Notícias
Inteligência Artificial no campo já transforma a agropecuária brasileira
Do manejo de aves à gestão florestal, passando por irrigação inteligente e monitoramento de pragas, pesquisadores mostram como a Inteligência Artificial revoluciona a produção, aumenta eficiência e impõe novos desafios éticos.
A utilização da Inteligência Artificial (IA) na agropecuária, tanto na pesquisa quanto à campo, foi o tema abordado pelas três palestras de abertura do 14º Salão de Iniciação Científica e de Inovação Tecnológica (14º Sicit), que se iniciou nesta quarta-feira (24). O evento, realizado conjuntamente com o 9º Workshop de Pós-Graduação e a Mostra de Pesquisa 2025, é uma promoção do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (DDPA/Seapi).
A professora Erli Schneider Costa, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), apresentou uma definição e breve histórico da IA, sua utilização na ciência, com exemplos práticos na agropecuária, tendências de pesquisa na área e questões éticas envolvidas. “A IA surge para otimizar nosso trabalho, não para substituí-lo. Está se tornando profundamente integrada ao ambiente acadêmico, ocasionado transformações profundas na forma como estudantes, professores, pesquisadores e extensionistas lidam com o conhecimento”, destacou.
No campo da pesquisa científica, a IA tem sido aplicada para automação da coleta e análise de dados, identificação de padrões complexos, geração de novas hipóteses e otimização dos experimentos. “No entanto, alguns desafios persistem: é preciso ter dados de alta qualidade; saber como operam os modelos, para que não seja uma IA “caixa preta”; e ter ética e uso responsável desta ferramenta”, pontuou.
Dentre alguns exemplos de utilização de IA no setor agropecuário, a professora Erli citou a previsão de safra com análise climática e do solo; monitoramento de pragas com sensores e imagens; drones para análise visual das plantações; e otimização de irrigação para economia de água. “Uma fazenda paulista implementou um sistema de irrigação inteligente e monitoramento por IA que reduziu em 30% o consumo da água e aumentou em 20% a produtividade da soja, com diminuição de 26% no uso de defensivos agrícolas”, contou.
Modelos de IA na avicultura
Carlos Tadeu Pippi Salle, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destacou como os avanços científicos, entre eles a utilização de redes neurais, transformou a avicultura no Brasil. “A avicultutra era tradicionalmente feita pelas mulheres nas fazendas, e era legada a um segundo plano. Hoje tudo mudou, fomos altamente eficazes na transformação de proteína vegetal em animal, revolucionando a avicultura industrial”, frisou.
Conforme Salle, desde 2001 o Departamento de Medicina Veterinária da UFRGS vem conduzindo pesquisas com redes neurais artificiais e modelos preditivos de IA que possam auxiliar a tomada de decisão de um médico veterinário responsável em uma granja. Esses modelos podem ser usados nos mais diversos aspectos do manejo dos animais, desde tratamentos e aplicação de vacinas, até reprodução e venda. “É importante destacar que essas ferramentas não substituem o conhecimento. As respostas que nos são dadas pela IA são um reflexo do que conhecemos e sabemos”, ressaltou.
Para o professor, a IA não é uma ferramenta inerentemente boa ou ruim. “É a mesma coisa que usar um Word, um editor de texto. Num mesmo programa, você pode escrever um trabalho que ganhe um prêmio Nobel, mas também pode escrever um trabalho que vá para o lixo. Temos que ter a coragem e a desinibição de usar essas tecnologias, que podem nos ajudar muito”, frisou.
Sistemas Multiagentes de IA
O professor Rudiney Soares Pereira, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), abordou em sua apresentação a utilização de Sistemas Multiagentes (SMA) de IA na produção agrícola e florestal. “Em um SMA, múltiplos agentes interagem, resolvem problemas juntos, mudando o paradigma da IA de uma forma monolítica, de pergunta-resposta, para uma rede coletiva. Os agentes têm autonomia, operam independentemente, de forma especializada, mas sempre de forma cooperativa: reagem ao ambiente, assumindo funções falhas e corrigindo rumos”, explicou.
Rudiney apresentou, em linhas gerais, o protótipo do Sistema Multiagente para Gestão Florestal, em desenvolvimento na UFSM. “Trata-se de uma simulação inteligente que combina agentes de IA autônomos para otimizar a gestão florestal através de estratégias de conservação, lucro e segurança”, complementou.
A arquitetura do sistema conta com um grid dinâmico representando a floresta, com atributos detalhados de cada célula: saúde, idade, valor e carbono. São sete tipos de agentes de IA, especializados em sensoriamento, análise e execução de tarefas florestais. O sistema avalia o estado das árvores – como saudável, doente ou removida – além de definir tipos de tarefas a serem feitas, como desbaste sanitário e seletivo, limpeza de risco, plantio de mudas e combate a incêndios. “Os agentes inteligentes podem otimizar a gestão florestal através de três diferentes estratégias: conservação, lucro e segurança. A estratégia de conservação prioriza estoque de carbono e biodiversidade para sustentabilidade ambiental. A estratégia de lucro maximiza o retorno financeiro, através da extração otimizada de madeira madura. E a estratégia de segurança minimiza os riscos de incêndios e doenças, com resposta rápida a ameaças”, detalhou.
As palestras de abertura podem ser assistidas aqui.
O 14º Sicit continua até quinta-feira (25), com 22 apresentações orais de trabalhos ligados ao setor agropecuário. O evento pode ser acompanhado no canal do DDPA no Youtube.

