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Suínos / Peixes Sanidade

Javalis entram na mira de especialistas

Javalis ainda são um grande desafio enfrentado pela cadeia suinícola nacional

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A sanidade é um dos fatores mais importantes para a suinocultura brasileira. Garantir a completa biosseguridade dos rebanhos é um dever de todos os envolvidos na cadeia, uma vez que se comprometida pode causar grandes prejuízos. Um animal que causa bastante dor de cabeça e que deve ter total atenção de toda a cadeia é o javali. A médica veterinária doutora Laura Almeida explanou sobre o “risco do javali na transmissão de doenças virais em suínos” durante o Seminário Internacional de Suinocultura (Sinsui), que aconteceu em maio, em Porto Alegre, RS.

Na ocasião, a servidora do Laboratório de Virologia do Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor (IPVDF) explica sobre o animal, os riscos que pode trazer para a cadeia, além de como está a situação brasileira. “O javali é o suíno selvagem da Eurásia. O que temos no Rio Grande do Sul são suínos asselvajados ou “javaporcos”, animais de vida livre, descendentes de javalis e suínos domésticos”, explica. Mas o problema é a nível nacional.

Laura informa que estes animais são sensíveis aos agentes patogênicos dos suínos domésticos, mas devido à grande mobilidade, contato com terra e com outros animais silvestres, podem difundir doenças para criações de suínos e ao homem. “Estudos em javalis e/ou javaporcos no Brasil demostraram a presença de PCV2 (circovírus suínos tipo 2), vírus da Influenza, vírus da Hepatite E e pestivírus em javaporcos criados em cativeiro”, introduz. Ela conta que na Europa, onde são muito estudados, os javalis são importantes transmissores de Peste Suína Clássica e Peste Suína Africana. Além disso, os animais estão também envolvidos na transmissão de outras doenças importantes para suínos de produção, como Doença de Aujeszky e PRRS.

A médica veterinária conta que os animais causam importantes perdas nas plantações comerciais, como de milho, por exemplo. “Adicionalmente, devido à grande mobilidade e a falta de controle sanitário, suínos asselvajados podem potencialmente ter diferentes patógenos e podem ser capazes de transmiti-los, caso entrem em contato com suínos domésticos”, alerta.

Além do mais, Laura diz que suínos asselvajados têm condição sanitária desconhecida, ou pouco conhecida, e mobilidade ampla territorial, não respeitando cerca ou fronteira. “Assim, podem manter contato com diferentes criações de suínos e representam um risco importante na transmissão de doenças infecciosas industriais, normas de biossegurança, controle de movimento de pessoas, animais e trânsito de cargas. Tudo isso para prevenir transmissão de doenças”, afirma. Ela reitera ser fundamental impedir o contato dos asselvajados e recomenda-se aumentar a biossegurança da propriedade e reduzir a população destes animais na região.

Desafio a ser enfrentado

Laura informa que este é um grande desafio enfrentado pela cadeia suinícola nacional. “A presença de suínos asselvajados tem aumentado muito no país e a proximidade destes animais com criações de suínos comerciais é totalmente indesejada e representa um desafio a mais no controle sanitário das criações industriais”, alerta. Ela diz que tem sido relatada presença destes animais nas proximidades ou mesmo dentro de granjas comerciais de suínos. “É extremamente importante evitar qualquer tipo de contato dos suínos asselvajados com suínos domésticos”, reitera.

“Na hipótese de transmissão de PSC ou doença de Aujeszky, seria uma situação de emergência sanitária. Agora mesmo a Europa está tentando conter o avanço da Peste Suína Africana e o controle de javalis é uma das medidas tomadas”, conta. Ela ainda informa que em alguns países o Exército tem colaborado no controle de população de javalis em certas regiões estratégicas na Europa visando conter a dispersão de animais contaminados.

Caça

Uma medida necessária e importante para prevenir prejuízos e proliferação de doenças por parte de javalis é a redução da população. “Estes animais são invasores, animais exóticos, pragas para agricultura e pecuária. Provocam prejuízos nas lavouras, predam pequenos animais silvestres e representam risco à saúde dos animais e humanos”, alerta Laura.

