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Indústria do etanol avança sobre o milho brasileiro

Uma década depois de inaugurar a primeira usina para fabricação de etanol de milho, Brasil pode produzir até três bilhões de litros do combustível por ano, necessitando para isso de sete milhões de toneladas do grão

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Para começar a entender o tamanho do movimento que o DDG vai exercer na agropecuária brasileira, é preciso compreender primeiro como está a produção de etanol do país e quais suas projeções. Para isso, o Presente Rural aglutinou algumas das principais informações que estão na mais recente publicação sobre o assunto; o livro eletrônico “Etanol de Milho: cenário atual e perspectivas para a cadeia no Brasil”, de 2021, organizado pelo engenheiro agrônomo, professor, autor e consultor Marcos Fava Neves. As informações dessa reportagem fazem parte dessa publicação.

“O etanol pode ser produzido a partir de diferentes fontes, cada qual apresentando vantagens e desvantagens em relação ao processo industrial e agrícola”. O documento destaca que o estudo tem como foco o etanol de milho, mas que é de grande relevância o entendimento sobre as matérias-primas e suas diferenças para a produção de etanol.

O estudo destaca que em uma comparação entre três principais matérias-primas para etanol, que são a cana-de-açúcar, milho e sorgo, em geral a cana tem a maior produtividade no campo (80 a 100 toneladas por hectare) e o menor rendimento industrial em litros por tonelada (70 a 90 litros por tonelada de matéria-prima). “O milho, por sua vez, apresenta o maior rendimento industrial, podendo atingir 425 litros por tonelada de matéria-prima”. Confira mais sobre o desempenho das matérias-primas para produção de etanol no gráfico abaixo.

Usina de Cerradinho Bio em Chapadão do Céu (GO) – Fotos: Divulgação

“A associação com ação direta na produção de etanol de milho no Brasil é a Unem (União Nacional de Etanol de Milho), localizada em Cuiabá, Mato Grosso, que atua promovendo os objetivos e defendendo os interesses do setor. A organização possui três classes de associados: associados industriais, referente às empresas que utilizam o milho como matéria-prima para produção do etanol; associados institucionais, os quais representam as entidades de classe de diferentes elos da cadeia; e os associados parceiros, voltado às empresas de bens, tecnologias e serviços relacionados à cadeia produtiva do etanol de milho no Brasil.

As principais projeções para a produção do etanol de milho no Brasil, feitas pela organização, indicam uma produção de 3,6 bilhões de litros em 2023 e oito bilhões em 2028 (estimativa antes do período de pandemia), com crescimento total de 471% com base no volume registrado no ciclo anterior. Considerando os atuais números de produção divulgados pela Conab (2020), com ~1,7 bilhão de litros para 2020, até 2028 a produção deverá crescer 400%.

O Centro-Oeste é absoluto na produção de etanol de milho, apesar de um leve avanço da região Sul com a instalação recente de usinas. Confira no gráfico abaixo a representatividade de cada região.

“A capacidade de produção de etanol de milho do estado de Mato Grosso corresponde a aproximadamente 77% da capacidade total do Brasil. Em termos de volume, o estado tem capacidade de produzir cerca de 2,5 bilhões de litros de etanol de milho por ano. O segundo maior produtor é o estado de Goiás, que tem expandido sua capacidade produtiva (513 milhões de litros), principalmente em função da adoção das usinas de cana-de-açúcar ao modelo flex. No total, o Brasil possui uma capacidade instalada de 3,03 bilhões de litros (incluindo São Paulo e Paraná). Outros estados devem aparecer na lista nos próximos anos, como é o caso de Rondônia que já apresenta uma usina em operação e conta com outros projetos confirmados. Apesar da alta capacidade de produção do estado de Mato Grosso, a utilização do milho como matéria-prima para o biocombustível só decolou a partir da safra 2017/18, período que a produção quase quadruplicou e atingiu 391 milhões de litros.

O principal motivo estava relacionado ao início das atividades de diversas plantas e outras que estavam em construção no estado. Vale notar também que a base inicial é relativamente baixa, gerando grandes valores percentuais”.

A cadeia de etanol de milho

“Um passo essencial para compreensão da dinâmica de produção do etanol de milho no Brasil é o entendimento quanto aos modelos de usinas que operam no país. A Figura 1 apresenta um resumo desses diferentes formatos.