Colunistas
Crises internacionais expõem dependência do agro brasileiro por fertilizantes e diesel
Aumento dos custos e risco de desabastecimento colocam em xeque a produtividade e a segurança alimentar.

As guerras entre Rússia e Ucrânia e entre Estados Unidos e Israel contra o Irã configuram uma crise que descortina ângulos inéditos da realidade e impõe reflexão estratégica. Ela irradia efeitos que transcendem o campo militar e alcançam, com intensidade, a segurança alimentar global. Para o Brasil, potência agrícola de dimensão planetária, a instabilidade internacional revela uma vulnerabilidade estrutural: a dependência externa de fertilizantes e de diesel.
Mais de 80% dos insumos utilizados na agricultura brasileira têm origem no exterior. O País importa mais de 40 milhões de toneladas anuais e ocupa a posição de quarto maior consumidor mundial, atrás de China, Índia e Estados Unidos. Potássio, cálcio e nitrogênio compõem a base nutricional das lavouras, enquanto a soja absorve mais de 40% do volume aplicado. Essa dependência, tolerada por décadas em razão de custos e conveniências econômicas, tornou-se fator de risco em um cenário de rupturas logísticas, sanções comerciais e volatilidade de preços.

Artigo escrito por Vanir Zanatta, Presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (OCESC).
A escalada dos custos dos insumos, agravada pela escassez global, impõe ao produtor rural decisões difíceis. A tendência de redução no uso de fertilizantes compromete a produtividade e projeta impactos diretos sobre a oferta de alimentos. Ao mesmo tempo, a elevação do preço do petróleo pressiona o custo do diesel, essencial à operação das máquinas agrícolas, enquanto o transporte marítimo enfrenta encarecimento do frete e restrições de navegação. O resultado converge para um ciclo de aumento de custos que alcança toda a cadeia produtiva e recai, de forma inexorável, sobre o consumidor.
Santa Catarina já experimenta esses efeitos. A necessidade anual de aproximadamente 500 mil toneladas de fertilizantes para o cultivo de 1,4 milhão de hectares evidencia a dimensão do desafio. Culturas como soja, milho, arroz e trigo, além da fruticultura e da horticultura, dependem diretamente desses insumos para viabilizar a produção em solos de baixa fertilidade natural.
A contradição brasileira reside no fato de possuir abundância de matérias-primas, como gás natural, rochas fosfáticas e reservas de potássio em Sergipe e no Amazonas, e, ainda assim, não alcançar competitividade industrial. A desindustrialização e a ausência histórica de prioridade estratégica para o setor consolidaram a dependência externa.
Diante desse quadro, a busca pela autossuficiência deixa de ser uma aspiração e assume caráter de necessidade/prioridade nacional. O Plano Nacional de Fertilizantes representa um passo relevante ao estabelecer a meta de reduzir a dependência até 2050. Iniciativas como o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes, ao prever incentivos fiscais, sinalizam um caminho possível para reverter a fragilidade estrutural.
A OCESC sustenta que o Brasil deve reestruturar sua política de fertilizantes com visão de longo prazo, integrando produção nacional, inovação tecnológica e práticas de manejo que promovam a recuperação e a eficiência do solo. A segurança no fornecimento desses insumos constitui condição indispensável para a soberania alimentar, para a estabilidade econômica e para a proteção do consumidor.
As crises internacionais não podem ser vistas apenas como ameaça, mas como impulso para decisões estratégicas. O Brasil reúne condições para transformar vulnerabilidade em força. A agricultura nacional, pilar da economia, exige uma base sólida que não dependa de fatores externos imprevisíveis.
Notícias
Bioinsumos movimentam R$ 6,2 bilhões e alcançam 194 milhões de hectares no Brasil
Área tratada cresce 28% em um ano, bionematicidas avançam 60% e inoculantes já estão presentes em 77 milhões de hectares, puxados por soja, milho e cana

