Bovinos / Grãos / Máquinas
Impacto de quatro doenças reprodutivas da pecuária leiteira
Reprodução é sem dúvida um dos pontos mais importantes que devem ser levados em consideração
Artigo escrito por Giovani Pastre, médico veterinário, especialista em Produção de Leite e Reprodução Bovina, metre em Ciência Animal e gerente Técnico Biológicos – FPA – Virbac Brasil
A pecuária leiteira é sem dúvida um negócio muito rentável. Apesar de ocorrerem continuamente variações de preço pago ao produtor e variações no preço das commodities usados como alimentos para as vacas, a atividade mostra-se ainda assim bem atrativa. Porém seu máximo retorno econômico depende da adequação de inúmeros pontos da “porteira para dentro”.
A reprodução é sem dúvida um dos pontos mais importantes que devem ser levados em consideração. Saber como está o nível de eficiência reprodutiva é fundamental para saber o quanto pode ser melhorado. O intervalo entre partos (IEP) de uma fazenda é um indicativo básico e de fundamental conhecimento para determinar o status de eficiência reprodutiva que fazenda se encontra. Dados da Embrapa nos mostram um aumento de cerca de 8% na produção a cada 30 dias que conseguimos reduzir o IEP.
O aumento de 8% na produção a cada 30 dias de redução no IEP pode nos dar uma ideia de como a produção pode aumentar, em um rebanho com longos intervalos entre partos, com 18 meses de IEP, por exemplo, para um rebanho com 12 (ideal) ou até 13 meses de IEP. O aumento da produção pode ser de até 48% quando saímos de 18 meses para 12 meses de IEP. 48% de aumento é muita coisa para um setor em que o lucro vem em centavos com os ajustes dos mínimos detalhes dentro da fazenda.
Principais causas de falhas reprodutivas e perdas gestacionais
Qual é a saída para chegarmos nos almejados 12 meses de IEP? Ter uma reprodução eficiente é a base para alcançar este patamar. E quando falamos de reprodução em bovinos de leite, inúmeros fatores estão envolvidos nas perdas gestacionais. No campo, em contato com fazendeiros e veterinários, estima-se perdas na ordem de 25% no início da gestação, com repetições de cio e morte embrionária até os 42 dias de gestação. Dos 42 dias até o parto, perdas na ordem de 10% são visualizadas rotineiramente.
Quais os fatores estão envolvidos com estas perdas?
Diversas são as causas envolvidas, sendo as principais descritas a seguir:
- Falha nutricional: A energia é o principal nutriente requerido por vacas em reprodução. A mineralização de vacas no período de transição é muito importante para o desempenho reprodutivo pós-parto.
- Problemas de micotoxinas na dieta: sabe-se alimento má conservados podem trazer micotoxinas em sua composição, o que resulta em falhas reprodutivas.
- Excesso de proteína na dieta: o uso de dieta não balanceada pode resultar em excesso de proteína na dieta, o que leva ao aumento do nitrogênio circulante, sendo este tóxico para o embrião.
- Problemas de estresse térmico, principalmente em regiões e épocas onde as temperaturas são mais altas.
- Falhas de detecção de cio: a falha de detecção de cio é um dos principias problemas para quem usa a inseminação artificial ou monta controlada. Problemas relacionados com manejo de sêmen, como conservação, momento da inseminação, habilidade do inseminador podem resultar em taxas de concepção baixas.
- Metrite e endometrite puerperais são também consideradas causas de falha na concepção.
- Plantas tóxicas: A ingestão de determinadas plantas toxicas pode levar a perdas gestacionais em bovinos.
Doenças Reprodutivas
Dados da Embrapa mostram que o impacto das doenças reprodutivas na pecuária de leite é muito grande. Estima-se que cerca de 40 a 50% de todos os problemas encontrados tem relação com doenças reprodutivas.
Dados de laboratórios especializados em diagnósticos mostram que mais de 90% dos rebanhos tem presença de IBR e BVD, mais de 82% tem presença de leptospiras e entre 23 a 72% dos rebanhos têm presença de campylobacter.
Principais doenças reprodutivas dos bovinos
Leptospirose
É uma importante zoonose com presença forte em fazendas de leite e corte. A doença está presente no rebanho, oriunda de contato dos bovinos com roedores e animais silvestres. A contaminação pode ser direta ou indireta, onde temos diferentes maneiras de contaminação:
- Contato de roedores com ração que será destinada ao consumo dos bovinos
- Roedores com acesso livre em saleiros
- Roedores com acesso a aguadas usadas pelos bovinos
- Presença de capivaras em aguadas
- Presença de roedores nos cochos de fornecimento de silagens e rações
A partir da contaminação de uma única vaca, vemos o problema relacionado com reprodução, repetição de cio, morte embrionária ou aborto nesta vaca, porém ela passa para o estado de “portador renal”, em que toda vez que urinar estará jogando no ambiente urina com presença de leptospira, o que pode agravar ainda mais os problemas reprodutivos da fazenda, pois esta vaca tem alto risco de contaminar outras vacas presentes no rebanho.
Para o controle de leptospirose ser eficiente, diversas ações são necessárias dentro da fazenda.