As usinas do modelo full produzem o combustível apenas tendo o milho como matéria-prima e utilizam cavaco de eucalipto para cogeração de energia no processo industrial. Por conta disso, realizam investimentos maiores no desenvolvimento de parcerias para promoção do plantio de biomassa (principalmente o eucalipto) para esse fim. Além disso, a estrutura necessária para queima desses materiais e geração da energia também demanda maior aporte financeiro.

Usina Flex da SJC Bioenergia, em Quirinópolis (GO)

Além das usinas full, existem também aquelas que adotam tanto a cana-de-açúcar como o grão, para a produção de etanol. Em termos de estrutura e tipo de investimento, existem dois modelos que foram observados no mercado: o primeiro, são as flex, usinas de cana-de-açúcar que optam por instalar uma pequena estrutura adjacente à planta atual, para o uso e aproveitamento de equipamentos e sistemas. Neste caso, utilizam o milho, apenas durante a entressafra. O segundo modelo, chamado flex fuel, muito parecido com o anterior, se diferencia pela presença de equipamentos adicionais, específicos para o milho, que tornam a moagem do grão possível não apenas na entressafra, aproveitando das sinergias do processamento da cana para produção de etanol de milho durante o ano todo.

Muitas usinas do modelo flex têm alterado a dinâmica de produção para o modelo flex full, principalmente em função dos baixos investimentos necessários para tornar a moagem do milho e a produção do etanol possíveis durante o ano todo”.

“A cada mil toneladas de milho processadas, são produzidos aproximadamente 425 mil litros de etanol, 312 toneladas de DDGs, 12,5 toneladas de óleo de milho e cerca de 150 MWh de eletricidade, sendo que, aproximadamente, 90 MWh são consumidos pela planta e outros 60 MWh podem ser exportados para redes de transmissão (veja mais na figura abaixo).

A produção de etanol de milho no Brasil envolve uma fusão de características dos Estados Unidos e os setores agrícolas e de biocombustível brasileiro. A fermentação de milho para o etanol no Brasil se baseia principalmente na tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos e a geração de energia de processo, do etanol de milho brasileiro, tem como base a produção integrada de vapor e eletricidade, a partir da biomassa.

Custos e receitas

O livro observa ainda que “observando um pouco mais a fundo as fontes de receitas e despesas das usinas de etanol de milho, é importante ressaltar que, apesar da produção principal de etanol, este não é o único produto comercial das usinas. O DDGs (Dried Distillers Grain with Solubles ou Grãos Secos por Destilação com Solúveis, em português) ou WDG (Wet Distillers Grains – Grãos Úmidos de Destilaria) e o óleo de milho, são coprodutos do processo produtivo com importante valor agregado para construção de margens nas usinas, como destacado no gráfico abaixo.

Ao introduzir os coprodutos no mercado brasileiro, outros produtos existentes são deslocados, como milho e farelo de soja utilizados para ração animal. A maior disponibilidade de DDGs reduz a necessidade de área de cultivo para soja e milho destinados a produção de ração animal. Esses produtos são direcionados para a indústria alimentícia e de produção animal, e o etanol para as unidades de distribuição e, posteriormente, para os postos de combustível.

Um outro ponto interessante, na ótica das receitas, é a cogeração de energia no processo industrial, possível graças a tecnologias de ponta de algumas usinas. Com isso, pode-se obter uma outra fonte de receita ao comercializar a energia excedente e disponibilizá-la na rede”.

Chama atenção

“A produção de etanol de milho no Brasil tem chamado a atenção pelos altos volumes de investimentos e principalmente devido à sua rápida expansão nos últimos anos. A tecnologia de conversão de milho em etanol e coprodutos tem origem nos Estados Unidos e o processo de produção norte-americano é caracterizado pelo uso de milho primeira safra e uso de fontes de energia tradicionais, em grande parte fósseis (i.e., carvão mineral e gás natural). Essas características são diferentes do setor de biocombustível brasileiro, que possui vantagens quanto ao uso do milho, principalmente de segunda safra e fontes renováveis.

