Suínos Carbono positivo
Fazenda de suínos mineira neutraliza e ainda captura gases do efeito estufa
Propriedade de 81 hectares redefiniu os padrões de produção suína ao integrar a verticalização da atividade e implementar estratégias inovadoras por meio da adoção de tecnologias de ponta, práticas de economia circular e uma gestão consciente.

Ao incorporar práticas sustentáveis que aliam eficiência produtiva com respeito ao meio ambiente, a suinocultura brasileira dá exemplo ao mundo de que é possível ter rentabilidade com sustentabilidade. Entre as iniciativas que se destacam está a da Fazenda Memória, localizada em Raul Soares, na Zona da Mata Mineira, um dos principais polos de produção da suinocultura independente do Brasil.
Sob a gestão do casal de arquitetos Rodrigo Torres e Andrea Zerbotto, a propriedade de 81 hectares redefiniu os padrões de produção suína ao integrar a verticalização da atividade e implementar estratégias inovadoras por meio da adoção de tecnologias de ponta, práticas de economia circular e uma gestão consciente.
A Fazenda Memória apresenta uma pegada de carbono positiva. Atualmente, para a produção de 22.680 suínos emite 1.049,03 toneladas de CO2 equivalente, o que resulta em uma taxa de emissão de 0,046 tCO2 por suíno. Com o sistema de produção implementado, que inclui a manutenção das atividades suinícolas e o perfil de emissões, além do plantio de 130 hectares de eucalipto e a recuperação de 20 hectares de mata nativa, a previsão é de que, em 14 anos, a produção de suínos possa aumentar para 79.970 cabeças que a fazenda poderá continuar operando como uma propriedade de carbono neutro.

Casal de arquitetos Rodrigo Torres e Andrea Zerbotto ingressaram na suinocultura há sete anos: verticalização da atividade possibilita agregação de valor ao suíno produzido na Fazenda Memória
A trajetória do casal na suinocultura começou há sete anos, quando Torres decidiu comprar a granja da família, que já atuava há mais de quatro décadas na criação de suínos. A propriedade, porém, enfrentava desafios devido à falta de modernização e ao envelhecimento dos gestores. “Após acumular prejuízos por mais de cinco anos, minha família decidiu colocar a granja à venda em 2017, quando me envolvi para encontrar um comprador. Passei a estudar o negócio mais a fundo e me surpreendi com o potencial da suinocultura, enxergando na atividade uma oportunidade de diversificar meus negócios, que se concentravam em construção civil, projetos arquitetônicos e na preservação do patrimônio cultural”, relembra Torres em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural.
Após a aquisição, sem experiência e conhecimento técnico de como estruturar a produção de suínos, o casal se dedicou a conhecer melhor a cadeia produtiva a fim de identificar oportunidades para reverter o cenário de baixa produtividade e prejuízos que a granja vinha acumulando. “Ingenuamente acreditamos que a modernização e a gestão trariam resultados imediatos. Contudo, após alguns meses, percebemos que faltavam as ferramentas necessárias para transformar um negócio de baixa produtividade em um empreendimento lucrativo. Assim, decidimos buscar conhecimento técnico para a evolução da granja. No início, procuramos apoio da Embrapa Suínos e Aves para implantar um sistema de Procedimento Operacional Padrão (POP) para cada atividade, como a fábrica de ração, maternidade, creche e terminação. No entanto, não encontramos no mercado informações disponíveis, e a própria Embrapa não tinha modelos prontos. Diante disso, eu e minha esposa nos dedicamos para desenvolver nossos próprios POPs, o que resultou em um grande crescimento. Aliado a isso, buscamos suinocultores para trocar experiências, mas, na região de Ponte Nova, MG, a troca de informações era escassa. Contudo, recebemos ajuda de alguns produtores, da Embrapa e de empresas do setor, o que nos permitiu melhorar os índices zootécnicos, implementar boas práticas de manejo, tecnologia e inovação na granja”, recorda Torres, que atualmente preside a Cooperativa de Suinocultores de Ponte Nova e Região (Coosuiponte) e é diretor da Associação de Suinocultores do Vale do Piranga (Assuvap).
