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Impacto da gestão de custos na rentabilidade da pecuária intensiva

Propriedades que possuem um nível de gestão capaz de estimar seus custos de produção anuais, ganham a vantagem de negociar preços de venda que garantam a margem projetada para o período.

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Fotos: Divulgação/Arquivo OPR

Com o aumento da pressão pelo uso de áreas pela agricultura, pecuaristas têm enfrentado o desafio de competir com as margens provenientes da produção de grãos. Ao analisarmos os sistemas de recria e engorda no Brasil, constatamos ainda a predominância de sistemas de produção de caráter extensivo, os quais, devido às suas características, apresentam baixa previsibilidade de produção ao longo do ano. Esses sistemas estão frequentemente vulneráveis às oscilações de preços de mercado, tanto na aquisição de insumos quanto na reposição e venda de animais.

Foto: Wenderson Araujo

Em contrapartida, propriedades que adotam um maior nível de tecnificação e intensificação produtiva exigem um acompanhamento mais rigoroso da gestão dos indicadores de desempenho, dado o aumento do risco inerente ao incremento dos custos de produção necessários para atingir esses níveis. Assim, propriedades que conseguem prever adequadamente os custos de produção para um determinado período, alinhados ao fluxo de entrada e saída de animais conforme os níveis produtivos planejados, podem implementar estratégias de compra e venda mais eficientes, permitindo uma maior previsibilidade na margem de lucro ao longo do ano.

Durante o levantamento realizado pelo Projeto Campo Futuro 2024, foi notório o impacto da gestão de custos sobre as margens obtidas pelos sistemas de produção mais intensificados na amostragem. Para esse perfil de propriedade, observou-se que a aquisição de animais para reposição do rebanho corresponde, em média, a 52,23% do Custo Operacional Total (COT) das propriedades de recria e/ou engorda analisadas, demonstrando, portanto, que estratégias de negociação que visem melhores preços de compra têm impacto positivo sobre a margem do pecuarista.

A análise apresentada no gráfico 1, sugere uma tendência de queda de preços no mercado de reposição a partir de abril. Para o bezerro, este movimento está associado à maior oferta de bezerros desmamados, decorrente do desmame durante a safra, além da necessidade das propriedades de cria de reduzir a lotação para enfrentar o período de seca. Para o boi magro, as condições climáticas do período também têm impacto direto, visto que propriedades de recria aproveitam o período de maior oferta de forragem (outubro a abril) para recriar os bezerros adquiridos e realizar a comercialização para engorda, normalmente durante a seca. Dessa forma, a janela de oportunidade para a compra de animais a preços mais vantajosos tende a ocorrer entre abril e agosto, sugerindo melhores condições de negociação no período.

Assim como o planejamento estratégico de compras de animais em períodos específicos pode otimizar os resultados da operação, a comercialização dos mesmos para o abate também pode ser planejada através de ferramentas que permitam aos pecuaristas negociarem preços com maior previsibilidade de margem ao longo do ano. Propriedades que possuem um nível de gestão capaz de estimar seus custos de produção anuais, ganham a vantagem de negociar preços de venda que garantam a margem projetada para o período.

Ao avaliar a comercialização de animais para o abate, verifica-se que, ao comparar os preços no mercado físico, conforme a cotação do Indicador do Boi Gordo Cepea/B3, com as médias dos ajustes diários de contratos futuros da B3 nos meses correspondentes, surge uma janela de oportunidade para negociação de preços, que podem funcionar como uma medida de proteção de margens para o pecuarista, especialmente em um ano de queda nos valores de venda do boi gordo (Gráfico 2).

Destaca-se que a negociação de preços no mercado futuro não assegura, necessariamente, uma maior rentabilidade para o produtor, mas atua como uma ferramenta de proteção, especialmente em períodos de retração do mercado de venda. Essa estratégia permite ao produtor garantir uma margem mínima aceitável para a viabilidade de sua atividade ao longo do ano.

