Avicultura
Impacto da ambiência sobre problemas respiratórios ligados ao gás amônia
Grandes são os impactos dos gases gerados pelas aves em seu processo de produção devido à má qualidade do ar e umidade da cama, ocasionado principalmente por manejo inadequado das instalações.


Foto: Divulgação
Artigo escrito por Kenes Leonel de Morais Castro, consultor de serviços técnicos Aves Agroceres Multimix
Grandes são os impactos dos gases gerados pelas aves em seu processo de produção devido à má qualidade do ar e umidade da cama, ocasionado principalmente por manejo inadequado das instalações (estruturas mal dimensionadas, falta de isolamento, falhas de projetos, falha no treinamento de mão de obra, entre outros).
Estes fatores impactam diretamente o status sanitário do lote, abrindo portas para agentes oportunistas presentes no ambiente. E na maioria dos casos, há uma correlação dos fatores causadores, predispondo ainda mais ao aparecimento de patologias que acometem o trato respiratório.
Nas aves, os pulmões são ligados a nove sacos aéreos. Essas estruturas permitem uma alta eficiência de troca de gases do ar, visto que, após passar pelos sacos aéreos posteriores, o ar é forçado através dos pulmões por compressão dos brônquios primários, antes de retornar para o exterior. Apesar de possuírem pulmões rígidos e pequenos, esse mecanismo permite que a ventilação ocorra de forma eficaz nas aves.
No entanto, devido a esse fator, as aves ficam expostas aos agentes externos e variação do ambiente. As membranas dos sacos aéreos são normalmente transparentes, muito finas e frágeis que se rompem facilmente ao toque durante a necropsia ou no abate. No entanto, essa condição muda em caso de alterações inflamatórias. Os sacos aéreos tornam-se opacos, apresentam fibrose e, por vezes, acumulam conteúdo líquido e/ou espumoso, ou mesmo caseoso. Esse processo inflamatório é denominado aerossaculite.
Enfermidade infecciosa, pode apresentar diversificadas etiologias, desde bactérias e fungos a infecções virais. Entre os agentes mais encontrados estão: Mycoplasma gallisepticum, Escherichia coli e Aspergillus spp. E os menos frequentes são: Coronavírus, Paramixovírus e Herpes vírus. É frequente quadros de aerossaculite com agentes associados.
A aerossaculite geralmente está ligada a fatores ambientais e tem papel importante na manifestação e/ou na evolução do quadro clínico. Entre os fatores ambientais causadores da aerossaculite destaca-se a amônia (NH3), que se forma devido à falha na ambiência.
Sinais
Os sinais clínicos podem variar, como diminuição na produtividade, taquipnéia, pescoço alongado, respiração com o bico aberto, inquietação, respiração dificultosa, estertores e eriçamento de penas e em casos graves, aumento na mortalidade. Aves com aerossaculite tem seu desempenho zootécnico prejudicado, acarretando peso reduzido e desuniformidade do lote.
Agente
Um dos pontos críticos na avicultura, ligado diretamente à formação e liberação do NH3, é a cama do aviário, que tem o papel de garantir conforto às aves ao absorver parte da umidade, diluir uratos e fezes, proporcionar isolamento térmico e diminuir lesões de peito, joelho e coxim plantar e problemas respiratórios.
Normalmente, a cama é constituída por substratos inertes e sua qualidade depende da composição, tamanho das partículas, teor de umidade e grau de compactação. Pode ser reutilizada, a fim de diminuir os custos de produção, mas isso pode aumentar a umidade e propiciar a produção excessiva de amônia.
O excesso de umidade causada pelo mal manejo dos equipamentos e vazios sanitários curtos, entre outros, contribuem para a formação e liberação do gás. O gás amônia (NH3) é tóxico e reconhecido como um dos contaminantes mais dominantes em galpões que abrigam frangos de corte. Esta molécula provém da quebra do ácido úrico excretado pelos frangos de corte, e a taxa de emissão depende da umidade da cama, que tende a aumentar à medida que a excreta é acumulada no material. Uma vez emitida, a amônia se acumula no interior do aviário até ser liberada para a atmosfera pelo sistema de ventilação.
