Suínos Aurora Alimentos
Logística gera perdas e pandemia agravou essa situação para agroindústria

“É de extrema importância que o governo olhe um pouco para o cenário econômico do transporte, da infraestrutura. Essa questão do combustível precisa ser tratada, porque infelizmente quem acaba pagando a conta é o consumidor. A atuação do governo, na questão de entregar uma infraestrutura coerente para termos mais produtividade e reduzir a burocracia para tornarmos mais eficientes é o caminho”. A informação é de Celso Cappellaro, gerente de Operação da Cooperativa Central Aurora Alimentos, um dos maiores conglomerados de produção de alimentos do Brasil.

Celso Cappellaro, gerente de Operação da Cooperativa Central Aurora Alimentos.
Em entrevista exclusiva ao jornal O Presente Rural, Celso Cappellaro destaca ainda as dificuldades que o Brasil tem enfrentado em outras áreas da logística, como a falta de contêineres e até mesmo a falta de navios para levar a produção da empresa para o exterior. Atualmente, 40% de tudo que é produzido pela Aurora abastece países ao redor do mundo. Como essa engrenagem de distribuição está ‘enferrujada’, os custos têm ficado ainda maiores.
O Presente Rural – Como é feita a logística para entrega de matéria-prima nas fazendas produtoras de aves e suínos?
Celso Cappellaro – Hoje as fábricas de rações são da Aurora ou são das cooperativas filiadas. Com o objetivo de ter segurança no processo de produção toda a ração dos suínos que são abatidos dentro da Aurora (porque aí a gente tem controle de toda a matéria-prima) são produzidas dentro da Aurora. Farelo, milho, nutrientes etc. São todas ou da fábrica de ração da Aurora ou das fábricas de rações das cooperativas filiadas. Aí toda a logística de caminhões para entrega da ração é 100% vinculada com contrato da Aurora ou da cooperativa filiada.
O Presente Rural – Como é feita a logística das granjas até as indústrias?
Celso Cappellaro – Hoje todos os suínos e principalmente todas as aves também são vinculados aos produtores que são sócios das cooperativas. Então, ou a Aurora ou as cooperativas têm todo o acesso às informações dos produtores. Onde estão localizados por georreferenciamento e todos os animais são feitas programações de 10 a 15 dias antes, por nós mesmos, porque temos a informação dos lotes que estão no campo, tanto de suínos como de frango. Quando estão aptos para serem abatidos a gente faz a programação e os caminhões que vão buscar os animais. Esses veículos são adequados para atender a questão do bem-estar animal e todos esses transportadores têm vínculo com a Aurora e são exclusivos para essa atividade, tanto quem leva as rações quanto quem busca os animais.
O Presente Rural – Em sua avaliação como está o estado de conservação das estradas rurais e das rodovias que levam às agroindústrias?
Celso Cappellaro – As estradas vicinais vêm evoluindo, mas infelizmente ainda é bem diferente da Europa e Estados Unidos, por exemplo, onde todas as estradas vicinais do interior têm algum tipo de pavimentação, seja qual for, aqui no Brasil ainda não. E com condições de relevo da nossa região fica mais complicado. Então, principalmente depois de uma enxurrada, as nossas estradas são precárias. Certamente se nós tivéssemos rodovias vicinais, inclusive as estaduais e, principalmente as federais, mas pensando buscar nas propriedades as estaduais e municipais numa condição melhor certamente a nossa produtividade em termos de condições de logística aumentaria no mínimo de 20 a 30%.
O Presente Rural – Qual seria a logística ideal para essa fase do sistema produtivo?
Celso Cappellaro – Aqui na região a gente é um cluster – um case de sucesso – porque o sistema de integração está muito voltado aqui. Acredito que justamente as condições e recursos para que tenhamos uma estrutura de rodovias mais qualificadas, com uma infraestrutura melhor para termos essa produtividade melhor. Certamente teríamos custos de manutenção menor, custos logísticos menores como um todo e, com essa produtividade de 20 a 30% maior, nós conseguiríamos ser mais competitivos no mercado.
O Presente Rural – Como é feita a distribuição de alimentos para o Brasil? Quais os principais gargalos?