Usina Full da Inpasa em Nova Mutum (MS)

O etanol de milho foi inicialmente adotado no Brasil em usinas “flex”, aproveitando instalações e energia de usinas de cana-de-açúcar. Devido aos volumes de produção de milho e preços atrativos, investidores enxergaram oportunidades no Centro-Oeste brasileiro, transferindo, em particular ao estado de Mato Grosso, novos pacotes tecnológicos estruturados em usinas grandes e full (produção de 250 a 500 milhões de litros por ano).

O setor sucroenergético brasileiro tem buscado constantemente diversificar suas atividades e melhorar a eficiência na capacidade industrial. Porém, as atividades de processamento de matéria-prima estão concentradas em oito meses do ano e seguem o principal modelo utilizado no país, em que a cana-de-açúcar é a matéria-prima da produção.

Devido ao histórico complexo do setor (excesso de oferta e baixos preços de açúcar no mercado internacional somado a subsídios em países produtores como Índia; congelamento de preços da gasolina gerando perdas de competitividade do etanol; redução de investimentos; e perda de produtividade nos canaviais), projetos envolvendo a produção de biogás e biometano, reciclo de leveduras, etanol de segunda geração, recuperação de CO2 (dióxido de carbono) e utilização de matérias-primas alternativas na produção de etanol passaram a ganhar espaço e a serem posicionados como alternativas de sustentação pelos empresários do setor.

Assim, a busca por matérias-primas alternativas na entressafra é algo que vem se intensificando no país, pois possibilita a otimização do processo produtivo e a redução dos custos industriais. Com base na produção de etanol de milho nos Estados Unidos e na produção excedente dessa commodity em algumas regiões do Brasil, o uso de milho como matéria-prima na produção de etanol aumentou significativamente nos últimos anos, apoiado principalmente por fatores econômicos e regionais.

Além da maximização dos ativos da indústria e diluição dos custos operacionais, visto que as unidades flex de produção de etanol passam a operar de 330 a 350 dias por ano”, cita a publicação.

Entre os benefícios estão “aumento no mix de produtos que a usina pode ofertar ao mercado, incluindo em seu portfólio o DDGs e/ou WDG, e óleo de milho; fornecimento de etanol para regiões onde os preços ainda não são competitivos quando comparados à gasolina, como algumas regiões do Centro-Oeste, Norte e Nordeste; aumento da produção de etanol com um Capex (Capital Expenditure) relativamente menor do que o necessário para construção ou melhoria de uma planta de cana-de-açúcar”.

Linha do tempo

Como pode ser observado na figura abaixo, “a produção de etanol de milho no Brasil teve início em 2012 com a inauguração de uma planta industrial pela Usimat, na cidade de Campos de Júlio, estado de Mato Grosso. A unidade, que produz etanol a partir de cana-de-açúcar desde 2006, também inaugurou o modelo industrial do tipo flex, que possui uma estrutura para a produção de etanol usando cana e milho na mesma unidade industrial.

O sucesso do modelo implementado pela empresa motivou novos investimentos e a instalação de outras unidades no estado de Mato Grosso. Em 2013, a Libra Destilaria inaugurou sua planta modelo flex na cidade de São José do Rio Claro e, no ano seguinte, o “grupo Porto Seguro”, na cidade de Jaciara, também iniciou suas atividades no setor. Em 2015, foram integradas às unidades de etanol de cana-de-açúcar no estado de Goiás (Usinas SJC e Rio Verde) e, em 2016, a novidade chegou ao estado de São Paulo, com a planta da Cereale Brasil.

O modelo, que utiliza apenas o milho como matéria-prima para a produção de etanol, tem como pontos fortes a capacidade anual de produção e o consumo de milho em todos os períodos do ano. A FS “Fueling Sustainability”, joint-venture entre a holding brasileira Tapajós Participações e a empresa americana Summit Agricultural Group, foi responsável pela construção da fábrica na cidade de Lucas do Rio Verde, estado do Mato Grosso, com capacidade de produção de 530 milhões de litros de etanol por ano. No mesmo ano, outra unidade flex foi lançada, a “Safra Biocombustíveis”, em Sorriso, no estado de Mato Grosso.

No ano seguinte, em 2018, a produção de etanol de milho chegou ao estado do Paraná, no município de Bom Sucesso, com a integração da usina de etanol de milho pela planta Cooperval. Também nesse ano, entrou em operação a usina no modelo flex da Caçu, em Vicentinópolis, Goiás.

