Conectado com
OP INSTAGRAM

Avicultura Avicultura

Histórico da avicultura no RJ: de polo na América Latina à queda e ressurgimento

Durante os anos de 1950 a 1960 a região de São José do Vale do Rio Preto tinha uma avicultura, produtora de ovos, considerada a mais importante do Brasil

Publicado em

em

Jonas Oliveira

Durante os anos de 1950 a 1960 a região de São José do Vale do Rio Preto, antigo distrito de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, tinha uma avicultura, produtora de ovos, considerada a mais importante do Brasil, mas diversos fatores, como o preço dos ingrediente das rações, notadamente do milho, e técnicas de criação e de marketing que se tornaram ultrapassadas levaram ao fracasso da atividade. Mas, a partir da década de 1990 tudo mudou e o investimento de empresários, em capital e tecnologia avançada, produziu um belo renascimento da região, só que agora na produção de frangos de corte de qualidade. Trata-se de um belo exemplo e uma prova prática de que o mesmo renascimento poderá ocorrer em várias outras regiões do Rio de Janeiro.

Avicultura em São José do Vale do Rio Preto

Por:

Antônio Rosmaninho

João Pereira Neto

Juliana Virginio

A cidade de São José do Vale do Rio Preto, localizada na região serrana do Rio de Janeiro, 130km da capital, já foi considerada um dos grandes polos da avicultura do Brasil e da América do Sul. Estes títulos foram alcançados devido à produção em escala de ovos comerciais nas décadas de 50 e 60. Hoje a cidade concentra a maior produção de frangos de corte do estado, sendo uma das alavancas da economia municipal juntamente com a agricultura, tendo produzido, em 2019, aproximadamente 40 mil toneladas de proteína de frango.

Este artigo busca revelar o contexto que colocou São José do Vale do Rio Preto nesta posição de destaque em nível continental, apresentando a avicultura rudimentar da época e alguns nomes que marcaram tal período.

História

No início do Século XX, São José do Vale do Rio Preto era constituída por grandes fazendas de café, que eram a principal fonte econômica e geradora da maioria dos empregos no Município. Com a crise de 1929 e a queda dos preços de venda do café, foram realizadas diversas tentativas de implantação de novas culturas nas fazendas, como a cana-de-açúcar e a pecuária. No entanto, nenhuma das tentativas e experimentos surtiu efeitos satisfatórios. Dessa forma, a fim de apresentar uma alternativa para evitar o êxodo rural e reestruturar a economia, o Interventor Federal do Rio de Janeiro, comandante Amaral Peixoto, idealizou o projeto de implantação da cultura de batata inglesa.

Para tal projeto, foi estabelecido o campo experimental do Camboatá, tendo o engenheiro Frederico Rangel por diretor da Cia, Heitor Quartin como diretor comercial e Rubens Tellechea, por engenheiro agrônomo. Não tendo êxito o projeto de cultura das batatas, em meados de 1940 foi-se idealizado o projeto de criação de galinhas de postura, que contou com o acompanhamento do engenheiro agrônomo Rubens Tellechea, que realizou diversos experimentos com as aves.

Dessa maneira se deu o advento da avicultura de postura comercial de São José do Vale do Rio Preto, onde ao se comprovarem os resultados de sucesso dos experimentos, os fazendeiros começaram a lotear as fazendas em sítios menores, a fim de que se iniciasse a construção dos galinheiros nas propriedades.

Pioneirismo

No ano de 1935, Waldemiro Teixeira de Souza, pai do notável doutor Milton Freitas de Souza, possuía a propriedade Granja Guarany, próxima ao centro da cidade de São José do Vale do Rio Preto, onde hoje é o caminho para o bairro Pedras Brancas. Waldemiro foi por longos anos funcionário do Ministério da Fazenda. Também foi o primeiro a adquirir matrizes de galinhas poedeiras que advieram de São Paulo e depois o próprio, mesmo sem formação acadêmica, mas entusiasta da filosofia e da genética, realizou o melhoramento de suas aves.

Inovação – incubadora

Na década de 30, Waldemiro foi o primeiro a comprar incubadora elétrica no estado do Rio de Janeiro, fenômeno na época. Muitos interessados e curiosos fizeram visitas a fim de conhecer a tecnologia que dispensava as galinhas da função de “chocar os ovos”. A incubadora pioneira tinha capacidade para incubar 11 mil ovos.

A incubadora movida a querosene, com custo mais baixo, também foi uma grande novidade para a época, no entanto, tinha capacidade para apenas 480 ovos.

