Avicultura
Influenza aviária expõe fragilidades na biosseguridade da avicultura brasileira
Após a primeira detecção em aves silvestres no litoral, em maio de 2023, o Brasil entrou em uma fase considerada mais crítica entre 2025 e 2026, com a interiorização dos casos e atingindo sistemas produtivos.

A Influenza aviária de Alta Patogenicidade deixou de ser um risco distante e passou a representar uma ameaça concreta para a produção de aves, a economia e a saúde pública no Brasil.

Médica-veterinária, auditora fiscal federal agropecuária e chefe da Divisão de Gestão de Planos de Vigilância do Ministério da Agricultura e Pecuária, Daniela de Queiroz Baptista: “No começo, os focos estavam concentrados em aves silvestres na região costeira, longe dos polos produtivos” – Fotos: Jaqueline Galvão/OP Rural
A avaliação indica que o Brasil entrou em uma nova fase da doença, marcada por maior complexidade, dificuldade de previsão e aumento no risco de entrada do vírus no país. “A Influenza aviária sempre existiu, mas o cenário mudou de forma significativa a partir de 2020, com uma expansão global sem precedentes do subtipo H5N1. Hoje, estamos falando de um vírus presente em mais de 160 países e com impacto direto também em mamíferos”, afirmou a médica-veterinária Daniela de Queiroz Baptista, auditora fiscal federal agropecuária e chefe da Divisão de Gestão de Planos de Vigilância do Ministério da Agricultura e Pecuária.
Após a primeira detecção em aves silvestres no litoral, em maio de 2023, o Brasil entrou em uma fase considerada mais crítica entre 2025 e 2026, com a interiorização dos casos e atingindo sistemas produtivos. De acordo com Daniela, esse movimento rompeu um padrão inicial que oferecia maior previsibilidade. “No começo, os focos estavam concentrados em aves silvestres na região costeira, longe dos polos produtivos. A partir de 2025, passamos a registrar casos no interior, inclusive em aves comerciais e ambientes como zoológicos, o que trouxe desafios completamente diferentes para o Serviço Veterinário Oficial”, explicou.
A análise genômica reforça esse cenário mais complexo. O país deixou de lidar com uma única rota de introdução viral. “Hoje temos evidências de múltiplas linhagens circulando simultaneamente, com origens distintas, incluindo vírus compatíveis com América do Norte e América do Sul. Isso indica diferentes portas de entrada e maior pressão de infecção”, enfatizou.
Diversidade viral
Do ponto de vista científico, a vigilância conduzida ao longo de duas décadas mostra que o Brasil já convivia com diversos subtipos de Influenza aviária de baixa patogenicidade antes da chegada do H5N1.

Médica-veterinária e doutora em Epidemiologia, Terezinha Knobl: “Dois terços das doenças que afetam humanos são zoonoses”
O doutor em Microbiologia e pesquisador na Universidade de São Paulo (USP), Jansen de Araújo, detalhou que a diversidade viral no ambiente natural é ampla. “Identificamos no país uma grande variedade de vírus de baixa patogenicidade, como H1N1, H2N5, H9N2 e diferentes H6. Isso mostra que o ambiente já favorece a recombinação viral”, afirmou.
Ele destaca que a própria estrutura do vírus contribui para o surgimento de novas variantes. “O vírus da Influenza tem oito segmentos de RNA, o que permite trocas genéticas frequentes. Quando diferentes espécies interagem, especialmente em áreas como o Pantanal ou regiões costeiras, aumenta a probabilidade de surgirem novas variantes”, expôs.
Embora as aves migratórias continuem sendo o principal reservatório, o comportamento dessas espécies dificulta previsões mais precisas. “Nem todas as aves migram ao mesmo tempo, e nem todas têm a mesma capacidade de carregar o vírus. Isso torna o monitoramento mais complexo”, pontuou.
Infecção em mamíferos eleva risco sanitário

