Suínos Estrutura de quarentena foi ampliada
Importância da Estação Quarentenária de Cananéia para a manutenção e o progresso da suinocultura brasileira
A equipe de jornalismo de O Presente Rural esteve em Cananeia durante a inauguração da nova estrutura, uma parceria público-privada que era sonho antigo das empresas de genética que operam no Brasil. Entenda um pouco mais sobre como funciona essa quarentena e sua relevância para o país.

Todos os anos cerca de três mil suínos reprodutores de alto padrão genético chegam de outros países para o Brasil. Eles são os avôs ou bisavôs, que vão para as granjas de empresas de genética e, de maneira geral, são os primeiros encarregados por povoar as granjas de produtores rurais em todo o país. Em sua vida, cada animal pode ser o responsável por cerca de 60 mil leitões, que vão crescer e chegar à fase de terminação para que seja produzida carne suína e derivados da mais alta qualidade. Para garantir todo o sucesso da cadeia suinícola brasileira, esses reprodutores, porém, não precisam ter somente uma excelente genética. Eles precisam estar saudáveis.
Para garantir que estejam com a saúde em dia, livre de patógenos que possam se disseminar ao longo do processo produtivo e causar graves problemas sanitários e econômicos ao setor, os animais ficam em quarentena. O local é a Estação Quarentenária de Cananeia, no litoral de São Paulo. A fazenda, que já foi responsável por detectar e impedir a entrada de suínos contaminados com PRRS, uma doença da qual o Brasil é livre, acaba de ser ampliada, com a inauguração de mais duas unidades, que vai garantir a importação do dobro de reprodutores para sustentar o progresso da suinocultura brasileira e ajudar a manter se não o melhor, um dos melhores status sanitários do mundo.

Descobrimento de placas comemorativas marcou a inauguração oficial da Estação Quarentenária de Cananeia
A equipe de jornalismo de O Presente Rural esteve em Cananeia durante a inauguração da nova estrutura, uma parceria público-privada que era sonho antigo das empresas de genética que operam no Brasil. Entenda um pouco mais sobre como funciona essa quarentena e porque a Estação Quarentenária de Cananeia (EQC) é tão importante para a manutenção e o progresso da suinocultura.
Fortaleza sanitária brasileira
O chefe de Serviço da EQC, Mateus Carvalho Silva Araújo, explica que os suínos são importados de vários países e, do aeroporto em Viracopos, vão direto para a EQC, que fica é uma ilha, o que garante mais segurança para o setor. Lá, passam cerca de 30 dias até que todos exames e checagens sejam feitos. Se tudo estiver de acordo com as exigências sanitárias brasileiras, o suíno segue para as empresas de genética para dar continuidade ao processo. Mas há casos, no entanto, que doenças são detectadas. Nesses casos, os suínos são abatidos e eliminados na própria Estação.

