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Importações em alta revelam desafios de competitividade na cadeia leiteira brasileira
País importou o equivalente a 6,2% da produção nacional em 2023; alta dos custos internos, queda no número de vacas e consumo estagnado ampliam o déficit da balança comercial de lácteos.

A agropecuária brasileira tem se transformado pelo empreendedorismo dos produtores, por políticas públicas de apoio e, fundamentalmente, pelo desenvolvimento de ciência, tecnologia e inovação. Este último fator, além de promover contínuos ganhos de produtividade que poupam terra, tem permitido substituir a força de trabalho por meio da mecanização, automação e robotização da produção, o que demanda trabalhadores cada vez mais qualificados.
A nova fronteira tecnológica, que busca maior controle sobre os processos produtivos, converge para a agricultura 5.0 e a produção de precisão, combinando biotecnologia, nanotecnologia e ciência da informação. Essas tecnologias disruptivas, que trazem ganhos significativos de produtividade e impactam a forma e o local de produção, exigem conhecimentos complexos e estão impulsionando o desenvolvimento de uma agropecuária brasileira pujante e competitiva no cenário global.
O Brasil destaca-se no agronegócio do leite, com produção de mais de 35,3 bilhões de litros em 2023, ocupando a quarta posição no ranking global. A atividade, desenvolvida majoritariamente por pequenos e médios produtores, está presente em 98% dos municípios brasileiros e em quase 1 milhão de propriedades rurais, empregando aproximadamente 4 milhões de pessoas. Apenas o setor primário da produção leiteira gera anualmente mais de R$ 67,8 bilhões, evidenciando sua importância social e econômica.
Apesar da grande evolução da produção de leite no Brasil neste início de século, somente entre os anos de 2003 e 2008 o país teve a balança comercial de lácteos positiva (figura 1). No período de 2009 em diante, o Brasil sempre teve déficit. Cabe destacar que a partir de 2015 o déficit tem se elevado, atingindo patamares nunca vistos. Em 2023, o país teve déficit de mais de US$ 1 bilhão devido à importação de 2,18 bilhões de equivalente litros de leite. Essa foi a maior internalização de produtos lácteos no mercado brasileiro nos registros do CILeite, correspondendo a 6,2% da produção nacional.

O produto mais importante do mercado internacional de lácteos é o leite em pó. É também o produto mais importado pelo Brasil no período de estudo. Além desse produto, o país importa soro, queijos, manteiga, leite modificado e outros de menor expressão. O valor dispendido pelo país na aquisição do leite em pó em 2023 foi de US$ 738
milhões, contra um valor de US$ 51 milhões gastos em 2004, o ano de menor importação.
Os queijos são produtos que tiveram crescimento muito expressivo. De 2004, quando foram importados US$ 11 milhões, para 2023, quando foram gastos US$ 213 milhões, houve incremento nos dispêndios com queijos importados de mais de 1.800%, conforme se vê na figura 2. Nela também merece destaque o soro de leite que, de 2022 para 2023, apresentou incremento de 31%, atingindo US$ 55 milhões.

Leite em Pó, leite condensado e creme de leite: os mais exportados
As importações brasileiras de lácteos internalizaram, em 2023, 2,18 bilhões de equivalente litros de leite. Em 2007, quando se observou o menor valor registrado desde 2000, as importações foram de 251 milhões de equivalente litros de leite, que representaram apenas 1,4% da produção nacional.
Já as exportações têm sido modestas diante de sua produção e de seu potencial produtivo e comercial. Somente nos períodos de 2004 a 2008, o país logrou uma balança comercial positiva e crescente. De 2004 a 2008, as exportações brasileiras cresceram mais de 130%, passando de 383 milhões de equivalente litros de leite em 2004
para 882 milhões em 2008.
Depois de 2009, o Brasil se tornou um importador líquido de lácteos com volumes crescentes, notadamente nos últimos três anos, quando passou de 4,1% em 2021 para 6,2% da produção nacional em 2023. O menor volume importado pelo Brasil deu-se no ano de 2007 quando foram internalizados 251 milhões de equivalente litros de leite e a maior foi em 2023, de 2,18 bilhões de equivalente litros de leite.
Em média, no período de 2002 a 2023 o Brasil exportou 260 milhões e importou 967,8 milhões de equivalente litros de leite, representando internalização média anual de mais de 700 milhões de equivalente litros de leite. Considerando a produção nacional de leite no período, as internalizações corresponderam em média a 3,1%. Isto deixa claro que as importações dos últimos três anos da série histórica estudada estão muito acima da média do período, atingindo 6,2% em 2023.
Os principais produtos lácteos exportados pelo Brasil são o leite em pó, o leite condensado e o creme de leite. Em 2008, quando o Brasil fez sua maior exportação, o país vendeu US$ 378 milhões em leite em pó, US$ 73 milhões em leite condensado e US$ 11 milhões em creme de leite, figura 3.