Doutor em Microbiologia e pesquisador na Universidade de São Paulo (USP), Jansen de Araújo: “Identificamos no país uma grande variedade de vírus de baixa patogenicidade, como H1N1, H2N5, H9N2 e diferentes H6. Isso mostra que o ambiente já favorece a recombinação viral”
Um dos pontos mais críticos discutidos no painel é a adaptação do vírus a mamíferos. Casos em gado leiteiro, felinos e animais silvestres foram citados como sinais de alerta. “Estamos observando o H5N1 infectando múltiplas espécies de mamíferos, algo que não era comum. Isso levanta preocupações sobre adaptação viral e possíveis mudanças na transmissão”, evidenciou Araújo.
Daniela reforçou que esse movimento aumenta a prioridade da doença no país. “A Influenza aviária hoje é tratada como uma das principais preocupações sanitárias do Brasil, não apenas pelo impacto econômico, mas pelo potencial de saúde pública”, disse.
Subnotificação e falhas de vigilância dificultam resposta
A identificação precoce dos casos ainda enfrenta dificuldades, principalmente fora das granjas comerciais. Em criações de subsistência, por exemplo, a morte de aves pode não ser percebida como suspeita ou sequer ser comunicada às autoridades. “Temos desafios importantes na notificação, principalmente em sistemas não comerciais. A percepção de risco ainda precisa ser ampliada”, observou Daniela.
Situações em áreas urbanas também expõem lacunas no monitoramento. “A detecção em cisnes no Parque Ibirapuera só ocorreu após insistência de pesquisadores. Isso mostra que precisamos fortalecer a vigilância inclusive em ambientes urbanos”, destacou Araújo.
Estratégia de prevenção nas granjas
Como não é possível eliminar o vírus globalmente, a principal forma de reduzir o risco é investir em biosseguridade. “A biosseguridade é o ponto mais crítico hoje. Estamos revisando normativas porque o cenário mudou, e as regras precisam acompanhar essa evolução”, salientou Daniela.
As mudanças incluem atualização de protocolos, definição mais clara de áreas de risco e maior rigor nas medidas dentro das propriedades. A preparação para emergências também ganhou prioridade. “Não se trata apenas de evitar a entrada do vírus, mas de ter capacidade de resposta rápida e coordenada quando um foco ocorre”, completou.
Integração One Health
A integração entre saúde animal, humana e ambiental foi apontada como essencial para enfrentar a Influenza aviária. A médica-veterinária e doutora em Epidemiologia, Terezinha Knobl, destacou que a maioria das doenças novas tem origem animal. “Dois terços das doenças que afetam humanos são zoonoses. A Influenza aviária mostra como a interação entre espécies pode gerar riscos em escala global”, frisou.
Segundo ela, a falta de articulação entre diferentes áreas ainda limita a eficiência das ações. “Não é possível tratar esse problema de forma isolada. É necessário integrar dados, padronizar protocolos e atuar de forma coordenada”, destacou.
A especialista também chamou atenção para fatores que ampliam o risco sanitário. “Mudanças climáticas, perda de habitat, pressão econômica e falhas na vigilância favorecem o surgimento e a disseminação de novos patógenos”, expôs.
Acesso a mercados
Além do impacto sanitário, a Influenza aviária já influencia diretamente a estratégia comercial do Brasil. Com a disseminação global do vírus, perde força a ideia de país livre e ganham espaço mecanismos como regionalização e compartimentalização. “Hoje, o que garante acesso aos mercados é a capacidade de resposta. Transparência, rapidez e controle são decisivos nas negociações internacionais”, afirmou Daniela.
Na prática, a manutenção das exportações depende da credibilidade do sistema sanitário brasileiro e da capacidade de conter focos sem comprometer toda a cadeia produtiva.
Aumento do risco sanitário
A tendência é de aumento da pressão sobre o setor nos próximos anos. A combinação entre circulação global do vírus e adaptação a diferentes espécies mantém o risco elevado. “A Influenza aviária deixou de ser um episódio pontual. É um problema contínuo, com impacto direto na produção, na economia e na saúde pública”, pontuou Terezinha.
Esse cenário já impõe custos adicionais ao produtor, com reforço em biosseguridade, monitoramento e adequação sanitária. Ao mesmo tempo, amplia o risco de restrições comerciais em caso de falhas no controle. Diante disso, a capacidade de prevenir, detectar e responder rapidamente aos focos passa a ser determinante não apenas para a sanidade dos plantéis, mas para a competitividade da avicultura brasileira no mercado internacional.

