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Inseminação artificial completa 50 anos revolucionando a suinocultura no Brasil

Técnica pioneira aumentou produtividade, aprimorou a genética e consolidou o país como referência global na produção de suínos.

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A inseminação artificial em suínos, hoje consolidada como uma das ferramentas mais importantes do avanço genético e produtivo da suinocultura brasileira, começou a ser escrita há exatos 50 anos, em 1975, em Estrela (RS). Um dos protagonistas dessa história é o médico-veterinário Werner Meincke, responsável por introduzir no país a técnica que mudaria para sempre a forma de produzir suínos no Brasil.

Na época, a suinocultura nacional se espelhava no modelo europeu. “Assim como nós, a Europa possuía granjas menores, com a produção sendo realizada em ciclo completo”, recorda Meincke, que atuou como diretor da primeira Central de Inseminação Artificial em Suínos do país e presidiu a Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs) entre 1983 e 1988.

Esse intercâmbio resultava em importações frequentes de reprodutores europeus, especialmente das raças Landrace e Large White, trazidas da Suécia, Alemanha e Holanda pela Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS). “Esses animais eram multiplicados nas granjas registradas e comercializados em feiras e exposições, numa tentativa de melhorar o rebanho nacional”, menciona.

Enquanto a inseminação artificial em bovinos com sêmen congelado já era uma realidade consolidada, a técnica em suínos era praticamente inexistente. “Exceto por alguns trabalhos experimentais conduzidos pelo professor Mies Filho na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, não havia aplicação prática em escala comercial”, relata Meincke, reconhecido com o Prêmio PorkWorld em 2008 e 2010.

De acordo com o pioneiro da técnica, o contexto sanitário e econômico da época também foi decisivo. “O país vivia uma transição: a gordura suína, chamada de ‘ouro branco’, até então considerada essencial, passava a ser condenada por médicos e nutricionistas, impulsionando o consumo dos óleos vegetais. Precisávamos consolidar o suíno tipo carne, e a inseminação artificial surgiu como uma oportunidade de acelerar essa transformação. O poder de multiplicação dos descendentes é 10 vezes maior que na monta natural”, explica o médico-veterinário.

O convite para implantar a técnica no Brasil veio da Central de Inseminação de Boxtel, na Holanda, à época a maior da Europa. A ponte foi viabilizada pela ABCS e seu então presidente, Hélio Miguel de Rose, em função da estreita relação com criadores europeus. “A inspiração para trazer a inseminação artificial ao Brasil tem tudo a ver com a tecnologia que era praticada com muito sucesso na Europa naquele momento”, pontua Meincke.

Desafios e desconfianças

Médico-veterinário Werner Meincke, responsável por introduzir no país a inseminação artificial que mudaria para sempre a forma de produzir suínos no Brasil: “Cada fase da história da inseminação artificial no Brasil teve um marco decisivo, mas o que permanece constante é a visão de futuro: aplicar ciência e técnica para melhorar a produção e a vida do produtor” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

Os primeiros anos da inseminação artificial em suínos no Brasil foram marcados por desafios técnicos, logísticos e até culturais. “Tudo o que sabíamos sobre inseminação vinha da experiência com bovinos e sêmen congelado, que apresentava excelentes resultados. Em suínos, no entanto, o sêmen era apenas resfriado e tinha durabilidade limitada a 72 horas”, relembra Meincke.

Além da curta viabilidade do material, o país enfrentava a falta de infraestrutura logística. Sem uma malha ferroviária eficiente, o transporte das doses até as granjas era feito de ônibus. “Era fundamental que houvesse boa conexão entre a Central e os municípios interessados. Muitos produtores queriam aderir, mas a ausência de logística inviabilizava o acesso”, recorda.

Com o passar dos anos, o avanço tecnológico trouxe novas soluções. Hoje, diluentes modernos mantêm a duração das doses por até sete dias, e a distribuição é feita por rotas programadas que atendem simultaneamente diversos produtores. “Essa sistemática contribui muito para o sucesso da tecnologia, que alcança resultados semelhantes ou até superiores aos da monta natural, sem contar os inúmeros benefícios produtivos e sanitários”, afirma.

Primeiros resultados

Como toda inovação, os primeiros resultados apresentaram variações. “Era compreensível, diante das limitações do sêmen resfriado e das grandes diferenças entre as granjas, tanto nas instalações quanto no manejo das fêmeas”, recorda Meincke, destacando que, ainda assim, o desempenho dos leitões surpreendeu. “O que mais impressionava os produtores era a uniformidade e o vigor dos animais nascidos”.