É fundamental salientar que, ao utilizar a ferramenta de travamento de preços no mercado futuro, não é recomendável fixar o preço de venda de 100% dos animais no início das negociações. De forma mais estratégica, o produtor deve realizar operações ao longo do ano, monitorando constantemente as tendências de mercado e outros fatores relevantes. Esse acompanhamento contínuo permite obter, na média dos preços negociados, uma precificação de venda mais vantajosa e, consequentemente, melhores margens.

De modo geral, ao compreender os momentos ideais de compra e venda de animais, o produtor pode procurar desenvolver estratégias de produção que aproveitem as tendências de mercado. Propriedades intensivas possuem um maior domínio sobre os índices zootécnicos, o que confere maior precisão na definição dos períodos em que os animais estarão prontos para comercialização. Portanto, a utilização de ferramentas de negociação, como o mercado futuro, pode beneficiar esses pecuaristas que, ao alinharem expectativas sobre as oportunidades de venda, obteriam melhor previsibilidade de margens.

Ao avaliar o impacto dessa ferramenta de negociação nos resultados, observa-se que as margens alcançadas podem variar conforme os valores definidos no travamento de venda na bolsa. Nos levantamentos de 2024, a propriedade típica da região de São José do Rio Preto-SP, a qual trata-se de um sistema de confinamento, apresentou preço médio de venda de R$ 5.057,15 por cabeça, considerando um animal de peso médio de 19,9 arrobas, portanto R$254 por arroba. O custo de produção total (COT) desse animal abatido foi de R$5.047,60, do qual R$ 3.259,35 foram provenientes da reposição. Constata-se então que a propriedade obteve uma margem líquida de R$9,54 por animal abatido.

Assumindo-se a constância deste custo de produção para a terminação de um animal durante o ano, foi simulada a lucratividade potencial de tal sistema caso a receita sobre os animais abatidos fosse indexada pelos valores dos ajustes diários de contratos do Boi Gordo durante o ano de 2023. Como resultado, ao segmentar os ajustes diários em diferentes níveis de preço, verifica-se que a margem líquida potencial do sistema seria superior  àquela levantada no mercado físico para o painel em pelo menos 75% dos dias negociados para os contratos do ano, resultando, assim, em um aumento da lucratividade do sistema ao longo do ano (Gráfico 3).

Conclui-se que propriedades de caráter mais intensivo enfrentam um risco contínuo, decorrente dos altos custos de produção. Dessa forma, demandam cada vez mais identificar os melhores momentos para negociar a compra da reposição, bem como utilizar ferramentas de negociação de preços, como o mercado futuro. Assim, tais métodos visam garantir maior previsibilidade das margens, sobretudo em períodos de baixa do ciclo pecuário.

Por fim, a próxima safra traz expectativa de virada de ciclo em 2025, visto que o preço do bezerro já começou a se recuperar no segundo semestre de 2024 e a tendência é de que siga este movimento, despertando maior interesse de pecuaristas em reter suas fêmeas, o que resultará em uma redução da disponibilidade de animais prontos para o abate. Dessa forma, os preços da arroba do boi gordo tendem a ser impulsionadas no médio e longo prazos. Portanto, até o fim de 2025, o movimento altista nas cotações do boi pode ser realidade.

Fonte: Assessoria Cepea

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Fazendinha da ExpoLondrina destaca inovação, saúde e produção de leite

Estande reúne orientações sobre animais peçonhentos e tecnologias aplicadas à bovinocultura leiteira.

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Foto: UEL

O público que visita a Fazendinha Via Rural 2026, dentro da ExpoLondrina, encontra um estande diverso e voltado para a inovação. Dois dos destaques envolvem trabalhos com animais peçonhentos e produção de leite.

Um dos temas apresentados é o cuidado com escorpiões, aranhas e outros animais peçonhentos, comuns no ambiente rural. A ação é desenvolvida por estudantes do Programa de Educação Tutorial de Biologia PETBio) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), em parceria com profissionais da área de saúde e controle de endemias. Com atividades interativas, exemplares dos animais e orientações diretas sobre prevenção no dia a dia, eles transformam a Fazendinha em um grande centro de educação em saúde.