Ela conta que o Rio Grande do Sul foi um Estado pioneiro no país a implementar legislação sobre a vigilância sanitária para a Peste Suína Clássica de suídeos asselvajados. “Os caçadores, controladores de população, têm licença do Ibama, do Exército e são capacitados pela Secretaria da Agricultura do RS. Eles recebem informações sobre os animais, riscos à saúde e cuidados de biossegurança e colaboram com a coleta de amostras de sangue dos animais abatidos”, conta.

A médica veterinária comenta que os controladores capacitados pelo PNSS RS entregam as amostras de soro nas inspetorias veterinárias e são analisadas para PSC no IPVDF. “Atualmente já foram capacitados mais de 400 controladores no RS, e o próximo curso será em maio de 2019. Existe grande procura”, cita.

Além de reduzir a população dos animais, outro meio de evitar a proliferação de doenças vindas dos asselvajados é aumentar as condições de biossegurança das criações domésticas para evitar contato. “Também é preciso informar aos produtores e a população em geral sobre os prejuízos causados por asselvajados e os riscos que eles representam ao meio ambiente, agricultura, pecuária e saúde da população”, alerta.

Animais exóticos que merecem atenção

Estes animais, informa Laura, são exóticos, sem predadores naturais e considerados pragas em todo o mundo. “Por outro lado, o cruzamento com suínos domésticos resultou em um animal de grande porte e muito fértil. A população de asselvajados cresceu muito no Brasil, eles predam a fauna e flora local, alimentam-se de hortas e lavouras, buscam fêmeas em cio nas criações comerciais. E ainda existe o risco de acidentes com humanos”, avisa a médica veterinária, já que trata-se de um animal selvagem.

A profissional reitera que os javalis não combinam com criações comerciais de alto nível que existem no Brasil. “Devemos lembrar que asselvajados são pragas e devemos fazer todos os esforços possíveis para reduzir sua população”, afirma. A recomendação da médica veterinária é o não cruzamento de suínos domésticos com animais selvagens. “Além disso, caso o produtor tenha abatido algum asselvajado, deve ter muito cuidado no descarte da carcaça e na limpeza de roupas e botas. A transmissão indireta também deve ser evitada. Desejamos ser livres javalis e ter granjas cada vez mais biosseguras”, sustenta.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Nutrição

Pesquisas indicam benefícios de minerais orgânicos na nutrição de suínos

Minerais constituem parte importante do organismo animal, representando de 2,8 a 3,2% do peso vivo dos suínos

Publicado em

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito pela equipe técnica da Yes, Verônica Lisboa Santos, Juliana Bueno da Silva, Fabiana Golin Luiggi e Carlos Ronchi

A evolução das técnicas de criação tem possibilitado melhores índices de desempenhos produtivo e reprodutivo dos suínos, permitindo aos nutricionistas formularem dietas cada vez mais específicas, de modo a atender, com maior precisão, as exigências dos animais. Os minerais constituem parte importante do organismo animal, representando de 2,8 a 3,2% do peso vivo dos suínos. Entretanto, as variações na biodisponibilidade destes, as ações de sinergismo ou antagonismo existentes entre estes elementos e os problemas ambientais cada vez mais crescentes com o uso de fontes inorgânicas nas rações de suínos têm alertado pesquisadores a buscar alternativas que resultem em menor excreção pelos animais. A formulação de dietas com níveis de microminerais que excedem as recomendações nutricionais tem sido muito utilizada nas granjas de suínos. O excesso empregado, entretanto, acarreta maior excreção desses elementos devido ao mecanismo homeostático dos tecidos, além de poder causar efeitos prejudiciais, como diarreias e desequilíbrios, que podem levar a redução da biodisponibilidade de outros minerais, sem melhora em sua concentração.

