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Bovinos / Grãos / Máquinas Em 10 anos

“Leite vai ser mais uma estrela do agronegócio brasileiro”, crava Spies

Spies falou sobre os desafios do pecuarista, como está o setor leiteiro no Brasil e o que esperar para os próximos anos

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Arquivo/OP Rural

O setor lácteo brasileiro ainda tem muitos desafios para enfrentar. Atender as novas exigências da qualidade do leite, atender as demandas do consumidor, produzir a quantidade para a atividade ter a lucratividade necessária, reduzir o uso de recursos naturais e impactos ambientais. Estes são somente alguns dos pontos pelos quais os produtores deverão se atentar se quiserem continuar na atividade. Muito além disso, o setor lácteo brasileiro precisa ainda ganhar espaço, agregar valor no seu produto e começar a exportar. O engenheiro agrônomo e coordenador geral da Aliança Láctea Sul-Brasileira, doutor Airton Spies, conversou com a equipe do Jornal O Presente Rural e contou um pouco quais são os desafios do pecuarista, como está o setor leiteiro no Brasil e o que esperar para os próximos anos. Boa leitura.

O Presente Rural (OP Rural) – É um desafio para o produtor brasileiro alcançar o leite de alta qualidade que atualmente está sendo exigido?

Airton Spies (AS) – Sim, atingir os padrões de qualidade do leite ideal no Brasil, aquele que está previsto nas Instruções Normativas 76 e 77 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) é um grande desafio. Aqui temos uma produção muito pulverizada em pequenas propriedades, muito heterogênea, o clima é quente e a infraestrutura é precária para resfriamento e transporte do leite até as indústrias. As novas INs são instrumentos muito positivos para conduzir a produção brasileira na direção certa: uma melhoria contínua na qualidade para nos tornarmos competitivos para exportar lácteos e competir com os melhores do mundo. Mas é um caminho longo e temos que fazer as transformações gradativamente, aplicando incentivos para o leite bom e penalidades para o leite ruim.

OP Rural – A sobrevivência na atividade está relacionada com qualidade?

AS – A produção brasileira é quase toda consumida no mercado interno, o país exporta menos de 1% do total de 35 bilhões de litros produzidos anualmente. Os consumidores brasileiros estão cada vez mais exigentes em termos de qualidade e segurança dos produtos lácteos que compram, demandando inclusive certificações para tal.  Portanto, o mercado de leite com mais qualidade é fundamental para quem quiser sobreviver no setor, que está cada vez mais orientado pela livre concorrência e regras de mercado. Para os produtores, o leite deve ser visto como uma matéria-prima industrial, cujo rendimento em derivados depende, não só de contagem de colônias formadoras de bactérias (CBT) e contagem de células somáticas (CCS), mas também de percentuais de sólidos, gordura, proteína e caseína, dos quais são fabricados a maioria dos produtos lácteos consumidos.

OP Rural – O que podemos esperar para a produção de leite para os próximos anos?

AS – O setor lácteo brasileiro está passando por uma grande revolução. Melhorias em todos os aspectos estão acontecendo rapidamente. Através da assistência técnica, os produtores de leite estão se profissionalizando, aplicando modernos princípios agronômicos para produzir mais pastagens e biomassa de boa qualidade, que forma a base da alimentação dos rebanhos de gado leiteiro. Com as melhorias zootécnicas e com a genética mais aprimorada, a produtividade está aumentando, tanto por vaca como por hectare. Os sistemas de manejo, ordenha e conservação do leite estão sendo aprimorados e mudando o setor para melhor. No entanto, o setor ainda é muito desnivelado. Já temos produtores com desempenho excelente, enquanto a maioria ainda tem muito dever de casa por fazer para ser competitivo com os padrões do leite do futuro, aquele que conseguirá competir de igual para igual com os melhores do mundo. Vai ocorrer um “nivelamento para cima” em termos de desempenho, que eliminará as ineficiências, os desperdícios e os custos ociosos da cadeia produtiva.

OP Rural – Aqueles que não alcançarem os índices de qualidade que são exigidos, o que acontecerá com eles?