Os humanos não detectam amônia abaixo de 20ppm e não a percebem como nociva até 50ppm. Desta forma, as aves são afetadas antes que o problema seja identificado, visto ser detectada pelas aves a partir de 15ppm, sendo 25ppm o limite máximo de exposição.
Ajustes da ventilação e manejo adequado da cama são mecanismos estratégicos para manter uma adequada qualidade do ambiente no interior dos galpões.
Causas
A crescente busca por novas tecnologias contribui para as aves expressarem seu potencial genético, porém, faz-se necessário mão de obra qualificada para manter e seguir corretamente os parâmetros dos equipamentos.
A climatização de galpões estimula aumentos na densidade animal para reduzir custos e amortizar investimentos. Todavia, o maior número de aves/m2 aumenta a compactação da cama, o que diminui sua capacidade de absorção e eleva a concentração de amônia. Assim, ambientes de alta densidade requerem melhor controle do teor de amônia, especialmente no final do ciclo produtivo, para evitar prejuízos ao bem-estar e à produtividade do lote.
Em galpões de alta densidade é necessário garantir a troca de ar por meio de ventilação, sem que a temperatura interna do galpão se torne crítica. Os nebulizadores devem estar regulados para produzirem micro gotículas, facilitando a evaporação da água e para não umedecer a cama. Os bebedouros e encanamentos demandam manutenção para evitar derramamento de água na cama e, se ocorrer, é preciso substituir por substrato seco e/ou trituração desta.
O correto dimensionamento é de extrema importância, proporcionando uma dinâmica perfeita de acordo com as necessidades e desafios enfrentados nos ambientes externos e internos. Todavia, falhas nos projetos levam a condições que impactam negativamente a produção.
Uso exacerbado de placas evaporativas e sistemas de umidificação durante o lote interferem nos alojamentos seguintes, pois uma cama mal trabalhada e com umidade elevada aumenta a liberação de amônia, afetando as aves nas primeiras semanas, período crítico. A exposição de animais a altos níveis de amônia causa irritação das membranas mucosas e do trato respiratório, conjuntivite e dermatite.
No sistema respiratório das aves, a traqueia atua como um canal de ar para a respiração, sendo a primeira linha de defesa contra poluentes. A exposição ao NH3 afeta diretamente a traqueia, causando anormalidades na resposta imune traqueal no sistema respiratório. O aumento das células T auxiliares 2 ( Th2 ) e das células T auxiliares 17 (Th17) acelera o desequilíbrio das células reguladoras (Treg)/células T auxiliares 1 (Th1), causando inflamação das lesões da traqueia (Figura 2).
Além disso, a exposição excessiva ao NH3 (30 ppm) causa resposta inflamatória nos neutrófilos do sangue periférico em frangos.

Estes fatores culminam em um gasto metabólico da ave para o sistema imunitário e aumenta a vascularização da área, abrindo portas para agentes expostos no ar. Frangos de corte expostos à amônia, dióxido de carbono e poeira por seis dias consecutivos apresentam perda significativa de cílios a partir do epitélio da porção superior da traqueia, prejudicando o transporte de muco e a eliminação de partículas indesejáveis. A partir de 10ppm de amônia, inicia-se a deterioração dos cílios do epitélio traqueal das aves e, acima de 20ppm, há maior susceptibilidade às enfermidades respiratórias.
Níveis de amônia acima de 25ppm paralisam alguns cílios, que deixam de filtrar contaminantes. Concentrações de 50ppm são capazes de destruir alguns cílios e causar alterações patológicas nas aves, incluindo o desenvolvimento de E. coli na traqueia. Acima de 60ppm de amônia, as aves tornam-se predispostas a doenças respiratórias e infecções secundárias, mesmo após vacinações.