Verticalização da suinocultura
Com uma visão de futuro e foco na sustentabilidade, o casal projetou a verticalização da suinocultura para garantir autossuficiência e eficiência em toda a cadeia produtiva. A ideia central do projeto foi comprar novas áreas de terra para plantar seus próprios grãos, extrusar a soja para produzir farelo e óleo de soja, e, a partir disso, produzir biodiesel para uso próprio. Além de reduzir a dependência externa por insumos, o projeto também conta com a construção de um frigorífico para processar a carne suína, que deve entrar em operação em maio de 2025, fechando o ciclo de produção dentro da própria granja.
A alimentação dos animais é outro pilar fundamental do modelo de verticalização adotado pelos produtores. Na propriedade, os grãos utilizados na ração, como sorgo, milho e soja, são processados na fábrica de ração própria. A soja em grão é ainda um dos principais insumos adquiridos de fornecedores externos e o seu transporte é feito em frota própria.
Sistema de produção

Produtor de suínos, presidente da Coosuiponte e diretor da Assuvap, Rodrigo Torres: “Na nossa propriedade temos uma cultura de investimento em sustentabilidade, mas isso só é viável porque acreditamos que podemos agregar valor ao nosso produto”
A produção da fazenda é feita no sistema de ciclo completo. A granja possui 700 matrizes, com produtividade média de 33,5 cevados desmamados/fêmea/ano, o que resulta em uma produção anual estimada de 22 mil suínos, destinada atualmente para cinco frigoríficos da região de Ponta Nova, MG. “Dessa produção são vendidos em média 31 cevados/fêmea/ano, o restante é destinado à reposição, que, apesar do controle rigoroso, há uma taxa de mortalidade no rebanho”, explica o produtor mineiro.
Construção de um frigorífico próprio
A construção de um frigorífico próprio avança com financiamento aprovado como projeto de inovação. A obra já está em andamento e tem previsão para início das operações em maio do próximo ano. O empreendimento se destaca pelo posicionamento estratégico, representado por três pilares distintos. O primeiro está na seleção dos cortes: a produção será focada em cortes americanos, ibéricos e alguns cortes com osso, como Prime Rib, Short Rib e T-Bone, todas provenientes da raça Duroc, reconhecida pelo marmoreio, ou seja, pela gordura entremeada, característica que confere um produto de altíssima qualidade.
Outro ponto é a diversificação da linha de produtos. Parte da produção será temperada e uma parcela já será entregue cozida e enlatada. “Esses cortes especiais de uma raça nobre, apesar de produção em escala industrial, serão temperados artesanalmente e cuidadosamente embalados para presente, garantindo uma experiência única para o consumidor”, enfatiza.
O segundo diferencial é que a produção será toda certificada. “Estamos falando de uma produção de carne consorciada com floresta, que, além de mitigar emissões, traz maior produtividade com o uso de grãos de origem local, biodigestores e energia limpa”, destaca Torres.
Ele acrescenta que o projeto prevê o plantio de 150 mil árvores, que irá sequestrar todo o carbono gerado ao longo da cadeia de produção e distribuição, incluindo o transporte de contêineres refrigerados para mercados internacionais, como Europa e Estados Unidos.
Torres também ressalta que o compromisso vai além da neutralização das emissões. “Estamos plantando mais árvores do que o necessário para neutralizar nossa pegada de carbono. Queremos ter um equilíbrio positivo de carbono, ou seja, vamos neutralizar uma quantidade de dióxido de carbono maior que a emitida pela nossa atividade, porque o nosso objetivo não é apenas neutralizar o aquecimento global, mas contribuir para o arrefecimento global. Queremos ser parte da solução, não do problema”, afirma.

Além da certificação da pegada de carbono, Torres já realizou o inventário de emissões e está em busca de certificações de bem-estar animal e de rastreabilidade da raça Duroc. Isso inclui testes genéticos que comprovam a origem do animal, garantindo ao consumidor que a carne oferecida é de um animal 50% Duroc, resultado de um cruzamento em que o macho fornecedor é dessa raça.
E o terceiro pilar do Frigorífico O Cortes é a oferta de produtos em porções menores, com até 250 gramas. “A proposta é reduzir o desperdício doméstico, oferecendo porções menores e de maior qualidade. Nosso frigorífico aposta em um consumo mais consciente e qualificado, oferecendo um produto de maior valor agregado, sustentável, certificado e com qualidade superior”, sinaliza.
Geração de empregos
A granja de suínos emprega 35 colaboradores nas áreas de administração, produção, manutenção e logística. E na planta frigorífica está prevista a contratação de até 200 funcionários quando estiver operando em sua capacidade máxima, em dois turnos. “O início do abate está previsto para maio de 2025, com um período de seis meses para treinamento de funcionários. O processamento será de forma gradual, com o abate de 10 suínos por dia e deve aumentar para 90 suínos diários em seis meses. A meta é atingir o abate máximo de 180 suínos por dia, com uma segunda linha de produção”, explica Torres.