AS – O mercado é seletivo e excludente. Na medida em que os padrões de desempenho, tanto de qualidade, como de custo de produção vão evoluindo para melhor, para produtores que não conseguirem acompanhar essa evolução, provavelmente, produzir leite deixará de ser uma atividade viável. O setor lácteo brasileiro já apresenta algumas tendências bem definidas. Uma delas é a redução do número de produtores de leite. Segundo o IBGE, o país conta com cerca de 1,2 milhão de produtores de leite, dos quais, 633 mil entregam leite regularmente para as indústrias. Desse total, 67% ainda produzem menos de 250 litros por dia e apenas 5% entregam mais de mil litros por dia. Os produtores com menos de 100 litros por dia deixarão de ser atrativos para a indústria, uma vez que a logística de coleta se torna excessivamente cara.

A exclusão de parte dos produtores menos eficientes não significa necessariamente uma tragédia socioeconômica. Na medida em que o setor se torna mais competitivo para exportar, o volume total produzido no Brasil aumentará e com isso a cadeia produtiva abrirá inúmeras novas oportunidades de emprego e renda ao longo de seus elos, antes e depois da propriedade rural. O número total de pessoas que vão ganhar a seu sustento na cadeia produtiva do leite será maior, quão mais competitivo for o setor. Foi exatamente isso que aconteceu com a suinocultura no Sul do Brasil. Em duas décadas, o número de produtores de suínos caiu para menos de um terço e a produção triplicou. Milhares de pessoas hoje devem o seu emprego e seu ganha-pão graças a esse aumento de eficiência e competitividade. Essa revolução das carnes resultou em setores que hoje conseguem colocar seus produtos, mesmo produzidos em pequenas propriedades de agricultores familiares, em qualquer local do mundo onde existam consumidores.

OP Rural – O consumidor está mais exigente quanto a qualidade do leite?

AS – Sem dúvida. Os consumidores têm acesso a todo tipo de informação sobre os produtos que põem na mesa. A internet tornou todo processo de busca de informação mais rápido e transparente. O consumo responsável está ganhando força em todo mundo, de forma que o leite, para ter acesso ao mercado, terá que atender os princípios da sustentabilidade ambiental, social e econômica. A tolerância da sociedade para as externalidades da produção sobre o meio ambiente está cada vez menor. Além disso, os consumidores também estão cada vez mais atentos às questões de bem-estar animal. Nenhum animal pode ser submetido a qualquer tipo de sofrimento ou crueldade no processo produtivo, senão os consumidores rejeitarão os produtos.

OP Rural – É um desafio também para a indústria estes índices de alta qualidade do leite?

AS – É um desafio para toda cadeia produtiva. As novas INs 76 e 77 de 2018, que entraram em vigor no dia 30 de maio de 2019, trouxeram uma inovação em relação às INs 51 e 62, que tratavam da qualidade do leite cru anteriormente: agora estão previstas penalidades, inclusive, para o produtor de leite que pode ser suspenso se a qualidade mínima não for atingida. Como uma quantidade significativa do leite brasileiro ainda não atende aos padrões das novas INs, é natural que surjam dificuldades para superar as inconformidades e, ao mesmo tempo, abastecer o mercado com produtos lácteos. O Mapa está sensível às dificuldades e vai constituir um Conselho Técnico Consultivo, o CTC-Leite, justamente para administrar essa transição e ajudar a indústria láctea a superar os desafios da qualidade do leite. Além disso, o Plano de Competitividade do Leite Brasileiro vai criar incentivos para que a indústria desenvolva seus fornecedores, visando atingir os padrões de qualidade que o mercado global exige e assim tornar o Brasil um país exportador de lácteos.

OP Rural – O Brasil poderá, um dia, chegar a níveis de qualidade de países como Uruguai, Austrália e Nova Zelândia?

