Conectado com

Suínos

Inseminação artificial completa 50 anos revolucionando a suinocultura no Brasil

Técnica pioneira aumentou produtividade, aprimorou a genética e consolidou o país como referência global na produção de suínos.

Publicado em

em

Foto: Shutterstock

A inseminação artificial em suínos, hoje consolidada como uma das ferramentas mais importantes do avanço genético e produtivo da suinocultura brasileira, começou a ser escrita há exatos 50 anos, em 1975, em Estrela (RS). Um dos protagonistas dessa história é o médico-veterinário Werner Meincke, responsável por introduzir no país a técnica que mudaria para sempre a forma de produzir suínos no Brasil.

Na época, a suinocultura nacional se espelhava no modelo europeu. “Assim como nós, a Europa possuía granjas menores, com a produção sendo realizada em ciclo completo”, recorda Meincke, que atuou como diretor da primeira Central de Inseminação Artificial em Suínos do país e presidiu a Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs) entre 1983 e 1988.

Esse intercâmbio resultava em importações frequentes de reprodutores europeus, especialmente das raças Landrace e Large White, trazidas da Suécia, Alemanha e Holanda pela Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS). “Esses animais eram multiplicados nas granjas registradas e comercializados em feiras e exposições, numa tentativa de melhorar o rebanho nacional”, menciona.

Enquanto a inseminação artificial em bovinos com sêmen congelado já era uma realidade consolidada, a técnica em suínos era praticamente inexistente. “Exceto por alguns trabalhos experimentais conduzidos pelo professor Mies Filho na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, não havia aplicação prática em escala comercial”, relata Meincke, reconhecido com o Prêmio PorkWorld em 2008 e 2010.

De acordo com o pioneiro da técnica, o contexto sanitário e econômico da época também foi decisivo. “O país vivia uma transição: a gordura suína, chamada de ‘ouro branco’, até então considerada essencial, passava a ser condenada por médicos e nutricionistas, impulsionando o consumo dos óleos vegetais. Precisávamos consolidar o suíno tipo carne, e a inseminação artificial surgiu como uma oportunidade de acelerar essa transformação. O poder de multiplicação dos descendentes é 10 vezes maior que na monta natural”, explica o médico-veterinário.

O convite para implantar a técnica no Brasil veio da Central de Inseminação de Boxtel, na Holanda, à época a maior da Europa. A ponte foi viabilizada pela ABCS e seu então presidente, Hélio Miguel de Rose, em função da estreita relação com criadores europeus. “A inspiração para trazer a inseminação artificial ao Brasil tem tudo a ver com a tecnologia que era praticada com muito sucesso na Europa naquele momento”, pontua Meincke.

Desafios e desconfianças

Médico-veterinário Werner Meincke, responsável por introduzir no país a inseminação artificial que mudaria para sempre a forma de produzir suínos no Brasil: “Cada fase da história da inseminação artificial no Brasil teve um marco decisivo, mas o que permanece constante é a visão de futuro: aplicar ciência e técnica para melhorar a produção e a vida do produtor” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

Os primeiros anos da inseminação artificial em suínos no Brasil foram marcados por desafios técnicos, logísticos e até culturais. “Tudo o que sabíamos sobre inseminação vinha da experiência com bovinos e sêmen congelado, que apresentava excelentes resultados. Em suínos, no entanto, o sêmen era apenas resfriado e tinha durabilidade limitada a 72 horas”, relembra Meincke.

Além da curta viabilidade do material, o país enfrentava a falta de infraestrutura logística. Sem uma malha ferroviária eficiente, o transporte das doses até as granjas era feito de ônibus. “Era fundamental que houvesse boa conexão entre a Central e os municípios interessados. Muitos produtores queriam aderir, mas a ausência de logística inviabilizava o acesso”, recorda.

Com o passar dos anos, o avanço tecnológico trouxe novas soluções. Hoje, diluentes modernos mantêm a duração das doses por até sete dias, e a distribuição é feita por rotas programadas que atendem simultaneamente diversos produtores. “Essa sistemática contribui muito para o sucesso da tecnologia, que alcança resultados semelhantes ou até superiores aos da monta natural, sem contar os inúmeros benefícios produtivos e sanitários”, afirma.