Chefe de Serviço da EQC, Mateus Carvalho Silva Araújo
“O suínos chegam de vários países do mundo, como Estrados Unidos, Canadá, Noruega e Bélgica. Eles chegam por via aérea e desembarcam no aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP). De lá, são deslocados por via terrestre até a Estação Quarentenária. A gente faz o recebimento dos animais, o alojamento das unidades em quarentenas e se iniciam as observações clínicas, que são importantes, como inspeção visual, exames clínicos mais detalhados se o animal apresentar algum sintoma. A gente se preocupa com a saúde do lote. Claro que a gente vamos examinar individualmente, mas estamos preocupados com doenças infectocontagiosos, então a gente olha o lote como um todo, buscando identificar sinais clínicos que possam ser dessas doenças”, destaca Mateus.
Por favor corrigir esse trecho: “Claro que a gente vamos examinar individualmente, mas estamos preocupados com doenças infectocontagiosos, então a gente olha o lote como um todo, buscando identificar sinais clínicos que possam ser dessas doenças”…
O entrevistado no caso fui eu mesmo e com certeza houve um erro grotesco na transcrição da minha fala, pois jamais falaria desta forma.
“Passados sete dias do recebimento, a gente faz uma coleta de sangue e fezes. Esse material vai para o Cedisa (Centro de Diagnóstico de Sanidade Animal), em Concórdia, SC, onde são testadas para doenças de importância para a suinocultura nacional, seja de doenças que o Brasil é livre ou que o Brasil controla. A gente busca mitigar o risco desses patógenos causadores de doenças através desses animais importados. Aos 14 dias é feita nova coleta para exames. Os resultados estando negativos e os animais em boa condição clínica, a gente libera após 30 dias do início da quarentena. Caso tenha algum achado clínico relevante ou resultado laboratorial positivo, iniciamos uma investigação sanitária para detalhar melhor essa condição de saúde e confirmar se realmente é doença contagiosa. Caso confirmado, o lote não sai da EQC, é sacrificado aqui mesmo”, menciona o chefe de Serviço da EQC.
Recentemente, o trabalho impediu que uma doença que não está presente na suinocultura brasileira se disseminasse pela cadeia produtiva. “Tivemos um caso no ano passado de Síndrome Respiratória Reprodutiva de Suínos (PRRS), que o Brasil é livre, nunca teve. E a PRRS acabou ingressando em um lote oriundo dos Estados Unidos. Conseguimos identificar com nossa rotina de diagnóstico e esse lote não ingressou (no sistema produtivo)”, lembra o profissional.
O desafio agora, segundo o profissional é trabalhar com quatro lotes simultâneos, em quatro unidades de produção. Para isso, um rígido controle sanitário e de manejo precisa ser adotado. “Nós dobramos a capacidade de quarentena. O desafio agora é maior. Vamos trabalhar com quatro lotes simultâneos, é preciso ter coordenação entre as equipes de trabalho. Quando um profissional adentra uma unidade, não pode entrar em outra por um período mínimo de cinco dias. Todos os materiais de uso são exclusivos de cada unidade, temos processos de desinfecção e descontaminação de tudo que entra e sai da nossa área de biossegurança, onde estão as unidades. Para se ter uma ideia, são dois banhos para entrar e dois banhos para sair das unidades onde estão os animais”, destaca, reforçando que passam a ser “quatro lotes simultâneos, de empresas diferentes, de origens diferentes, totalmente isolados entre si”.
A estrutura conta com baias coletivas e individuais, possuem moderno sistema de filtragem de ar, com acesso exclusivo aos profissionais que atuam diretamente com os animais, como os médico veterinários. Foram investidos R$ 7 milhões nas obras e equipamentos. Durante a inauguração, foi feita uma visita in loco para visitantes e profissionais de imprensa, coisa que não deve acontecer depois dos primeiros alojamentos.
Parceria
De acordo com Serviço de Registro Genealógico de Suínos (SRGS) da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), cerca de três mil animais chegam a Cananeia todos os anos. Com a evolução da atividade no Brasil, explica o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Genética de Suínos (Abegs), Alexandre Furtado da Rosa, o local ficou pequeno e precisa ser ampliado. “Nos últimos dez anos a suinocultura brasileira vem experimentando um crescimento interessante de produtividade, mas também de novos projetos, sendo mais eficiente, com crescimento de exportações. Ainda, em função do alto grau de status sanitário do nosso plantel e da qualidade genética, as empresas que atuam no mercado brasileiro estão começando a exportar material genético para outros países, que é um movimento meio novo. Normalmente você só importa material para multiplicar aqui, mas em função dessa atualização genética agora temos países, especialmente vizinhos da América do Sul, interessados na importação do produto brasileiro”, frisa.
“Também tivemos a entrada de novas empresas de genética globais que vieram para o Brasil e a EQC começou a ficar