Neste sentido, um aspecto a ser considerado sobre suplementação mineral diz respeito ao uso de minerais na forma orgânica, cuja estrutura molecular permite absorção diferenciada, garantindo o seu melhor aproveitamento.

Os minerais quelatados são íons metálicos ligados quimicamente a uma molécula orgânica, formando estruturas com características únicas de estabilidade e de alta biodisponibilidade mineral. Eles são mais facilmente absorvidos, mais passíveis de propiciar um melhor desempenho, qualidade de carcaça, além de serem altamente disponíveis aos animais. Foram estabelecidas as seguintes definições de elementos traços orgânicos.

  • Quelato metal-aminoácido: produto resultante da reação de um sal metálico solúvel com aminoácidos na proporção molar, isto é, um mol do metal para um a três moles (preferencialmente dois) de aminoácidos na forma de ligação covalente coordenada. O peso molecular médio dos aminoácidos hidrolisados pode ser, aproximadamente, de 150 dáltons e o peso molecular resultante do quelato não deve exceder a 800 dáltons;
  • Complexo aminoácido-metal: produto resultante da complexação de um sal metálico solúvel com aminoácido(s);
  • Complexo aminoácido específico-metal: produto resultante da complexação de um sal metálico solúvel com um aminoácido específico;
  • Metal proteinato: produto resultante da quelação de um sal solúvel com uma proteína parcialmente hidrolisada;
  • Complexo metal-polissacarídeo: produto resultante da complexação de um sal solúvel com polissacarídeo.

Interferências 

Na prática, não basta apenas realizar um aporte de minerais sem considerar os distintos fatores que vão influenciar sua absorção e, portanto, utilização no organismo. Existem diversas circunstâncias que vão atuar sobre a eficiência com a qual um mineral é absorvido:

Interações entre minerais

Formação de precipitados insolúveis quando dois ou mais cátions competem pelo mesmo ânion. Este é o caso do ácido fítico, pois quando um sal solúvel é ionizado no intestino, o cátion pode ser sequestrado por ele, formando fitatos, que são sais estáveis e insolúveis, o que os torna não absorvíveis. Esta reação ocorre, sobretudo, com Ca, Zn e Fe. Por outro lado, pode ocorrer que quando a molécula ligante não esteja presente em excesso, a suplementação de um elemento pode aumentar a disponibilidade de outro ao reduzir-se suas possibilidades para formar complexos.

Competição entre cátions pela mesma proteína de transporte, para passar a parede intestinal. Um exemplo deste fenômeno ocorre entre o Fe e Cu, que são antagonistas, competindo pela transferina (o Cu tem preferência de união, o que pode diminuir a absorção de Fe).

Os processos enzimáticos essenciais podem ser bloqueados pela troca de um co-fator metálico por um metal inativo.

Quando um metal que forma parte de uma metaloenzima é substituído por outro, a atividade enzimática pode bloquear, acelerar ou não variar.

Quando há um aporte excessivo de um metal, não somente há uma menor absorção intestinal sendo que também há uma re-excreção no lúmen intestinal do excesso de metal, o que pode acarretar excreção de outros metais durante o processo.

Mesmo que em termos teóricos estas interações sejam consideradas de forma isolada, geralmente se produzem simultânea ou consecutivamente mais de um processo no organismo animal.

Interações entre vitaminas e minerais

As vitaminas também podem interferir na absorção intestinal de minerais tal como o caso do aumento na absorção de Fe causado pela vitamina C, ou a necessidade de vitamina D para absorção do Ca através do intestino. Isto se complica mais se considerarmos as interações entre vitaminas (p. ex., um excesso de niacina pode deprimir a vitamina D e interferir, portanto, na assimilação e uso do Ca).

Interações entre minerais e gorduras

Estas interações podem influir na biodisponibilidade deste mineral no organismo. Um exemplo é a inter-relação existente entre os microminerais e os ácidos graxos, formando sabões insolúveis no trato digestivo

Interações entre fibras e minerais

Diversos estudos têm demonstrado que a presença de fibra não digestível interfere e diminui a absorção de grande parte dos minerais.