Primeiros resultados

Como toda inovação, os primeiros resultados apresentaram variações. “Era compreensível, diante das limitações do sêmen resfriado e das grandes diferenças entre as granjas, tanto nas instalações quanto no manejo das fêmeas”, recorda Meincke, destacando que, ainda assim, o desempenho dos leitões surpreendeu. “O que mais impressionava os produtores era a uniformidade e o vigor dos animais nascidos”.

Um episódio curioso ajudou a consolidar a confiança na técnica. “Em granjas um pouco maiores, que desmamavam cerca de 10 fêmeas por semana, era comum pedir sêmen para inseminar apenas oito, porque cerca de 20% atrasavam o cio e eram cobertas depois pelo macho. Com o tempo, percebemos que as fêmeas que antecipavam o cio eram, em média, mais férteis e os resultados com inseminação superavam os da monta natural”, relata.

A observação prática virou argumento de convencimento. “O próprio produtor se tornava um marqueteiro da inseminação”, diz Meincke, com um sorriso de quem testemunhou a transição de um método experimental para um instrumento essencial da suinocultura moderna.

Das primeiras centrais ao alcance nacional

Após a introdução da tecnologia, o desafio seguinte não era apenas técnico, mas logístico e social: como levar uma inovação pioneira aos produtores rurais de diferentes regiões? A resposta veio por meio de uma articulação entre Centrais de Inseminação Artificial, prefeituras, cooperativas e sindicatos, criando um modelo de parceria que se mostraria decisivo para a difusão da ferramenta. “Por se tratar de um programa inovador e com muitos benefícios, os municípios e entidades como cooperativas e sindicatos passaram a demonstrar grande interesse na implantação da tecnologia”, expõe Meincke.

O percursor da técnica conta que os convênios firmados detalhavam responsabilidades, entre quais a central cabia produzir e distribuir as doses, planejar a logística de transporte, enviar o sêmen em embalagens que evitassem grandes oscilações térmicas e treinar os futuros inseminadores. Já as entidades conveniadas indicavam os técnicos, organizavam reuniões de produtores, adquiram conservadoras de sêmen e centralizavam os pedidos para envio à central com antecedência. “A temperatura ideal para conservação das doses era de 16 °C, e o envio ocorria duas ou três vezes por semana. A pesquisa sobre resultados era realizada junto a produtores mais organizados, que já mantinham algum controle da produtividade de suas granjas”, menciona.

Expansão da tecnologia

O sucesso da inseminação artificial dependia diretamente da capacitação dos técnicos locais. “Sem os inseminadores treinados, não teríamos tido a expansão que tivemos nem a excelência nos resultados”, ressalta Meincke.

O treinamento compreendia uma parte teórica, abordando anatomofisiologia da fêmea, ciclo estral, comportamento durante o estro e identificação do momento ideal para inseminação. Também havia prática com úteros obtidos em frigoríficos, permitindo demonstrar cuidados com a pipeta e a fixação no colo uterino. Por fim, os candidatos acompanhavam colegas experientes por uma semana, vivenciando a rotina a campo. “Somente na Central de Inseminação Artificial de Estrela (RS) [hoje Central de Coleta e Processamento de Sêmen (CCPS)], mais de 150 técnicos foram capacitados ao longo da história, garantindo a multiplicação do conhecimento e acelerando a adoção da tecnologia”, diz, orgulhoso.

Da novidade à ferramenta estratégica

Para Meincke, a inseminação artificial deixou de ser uma prática experimental e se consolidou como uma ferramenta estratégica da suinocultura em três momentos distintos:

  1. Década de 1980 – com a ascensão da suinocultura industrial, os módulos de produção cresceram e a inseminação artificial passou a ser considerada essencial para novos sistemas produtivos.

  2. Década de 1990 – com a segregação da produção em dois e depois três sítios, a técnica passou a ser uma aliada da biossegurança e do controle sanitário.

  3. Atualidade – empresas de material genético utilizam a inseminação artificial como ferramenta de melhoramento genético, preservando a saúde dos rebanhos e reduzindo o gap genético entre granjas. “Hoje, a inseminação artificial não é apenas uma inovação; é uma estratégia central no manejo e melhoramento genético do suíno no país”, salienta o médico-veterinário.