1. Controle de roedores para evitar que tenham contato com alimentos e contaminem mais vacas
2. Bloqueio de acesso a áreas alagadas: áreas alagadas acabam sendo uma das formas mais comuns de contaminação de vaca para vaca.
3. Tratamento de animais positivos: é uma medida importante a ser tomada, pois nenhuma vacina tem poder de curar uma vaca portadora renal, então, uma estratégia boa de controle é:
3.1 O tratamento de casos pontuais (vacas que apresentam problemas de repetição de cio, morte embrionária ou abortos) imediatamente após a ocorrência.
3.2 Tratar todas as vacas na secagem, até passar pelo tratamento em todas as vacas
4. Vacinação de todos os animais em reprodução: de nada adianta fazermos as medidas relacionadas com meio ambiente e tratamento dos animais se não pensarmos em uma proteção efetiva. Existem várias vacinas disponíveis no mercado, com número variável cepas presentes. O objetivo da vacinação é obter proteção para um maior número de leptopiras.
O Programa de vacinação para leptospirose deve ser intensificado de acordo com o desafio de cada fazenda. Sempre converse com seu veterinário para ajustar o melhor programa.
BVD – Diarreia viral bovina
A BVD é uma doença que causa importante impacto econômico na atividade leiteira. Nos animais gestantes, podem ocorrer os sintomas reprodutivos, como abortos, natimortos, má formação fetal e absorção embrionária.
Além desses sintomas reprodutivos, a doença pode levar os animais a um quadro de imunossupressão, deixando-os vulneráveis a outras enfermidades e, ainda, reduzir a produção de leite. Os animais persistentemente infectados (PI) são procedentes de mães que tiveram contato com o vírus, entre 40 e 120 dias de gestação. Estes animais são a fonte de transmissão viral, pois são responsáveis pela manutenção do vírus no rebanho. “Apesar de muitos animais PI nascidos terem algum problema visual relacionado com deficiência ou desenvolvimento reduzido, muitos deles nascem com aspecto normal e acabam fazendo parte do rebanho, o que aumenta o impacto negativo da doença no plantel.
As principais vias de eliminação do vírus são: secreções nasais, saliva, sangue, fezes e urina. Em rebanhos onde os animais não tiveram nenhum contato prévio com o vírus e não possuem qualquer tipo de imunização, podem ocorrer surtos esporádicos com altas taxas de aborto após a infecção inicial.
Para controle de BVD, o ideal é a identificação e eliminação de animais PI, uma técnica ainda pouco disponível no campo, com o uso paralelo de vacinação sistemática de todo rebanho. Os intervalos de aplicação devem ser ajustados de acordo com o médico veterinário, podendo ser intensificadas em casos de presença forte de BVD, identificada através de exames sorológicos.
IBR – Rinotraqueíte Infecciosa Bovina
A IBR é uma doença causada pelos herpes vírus bovino tipos 1 e 5. A vaca se contamina com o vírus quando exposta a animais portadores. Uma vez contaminados, os animais permanecem positivos por toda sua vida, ficando o vírus em estado de latência. Quando ocorre queda de imunidade dos animais, o vírus reativa e causa problemas relacionados com a reprodução e problemas respiratórios nos animais afetados.
Os sintomas reprodutivos visualizados são repetições de cio, morte embrionária e abortos. A manifestação clínica do vírus no sistema reprodutivo compreende lesões herpéticas em todo sistema reprodutivo, levando a infertilidade temporária nos animais acometidos. Os sintomas respiratórios visualizados são ocorrência de corrimento nasal, tosse e secreção ocular nos animais acometidos.
O objetivo da vacinação do rebanho para IBR é manter as vacas positivas com alto status imunitário frente aos vírus, impedindo que ocorra a manifestação clínica nestes animais, e também proteger as vacas negativas, impedindo a contaminação de um eventual contato com animais portadores. A vacinação usada de forma continua no rebanho proporciona a quebra da cadeia epidemiológica da doença, em que vacas positivas acabam sendo eliminadas do rebanho por diferentes critérios e substituídas por novilhas negativas que já entraram no esquema de vacinação desde bezerra.
Campilobacteriose
Campylobacter é uma bactéria que tem presença nas criptas prepuciais de touros. Os touros, no momento da monta, transmitem a bactéria para as vacas, ocasionando problemas desde repetições de cio ou até mesmo abortos entre 5 e 6 meses de gestação.
O controle ideal é a avaliação dos touros frequentemente, fazendo testes de raspado prepucial e cultura de campylobacter. Este controle acaba sendo pouco usado no campo, diante disso a melhor forma de prevenção é a vacinação das vacas, protegendo contra a bactéria, e a vacinação também dos touros.
O que é importante fazer para obter o máximo controle das doenças reprodutivas
A utilização de um programa de vacinação do rebanho é fundamental para obtenção de proteção dos principais agentes envolvidos. A vacina mais completa e mais moderna disponível no mercado tem efetiva proteção para 15 agentes que causam perdas reprodutivas, sendo 2 cepas de IBR, 2 cepas de BVD, 3 cepas de Campylobacter e 8 cepas de Leptospira.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2018 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