A operação das incubadoras demandava grande mão-de-obra. Na incubadora elétrica, a viragem dos ovos se dava por meio de uma manivela operada manualmente. Já na incubadora movida a querosene, era necessário realizar a viragem dos ovos manualmente, uma bandeja por vez, o que demandava muito tempo e prática, sendo necessário realizar tal procedimento duas vezes ao dia, já que este é um princípio básico que evita a aderência do embrião à membrana interna da casca do ovo.

Desafio – energia elétrica

Um desafio era a energia elétrica da época, que colocava em risco a incubação. Na época existia uma pequena usina elétrica na direção de onde hoje é a Praça da Emancipação. Era comum haver queda da energia, e quando acontecia tal fenômeno, era necessário se deslocar, a pé, rapidamente até a usina, para ajudar o senhor Tardelli a retirar os entulhos e resíduos que impediam a passagem de água pelas turbinas e geração de energia. Dessa forma, se buscava preservar o trabalho e a incubação dos ovos. Destaca-se também o comprometimento dos funcionários da época frente aos desafios que lhes eram apresentados, bem como com o sistema de produção manual que demandava total dedicação.

Sistemas de criação

Configuração dos galinheiros

As aves eram alojadas em galinheiros de alvenaria, com piso de cimento, e com poleiros onde as aves dormiam. Um processo realizado diariamente era a retirada do esterco pela manhã, e vale destacar que na época o esterco ainda não apresentava tamanho valor agregado.

Estes galinheiros possuíam área externa (pequenos piquetes), o que permitia que as aves pastassem durante o dia. Os chamados “parques” de pastagem eram utilizados durante 15 dias, uma vez que se fazia o “rodízio de pastagem”. Os parques eram cercados com tela, produzida manualmente pelos próprios funcionários.

No sistema de criação de Waldemiro, os ninhos eram em bateria, ou seja, uma espécie de “armário com alçapão”. Todas as aves possuíam uma “anilha” com um número de identificação. Conforme subiam nos poleiros e chegavam na entrada do ninho, este possuía um alçapão, lá a galinha caía e ficava trancada. Waldemiro e os funcionários ao verem que a galinha entrou no alçapão, iam até lá para verificar o código da ave e colher os ovos. Esta foi a forma de identificar as aves com melhor postura e assim fazer o melhoramento genético, já que as aves que apresentavam melhor produtividade eram separadas para se tornarem matrizes do próximo lote. Para reprodução eram utilizadas 100 galinhas matrizes para 10 galos reprodutores.

Configuração dos pinteiros

Os pinteiros eram estruturas de alvenaria, com chão de cimento, forrado com palha de milho e sabugo de milho picado. As campânulas eram movidas a carvão, com um cano que conduzia a fumaça para fora do teto. No pinteiro, se fazia um círculo e forrava-se o chão com areia, a campânula era colocada no meio a fim de emitir calor. O conforto térmico era observado constantemente. Na ausência de termômetro, percebia-se que as aves estavam com frio caso ficassem amontoadas perto das campânulas, já que em estado de conforto térmico estas se dispõem de forma espalhada pelo pinteiro. Vale ressaltar que as galinhas permaneciam no pinteiro até os 90 dias de vida.

Genética

As raças utilizadas para os primeiros cruzamentos foram Rhode Island Red e Light Sussex, onde se buscava por resultado aves resistentes e com boa postura. Anos depois foi introduzida a raça New Hampshire. A postura iniciava por volta dos 150 dias, momento em que as galinhas eram transferidas dos pinteiros para os galinheiros.

Nutrição

No que tange a alimentação, até os anos de 1950, todo o processo de produção de ração era manual. Os insumos utilizados eram milho (70%), farelo e remoído de trigo, farinha de carne e micronutrientes, como manganês, cálcio, magnésio, cobre e algumas vitaminas. As “batidas de ração” eram de 1000 quilos, onde os insumos eram levados para um galpão, dispostos no chão e os funcionários faziam a mistura dos ingredientes com uma grande pá, de forma totalmente manual. Uma curiosidade da época, a fim de tornar o processo digestivo mais eficiente, era a colocação de caixas de pedriscos nos galinheiros para estimular o funcionamento da moela e gerar melhor desempenho.

Com o decorrer do tempo e com a evolução das tecnologias, foram criadas pequenas fábricas na cidade e também começou a ser possível o processo de compra de ração ensacada.