Um episódio curioso ajudou a consolidar a confiança na técnica. “Em granjas um pouco maiores, que desmamavam cerca de 10 fêmeas por semana, era comum pedir sêmen para inseminar apenas oito, porque cerca de 20% atrasavam o cio e eram cobertas depois pelo macho. Com o tempo, percebemos que as fêmeas que antecipavam o cio eram, em média, mais férteis e os resultados com inseminação superavam os da monta natural”, relata.

A observação prática virou argumento de convencimento. “O próprio produtor se tornava um marqueteiro da inseminação”, diz Meincke, com um sorriso de quem testemunhou a transição de um método experimental para um instrumento essencial da suinocultura moderna.

Das primeiras centrais ao alcance nacional

Após a introdução da tecnologia, o desafio seguinte não era apenas técnico, mas logístico e social: como levar uma inovação pioneira aos produtores rurais de diferentes regiões? A resposta veio por meio de uma articulação entre Centrais de Inseminação Artificial, prefeituras, cooperativas e sindicatos, criando um modelo de parceria que se mostraria decisivo para a difusão da ferramenta. “Por se tratar de um programa inovador e com muitos benefícios, os municípios e entidades como cooperativas e sindicatos passaram a demonstrar grande interesse na implantação da tecnologia”, expõe Meincke.

O percursor da técnica conta que os convênios firmados detalhavam responsabilidades, entre quais a central cabia produzir e distribuir as doses, planejar a logística de transporte, enviar o sêmen em embalagens que evitassem grandes oscilações térmicas e treinar os futuros inseminadores. Já as entidades conveniadas indicavam os técnicos, organizavam reuniões de produtores, adquiram conservadoras de sêmen e centralizavam os pedidos para envio à central com antecedência. “A temperatura ideal para conservação das doses era de 16 °C, e o envio ocorria duas ou três vezes por semana. A pesquisa sobre resultados era realizada junto a produtores mais organizados, que já mantinham algum controle da produtividade de suas granjas”, menciona.

Expansão da tecnologia

O sucesso da inseminação artificial dependia diretamente da capacitação dos técnicos locais. “Sem os inseminadores treinados, não teríamos tido a expansão que tivemos nem a excelência nos resultados”, ressalta Meincke.

O treinamento compreendia uma parte teórica, abordando anatomofisiologia da fêmea, ciclo estral, comportamento durante o estro e identificação do momento ideal para inseminação. Também havia prática com úteros obtidos em frigoríficos, permitindo demonstrar cuidados com a pipeta e a fixação no colo uterino. Por fim, os candidatos acompanhavam colegas experientes por uma semana, vivenciando a rotina a campo. “Somente na Central de Inseminação Artificial de Estrela (RS) [hoje Central de Coleta e Processamento de Sêmen (CCPS)], mais de 150 técnicos foram capacitados ao longo da história, garantindo a multiplicação do conhecimento e acelerando a adoção da tecnologia”, diz, orgulhoso.

Da novidade à ferramenta estratégica

Para Meincke, a inseminação artificial deixou de ser uma prática experimental e se consolidou como uma ferramenta estratégica da suinocultura em três momentos distintos:

  1. Década de 1980 – com a ascensão da suinocultura industrial, os módulos de produção cresceram e a inseminação artificial passou a ser considerada essencial para novos sistemas produtivos.

  2. Década de 1990 – com a segregação da produção em dois e depois três sítios, a técnica passou a ser uma aliada da biossegurança e do controle sanitário.

  3. Atualidade – empresas de material genético utilizam a inseminação artificial como ferramenta de melhoramento genético, preservando a saúde dos rebanhos e reduzindo o gap genético entre granjas. “Hoje, a inseminação artificial não é apenas uma inovação; é uma estratégia central no manejo e melhoramento genético do suíno no país”, salienta o médico-veterinário.

Quatro fases de transformação

Segundo Meincke, a história da inseminação artificial em suínos no Brasil pode ser dividida em quatro grandes fases:

1ª fase – expansão regional inicial: As duas primeiras centrais, em Estrela (RS) e Concórdia (SC), atendiam diretamente produtores locais. O sucesso inicial possibilitou a extensão do programa aos estados de Rio Grande do Sul e Santa Catarina, por meio de convênios com entidades públicas e privadas.

2ª fase – cooperativas e laboratórios internos: Na década de 1990 e início dos anos 2000, cooperativas e agroindústrias privadas construíram centrais próprias. Grandes produtores, com mais de 500 matrizes, também mantinham laboratórios internos para reduzir o número de machos e melhorar a seleção genética. Com o avanço da tecnologia, esses laboratórios internos foram gradualmente desativados.