Presidente da Abegs, Alexandre Furtado da Rosa
apertada. Nós tínhamos dois galpões cada um com capacidade para 500 animais, um galpão antigo que foi reformado e um novo construído em 2015, e não estava mais permitido o ingresso de animais. Permitia no máximo 12 introduções por ano. Como aumentou o número de empresas dentro da Abegs, que representa o segmento genético, além desse da questão das exportações de material genético, a gente achou que precisava aumentar o espaço. Nós procuramos o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, na atual gestão da ministra Tereza Cristina, e renovamos o acordo de cooperação técnica. É uma parceria entre Abegs, que é a financiadora dos investimentos, a ABCS (Associação Brasileira de Criadores de Suínos), que é responsável pelo registro genealógico dos animais importados, e o Ministério Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que detém toda a parte oficial da gestão de Cananéia e também dos protocolos de investigação sanitária”, justifica Alexandre Furtado da Rosa, que também é presidente da Agroceres PIC.
“Iniciamos em fevereiro e hoje aqui estamos conseguindo inaugurar esses dois novos galpões para 460 animais cada um, totalmente climatizados para dar conforto térmico aos animais, com filtro de ar que dá uma proteção adicional em relação aos outros galpões. Agora podemos fazer 24 introduções por ano. Estamos muito contentes porque isso vai possibilitar aumentar o fluxo de importação. A gente vai aumentar a qualidade genética do plantel brasileiro e possibilitar a exportação de material para outros países”, menciona.
Para ele, a estrutura é diferenciada em relação a outros países produtores. “Não adianta nada você ter um status sanitário elevadíssimo se você não tem uma genética boa. Cananéia possibilita isso, poucos países no mundo tem algo como essa estrutura, totalmente isolada fisicamente, com poder público instalado nessa parceria público-privada”, frisa.
“O melhor status sanitário do mundo”
Para o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), Marcelo Lopes, a Estação Quarentenária de Cananeia é decisiva para manter o status sanitário. “O status sanitário da suinocultura brasileira sem dúvida

Presidente da ABCS, Marcelo Lopes
nenhuma é o melhor do mundo. O país é livre de diversas doenças que acometem o mundo inteiro, e essa Estação vem de encontro a isso, traz mais segurança nas importações dos reprodutores. Além disso, torna o país exportador de genética. A EQC abriu as portas para que a gente começasse a exportar genética. Temos uma estrutura maravilhosa, do governo federal, onde uma parceira público-privada vem dando certo. Há alguns anos inauguramos o primeiro sítio como experiência dessa PPP e hoje estamos inaugurando os sítios 3 e 4. É um exemplo de parceria a ser seguido”, destaca.
Para proteger esse status, lembra que outras fontes carreadoras de patógenos podem entrar por portos e aeroportos, em alimentos industrializados ou mesmo em ingredientes para a ração dos animais. “Os portos, os aeroportos, enfim, todas as entradas do país precisam ser fiscalizadas, e esse investimento (EQC) fica como exemplo. A cadeia de suínos não pode ter surpresas dessa natureza. Existe um esforço da ABCS, da Abegs e do Mapa para termos mais investimento em biossegurança. Existem diversos protocolos trabalhados com Mapa, caso haja esse tipo de surpresa, para a gente estar preparado, isolar e não acometer o país inteiro”, destaca Lopes.
O secretário de Defesa Agropecuária, do Mapa, José Guilherme Leal, destacou a relação de genética e sanidade, ambos temas centrais da Estação Quarentenária de Cananeia, para o desenvolvimento do setor. “Todo o desenvolvimento da suinocultura brasileira passa por aqui. Garantia os avanços na genética, com a proteção