Ascensão da produção

Waldemiro, pioneiro na região, possuía 5 galinheiros com capacidade para aproximadamente 1000 aves/cada. Este entusiasta da pesquisa preferiu manter um lote de volume reduzido a fim de conseguir monitorar seus dados e pesquisas.

Em sequência, Heitor Quartin Pinto César, sobrinho de Waldemiro, iniciou sua trajetória na avicultura de postura em 1940, no Sítio Torrão de Ouro. Buscando novas alternativas e redução dos custos com construção dos galinheiros, desenvolveu um sistema onde os galinheiros eram cercados com taquaras, madeiras encontradas na propriedade e cobertas com palha e sapê. A prática dos parques de pastagem foi mantida, o que hoje novamente vem sendo uma prática na avicultura. Heitor chegou a possuir um plantel com mais de 40 mil aves, grande número para a época.

Nas proximidades com o município havia outros criadores, como Mr Franklin, que iniciou sua criação em meados da década de 40. A propriedade de Franklin era localizada perto da antiga linha de trem, onde hoje passa a represa de Tristão Câmara.

Personagens emblemáticas

Em outubro de 1957 foi publicada na Revista O Mundo Agrário, nº 56, a reportagem feita por Jorge Vaitsman, que relatou o sucesso da produção no Município, sendo de 25 mil dúzias de ovos por dia, e 10 toneladas de carne por dia, recordes para a época.

Dentre os produtores dos anos áureos da avicultura, serão destacados alguns nomes dos pioneiros, que eram entusiastas da atividade e realizaram os primeiros experimentos. No entanto, na década de 50 e 60 havia mais de 200 avicultores no município e todos foram responsáveis por São José do Vale do Rio Preto receber o título de Polo Avícola da América do Sul, não podendo ser esquecidos na história da avicultura.

  • Waldemiro Teixeira de Souza, Centro, subida das Pedras Brancas (Ari Pereira atualmente)
  • Heitor Quartin Pinto César, Torrão de Ouro
  • Fernando Gouvêa, Fazenda do Capoeirão
  • Eugênio Ruotulo Neto, Fazenda Belém
  • Bianor Esteves, Boa Vista
  • Antenor Rodrigues, Contendas
  • Marcelo Brasileiro de Almeida, Poço Fundo
  • Vitor Pellegrini, Parada Morelli

Comissão Nacional de Avicultura

Nos anos 50, o município recebeu a visita da Comissão Nacional de Avicultura, composta por Mário Vilhena (Presidente), Renato Brogiolo, João Moojen, Gilberto Mendes Carneiro, Carlos Mendes de Oliveira (Técnico) e Jorge Vaitsman (médico veterinário e repórter).

Economia

O município recebeu na década de 60 constantes visitas do governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda. Os produtores reivindicavam a necessidade de facilitar o transbordo do milho e criação de silos para armazenagem dos grãos, uma vez que a distância do polo produtor das matérias-primas tornava a produção muito onerosa.

A necessidade de importação de matérias-primas se deu decorrente de alguns fatores, como a queda de produção de milho no norte e o noroeste do estado do Rio de Janeiro, que apresentavam considerável produção de milho até os anos 60. Outro fator relevante foi a expansão da avicultura nos anos 70 para outros municípios, como Resende, Bom Jardim e o Rio de Janeiro. Logo, a demanda de grãos se configurou maior que a capacidade de abastecimento do estado.

A partir dos anos 80 iniciou-se o processo de queda da avicultura de postura, que se estendeu até 1995. Uma série de acontecimentos envolveu tal período. Houve a queda progressiva do preço de venda dos ovos, devido ao elevado custo de produção da ração, ocasionado da necessidade de importar matéria-prima de regiões distantes, bem como distância dos principais mercados consumidores. Ademais, deu-se o advento da produção de ovos por parte de outros estados, como São Paulo, que tinha o custo de produção mais baixo, o que dificultava a competitividade do município de São José do Vale do Rio Preto.

Renascimento

No entanto, em 1995, ao perceber tal cenário, os avicultores com alta percepção e vocação empreendedora, observaram oportunidade para um novo negócio e, em substituição à avicultura de postura, foi implantado no município um novo ciclo, a avicultura de corte.

A avicultura de corte se perpetua até os dias atuais, sendo caracterizada por frangos especiais, resfriados, com tamanho padrão para assadeiras e cortes para supermercados, comercializados por todo Estado do Rio de Janeiro, gerando centenas de emprego e renda para a cidade.