3ª fase – consolidação tecnológica: As primeiras centrais permanecem ativas, modernizando suas instalações e criando parcerias com empresas de genética, alugando espaço para machos e ampliando atendimento aos clientes. Investimentos em automação, climatização, biossegurança e bem-estar animal passaram a ser prioridade.

4ª fase – integração ao melhoramento genético estratégico: A fase atual envolve o uso da IA como ferramenta de programas de melhoramento, visando acelerar ganhos genéticos em granjas elite e reduzir o gap nas unidades de clientes, consolidando saúde, produtividade e eficiência na cadeia suinícola.

Ao longo de cinco décadas, a inseminação artificial passou de um experimento pioneiro para um recurso estratégico capaz de transformar a suinocultura brasileira. A combinação de capacitação técnica, parcerias estratégicas e avanços tecnológicos permitiu que os ganhos de produtividade fossem replicados em larga escala, criando padrões de eficiência, sanidade e qualidade genética que hoje posicionam o Brasil como referência global na produção de suínos. “Cada fase da história da inseminação artificial no Brasil teve um marco decisivo, mas o que permanece constante é a visão de futuro: aplicar ciência e técnica para melhorar a produção e a vida do produtor”, salienta Meincke.

Consolidação da técnica

Ao longo das últimas cinco décadas, a inseminação artificial em suínos evoluiu de uma prática experimental para uma ferramenta estratégica que sustenta a competitividade da suinocultura brasileira. Nesse processo, o papel das cooperativas e das empresas integradoras foi fundamental. “A participação desses segmentos foi de suma importância para expandir e dar credibilidade à tecnologia”, destaca Meincke.

De acordo com ele, cooperativas e integradoras concentram atualmente cerca de 80% dos suinocultores que utilizam machos altamente eficientes, impactando positivamente toda a cadeia produtiva. “Essa grande concentração de produtores eficientes reduz os custos de produção e torna a suinocultura brasileira altamente competitiva no mercado mundial, sustentando grande parte do crescimento linear das exportações nos últimos anos”, explica.

Ganhos em produtividade e genética

Um dos principais benefícios da inseminação artificial é o incremento da produtividade. “O uso de machos altamente selecionados, superiores em características econômicas como ganho de peso diário, conversão alimentar e qualidade de carcaça, gera impacto direto na eficiência das granjas”, afirma o veterinário.

As Unidades de Disseminação de Genes (UDGs) utilizam apenas animais de alta performance, garantindo que os benefícios econômicos e genéticos sejam replicados por toda a cadeia produtiva. “É sem dúvida uma das razões pelas quais nossa suinocultura se destaca mundialmente, especialmente pela eficiência de crescimento”, acrescenta Meincke.

Sanidade como prioridade estratégica

A combinação de genética superior, controle rigoroso de sanidade e a ampla adoção da técnica por cooperativas e integradoras fortaleceu toda a cadeia produtiva da suinocultura brasileira. Como resultado, o país conquistou uma produção mais eficiente, econômica e capaz de competir globalmente tanto em qualidade quanto em produtividade. “Além da alta produtividade, a inseminação artificial contribui de forma decisiva para a saúde animal. A possibilidade de transmissão de agentes patogênicos via sêmen é extremamente remota, graças ao rigoroso monitoramento sanitário realizado nas UDGs, junto aos doadores e durante todo o processo de industrialização do sêmen”, expõe Meincke.

O resultado prático é evidente: granjas que utilizam exclusivamente a inseminação artificial há mais de 20 anos mantêm o status sanitário, mesmo com alta rotatividade de matrizes. “A inseminação artificial, quando bem conduzida, constitui uma ferramenta estratégica para manter as granjas geneticamente abertas e sanitariamente fechadas”, frisa.

Desafios persistem

Ao completar meio século, a inseminação artificial em suínos no Brasil é uma prática consolidada, reconhecida por sua capacidade de acelerar o melhoramento genético, aumentar a produtividade e proteger a sanidade das granjas. No entanto, a entrega das doses de sêmen segue sendo um ponto crítico. “Com a precariedade da infraestrutura, especialmente a inexistência de malhas ferroviárias eficientes e limitações na área de comunicação, a solução encontrada foi a entrega em domicílio das doses, realizada pelas próprias UDGs ou por empresas terceirizadas especializadas em transporte de material biológico”, ressalta Meincke.

Essa sistemática garante rastreamento completo, manutenção da temperatura adequada e acondicionamento seguro das doses, além de agilidade na entrega. Contudo, o desafio permanece em adequar o custo final de cada dose até chegar às mãos do produtor, sem comprometer a viabilidade econômica da operação.