Interferência pH-Minerais

O pH intestinal tem grande influência sobre a absorção mineral já que, em geral, pHs alcalinos diminuem a absorção (exceto dos metais alcalinos) e os cátions tendem a formar precipitados insolúveis quando o pH é elevado.

Biodisponibilidade

A biodisponibilidade é definida como o grau que um nutriente ingerido é absorvido de maneira que possa ser utilizado no metabolismo do animal. Esta definição determina que o mineral deva estar disponível não somente em nível dietético, mas também em nível do tecido. O conhecimento sobre a biodisponibilidade dos minerais nos ingredientes e fontes suplementares é importante para a formulação econômica de uma ração para garantir ótimo desempenho animal. Devido a sua maior biodisponibilidade, os minerais quelatados podem substituir as fontes inorgânicas em níveis mais baixos, enquanto que o desempenho é mantido ou mesmo melhorado, possibilitando, ainda, redução nos índices de contaminação ambiental.

Pesquisas

Ferro orgânico na dieta de leitões durante o período de creche

Pesquisador responsável: Dr. Caio Abércio Silva – Universidade Estadual de Londrina (UEL)

Local: Unidade Produtora de Leitões no estado do Paraná, Brasil.

Materiais e métodos: Com a finalidade de avaliar o efeito da inclusão de Ferro orgânico (quelato metal aminoácido) no desempenho produtivo de leitões na fase de creche, foram utilizadas 64 matrizes (a partir do último terço de gestação) e seus leitões (até a saída da creche, com 63 dias de idade), distribuídas em dois tratamentos, sendo:

T1: Matriz: ração com ferro inorgânico; Leitegada: ração com ferro inorgânico + ferro dextrano injetável

T2: Matriz com ferro inorgânico + ferro orgânico (1kg/tonelada); Leitegada: ração com ferro inorgânico + ferro dextrano injetável + ferro orgânico (1kg/tonelada).

Resultados e conclusão

A suplementação com Ferro orgânico (quelato metal aminoácido) proporcionou melhores índices de desempenho produtivo à leitegada, quando suplementados no período de creche em comparação à leitegada sem suplementação.

Ferro orgânico na alimentação de leitoas lactentes

Pesquisador Responsável: Dr. Caio Abércio Silva – Universidade Estadual de Londrina (UEL)

Local: Unidade Produtora de Leitões no estado do Paraná, Brasil.

Materiais e métodos: Com a finalidade de avaliar o efeito da inclusão de Ferro orgânico (quelato metal aminoácido) na dieta de porcas em gestação, 64 fêmeas Topigs®, foram distribuídas em 2 tratamentos com 32 repetições (cada porca e sua leitegada foi considerada uma unidade experimental). Os leitões receberam ração pré-inicial dos 8 aos 21 dias de idade (desmame).

Tratamentos experimentais:

T1: Matrizes em gestação e lactação receberam dietas formuladas com sulfato ferroso (gestação: 551mg de ferro/kg de ração; lactação: 537mg/kg de ração) e os leitões receberam ferro dextrano injetável (200mg).

T2: Matrizes em gestação e lactação receberam dietas formuladas com sulfato ferroso (gestação: 551mg de ferro/kg de ração; lactação: 537mg/kg de ração) e os leitões receberam ferro dextrano injetável (200mg aos 3 dias de idade). Porcas em gestação (>84 dias) e os leitões receberam, ainda, ferro na forma orgânica (150mg/kg de ração).

Resultados e conclusão

Mais ferro no leite

O uso de ferro orgânico na dieta das porcas a partir do 84ª dia de gestação até o final da lactação aumentou o teor de ferro no leite.

O maior teor de ferro no leite e a dose adicional de ferro orgânico na dieta dos leitões, provavelmente, contribuíram para o seu melhor desempenho zootécnico.