A exposição prolongada à grande concentração de amônia (75-100ppm) resulta em prejuízos à respiração, perda de cílios e aumento de células caliciformes. Quando o nível de amônia atinge 100ppm, há redução na frequência e amplitude respiratória, prejudicando a troca gasosa. Níveis de amônia entre 60 e 100ppm podem ser observados no início de ciclos produtivos quando se reutiliza cama.
Considerações finais
Os impactos negativos gerados pelo mal controle do ambiente das aves afetam diretamente o desempenho e status sanitário do lote, abrindo portas para agentes oportunistas, prejudicando a criação.
O dimensionamento incorreto, somado à falta de manutenção e ao manejo inadequado das instalações, inevitavelmente impactará o desempenho zootécnico e a imunidade dos animais.
Dentre as várias consequências está a formação em excesso da amônia, um dos principais causadores destes problemas, devido ao impacto negativo no sistema de defesa da ave. O conhecimento sobre a forma correta de operação dos sistemas de climatização, assim como uma boa instalação, permite minimizar e até neutralizar estes efeitos negativos, proporcionando bem-estar animal, refletindo em melhor desempenho tanto produtivo como na resposta imunológica às vacinações e agentes nocivos presentes no ambiente.
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Avicultura
Ceará amplia protagonismo na avicultura com produção em mais de 60 municípios
Segundo maior produtor de frangos e ovos do Nordeste, estado combina expansão da atividade, geração de empregos e ganhos logísticos com a aproximação da fronteira agrícola do Matopiba.

A avicultura cearense figura como uma das principais cadeias de proteína animal do Nordeste e vem ampliando sua relevância apoiada em um parque produtivo distribuído por mais de 60 municípios, forte produção de ovos e frangos e investimentos em genética avícola. O setor gera cerca de 15 mil empregos diretos e outros 60 mil indiretos, ocupando a segunda posição regional tanto na produção de ovos quanto de carne de frango e entre os dez maiores produtores do país nos dois segmentos.
Em 2025, de acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o Ceará respondeu por 4,62% do alojamento de pintainhos do Brasil, desempenho que contribuiu para que o Nordeste representasse 15,95% do total nacional. O estado também registrou participação nas exportações brasileiras de material genético avícola, com 257 toneladas embarcadas, equivalentes a 1,42% do volume exportado pelo país.
Na produção comercial, o setor mantém cerca de 13,2 milhões de aves alojadas para postura, responsáveis por aproximadamente 8,2 milhões de ovos por dia. Na avicultura de corte, são outros 14,5 milhões de aves alojadas e uma produção semanal de 6,25 milhões de quilos de carne. Além disso, o Ceará possui cerca de 800 mil matrizes voltadas à produção de material genético avícola.
Para o presidente da Associação Cearense de Avicultura (Aceav), João Jorge Reis, o desempenho reflete uma combinação de experiência produtiva e busca permanente por eficiência. “Temos uma vontade muito grande de crescer, de aperfeiçoar os processos e de melhorar a nossa produção”, afirma.
Dependência de grãos
Apesar dos indicadores positivos, a disponibilidade de insumos sempre figurou entre os principais desafios para a atividade. O consumo mensal da avicultura cearense alcança cerca de 62 mil toneladas de milho e 28 mil toneladas de soja, entre grão e farelo, volumes superiores à capacidade de produção agrícola local.
De acordo com Reis, esse cenário começou a mudar com a expansão do Matopiba, fronteira agrícola formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que ampliou de forma expressiva a oferta regional de grãos. “O Matopiba vem crescendo muito na produção dos grãos, que são os insumos mais importantes para a avicultura, reduzindo uma limitação histórica da cadeia”, enfatiza, destacando: “Os grãos já foram um grande gargalo que a gente tinha que trazer inclusive até de outros países, como a Argentina, e buscava em outros estados como Goiás e Mato Grosso”.
Ele acrescenta que a proximidade da nova fronteira agrícola modificou a logística de abastecimento. “Hoje estamos sendo bem abastecidos, com a expansão da fronteira agrícola temos acesso facilitado e mais próximo de grãos”, observa.