Outro ponto crítico é o alto investimento necessário para a construção e manutenção de UDGs bem equipadas, com instalações modernas e elevada biossegurança. “Somado a isso a necessidade de um rigoroso e permanente controle de qualidade das doses inseminastes, para garantir que a produtividade esperada pelos produtores seja alcançada”, salienta Meincke.

O manejo adequado das fêmeas e o correto diagnóstico do cio dependem de treinamentos constantes das equipes de inseminadores. “Como as UDGs normalmente ficam em áreas isoladas, atrair e manter profissionais qualificados também é um desafio que precisa ser bem planejado”, complementa.

Evolução contínua

Meincke exalta que o investimento contínuo em tecnologia, capacitação e biossegurança vai permitir que a prática continue a impulsionar a produtividade e a competitividade da suinocultura nacional. “Se há 50 anos a inovação exigiu coragem e persistência, hoje ela demanda atualização constante, adaptação às novas demandas do mercado e à evolução tecnológica. O objetivo continua o mesmo: produzir suínos de alta qualidade, de forma eficiente e segura, mantendo o Brasil na vanguarda mundial da suinocultura”, evidencia Meincke.

Cinco décadas depois, a inseminação artificial está presente em praticamente todas as granjas tecnificadas do país, desempenhando papel decisivo na disseminação de genética superior, no controle sanitário e na eficiência reprodutiva. O legado de Werner Meincke não está apenas na introdução de uma técnica, mas na visão de futuro que ajudou a moldar a suinocultura brasileira. “A inseminação artificial não foi apenas uma inovação técnica, foi uma mudança de mentalidade. E, como toda mudança profunda, exigiu coragem, persistência e fé na ciência”, enfatizou.

Com distribuição nacional nas principais regiões produtoras do agro brasileiro, O Presente Rural – Suinocultura também está disponível em formato digital. O conteúdo completo pode ser acessado gratuitamente em PDF, na aba Edições Impressas do site.

Fonte: O Presente Rural

Suínos

Canetas emagrecedoras redesenham dieta do brasileiro e impulsionam consumo da carne suína

Avanço de medicamentos à base de GLP-1 muda o consumo de calorias, reduz carboidratos e fortalece a demanda por proteínas, colocando a suinocultura brasileira em posição estratégica em 2026.

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O ano de 2026 começou e já anuncia grandes mudanças para o agronegócio e o varejo alimentício no Brasil: a redistribuição no consumo de calorias. Se em anos anteriores o foco era o preço, hoje a dieta do brasileiro é ditada por uma combinação de busca por longevidade e o avanço crescente de medicamentos análogos de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, as chamadas canetas emagrecedoras. Um relatório divulgado pelo Itaú BBA indica que o fenômeno, que começou como uma tendência de saúde, agora redesenha a demanda da porteira para dentro, alterando o equilíbrio entre as lavouras e a pecuária.

Foto: Claudio Pazetto

Projeções de mercado das consultorias IQVIA e Itaú BBA estimam que o Brasil tenha entre 4 e 6 milhões de usuários regulares desses medicamentos, com maior concentração nas classes A e B, consolidando o país como o segundo maior mercado mundial da categoria. É importante ressaltar que esses dados refletem o mercado auditado, mas o alcance real é ainda maior ao considerarmos o uso off-label (uso de remédios adquiridos de forma clandestina).

Além disso, o acesso facilitado e a quebra de patentes prevista para este ano impulsionam o setor; a expectativa, segundo analistas do mercado financeiro como o BTG Pactual, é que o volume de vendas mantenha um crescimento significativo, podendo atingir até 80% com a chegada dos genéricos.

Neste cenário de redução do apetite, o consumidor come menos e escolhe melhor. Segundo dados do setor, cerca de 56% dos usuários desses fármacos afirmam fazer escolhas mais saudáveis, priorizando porções menores e nutricionalmente superiores. O impacto direto é uma queda acentuada na demanda por carboidratos refinados e uma ascensão das proteínas.

Essa mudança ocorre porque a recomendação nutricional para quem utiliza esses tratamentos subiu para até 1,6g de proteína por quilo corporal (visando a manutenção da massa magra), enquanto a estimativa de queda no consumo de carboidratos chega a -10,1% em snacks e -8,8% em panificação. Isso coloca os frigoríficos e produtores de proteína animal como os grandes beneficiados a longo prazo.