Quatro fases de transformação

Segundo Meincke, a história da inseminação artificial em suínos no Brasil pode ser dividida em quatro grandes fases:

1ª fase – expansão regional inicial: As duas primeiras centrais, em Estrela (RS) e Concórdia (SC), atendiam diretamente produtores locais. O sucesso inicial possibilitou a extensão do programa aos estados de Rio Grande do Sul e Santa Catarina, por meio de convênios com entidades públicas e privadas.

2ª fase – cooperativas e laboratórios internos: Na década de 1990 e início dos anos 2000, cooperativas e agroindústrias privadas construíram centrais próprias. Grandes produtores, com mais de 500 matrizes, também mantinham laboratórios internos para reduzir o número de machos e melhorar a seleção genética. Com o avanço da tecnologia, esses laboratórios internos foram gradualmente desativados.

3ª fase – consolidação tecnológica: As primeiras centrais permanecem ativas, modernizando suas instalações e criando parcerias com empresas de genética, alugando espaço para machos e ampliando atendimento aos clientes. Investimentos em automação, climatização, biossegurança e bem-estar animal passaram a ser prioridade.

4ª fase – integração ao melhoramento genético estratégico: A fase atual envolve o uso da IA como ferramenta de programas de melhoramento, visando acelerar ganhos genéticos em granjas elite e reduzir o gap nas unidades de clientes, consolidando saúde, produtividade e eficiência na cadeia suinícola.

Ao longo de cinco décadas, a inseminação artificial passou de um experimento pioneiro para um recurso estratégico capaz de transformar a suinocultura brasileira. A combinação de capacitação técnica, parcerias estratégicas e avanços tecnológicos permitiu que os ganhos de produtividade fossem replicados em larga escala, criando padrões de eficiência, sanidade e qualidade genética que hoje posicionam o Brasil como referência global na produção de suínos. “Cada fase da história da inseminação artificial no Brasil teve um marco decisivo, mas o que permanece constante é a visão de futuro: aplicar ciência e técnica para melhorar a produção e a vida do produtor”, salienta Meincke.

Consolidação da técnica

Ao longo das últimas cinco décadas, a inseminação artificial em suínos evoluiu de uma prática experimental para uma ferramenta estratégica que sustenta a competitividade da suinocultura brasileira. Nesse processo, o papel das cooperativas e das empresas integradoras foi fundamental. “A participação desses segmentos foi de suma importância para expandir e dar credibilidade à tecnologia”, destaca Meincke.

De acordo com ele, cooperativas e integradoras concentram atualmente cerca de 80% dos suinocultores que utilizam machos altamente eficientes, impactando positivamente toda a cadeia produtiva. “Essa grande concentração de produtores eficientes reduz os custos de produção e torna a suinocultura brasileira altamente competitiva no mercado mundial, sustentando grande parte do crescimento linear das exportações nos últimos anos”, explica.

Ganhos em produtividade e genética

Um dos principais benefícios da inseminação artificial é o incremento da produtividade. “O uso de machos altamente selecionados, superiores em características econômicas como ganho de peso diário, conversão alimentar e qualidade de carcaça, gera impacto direto na eficiência das granjas”, afirma o veterinário.

As Unidades de Disseminação de Genes (UDGs) utilizam apenas animais de alta performance, garantindo que os benefícios econômicos e genéticos sejam replicados por toda a cadeia produtiva. “É sem dúvida uma das razões pelas quais nossa suinocultura se destaca mundialmente, especialmente pela eficiência de crescimento”, acrescenta Meincke.

Sanidade como prioridade estratégica

A combinação de genética superior, controle rigoroso de sanidade e a ampla adoção da técnica por cooperativas e integradoras fortaleceu toda a cadeia produtiva da suinocultura brasileira. Como resultado, o país conquistou uma produção mais eficiente, econômica e capaz de competir globalmente tanto em qualidade quanto em produtividade. “Além da alta produtividade, a inseminação artificial contribui de forma decisiva para a saúde animal. A possibilidade de transmissão de agentes patogênicos via sêmen é extremamente remota, graças ao rigoroso monitoramento sanitário realizado nas UDGs, junto aos doadores e durante todo o processo de industrialização do sêmen”, expõe Meincke.

O resultado prático é evidente: granjas que utilizam exclusivamente a inseminação artificial há mais de 20 anos mantêm o status sanitário, mesmo com alta rotatividade de matrizes. “A inseminação artificial, quando bem conduzida, constitui uma ferramenta estratégica para manter as granjas geneticamente abertas e sanitariamente fechadas”, frisa.