O mercado brasileiro de bioinsumos movimentou mais de R$ 6,2 bilhões em 2025, alta de 15% em relação ao ano anterior. No mesmo período, a área tratada com essas tecnologias chegou a 194 milhões de hectares, avanço de 28% sobre 2024. Os números, divulgados pela CropLife Brasil, indicam expansão acelerada do uso de soluções biológicas no manejo agrícola, especialmente dentro de estratégias de manejo integrado de pragas.
Para Renato Gomides, gerente executivo da entidade, o crescimento está associado tanto a fatores conjunturais quanto estruturais enfrentados pelo produtor rural. “Quem acompanha a agricultura, sabe que o produtor enfrenta vários desafios como variabilidade de preço de commodities, de preço de produtos ou taxas de juros elevadas, que são desafios conjunturais da situação econômica e setorial do país. E existem desafios estruturais na produção, ligados à crescente pressão por soluções mais sustentáveis no campo. E os bioinsumos surgem exatamente nesse cenário, como uma tecnologia viável e integrada, para alcançar uma produção mais sustentável”, afirmou.

O crescimento do insumo biológico no campo está atrelado a um conjunto de fatores, como a profissionalização e expansão da indústria, a necessidade de combate a pragas resistentes pelo manejo integrado de insumos químicos e biológicos, a busca por soluções sustentáveis para a lavoura e a maior adoção do produto (em repetidas aplicações ou misturas).

Segmentos
A CropLife Brasil monitora quatro segmentos no mercado de bioinsumos: biofungicidas, bioinseticidas, bionematicidas e inoculantes. Em 2025, a distribuição da área tratada entre esses segmentos foi concentrada principalmente em inoculantes, que representaram 40% do total, seguidos por bioinseticidas (24%), bionematicidas (23%) e biofungicidas (13%).
Os inoculantes, compostos por bactérias fixadoras de nitrogênio, foram aplicados em 77 milhões de hectares no ano passado, o que evidencia a crescente adoção dessa tecnologia na transição da agricultura brasileira para modelos de baixa emissão de carbono.
O desempenho entre 2024 e 2025 mostra um avanço mais expressivo dos bionematicidas, que ampliaram sua área de uso em 16 milhões de hectares, um salto de cerca de 60% ano a ano. Esse crescimento sinaliza a consolidação dos bionematicidas como um componente relevante das práticas de manejo sustentável no país. “Os bioinsumos deixam de ser uma tendência e se tornam cada vez mais uma realidade no campo, é o que reflete a confiança do produtor rural no uso dessa tecnologia. Se observarmos o crescimento do triênio (2022-2024), nós já víamos um aumento na ordem de 15% ao ano. Já em 2025, houve um crescimento de 28% em relação ao ano anterior, alcançando o recorde de 194 milhões de hectares. O principal destaque que temos são os bionematicidas, que tiveram aumento de 60% em área tratada, adicionando 16 milhões de hectares no ano. Esse avanço mostra como a adoção vem sendo acelerada, principalmente em culturas de larga escala”, destacou a diretora de bioinsumos da entidade, Amália Borsari.