Neste cenário, a carne suína consolida sua posição estratégica. O relatório indica que o Brasil deve liderar o crescimento global de

Fotos: Divulgação/HB Audiovisual

produção de carne suína em 2026 (projeção de +1,3% a +3,8%) beneficiado pelo baixo custo da ração e pela migração do consumo de carboidratos para carnes. A tendência de “Smart Foods”, apontada pela Euromonitor, também abraça a carne suína pela sua praticidade, impulsionando o desenvolvimento de embutidos de alta qualidade, com menor teor de sódio e rótulos mais limpos, atendendo ao público que busca saciedade rápida com densidade nutricional.

Já no varejo, a palavra de ordem é a “Servitização”. Supermercados deixaram de ser apenas depósitos de produtos para se tornarem centros de consultoria e experiência, a exemplo de redes que já oferecem nutricionistas em loja e curadoria de produtos.

A tendência apontada por consultorias como Kantar e Mintel é a hiperpersonalização nutricional: com o auxílio de IA e Retail Media, as redes passarão a oferecer ofertas baseadas no perfil metabólico e necessidades de saúde do cliente. As marcas próprias também irão evoluir em 2026, se consolidando como escolhas premium para quem busca alimentos funcionais, como snacks de proteína e itens prontos para o consumo.

Presidente da ABCS, Marcelo Lopes: “A ABCS atua como o elo estratégico que traduz essas novas demandas de consumo em oportunidades reais, garantindo que a suinocultura brasileira esteja sempre um passo à frente, e pronta para atender” – Foto: Divulgação/Arquivo OP Rural

Ainda de acordo com o Itaú BBA, embora o cenário seja favorável para as proteínas, o setor de grãos enfrenta o desafio de se adaptar. A redução gradual no consumo de cereais para alimentação humana direta obriga o campo a focar ainda mais na eficiência da ração animal, já que a demanda por carne segue em níveis históricos.

Para o presidente da ABCS, Marcelo Lopes, a mensagem é clara: quem não entender que o consumidor mudou o hábito na farmácia, perderá competitividade na gôndola. “Em um mercado que se redefine em tempo recorde, a antecipação é o nosso maior diferencial. A ABCS atua como o elo estratégico que traduz essas novas demandas de consumo em oportunidades reais, garantindo que a suinocultura brasileira esteja sempre um passo à frente, e pronta para atender”, finaliza.

Fonte: Assessoria ABCS
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Suínos

Embrapa estrutura rede nacional de dados para antecipar riscos sanitários na suinocultura

Central integra informações de granjas de todo o Brasil para reforçar vigilância epidemiológica, biosseguridade, sustentabilidade e competitividade do setor.

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Plataforma integra e analisa dados sanitários de granjas de todo o País para apoiar a tomada de decisão e fortalecer a vigilância epidemiológica - Foto: Luiza Biesus

A Embrapa Suínos e Aves disponibiliza nesta semana a Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS), uma plataforma estratégica que integra e analisa dados sanitários de granjas de todo o País para apoiar a tomada de decisão, fortalecer a vigilância epidemiológica, biosseguridade, controle de doenças e ampliar a sustentabilidade da suinocultura brasileira.

Foto: Monalisa Pereira/Embrapa

De grande relevância no cenário mundial, a suinocultura se destaca pelos elevados padrões sanitários, pela produtividade e pelo compromisso com a sustentabilidade. Diante do desafio do monitoramento contínuo desses parâmetros, a Embrapa e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se uniram para estruturar a ferramenta, que agrega dados sanitários estratégicos para a cadeia produtiva, a partir de parcerias com Laboratórios de Diagnóstico Veterinário (LDVs).

Santa Catarina, estado que abriga a Unidade da Embrapa, é o maior produtor e exportador de suínos do Brasil. Em 2024, alcançou um recorde histórico, com 17,97 milhões de suínos abatidos, reforçando a importância de ações estruturadas para a sanidade dos rebanhos. A saúde animal é um fator decisivo para a produtividade e para a redução de perdas nas granjas e no abate.

Entre os principais desafios estão as Doenças do Complexo Respiratórios Suíno (PRDC), responsáveis por perdas significativas devido à

Pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves, Janice Zanella: ” – Foto: Monalisa Pereira/Embrapa

redução de ganho de peso, condenação de carcaças, aumento da mortalidade e maior uso de antibióticos. O PRDC é uma enfermidade multifatorial, resultante da interação entre fatores não infecciosos e patógenos virais e bacterianos, como o vírus da Influenza suína, o vírus da Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos (PRRSV), o Circovírus Suíno Tipo 2 (PCV2), Mycoplasma hyopneumoniae e outros agentes bacterianos. “Como o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores mundiais de carne suína, manter a saúde dos rebanhos é essencial”, afirma a pesquisadora Janice Zanella, líder da pesquisa.