Segundo a estudante do quinto ano de Biologia da UEL, Amanda de Sena da Silva, o foco principal é conscientizar sobre o escorpionismo, que é o envenenamento causado pela picada de escorpiões. “Trouxemos algumas espécies, inclusive o escorpião amarelo, que é o mais comum. Também apresentamos filhotes e até um pseudoscorpião, que é um aracnídeo inofensivo, para mostrar que nem todos representam risco”, explica.

Além da observação dos animais, o público recebe orientações práticas para evitar a presença desses organismos em casa. Entre as recomendações estão verificar roupas e calçados antes de usar, manter ralos e caixas de gordura fechados, afastar camas das paredes e eliminar possíveis fontes de alimento, como baratas.

O estande na Fazendinha também apresenta outras espécies de aranhas e serpentes, além de abordar doenças relacionadas, como a esporotricose e a febre maculosa. A proposta é ampliar o conhecimento da população e evitar o extermínio desnecessário de animais que não representam perigo.

Com linguagem acessível e atividades demonstrativas, o espaço reforça a importância da educação ambiental e da conscientização como ferramentas fundamentais para a saúde pública e a convivência segura com a fauna.

Leite

Outra novidade da Fazendinha Via Rural inclui tecnologias reprodutivas de ponta, boas práticas de ordenha com demonstrações interativas e métodos inovadores para garantir a segurança alimentar e a qualidade do leite, aproximando o público da produção sustentável.

Um dos focos do estande é a conscientização sobre a segurança e a qualidade do leite. Representando o Laboratório de Inspeção de Produtos de Origem Animal (LIPOA), estudantes demonstram como a qualidade do leite começa ainda na criação das bezerras, destacando a importância de boas condições de saúde, alimentação e bem-estar animal.

Também são apresentadas as boas práticas de ordenha, que incluem cuidados antes, durante e após o processo, garantindo um produto seguro para o consumo. “A vaca define a qualidade do leite. A gente trabalha com boas práticas de ordenha, que são medidas que a gente faz a pré-ordenha, durante e pós para garantir a qualidade do leite”, contou Catarina Rodrigues, estudante de Medicina Veterinária na UEL.

Entre as técnicas demonstradas estão o teste da caneca de fundo preto e o CMT (California Mastitis Test), utilizados para a detecção de mastite clínica e subclínica, além dos procedimentos de pré e pós-dipping, fundamentais para a higienização e prevenção de doenças no rebanho leiteiro. Outro destaque do estande é a apresentação de tecnologias reprodutivas aplicadas à bovinocultura.

Estagiários do Grupo de Reprodução Animal (Reproa) representam o Centro de Treinamento Pecuário (CETPEC), que oferece cursos especializados, incluindo o de inseminação artificial em bovinos. A técnica, utilizada há mais de 50 anos, vem ganhando espaço no Brasil por seu potencial de melhorar a genética do rebanho e aumentar a produtividade.

Serviço

A Via Rural Fazendinha funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, e aos sábados e domingos, das 9h às 19h, no Parque de Exposições Ney Braga, durante a ExpoLondrina 2026, entre os dias 10 e 19 de abril.

Simpósio

A ExpoLondrina também recebeu no começo da semana a 7ª edição do Simpósio de Equideocultura, reunindo médicos veterinários, zootecnistas, agrônomos, estudantes e profissionais do setor em busca de atualização e aprofundamento em temas estratégicos da área. Promovido em parceria entre a Sociedade Rural do Paraná (SRP) e a UEL, o evento reforça o papel da feira como um ambiente de troca de conhecimento e desenvolvimento para o agronegócio.

A programação incluiu palestras com especialistas que abordaram desde biotecnologias reprodutivas até práticas clínicas, esportivas e de manejo de equinos. A equideocultura é a área da zootecnia dedicada à criação, manejo, nutrição, reprodução e melhoramento genético de equídeos, abrangendo cavalos, asininos (jumentos) e muares (burros/mulas).