AS – Pode, mas não é um caminho fácil. Conheço bem as condições de produção da Nova Zelândia e da Austrália, pois vivi seis anos nesses dois países, onde fiz meu mestrado e doutorado, na área de produção animal. O clima ameno ajuda na preservação da qualidade do leite, mas principalmente, a estrutura produtiva e a escala maior viabilizam uma logística eficiente e padronizada, tanto na fazenda como no transporte. As propriedades rurais têm sistemas eficientes de refrigeração e conservação do leite e em função da grande escala, chega rapidamente na indústria. Um dos diferenciais é a utilização de sistemas de pré-resfriamento, que baixam a temperatura do leite imediatamente após a ordenha, não dando chances para as bactérias se multiplicarem. O leite neozelandês sai das propriedades com 31% a mais de sólidos do que o leite brasileiro, tomando a gordura e a proteína por referência. Isso significa 31% a mais de rendimento industrial, logo, mais valor em derivados. Eles atingiram esses índices investindo em melhoramento genético, alimentação e manejo. Temos condições de resolver nossos problemas da qualidade no Brasil, mas temos dificuldades bem maiores a superar do que esses países que já são grandes exportadores. Em contrapartida, temos aqui outras vantagens comparativas que podem ser transformadas em vantagens competitivas.

OP Rural – O Brasil ainda importa leite. Esta é uma situação que pode ser mudada e o país passar a exportar?

AS – Sim, os cenários do leite brasileiro indicam claramente que em cinco anos o país passará de importador líquido para exportador de lácteos. Para continuar crescendo sua produção no ritmo que vinha aumentando até 2016, em 2027 o Brasil terá que exportar em torno de 10% dos 47 bilhões de litros de produção anual que projetamos. Aliás, sem exportação, não tem solução para o leite brasileiro. Quando formos competitivos para exportar, também seremos capazes de rechaçar as importações por competitividade e não precisaremos mais de tarifas e taxas antidumping. Esse é o futuro do leite brasileiro. A era do aumento da produção para substituir as importações de leite no Brasil está chegando ao fim. Mas nesse processo de busca da competitividade internacional, haverá choro e ranger de dentes, haverá perdedores e ganhadores, porém, o resultado final será uma cadeia produtiva geradora de muitas riquezas, empregos e desenvolvimento, principalmente para a agricultura familiar.

OP Rural – Produzir o leite de melhor qualidade que está sendo exigido acarreta aumento nos custos de produção?

AS – Não, qualidade não é custo, é investimento. Produzir leite com mais qualidade vai exigir alguns investimentos a mais nas propriedades, mas os aumentos de produtividade e a valorização da produção compensam o desembolso. O custo de produção de leite no Brasil ainda é alto se comparado com a Nova Zelândia, país que atualmente é responsável por 40% de todas as exportações de lácteos do mundo. Nosso custo é maior pois a produtividade é baixa, a escala é pequena e com isso os custos fixos por litro produzido são altos. Leite de qualidade superior também rende mais dentro das fábricas, e por isso as indústrias terão que pagar o leite por qualidade. Leite bom tem que valer mais que leite ruim, tem que mexer no bolso. Em alguns anos, o pagamento do leite ao produtor não será mais por litro, e sim, por kg de sólidos. Afinal, menos de um terço do leite que os brasileiros consomem é na forma de leite fluído. Também não vamos exportar água, e sim, os sólidos do leite.

OP Rural – Quais são os desafios para o Brasil em alcançar mais qualidade?

AS – O principal desafio para melhorar a qualidade é fazer com que os agentes da cadeia produtiva entendam a importância e adotem efetivamente, mecanismos de fidelização e formalização das relações entre produtor e indústria. Uma vez que o produtor de leite estiver formalmente vinculado a uma indústria por contrato, ele receberá as garantias que precisa para investir na qualidade. A formalização das relações entre produtor e indústria nivela a qualidade para cima, de forma que, quem produz sabe para quem, quando, quanto, com que padrão deve produzir e recebe orientação técnica e insumos para isso. Por outro lado, a indústria terá a garantia da produção padronizada, com volumes e escalas definidas, e dessa forma poderá assumir contratos no mercado. Esse mecanismo cria sinergias em todos os elos da cadeia produtiva e entrega benefícios para todos os atores. Frangos, suínos e tabaco são exemplos de cadeias produtivas brasileiras de grande sucesso no mercado internacional, que têm em comum essa característica: os contratos. Quando o setor lácteo estiver operando dentro de diretrizes formais com suas características próprias, os parâmetros de qualidade como CBT, CCS, teor de sólidos, temperatura de resfriamento, ausência de zoonoses como brucelose e tuberculose, dentre outros, serão mais facilmente atingidos.