E conhecer e entender os dados e informações sanitárias, realizando análises preditivas e retrospectivas é parte da estratégia, o que torna a CISS um instrumento inovador.

Central de inteligência transforma dados em ação
A Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS) também materializa o conceito de Saúde Única ao integrar saúde animal, saúde humana e proteção ambiental. “Animais saudáveis reduzem o uso de antibióticos, a mortalidade, o impacto ambiental e, consequentemente, geram alimentos mais seguros”, destaca Janice.

Da mesma forma, o monitoramento de agentes zoonóticos, principalmente vírus emergentes, visa identificar precocemente a circulação de patógenos na interface humano-animal-ambiente, antecipar riscos de surtos e epidemias, orientar medidas de prevenção e controle, e proteger a saúde pública, a produção animal e a segurança ambiental dentro da abordagem de Saúde Única.

Na prática, a Embrapa atua por meio da CISS em parceria com Laboratórios de Diagnóstico Veterinário (LDVs), que fornecem dados provenientes de milhares de amostras coletadas em granjas de todo o País. Essa cooperação é um pilar estratégico para o funcionamento da plataforma, pois possibilita a consolidação estruturada de resultados de diagnósticos laboratoriais, como testes de PCR, análises patológicas e outros exames de rotina relacionados a doenças endêmicas da suinocultura. Com isso, forma-se um banco de dados amplo e representativo da situação sanitária dos rebanhos suínos brasileiros.

A integração contínua dessas informações permite identificar e acompanhar mudanças nos padrões sanitários ao longo do tempo, considerando variáveis como faixa etária, unidades da federação, tipo de amostra analisada, natureza do problema sanitário e sistema de produção. Inspirada no modelo do Swine Disease Reporting System (SDRS), da Universidade Estadual de Iowa, nos Estados Unidos, a CISS oferece análises dinâmicas e atualizadas para diferentes atores do setor.

Foto: Lucas Scherer/Embrapa

Outro aspecto central do trabalho é a padronização e a interoperabilidade dos dados. Um dos principais desafios da integração, segundo a pesquisadora, é o fato de os LDVs utilizarem testes, ensaios e sistemas de gestão de informações laboratoriais (SGIL) distintos. Para viabilizar a troca e a análise conjunta das informações, é fundamental a adoção de padrões diagnósticos internacionalmente reconhecidos, como o Logical Observation Identifiers, Names and Codes (LOINC) e o SNOMED CT, que garantem a representação consistente do conteúdo clínico. Esse processo de codificação é conduzido pelo professor Rafael Nicolino, da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com os analistas da Embrapa Dirceu Benelli e Armando Amaral.

Os dados consolidados pela CISS subsidiam a elaboração de relatórios técnicos agregados e anonimizados, que apoiam a formulação de políticas públicas e ações estratégicas de órgãos de defesa sanitária, indústrias e produtores. No projeto piloto, a prioridade é a pneumonia enzoótica suína, permitindo o planejamento de estratégias mais proativas de prevenção e controle.

Além disso, a iniciativa fortalece a rede laboratorial brasileira ao ampliar a cooperação técnico-científica entre a Embrapa e os laboratórios colaboradores, contribuindo para a capacitação de equipes, padronização de processos e consolidação de uma rede nacional de vigilância em saúde suína. Esse trabalho estruturado representa o primeiro passo para transformar informações dispersas em inteligência estratégica, fortalecendo a sanidade, a sustentabilidade e a competitividade da suinocultura brasileira.

Resultados preliminares 
O projeto-piloto da CISS focou inicialmente no teste de PCR para o agente da pneumonia enzoótica dos suínos, o Mycoplasma

Foto: Diuvlgação/Embrapa

hyopneumoniae (MHyo), um dos patógenos mais relevantes do Complexo Respiratório Suíno (PRDC). Entre outubro de 2019 e dezembro de 2025 foram analisadas 253.674 amostras submetidas para PCR de MHyo, gerando 10.821 registros. Os estados com maior frequência de submissões ao longo dos anos estudados foram Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

As análises revelaram tendências claras e sazonalidade. A maior ocorrência e o pico de positividade foram observados no primeiro semestre de 2022. Em maio daquele ano, por exemplo, 38% dos registros de MHyo foram positivos. O maior índice de submissões coincidiu com a maior positividade, o que demonstra que o diagnóstico laboratorial é um grande aliado para embasar medidas de tratamento, prevenção e controle na prática.

Outro trabalho recente mostrou uma alta taxa de positividade no diagnóstico de circovirus suíno tipo 2 (PCV2) entre 2020 e 2025. Esses estudos indicaram que o genótipo PCV2d é o predominante atualmente no Brasil, embora as coinfecções de genótipos (PCV2b + PCV2d) ainda sejam consideradas relevantes.

