Avicultura
Gripe aviária: há risco para humanos?
Estudos genéticos recentes revelam que o vírus pode estar mais perto de atingir o potencial pandêmico do que se pensava anteriormente. Isso seria extremamente perigoso, dado que infecções de humanos por variantes anteriores causaram até 30% de mortalidade.

Ao longo de 2024 a mídia veiculou diversas reportagens evidenciando a preocupação com a gripe aviária, ocasionada pelo vírus H5N1. Ao longo do ano passado, apenas nos EUA, foram registrados 66 casos de humanos infectados com gripe aviária, com um caso fatal, de um homem de 65 anos com histórico de problemas de saúde, e que foi exposto a uma combinação de aves domésticas e pássaros selvagens, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA.

Fotos: Divulgação/Arquivo OPR
O vírus da gripe aviária H5N1, particularmente uma variante chamada 2.3.4.4b, vem se espalhando progressivamente pelo mundo, desde 2021. O vírus evoluiu para se tornar capaz de infectar uma diversidade de espécies de aves, mamíferos marinhos, gado e até mesmo, ocasionalmente, humanos.
Em todos os EUA, quase mil rebanhos leiteiros foram infectados e mais de 130 milhões de aves foram sacrificadas porque, sempre que a infecção é detectada em aves, todo o rebanho precisa ser sacrificado. Na Califórnia, após a identificação de três rebanhos infectados no final de agosto, as autoridades encontraram o vírus em mais de 70% das 984 fazendas leiteiras do estado, levando o governo estadual a declarar emergência sanitária na semana do Natal de 2024.
Infecção humana
O H5N1 gerou alarmes pela primeira vez em 1997, quando infectou 18 pessoas em Hong Kong, ocasionando seis óbitos. Desde então, esse vírus tem frequentado listas de potencialidade pandêmica, conforme foram sendo descobertas novas mutações que, eventualmente, poderiam gerar um subtipo que se espalharia mais eficientemente entre humanos. Essas mutações envolvem mudanças em dois componentes virais: a RNA polimerase, uma enzima que replica o genoma do vírus; e a hemaglutinina, a proteína que permite que o vírus se fixe nas células hospedeiras.
Os vírus da gripe aviária do Tipo A normalmente não infectam pessoas, mas casos raros de infecção humana ocorreram com alguns vírus
da gripe aviária. As doenças em humanos por infecções pelo vírus da gripe aviária variaram em gravidade, desde assintomática, passando por sintomatologia leve (como infecção ocular, sintomas respiratórios superiores) até doença grave (por exemplo, pneumonia), que pode levar à óbito.
Estudos recentes ampliaram as preocupações dos cientistas. Um grupo de pesquisa do Scripps Research Institute na Califórnia descobriu que uma única mutação na hemaglutinina – designada 226L – foi suficiente para permitir que o vírus se ligasse de forma mais eficaz aos receptores nas vias aéreas humanas. Os cientistas acreditavam anteriormente que duas dessas mutações eram necessárias, mas a descoberta desse “atalho” foi alarmante porque indica que a adaptação aos humanos pode estar mais avançada do que o previsto anteriormente.
Casos de infecção humana
De acordo como CDC, as infecções humanas ocorreram após contato próximo ou prolongado com pássaros infectados, ou com locais que pássaros doentes ou sua saliva, muco e fezes estão presentes, sem que o indivíduo estivesse devidamente protegido, usando luvas, proteção respiratória e ocular. Muito raramente, infecções humanas com vírus da gripe aviária aconteceram por meio de um animal intermediário, como gatos, cachorros ou gado.
A princípio, pessoas que vivem ou trabalham no campo têm maior probabilidade de serem expostas a situações de risco. Mas, ao menos dois casos nos Estados Unidos envolveram pacientes sem exposição conhecida a animais, aumentando as preocupações de que uma pandemia, marcada pela transmissão de humano para humano, seja possível. Embora até o momento nenhuma transmissão deste tipo tenha sido documentada, estudos genéticos recentes revelam que o vírus pode estar mais perto de atingir o potencial pandêmico do que se pensava anteriormente. Isso seria extremamente perigoso, dado que infecções de humanos por variantes anteriores causaram até 30% de mortalidade.
O caso de uma adolescente canadense hospitalizada com H5N1, em novembro de 2024, oferece novas pistas. As amostras de vírus da paciente mostraram sinais de uma mutação na hemaglutinina, embora não seja a temida 226L. Isso sugere que o vírus H5N1 possui mutações que podem, eventualmente, levar à transmissibilidade de humano para humano.
O vírus encontrado na menina canadense proveio de uma cepa que infecta pássaros, que passou por mistura genética, ou rearranjo, dos oito segmentos de RNA que compõem o genoma do vírus da gripe. Dessa forma, os vírus adquiriram uma nova proteína neuraminidase (o “N” em H5N1), o que pode tornar a cepa mais adaptável.
Contágio e sintomas
Infecções humanas com vírus da gripe aviária podem acontecer quando o vírus entra nos olhos, nariz ou boca de uma pessoa, ou é inalado. A disseminação de vírus da gripe aviária de uma pessoa infectada para um contato próximo é muito rara, e quando isso aconteceu, não levou à disseminação contínua entre as pessoas, de acordo com o CDC. O fato pode indicar maior suscetibilidade da pessoa infectada em relação aos que estão próximos e também podem haver sido submetidos à exposição.
Seis subtipos principais de vírus da gripe aviária infectaram pessoas e causaram doenças respiratórias agudas (vírus H3, H5, H6, H7, H9 e