Em 2019, foram inauguradas duas novas unidades: a segunda planta full no país, pela “Inpasa Bioenergia”, na cidade de Sinop, estado de Mato Grosso, com capacidade de produção de 525 milhões de litros de etanol por ano; e mais uma unidade do modelo flex em Santa Helena de Goiás, pela Usina Santa Helena.

Em novembro de 2019, a Cerradinho Bioenergia iniciou as operações com sua planta situada exatamente ao lado da unidade de cana-de-açúcar, visando aproveitar sinergias de geração de energia e toda a infraestrutura e logística instalada para escoamento da produção.

A multinacional Inpasa, especializada na produção de etanol de milho anunciou a ampliação da planta em Nova Mutum (Mato Grosso). A nova fase terá investimentos de R$ 450 milhões, totalizando R$ 1 bilhão (somado aos R$ 550 milhões investidos anteriormente). A primeira etapa entrou em operação no final de agosto de 2020. A usina tem capacidade para produzir 890 metros cúbicos por dia de etanol hidratado, moer até 2,3 mil toneladas de milho diariamente e pode chegar a demandar 800 mil toneladas de milho por ano.

O ano de 2020 também marcou o início das operações da segunda unidade da FS Fueling Sustainability, em Sorriso, Mato Grosso; e da Bioflex, unidade do grupo GranBio, em Poconé, Mato Grosso. Existem 16 usinas flex, full e flex full em funcionamento no Brasil (nove usinas em Mato Grosso, cinco em Goiás, uma em São Paulo e uma no Paraná). O Brasil finalizou 2020 com duas unidades em fase pré-operacional, todas elas situadas no estado do Mato Grosso: uma planta full de milho da Alcooad na cidade de Nova Marilândia; e a unidade flex da Etamil, em Campo Novo dos Parecis.

Os investimentos privados no setor de etanol de milho foram estimulados principalmente pelos menores preços dos cereais nas regiões produtoras, passando a serem vistos como oportunidades de diversificação de atividades. Além disso, diferentemente da cana-de-açúcar, o milho pode ser armazenado e utilizado durante a entressafra, o que permite o aumento da atividade produtiva anual, maior rentabilidade e redução da capacidade ociosa da indústria.

Por sua vez, a atividade permite maior rentabilidade na produção de milho pelos produtores, o que aumenta a renda e a atividade econômica regional, e permite a estabilidade da produção de cereais. Os agricultores passam a ter uma nova alternativa de canal de comercialização de seus grãos, com liquidez, já que a maioria das usinas tem uma necessidade diária pela matéria prima”.

De acordo com as análises feitas pelos autores do estudo, “a capacidade produtiva anual de todas as usinas que estavam aptas a produzir etanol a partir de milho em 2020 (tanto modelos full quanto flex), somava 3,03 bilhões de litros, como mostrado no gráfico abaixo.

As quatro unidades do modelo full, dos grupos FS Fueling Sustainability e Inpasa, possuem maior capacidade produtiva dentre todas, somando cerca de 1,9 bilhão de litros por ano (62,7% do total).

Objetivo

De acordo com a publicação, “levar o conhecimento em relação à cadeia do etanol de milho brasileiro aos olhos de quem a desconhece é algo essencial para contribuir com o seu desenvolvimento”.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor avícola acesse gratuitamente a edição digital Avicultura – Corte & Postura.

Fonte: O Presente Rural

Avicultura

Nova edição de Avicultura revela os diferenciais que tornam os produtures mais competitivos

Reportagem de capa mostra como disciplina, rotina e decisões estratégicas sustentam resultados consistentes na atividade, além de análises de mercado, consumo e inovação no setor.

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Já está disponível na versão digital a nova edição  do jornal Avicultura Corte & Postura, publicação voltada à análise estratégica, técnica e econômica de uma das cadeias mais relevantes do agronegócio brasileiro. A edição traz um conjunto de reportagens que abordam desde gestão e desempenho produtivo até mercado, consumo, sanidade e inovação.

A reportagem de capa, intitulada “Quando vencer vira método”, convida o leitor a ir além dos números pontuais e entender o que sustenta trajetórias consistentes na avicultura nacional. Em um cenário de margens cada vez mais ajustadas e custos elevados, o material mostra que resultados recorrentes não são fruto do acaso, mas de disciplina, rotina e decisões diárias bem estruturadas. A matéria analisa os bastidores de uma trajetória pentacampeã no setor e reforça que, na avicultura, ganhar uma vez pode ser circunstancial, mas vencer de forma contínua exige método.