Já com relação ao valor de mercado do insumo biológico em 2025, o movimento de crescimento é igualmente relevante, com alternância dos destaques. A ordem dos segmentos fica em bioinseticidas (35%), bionematicidas (30%), biofungicidas (22%) e inoculantes (13%).
O segmento dos biofungicidas (microrganismos como bactérias e fungos) foi o que mais cresceu em valor (41%), atingindo R$ 1,4 bilhão. A tecnologia vem sendo utilizada no controle de doenças complexas como o mofo branco e a ferrugem.

Desempenho culturas agrícolas e estados
Entre os cultivos, a soja (62%), o milho (22%) e a cana (10%) são as culturas mais consolidadas no uso de bioinsumos. Além delas, o conjunto de outras culturas como algodão, café, citrus e hortifruti (HF) somam, aproximadamente, 6%.
Mato Grosso é o estado que mais utiliza bioinsumos, puxado pelo cultivo da soja, que adota inoculantes em 90% da área da cultura. Em seguida, São Paulo e Goiás assumem os segundo e terceiro maiores mercados de bioinsumos, com 17% e 14% de área tratada pela tecnologia, respectivamente. O desempenho do estado paulista é impulsionado pelo cultivo da cana e pelos cítricos.
A região de Matopiba, que envolve os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, crescente cinturão de produção de grãos, representa 11%. “O cenário para os defensivos biológicos é promissor, evidencia o panorama de 2025. O produtor já compreende a importância da tecnologia, que complementa as práticas adotadas na proteção de cultivares”, salienta Gomides.

Notícias
Faesc solicita redução temporária do ICMS do diesel para aliviar custos no campo em Santa Catarina
Pedido, com apoio da CNA, relaciona alta do petróleo à pressão sobre colheita e plantio da segunda safra e mira o principal insumo logístico da produção agropecuária.

A guerra no Oriente Médio desestabilizou as cadeias de suprimento de petróleo provocando forte alta de preços dos seus derivados, situação que também afeta a agricultura brasileira. Para aliviar os efeitos para o produtor rural catarinense, em expediente enviado ao governador Jorginho Mello, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc) reivindicou, com o apoio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a redução dos tributos estaduais sobre o diesel.

Presidente da Faesc, José Zeferino Pedrozo, justificou que a solicitação decorre dos recentes aumentos nos preços do petróleo e de seus derivados no mercado internacional – Foto Divulgação/Imagem e Arte
No documento, o presidente José Zeferino Pedrozo pede a adoção de medida emergencial para a redução imediata e temporária das alíquotas do Imposto sobre circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) incidentes sobre a importação, produção, distribuição e comercialização de óleo diesel no Estado. Ele argumenta que, atualmente, os tributos estaduais adicionam valor significativo do diesel comercializado e entre os diversos tributos incidentes sobre o combustível, destaca-se o ICMS.
Pedrozo justifica que a solicitação decorre dos recentes aumentos nos preços do petróleo e de seus derivados no mercado internacional, considerando os impactos sobre a economia nacional, sobretudo em um período sensível ao setor agropecuário, marcado pela colheita e o plantio da segunda safra. “Os efeitos desse cenário sobre os custos de produção e a atividade econômica nacional geram grande preocupação”, relata o dirigente.
A redução temporária das alíquotas do imposto estadual contribuirá para mitigar os efeitos do aumento dos combustíveis sobre toda a economia nacional, com reflexos diretos na redução dos custos de produção agropecuária, na moderação dos preços dos alimentos ao consumidor e na diminuição das pressões inflacionárias. Além disso, a medida poderá proporcionar um ambiente macroeconômico mais estável, contribuindo para a trajetória de redução da taxa básica de juros (Selic).

Foto: Shutterstock
Na avaliação da Faesc, a redução tributária será compensada pelo aumento da produção nacional de petróleo e de seus derivados, bem como pela ampliação da atividade econômica e da arrecadação decorrente desse dinamismo.
Reivindicação semelhante também foi encaminhada ao Governo Federal, com vistas à avaliação de medidas relativas ao PIS/Pasep e Cofins, também incidentes sobre o diesel.
O presidente da Faesc espera apoio do Estado e vai contribuir com propostas que auxiliem na redução dos custos logísticos e produtivos associados aos recentes conflitos geopolíticos, que impactam a economia brasileira.