Secretário de Defesa Agropecuária do Mapa, José Guilherme Leal
necessária da sanidade”, frisou.
Leal também destacou a parceria entre governo federal e empresas e entidades como um pontos fundamentais para a realização das obras. “Estamos comemorando com muita justiça. Fazer uma parceria entre público e privado nem sempre é fácil. Precisamos primeiro ter disposição para fazer e entender que estamos fazendo as coisas corretas. E isso é que estamos fazendo aqui, (a parceria) que permitiu essa construção. Em pouco tempo, conseguimos fazer um trabalho muito importante para nossa suinocultura”, lembrou.
O secretário do Mapa lembrou “toda a magnitude da suinocultura brasileira, que tem papel importantíssimo para abastecer nossa população, mas também para gerar divisas com as exportações”. Ele reforçou a importância de atender a demanda do setor privado e o trabalho em conjunto com as empresas. “Com essa ampliação, temos condição de atender a demanda do setor privado, pois a limitação física estava estrangulando (as empresas de genética). Temos que comemorar essa parceria reforçada agora com essa ampliação”, mencionou o secretário.
Mais velocidade no progresso genético
O diretor da Topigs Norsvin, André Costa, explica que mais animais importados, com maior frequência, vão acelerar o progresso genético no Brasil. “As empresas de genética têm seus planteis de alto potencial genético localizado em outros países, então é necessário realizar a importação frequente de material genético. Hoje temos a possibilidade de duplicar a importação de nossas granjas núcleo principais, que estão Estados Unidos, Noruega e Canadá. Isso representa não somente mais volume, mas a velocidade com que o melhoramento genético é aplicado”, pontua Costa.
O diretor de Negócios e Marketing da mesma empresa, Adauto Junior Canedo, amplia, exemplificando que esse avanço está em caraterísticas que o mercado quer. “A ampliação do Quarentenário de Cananeia vai possibilitar a importação de um maior número de animais por ano para continuar fazendo nosso melhoramento genético. Somos players de produção e exportação, mas precisamos nos manter competitivos em relação a ganho de peso, conversão alimentar, entre outras características. Aumentando o número de animais importados, você faz uma aceleração nesse melhoramento genético”.
EQC
De acordo com o Mapa, a EQC encontra-se edificada na Ilha de Cananeia, litoral sul do estado de São Paulo, distante 261 km da capital, com acesso 17 km após a cidade de Registro, no sentido São Paulo-Curitiba. A EQC foi construída em área isolada no sul da Ilha, distando aproximadamente 6 km da cidade de Cananéia. As edificações existentes somam uma área construída de cerca de 6,5 mil metros quadrados, dividida entre prédios administrativos, alojamentos, oficinas, estábulos, lavanderia, estação de tratamento de efluentes e outros.
“Além das quarentenas, a estação foi preparada para ser um importante centro brasileiro para a realização de cursos e treinamentos em defesa sanitária animal de interesse do próprio Mapa, de Secretarias de Estado da Agricultura, de universidades e outros. Para isso, procedeu-se à construção de auditórios, alojamentos e demais instalações para a adequada recepção de participantes e instrutores.

Suínos
Produção de carne suína avança e reforça novo ciclo de expansão no setor
Crescimento no volume abatido e o aumento no peso médio das carcaças indicam consolidação da oferta, mesmo diante da pressão recente sobre os preços pagos ao produtor.

O IBGE publicou, no último dia 12, dados preliminares de abate do quarto trimestre de 2025, confirmando o crescimento da produção das três proteínas no ano passado em relação a 2024. No abate de suínos, com aumento de 3,39% em cabeças e 4,46% em toneladas de carcaças (tabela 1) no acumulado do ano de 2025, fica evidente a retomada do crescimento da produção de forma consistente. Mesmo em um ano em que um dos destaques foi o incremento significativo do peso médio das carcaças (93,07kg contra 92,11kg de 2024), chama a atenção, no mês dezembro/25, o menor peso do período (90,23kg), indicando haver relativa baixa retenção de animais nas granjas na virada do ano.

Tabela 1. Abate brasileiro MENSAL de suínos, 2024 e 2025, em cabeças e toneladas de carcaças (total e peso médio em kg) e diferença em relação ao mesmo mês anterior. *Dados de julho a setembro de 2024 preliminares Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do IBGE.
Esta presumida baixa retenção de animais nas granjas no mês de dezembro/25 não resultou em sustentação dos preços pagos ao produtor no início de 2026. Outros fatores, como a queda sazonal da demanda interna e de exportação, típica de início de ano, e os estoques remanescentes de 2025 resultaram em queda dos preços das carcaças e do animal vivo em todas as praças do Brasil (gráficos 1 e 2), o que parece ter se agravado com o “efeito manada”, quando muitos produtores tentam antecipar as vendas para fugir de preços mais baixos, mas, com maior oferta, acabam acelerando a queda das cotações. Além disso, a carne de frango também apresentou queda expressiva nas cotações desde a virada do ano, o que acaba reduzindo a competitividade da carne suína no varejo (gráfico 3).