Ante o exposto ocorrido na década de 80 e 90, com queda expressiva da produção de ovos, é necessário ressaltar que de forma vagarosa, a avicultura de postura vem novamente adquirindo robustez, o que traduz a vocação avícola do município.

Este advento da ascensão da avicultura de postura comercial se dá por conta de alguns fatores decisivos, como a maior receptividade dos produtores às orientações técnicas, a aquisição de aves de maior potencial genético, o investimento em equipamentos com mais tecnologia e adequação das instalações, buscando garantir maior conforto e o bem-estar para as aves.

No que tange à biosseguridade, a profilaxia contra as principais doenças avícolas, a preocupação com o controle de insetos e roedores, o controle da qualidade da água, o vazio sanitário, a desinfecção de instalações e equipamentos e as boas práticas de manejo são determinantes para o sucesso da produção.

Em relação à comercialização, a proximidade com grandes centros consumidores, como a cidade do Rio de Janeiro e a região metropolitana, permite que o produtor venda sua produção de forma direta ao consumidor, agregando valor à atividade.

Dessa forma, o sucesso da avicultura se dá devido ao esforço e empenho de todos que fazem parte desta cadeia, onde devem atentar, ao longo de toda produção, para os fatores genéticos, nutricionais, sanitários e ambientais que refletem no desempenho das aves.

Há de se considerar a necessidade da produção ser conduzida aliada à gestão, com análise constante dos resultados zootécnicos e financeiros, e implantação de melhorias contínuas aliadas à tecnologia e inovação, a fim de permitir que as aves manifestem todo seu potencial e que o produtor tenha satisfação em seu negócio.

Antônio Rosmaninho

Médico veterinário da Emater do Rio de Janeiro

João Pereira Neto

Popularmente conhecido como Zinho, nasceu em 23 de julho de 1940, filho de Manoel Pereira e Maria Ernestina da Conceição. Nasceu na propriedade de Sr. Waldemiro, Granja Guarany. Começou a trabalhar desde os 5 anos de idade auxiliando seu pai no trabalho nos galinheiros. Com impressionante memória relata os atos marcantes da história da avicultura.

Juliana Virginio

Médica veterinária, MBA Gestão de Processos e Lean Six Sigma, secretária municipal de Agricultura e Desenvolvimento Econômico de São José do Vale do Rio Preto.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de setembro/outubro de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo
Clique para comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 × quatro =

Avicultura Saúde Animal

Novas conquistas no desenvolvimento de vacinas: Imunocomplexo para prevenção da Doença de Gumboro

Uso de vacinas imunocomplexo para a IBD provou oferecer proteção de uma vacina viva com maior segurança e aumento do potencial da resposta humoral

Publicado em

em

Arquivo/OP Rural

Artigo escrito pela equipe técnica da Hipra

As vacinas imunocomplexo para a prevenção da doença de Gumboro foram desenvolvidas no final dos anos 90. Diversos pesquisadores demostraram que as vacinas de imunocomplexo para vírus de Gumboro (IBDV), preparadas combinando uma estirpe viva atenuada com um anticorpo específico para o IBDV, eram capazes de proteger o vírus vacinal e impedir a sua inativação pelos anticorpos maternais, oferecendo desta forma a segurança e possibilidade de administração destas vacinas por via in-ovo ou subcutânea ao primeiro dia de vida do pintinho no incubatório.

No entanto, o uso de vacinas imunocomplexo para a IBD provou ser muito mais que isso, oferecendo a proteção de uma vacina viva com uma maior segurança (menor depleção do tecido linfoide e rápida repovoação de linfócitos B na bursa, evitando o risco de replicação viral na bursa durante a primeira semana de vida) e aumento do potencial da resposta humoral quando comparada com o uso de vírus vivo atenuado vacinal isoladamente. Em aves de um dia de idade vacinados com vacina imunocomplexo, o início da imunidade é adaptado as necessidades de proteção de cada indivíduo, evitando desta forma a temida falta de proteção por certo período (“Janela imunitária”), o que pode ocorrer com outros tipos de vacinas.

O principal objetivo na formulação deste tipo de vacinas é o de providenciar proteção suficiente ao vírus vacinal (para evitar a sua neutralização, ou problemas de segurança) assegurando que está completamente revestido por anticorpos específicos para IBDV.

Como são formuladas as vacinas de imunocomplexo, e como se faz o controle do revestimento por anticorpos?