Celso Cappellaro – Todos os nossos carregamentos, também de frigorificados, são divididos em duas etapas. A primeira que chamamos de primária que é tirar o produto das indústrias e levar até os centros de distribuições nos grandes centros, para onde serão distribuídos, e a secundária, que seria a segunda perna da entrega, que vai dos centros de distribuições dos grandes centros até o consumidor final. A primária é feita com carretas de capacidade máxima, de 28 mil a 30 mil toneladas e os veículos menores para agilizar a entrega dentro dos centros urbanos para fazer a distribuição no varejo e atacado. E também todos esses veículos são de terceiros com contrato específico para transportar os produtos da Aurora, atendendo todas as premissas de questão de conservação da qualidade do produto, temperatura, entre outras questões. São caminhões que precisam atender a questão de que estão transportando alimentos e precisam ser muito bem conservados.
O principal gargalo inicial para nós se chama (BR) 282 e interseção (BR) 470, que liga ao nosso litoral. É a única rodovia que é um eixo que liga o Oeste ao Leste do Estado. Hoje como o grande centro consumidor está localizado no Sudeste (do Brasil), onde temos a via (BR) 282 e a (BR) 153 que leva até o Sudeste. Esse é um dos principais gargalos que a gente tem que também aumentaria em 20% a produtividade, se nós tivéssemos, por exemplo, essas duas rodovias duplicadas.
O Presente Rural – Como é feita a distribuição para o exterior? Quais os principais gargalos?
Celso Cappellaro – Hoje, em torno de 40% da produção da Aurora vai para o exterior. Desses 40%, a maioria dos nossos produtos são produzidos no Oeste de Santa Catarina, vão pela (BR) 282 interseção a (BR) 470 – para Itajaí ou Navegantes – os principais portos que usamos. O terceiro porto é o de Itapoá. Por isso, que essa rodovia 282 com intercessão da 470 é imprescindível a duplicação, para termos 20% a mais de produtividade com os nossos caminhões. Se, por exemplo, você se pegar principalmente a região de Blumenau, subida da serra, e ficar atrás de um caminhão que não tem aonde ir, você perde muito a produtividade. Todos os nossos carregamentos para exportação são pegos os contêineres nos portos, junto aos nossos parceiros que transportarão via marítima, ou seja, pega o contêiner, coloca em cima de uma prancha de caminhão, ele vem vazio até a fábrica, nós carregamos e ele vai de novo para o porto, onde é retirado o contêiner e depois tem a capacidade de retornar para fazer uma nova viagem.
O Presente Rural – Cerca de 40% das cargas brasileiras de frangos e suínos estão paradas em portos, de acordo com a ABPA. Isso é normal? Por que está acontecendo?
Celso Cappellaro – Não é normal, muito pelo contrário, isso está afetando o nosso processo produtivo. Os portos estão extremamente lotados porque a engrenagem que rodava o mundo na questão do frete marítimo teve uma mudança com o processo da pandemia. Inicialmente tivemos falta de contêineres. Hoje há falta de navios, porque houve uma migração das rotas dos navios que faziam uma rota pela América do Sul, Ásia e América Central. E hoje mudou isso. As empresas que fazem o transporte marítimo transferiram esse tráfego porque diminuiu o volume de importação da China para essas regiões. Tudo isso quebrou a engrenagem da roda. E até ter esse ajuste estão dando esses problemas. Ficaram bastantes navios entre Estados Unidos e China e deixando a América do Sul um pouco de fora.
O Presente Rural – Quais os prejuízos que essas cargas paradas representam?
Celso Cappellaro – Em termos de qualidade do produto não há prejuízo. O que acontece é que dependendo da situação, quando você tem o direito junto ao contrato que você faz com o transportador que é o dono do contêiner (armador) ele dá, por exemplo, 10 dias para ficar com o contêiner. Se passar esses dias você começa a pagar diárias, então começa a ter custos inerentes ao processo logístico dentro desse contexto. É aumento de custo de forma significativa. Isso só a questão dos contêineres parados, sem contar que a quebra da engrenagem das rotas de navio fez com que o frete disparasse.
O Presente Rural – Qual é o tempo considerado ideal para uma carga deixar a indústria até ser embarcada em navios?
Celso Cappellaro – Em função da questão de atender documentações o ideal é na faixa de 7 a 10 dias.
O Presente Rural – A empresa tem sentido falta de contêineres ou navios?