À frente da organização do simpósio, Roberta Garbelini Gomes Zanin, egressa do curso de medicina veterinária da UEL, reforçou que a iniciativa busca aproximar o meio acadêmico e o mercado, criando oportunidades tanto para profissionais quanto para estudantes que desejam se qualificar. “É um espaço de atualização técnica e também de conexão com o que há de mais atual no setor”, ressaltou.

Um dos palestrantes do simpósio, o médico veterinário e professor da UEL Fábio Morotti, do Departamento de Clínicas Veterinárias (CCA), abordou o cenário da equideocultura no Brasil e no mundo, com destaque para o avanço das biotecnologias reprodutivas. Segundo ele, técnicas como a transferência de embriões têm ampliado as possibilidades de melhoramento genético, inclusive permitindo o aproveitamento de fêmeas que não poderiam mais gestar naturalmente, seja por questões clínicas ou limitações físicas.

“O Brasil possui hoje cerca de 8 milhões de equídeos (cavalos, asininos, muares) e ocupa a terceira posição no ranking mundial, atrás apenas dos Estados Unidos e do México no número de cavalos. Em termos de uso de biotecnologias reprodutivas, já estamos equiparados aos Estados Unidos”, comemorou.

De acordo com o especialista, o País também se destaca pela qualidade da mão de obra técnica, com profissionais reconhecidos internacionalmente e atuação crescente no exterior. “Hoje, o Brasil não só utiliza essas tecnologias como também exporta conhecimento, especialmente na área de reprodução animal”, afirmou.

Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta desafios importantes. Cerca de 75% da tropa brasileira é utilizada em atividades de lida no campo, um segmento que ainda demanda maior acesso a tecnologias, investimento em genética e melhorias no manejo.

Fonte: AEN-PR
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Supermercado é a vitrine decisiva da carne bovina no Brasil, aponta pesquisa

Levantamento mostra que 69% das compras da proteína no Brasil ocorrem em supermercados, 78% cobram produção sustentável, 73% consomem carne no almoço em casa e mais de 70% pagariam valor adicional por origem, certificações e bem-estar animal no ponto de venda.

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Foto: Gilson Abreu

O supermercado deixou de ser apenas um elo logístico e virou a vitrine onde a carne conquista seu consumidor. Levantamento nacional encomendado pelo movimento A Carne do Futuro é Animal e realizado pelo Instituto Qualibest ouviu 1.021 pessoas entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 em todas as regiões do país. O resultado mostra que 69% das compras de carne bovina são feitas em hiper e supermercados, e que é ali, no balcão e na gôndola, que o cliente espera ver informações claras sobre origem, rastreabilidade e bem-estar animal.

A carne continua um item de rotina. 63% dos entrevistados consomem a proteína duas ou mais vezes por semana e 21% uma vez por semana. 73% apontam o almoço em casa como a ocasião principal e 62% citam o churrasco como momento frequente. “Quando o supermercado aparece como principal canal de compra, ele vira vitrine de credibilidade para a categoria. O desafio é combinar operação impecável e comunicação simples, visível e verificável sobre sustentabilidade e bem-estar animal”, diz Nicholas Vital, coordenador do movimento A Carne do Futuro é Animal.

Foto: Freepik

Esses padrões tornam a operação no ponto de venda tão decisiva quanto as promessas do campo. Com 66% citando preço, 45% frescor e 40% data de validade como prioridades, o consumidor compra com os olhos e com o bolso. Ao mesmo tempo, o consumidor exige responsabilidade já que 78% consideram importante que a carne seja produzida de forma sustentável.

A confiança na qualidade da carne brasileira segue elevada, com 80% avaliando-a como boa ou ótima. Sobre saúde, 91% veem benefícios no consumo, sendo 82% que destacam a carne como fonte de proteína e 57% que citam ferro e vitaminas. Esses números mostram que o público não abandona o produto, mas pede provas simples e verificáveis no ponto de venda.

Há também disposição a pagar por garantias. Para saber a origem, 44% dizem que pagariam um pouco a mais e 19% que pagariam mais. Para carne com certificações de sustentabilidade, 51% pagariam um pouco a mais e 22% pagariam mais. Para certificações de bem-estar animal, 49% pagariam um pouco a mais e 24% pagariam mais. Essas respostas confirmam que evidências concretas têm valor comercial no PDV.