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
H10). Entre estes, os vírus H5N1 e H7N9 causaram a maioria das infecções em pessoas.
Os sintomas indicativos de possível infecção pela gripe aviária são genéricos, mas servem de alerta para a busca de cuidados médicos especializados, assim que surgem. O CDC referencia os seguintes sintomas: vermelhidão ocular (conjuntivite); sintomas respiratórios superiores leves, semelhantes aos da gripe; pneumonia; febre superior a 37,8ºC, embora nem sempre a febre se manifeste; tosse; dor de garganta; nariz escorrendo ou entupido; dores musculares ou no corpo; dores de cabeça; fadiga; falta de ar ou dificuldade para respirar; sintomas menos comuns incluem diarreia, náusea, vômito ou convulsões.
Probabilidades
As letras “H” e “N” no vírus da influenza indicam as proteínas hemaglutinina (H) e neuraminidase (N), respectivamente. A hemaglutinina é uma glicoproteína, que permite ao vírus juntar-se à membrana celular do hospedeiro, ligando-se ao ácido siálico. Até o momento são conhecidas 16 variantes da proteína, cujo número identificador é aposto ao “H” (H1, H2, H3, etc.). De sua parte, a neuraminidase é uma enzima que remove o ácido siálico, promovendo a liberação do vírus da célula infectada. Foram identificadas nove variantes da proteína, identificadas pelo número que segue a letra “N”.
Para que um vírus da gripe tenha sucesso, suas proteínas hemaglutinina (H) e neuraminidase (N) devem atuar harmonicamente. Uma possibilidade inquietante é que o H5N1 já tenha as mutações necessárias para desencadear uma pandemia, mas sua disseminação limitada entre humanos a manteve sob controle.
Do ponto de vista meramente matemático, quanto maior a ocorrência de exposições humanas ao vírus, maiores as chances de ser encontrada a combinação genética certa. A ocorrência de mutações ou rearranjos vantajosos é uma questão de probabilidade, e quanto mais infecções ocorrerem, mais replicação do vírus haverá, destarte mais oportunidades para novas variantes preocupantes aparecerem, que serão vencedoras no jogo da evolução darwiniana de sobrevivência do mais apto.
O médico norte-americano Henry Miller advoga que as intervenções de saúde pública devem incluir o achatamento da curva de infecções, justamente para diminuir a probabilidade de novas variantes mais perigosas aparecerem. Já Jeremy Faust, médico da Harvard Medical School, alerta, que a situação atual é semelhante a um jogo de roleta russa e nunca houve tantas balas na câmara.
A vigilância para rastrear as mudanças genéticas do vírus é crucial. Embora seja alarmante a descoberta de que uma mutação solitária da
hemaglutinina (226L) que possa se constituir em uma potencial mudança para a adaptação humana, ela não garante uma pandemia. Outras mutações provavelmente são necessárias para permitir a disseminação eficiente de humano para humano.
Cuidados
O risco potencial do H5N1 inclui-se no contexto de que as pandemias são raras, mas não impossíveis. Cada mutação traz o vírus um passo mais perto do limite, mas predizer se um vírus vai vencer esta barreira é um evento imponderável e imprevisível. De toda a maneira, a história recente com a Covid 19 mostrou o quanto uma pandemia pode ser devastadora.
Para evitar que a probabilidade de uma pandemia aumente, diversas ações são necessárias, mas cinco delas são cruciais: 1) investimento elevado e contínuo em pesquisa e desenvolvimento científico, desde o entendimento da biologia e da ecologia do vírus, até o tratamento terapêutico e preventivo, em especial vacinas; 2) monitoramento constante da evolução do vírus no ambiente; 3) políticas públicas para evitar a expansão do vírus; 4) manter informação fidedigna constante e evitar a propagação das fakenews criadas por negacionistas da Ciência; 5) tomar todos os cuidados pessoais para evitar infecções e agir rapidamente se os sintomas estiverem presentes.
Com respeito a esse último item, o CDC recomenda aos cidadãos norteamericanos os cuidados abaixo, que necessitam ser devidamente adaptados a outros países, como o Brasil:
- Evitar contato direto com aves selvagens e observá-las apenas à distância, se possível;
- Se encontrar uma ave, selvagem ou doméstica, doente ou morta por causa ignorada, contate os órgãos governamentais de defesa agropecuária ou de saúde pública;
- Evite exposição desprotegida a animais vivos ou mortos ou a superfícies contaminadas por eles;
- Evite contato físico direto desprotegido ou exposição próxima com gado leiteiro e materiais potencialmente infectados ou confirmadamente infectados com o vírus H5N1;
- As pessoas não devem comer ou beber leite cru ou produtos feitos com leite cru. Usar leite pasteurizado é a melhor maneira de manter você e sua família seguros;
- O CDC não recomenda, atualmente, nenhuma restrição de viagem para países afetados pela gripe aviária em pássaros, outros animais ou pessoas;
- Se você tiver contato com pássaros ou outros animais infectados e ficar doente, procure imediatamente auxílio médico especializado;
- Vacine-se, anualmente, contra a gripe. A vacina contra a gripe humana não previne a infecção por vírus da gripe aviária, mas pode reduzir o risco de adoecer com vírus da gripe humana e, portanto, o risco de coinfecção por gripe aviária.
Lembre-se sempre que prevenir é o melhor remédio. Vacina é a melhor prevenção.