Avicultura
Simpósio da Facta debate tecnologia e dados na produção de matrizes avícolas
Evento programado para os dias 16 e 17 de setembro reúne especialistas para discutir manejo, incubação, automação e uso de indicadores na avicultura.

A integração entre tecnologia, análise de dados e práticas de manejo tem redefinido a produção de matrizes avícolas no Brasil. O tema estará no centro das discussões do Simpósio de Incubação e Matrizes, marcado para os dias 16 e 17 de setembro, em Chapecó (SC), promovido pela Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia Animal (Facta).
O encontro reunirá técnicos, pesquisadores, especialistas e profissionais da cadeia avícola para atualização sobre fatores que influenciam o desempenho de matrizes pesadas e incubatórios, com foco em eficiência produtiva e qualidade da progênie.
A programação inclui debates sobre manejo de recria, fertilidade, nutrição, programas de iluminação, controle ambiental, sanidade, vacinação e automação. Também entram na pauta o uso de indicadores de desempenho e ferramentas de análise de dados para apoiar a tomada de decisão e aprimorar resultados.
No segmento de incubatórios, os debates vão abordar manejo de ovos, ventilação, embriodiagnóstico, monitoramento de incubação e controle de qualidade, além de estratégias de gestão operacional.
Questões como gestão de pessoas, retorno sobre investimento em tecnologias e uso de dados na rotina produtiva também fazem parte da programação.
Para o presidente da Facta, Ariel Mendes, o simpósio busca aproximar conhecimento técnico e aplicação prática no campo. “A produção de matrizes e a incubação são etapas fundamentais para a eficiência de toda a cadeia avícola. O simpósio reúne especialistas e profissionais do setor para discutir tecnologias, práticas de manejo e ferramentas de gestão capazes de contribuir para ganhos consistentes de produtividade, qualidade e sustentabilidade na produção”, afirmou.
A programação completa está disponível aqui.
Avicultura
Exportações de carne de frango crescem 40,6% em junho
Brasil embarcou 482,8 mil toneladas no mês e registrou alta também na receita, que chegou a US$ 985,5 milhões.

As exportações brasileiras de carne de frango (considerando todos os produtos, entre in natura e processados) totalizaram 482,8 mil toneladas em junho, informa a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O volume supera em 40,6% o registrado no mesmo período de 2025, quando foram embarcadas 343,4 mil toneladas.
A receita obtida com as exportações alcançou US$ 985,5 milhões, resultado 54,7% superior ao registrado em junho do ano passado, quando foram contabilizados US$ 637 milhões.
Impulsionados pelo desempenho de junho, os embarques brasileiros encerraram o primeiro semestre de 2026 com o melhor resultado da história das exportações brasileiras de carne de frango, tanto em volume quanto em receita. Entre janeiro e junho, os embarques alcançaram 2,936 milhões de toneladas, número 12,9% superior ao registrado no mesmo período de 2025, quando foram exportadas 2,600 milhões de toneladas.
Em receita, o crescimento acumulado alcança 17%, com US$ 5,700 bilhões entre janeiro e junho deste ano, frente aos US$ 4,871 bilhões registrados no mesmo período de 2025.
Entre os principais destinos das exportações brasileiras em junho, a China manteve a liderança, com 50,1 mil toneladas embarcadas (+12.248,8% em relação ao mesmo período do ano anterior). Na sequência aparecem Japão, com 46,6 mil toneladas (-0,9%), Emirados Árabes Unidos, com 46,2 mil toneladas (-5,1%), Arábia Saudita, com 33,1 mil toneladas (-1,0%), União Europeia, com 28 mil toneladas (+250,7%), África do Sul, com 26,3 mil toneladas (+946,3%), México, com 25,4 mil toneladas (+728,8%), Coreia do Sul, com 18,5 mil toneladas (+7.819,7%), Filipinas, com 12,5 mil toneladas (+330,2%) e Singapura, com 12 mil toneladas (-19,4%). Vale lembrar que parte das elevadas variações percentuais registradas em alguns mercados decorre da baixa base de comparação de junho de 2025, período impactado pelas restrições temporárias decorrentes do único caso, já superado, de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) em uma granja comercial no Brasil.