OP Rural – Qual seu conselho para a cadeia leiteira brasileira evoluir e produzir o leite de maior qualidade?

AS – Meu conselho parte da seguinte premissa: Toda vaca saudável dá leite bom. Nós estragamos o leite depois que o tiramos do úbere das vacas. Portanto, vacas saudáveis, higiene na ordenha e frio eficiente e rápido para a conservação são fundamentais. O leite é uma matéria-prima industrial da qual são fabricados centenas de produtos alimentares de grande valor nutricional e econômico. Esse leite é produzido por animais ruminantes, que são magníficas “máquinas” de converter biomassa vegetal, da qual nós humanos não nos alimentamos diretamente, em produtos que apreciamos muito nas nossas dietas. Essa biomassa é resultado da fotossíntese, e nesse quesito o Brasil é campeão, por termos aqui mais luz solar o ano todo e chuvas em abundância na maior parte do nosso território. Essa é a nossa vantagem comparativa em relação aos países de clima frio: o potencial para produzir mais de 30 toneladas de matéria seca de forragens por hectare por ano, o que permite produzir mais de 20 mil litros de leite. Os demais aspectos que determinam a qualidade do leite podem ser resolvidos com tecnologia e investimentos. Por isso meu conselho é que o setor público e o setor privado se unam numa estratégia objetiva para desenvolver a qualidade e competitividade do leite, aplicando simultaneamente incentivos para o leite de qualidade superior e penalidades para o leite ruim. Pagamento pela qualidade deve ser regra. Assim, utilizando a estratégia de “cenouras e chicotes” haverá uma melhoria contínua da qualidade do leite. A profissionalização dos produtores e indústrias requer investimentos em tecnologias, máquinas, equipamentos e isso só é possível com recursos acessíveis e eliminação das assimetrias tributárias com outros países produtores. O setor público precisa investir em infraestrutura, oferecendo estradas melhores, rede elétrica trifásica, acesso à internet no meio rural e uma atenção especial para a sanidade animal, pesquisa agropecuária e assistência técnica em parceria com o setor privado. Não devemos temer a modernização do setor.

OP Rural – É necessário o Brasil começar a agregar mais valor ao seu produto?

AS – Sim, principalmente para o mercado interno. Os brasileiros já consomem cerca de 170 litros de leite por habitante por ano, sendo cerca de 60 litros em forma de leite fluído e o restante em forma de derivados. Os futuros aumentos de consumo per capita se darão em forma de produtos de valor agregado e é dessa criatividade que depende a expansão do mercado. Na outra ponta, as exportações se darão majoritariamente em forma de commodities, como leite em pó, queijos e manteiga, embora haja espaço para exportar especialidades. O leite deve ser visto como uma matéria-prima industrial, da qual se faz, “inclusive alimentos”, tamanha é a diversidade de produtos que podem ser fabricados, com alto valor agregado.

OP Rural – O leite poderá ser um destaque do agronegócio assim com outras cadeias?

AS – O setor lácteo brasileiro tem muitos “bons problemas”, pois podem ser resolvidos com investimentos, tecnologia, organização e trabalho. Por isso sou muito otimista e acredito que o leite é um sério candidato a ser, em 10 anos, mais uma “estrela” do agronegócio brasileiro. Para fazer essa revolução, nos três estados da região Sul do Brasil os governadores criaram, em 2014, a Aliança Láctea Sul Brasileira, da qual sou o atual coordenador geral.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Pecuária

Preço ao produtor de leite acumula queda de 6,7% no primeiro bimestre

É a primeira vez em seis meses que o preço fica abaixo do patamar de R$ 2,00/l

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Arquivo/OP Rural

O preço do leite no campo caiu pelo segundo mês consecutivo, acumulando queda real de 6,7% neste primeiro bimestre. De acordo com pesquisas do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, o preço do leite captado em janeiro e pago aos produtores em fevereiro recuou 2,2% na “Média Brasil” líquida, chegando a R$ 1,9889/litro. É a primeira vez em seis meses que o preço fica abaixo do patamar de R$ 2,00/l. Ainda assim, o valor é 34,5% maior que o registrado no mesmo período do ano passado, em termos reais, e representa um novo recorde de preço para o mês de fevereiro (descontando a inflação pelo IPCA de jan/21).