Avicultura Editorial
O Nordeste avícola já não cabe no rodapé
Região construiu história, ganhou escala e entrou de forma mais consistente na conta dos investimentos avícolas do país. O rodapé ficou pequeno para o tamanho dessa pauta

A avicultura nordestina não nasceu agora, nem depende de descoberta recente para provar sua relevância. Há empresas, marcas, produtores e famílias que construíram trajetória na atividade por décadas. O que mudou é a escala da discussão. A região, por muito tempo observada apenas pela baixa participação no abate nacional sob inspeção federal, começa a aparecer com mais força em indicadores que mostram capacidade produtiva, alojamento de pintainhos, produção de ovos, genética, integração, verticalização e novos investimentos.
Essa diferença importa. Quando se olha apenas para o abate, o Nordeste ainda parece pequeno diante da força histórica do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste. Mas a fotografia fica incompleta. A região respondeu por uma fatia relevante do alojamento nacional de pintainhos de corte em 2025, avança na postura comercial, abriga operações integradas, amplia a produção de ovos, mantém presença em genética avícola e passa a se beneficiar da aproximação dos grãos produzidos no Matopiba.

Editorial escrito por Giuliano De Luca, jornalista e editor-chefe de O Presente Rural.
O Ceará é um dos exemplos mais claros dessa mudança de patamar. A avicultura está distribuída por dezenas de municípios, gera empregos, sustenta uma produção expressiva de ovos e frangos e reúne empresas que operam da ração à distribuição. A presença de uma granja de avós no estado também coloca a região em uma etapa estratégica da cadeia, muito além da produção de commodity.
A Bahia, por sua vez, mostra outro lado desse movimento: crescimento em alojamento, avanço na produção de ovos e potencial de expansão, mas também uma disputa dura contra custos, logística, energia, crédito e infraestrutura. O sinal é importante porque revela que o crescimento existe, mas não se sustenta apenas com demanda. Precisa de indústria, estrada, armazenagem, assistência técnica, mão de obra e ambiente de negócios.
Esta edição de O Presente Rural olha para o Nordeste sem folclore. Não se trata de afirmar que a avicultura brasileira mudou de endereço. O centro nacional da produção continua fortemente ancorado em regiões tradicionais. Mas também já não é possível tratar o Nordeste como nota lateral. A região construiu história, ganhou escala e entrou de forma mais consistente na conta dos investimentos avícolas do país. O rodapé ficou pequeno para o tamanho dessa pauta.
A edição também está disponível gratuitamente em versão digital, permitindo que produtores, técnicos, pesquisadores e profissionais da cadeia tenham acesso ao conteúdo completo, acesse clicando aqui. Boa leitura!
Avicultura
Sanidade, inovação e gestão estão entre os destaques da nova edição de Avicultura
Publicação reúne reportagens sobre o avanço da avicultura nordestina, sucessão familiar, biosseguridade, saúde animal e os principais temas que movimentam o setor.

