sustentabilidade.

A Copacol consolidou mais uma vez sua posição de referência nacional em energias renováveis ao conquistar, pelo segundo ano consecutivo, o Prêmio Melhores do Biogás Brasil 2026, na categoria Melhor Planta Indústria.
O reconhecimento apresentado no 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, em Foz do Iguaçu, destaca o desempenho da Usina de Biogás instalada na UPL (Unidade de Produção de Leitões), em Jesuítas, e evidencia o compromisso da Cooperativa com inovação, eficiência energética e preservação ambiental. “É uma satisfação imensa receber o Prêmio de Melhor do Biogás, que reconhece o desempenho desse importante investimento em sustentabilidade. O respeito ao meio ambiente é uma prática em nossas atividades, por isso, buscamos alternativas que consolidem esse comportamento e preservem ainda mais nossas riquezas”, complementa o diretor-presidente da Copacol, Valter Pitol.
A premiação reforça os resultados obtidos pela cooperativa ao longo dos últimos anos, especialmente no aproveitamento de resíduos agroindustriais para geração de energia limpa. Somente em 2025, a usina produziu 6.813.437 kWh de energia a partir dos resíduos gerados pela Unidade de Produção de Leitões e pela Unidade de Produção de Desmamados, resultado que representou economia em energia elétrica e aproveitamento de resíduos equivalentes a R$ 6,4 milhões. “O Prêmio de Melhor do Biogás demonstra o compromisso da Copacol com a sustentabilidade, a destinação correta de resíduos, principalmente com e uso de energia renovável”, afirma o gerente de Meio Ambiente da Copacol, Celso Brasil.
O modelo premiado de geração de energias renováveis recebeu a visita de empresários do ramo do Brasil e do exterior. A programação contou com apresentação técnica e um passeio guiado às instalações, mostrando a realidade operacional da planta e os processos utilizados para transformar resíduos em energia. A Copacol foi escolhida como destino técnico pelo reconhecimento do projeto como modelo de sucesso no setor. “Existe muito estudo no desenvolvimento do projeto da Copacol e isso é fundamental. A operação leva em consideração dados diários de composição dos substratos, concentração de material orgânico e existe um monitoramento contínuo da planta. As tomadas de decisão são baseadas nos dados gerados. Isso dá segurança e impressiona bastante”, afirma a analista da Embrapa, Fabiane Goldschnidt, que atua em projetos de gerenciamento de resíduos, produção de biogás e biometano.
A usina também chamou a atenção de representantes da área acadêmica. Rosiany de Vasconcelos Vieira Lopes, professora da Universidade de Brasília, natural de Campina Grande e atualmente residente em Brasília, participou da visita técnica. “Fiquei muito surpresa com a estrutura. Percebemos na prática a utilização de resíduos aproveitados de uma maneira renovável e sustentável para a produção de energia.”