Embora o volume inicial seja pequeno em comparação aos frigoríficos da região de Ponta Nova, MG, que abatem cerca de nove mil suínos por dia, Torres enfatiza que a produção será focada em carne suína de alto valor agregado. “Vamos abater 90 suínos por dia, o que parece pouco, mas isso se traduz em mais de 30 mil itens de 250 gramas por dia”, ressalta.
O produto, voltado principalmente para as classes A e B, será oferecido em porções que custam entre R$ 28 e R$ 32 nas prateleiras, ideal para o consumo de até duas pessoas.
Torre afirma a estratégia de venda vai estar focada no mercado nacional no primeiro ano e, a partir do segundo, será iniciado as exportações para a Europa e os Estados Unidos.
Ampliação da produção
Segundo Torres, caso o mercado responda bem e a demanda exija aumento na produção além dos 180 suínos diários, o plano é terceirizar essa produção para frigoríficos regionais.
O modelo de negócios da família Torres não inclui aumentar a produção de suínos ou construir mais galpões, tampouco pressionar o mercado com mais oferta. A proposta é agregar valor à produção existente, pagando um prêmio maior pelo suíno da região de Ponte Nova, melhorando a qualidade genética e o manejo dos animais.
Torres enfatiza que o objetivo é fazer uma transição na cadeia produtiva, tornando a suinocultura mais sustentável e o processamento de carne suína menos dependente da venda de commodities.
Exemplos práticos de sustentabilidade
O produtor ressalta que a busca por práticas sustentáveis se tornou essencial, não apenas para a preservação do meio ambiente, mas também para garantir a viabilidade econômica da granja a longo prazo. Torres conta, orgulhoso, que investe em diversas frentes, como o uso consciente d’água, a gestão de dejetos, a produção de energia renovável e a promoção do bem-estar animal.
Para fazer o uso sustentável d’água foi construído um lago para o reaproveitamento d’água da chuva, contudo, para combater o desperdício falta instalar hidrômetros e fazer a revegetação de nascentes e cursos d’água.
Na área de grãos, Torres diz que a fazenda ainda precisa aumentar a aquisição local de insumos, a fim de reduzir as distâncias de transporte e, consequentemente, minimizar a pegada de carbono. Em relação aos dejetos suínos, a propriedade já implementou um sistema de tratamento com biodigestores, utilizando o digestato para fertirrigação. Além disso, iniciou a destinação do digestato sólido para a cadeia de plantio de grãos na região de Ponte Nova, MG.
No campo da energia, a fazenda já conta com uma usina de biogás e planeja expandir suas operações para atender à demanda energética do frigorífico. Para garantir a autossuficiência energética, está sendo construído uma usina fotovoltaica, visando alcançar 100% de autonomia quando iniciar as operações da planta industrial.
Em relação aos resíduos sólidos, Torres conta que é realizado a separação do lixo para coleta pelo consórcio de municípios, no entanto, ele salienta que é necessário que o produtor se envolva mais ativamente nesse processo. “Atualmente, confiamos ao consórcio a responsabilidade de recolher nossos resíduos e destinar corretamente, além de realizar a reciclagem. Contudo, não temos monitorado esse trabalho”, evidencia o produtor, acrescentando que ainda não está implementado um sistema de compostagem para os resíduos domésticos na fazenda.
Torres ressalta que a implantação do frigorífico está acompanhada de 130 hectares para plantação de eucalipto e outros 20 hectares à recuperação de espécies nativas, com objetivo de recuperar a área de reserva legal nos próximos anos.
Atualmente, a fazenda utiliza biogás como fonte de geração de energia elétrica e está em processo de ampliação desta usina. Torres adianta que no frigorífico será implementado uma caldeira movida a biogás, o que vai gerar economia ao processo produtivo, além de reduzir a incidência de gases que vão para a atmosfera. “Em um horizonte de médio a longo prazo, planejamos desenvolver nosso próprio reator para transformar o óleo de soja, resultante da extrusão do grão, em biodiesel. Nossa expectativa é que, no futuro, parte da frota de caminhões e tratores possa operar com biogás ou motores elétricos”, salienta.