Desafios persistem

Ao completar meio século, a inseminação artificial em suínos no Brasil é uma prática consolidada, reconhecida por sua capacidade de acelerar o melhoramento genético, aumentar a produtividade e proteger a sanidade das granjas. No entanto, a entrega das doses de sêmen segue sendo um ponto crítico. “Com a precariedade da infraestrutura, especialmente a inexistência de malhas ferroviárias eficientes e limitações na área de comunicação, a solução encontrada foi a entrega em domicílio das doses, realizada pelas próprias UDGs ou por empresas terceirizadas especializadas em transporte de material biológico”, ressalta Meincke.

Essa sistemática garante rastreamento completo, manutenção da temperatura adequada e acondicionamento seguro das doses, além de agilidade na entrega. Contudo, o desafio permanece em adequar o custo final de cada dose até chegar às mãos do produtor, sem comprometer a viabilidade econômica da operação.

Outro ponto crítico é o alto investimento necessário para a construção e manutenção de UDGs bem equipadas, com instalações modernas e elevada biossegurança. “Somado a isso a necessidade de um rigoroso e permanente controle de qualidade das doses inseminastes, para garantir que a produtividade esperada pelos produtores seja alcançada”, salienta Meincke.

O manejo adequado das fêmeas e o correto diagnóstico do cio dependem de treinamentos constantes das equipes de inseminadores. “Como as UDGs normalmente ficam em áreas isoladas, atrair e manter profissionais qualificados também é um desafio que precisa ser bem planejado”, complementa.

Evolução contínua

Meincke exalta que o investimento contínuo em tecnologia, capacitação e biossegurança vai permitir que a prática continue a impulsionar a produtividade e a competitividade da suinocultura nacional. “Se há 50 anos a inovação exigiu coragem e persistência, hoje ela demanda atualização constante, adaptação às novas demandas do mercado e à evolução tecnológica. O objetivo continua o mesmo: produzir suínos de alta qualidade, de forma eficiente e segura, mantendo o Brasil na vanguarda mundial da suinocultura”, evidencia Meincke.

Cinco décadas depois, a inseminação artificial está presente em praticamente todas as granjas tecnificadas do país, desempenhando papel decisivo na disseminação de genética superior, no controle sanitário e na eficiência reprodutiva. O legado de Werner Meincke não está apenas na introdução de uma técnica, mas na visão de futuro que ajudou a moldar a suinocultura brasileira. “A inseminação artificial não foi apenas uma inovação técnica, foi uma mudança de mentalidade. E, como toda mudança profunda, exigiu coragem, persistência e fé na ciência”, enfatizou.

Com distribuição nacional nas principais regiões produtoras do agro brasileiro, O Presente Rural – Suinocultura também está disponível em formato digital. O conteúdo completo pode ser acessado gratuitamente em PDF, na aba Edições Impressas do site.

Fonte: O Presente Rural

Suínos

Abate de suínos acelera no 3º trimestre com apoio das exportações

Setor registrou 15,81 milhões de cabeças abatidas entre julho e setembro, crescimento impulsionado por demanda externa aquecida e maior consumo interno.

Publicado em

em

Foto: O Presente Rural

Entre julho e setembro, foram abatidas 15,81 milhões de cabeças, volume 5,3% maior que o registrado no mesmo período de 2024 e 4,8% acima do total do segundo trimestre deste ano.

O peso total das carcaças também avançou. No trimestre, o acumulado chegou a 1,49 milhão de toneladas, alta de 6,1% frente ao 3º trimestre do ano passado e crescimento de 4,8% em relação ao trimestre anterior.

Segundo Angela Lordão, as exportações seguem desempenhando papel central no bom momento da atividade. “As vendas externas de carne suína alcançaram níveis inéditos tanto em volume quanto em faturamento, com as Filipinas liderando as compras. No mercado interno, cortes mais acessíveis e práticos também vêm impulsionando o consumo”, afirma.

Fonte: O Presente Rural com informações Agência IBGE
Continue Lendo

Suínos

Suinocultura brasileira reforça liderança sanitária em debate regional sobre febre aftosa

Encontro no Paraguai destaca avanços e desafios da região sem vacinação, enquanto a ABCS ressalta competitividade e potencial das exportações de carne e genética suína do Brasil.