Celso Cappellaro – Ainda não está solucionado o problema do contêiner, mas hoje o principal gargalo é a fata de rotas de navios para poder carregar esses contêineres.
O Presente Rural – Após o processamento dos alimentos qual seria o cenário de logística ideal?
Celso Cappellaro – Quando todo mundo vai bem, tudo flui naturalmente. No mercado interno que melhorasse o poder aquisitivo, porque se você tem uma redução no seu consumo, automaticamente tem que guardar produto em terceiro, você começa a quebrar o fluxo normal do consumo. Você produz, transporta e consume! Quando você não tem essa engrenagem alinhada, você produz, estoca ou dentro de casa ou em terceiro, criando um custo maior dentro do processo. Então, o ideal é melhorar o poder aquisitivo do mercado interno para ter mais consumo de proteína e ter uma organização com a redução da pandemia e que volte o turismo. Por exemplo, no Oriente Médio, que compra bastante carne de frango, agora está voltando à normalidade da compra, principalmente de peito de frango, porque começou a aumentar o turismo. O importante é que o mundo volte a uma normalidade dentro do seu processo pós-pandemia.
O Presente Rural – Como a logística influencia na competitividade do agronegócio brasileiro?
Celso Cappellaro – A logística é como as veias do corpo humano que leva o produto de um lado para o outro e ela é impactada justamente pela pulsação do mercado. Quanto mais pulsação mais a logística flui. No momento em que diminui a circulação dentro do processo, a logística também é impactada. Por exemplo, o cenário dos custos que quebrou toda a engrenagem desde a fabricação de caminhão, combustível, fabricação de pneus, manutenção… Hoje quando um transportador compra um caminhão leva seis meses para recebê-lo porque não tem peças para suprir e fazer a entrega. Houve uma quebra de engrenagem. Tudo isso fez com que os custos logísticos subissem de forma absurda – uma quebra de fluxo normal dentro do processo de produção, logística e consumo.
O Presente Rural – O que a companhia tem feito para ter uma logística mais eficiente?
Celso Cappellaro – Nós temos procurado ser eficientes dentro dos nossos processos operacionais, deixando os caminhões cada vez menos parados dentro das nossas plantas, dando produtividade a eles. Temos algumas estratégias também no intuito de tentar mitigar custos para o nosso transportador e, principalmente, sermos eficientes operacionalmente porque grande parte dos custos de logística dependem também da parte externa, que são os custos de combustíveis, infraestrutura do governo e caminhões que vem de outras empresas e que nesse momento existe uma ruptura.
Aurora amplia exportações em receita e volume
A Cooperativa Central Aurora Alimentos – terceiro grupo agroindustrial brasileiro do segmento de carnes – desenvolve acelerado incremento nas exportações, iniciado em 2020 e consolidado neste ano. No ano passado, as exportações da Aurora cresceram 61,8% em receitas e 23% em volumes. As compras chinesas de proteína animal no mercado mundial catapultaram as vendas da Aurora, potencializadas pela situação cambial: o dólar valorizado frente ao real ampliou os ganhos pelo câmbio e valorizou ainda mais os produtos de exportação. A China, sozinha, ficou com 40% das exportações totais da Cooperativa Central.
Com esses resultados, a importância relativa da cooperativa no cenário das vendas brasileiras ao exterior cresceu: em 2020, a Aurora respondeu por 17,5% das exportações de carnes suínas do Brasil e por 6,6% das exportações de frango. Anteriormente era, respectivamente, 16,8% e 6,4%.

Presidente da Aurora, Neivor Canton: “A China, sozinha, ficou com 40% das exportações totais da Cooperativa Central”
O presidente Neivor Canton e o diretor comercial Leomar Somensi mostram que o desempenho do primeiro semestre deste ano confirma essa escalada. Nos primeiros seis meses de 2021 foram exportadas 291,5 mil toneladas de carne e derivados, o que representa um crescimento de 18% sobre o mesmo período do ano anterior. Em volumes, 55% é composto por proteína de frango e 45% de suíno.
Em receitas cambiais, as exportações desse primeiro semestre renderam R$ 667,8 milhões de carne e derivados, que representa um crescimento de 23% sobre o mesmo período do ano anterior. As vendas de carne de frango contribuíram com 40% para esse resultado e, as carnes suínas, com 60%.