Na construção do frigorífico, a escolha dos gases para refrigeração prioriza opções naturais em vez de sintéticos, que, em caso de vazamento, são extremamente prejudiciais à camada de ozônio. “Na nossa propriedade temos uma cultura de investimento em sustentabilidade, mas isso só é viável porque acreditamos que podemos agregar valor ao nosso produto”, ressalta o produtor.
No âmbito da sustentabilidade, há também uma forte preocupação com o aspecto social, estando em processo de implantação um plano de cargos e salários que inclui metas e bonificações, além de uma ação social com feijoada comunitária a partir do início das atividades da unidade de processamento própria.
Entre as medidas de biosseguridade do sistema de produção está a instalação de arcos de desinfecção e o cercamento da granja e do frigorífico. No que diz respeito ao bem-estar animal, a granja tem se modernizado nos últimos sete anos com a instalação de ventiladores e aquecedores nos galpões, além de linhas automáticas de arraçoamento. Essas melhorias visam assegurar que os animais não passem por situações adversas, como frio, calor ou fome. A propriedade também tem investido na melhoria da densidade de alojamento dos suínos em diversas fases de desenvolvimento e na implantação de um sistema de música para reduzir o estresse durante as mudanças de local, além de enriquecer o ambiente com brinquedos. “A área destinada as matrizes ainda são em gaiola de gestação, mas está prevista a adequação para gestação coletiva nos próximos três a quatro anos, respeitando os prazos legais da normativa vigente”, pontua, acrescentando que a granja também já iniciou mudanças nos manejos com foco na redução do uso de antimicrobianos.
Outra iniciativa de sustentabilidade que está sendo adotada na granja é o plantio de árvores entre os galpões para melhorar o microclima local. “Reduzindo a variação climática melhoramos o desempenho dos animais, e, consequentemente, aumentamos a produtividade e a rentabilidade da produção”, salienta Torres.
Inventário de carbono
Além disso, a granja possui um inventário de carbono, elaborado com base em métricas europeias, que detalha as emissões da Fazenda Memória e de toda a cadeia suinícola, incluindo desde a pegada de carbono associada ao cultivo e transporte de grãos até a produção de suínos, a fabricação de carne e sua distribuição. “ Como essas análises são baseadas em parâmetros europeus, é provável que, se fossem adaptadas ao sistema tropical, especialmente ao modelo brasileiro, o resultado apresentaria uma pegada de carbono significativamente menor”, enfatiza Torres.
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Suínos
Rentabilidade da suinocultura preocupa produtores de Mato Grosso
Apesar do avanço da produção e das exportações brasileiras, preços em queda e margens apertadas desafiam o setor no Estado.
Suínos
Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
Suínos
Da creche à sustentabilidade, 6º Encontro Técnico Abraves-SP apresenta estratégias para aumentar eficiência das granjas
Evento em Pirassununga (SP) vai discutir manejo de leitões leves, sanidade, nutrição e sistemas de produção para apoiar decisões técnicas na suinocultura.

Melhorar a produtividade sem comprometer a sanidade do rebanho exige decisões técnicas em todas as etapas da produção. Manejo de leitões, nutrição, biosseguridade e gestão dos sistemas de criação estão entre os fatores que determinam o desempenho das granjas e influenciam diretamente os custos e os resultados da atividade.
Diante desse cenário, a atualização técnica tornou-se uma ferramenta cada vez mais importante para médicos-veterinários, zootecnistas, consultores e produtores, que precisam incorporar novos conhecimentos à rotina das granjas.
Esses temas estarão em debate no 6º Encontro Técnico Abraves-SP, que será realizado em 09 de setembro, no campus da Universidade de São Paulo (USP), reunindo profissionais da cadeia suinícola para discutir soluções aplicáveis aos sistemas de produção.
Entre os destaques da programação está a palestra do médico-veterinário Vinícius Cantarelli, que abordará estratégias de manejo de leitões leves na fase de creche, uma etapa decisiva para o desempenho dos animais ao longo do ciclo produtivo.
O médico-veterinário Caio Abércio da Silva discutirá a sustentabilidade dos sistemas de produção, apresentando abordagens voltadas à eficiência técnica, econômica e ambiental da suinocultura.
Promovido pela regional paulista da Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos (ABRAVES), o encontro busca aproximar pesquisa científica e prática de campo, oferecendo aos participantes ferramentas para aprimorar a tomada de decisão nas granjas.
A programação completa e as inscrições estão disponíveis aqui.