Gráfico 1. Indicador CARCAÇA SUÍNA ESPECIAL – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em São Paulo/SP, mensal, nos últimos 12 meses. Média de fevereiro/26 até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA

Gráfico 2. Indicador SUÍNO VIVO – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em MG, PR, RS, SC e SP, mensal, de março/25 a 18 de fevereiro de 2026. Fonte: CEPEA

Gráfico 3. Cotação média mensal do FRANGO RESFRIADO em São Paulo (SP), em R$/kg de carcaça, nos últimos seis meses. Média de fevereiro até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA
No último boletim, de janeiro/26, já havíamos demonstrado o crescimento expressivo das exportações de carne suína in natura no ano de 2025, com incremento de quase 12% em relação a 2024. Conforme a tabela 2, a seguir, as três proteínas tiveram, em 2025, crescimento na produção, exportação e disponibilidade interna.

Tabela 2. Produção brasileira, exportação (in natura) e disponibilidade interna mensal, em toneladas de carcaças, das três proteínas de janeiro a dezembro de 2025 e diferença do total acumulado em relação a 2024 *Dados de produção de outubro a dezembro de 2025 preliminares Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do IBGE e da Secex.
A propósito das exportações de carne suína, o ano de 2026 começou bem, com o mês de janeiro/26 totalizando mais de 100 mil toneladas de carne suína in natura embarcada, um crescimento de 14,2% em relação a janeiro de 2025, com aumento expressivo dos embarques para Filipinas e Japão e China confirmando sua trajetória de queda (tabela 3).

Tabela 3. Principais destinos da carne suína brasileira in natura exportada em janeiro de 2026, comparado com janeiro de 2025. Ordem dos países estabelecida sobre volumes de 2026. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados da Secex.
Sobre a carne bovina, que dentre as 3 proteínas teve no ano passado o maior crescimento percentual de produção e exportação, o que se observou ao longo do ano de 2025 foi uma relativa estabilidade nas cotações do boi gordo (gráfico 4).

Gráfico 4. Indicador mensal do BOI GORDO CEPEA/ESALQ (R$/@) no estado de São Paulo, nos últimos 2 anos, com destaque para a maior cotação do período (até o momento) que foi em novembro/24 Média de fevereiro/26 até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA
Porém, a tão esperada virada do ciclo pecuário, com redução de abate e alta do preço deve ocorrer em 2026 e já mostra sinais no gradativo aumento das cotações do boi gordo nas últimas semanas (gráfico 5), quando a arroba subiu mais de 20 reais em poucos dias.

Gráfico 5. Indicador DIÁRIO do BOI GORDO CEPEA/ESALQ (R$/@) no estado de São Paulo, nos últimos 30 dias úteis (até 18/02/26). Fonte: CEPEA
Para 2026 o mercado de carne bovina será um importante fator de equilíbrio, justamente porque é a única proteína que deve ter retração na produção, reduzindo a oferta no mercado doméstico e, consequentemente, determinando preços maiores que no ano passado, o que deve contribuir para sustentar os preços da carne suína. Entretanto, existe um alerta para as exportações de carne bovina que têm a China como destino de mais da metade dos embarques e que estabeleceu, para 2026, uma cota de 1,1 milhão de toneladas que, quando ultrapassada, terá uma sobretaxa de 55%, inviabilizando as exportações para aquele mercado que comprou em torno de 1,7 milhão de toneladas no ano passado. Esta situação pode determinar uma redução das exportações de carne bovina brasileira e, consequentemente, uma maior oferta no mercado doméstico a partir da metade do ano. Alguns analistas também apontam esta alta momentânea da cotação do boi gordo justamente por causa desta cota estabelecida pela China, o que fez com que os frigoríficos exportadores antecipassem o abate para aproveitá-la antes que se esgote.
Sobre a rentabilidade da suinocultura, mesmo com o milho e o farelo de soja com preços relativamente estáveis, fica evidente uma queda na relação de troca do suíno com estes insumos (gráfico 6), obviamente agravada pelo recuo significativo das cotações do suíno. Mesmo antes de acabar fevereiro já é possível afirmar que a relação de troca caiu pelo quinto mês consecutivo. Este quadro, na maioria dos casos, ainda não determina prejuízo na atividade, mas acende uma luz de alerta no setor.