Foto: Shutterstock

Ao que tudo indica, a raça Angus é a preferida por 37% dos entrevistados. Há também curiosidade por novas proteínas: sobre carne vegetal, 26% nunca consumiram e não têm interesse, 26% nunca consumiram mas têm interesse e 24% consomem às vezes.

Em relação à carne cultivada, 37% conhecem o conceito e 63% não conhecem, com fatias relevantes de “sim com certeza” e “talvez” ao perguntar sobre experimentar.

Sobre o Canivete Pool

A campanha ‘A carne do futuro’ é uma iniciativa do Canivete Pool, projeto criado por produtores do Mato Grosso com o objetivo de auxiliar a gestão das fazendas, fomentar o aumento da produtividade média e melhorar os indicadores de sustentabilidade da carne produzida. Criado em 2022, o grupo conta atualmente com 74 membros em 27 municípios do estado, que juntos devem abater mais de 200 mil cabeças de gado este ano.

Fonte: Assessoria Nutripura
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Selo Canchim on Dairy fortalece integração entre pecuária de leite e corte

Iniciativa melhora desempenho dos animais e amplia rentabilidade no campo.

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Fotos: Juliana Sussai

A raça bovina Canchim é a segunda a receber um selo Beef on Dairy (carne no leite) no Brasil, após a Angus. A certificação, denominada Canchim on Dairy, identifica touros da raça aptos ao cruzamento com vacas leiteiras mestiças da raça Girolando, garantindo qualidade aos bezerros. Além de proporcionar carne de alta qualidade para o segmento de cortes nobres, a iniciativa ajuda a diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.

Foto: Gisele Rosso

A estratégia é usar sêmen de touros de corte para obter animais com valor comercial mais alto para a produção de carne. De acordo com a pesquisadora Cintia Righetti Marcondes, da Embrapa Pecuária Sudeste (SP), o selo representa uma oportunidade para produtores de leite ampliarem a renda, agregando valor aos bezerros (machos e fêmeas) excedentes que, em sistemas puramente leiteiros, costumam ter baixo valor de mercado.

“O objetivo é atender ao produtor que deseja uma segunda fonte de faturamento, vendendo esses animais para corte. Canchim é uma raça terminal que, ao ser cruzada com vacas mestiças, traz melhor qualidade de carcaça, mais peso ao desmame e ao sobreano (novilho com mais de um ano). Além disso, é uma alternativa que agrega bem-estar animal, evitando o descarte de machos recém-nascidos, que passam a ser recriados e destinados ao abate por possuírem uma carne superior”, explica Cintia Marcondes.

Segundo o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso, o selo Beef on Dairy para a raça Canchim representa um avanço importante para a identificação dos reprodutores mais adequados ao cruzamento com vacas leiteiras. O selo  identifica esses reprodutores, que podem ser direcionados a centrais de inseminação e ganhar destaque em leilões voltados a esse mercado.

Foto: Divulgação

Assim como Cardoso, a presidente da Associação Brasileira de Criadores de Canchim (ABCCAN), Cristina Ribeiro, ressalta que o selo é um marco na consolidação da raça dentro dos sistemas produtivos modernos. “Embora o cruzamento entre o Canchim e raças leiteiras já seja uma prática tradicional entre nós pecuaristas, a criação de um selo oficial traz reconhecimento, padronização e segurança ao mercado. Essa iniciativa fortalece a integração entre pecuária de leite e de corte, ao mesmo tempo em que apoia o produtor leiteiro com alternativas mais eficientes para o aproveitamento de seus animais e contribui diretamente para a expansão da oferta de carne de qualidade, agregando valor a toda a cadeia produtiva”, destaca a presidente da ABCCAN.

A pesquisadora da Embrapa conta que em regiões quentes e desafiadoras, como o Centro e o Norte do País, o Canchim é uma excelente opção pela sua pelagem clara e adaptação ao calor. O uso de sua genética permitirá gerar animais com carcaças de maior rendimento e gordura adequada, adaptados aos trópicos. Ele transmite aos seus descendentes precocidade e padronização, com bezerros que podem superar o Nelore em 10% a 15% no peso à desmama.