Os principais produtos exportados, em carne suína, foram pernil, lombo, carré, paleta, barriga, costela e demais cortes/miúdos. Os principais importadores são China, Hong Kong, Chile, Estados Unidos e Japão.
As carnes de frango mais exportadas pela Aurora Alimentos foram coxas e sobrecoxas, peito, asas e demais cortes/miúdos, tendo como principais destinos China, Japão, Emirados Árabes, Filipinas, Rússia e Coreia do Sul.
As vendas de carnes suínas no mercado externo ainda se beneficiam dos influxos da demanda chinesa que se manteve forte. O surgimento de novos focos de peste suína na China, Rússia e outros países asiáticos, principalmente, contribuiu para o escoamento da produção. A China continuou o principal mercado.
O mercado de carnes de aves foi impactado pela mudança da sazonalidade climática (com a chegada do verão no hemisfério norte) associado ao surgimento de focos de gripe aviária na Europa e na Ásia. Esses fatores favoreceram o esforço de busca de recuperação de preços e as exportações brasileiras de frango.
O diretor comercial avalia como “muito positivo” o balanço das exportações do primeiro semestre, “apesar dos elevados custos dos insumos (milho e farelo de soja) e do protecionismo de alguns mercados”.
Da mesma forma, as expectativas para o segundo semestre são otimistas. “Há sólidas previsões de aumento do consumo decorrente do avanço da vacinação e da retomada gradual do turismo. Os custos de produção, contudo, irão se manter elevados, pressionando a reposição dos preços e a retração das margens,” analisa Leomar Somensi.
Mas o cenário também comporta desafios, lembra o presidente Canton. A avicultura e a suinocultura industrial enfrentam, neste ano, o violento encarecimento dos insumos e, em especial, da alta sem precedentes no preço dos grãos (milho, farelo de soja etc.) e de embalagens, entre milhares de outros itens. “O desafio é manter a competitividade de toda a cadeia produtiva, especialmente dos milhares de produtores rurais”, assinala.
Desempenho Anual
O presidente Neivor Canton prevê que, em se mantendo os volumes médios mensais faturados, a expectativa é de encerrar o exercício com um crescimento no negócio aves em faturamento na ordem de 15%, sendo 24% de acréscimo no mercado externo e 3,3% no mercado interno. No negócio suínos, a previsão é de finalizar o ano com um crescimento em faturamento na ordem de 20%, sendo 40% de acréscimo no mercado externo e 6% no mercado interno.

Suínos
Primeiro clone suíno da América Latina nasce em unidade da Secretaria de Agricultura de SP
Avanço inédito combina ciência da USP com estrutura do Instituto de Zootecnia e reforça papel da pesquisa paulista na geração de soluções para a saúde e o agro

O primeiro clone suíno da América Latina nasceu na unidade do Instituto de Zootecnia, em Piracicaba, vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O feito inédito é resultado de pesquisa conduzida pela Universidade de São Paulo, com apoio da Agência Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), responsável pela estrutura, manejo e cuidado dos animais por meio do Instituto de Zootecnia.
O nascimento ocorreu no dia 24 de março, na unidade experimental do IZ em Tanquinho, onde as instalações foram readequadas conforme a legislação para a produção desses animais, com rigor em biossegurança, bem-estar e controle sanitário.
A iniciativa integra um projeto voltado à produção de suínos com potencial para doação de órgãos e tecidos para humanos, dentro do campo do xenotransplante — técnica que busca reduzir a fila por transplantes e ampliar as possibilidades de compatibilidade entre doadores e receptores.
A pesquisa mobiliza uma equipe multidisciplinar, envolvendo especialistas em zootecnia, medicina veterinária e biotecnologia. No Instituto de Zootecnia, foram desenvolvidos protocolos específicos de manejo produtivo, sanitário, nutricional e ambiental, além de técnicas reprodutivas e cirúrgicas para implantação dos embriões, incluindo sincronização de cio e procedimentos de alta complexidade.
De acordo com a equipe envolvida, os manejos são minuciosamente acompanhados para garantir o sucesso da gestação e o desenvolvimento dos animais. A próxima etapa do projeto prevê o monitoramento dos clones até a maturidade sexual, com geração de dados para subsidiar futuras aplicações científicas e tecnológicas.