Publicado em

em

Foto: Shutterstock

A Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS) participou, nos dias 25 e 26 de novembro, do Taller Regional de Febre Aftosa, em Assunção, no Paraguai. O encontro reuniu especialistas, autoridades sanitárias e representantes do setor produtivo do Cone Sul para debater os avanços e desafios no combate à doença.

O foco principal foi o novo cenário da região após o reconhecimento de países livres de febre aftosa sem vacinação, um marco que exige atenção redobrada às oportunidades e riscos, além da construção de estratégias conjuntas para preservar o status sanitário e a competitividade do bloco no comércio internacional.

Representando a ABCS, a diretora técnica Charli Ludtke apresentou a palestra “Expectativas de los mercados de carne porcina frente a distintos status”. Ela ressaltou o forte desempenho da suinocultura brasileira, destacando o padrão sanitário elevado, a integração entre setor público e privado e a estrutura produtiva avançada — fatores que ampliam o acesso do Brasil a mercados mais exigentes.

Ludtke também apontou o crescimento do segmento de genética suína, impulsionado pela atuação da Estação de Quarentena de Cananéia (EQC), peça-chave para garantir segurança na entrada de material genético e para fortalecer a expansão das exportações.

Entre os temas discutidos no encontro estiveram os desafios enfrentados pelos países livres da aftosa sem vacinação, como a necessidade de respostas rápidas em possíveis emergências sanitárias, as novas exigências internacionais e o fortalecimento das parcerias público-privadas.

Para Charli Ludtke, o encontro marca uma nova fase para o Brasil e para a América do Sul. “A retirada da vacina é só o começo. Agora, o desafio é manter o status livre sem vacinação com vigilância ativa, biosseguridade e cooperação entre os países. A febre aftosa não respeita fronteiras, e a harmonização das estratégias dentro do Mercosul é fundamental.”

Fonte: Assessoria ABCS
Continue Lendo

Suínos Da coleta rudimentar à genética de ponta

O pioneirismo da Acsurs que mudou o rumo da suinocultura brasileira

Iniciativa pioneira da Acsurs, criada há 50 anos, introduziu a inseminação artificial e impulsionou o melhoramento genético, transformando a suinocultura brasileira em um setor moderno e competitivo.

Publicado em

em

Foto: Shutterstock

Há meio século, a suinocultura brasileira vivia um momento decisivo. Em 1975, nascia em Estrela (RS) a primeira Central de Coleta e Processamento de Sêmen (CCPS) do país, criada pela Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs). O projeto, impulsionado pelo então presidente da Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), Hélio Miguel de Rose, foi o ponto de partida para uma transformação silenciosa e profunda na produção de suínos no Brasil.

Com apoio do Ministério da Agricultura, da Embrapa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e das associações estaduais de criadores, o grupo que idealizou a central uniu pioneirismo e coragem para implantar uma técnica que, até então, só era usada em bovinos. “A Acsurs foi pioneira justamente por ter uma visão muito à frente do seu tempo”, afirma Valdecir Luis Folador, atual presidente da entidade, enaltecendo: “Naquela época, a direção da Acsurs entendeu que o futuro da suinocultura passava pelo melhoramento genético, e foi buscar fora o que o Brasil ainda não tinha. Isso ajudou a construir a suinocultura moderna que conhecemos hoje”.

Coragem dos primeiros passos

Presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs), Valdecir Luis Folador: “A suinocultura brasileira deve muito àquele grupo visionário da década de 1970. Eles plantaram a semente da tecnologia e da inovação. E a Acsurs continua honrando esse legado, olhando sempre para frente, para garantir que o setor siga competitivo, sustentável e cada vez mais moderno” – Fotos: Divulgação/Arquivo Acsurs

A central gaúcha surgiu a partir de uma ideia trazida da Europa. Lá, a inseminação artificial em suínos já era uma prática avançada, mas por aqui o desafio era começar do zero. Um dos primeiros a embarcar nessa jornada foi o médico-veterinário Werner Meincke, recém-formado e disposto a se aprofundar na nova tecnologia. “Passei 90 dias na maior central de inseminação de suínos da Holanda, onde aprendi tudo: alimentação, avaliação de sêmen, coleta e inseminação. Depois ainda fui para a Alemanha, para aprofundar os conhecimentos em reprodução. Quando voltei, trouxemos tudo o que aprendemos e começamos a aplicar no Brasil”, relata.