Segundo Reis, essa mudança também reduziu as distâncias percorridas pelos carregamentos de grãos. “Quando você precisa trazer os insumos de muito longe, o custo aumenta. Há alguns anos os grãos estavam a cerca de 2,5 mil quilômetros; hoje estão a aproximadamente mil quilômetros”, explica.
Ainda assim, ele avalia que a dependência externa deve permanecer no longo prazo. “Não vejo, em um horizonte curto, o Ceará produzir grãos em grande escala por conta da escassez hídrica. Vamos continuar dependendo da produção dos estados do Piauí, Maranhão e Tocantins”, salienta.
Mesmo com a aproximação das áreas produtoras do Matopiba, a logística continua exercendo influência significativa sobre os custos da produção animal. Segundo o presidente da Aceav, despesas com frete e transporte elevam em aproximadamente 25% o custo dos grãos utilizados na formulação das rações. Como milho e farelo representam apenas parte da estrutura de custos, esse impacto corresponde a um aumento estimado de cerca de 10% no custo final de produção de aves e suínos.
Ele ressalta que essa diferença varia conforme a localização de cada polo produtivo e sua proximidade das regiões fornecedoras de insumos.
Produção diversificada e tradição no setor
Médico-veterinário há 50 anos, Reis atua na avicultura desde o início da carreira e há mais de três décadas conduz seus próprios empreendimentos no município de Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza. Em sua granja são produzidos cerca de 300 mil ovos por dia. Paralelamente, mantém uma operação de suinocultura com 700 matrizes, realizando todas as etapas do ciclo produtivo até a comercialização dos animais para abate.
Para ele, o desenvolvimento da avicultura acompanha um movimento mais amplo observado no estado. “O Ceará tem um dinamismo na produção de proteína animal, com uma avicultura bem desenvolvida e com crescimento nas cadeias de suínos e bovinos”, relata.
Entraves sanitários e estrutura industrial limitam expansão

Médico-veterinário e presidente da Associação Cearense de Avicultura (Aceav), João Jorge Reis: “O espírito empreendedor e a resiliência do empresário cearense foram fundamentais para construir uma avicultura competitiva mesmo convivendo com tantos gargalos”
Embora o cenário para a avicultura cearense tenha melhorado nos últimos anos, o setor ainda convive com obstáculos relacionados à infraestrutura e ao ambiente regulatório. Um dos avanços recentes ocorreu em agosto de 2025, quando o Ministério da Agricultura e Pecuária autorizou a Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Ceará (Adagri) a ampliar sua atuação no Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi-POA), passando também a certificar carnes e derivados destinados ao comércio interestadual.
A medida representa um passo importante para a indústria local, já que o Sisbi-POA harmoniza os procedimentos de inspeção sanitária e permite que produtos certificados atendam aos mesmos padrões exigidos em todo o território nacional.
Na avaliação do presidente da Aceav, outras limitações históricas também vêm sendo gradualmente superadas. A disponibilidade de água, por exemplo, deixou de representar o entrave que já foi no passado. Apesar disso, a estrutura de processamento ainda é considerada insuficiente. Segundo Reis, o número reduzido de abatedouros no estado restringe o potencial de crescimento da cadeia produtiva, principalmente em razão do elevado custo para implantação de novas plantas industriais. “A construção de novos abatedouros é muito cara, então é preciso que haja mais investimentos nesse sentido”, menciona.
Mesmo diante desses desafios, o dirigente avalia que o Ceará reúne características capazes de atrair novos empreendimentos para a avicultura. O estado combina um mercado consumidor expressivo com um setor produtivo estabilizado, o que, em sua visão, exige decisões de investimento pautadas por planejamento e sustentabilidade econômica. “O setor está muito equilibrado em termos de produção e consumo, então é preciso ter os pés no chão para investir. Mas tenha certeza de que empresas grandes já estão de olho na região, visto que o Ceará é um grande centro de consumo”, afirma.