O manejo dos animais nas baias do Instituto de Zootecnia segue protocolos técnicos rigorosos, especialmente por se tratar de uma pesquisa sensível, voltada à produção de suínos com finalidade biomédica
“O trabalho conduzido pelo Instituto de Zootecnia e pela Universidade de São Paulo marca um avanço decisivo para a ciência paulista e reforça o papel da pesquisa em gerar soluções concretas. O trabalho das nossas instituições abre novas fronteiras para a saúde humana, a produção animal e a bioeconomia. É esse investimento em ciência que sustenta a liderança de São Paulo e prepara o Estado para o futuro”, afirma o secretário de Agricultura e Abastecimento, Geraldo Melo Filho.
O coordenador do Instituto de Zootecnia destaca o papel da instituição no projeto. “A estrutura e a expertise do IZ são fundamentais para garantir o manejo adequado dos animais, com foco em biossegurança e bem-estar. É essa base que permite que a ciência avance com segurança e responsabilidade”, afirma.
As pesquisas voltadas ao xenotransplante têm como objetivo enfrentar um dos principais desafios da saúde pública: a escassez de órgãos para transplante. Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes, pacientes morrem diariamente à espera de um órgão compatível, cenário que reforça a relevância de iniciativas científicas dessa natureza.
Além do impacto na saúde humana, o avanço posiciona São Paulo na vanguarda da biotecnologia aplicada ao agro, consolidando o papel das instituições públicas de pesquisa como ativos estratégicos para o desenvolvimento do Estado.
O projeto segue em desenvolvimento, com novas etapas já em andamento, incluindo a gestação de outros clones, ampliando o potencial de aplicação da tecnologia e reforçando a integração entre ciência, produção e inovação no Estado de São Paulo.
De acordo com a pesquisadora do Instituto de Zooctenia, Simone Raymundo de Oliveira, os manejos produtivos – sanitário, nutricional e ambiental – são minuciosamente estudados pela equipe para garantir o sucesso da gestação. “Nosso objetivo agora é acompanhar o crescimento dos clones até a maturidade sexual, fornecendo dados sobre este animal para futura tomadas de decisões”.
Suínos
Qualidade de carne suína: a genética da matriz como escolha estratégica
Quando se discute qualidade de carne suína, é comum que o foco recaia sobre o macho terminador, uma vez que suas características genéticas estão diretamente associadas ao ganho de peso, ao rendimento de carcaça e à composição corporal dos animais abatidos.

Artigo escrito por João Cella, Zootecnista, coordenador Comercial na Topgen Genética Suína
Quando se discute qualidade de carne suína, é comum que o foco recaia sobre o macho terminador, uma vez que suas características genéticas estão diretamente associadas ao ganho de peso, ao rendimento de carcaça e à composição corporal dos animais abatidos. No entanto, essa abordagem desconsidera um fator estrutural do sistema produtivo: a genética da matriz, que contribui com 50% do patrimônio genético dos leitões e influencia de forma decisiva o desempenho produtivo e a qualidade final da carne.
A matriz não é apenas a base reprodutiva da granja. Ela exerce influência direta sobre o peso ao nascimento, a uniformidade da leitegada e a capacidade de crescimento dos leitões nas fases subsequentes. Esses fatores iniciais condicionam respostas metabólicas, eficiência alimentar e padrões de deposição de músculo e gordura, que se refletem até o abate. Assim, a qualidade da carne começa a ser definida muito antes da escolha do macho, ainda na seleção genética das fêmeas.
Os programas de melhoramento genético de matrizes tradicionalmente priorizam características como prolificidade, habilidade materna, produção de leite e longevidade produtiva. Esses atributos seguem sendo fundamentais para a eficiência econômica da granja. Entretanto, uma visão moderna de genética reconhece que desempenho reprodutivo e qualidade de carne caminham juntos. A matriz transmite genes que influenciam diretamente a conversão alimentar, o ganho de peso diário, a uniformidade dos lotes e a composição da carcaça, especialmente o equilíbrio entre gordura e carne magra.
Equilíbrio entre gordura, carne magra e marmoreio
A gordura não deve ser interpretada de forma isolada como um componente indesejado da carcaça, mas como parte essencial do equilíbrio entre gordura e carne magra que sustenta a qualidade da carne suína. A genética exerce influência direta não apenas sobre a quantidade total de gordura depositada, mas também sobre sua distribuição e composição, determinando o perfil de ácidos graxos, a estabilidade oxidativa e a interação entre os tecidos muscular e adiposo. Nesse contexto, a gordura contribui para atributos fundamentais da carne suína, como sabor, textura e suculência.