Ao lado de Meincke estava Isabel Scheid, também médica-veterinária e uma das poucas mulheres na área à época. Com o grupo liderado pela Acsurs, ela participou da implantação prática da técnica no Vale do Taquari. “Nós começamos de forma muito simples, com um pequeno laboratório instalado nos fundos da ABCS, em Estrela. Montamos um manequim rudimentar, adquirimos alguns reprodutores e passamos a fazer as primeiras coletas e inseminações”, recorda.

Um salto técnico e cultural

Mais do que um avanço tecnológico, a inseminação artificial representou uma mudança de mentalidade. Até então, o cruzamento natural era o único método de reprodução nas granjas, o que limitava o ganho genético e dificultava o controle sanitário. “Aquele passo dado na década de 70 foi determinante para o desenvolvimento da suinocultura que temos hoje. A iniciativa da Acsurs, da ABCS, das entidades e profissionais técnicos envolvidos acelerou o melhoramento genético da suinocultura, primeiro no Rio Grande do Sul e depois se expandiu para o restante do país”, ressalta Folador.

Nos primeiros anos, o trabalho era quase artesanal. As doses de sêmen eram coletadas, analisadas e distribuídas manualmente. Os técnicos da Acsurs percorriam o interior do estado gaúcho para atender aos produtores interessados em testar a novidade. O sucesso foi imediato. Pouco a pouco, os resultados começaram a aparecer: aumento da produtividade, uniformidade dos lotes e maior controle reprodutivo.

Com a chegada, nos anos 1980, das empresas de melhoramento genético, o processo se consolidou. O Brasil já tinha uma década de experiência acumulada e um corpo técnico capacitado. “Houve um avanço muito rápido. Passamos a dispor de programas reprodutivos eficientes, cadeias de produção de insumos e até novas formas de transporte de sêmen. A inseminação artificial e o crescimento do setor caminharam juntos, uma não existiria sem a outra”, enfatiza Isabel.

Do Parque 20 de Maio à era digital

A trajetória da Acsurs reflete o próprio amadurecimento da suinocultura brasileira. De um pequeno laboratório improvisado no Parque 20 de Maio, em Estrela (RS), a entidade construiu uma central moderna, referência nacional em eficiência e qualidade genética.

Hoje, a Acsurs mantém mais de 380 reprodutores e investe continuamente em tecnologia, equipamentos de ponta e bem-estar animal. “Temos uma central moderna e muito eficiente, com o que há de melhor em coleta, processamento e conservação de sêmen. Buscamos sempre adequar as instalações para garantir conforto e manejo adequado, porque isso se reflete diretamente na qualidade do material produzido”, diz Folador.

O dirigente também destaca o papel institucional da associação ao longo das décadas. “A Acsurs sempre teve uma missão clara: levar informação, tecnologia e melhoramento genético aos produtores. Cada geração de lideranças entendeu o seu tempo e manteve esse compromisso. Foi assim nos anos 1970, quando introduzimos a inseminação, e continua sendo assim hoje, com novas demandas e desafios”, salientou.

Do passado ao futuro

Cinquenta anos depois, a inseminação artificial segue como uma das principais ferramentas da suinocultura, agora impulsionada pela automação, pela genética de precisão e até por projetos que estudam a distribuição de sêmen por drones. “É extraordinário ver a diferença entre o que fazíamos no início e o que se faz hoje”, compara Meincke, completando: “Saímos do transporte de doses em ônibus para pensar em distribuição aérea. É uma revolução.”

Para Folador, essa trajetória resume o espírito que sempre guiou a entidade. “A suinocultura brasileira deve muito àquele grupo visionário da década de 1970. Eles plantaram a semente da tecnologia e da inovação. E a Acsurs continua honrando esse legado, olhando sempre para frente, para garantir que o setor siga competitivo, sustentável e cada vez mais moderno”, evidencia.

O que começou como um experimento audacioso no interior gaúcho se tornou um dos pilares da suinocultura nacional. A central da Acsurs, nascida do sonho de alguns pioneiros, é hoje símbolo de eficiência e de uma história que mistura ciência, dedicação e visão de futuro, a base de uma atividade que se reinventou sem perder suas raízes.

versão digital está disponível gratuitamente no site oficial de O Presente Rural. A edição impressa já circula com distribuição dirigida a leitores e parceiros em 13 estados brasileiros.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.