Considerações finais

Os minerais orgânicos passaram a ser usados no Brasil na década de 70 e ainda são poucas as empresas que apresentam grande variedade destes em seu portfólio. Por terem absorção próxima aos 100%, os quelatos permitem reduzir os requerimentos dietéticos de minerais dos animais. As dietas com suplementação destes têm como intuito atender, de forma eficiente, às recomendações produtivas e reprodutivas dos lotes e transferir os efeitos positivos sobre a qualidade da progênie.

O suprimento das exigências de minerais associados ao fornecimento adequado de energia, proteína e vitaminas e boas práticas de manejo sanitário é fundamental para se conseguir o máximo desempenho animal. A suplementação mineral depende não somente do conteúdo de minerais em um suplemento, mas também da capacidade de absorção e utilização dos mesmos pelos animais, sendo este fato de suma importância para a manutenção do equilíbrio homeostático e para o aumento do desempenho zootécnico dos suínos. Neste contexto, os minerais orgânicos são mais eficientes quando comparados com os minerais inorgânicos por apresentarem maior absorção, maior capacidade de retenção no organismo e maior capacidade de promover efeitos na mineralização.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de julho/agosto de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Pesquisador da Embrapa alerta

“A destinação de animais mortos merece mais atenção e criatividade”

Pesquisador Everton Luis Krabbe é um dos maiores estudiosos do país sobre a destinação de resíduos biológicos nas granjas de suínos

Publicado em

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Arquivo/OP Rural

O pesquisador Everton Luis Krabbe, um dos maiores estudiosos do país sobre a destinação de resíduos biológicos nas granjas de suínos, faz palestra durante o Simpósio Brasil Sul de Suinocultura, que aconteceu no início de agosto, em Chapecó, SC. O jornal O Presente Rural questionou o especialista, que categoriza: “A destinação de animais mortos merece mais atenção e criatividade. Deve ser uma preocupação, pois é um risco sanitário e ambiental. Precisamos criar destinos que embora representem custo, geram algum retorno ao produtor, até como forma de incentivo para que adote procedimentos adequados”.

O Presente Rural (OP Rural) – Como é a realidade da destinação de resíduos sólidos na suinocultura brasileira?

Everton Luis Krabbe (ELK) – Existe todo tipo de situação, algumas muito bem executadas e outras deixando muito a desejar. Mas em geral, a compostagem segue sendo a tecnologia predominante, principalmente em função do baixo custo de execução.

OP Rural – Quais são as outras alternativas hoje empregadas pelo produtor/indústria?

ELK – O mais comum é a compostagem convencional, em células. Mas ao longo dos anos, novos modelos de compostagem surgiram, como por exemplo a compostagem acelerada em rotoaceleradores. Mais recentemente, surgiu a desidratação, onde já é possível desidratar um suíno de grande porte sem a necessidade de trituração ou esquartejamento. Existem ainda trituradores apenas para carcaças suínas. Outras tecnologias como incineração não são utilizadas em geral pelo elevado custo.

OP Rural – Quais são as leis que regem o setor?

ELK – Na prática, a nível de granja, o processo segue a legislação ambiental. Cada propriedade deve ter seu licenciamento, e neste momento é que o produtor deve demonstrar qual tecnologia pretende utilizar. Existem debates sobre a possibilidade de remoção de cadáveres das granjas através de um serviço especializado de recolha, seguindo critérios técnicos rígidos. Mas na prática isso não está regulamentado ainda no Brasil. Em Santa Catarina, existe um projeto piloto justamente para avaliar aspectos técnicos e econômicos deste processo.

OP Rural – Que tipo de produtos é possível produzir a partir desses resíduos?

ELK – Por se tratar de resíduos e cadáveres, com diferentes causas de mortalidade, sem o controle do tempo entre a mortalidade e a destinação, existe um avançado estado de deterioração, o que impacta fortemente o nível de qualidade do produto final. Isso também sido observado comparando a degradação de cadáveres no inverno e no verão, o que é mais um fator que compromete a possibilidade de padronização. Além disso, deve se levar em consideração que muitos dos cadáveres animais, foram antes de seu óbito, tratados com expressivas doses de medicamentos, e assim, existe nele um nível residual elevado. Diante de tantas variáveis, o que tem sido recomendado é que esse material seja transformado em fertilizante para uso agrícola.