Todas as vacinas de imunocomplexo contra IBDV são formuladas com base na adição de anticorpos numa quantidade especifica de acordo com o título inicial obtido no cultivo do vírus vacinal (Figura 2). Este título inicial é usualmente determinado através de titulações em substratos como ovos de galinha embrionados (EID50: dose infectante em ovo ou embrião 50%) ou em linhas celulares (TCID50: dose infectante em cultivo de tecido 50%) de uma forma similar às titulações realizadas nas vacinas vivas convencionais. Após a adição dos anticorpos específicos para IBDV a mistura passa por um processo de liofilização, o que pode levar a perdas de título.

Algumas das vacinas de imunocomplexo indicam nas suas especificações técnicas as titulações de vírus e quantidades de soro prévias ao processo de liofilização, desconsiderando as possíveis perdas de título durante este processo e o correto recobrimento do vírus pelos anticorpos específicos.

Outros realizam, em aves lives de patógenos, titulações indiretas após o processo de liofilização (CID50: Chicken Infective Dosis 50%), que embora levem em consideração as possíveis perdas de título durante processo de liofilização, não garantem que todas as partículas virais estejam revestidas por anticorpos específicos (o objetivo principal da fórmula das vacinas de imunocomplexo).

Melhorias na formulação de vacinas imunocomplexo para a prevenção da doença de gumboro: a nova geração de vacinas imunocomplexo

Uma das melhorias que foi fundamental introduzir na formulação das vacinas de imunocomplexo foi o correto controle do revestimento das partículas virais com anticorpos específicos.

Este correto revestimento do vírus é a única maneira de assegurar resultados homogêneos das vacinas de imunocomplexo a campo, evitando possíveis perdas de título vacinal quando o vírus entrar em contato com elevados níveis de anticorpos maternais.

Para a Nova Geração de Vacinas Imunocomplexo, foram desenvolvidos dois novos métodos de controle para alcançar este objetivo:

– Controle de IgY livres: Este controle determina que uma determinada quantidade de IgY permanece livre na suspensão final da vacina, o que significa que todas as partículas de vírus estão completamente revestidas.

– Controle de neutralização: Este controle consiste na inoculação do imunocomplexo em ovos embrionados, de modo a provar que todas as partículas de vírus na vacina foram “neutralizadas” através do completo revestimento com anticorpos.

Também foram introduzidos outros novos testes e melhorias de formulação, de modo a alcançar um melhor e mais consistente processo de produção de vacinas de imunocomplexo:

– Mistura com vírus fresco: As vacinas de imunocomplexo são formuladas com base na adição de anticorpos numa quantidade específica que dependem do título inicial no cultivo da vacina. Esta titulação inicial implica 6-7 dias de espera entre a produção da colheita e a mistura final com os anticorpos, e ainda, o vírus é usualmente congelado durante este período. As novas formulações buscam evitar este tempo de espera, uma vez que pode originar perda de potência do vírus, formulando a mistura com vírus fresco e proporcionalmente adicionando uma quantidade de anticorpos (IgY), sempre considerando o limite máximo de vírus obtido no cultivo da vacina.

– IgY com origem em ovos: Até o momento as vacinas de imunocomplexo utilizavam anticorpos de revestimento (IgY) extraídas de soro de animais hiperimunizados. Para a nova geração de vacinas imunocomplexo foi desenvolvido um novo procedimento de extração de IgY a partir do ovo (Figura 3), melhorando a consistência e a capacidade de produção de anticorpos de alta qualidade, entre outras vantagens.

– Teste de unidades de potência: Este teste envolve uma titulação de forma direta do vírus na forma de imunocomplexo após o processo de liofilização, é por isso uma deteção direta da potência da vacina liofilizada (expresso em PU – Unidades de Potência). Este teste substitui a titulação indireta obtida através do CID50.

Todas estas melhorias em formulação e controle resultaram no desenvolvimento de uma Nova Geração da Vacina de Imunocomplexo, que oferece a manutenção da potência máxima da vacina de forma segura e a obtenção de resultados consistentes no campo.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de abril/maio de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

Avicultura Saúde Animal

Ionóforos ajudam a modular o microbioma intestinal de frangos de corte, mas sua principal função é anticoccidiana

Investir em bons programas de controle é uma excelente forma de manter o bem-estar animal e a lucratividade na avicultura

Publicado em

em

Divulgação

Artigo escrito por Patrícia Tironi Rocha, mestre em Sanidade Animal e gerente técnica de avicultura da Phibro Saúde Animal

O problema é sério. Em termos globais, são registrados prejuízos de até US$ 13 bilhões devido à temível e prevalente coccidiose aviária, doença intestinal causada por parasitas do gênero Eimeria, que causam uma série de danos à digestão, absorção e aproveitamento dos alimentos, além de predispor as aves a outras doenças igualmente desafiadoras.