Foto: Jonathan Campos
No desempenho por estados exportadores, o Paraná manteve a liderança nacional, com 199,3 mil toneladas embarcadas em junho (+48,2%), seguido por Santa Catarina, com 103,3 mil toneladas (+35,2%), Rio Grande do Sul, com 56,7 mil toneladas (+40,1%), São Paulo, com 29,9 mil toneladas (+40,0%) e Goiás, com 29,4 mil toneladas (+55,4%).
“Os resultados do primeiro semestre foram conquistados em um ambiente marcado pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio e pelos desafios logísticos decorrentes desse contexto, especialmente nas rotas marítimas associadas ao Estreito de Ormuz. Mesmo diante desse cenário, o Brasil ampliou significativamente sua presença em mercados estratégicos e de valor agregado, como Japão, União Europeia, Coreia do Sul e China, ao mesmo tempo em que manteve forte presença no Oriente Médio e expandiu oportunidades em mercados emergentes. O desempenho de junho, embora influenciado por uma base comparativa menor frente à ocorrência já superada de IAAP no Brasil, reforça a diversificação da pauta exportadora brasileira, a competitividade da nossa cadeia produtiva e consolida bases sólidas para mais um ano de resultados históricos nas exportações de carne de frango”, destaca o presidente da ABPA, Ricardo Santin.
Avicultura
Preço do frango cai 0,83% no início de julho
Frango congelado e resfriado são negociados a R$ 7,20/kg no atacado paulista. Desaceleração das vendas pressionou as cotações, mas pagamento de salários pode estimular a demanda.

Após dois meses consecutivos de alta, os preços da carne de frango recuaram em junho, refletindo o enfraquecimento das vendas, sobretudo na segunda quinzena do mês. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), embora o volume negociado tenha permanecido satisfatório, ficou abaixo do registrado nos meses anteriores, levando vendedores a flexibilizar os preços para manter a liquidez e evitar a formação de estoques.

Foto: Divulgação
O movimento de baixa se estendeu para os primeiros dias de julho. Levantamento do Cepea/Esalq mostra que, na sexta-feira (03), tanto o frango congelado quanto o resfriado foram comercializados a R$ 7,20 por quilo no atacado do Estado de São Paulo, valor estável em relação aos dois dias anteriores, mas 0,83% inferior ao registrado no encerramento de junho.
No último dia útil de junho, o frango congelado era negociado a R$ 7,26/kg, acumulando valorização mensal de 3,27%. Já o frango resfriado fechou o mês a R$ 7,26/kg, com alta acumulada de 2,98% em junho. Na última segunda-feira (29), ambos os produtos chegaram a R$ 7,29/kg, antes do ajuste observado nos dias seguintes.
De acordo com pesquisadores do Cepea, a perda de ritmo das vendas na segunda metade de junho levou frigoríficos e distribuidores a reduzirem os preços para facilitar o escoamento da produção. A estratégia buscou evitar o aumento dos estoques em um período de menor demanda.
Apesar do cenário de queda nas médias recentes, a expectativa para o início de julho é mais favorável. Conforme o Cepea, o pagamento de salários nos próximos dias tende a elevar o consumo de proteínas, o que pode contribuir para sustentar as cotações da carne de frango no atacado.
Os preços se referem à média da carne de frango negociada no atacado nas regiões da Grande São Paulo, São José do Rio Preto e Descalvado, em reais por quilo.