Os melhores desempenhos da economia leiteira no Brasil, no que concerne à balança comercial,
foram os anos de 2007 e 2008. No que se refere à importação, a média do período estudado foi de 3,05% da produção, sendo o menor percentual no ano de 2007, que foi menos de 1% da produção. Em 2008 o Brasil exportou 3,2% de sua produção, um recorde até hoje a ser batido, sendo a média do período menos de 1%.
Produtividade cresce e consumo de leite se mantém estagnado
O Brasil vem passando por um período de profundo ajuste em sua produção de leite, o que ajuda a explicar a elevação do nível de importação e o aumento do déficit da balança de pagamentos de lácteos. Houve expressiva redução do número produtores, da ordem de 13% entre os anos de 2006 e 2017, e o processo está em andamento.
Além deste fator, houve também forte redução do número de vacas ordenhadas, vindo de um pico em 2011 de 23,23 milhões de cabeças para 15,66 milhões em 2023, redução de 33%. Importante ainda considerar o aumento da produtividade animal no período de 2000 a 2023, que cresceu 104% ao atingir 2.254 litros/vaca/ano. Isto tem mantido a produção em situação de oscilação com desempenho pouco expressivo.

Foto: Divulgação/Agência SP
Fora isso, o consumo per capita está estagnado nos últimos anos, ao redor de 180 litros/habitante/ano. Contudo, a massa salarial de janeiro de 2023 a setembro 2024 cresceu mais de 7,5% e o pessoal ocupado 2%, pressionando a oferta. Esse consumo, nos últimos anos, considerado que a oferta interna no período não tem crescido, é suprido pelas elevadas importações, notadamente de nossos parceiros comerciais da Argentina e do Uruguai.
Outro vetor que explica o déficit em balança comercial de lácteos é a baixa competitividade do setor leiteiro nacional. Os custos de produção dos produtos lácteos no Brasil são mais elevados que no mercado internacional. Por exemplo, o preço doméstico do leite em pó integral industrial, em novembro de 2024, estava 34% acima do preço de importação. Para a muçarela, a diferença foi de 24%. Isto estimula a importação e pressiona a cadeia produtiva brasileira como um todo e os mais dinâmicos a implementar melhorias a fim de aumentar a competitividade.
Deve ser destacado ainda que os custos dos produtos lácteos são afetados pelo custo da matéria-prima, pela logística de coleta do leite devido à enorme dispersão da produção no território nacional e do chamado Custo Brasil, que inclui impostos, preços elevados de insumos, estradas vicinais precárias e baixa governança na cadeia produtiva, o que gera custos de transação.

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Nova gestão da Girolando prioriza crise do leite e inovação no campo
À frente da entidade, Alexandre Lacerda defende combate às importações e ampliação do acesso ao melhoramento genético para pequenos e médios pecuaristas.