A desvalorização do leite no campo se deve ao enfraquecimento da demanda por lácteos, dado o contexto de diminuição do poder de compra do brasileiro, do fim do auxílio emergencial para muitas famílias, do recente agravamento dos casos de covid-19 e da elevação do desemprego.

Colaboradores consultados pelo Cepea informaram que, diante da instabilidade do consumo, houve um esforço das indústrias em ajustar a produção para manter os estoques controlados, de modo a evitar quedas mais bruscas de preços, tanto para os derivados quanto para o produtor. No entanto, o nível de estoques vem crescendo, e, desde dezembro de 2020, observa-se a intensificação da pressão exercida pelos canais de distribuição junto às indústrias para obter preços mais baixos nas negociações de derivados.

O desempenho ruim das vendas em janeiro influenciou negativamente o pagamento ao produtor pelo leite captado naquele mês. Pesquisas do Cepea, com apoio financeiro da OCB, mostraram que, na média de janeiro, os preços do leite UHT e do queijo muçarela negociados no atacado do estado de São Paulo caíram 6,8% e 8,9%, respectivamente, frente ao mês anterior, enquanto os do leite em pó se mantiveram praticamente estáveis. As cotações de leite spot em Minas Gerais também recuaram, 12,3% na média de janeiro.

Durante fevereiro, os derivados continuaram se desvalorizando, o que reforça a tendência de baixa para o produtor no mês que vem. Até o dia 25, houve queda de 5,4% nos preços do UHT, 8,1% para a muçarela e de 7,2% nos valores do leite em pó em São Paulo. No caso da média mensal do spot, em Minas Gerais, o recuo foi de 0,7% frente a janeiro.

Oferta

A pesquisa do Cepea apontou que, em janeiro, a captação das indústrias caiu 4,5% frente ao mês anterior, segundo o Índice de Captação Leiteira (ICAP-L), puxada pela redução média de 6,5% no volume adquirido nos estados do Sul do País. A expectativa de agentes do setor é de que, nos próximos meses, a oferta se reduza ainda mais em decorrência do início da entressafra. Além disso, a produção de leite deve ter impacto negativo diante das menores quantidade e qualidade das silagens neste início de ano, em decorrência de condições climáticas adversas no último trimestre de 2020. Ademais, a valorização considerável e contínua dos grãos (principais componentes dos custos de produção da pecuária leiteira) tem comprometido a margem do produtor, prejudicando o manejo alimentar dos animais e a produção.

Pesquisas do Cepea mostram que, em janeiro, o pecuarista precisou de, em média, 41,2 litros de leite para a aquisição de uma saca de 60 kg de milho, 16,3% a mais que em dezembro/20. Com isso, é importante pontuar que, mesmo diante de preços do leite em patamares considerados altos para o período do ano, a margem do produtor tem caído – o que desestimula o investimento na atividade e pode refletir em dificuldade na retomada da produção no segundo semestre.

Gráfico 1. Série de preços médios recebidos pelo produtor (líquido), em valores reais (deflacionados pelo IPCA de janeiro/2021)

Fonte: Cepea-Esalq/USP

Fonte: Cepea
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Bovinos / Grãos / Máquinas Pecuária

Manejo de altura das pastagens ajuda a mitigar gases de efeito estufa

Quando os pastos são manejados segundo recomendações técnicas, os animais emitem menos metano e o solo acumula mais carbono

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Manejar adequadamente os pastos é tarefa básica para o pecuarista que deseja garantir resultados produtivos satisfatórios, equilibrando a estabilidade de boas forrageiras e o bom desempenho animal. Mas resultados de pesquisa da Embrapa comprovam que o manejo correto das pastagens promove outro resultado importante: a redução da emissão de gases de efeito estufa (GEE).

Em estudos conduzidos no bioma Pampa, em área de integração Lavoura-Pecuária com pastagens cultivadas de azevém e aveia para terminação de novilhos no inverno, os animais, quando estavam em uma altura ótima de pastejo, emitiram 30% menos metano em comparação aos índices preconizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas, o IPCC. No entanto, de acordo com a pesquisadora da Embrapa Pecuária Sul Cristina Genro, apesar de o uso da altura das forrageiras como ferramenta de manejo ser uma atividade simples e muito eficaz, ainda é pouco usada pelos produtores.