OP Rural – Esses produtos são seguros?

ELK – Considerando resíduos de medicamentos e compostos químicos oriundo da decomposição dos tecidos, não existe perspectiva no curto prazo, da possibilidade de uso em alimentos para animais, por exemplo. Seu uso na agricultura, após um período de compostagem, é considerado a melhor forma de destinação. Uma das possibilidades em estudo seria a transformação de cadáveres e resíduos biológicos em farinhas e gorduras animais. O destino das gorduras seria para geração de biocombustíveis (biodiesel) e as farinhas seriam direcionadas para fábricas de fertilizantes organominerais (parecidos com o adubo químico utilizado na agricultura). Contudo há que se dizer que as gorduras têm apresentado qualidade abaixo daquela que é necessária para biodiesel e por isso tem sido mal remuneradas. Já para as farinhas, ainda não temos um conjunto de industrias fabricantes de fertilizantes organominerais capaz de absorver esse volume de farinhas. Isso é algo que deverá ser incentivado para o futuro próximo.

OP Rural – Como o mercado consumidor tem encarado essa questão de uso de subprodutos, por exemplo, em rações, cosméticos, etc.?

ELK – Essa possibilidade tem sido tema de muita polêmica. No Brasil, existem muitas indústrias que captam farinhas de origem animal (não aquelas de cadáveres) e as transformam em produtos de alto valor agregado, como por exemplo alimento para cães e gatos. A remuneração dessas farinhas tem atingido níveis muito atrativos, desde que as farinhas sejam de qualidade. A possibilidade de que farinhas de animais mortos sejam regulamentadas para consumo animal é algo veementemente criticado. Mesmo na alimentação de suínos e aves, os nutricionistas não consideram essa possibilidade, uma vez que já é de conhecimento do setor de alimentação animal, que farinhas de baixa qualidade prejudicam o desempenho animal e sua saúde e bem-estar. Em última instância o próprio produtor passaria a sofrer com essas perdas, consequência de um pior desempenho das aves e suínos.

Além disso, o Brasil é o maior exportador de carnes do mundo. Não se consegue imaginar quais as consequências de uma eventual liberação de farinha de cadáveres e resíduos biológicos para uso em rações. Traria impactos negativos diretos para o consumo de carnes, tanto dentro quanto fora do país.

OP Rural – Como funcionaria o recolhimento de animais nas propriedades?

ELK – O único estado de federação onde se recolhem animais, sob a perspectiva de um projeto piloto, é Santa Catarina. O processo segue todo um conjunto de critérios elaborado por uma equipe multidisciplinar, exigindo inclusive a inserção de dados em uma plataforma como aquela que emite os GTAs (Guias de Transito Animal), porém nesse caso é denominado DTAM (Documento de Transito de Animais Mortos), com recolha dos brincos (no caso de bovinos). O veículo é especial, não pode ingressar nas granjas, prevê que cada propriedade construa uma pequena sala na divisa de propriedade para deixar os animais até o momento da recolha. O maior entrave é a roteirização da recolha. Muitas vezes o caminhão já passou em frente a propriedade e não tem como retornar. Nesse caso esse animal morto permanece até sua recolha. Não existe recolha em finais de semana. O custo de ter um veículo circulando por estrada muitas vezes malconservadas implica em custos elevados, diferentemente do que acontece em outros países, com estradas melhores, mais planos, etc.

OP Rural – Quais são os benefícios e eventuais desafios para um recolhimento efetivo?