Ainda na capa, a edição destaca a reportagem “Lideranças projetam um ano sólido”, que reúne análises de executivos sobre mercado, custos e perspectivas para a avicultura em 2026. O conteúdo traz leituras estratégicas sobre produção, consumo e competitividade, em um momento de ajustes e reorganização do setor.

Conteúdo amplo e atual

Entre as reportagens desta edição, o jornal aborda temas que estão no centro das discussões da cadeia avícola. O leitor encontra análises sobre o crescimento da presença de brasileiros na IPPE, nos Estados Unidos, principal feira mundial do setor de processamento de proteínas animais, além de um balanço que mostra que frango e ovos cresceram em 2025 e mantêm expectativas positivas para este ano.

O consumo também ganha destaque, com a projeção de que o consumo de ovos deve ultrapassar 300 unidades por brasileiro em 2026, reforçando a importância do alimento na segurança alimentar e na dieta da população.

A edição traz ainda reportagens sobre investimentos industriais, como a nova planta da Aurora no Rio Grande do Sul dedicada ao frango griller, além de alertas técnicos com especialista chamando atenção para condenações por artrite, pododermatite e ascite em frangos, temas diretamente ligados à rentabilidade e ao bem-estar animal.

A inovação também está em pauta, com destaque para o avanço da Embrapa em estudos sobre carne cultivada de frango, tema que começa a ganhar espaço nas discussões sobre o futuro da proteína animal.

Além das reportagens, a publicação reúne artigos técnicos assinados por especialistas, abordando temas como manejo, inovação, bem-estar animal, biosseguridade e novas tecnologias aplicadas à produção de aves. A edição também apresenta as principais novidades das grandes empresas do agronegócio, com lançamentos, soluções e tendências do Brasil e do exterior.

A versão digital está disponível gratuitamente no site de O Presente Rural. A edição impressa já circula com distribuição dirigida a leitores e parceiros em 13 estados brasileiros.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura

Nutrição fortalece a saúde das aves e impulsiona a eficiência da avicultura

Especialista destaca que dietas equilibradas e focadas na saúde intestinal são decisivas para o desempenho produtivo, o bem-estar e a sustentabilidade dos plantéis.

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Fotos: Shutterstock

Durante muito tempo, o debate sobre nutrição animal esteve restrito às tabelas nutricionais, ao cálculo preciso de energia e proteína e à busca por eficiência na conversão alimentar. Hoje, no entanto, o olhar técnico se ampliou. Nutrição e saúde se tornaram indissociáveis, e compreender como esses dois pilares se conectam na prática é o que diferencia os sistemas mais eficientes e sustentáveis da avicultura.

A ciência vem demonstrando que a ração não é apenas combustível, ela é parte ativa da imunidade e do equilíbrio fisiológico das aves. O intestino, por exemplo, não é apenas um órgão digestivo. Ele abriga cerca de 70% das células do sistema imunológico e é controlado por uma complexa rede de neurônios chamada sistema nervoso entérico, uma via de comunicação direta entre o sistema gastrointestinal, o sistema imunológico e o sistema nervoso central. Esse eixo integrado, conhecido como eixo intestino-cérebro-imunidade, desempenha papel decisivo na manutenção da saúde geral do organismo.

PhD em Ciência Animal e consultor agro de Nutrição Animal da MBRF, Rodolfo Vieira: “Dietas bem estruturadas, com ingredientes de alta digestibilidade e uso racional de aditivos funcionais, como probióticos, prebióticos, ácidos orgânicos e enzimas, reduzem inflamações, fortalecem as defesas naturais e favorecem o bem-estar e a eficiência produtiva das aves” – Foto: Divulgação/MBRF

De acordo com o PhD em Ciência Animal e consultor agro de Nutrição Animal da MBRF, Rodolfo Vieira, a formulação das rações impacta diretamente esse sistema. “O equilíbrio nutricional adequado é capaz de modular a microbiota, preservar a integridade da mucosa intestinal e regular as respostas imunes”, ressalta, complementando: “Dietas bem estruturadas, com ingredientes de alta digestibilidade e uso racional de aditivos funcionais, como probióticos, prebióticos, ácidos orgânicos e enzimas, reduzem inflamações, fortalecem as defesas naturais e favorecem o bem-estar e a eficiência produtiva das aves”.