Uma das maiores entidades do setor leiteiro do país, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando passa a ser comandada pelo pecuarista e advogado Alexandre Lopes Lacerda. A posse da Diretoria e Conselhos eleitos para o triênio 2026/2028 ocorreu na quinta-feira (26), em Uberaba (MG), e contou com a presença de diversas lideranças do agro e criadores, dentre elas a prefeita de Uberaba Elisa Araújo, os deputados federais Emidinho Madeira e Rafael Simões e o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento Thales Fernandes.
Entre as prioridades do novo presidente estão: defesa dos direitos dos produtores de leite, incluindo ações para combater a atual crise do leite; facilitar o acesso de pequenos e médios produtores às tecnologias de melhoramento genético e a animais de alta qualidade. “Queremos fortalecer o programa de melhoramento da raça Girolando, o PMGG, desenvolvendo ferramentas para potencializar a utilização das informações genética pelos criadores, permitindo a customização de índices genéticos para cada fazenda e acompanhando a evolução a cada geração. Vamos nos empenhar nesses próximos três anos para que mais e mais produtores adotem essas inovações, visando produzir um Girolando moderno, eficiente e sustentável”, assegura Lacerda.
Durante a solenidade, as lideranças presentes reforçaram a necessidade de unir forças na defesa dos direitos dos produtores rurais. Segundo o deputado Rafael Simões, uma das ações em andamento é para inibir a importação de leite do Uruguai e da Argentina, que vem prejudicando o setor. O secretário de Minas Thales Fernandes disse que o governo mineiro também vem trabalhando para vencer a atual crise do leite e para levar mais tecnologia par ao campo. O deputado Emidinho Madeira destacou a parceria com a Girolando para levar mais genética de qualidade para as pequenas propriedades leiteiras. A prefeita de Uberaba Elisa Araújo assegurou que o agro é importante para a economia da cidade e que vários projetos voltados para a pecuária estão levando mais renda para o campo.
Em seu discurso de despedida, Domício Arruda, que comandou a Girolando na gestão 2023/2025, ressaltou as realizações feitas, dentre elas a construção da Casa do Girolando no Parque Fernando Costa, a aquisição de um terreno para construção de uma nova sede, os dois anos seguidos de recordes nos registros. Segundo ele, a raça chega a 2026 mais consolidada, com várias tecnologias de seleção dentro do PMGG e reconhecida pelo mercado internacional como a genética leiteira ideal para os trópicos.
Com mais de quatro mil associados em todo o país, a Associação de Girolando intensificará este ano ações promocionais para ampliar o consumo de leite na sociedade brasileira. Durante a Megaleite 2026, exposição nacional da raça marcada para junho, a entidade levará o tema “Aqui tem leite”, mostrando que nos mais diversos produtos, como medicamentos, alimentos, suplementos, o leite é utilizado como matéria-prima. “O leite é um produto fundamental no dia a dia das pessoas e precisamos reforçar com informações relevantes suas qualidades para o público em geral, até para combater tantas fake news que existem sobre o alimento”, diz Alexandre Lacerda, que é criador da raça Girolando há duas décadas, na Fazenda Miraí, localizada na região da Serra do Cipó, além de atuar na área de advocacia.
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Lei Complementar eleva custo tributário nas cadeias de leite, café, trigo e soja
Redução linear de 10% nos benefícios fiscais federais altera créditos presumidos, cria pontos de cumulatividade e deve pressionar preços ao consumidor, com impacto também sobre fertilizantes e insumos agropecuários.

A publicação da Lei Complementar 224/2025, que promoveu um corte linear de 10% nos benefícios fiscais federais incidentes sobre diferentes elos do agronegócio, deve elevar custos ao longo das cadeias de leite, café, trigo e soja. A expectativa é de repasse gradual ao consumidor final e de reabertura do debate sobre a cumulatividade de tributos que, até então, operavam sob lógica não cumulativa.

Foto: Gilson Abreu/AEN
Na avaliação da advogada tributarista Cintia Meyer, a nova sistemática tende a gerar efeito cascata. Ao reduzir créditos presumidos e alterar incentivos, a medida amplia o custo tributário em segmentos que já enfrentam compressão de margens, pressionados por custos elevados de produção e preços internacionais deprimidos de commodities.
O Demonstrativo de Gastos Tributários (DGT) que integra a Lei Orçamentária Anual lista cerca de 300 hipóteses de benefícios fiscais, além de outras 14 tratadas especificamente na Lei Complementar 224/2025. Segundo Meyer, empresas que utilizam qualquer desses mecanismos precisarão revisar suas estruturas tributárias. “Se a empresa conta com algum desses benefícios, o impacto pode ser direto no resultado”, afirma.
Como a norma foi sancionada em dezembro, seus efeitos já alcançam o IRPJ e o Imposto de Importação desde 1º de janeiro, em respeito ao princípio da anterioridade. Para PIS, Cofins, IPI, CPS e CSLL, as novas regras passam a valer a partir de 1º de abril, ampliando o alcance da medida ao longo do primeiro semestre.
Leite tem corte em créditos e nova tributação sobre derivados