Outro fator apontado pelo dirigente como limitador ao desenvolvimento agropecuário regional é a permanência do Ceará na zona não livre de Peste Suína Clássica (PSC). O estado segue sob monitoramento sanitário e executa ações de controle e erradicação da enfermidade para buscar o reconhecimento como área livre.
Na avaliação de Reis, os reflexos ultrapassam a cadeia suinícola e afetam a percepção sobre o ambiente de investimentos em proteínas animais. “Por ser um estado que ainda não é livre da PSC, o registro dessa enfermidade nos suínos impede muito o crescimento de todas as outras proteínas”, avalia.
Por outro lado, o Ceará conquistou em 2025 um importante reconhecimento sanitário ao ser certificado internacionalmente como zona livre de febre aftosa sem vacinação, resultado considerado estratégico para fortalecer a imagem do estado perante investidores e mercados. “Logicamente, quando se investe em um setor pensamos no mercado externo. Esses gargalos vêm sendo superados para que a gente possa crescer”, destaca.
Núcleo genético coloca Ceará em posição estratégica
Além dos indicadores de produção, o Ceará desempenha um papel singular na cadeia avícola brasileira ao sediar a única granja de avós e bisavós das regiões Norte e Nordeste. O núcleo genético abriga aves que dão origem às matrizes utilizadas na produção comercial e funciona como um importante elo do sistema nacional de melhoramento genético.
Segundo Reis, a localização isolada da unidade reforça sua importância para a segurança da cadeia produtiva. “Ela não é estratégica apenas para nossa região. Quem trabalha com genética precisa oferecer segurança ao mercado. Se houver algum problema em polos produtores como Minas Gerais ou São Paulo, o Ceará pode fornecer matrizes avós porque possui uma granja isolada. Isso faz dela um componente importante para a segurança da cadeia avícola nacional”, enaltece.
O dirigente afirma que o setor continua buscando oportunidades de expansão, sempre condicionado à evolução da demanda e à viabilidade econômica dos investimentos.
Cinco décadas de transformação tecnológica
Ao completar 50 anos de atuação como médico-veterinário e mais de três décadas como empresário do setor, João acompanhou uma profunda mudança na forma de produzir aves no estado. Segundo ele, a atividade deixou para trás um modelo predominantemente rudimentar para incorporar automação, melhorias de ambiência, aperfeiçoamento do manejo, ferramentas de prevenção de doenças e práticas voltadas ao bem-estar animal. “Hoje acredito que a avicultura cearense produz em nível equivalente ao de qualquer grande polo do país”, afirma.
Esse processo também foi acompanhado pelo fortalecimento das medidas de biosseguridade. Conforme o presidente da Aceav, as granjas adotam protocolos destinados a reduzir riscos sanitários e impedir a introdução de agentes patogênicos nos plantéis.
Escassez de trabalhadores estimula adoção de tecnologia
A dificuldade para contratar mão de obra aparece entre as principais preocupações dos produtores. De acordo com o médico-veterinário, empresas do setor enfrentam obstáculos para preencher vagas mesmo oferecendo remuneração competitiva. “Existe atualmente uma escassez imensa de mão de obra. As empresas procuram, oferecem bons salários, mas há um déficit muito grande de trabalhadores. Esse é um problema em diversas atividades econômicas”, expõe.
Na avaliação do dirigente, diferentes fatores contribuem para esse cenário. Entre eles, Reis cita mudanças no mercado de trabalho e faz críticas às políticas de assistência social do governo federal, sustentando que parte dos beneficiários evita empregos formais para preservar o acesso aos programas sociais. Diante desse quadro, a adoção de tecnologias e de processos automatizados vem sendo utilizada como alternativa para reduzir a dependência de mão de obra.
Consumo interno impulsiona novos investimentos
O crescimento do consumo de proteínas avícolas também sustenta as perspectivas do setor. Reis destaca que o ovo ganhou espaço na alimentação dos brasileiros por reunir qualidade nutricional, preço competitivo e versatilidade. “O ovo é um produto saudável, uma proteína de boa qualidade, nutritiva e acessível. Isso alavancou o consumo e acredito que ainda existe espaço para crescer”, reforça.