ELK – A recolha sem dúvida é mais prática para o produtor. Basta disponibilizar os animais no local e nas condições certas. Não precisará investir em outro processo dentro das granjas, e terá economia de mão de obra. Mas é importante salientar que ainda que o recolhimento seja regulamentado, do produtor continuará sendo exigido alguma destinação dentro da granja, seja compostagem ou outra prática. Isso é exigido para o caso de não haver a recolha, como por exemplo, dificuldades de acesso em épocas chuvosas, greves que impeçam o trânsito de caminhões, etc. Já em termos de desafios, o maior é assegurar a biosseguridade. Caminhões transitando com animais mortos em regiões com elevada população de animais é sempre arriscado. Mas o que se propõe é que seja um serviço profissional e todos os critérios sejam realmente atendidos.

OP Rural – Que tipo de mudanças (infraestrutura/manejo) da fazenda deve acontecer para este modelo ser empregado?

ELK – O mais importante é assegurar que os caminhões não transitem dentro das propriedades e que os animais sejam depositados em uma instalação construída especificamente para isso, com o devido isolamento e possibilidade de desinfecção. Isso na prática ainda não foi implementado.

OP Rural – A recolha é sustentável econômica e ambientalmente?

ELK – Ambientalmente sim, já economicamente o desafio é muito grande. O mundo todo paga por este serviço. Entendo que o produtor precisa entender que é seu dever destinar os animais mortos e resíduos biológicos de acordo com a legislação, ainda que represente um custo extra. De nada adianta que o produtor tenha um plantel de animais, se estes não tiverem sanidade. Esse é o entendimento que ele deve ter em relação ao assunto.

OP Rural – Ela é segura do ponto de vista sanitário?

ELK – Na Embrapa, onde estão sendo realizados diversos estudos avaliando tecnologias para destinação de animais mortos, foi também conduzido um estudo de análise de risco para avaliar se existe e qual o nível de risco quando se realiza a coleta e transporte de animais. Foram considerados os principais agentes vetores de problemas sanitários e assumindo a forma como é proposto o recolhimento no projeto piloto. Considerando todo este contexto, a conclusão foi de que o processo oferece risco muito baixo. Baseado na conclusão deste grupo de trabalho, pode-se dizer que o processo é seguro.

OP Rural – O senhor tem conhecimento de mais resultados desse projeto piloto?

ELK – O projeto de SC está sendo acompanhado pela Embrapa, a nível de pesquisa. Existem inclusive atividades focando em maneira de melhorar a qualidade das gorduras para a geração de biodiesel. Assim como, formas de destinar as farinhas para a fabricação de fertilizantes organominerais, com estudos de biodisponibilidade de nutrientes para as plantas, além da análise econômica. Até o momento o que se pode dizer é que o processo proposto apresenta eficiência técnica e segurança. Economicamente não é viável, diante dos destinos e preços para os produtos gerados. Contudo, existem pontos a ser considerados, como por exemplo os valores pagos pelo serviço por parte da cadeia produtiva, a oneração tributária do processo e assim por diante. É preciso entender se o recolhimento deve se viabilizar como um negócio ou como um serviço necessário, assim como é no caso dos resíduos urbanos, pagos via IPTU.

OP Rural – Qual seria o destino ideal para resíduos, incluindo animais mortos?

ELK – O ideal seria que fossem recolhidos e removidos das granjas, mas que não voltassem diretamente as cadeias produtivas (na forma de gorduras e farinhas). O ideal que fossem levados a centrais de geração de energia por exemplo e o produto final, estabilizado utilizado como fertilizando, ciclando assim os nutrientes.

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Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Produção

Estratégias para incremento dos leitões nascidos vivos e aumento da produtividade

Existem estratégias que podem ser utilizadas neste período crítico com intuito de minimizar indesejáveis efeitos do incremento da produtividade

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Tiago Paranhos – Gerente Técnico SC e RS da DB Genética Suína

Com o incremento da produtividade e a busca por melhora nos dados das unidades o aumento do número de leitões nascidos se torna um ponto chave na produção. As empresas de genética elevaram este índice a patamares que não se imaginava há 10 anos, chegando hoje a números superiores a 18 leitões vivos. Junto com estes números o incremento de índices indesejáveis como natimortos e mortos ao nascer se tornou um problema para as fêmeas hiperprolíficas.