Além de provocar grande impacto em desempenho zootécnico, a coccidiose pode levar as aves à morte. Um dos problemas desencadeados, especialmente pela Eimeria maxima, é a predisposição a infecções pelo Clostridium perfringens (CP), que, ao produzir toxinas necrotizantes, causa a enterite necrótica, outra importante enfermidade de frangos de corte.

A ciência descobriu anticoccidianos químicos e ionóforos poliéteres eficazes para controlar a coccidiose. Os ionóforos (termo que significa “transportador de íons”) são produzidos por processo fermentativo e são amplamente utilizados – e com sucesso – em dietas de frangos de corte. Atualmente, seis moléculas com essa função são utilizadas pela indústria avícola. Entre elas, está a semduramicina, usada com segurança e eficácia há mais de duas décadas. Já as moléculas produzidas por síntese química podem ser representadas pela nicarbazina, introduzida no mercado em 1955 e ainda utilizada com sucesso.

Ao contrário da eficácia anticoccidiana dos ionóforos, amplamente reconhecida, a eficácia antimicrobiana dos mesmos em nível intestinal é bem menos estudada e avaliada e, possivelmente, tem sido supervalorizada. Um exemplo é a crescente produção de frangos de corte sem antibióticos melhoradores de desempenho. Nesse modelo de produção, para as empresas que ainda fazem o uso de anticoccidianos ionóforos e químicos as questões entéricas incluindo enterite necrótica têm sido frequentemente reportadas, o que evidencia que não se pode creditar apenas aos ionóforos o efeito antimicrobiano e o controle da enterite necrótica.

Ao analisar os valores de concentração inibitória mínima (CIM) dos ionóforos frente a cepas de Clostridium perfringens (in vitro) e compará-los com as doses dos ionóforos na ração, como anticoccidianos, constatamos que as concentrações indicadas para uso nas rações estão acima dos valores de CIM. Como exemplo, a CIM de semduramicina é de 10 partes por milhão (ppm) para inibição de CP. As doses de semduramicina registradas no Brasil na ração são de 20 a 25 ppm, ou de 15 a 18 ppm quando em associação com nicarbazina. Como o CP faz parte da microbiota intestinal normal de frangos (população heterogênea com várias cepas), pode-se inferir que os valores de CIM (in vitro) possuem relação direta com o potencial de inibição deste microrganismo no lúmen intestinal.

Um ponto importante a ser verificado em pesquisas sobre a concentração inibitória mínima de ionóforos é em relação às cepas de Clostridium perfringens utilizadas. Alguns estudos e relatos não especificam se as cepas utilizadas eram de aves saudáveis ou provenientes de surtos de enterite necrótica. Isso faz muita diferença. Em intestinos de aves saudáveis, a população de Clostridium perfringens é variada e composta por múltiplas cepas. Já em intestinos de aves afetadas pela enterite necrótica há a predominância de um clone único desta bactéria – Clostridium perfringens virulentos e que expressam fatores de virulência.

Estudos

Trabalho publicado em 2003, com inoculação de frangos de corte com cepa de Clostridium perfringens isolada de surto de enterite necrótica, avaliou bacitracina metileno dissalicilato (BMD), narasina e também associação dos dois recursos em relação a um grupo sem tratamento. Verificou-se que os escores de lesão para enterite necrótica e mortalidade por essa causa foram reduzidos apenas nos grupos que receberam o antibiótico melhorador de desempenho (BMD) e no grupo com a associação de BMD e narasina.  Esses dados sugerem ação limitada do ionóforo (neste estudo, a narasina) no controle da enterite necrótica.

A hipótese mais aceita atualmente pela academia é que os anticoccidianos ionóforos auxiliam na redução de bactérias intestinais gram-positivas, incluindo Clostridium perfringens, mas não as eliminam. A contribuição antimicrobiana dos ionóforos parece ser por modulação populacional e não por eliminação. Contudo, é preciso salientar que os efeitos antimicrobianos dos ionóforos que auxiliam no controle de lesões de enterite necrótica aparentemente podem se perder quando a dose utilizada na ração é reduzida.