Em resumo, quando os pastos são manejados segundo recomendações técnicas, os animais emitem menos metano e o solo acumula mais carbono. Com isso, quando é feito o balanço do que foi emitido de carbono com o que foi fixado pelas plantas, a pecuária é considerada de baixa emissão do elemento ou apresenta resultado neutro, ou seja, reabsorve todo o carbono que ela mesma emite. “É uma pecuária que está produzindo uma carne limpa em termos ambientais, de excelente qualidade e valor nutricional, inclusive com perfis de ácidos graxos benéficos à saúde humana, como já foi atestado em outros estudos da Embrapa que relatam a grande presença de ômega 3 e de ácido graxo linoleico conjugado (CLA) na carne de animais criados a pasto, este último com comprovado efeito anticarcinogênico”, completa Genro.

Para o produtor e engenheiro-agrônomo Marcelo Fett Pinto, “manejar bem as pastagens significa conciliar as demandas nutricionais dos animais com a manutenção dos potenciais produtivos das plantas pastejadas, como dizia um dos meus orientadores da área de pastagens na Nova Zelândia, saudoso professor John Hodgson”, relata Fett, coordenador do Programa Estâncias Gaúchas, que reúne produtores de animais criados em pastagens do Pampa.

Como trabalhar com a altura?

A altura é uma característica da estrutura do pasto que tem relação direta com a massa de forragem, ou seja, a quantidade de pasto disponível em uma área. Quando se escolhe trabalhar com esse critério de manejo, é importante realizar medidas em toda a área de pastejo, porque o pasto é heterogêneo, ou seja, há locais onde existem pontos altos, médios e baixos. Isso se dá pelo fato de o crescimento das plantas ser influenciado por fatores do meio, como temperatura, umidade, fertilidade, pastejo, etc.

Conforme a pesquisadora da Embrapa Márcia Silveira, é fundamental o monitoramento da altura da pastagem rotineiramente, ou seja, é um olho no gado e outro no pasto. No caso de pastagens naturais sugere-se medir a altura dos pastos uma vez ao mês, no outono e inverno, e a cada 15 dias na primavera e no verão. No caso de pastagens nativas melhoradas por fertilização e sobressemeadas com espécies cultivadas de inverno, a recomendação é que a medição seja feita pelo menos quinzenalmente durante todo o ano.

Para que a altura do pasto esteja dentro do recomendado, é preciso controlar a quantidade de animais por hectare. Se a lotação for muito alta, os bovinos perdem desempenho e emitem mais metano por área, assim como o pasto diminui sua capacidade de contribuir para fixação do carbono no solo. “Então, se nós trabalharmos fazendo um ajuste de carga para manter a altura ideal de manejo de cada planta forrageira, estaremos contribuindo para a redução de problemas com a degradação de pastagens e baixo desempenho animal, ao mesmo tempo que atribuímos um serviço ecossistêmico à produção de animais a pasto”, completa Silveira.

Exemplos práticos

Cada pasto tem uma altura de manejo recomendada, inclusive dependendo da sua forma de uso, ou seja, em pastejo rotativo ou contínuo. “O azevém, espécie bastante usada no inverno aqui no sul, por exemplo, recomendamos que seja mantido entre 15 e 20 centímetros de altura durante todo o tempo de pastejo sob lotação contínua com taxa variável. Para pastejo sob lotação rotativa, a entrada dos animais deve se dar com 20 cm e a saída entre oito e 12 cm”, explica a pesquisadora.

A aveia, outra espécie usual para sobressemeadura de campo nativo no inverno sulino, tem recomendação de altura de 20 a 40 centímetros em pastejo contínuo; para pastejo rotativo, os animais devem entrar com 30 cm e sair quando o pasto atingir de 10 a 15 cm. Já o capim-sudão, forrageira bastante usada no verão, deve ser mantido entre 30 e 40 cm em pastejo contínuo. No rotativo, a entrada se dá entre 50 e 60 cm e a saída entre 15 e 20 cm. “Atendendo a essas recomendações, estamos garantindo boa oferta de forragem aos animais, ao mesmo tempo em que otimizamos a produção da pastagem, pois temos um remanescente adequado para que o pasto possa fazer eficientemente a fotossíntese, e volte a crescer”, pondera a cientista.