Desta forma podemos questionar: Como aumentar o número de nascidos e não prejudicar a vida produtiva e reprodutiva das fêmeas? A sobrevivência destes animais pode estar relacionada ao status energético que a matriz se encontra no período pré-parto?

De acordo com resultados dinamarqueses da Universidade de Aarhus, existem estratégias que podemos utilizar neste período crítico com o intuito de minimizar os indesejáveis efeitos do incremento da produtividade e consequentemente melhorar o período pós-parto das fêmeas. Uma delas é garantir o aporte energético nos dias pré parto.

O manejo realizado na grande maioria das unidades é arraçoar as fêmeas duas vezes desde a entrada até o parto. Algumas granjas arraçoam 3 vezes, porém este acontece nos períodos que os funcionários trabalham no setor de maternidade, com isso as fêmeas ficam de 12-15 horas sem novo fornecimento de energia via ração. Arraçoando estes animais mais de 3 vezes por dia com intervalos de no máximo 6-8 horas é possível reduzir o período de parto e consequentemente diminuir o número de leitões natimortos e mortos ao nascer.

A duração de um parto normal ocorre em 4 a 7 horas. Neste estudo realizado pelos pesquisadores dinamarqueses, demonstrou-se que a duração do parto foi inferior a 4 horas quando o intervalo entre o último trato e o início do parto foi entre a 3-6 horas, consequentemente o índice de natimortos foi inferior a 5% e a probabilidade de intervenção ao parto próximo, 2 %. Nas fêmeas em que o intervalo entre o último trato e o início do parto foi entre 6-12 horas, o índice de natimortos foi próximo a 6% e a probabilidade de intervenção ao parto superior a 4%. Nos casos onde o último trato e o início do parto excedem as 12 horas os índices de natimortos superam os 8% e a probabilidade de intervenção ao parto também superaram os 4%.

Assim verificou-se que para cada aumento de 1 hora, entre o intervalo do último trato e o início do parto, houve o incremento de 1 hora na duração de parto.

Fibras

Estes dados nos levam a conclusão que quanto maior o período entre o último arraçoamento e o início do parto, maior a probabilidade de incremento dos natimortos e  maior o percentual de intervenção nos partos, aumentando os riscos de infecção que poderão resultar em diminuição da produção de leite, problemas reprodutivos na vida da fêmea e redução da vida produtiva da mesma.

Além disto temos que considerar que a qualidade, formulação e composição das rações influenciam diretamente o status energético destas matrizes. Especialmente a quantidade de fibras alimentares. Estudos realizados no Danish Pig Research Centre (SEGES) demonstraram que as fibras alimentares contribuem para manter e prolongar o status energético elevado durante o parto. Além disso alguns tipos de fibras de qualidade demonstraram que são capazes de aumentar a quantidade e qualidade de colostro produzido, ajudando na imunidade e aumentando o peso do leitão nos primeiros dias de vida. Nestes estudos foram fornecidos 3 kg/fêmea/dia divididos em 3-4 tratos no período pré-parto. Este fornecimento resultou em um fornecimento de 500-600 g de fibras alimentares de qualidade.

Com este contexto, o que podemos recomendar é o seguinte:

  • Arraçoar as fêmeas 3-4 vezes por dia do momento que entram na maternidade até o parto.
  • Priorizar os momentos que as fêmeas se alimentam melhor (primeiras horas da manhã e final de tarde) – 7 da manhã, 11 da manhã, 16 horas e se possível às 21 horas
  • Dois a três dias antes do parto arraçoar os animais com fibras alimentares de qualidade (em torno de 2,6-2,8 kg/dia), cuidado com rações muito energéticas

Aporte energético

Observando estes períodos estratégicos garantimos um maior aporte energético para a matriz no momento do parto, diminuição dos índices de natimortos, aumento dos leitões nascidos vivos e consequentemente aumento dos dados produtivos da granja.

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Fonte: O Presente Rural
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