Matrizes geneticamente equilibradas favorecem níveis adequados e estáveis de marmoreio, resultando em melhor qualidade tecnológica da carne, com maior capacidade de retenção de água, coloração mais uniforme e menor variabilidade entre lotes destinados à indústria.
O marmoreio, resultante da gordura intramuscular entremeada às fibras musculares, é um dos principais indicadores desse equilíbrio fisiológico. Níveis adequados de marmoreio contribuem para maior maciez, suculência e intensidade de sabor, ao mesmo tempo em que preservam os padrões industriais de rendimento e proporção de carne magra.
Esse ajuste fino entre deposição muscular e gordura intramuscular pode ser conduzido de forma consistente por meio de programas de melhoramento genético de matrizes, reforçando o papel estratégico da genética na construção da qualidade final da carne suína.
Genética da matriz e bem-estar animal
Matrizes selecionadas para equilíbrio fisiológico e temperamento contribuem para a produção de suínos mais dóceis, com melhor adaptação ao manejo e menor sensibilidade ao estresse, especialmente no pré-abate.
Animais menos reativos apresentam menor risco de oscilações de pH muscular, reduzindo a incidência de alterações como PSE e DFD. Isso resulta em carne com melhor coloração, maior capacidade de retenção de água e maior consistência entre lotes. Esses fatores impactam diretamente os processos industriais e ampliam a janela de comercialização no varejo.
É importante destacar que protocolos corretos de manejo, jejum, transporte, descanso e resfriamento são indispensáveis. Contudo, sem uma base genética adequada, esses cuidados têm sua eficácia limitada. A genética atua como o alicerce sobre o qual todas as demais práticas produtivas se apoiam.
Qualidade de carne como estratégia de longo prazo
Considerar a genética da matriz sob a ótica da qualidade de carne representa uma mudança de mentalidade na suinocultura. Trata-se de enxergar a fêmea não apenas como produtora de leitões, mas como agente estratégico na construção do valor do produto final. Essa abordagem atende a um mercado consumidor cada vez mais atento à qualidade sensorial, à padronização e à imagem da carne suína como proteína saudável, saborosa e versátil.
Para o produtor rural, os benefícios se refletem em melhor conversão alimentar, maior ganho de peso diário, uniformidade dos lotes, menor mortalidade e maior previsibilidade dos resultados. Para a indústria, significam carcaças mais consistentes, processos mais eficientes e menor variabilidade. Para o consumidor, resultam em carne com melhor sabor, maciez e estabilidade.
Nesse cenário, a genética animal assume papel central. A evolução da carne suína como carne de qualidade passa, inevitavelmente, pela escolha criteriosa das matrizes.
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Suínos
Micotoxinas começam no silo: por que o controle fúngico define a saúde dos suínos
Zootecnista Fernanda de Andrade explica como o armazenamento inadequado de grãos favorece fungos e a formação de micotoxinas, impactando desempenho, saúde e produtividade na suinocultura.

Artigo escrito por Fernanda de Andrade, zootecnista, gerente de Feed Safety and Nutritional Solution da Trouw Nutrition
Embora frequentemente subestimado, o controle fúngico ao longo da cadeia de produção de ração tem papel determinante na saúde e no desempenho dos suínos. A presença de fungos nos ingredientes utilizados na formulação é a principal causa da formação de micotoxinas, substâncias tóxicas que representam um dos maiores desafios sanitários e produtivos da suinocultura moderna.
Nos últimos anos, a incidência de micotoxinas cresceu de maneira significativa em diversas regiões produtoras. Mesmo com avanços em manejo nutricional, a ocorrência de contaminações por fungos ainda é tratada com menos prioridade do que deveria, sobretudo no armazenamento de grãos e na higienização das fábricas de ração. Trata-se de etapas frequentemente negligenciadas, mas que determinam grande parte da qualidade final do alimento fornecido aos animais.
Impactos de alto custo
A suinocultura é especialmente sensível às micotoxinas, em particular à deoxinivalenol (DON) e à zearalenona (ZEA), que afetam diretamente fases críticas do ciclo produtivo. Entre os efeitos mais comuns estão queda de desempenho, redução da eficiência alimentar, comprometimento imunológico, lesões orgânicas e, no caso de matrizes, natimortos, abortos, prolapsos e irregularidades reprodutivas.