Foto: Divulgação

O modelo do SDRS dos EUA, que analisou a intensificação da vigilância diagnóstica de influenza (comparando dados em suínos e humanos) durante pandemias, apoia as estratégias de monitoramento e prevenção de influenza com risco zoonótico no Brasil via CISS.

Em resumo, a ferramenta CISS, é versátil, e quando embasada em dados de qualidade poderá ser empregada em diversos estudos e análises, que por sua vez poderão derivar para outros trabalhos.

IA e genômica 
Os próximos passos da Embrapa, de acordo com Janice, incluem a ampliação do monitoramento para outros agentes importantes além do Mycoplasma hyopneumoniae e a incorporação de mais laboratórios de diagnóstico veterinário parceiros. “O objetivo é criar uma rede nacional integrada, além de um comitê gestor”, enfatiza.

Outra iniciativa que está no planejamento da equipe é disponibilizar relatórios mensais ao setor e realizar encontros virtuais para debater sobre os dados oriundos das análises.

A tecnologia será um pilar essencial para o futuro da vigilância sanitária. O uso de inteligência artificial (IA), análise de big data e sequenciamento genômico tem o potencial de transformar os estudos epidemiológicos. Essas ferramentas permitirão a previsão de surtos, a identificação de variantes emergentes e a aceleração das respostas sanitárias. “O desafio, contudo, é transformar esses avanços em ferramentas acessíveis e sustentáveis para o setor produtivo”, observa a pesquisadora.

Ela complementa que o médico-veterinário e o pesquisador da área animal atuam diretamente em saúde pública, sendo considerados

Foto: Divulgação

agentes de saúde global. Eles estão na linha de frente na identificação de doenças, na comunicação de riscos às autoridades de saúde e na pesquisa.

Comunicar esse papel é fundamental para mostrar que a saúde animal está intrinsecamente ligada à saúde das pessoas e ao equilíbrio ambiental. A CISS não será apenas uma plataforma para analisar dados, mas sim para dar suporte a quem realmente está na linha de frente. “Fazer parte dessa linha de frente da saúde global é uma responsabilidade e um privilégio, e demonstra que o Brasil pode liderar soluções em sanidade animal que impactam, positivamente, todo o planeta”, enfatiza a pesquisadora.

Pesquisar suínos é estratégico para a saúde global
A intensificação da vigilância de vírus em animais de produção se tornou crucial após eventos como as pandemias de influenza e covid-19, que expuseram o risco global da circulação silenciosa de patógenos. Os suínos são considerados uma espécie-chave, uma vez que podem ser infectados por vírus humanos e de aves, como a influenza A zoonótica, o que abre caminho para a recombinação genética e a eventual criação de novos vírus.

Foto: Divulgação

A influenza, por exemplo, é endêmica em rebanhos suínos de países produtores, incluindo o Brasil. Agentes endêmicos na suinocultura causam grande impacto econômico, afetando a biosseguridade, o bem-estar animal, e ocasionando o uso excessivo de antimicrobianos. Para o Brasil, a manutenção da saúde do rebanho é vital para fornecer proteína de qualidade e nutritiva, tanto para o mercado doméstico como o de exportação. E preservar a credibilidade brasileira como produtor e exportador confiável de proteína animal, garantindo o cumprimento das exigências dos mercados.

Entenda as semelhanças entre vigilância sanitária e tráfego aéreo

Para entender a integração dos dados na vigilância sanitária, é possível compará-la a um grande sistema de tráfego aéreo.

Cada laboratório de diagnóstico veterinário (LDV) é como uma torre de controle local, gerenciando voos (amostras) de sua região. O desafio é que cada torre usa um sistema de rádio e coordenadas ligeiramente diferentes (SGILs e terminologias únicas).

A Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS) age como um sistema de radar nacional unificado, que obriga todas as torres a usar a mesma linguagem e os mesmos códigos de identificação (como LOINC e SNOMED CT). Isso permite que os “pilotos” (veterinários e produtores) vejam em tempo real onde estão os congestionamentos (picos de positividade) e quais são as rotas de riscos (novos surtos), protegendo assim a malha aérea inteira (a cadeia produtiva e a saúde pública global).

Conceito de Saúde Única
A abordagem de Saúde Única (ou Uma Só Saúde, One Health em inglês) parte da compreensão de que existe interconexão entre a saúde

Foto: Divulgação

de humanos, animais, plantas e meio ambiente. Rompe com a visão fragmentada de saúde humana, animal e ambiental, que ainda prevalece em alguns setores, dificultando a vigilância e o controle de doenças transmissíveis e a gestão de riscos ambientais.