Na prática, o papel da nutrição vai além de alimentar, ela é parte da estratégia de prevenção sanitária. “A saúde intestinal é o ponto de partida para a saúde sistêmica, e qualquer desequilíbrio na dieta pode desencadear uma cadeia de efeitos negativos”, enfatiza Vieira, mencionando que desequilíbrios nutricionais, como excesso de proteína ou desbalanço entre cálcio e fósforo, comprometem a digestibilidade e a absorção de nutrientes, geram substratos para a proliferação de bactérias patogênicas e aumentam a incidência de enterites e inflamações crônicas.

O especialista destaca que o excesso de proteína, por exemplo, pode gerar acúmulo de substrato não digerido no intestino, criando ambiente favorável a disbiose e enterite. Já o descompasso entre cálcio e fósforo interfere no metabolismo ósseo e muscular, prejudicando crescimento e postura. “Deficiências de vitaminas A, E e do complexo B reduzem a integridade das mucosas e comprometem a eficiência imunológica. O resultado é um organismo sob maior estresse metabólico e mais vulnerável a agentes infecciosos”, salienta.

Nesse contexto, o conceito de custo imunológico ganha força. Sempre que o organismo é desafiado, seja por calor, microrganismos ou condições de manejo, ele redireciona energia para a defesa, e isso impacta o desempenho produtivo. “A dieta, portanto, precisa estar preparada para sustentar essa demanda. A ausência desse suporte gera desequilíbrios fisiológicos e perdas zootécnicas”, pontua Vieira.

Saúde intestinal

O PhD em Ciência Animal ressalta que a saúde e a produtividade do plantel começam na escolha e controle das matérias-primas. “Ingredientes mal processados, oxidados ou contaminados reduzem a digestibilidade e o aproveitamento da dieta. Óleos e farinhas oxidados, por exemplo, diminuem a absorção de energia e comprometem o metabolismo lipídico. Farelo de soja com baixa solubilidade ou altos níveis de inibidor de tripsina interfere na digestão de proteínas. Já micotoxinas e contaminações bacterianas prejudicam a absorção intestinal e alteram a microbiota, provocando queda de desempenho e maior risco sanitário”, sustenta.

Para Vieira, a busca por matérias-primas de qualidade deve ser tratada como política de biosseguridade nutricional. “Cada ingrediente precisa ser visto como uma ferramenta de saúde. A ração é o primeiro filtro de defesa do sistema produtivo”, observa.

Menos antibióticos, mais equilíbrio

Um dos efeitos mais práticos das estratégias nutricionais bem planejadas é a redução do uso de antibióticos na produção avícola. Ao fortalecer a barreira intestinal e manter a microbiota em equilíbrio, as dietas funcionais reduzem a necessidade de antibióticos promotores de crescimento. “Probióticos, prebióticos, ácidos orgânicos, enzimas, óleos essenciais e fitogênicos assumem parte do papel antimicrobiano, inibindo patógenos e estimulando o desenvolvimento de bactérias benéficas”, expõe o especialista.

Esse conceito de nutrição de precisão é cada vez mais associado à sustentabilidade e à biosseguridade, pilares que definem o futuro da produção de proteína animal. “Dietas balanceadas, formuladas com foco na integridade intestinal e na resposta imunológica, mantêm o desempenho zootécnico e reduzem o risco sanitário sem comprometer o bem-estar”, reforça Vieira.

Bem-estar animal

Práticas nutricionais adequadas também contribuem para o bem-estar das aves, reduzindo lesões, estresse térmico e problemas fisiológicos. O equilíbrio de eletrólitos (sódio, potássio e cloro) ajuda na regulação térmica e na manutenção do equilíbrio ácido-base, especialmente em períodos de calor intenso. “Vitaminas antioxidantes como A, C e E, associadas a minerais como selênio e zinco, reduzem o estresse oxidativo e favorecem a recuperação celular. Já o controle adequado do balanço cálcio-fósforo previne problemas locomotores e lesões ósseas em frangos de rápido crescimento”, explica o PhD em Ciência Animal.