Pesquisa publicada em 2010 relata que em frangos de corte sob condições de desafio as lesões de enterite necrótica diminuíram significativamente em cada grupo experimental que recebeu ionóforos simples via ração (70 ppm de narasina, 75 ppm de lasalocida, 70 ppm de salinomicina e 5 ppm maduramicina). No mesmo experimento, o produto combinado narasina-nicarbazina, a 50 ppm de cada princípio ativo, não diminuiu significativamente o número de aves com lesões de enterite necrótica quando comparado com o grupo controle desafiado, indicando que a dose reduzida da narasina (50 ppm) possivelmente está abaixo do limiar de eficácia microbiológica.

Em síntese, a simples observação dos valores das Concentrações Inibitórias Mínimas – CIM (in vitro) dos ionóforos frente a Clostridium perfringens mostra que todos ionóforos, nas doses em que são usados como anticoccidianos, já atingem concentrações suficientes para inibição desta bactéria no lúmen intestinal. Porém, estudos sugerem efeito limitado dos ionóforos no controle da enterite necrótica e inibição do Clostridium perfringens em estudos in vivo.

A contribuição dos ionóforos na redução de enterite necrótica e na translocação bacteriana do Clostridium perfringens a partir do intestino tem como base principal a preservação da barreira epitelial entérica. Isso se deve, em primeiro lugar, à sua eficácia como anticoccidiano – até mesmo porque, a partir da visão epidemiológica, a coccidiose é o mais frequente e importante fator predisponente à enterite necrótica e, secundariamente, à modulação da microbiota.

Investir em bons programas de controle é uma excelente forma de manter o bem-estar animal e a lucratividade na avicultura.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de abril/maio de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

Avicultura Mulheres do Agro

Do sonho de criança a presidente da Epagri Santa Catarina

Edilene Steinwandter é a primeira mulher a assumir a presidência da Epagri, além disso, ainda foi a primeira a assumir diversos outros cargos de liderança dentro da empresa

Publicado em

em

Divulgação/Epagri

Muitas vezes uma mulher precisa dar o primeiro passo para mostrar para as outras que aquilo que parecia inalcançável é possível. Edilene Steinwandter foi uma destas mulheres que alçou voos para mostrar que o impossível para uma mulher determinada e competente não existe. Pioneira em diversos sentidos, é a primeira mulher a ocupar o cargo de diretora-presidente da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). Mais que isso, realizou um sonho de infância de trabalhar na empresa.

Vinda de uma família de agricultores, Edilene praticamente cresceu no meio rural. Os pais moravam na cidade de Treze Tílias, onde cuidavam de um moinho de farinha. “Meus pais são filhos de agricultores, mas assim que se casaram, mudaram para a cidade. Então eu nasci e me criei na cidade. Mas sempre tive um vínculo muito forte com o meio rural porque todos os meus tios trabalhavam no campo”, conta. Por essa forte ligação que existia, assim que estava terminando o ensino médio Edilene já sabia qual faculdade faria: Agronomia. Ela se formou na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), na cidade de Lages.

Após terminar a faculdade, Edilene foi trabalhar em uma escola agrícola, onde foi professora durante um ano. Depois, passou a trabalhar na Prefeitura de Ponte Serrada, região Oeste de Santa Catarina, como engenheira agrônoma. “Nesse período que eu trabalhava lá prestei o concurso para a Epagri e passei. Assim, continuei trabalhando no mesmo município. Foi bem importante porque foi a continuidade de um trabalho que já tinha sido iniciado”, conta.

E trabalhar na Epagri foi uma realização para Edilene. “O meu sonho era trabalhar na empresa, porque a sede deles na cidade que a gente morava ficava bem na frente da casa dos meus pais. Então a gente vivenciava aquela rotina, estava sempre brincando na rua e vendo o que acontecia e eu admirava muito o trabalho que era feito”, recorda.

Edilene entrou na Epagri em 2002 e após algum tempo na empresa foi convidada para compor a equipe da gerência regional em Xanxerê. “Eu fiquei lá na gerência e nesse período eu consegui também fazer o meu mestrado, que foi quando me dediquei à área de bovinocultura de leite”, comenta. Em 2011 a engenheira agrônoma foi convidada para assumir a gerência regional. “Que foi quando eu saí um pouco da área técnica para ir para uma área mais de gestão. Lá eu coordenava o trabalho de 14 municípios da região. Eu fui a primeira mulher na Epagri a assumir uma gerência regional de extensão rural, porque até então nunca uma mulher tinha assumido uma gerência de área técnica”, diz.