Na carne de frango, ele relaciona a demanda ao interesse crescente dos consumidores por proteínas magras e de menor custo. Com consumo superior a 46 quilos por habitante ao ano no Brasil, o segmento desperta atenção de empresas interessadas em ampliar sua participação no mercado nordestino.
Energia e logística acompanham necessidades atuais
O presidente da Aceav considera que o fornecimento de energia elétrica atende às demandas atuais da cadeia produtiva, embora ressalte que a expansão deve ocorrer de forma planejada. No Ceará, a matriz elétrica é predominantemente baseada em fontes renováveis, especialmente energia eólica e solar.
Na área logística, o dirigente acredita que a conclusão da Ferrovia Transnordestina poderá reduzir a dependência do transporte rodoviário e aumentar a eficiência no deslocamento de cargas. Ele observa, contudo, que investimentos contínuos na malha viária permanecem necessários para acompanhar o crescimento da atividade.
Resiliência empresarial
Na visão do dirigente, três fatores explicam a evolução da avicultura cearense nas últimas décadas. O primeiro é a capacidade de adaptação dos empresários locais diante dos desafios estruturais enfrentados pelo estado. “O espírito empreendedor e a resiliência do empresário cearense foram fundamentais para construir uma avicultura competitiva mesmo convivendo com tantos gargalos”, evidencia.
O segundo elemento é o tamanho do mercado consumidor regional, que garante demanda para a produção local. Já o terceiro está relacionado à posição geográfica do estado, considerada estratégica para futuras operações de comércio exterior em razão da proximidade com mercados internacionais.
Atuação da Aceav
Nesse contexto, a Aceav mantém atuação concentrada em temas considerados essenciais para a cadeia produtiva, como defesa sanitária, orientação técnica aos produtores, acompanhamento das mudanças no perfil de consumo, relações trabalhistas e segurança no abastecimento de grãos.
A entidade também incentiva a ampliação da produção de frangos processados em frigoríficos, acompanhando uma tendência de substituição gradual do abate artesanal por sistemas industriais.
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Avicultura
Avicultura nordestina ganha escala com expansão em frangos, ovos e genética
Investimentos ampliam a capacidade produtiva da região, enquanto Bahia e Ceará se destacam no avanço da cadeia avícola nacional.

A avicultura do Nordeste vive um novo ciclo de crescimento impulsionado pela expansão da produção de frangos de corte e pelo aumento da produção de ovos. Embora a região ainda tenha participação modesta no abate nacional de frangos, os investimentos em alojamento de aves indicam uma capacidade produtiva crescente, com destaque para a Bahia, que se consolida como um dos principais polos de desenvolvimento da atividade.
Dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) mostram que a Bahia alojou 150 milhões de pintinhos de corte em 2025. No mesmo período, a produção estadual de ovos aumentou 16,3%, desempenho que coloca o estado entre os mercados de maior crescimento do país.
Para 2026, a expectativa do setor é de continuidade desse movimento, sustentado pela ampliação dos plantéis, investimentos em integração, modernização das granjas e fortalecimento da cadeia produtiva.
A expansão baiana ocorre em um momento em que a avicultura nordestina amplia sua relevância dentro da produção nacional. Em 2025, a região respondeu por 15,95% de todo o alojamento de pintainhos de corte realizado no Brasil, percentual significativamente superior à sua participação no abate, o que sinaliza aumento da capacidade produtiva instalada.
Pernambuco lidera o alojamento regional, com 7,63% do total nacional, seguido por Ceará, com 4,62%; Bahia, com 1,86%; e Paraíba, com 1,84%.
Abate ainda concentrado no Sul

Apesar da expansão dos investimentos, o abate de frangos permanece concentrado nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Em 2025, o Brasil abateu 5,706 bilhões de frangos sob inspeção federal. Desse total, o Nordeste respondeu por 118,4 milhões de aves, equivalentes a 2,08% da produção nacional.