Outro ponto de destaque é a adequação energética da dieta, que evita o excesso de calor metabólico e contribui para o conforto térmico e o comportamento alimentar estável. “O resultado é um plantel mais uniforme, com menor incidência de mortalidade e melhor desempenho produtivo”, destaca.

Qualidade do produto final

A nutrição também é determinante para a qualidade da carne e dos ovos. O equilíbrio de aminoácidos favorece a deposição muscular e melhora a textura da carne, enquanto vitaminas antioxidantes e minerais como o selênio retardam a oxidação lipídica, prolongando a conservação e o frescor do produto. “O fornecimento adequado de cálcio, fósforo e vitamina D fortalece as cascas dos ovos, e pigmentos naturais, como xantofilas, melhoram a coloração da gema e da pele, atributos valorizados pelo mercado consumidor”, evidencia Vieira.

Para o especialista, a alimentação equilibrada agrega valor à proteína produzida, melhora a aparência, o sabor, a segurança e o valor nutritivo, reforçando a conexão entre saúde animal e qualidade do alimento final.

Indicadores de desempenho

A tomada de decisão nutricional depende de um olhar sistêmico sobre os indicadores de desempenho e saúde. De acordo com Vieira, ganho de peso diário, conversão alimentar, consumo de ração e água, qualidade das fezes, uniformidade dos lotes e mortalidade são dados que orientam ajustes finos na formulação. “Em poedeiras, qualidade de casca, fertilidade e coloração da gema também são parâmetros de resposta à dieta”, pontua.

O avanço da automação e das tecnologias de monitoramento vem permitindo uma leitura mais precisa desses indicadores. “Com dados em tempo real, o nutricionista consegue ajustar a dieta conforme as variações ambientais ou fisiológicas, garantindo maior estabilidade produtiva”, afirma.

Tripé de eficiência

Conforme Vieira, o futuro da avicultura depende da integração entre nutrição, manejo e biosseguridade. Segundo ele, a nutrição adequada fortalece o sistema imunológico e preserva a integridade intestinal, reduzindo a entrada e multiplicação de patógenos, enquanto o manejo correto e as medidas de biosseguridade, como controle de entrada, limpeza, desinfecção e monitoramento sanitário, limitam a exposição a agentes infecciosos. “Quando combinadas, essas estratégias criam um ambiente de baixa pressão infecciosa e um organismo mais resistente”, enfatiza.

Nutrição equilibrada e biosseguridade eficaz atuam, portanto, de forma complementar. O resultado é um sistema mais eficiente, com menor uso de antibióticos, melhor conversão alimentar e maior sustentabilidade produtiva. “No campo, essa integração se traduz em rentabilidade, previsibilidade e bem-estar, os pilares que sustentam a avicultura do futuro”, enaltece.

A versão digital já está disponível no site de O Presente Rural, com acesso gratuito para leitura completa, clique aqui.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura

Frango perde competitividade para carne suína e ganha frente à bovina

Queda de preços das carnes em janeiro reflete a menor demanda interna típica do início do ano e o excesso de oferta no atacado.

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Foto: Jonathan Campos

A competitividade da carne de frango apresentou comportamentos distintos frente às principais proteínas concorrentes no início de 2026. Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) indica que, em janeiro, a proteína avícola perdeu espaço em relação à carne suína, mas ganhou competitividade frente à bovina no mercado atacadista da Grande São Paulo.

Foto: Shutterstock

De acordo com os pesquisadores do Cepea, o movimento foi resultado de uma desvalorização mais acentuada da carne suína quando comparada à avícola. Ambas as proteínas registraram queda de preços ao longo do mês, porém a retração mais intensa da suinocultura reduziu a vantagem relativa do frango na disputa pelo consumidor.

Na contramão desse cenário, a carne bovina apresentou leve valorização no período. As altas observadas até a metade de janeiro foram suficientes para elevar a média mensal dos preços no atacado, o que favoreceu a posição competitiva do frango frente à proteína de maior valor. Segundo o Cepea, o ritmo de negócios com carne bovina, no entanto, perdeu fôlego a partir da última semana do mês.

Os pesquisadores explicam que a pressão baixista sobre as carnes de frango e suína é característica do primeiro mês do ano, quando a demanda interna costuma estar mais enfraquecida. Esse comportamento sazonal tende a gerar uma situação de oferta elevada no atacado, dificultando a sustentação dos preços no curto prazo.

Fonte: O Presente Rural
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