Janice menciona aspectos contemplados nos pilares do conceito de Saúde Única. Dentro da saúde humana, são tratadas as preocupações com doenças, gestão de resíduos, resistência a antimicrobianos e sanidade vegetal nos sistemas agroalimentares, bem com a qualidade e saudabilidade dos alimentos. São questões que se replicam no caso da saúde animal em que se incluem os aspectos de biosseguridade e bem-estar dos indivíduos.

Dentro da saúde ambiental, a perda dos recursos naturais, a conservação da biodiversidade, a degradação ambiental e os resíduos nocivos, a vulnerabilidade das mulheres e das comunidades tradicionais e ribeirinhas aos efeitos da mudança climática e de práticas como o desmatamento ou a mineração não foram esquecidas.

Foto: O Presente Rural

No caso da ciência, diante de possíveis futuras pandemias e, internamente, quando da condução de pesquisas na Embrapa relacionadas à Saúde Única, a pesquisadora chama a atenção para a importância da interdisciplinaridade e integração de conhecimentos. “Temos que trabalhar fora das caixinhas, fora dos silos, apesar de nossas formações de origem. E precisamos de bons dados para estudos preditivos”, destaca.

O tema Saúde Única vem recebendo atenção e direcionamento expressivos na agenda institucional da Embrapa. Está conectado a todos os objetivos estratégicos do Plano Diretor da Embrapa (PDE) e a vários portfólios de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Exemplo recente é o livro lançado em novembro de 2025, durante a COP 30, Saúde Única: Caminho para Resiliência do Planeta. Em 142 páginas, 12 autores da Empresa, entre eles a pesquisadora Janice Zanella (primeira autora), se dedicam a um tema que amplia a percepção sobre saúde, trazendo-a para uma abordagem mais holística.

Fonte: Assessoria Embrapa Suínos e Aves
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Suínos

Suíno vivo acumula queda em janeiro e amplia pressão sobre produtor

Indicadores do Cepea mostram desvalorização mensal acima de 10% em praças-chave, enquanto carcaça segue estável no atacado paulista.

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Foto: Ari Dias

Os preços do suíno vivo seguem em trajetória de queda na segunda quinzena de janeiro, conforme apontam os Indicadores do Suíno Vivo Cepea/Esalq. Na última sexta-feira (23), todas as principais praças acompanhadas pelo centro de pesquisas registraram recuo diário e perdas expressivas no comparativo mensal, refletindo um cenário de pressão sobre a rentabilidade do produtor.

Foto: Jaelson Lucas

Em São Paulo, o indicador posto foi cotado a R$ 7,87/kg, com baixa de 0,63% no dia e retração acumulada de 11,67% no mês. Santa Catarina, referência nacional na produção suinícola, apresentou um dos recuos mensais mais intensos, com desvalorização de 10,42%, a R$ 7,48/kg na modalidade a retirar. Minas Gerais registrou preço de R$ 7,63/kg, queda diária de 1,68% e perda mensal de 9,49%.

No Paraná, o indicador ficou em R$ 7,54/kg, com recuo de 1,31% no dia e de 8,83% no mês. Já no Rio Grande do Sul, o preço foi de R$ 7,65/kg, com variação negativa diária de 0,91% e queda mensal de 7,83%. Segundo o Cepea, os valores refletem o preço recebido pelo produtor, à vista, em reais por quilo.

No mercado atacadista, os preços da carcaça suína especial negociados na Grande São Paulo permanecem estáveis desde o dia 21 de janeiro. Em 23 de janeiro, a média foi mantida em R$ 11,68/kg, sem variação diária, mas ainda acumulando queda de 9,18% no mês. O movimento indica que, apesar da estabilidade recente, o atacado já incorporou parte significativa do ajuste observado desde o início do ano.

A análise mensal dos indicadores do suíno vivo reforça o quadro de enfraquecimento dos preços. Em dezembro de 2025, os valores médios

Foto: Ari Dias

já haviam recuado em relação aos meses anteriores, com São Paulo a R$ 8,84/kg e Santa Catarina a R$ 8,30/kg. Em comparação com setembro, quando os preços superavam R$ 9,00/kg em algumas praças, o ajuste negativo é ainda mais evidente.

De acordo com o Cepea, a combinação de oferta elevada, consumo doméstico ainda limitado e dificuldade de repasse ao longo da cadeia segue como principal fator de pressão sobre as cotações do suíno vivo neste início de ano, exigindo cautela dos produtores e atenção redobrada aos custos de produção.

Fonte: O Presente Rural
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