As medições de altura do pasto podem ser realizadas, com o uso de ferramentas simples como uma régua ou um bastão medidor de altura de pasto. “Na prática, e após algumas medições, calibramos o olho com boa precisão para as alturas dos pastos (nativos e cultivados), podendo nos valer de referências campeiras, como a altura do pasto em relação ao casco do cavalo, aos bichos de campo como a lebre, à bota, etc., mas lembrando que o importante é sempre que possível ter pasto, seja a avaliação da forma que for”, destaca Fett Pinto.

Com a adequada disponibilização de forragem, os bovinos têm ganho de peso rápido e o tempo que os animais ficam na pastagem até a terminação é menor. “O que, consequentemente, diminui mais ainda em termos de emissão de metano. Isso quer dizer que, manejando o pasto em uma altura adequada, vamos produzir mais carne, conservando o solo, ter uma colheita mais eficiente dessa forrageira e, em consequência, contribuir na redução da emissão de gases de efeito estufa para o meio ambiente”, completa Cristina Genro.

Fonte: Embrapa Pecuária Sul
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Bovinos / Grãos / Máquinas EuroTier 2021

Prêmio Bem-Estar Animal

Prêmio é concedido um produto que já tenha recebido uma medalha de ouro ou prata que atenda particularmente aos requisitos de um padrão superior de bem-estar animal.

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Foto: Divulgação EuroTier

Em todas as suas edições a EuroTier premia com medalhas de ouro e de prata os principais destaques apresentados na feita. E desde 2018 foi criado o Prêmio Bem-Estar Animal, que é dado aos destaques de inovação que receberam uma medalha de ouro ou prata no concurso de inovação DLG “Innovation Award EuroTier”.

Tal prêmio é concedido pela DLG (Sociedade Agrícola Alemã) em conjunto com a BPT (Associação Federal de Veterinários Práticos).

De acordo com as diretrizes de avaliação do Animal Welfare Awards, é concedido um produto que já tenha recebido uma medalha de ouro ou prata que atenda particularmente aos requisitos de um padrão superior de bem-estar animal.

Inovações nas áreas de bem-estar animal e saúde animal são decisivas para fazer parte desta seleção. Produtos que estimulam o exercício do comportamento típico da espécie e apoiam positivamente a saúde dos animais são particularmente enfatizados.

 

Sistema de monitoramento de bezerros, (Futuro Farming GmbH)

E neste ano o premiado foi o Sistema de monitoramento de bezerros, (Futuro Farming GmbH). Segundo especialistas existe uma deficiências de monitoramento de plantel na criação de bezerros, especialmente em populações animais em crescimento. Um número crescente de bezerros com uma pressão de infecção inevitavelmente crescente cria maiores demandas de higiene e prevenção de doenças. Estar de olho em tudo que acontece na propriedade e intervir na hora certa é excencial, porém torna-se cada vez mais difícil, pois muitas vezes é feito inclusive por pessoas diferentes na fazenda.

Pensando nisso os vencedores do prêmio criaram o sistema de monitoramento de bezerros. Um sistema de sensor não invasivo, preciso e com economia de energia para a detecção precoce de doenças dos bezerros. O padrão de comportamento do bezerro é reconhecido por um sensor infravermelho passivo e avaliado atualizado por meio de um IA. As informações são fornecidas ao agricultor diretamente por meio de um aplicativo e plataforma online, possibilitando o monitoramento contínuo da saúde do animal. As verificações diárias feitas pelo agricultor não são substituídas, mas o agricultor recebe um apoio valioso por meio de monitoramento contínuo e feedback de curto prazo.

Essa melhoria no monitoramento significa que doenças emergentes podem ser detectadas e tratadas mais cedo. O curso da doença é mais brando e a mortalidade dos bezerros diminui, enquanto o bem-estar e a saúde dos animais aumentam em geral.

Fonte: O presente Rural com informações da Assessoria
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Biochem site – lateral

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