A nova edição do jornal Avicultura, de O Presente Rural, reúne reportagens sobre os principais desafios, oportunidades e transformações da cadeia avícola brasileira. A publicação destaca, na reportagem de capa, o avanço da avicultura nordestina, que vem ampliando sua escala de produção e fortalecendo sua participação no setor.

Foto: Shutterstock
A edição também traz uma cobertura sobre o Alimenta 2027, evento que levará a Cascavel um congresso e uma feira voltados à proteína animal, reforçando o município como um dos principais polos do agronegócio brasileiro.
Outro tema em destaque é o alerta para a laringotraqueíte, enfermidade que também preocupa a avicultura de corte e exige atenção dos produtores quanto às medidas de prevenção e biosseguridade.

Foto: Shutterstock
A sucessão familiar no campo também ganha espaço nas páginas do jornal. A reportagem “O filho não saiu do campo, foi afastado da gestão” aborda os desafios enfrentados pelas famílias rurais na preparação das novas gerações para assumir a administração das propriedades.
A publicação ainda apresenta um panorama da indústria de saúde animal, que movimenta quase R$ 2 bilhões com a avicultura, evidenciando a importância do segmento para a sanidade e a produtividade das granjas.
Entre as reportagens especiais, a edição conta a trajetória de uma professora

Foto: Shutterstock
que contribuiu para a formação de profissionais e para o desenvolvimento de uma das maiores potências avícolas do país. Também traz uma análise sobre uma das etapas mais importantes da cadeia produtiva: o abate de aves, abordando os desafios relacionados à velocidade da linha, à qualidade da carcaça e à segurança do processo.
Além das reportagens, a nova edição reúne artigos técnicos assinados por especialistas, com conteúdos voltados ao manejo, sanidade, nutrição, bem-estar animal, tecnologia e inovação, além de apresentar novidades das principais empresas que atuam no setor avícola.
A edição também está disponível gratuitamente em versão digital, permitindo que produtores, técnicos, pesquisadores e profissionais da cadeia tenham acesso ao conteúdo completo, acesse clicando aqui. Boa leitura!
Avicultura No Noroeste do Estado
Rio Grande do Sul confirma foco de gripe aviária em aves de subsistência
Medidas de contenção e vigilância foram adotadas após a confirmação laboratorial. Comércio de produtos avícolas segue sem restrições.

O Rio Grande do Sul confirmou o primeiro caso de Influenza aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) em aves de subsistência. O foco foi identificado no município de Coqueiros do Sul, no Noroeste do Estado, e confirmado na última sexta-feira (18) pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária (LFDA), em Campinas (SP).

Foto: Divulgação
A suspeita foi atendida por equipes do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal (DDA), da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), após notificação registrada em 14 de julho. As amostras coletadas foram encaminhadas ao laboratório de referência da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), que confirmou a presença do vírus.
De acordo com a Seapi, o registro ocorreu em aves de fundo de quintal e não altera o status sanitário do Rio Grande do Sul e do Brasil em relação à influenza aviária de alta patogenicidade. Por isso, não há impacto sobre o comércio de produtos avícolas.
A secretaria também reforça que o consumo de carne de frango e ovos permanece seguro, uma vez que a doença não é transmitida por alimentos.
Como medida de contenção, o Serviço Veterinário Oficial do Rio Grande do Sul realizará inspeções em propriedades rurais e granjas localizadas em um raio de 10 quilômetros do foco, além de ações de vigilância epidemiológica e orientação aos produtores.

Foto: Divulgação/Seapi
A Influenza aviária é uma doença viral altamente contagiosa que acomete principalmente aves, embora também possa infectar mamíferos e, em situações raras, seres humanos.
A Seapi orienta que a população não manipule aves doentes ou mortas. Casos suspeitos, caracterizados por sinais respiratórios, alterações neurológicas ou mortalidade elevada e repentina, devem ser comunicados imediatamente ao Serviço Veterinário Oficial por meio das Inspetorias de Defesa Agropecuária ou dos canais oficiais da secretaria.