Pelo trabalho que desenvolveu na gerência de Xanxerê, no final de 2011 Edilene foi convidada para ir até Florianópolis compor a equipe estadual de extensão rural. “Trabalhei na equipe e em 2015 assumi a gerência estadual de extensão rural. Também até o momento nunca uma mulher tinha assumido uma gerência estadual da área técnica”, lembra.

Já em 2019 Edilene foi convidada a assumir a presidência da Epagri. “Para mim foi um desafio bastante grande, mas ao mesmo tempo muito gratificante. Primeiro porque ser funcionária e ser presidente traz para os outros funcionários aquela visão e esperança de que existem oportunidades de crescimento dentro da empresa. Porque até então, os outros presidentes não eram funcionários”, comenta. Para Edilene, o fato de ser mulher e receber o convite de assumir a presidência também foi uma gratificação. “É recompensador estar à frente de uma empresa que historicamente sempre foi gerida por homens”, menciona.

Atualmente a Epagri conta com aproximadamente 1,7 mil funcionários, sendo que destes 592 são mulheres – aproximadamente 35% do total. Destas, 28 são pesquisadoras, 207 extensionistas (sendo de diferentes formações como agronomia, nutrição, assistência social e pedagogia), 357 são da área meio – considerada um apoio entre a pesquisa e a extensão – e 43 são dirigentes (que estão divididas entre gerentes estadual e regional ou das estações de pesquisa, além do centro de treinamento). “Mesmo o número 43 sendo interessante, na área técnica eu ainda considero uma baixa participação”, comenta Edilene.

A mulher no agro

Mesmo sendo a primeira mulher em diversos cargos dentro da Epagri, Edilene comenta que nunca notou, explicitamente, preconceito ou resistência em ela assumir os cargos de liderança dentro da empresa. “Porque talvez eu também não procurei enxergar. Eu sempre me coloquei em um papel de igual, nunca numa condição de inferior, de vitimização ou de não competência”, afirma. Além disso, de acordo com ela, algo que pode ter facilitado a “aceitação” dela nos cargos que ocupou é a trajetória que construiu na empresa. “Eu já conhecia praticamente todos os funcionários, já me relacionava tanto com a pesquisa quanto com a extensão rural. Então as pessoas já me conhecem e acredito que isso e toda a minha trajetória na Epagri facilitou os processos”, conta.

Edilene comenta que, mesmo não de uma forma tão rápido quanto se gostaria, é possível ver a ascensão da mulher nos cargos de liderança dentro das empresas, cooperativas e instituições. “Tem um estudo da Epagri que foi publicado há pouco tempo que mostra que 25% das agroindústrias de Santa Catarina são coordenadas, administradas ou de propriedade de mulheres. E essas agroindústrias são diversas, mas se concentram principalmente na área de produção e industrialização vegetal, como conservas, geleias e panificados. Ao mesmo tempo observamos o baixo índice de mulheres que administram as propriedades rurais, porque ainda o trabalho da mulher é muito visto como de uma ajudante e daí traz a invisibilidade tanto social quanto econômica da mulher no meio rural, porque ela é responsável basicamente por toda a produção do auto abastecimento da família, mas isso raras vezes é considerado como renda ou trabalho”, explica.

O trabalho constrói

Além disso, Edilene comenta que mesmo com todos estes desafios que a mulher diariamente enfrenta, ela se considera um exemplo para aquelas que sonham alto como ela. “Porque todas as funções que eu fui assumindo ao longo da minha vida foi consequência do meu trabalho. Hoje eu estou em uma função que é um cargo de confiança do Governo do Estado, mas eu tenho clareza que o convite para eu assumir foi pela minha trajetória e pelo meu trabalho. Por isso eu acho que é um exemplo no sentindo de que vale a pena sonhar, trabalhar, expor suas opiniões e se colocar. Independente da atividade ou função que a gente exerce é preciso mostrar competência sim e que nós temos capacidade”, comenta.

Para Edilene, a mulher tem mostrado o seu papel e a sua importância dentro do agronegócio. “Nada se faz sozinho. É muito importante a presença do masculino e do feminino, que as suas diferenças, potencialidades e fortalezas são coisas que se complementam”, avalia. Porém, a mulher traz uma diferenciação especial. “Eu vejo que a mulher traz muito esse olhar do cuidado, da cooperação, da participação e da inovação. Traz um olhar mais amplo e holístico das situações em que trabalha”, sustenta a criança que um dia sonhava e se tornou a presidente da Epagri.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de abril/maio de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo
Boehringer webinar

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.