O cenário se agrava quando há policontaminação, isto é, a presença simultânea de diferentes micotoxinas. Estudos recentes mostram que, enquanto há alguns anos eram conhecidas cerca de 600 micotoxinas, o número já ultrapassa 700 compostos identificados no mundo, tornando o desafio ainda mais complexo. Mesmo considerando apenas as seis micotoxinas de maior relevância zootécnica, como Fumonisina, DON, ZEA, Aflatoxina, Ocratoxina e Toxina T-2, os impactos são amplos e multifatoriais.
Armazenamento de grãos

O armazenamento é o ponto de maior vulnerabilidade da cadeia. Um armazém sem monitoramento adequado de umidade, temperatura, higiene e ventilação cria as condições ideais para proliferação de fungos e produção de micotoxinas. Assim, o silo deve ser visto não como um simples depósito, mas como um ambiente dinâmico, sujeito à migração de umidade, variações térmicas e intensa atividade microbiológica.
Quando esses fatores não são controlados, ocorre oxidação de ingredientes, deterioração nutricional e formação de compostos tóxicos. São as chamadas “perdas invisíveis”: alterações que não são perceptíveis visualmente, mas que comprometem o valor nutricional e aumentam o risco sanitário. Além disso, falhas de higienização nas fábricas de ração podem perpetuar contaminantes e permitir o desenvolvimento contínuo de fungos nos equipamentos.
Controle fúngico
Diferentemente das micotoxinas já presentes no grão, situação em que apenas adsorventes podem atuar, a contaminação fúngica durante o armazenamento pode e deve ser prevenida. Entre as ferramentas disponíveis, os blends de ácidos orgânicos estão entre as soluções mais eficazes para controle direto de fungos em grãos, ingredientes e ambientes de produção de ração.
Esses blends podem atuar em versões líquidas ou em pó, dependendo da necessidade da operação. Em tecnologias mais avançadas, combinações específicas de ácidos orgânicos aceleram o efeito antifúngico e fortalecem a ação do ácido propiônico, resultando em rompimento mais rápido da membrana do fungo e, consequentemente, em maior eficiência de controle.
Como os ácidos orgânicos atuam sobre fungos
O mecanismo de ação é bem estabelecido na literatura científica. Primeiramente ocorre uma penetração na membrana fúngica na qual os ácidos orgânicos não dissociados atravessam a membrana plasmática, especialmente em pH mais ácido. Depois, acontece uma acidificação do citoplasma dentro da célula fúngica, que libera prótons (H⁺), reduzindo o pH interno.
Em seguida, vem um desbalanço osmótico e energético para tentar restabelecer seu equilíbrio interno, o fungo precisa gastar grandes quantidades de energia, consumindo ATP para bombear íons. A partir deste momento acontece uma inibição da síntese e do crescimento celular, onde a acidificação desestabiliza enzimas metabólicas e compromete a formação de proteínas, o que leva a morte celular do fungo. Sem energia e com a integridade da membrana comprometida, a célula fúngica entra em colapso.
Essa sequência reduz significativamente a proliferação fúngica e, por consequência, diminui o risco de formação de micotoxinas ao longo da estocagem e do processamento.
Estudos recentes comprovaram que a combinação de três ingredientes ao ácido propiônico potencializa essa ação e leva a um rompimento mais rápido da membrana dos fungos. Esta combinação acelera o efeito do ácido propiônico em até três vezes, ampliando sua eficácia.
Abordagem preventiva e integrada
O controle eficaz exige uma abordagem contínua, iniciando no recebimento do grão e se estendendo até a produção da ração. O uso de aditivos conservantes deve ser combinado com iniciativas como inspeção e limpeza dos silos, monitoramento de umidade e temperatura, boas práticas de armazenamento, higienização completa das fábricas e uma análise contínua de risco de contaminações.
Uma mudança de mentalidade é urgentemente necessária. A qualidade da ração começa no armazém. Não basta investir em formulações balanceadas se os ingredientes chegam comprometidos por má estocagem. Quando o controle fúngico deixa de ser tratado como etapa secundária e passa a ser parte estratégica da nutrição, os resultados aparecem em saúde animal, produtividade e rentabilidade.
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