A estratégia possibilita ganhos diretos na qualidade do produto final. “O padrão genético certificado permite aumentar o rendimento de carcaça e a conformação, assim como obter animais de bom acabamento que atendam as características de um mercado consumidor cada vez mais exigente”, complementa Cardoso.

Como obter o selo?

Para um touro receber o selo Canchim on Dairy, deve atender a critérios técnicos baseados em avaliações genéticas para garantir o desempenho e a segurança do cruzamento. “Utilizamos como base as avaliações genéticas do Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo). Estabelecemos critérios restritivos para a análise, cujo resultado indica se o touro pode ou não receber o selo. Os requisitos, além do peso ao nascimento (que deve estar entre os 40% melhores), incluem a classificação de ganho de peso do nascimento ao desmame e pós-desmame, onde selecionamos os 50% melhores animais. Na conformação, escolhemos os 30% melhores; no tamanho (frame), buscamos o intervalo entre 30% e 50% para evitar animais excessivamente pequenos ou grandes; e na área de olho de lombo, os 40% superiores”, revela Cintia Marcondes.

De forma resumida, o touro deve possuir Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs), com bom grau de acurácia, divididas em 10 grupos (Decas, veja explicação em quadro abaixo) para características produtivas, como:

• Peso ao Nascer (PN): animais com Decas* menores ou iguais a quatro (até 40% melhores da raça), visando bezerros com menor peso ao nascimento para evitar dificuldade no parto.

• Ganho de Peso: Decas menores ou iguais a cinco para garantir potencial de crescimento do nascimento ao sobreano.

• Conformação ao sobreano: Decas menores ou iguais a três, visando musculosidade superior.

• Tamanho ao Sobreano: Decas entre três e cinco para identificar machos de tamanho mediano, evitando carcaças excessivamente grandes ou pequenas.

• Área de Olho de Lombo: Decas menores ou iguais a quatro para assegurar rendimento de carcaça e qualidade de cortes nobres.

Simulações realizadas na base de dados do Promebo identificaram que, com esses critérios, diversos machos da raça já estão aptos à obtenção da certificação.

Benefícios esperados

O touro que atingir os critérios estabelecidos terá o selo no certificado de avaliação genética, que funciona como um guia para o produtor de leite e para as centrais de coleta e processamento de sêmen, com a identificação e comercialização de animais com características desejadas.

Essa chancela vai trazer vários benefícios, como reduzir o risco de partos difíceis, um fator crítico para a saúde da vaca leiteira; aumentar o valor de venda dos bezerros, criando um produto diferenciado; e melhorar a sustentabilidade do sistema, com a produção de carne com menor pegada ambiental por quilo produzido.

O selo Canchim on Dairy representa um avanço tecnológico para a pecuária brasileira, unindo pesquisa científica e aplicação prática no campo. Essa raça possui excelente mercado, não apenas para venda de sêmen, mas também para uso a campo, devido ao seu bom desempenho. A pesquisadora ressalta que pequenos produtores de leite podem, por exemplo, adquirir um touro em consórcio para trabalhar no rebanho por alguns anos.

“Em nossa região tropical, o uso da raça Angus não é viável a campo, apenas via sêmen. Assim, o Canchim é uma alternativa especializada para substituir touros de raças zebuínas, como Tabapuã ou Guzerá, no cruzamentos com vacas mestiças para gerar bezerros melhores. Um ponto interessante é que tanto machos quanto fêmeas cruzados têm valor de mercado. A fêmea jovem é muito valorizada, pois deposita gordura na carcaça precocemente, o que permite um abate com excelente qualidade”, acrescenta a pesquisadora.

A iniciativa do Canchim on Dairy foi liderada pela Embrapa e os parceiros da Associação Brasileira de Criadores de Canchim (ABCCAN), Associação Nacional de Criadores “Herdbook Collares” (ANC) e o Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo).

Fonte: Assessoria Embrapa Pecuária Sul
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