Pernambuco lidera o abate de frangos no Nordeste, com 62,1 milhões de cabeças em 2025, o equivalente a 1,09% da produção brasileira. A Bahia vem na sequência, com 34,8 milhões de aves e participação de 0,61%, enquanto a Paraíba registra 21,5 milhões de cabeças abatidas, respondendo por 0,38% do total nacional. A diferença entre a participação regional no alojamento e no abate evidencia um mercado em fase de expansão, no qual parte dos investimentos recentes ainda está sendo incorporada ao sistema produtivo.
Produção de ovos ganha força

Na postura comercial, a Bahia apresenta um ritmo de crescimento superior à média observada em diversos estados brasileiros. O aumento de 16,3% na produção de ovos em 2025 reflete a expansão do consumo interno, a ampliação das granjas e o fortalecimento da produção destinada ao abastecimento regional.
A evolução da atividade acompanha a diversificação da avicultura nordestina, tradicionalmente mais concentrada na produção de carne de frango.
Ceará se destaca em genética avícola
Além da produção de carne e ovos, o Nordeste também participa da cadeia de genética avícola. Em 2025, o Ceará respondeu sozinho pelas exportações regionais de material genético, embarcando 257 toneladas, volume equivalente a 1,42% das exportações brasileiras desse segmento.
Embora represente uma parcela reduzida do total nacional, o resultado demonstra a presença do estado em uma etapa de maior valor agregado da cadeia avícola, voltada ao fornecimento de material genético para mercados internacionais.
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Avicultura Editorial
A granja adoece antes de parecer doente
Doenças respiratórias, desafios entéricos e falhas de biosseguridade não respeitam o calendário do produtor. Também não esperam o fechamento do lote para mostrar o tamanho da conta.

Na avicultura, o prejuízo raramente começa no dia em que o problema fica evidente. Antes da mortalidade subir, da conversão alimentar piorar, da produção de ovos cair ou do frigorífico registrar mais condenações, a granja costuma emitir sinais menores. Às vezes estão no consumo de água, na resposta vacinal, na cama, na ambiência, no comportamento das aves, na uniformidade do lote ou em alterações discretas de desempenho. Quem espera o problema aparecer por completo, normalmente já chegou tarde.
Essa lógica é especialmente verdadeira quando se fala em sanidade. Doenças respiratórias, desafios entéricos e falhas de biosseguridade não respeitam o calendário do produtor. Também não esperam o fechamento do lote para mostrar o tamanho da conta. A avicultura intensiva trabalha com alta densidade, ciclos curtos, margens pressionadas e forte dependência de regularidade. Nesse sistema, prevenir não é discurso técnico: é condição econômica.

Editorial escrito por Giuliano De Luca, jornalista e editor-chefe de O Presente Rural.
A laringotraqueíte infecciosa é um exemplo claro de como a granja pode adoecer antes de parecer doente. A circulação do agente, a movimentação de pessoas, falhas nos protocolos de acesso, risco de disseminação entre propriedades e demora na resposta sanitária podem transformar um problema localizado em ameaça regional. Quando os sinais clínicos ficam evidentes, o vírus pode já ter encontrado caminhos para avançar.
Por isso, biosseguridade não pode ser tratada como checklist de auditoria. Ela precisa ser rotina de produção. Controle de acesso, vazio sanitário, limpeza, desinfecção, qualidade da água, manejo de cama, vacinação, diagnóstico laboratorial, rastreabilidade e treinamento das equipes são partes de uma mesma engrenagem. Nenhum desses pontos funciona isoladamente quando o restante da operação falha.
A avicultura brasileira construiu competitividade porque aprendeu a produzir com método. Mas o método precisa ser atualizado todos os dias, dentro da granja, antes que a planilha mostre a perda. O futuro sanitário da atividade dependerá menos da capacidade de apagar incêndios e mais da disciplina para identificar riscos quando eles ainda parecem pequenos.
A granja avisa. A questão é se a cadeia está preparada para ouvir antes que o problema vire prejuízo.
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