Foto: Fernando Dias
Na cadeia do leite, a Lei Complementar 224/2025 reduz de forma direta os créditos presumidos concedidos à indústria. Para os laticínios em geral, o percentual cai de 1,85% para 1,67%. Já no caso das empresas enquadradas no Programa Mais Leite Saudável, o crédito passa de 4,63% para 4,17%. Embora se trate de um benefício condicionado à realização de investimentos, o texto legal não explicita se esse mecanismo poderia ser exceção ao corte linear, o que amplia a insegurança jurídica do setor.
Em documento de perguntas e respostas, a Receita Federal informou que a aplicação do benefício deverá ser analisada “caso a caso”, de acordo com a execução dos projetos aprovados no programa, abrindo margem para interpretações distintas e potenciais questionamentos administrativos ou judiciais.
No consumo doméstico, os produtos que integram a cesta básica seguem com alíquota zero. No entanto, itens relevantes do portfólio dos laticínios, como leite fluido, soro de leite, leite fermentado e bebidas lácteas, passam a ser tributados em 0,925% de PIS/Cofins, elevando o custo ao longo da cadeia e pressionando as margens da indústria. As exportações, por força da imunidade constitucional, permanecem isentas de tributação.
Exportações de café têm redução de crédito presumido

Foto: Divulgação/Governo da Bahia
Na cadeia do café, a indústria de torrefação mantém a aplicação de alíquota zero nas vendas internas, por se tratar de produto incluído na cesta básica. A mudança ocorre nas operações de exportação. Com a Lei Complementar 224/2025, houve redução dos créditos presumidos vinculados às vendas externas.
Para o café cru, o crédito presumido sobre a aquisição de insumos recua de 7,4% para 6,66%. Já no café torrado ou solúvel, o percentual calculado sobre a receita de exportação cai de 0,925% para 0,8325%. A diminuição reduz a margem das empresas exportadoras e altera a estrutura de custos em um segmento altamente dependente do mercado internacional.
Trigo concentra efeitos mais sensíveis da mudança
Na cadeia do trigo, os efeitos são distintos e considerados mais sensíveis. Segundo a tributarista, a principal mudança atinge a aquisição do grão destinado à produção de farinha. “A operação, que antes estava sujeita à alíquota zero, passa a ser tributada sem direito a crédito para o comprador. Na prática, trata-se de um tributo não recuperável, incorporado diretamente ao custo de aquisição”, explica Cintia.
Como a farinha é insumo básico para a fabricação de pães, o impacto tende a se propagar ao longo da cadeia, elevando o custo do produto final e pressionando o preço ao consumidor.

Foto: Cleverson Beje
Além da tributação na aquisição do grão, a Lei Complementar 224/2025 também reduziu o crédito presumido de 3,24% para 2,92% para o trigo. “As vendas no mercado interno permanecem inalteradas para os produtos incluídos na cesta básica, como farinha de trigo e pré-mistura para pão, que seguem com alíquota zero. Já os itens fora desse rol, como pré-misturas para bolos, mantêm a tributação anteriormente aplicada”, detalha Cintia.
Para o advogado tributarista Luiz Eduardo Costa Lucas, a alteração cria uma distorção no sistema. Segundo ele, trata-se de um caso em que um produto que operava com alíquota zero passa a gerar incidência tributária no meio da cadeia, sem possibilidade de creditamento. “Na prática, o imposto recolhido não é recuperável, incorpora-se ao custo e reabre a discussão sobre a não cumulatividade, tema debatido desde 2004. O resultado é a transferência do encargo ao consumidor final”, pontua.
Milho tem crédito presumido reduzido ao longo da cadeia