Gráfico 6. Relação de troca SUÍNO : MIX milho + farelo de soja (R$/kg) em São Paulo, de janeiro/24 a fevereiro/26. Relação de troca considerada ideal, acima de 5,00 Composição do MIX: para cada quilograma de MIX, 740g de milho e 260g de farelo de soja. Média de fevereiro de 2026 até dia 18/02/2026. Elaborado por Iuri P. Machado com dados do CEPEA – preços estado de São Paulo
O presidente da ABCS, Marcelo Lopes, explica que o movimento de baixa das cotações do suíno vivo e das carcaças dá sinais de que está no fim, com preços estabilizando em meados de fevereiro. “É fato que a suinocultura brasileira retomou o crescimento da produção e o aumento das exportações já não é suficiente para enxugar o mercado. A concorrência com as outras carnes se tornam um fator muito importante neste contexto, sendo que o mercado de carne bovina, com a esperada virada de ciclo pecuário, pode ser o fiel da balança para sustentar os preços do suíno em patamar que permita manter margens financeiras positivas, mesmo com maior oferta de carne suína no mercado doméstico ao longo de 2026”, conclui.
Suínos
ACCS alerta para insegurança jurídica mesmo com retomada nos preços da suinocultura
Mercado de suínos dá sinais de recuperação com exportações aquecidas, mas a Associação Catarinense de Criadores de Suínos cobra segurança no campo e critica entraves trabalhistas e o chamado custo Brasil.

O cenário para a suinocultura brasileira desenha-se com otimismo nas granjas, impulsionado pelo reequilíbrio de preços e recordes de exportação previstos para este ano. No entanto, fora da porteira, o setor produtivo acende um forte sinal de alerta para os desafios políticos, trabalhistas e de segurança jurídica no campo. A avaliação é do presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi, que traçou um panorama detalhado sobre as projeções de mercado e os entraves que o agronegócio enfrenta atualmente.
Retomada de preços e exportações em alta

Presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi: “Eu acredito que o mercado vai estar voltando à sua normalidade. A partir de agora, nós vemos um mercado mais promissor”
O ano começou com a tradicional oscilação de preços, mas a perspectiva de estabilização já é uma realidade. Segundo o presidente da ACCS, a queda registrada na primeira quinzena de janeiro está sendo superada pela reação das bolsas do setor. “Eu acredito que o mercado vai estar voltando à sua normalidade. A partir de agora, nós vemos um mercado mais promissor”, projeta Losivanio.
A expectativa de alta nos valores pagos ao produtor é sustentada por uma combinação de fatores: a menor oferta de suínos no mercado, a manutenção do peso normal de abate e o ritmo acelerado das exportações, que em fevereiro devem ultrapassar a marca de 100 mil toneladas.
Outro elemento que protegeu a margem do suinocultor independente durante a recente baixa foi a queda no preço do milho. Além disso, não houve um crescimento desordenado da produção nos últimos dois anos. O principal freio para novas expansões foi a taxa de juros, já que, segundo o dirigente da ACCS, iniciar um projeto robusto na suinocultura hoje exige um investimento mínimo de R$ 10 milhões, tornando a captação de recursos cara e, muitas vezes, inviável.
O ciclo da carne bovina e a sanidade
O bom momento da carne suína também encontra respaldo no ciclo da pecuária de corte. Com as exportações de carne bovina batendo recordes e o volume de abates superando o de nascimentos de bezerros, a recuperação da oferta de bovinos será lenta — um ciclo que leva cerca de quatro anos. Essa dinâmica mantém a carne suína em um patamar competitivo e altamente atrativo.
Apesar dos ventos comerciais favoráveis, a ACCS reforça que o dever de casa sanitário é inegociável para garantir a estabilidade do setor. “Nós temos que olhar muito a questão da biosseguridade, da sanidade, para que a gente não seja acometido por alguma intempérie de doença, como aconteceu em vários países, e que a gente possa perder esses mercados importantes”, alerta.
Preocupações políticas e a escala 6×1
Se o mercado responde bem, o ambiente regulatório gera apreensão. Losivanio classifica como “populismo” a possibilidade de o governo intervir limitando as exportações de carne bovina para forçar a queda dos preços no mercado interno, especialmente em um ano eleitoral. Para ele, a solução real seria fomentar o poder de compra e a renda da população, e não proibir embarques.
No campo trabalhista, a proposta de alteração da jornada para a escala 6×1, reduzindo de 44 para 36 horas semanais — é vista com grande preocupação. A dinâmica do agronegócio não se adequa a expedientes engessados, e o peso da carga tributária sobre a folha de pagamento já asfixia quem produz. “A gente vê que o vilão não é o empresário, e sim é o sócio que nós temos, que é o governo”, pontua o presidente.
Ele contrasta a situação brasileira com a de países vizinhos: enquanto a Argentina avança no Congresso com propostas de jornadas de até 12 horas diárias e o Paraguai atrai indústrias brasileiras oferecendo redução de impostos, logística eficiente e segurança jurídica, o Brasil onera cada vez mais o empreendedor com mudanças legislativas constantes.
Insegurança jurídica e a defesa do produtor
O alerta final da entidade recai sobre a insegurança no campo. O aumento da criminalidade e as tensões envolvendo áreas indígenas estão impactando diretamente quem produz. Produtores com histórico de gerações em suas terras e documentação legal estão perdendo acesso ao crédito rural e correndo o risco de perderem suas propriedades. “Nós estamos à beira de um caos muito forte”, desabafa.
Para Losivanio, falta ao poder público uma visão estratégica que valorize o agronegócio, setor que levou o Brasil ao posto de maior exportador de proteína animal do mundo, mesmo operando sob as legislações ambientais mais rigorosas do planeta. “Para dar emprego, nós temos que dar segurança para o nosso empreendedor, para que ele possa continuar acreditando e fazendo esse país crescer”, finaliza o presidente, pedindo uma mudança urgente de postura e de entendimento para garantir o futuro da produção nacional.
Suínos
Demanda interna e exportações reforçam perspectiva de alta para o suíno vivo
Diversificação de mercados e consumo aquecido no pós-férias impulsionam mercado, enquanto produção e custo da ração exigem atenção no médio prazo.

Com a melhora sazonal da demanda interna e um cenário externo considerado favorável, os preços do suíno vivo devem apresentar reação nas próximas semanas. A expectativa é de recuperação no curto prazo, após o fim do período de férias escolares e do Carnaval.
De acordo com dados da Consultoria Agro Itaú BBA, a diferença de preços entre as proteínas também pode contribuir para esse movimento. A carne bovina segue em patamar mais elevado em relação à suína, o que tende a favorecer o consumo da carne de porco no mercado interno.
No comércio exterior, a diversificação de destinos observada desde o ano passado ajuda a reduzir a dependência de mercados específicos. Apesar disso, chama atenção o aumento da participação das Filipinas entre os principais compradores. Ainda assim, o cenário das exportações é considerado positivo e deve continuar colaborando para o equilíbrio da oferta e da demanda.
Para o médio prazo, dois fatores exigem monitoramento: o ritmo de crescimento da produção e os custos com ração.
No caso da produção, a tendência é de continuidade na expansão do envio de animais para abate, movimento sustentado pelas boas margens registradas na suinocultura nos últimos dois anos e pela demanda externa aquecida. Eventuais problemas no fluxo de embarques, embora não sejam o cenário principal, poderiam pressionar o mercado interno, elevando a oferta doméstica e impactando os preços, já que a produção não pode ser ajustada rapidamente no curto prazo.
Em relação aos custos, o cenário também é considerado favorável, mas com pontos de atenção. A previsão de clima positivo para o milho safrinha nos próximos dois meses indica potencial para boa produção. No entanto, parte relevante da área ainda precisa ser semeada, e não há definição sobre quanto ficará dentro da janela ideal de plantio, fator decisivo para o desempenho produtivo.