Foto: Fernando Dias/Ascom Seapi
Estrutura semelhante foi adotada na cadeia do milho. Embora os insumos não tenham sido diretamente afetados, o crédito presumido sobre aquisições de pessoas físicas foi reduzido de 3,24% para 2,92%. No óleo de milho, tanto as vendas no mercado interno quanto as exportações tiveram o crédito presumido diminuído, de 2,498% para 2,248, ampliando a pressão sobre as margens do setor.
Óleo de soja perde desoneração e crédito é reduzido
Na cadeia da soja, a aquisição de insumos permanece sem alterações. A mudança ocorre na etapa de comercialização. O óleo de soja, atualmente enquadrado na cesta básica e sujeito à alíquota zero de PIS/Cofins, mas fora do rol previsto na reforma tributária, passará a recolher 0,925% desses tributos.
Além disso, o crédito presumido sobre as vendas de farinha de soja, óleo e resíduos foi reduzido em 10%, caindo de 2,498% para 2,248%, o que comprime as margens ao longo da cadeia.
Fertilizantes passam a ter tributação na entrada e na saída

Foto: Claudio Neves
Impacto mais amplo é observado na indústria de fertilizantes. Insumos agropecuários que até então operavam com alíquota zero de PIS/Cofins passam a ser tributados em 0,925%. O mesmo percentual incidirá sobre as vendas no mercado interno de adubos, defensivos, sementes, mudas e corretivos, que também eram desonerados.
Segundo Cintia, o efeito é cumulativo. “O segmento passa a ser tributado na aquisição, sem direito a crédito, e também na saída. No caso da importação, a indústria de fertilizantes terá de recolher PIS e Cofins sem possibilidade de compensação”, afirma a tributarista.
Na prática, trata-se de um custo adicional incorporado à formação de preços, com potencial de repercussão direta sobre os produtores rurais e, ao final da cadeia, sobre o consumidor.
Insegurança jurídica amplia risco de cumulatividade e judicialização
Diante da ausência de uma lista expressa sobre quais benefícios foram efetivamente alcançados pela Lei Complementar 224/2025, Cintia recomenda uma análise criteriosa caso a caso. Segundo ela, é necessário verificar se o tributo envolvido está entre aqueles abrangidos pela norma, como PIS, PIS-Importação, Cofins, Cofins-Importação, Imposto de Importação (II), IPI, IRPJ, CSLL e CPP.
Além disso, o benefício precisa constar no Demonstrativo de Gastos Tributários da Lei Orçamentária Anual (LOA), enquadrar-se como incentivo fiscal e não se tratar de uma exceção legal específica.

Fonte: Martinelli Advogados
Segundo Cintia, os critérios mencionados não esgotam as possibilidades de enquadramento e a interpretação dependerá, em grande medida, do entendimento adotado pela Receita Federal, aspecto que não está detalhado na Lei Complementar 224/2025. “Há situações que, em tese, não se enquadram, mas a Receita pode interpretar de forma diferente, o que pode gerar discussões amplas e até judicialização”, menciona a advogada.
Por sua vez, Costa Lucas observa que, até o fim do ano passado, não havia preocupação prática em diferenciar, sob a ótica do governo, o que seria benefício fiscal e o que configuraria gasto tributário. Anualmente, a Receita encaminha a relação de gastos, mas a nova regra levanta a dúvida sobre se todos os itens listados podem ser automaticamente classificados como benefícios. “Nem tudo que está ali necessariamente é benefício”, pontua.

Foto: Divulgação/Governo da Bahia
Para ele, é essencial verificar se o item está previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) e, além disso, se efetivamente se caracteriza como incentivo fiscal. Como não há definição legal clara sobre esse enquadramento, forma-se uma zona de incerteza. Costa Lucas destaca que o debate sobre a natureza dessas rubricas estava adormecido e volta agora ao centro da discussão. Na avaliação dele, a redução linear pode atingir mecanismos básicos do sistema, reintroduzindo cumulatividade, especialmente em cadeias do agronegócio.
Na ponta, o impacto tende a alcançar o consumidor. Isso porque o varejo passará a adquirir produtos que sofreram tributação ao longo da cadeia sem possibilidade de crédito. Como o imposto é calculado ‘por dentro’, o custo se incorpora ao preço. Na prática, segundo a tributarista, um modelo concebido como não cumulativo passa a operar com efeitos cumulativos, pressionando o valor final pago pelo consumidor.
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Nelore, o boi que samba
Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.
A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB
Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.
Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.
A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.
À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.
Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.
O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.



