Suínos Carbono positivo
Fazenda de suínos mineira neutraliza e ainda captura gases do efeito estufa
Propriedade de 81 hectares redefiniu os padrões de produção suína ao integrar a verticalização da atividade e implementar estratégias inovadoras por meio da adoção de tecnologias de ponta, práticas de economia circular e uma gestão consciente.

Ao incorporar práticas sustentáveis que aliam eficiência produtiva com respeito ao meio ambiente, a suinocultura brasileira dá exemplo ao mundo de que é possível ter rentabilidade com sustentabilidade. Entre as iniciativas que se destacam está a da Fazenda Memória, localizada em Raul Soares, na Zona da Mata Mineira, um dos principais polos de produção da suinocultura independente do Brasil.
Sob a gestão do casal de arquitetos Rodrigo Torres e Andrea Zerbotto, a propriedade de 81 hectares redefiniu os padrões de produção suína ao integrar a verticalização da atividade e implementar estratégias inovadoras por meio da adoção de tecnologias de ponta, práticas de economia circular e uma gestão consciente.
A Fazenda Memória apresenta uma pegada de carbono positiva. Atualmente, para a produção de 22.680 suínos emite 1.049,03 toneladas de CO2 equivalente, o que resulta em uma taxa de emissão de 0,046 tCO2 por suíno. Com o sistema de produção implementado, que inclui a manutenção das atividades suinícolas e o perfil de emissões, além do plantio de 130 hectares de eucalipto e a recuperação de 20 hectares de mata nativa, a previsão é de que, em 14 anos, a produção de suínos possa aumentar para 79.970 cabeças que a fazenda poderá continuar operando como uma propriedade de carbono neutro.

Casal de arquitetos Rodrigo Torres e Andrea Zerbotto ingressaram na suinocultura há sete anos: verticalização da atividade possibilita agregação de valor ao suíno produzido na Fazenda Memória
A trajetória do casal na suinocultura começou há sete anos, quando Torres decidiu comprar a granja da família, que já atuava há mais de quatro décadas na criação de suínos. A propriedade, porém, enfrentava desafios devido à falta de modernização e ao envelhecimento dos gestores. “Após acumular prejuízos por mais de cinco anos, minha família decidiu colocar a granja à venda em 2017, quando me envolvi para encontrar um comprador. Passei a estudar o negócio mais a fundo e me surpreendi com o potencial da suinocultura, enxergando na atividade uma oportunidade de diversificar meus negócios, que se concentravam em construção civil, projetos arquitetônicos e na preservação do patrimônio cultural”, relembra Torres em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural.
Após a aquisição, sem experiência e conhecimento técnico de como estruturar a produção de suínos, o casal se dedicou a conhecer melhor a cadeia produtiva a fim de identificar oportunidades para reverter o cenário de baixa produtividade e prejuízos que a granja vinha acumulando. “Ingenuamente acreditamos que a modernização e a gestão trariam resultados imediatos. Contudo, após alguns meses, percebemos que faltavam as ferramentas necessárias para transformar um negócio de baixa produtividade em um empreendimento lucrativo. Assim, decidimos buscar conhecimento técnico para a evolução da granja. No início, procuramos apoio da Embrapa Suínos e Aves para implantar um sistema de Procedimento Operacional Padrão (POP) para cada atividade, como a fábrica de ração, maternidade, creche e terminação. No entanto, não encontramos no mercado informações disponíveis, e a própria Embrapa não tinha modelos prontos. Diante disso, eu e minha esposa nos dedicamos para desenvolver nossos próprios POPs, o que resultou em um grande crescimento. Aliado a isso, buscamos suinocultores para trocar experiências, mas, na região de Ponte Nova, MG, a troca de informações era escassa. Contudo, recebemos ajuda de alguns produtores, da Embrapa e de empresas do setor, o que nos permitiu melhorar os índices zootécnicos, implementar boas práticas de manejo, tecnologia e inovação na granja”, recorda Torres, que atualmente preside a Cooperativa de Suinocultores de Ponte Nova e Região (Coosuiponte) e é diretor da Associação de Suinocultores do Vale do Piranga (Assuvap).
Verticalização da suinocultura
Com uma visão de futuro e foco na sustentabilidade, o casal projetou a verticalização da suinocultura para garantir autossuficiência e eficiência em toda a cadeia produtiva. A ideia central do projeto foi comprar novas áreas de terra para plantar seus próprios grãos, extrusar a soja para produzir farelo e óleo de soja, e, a partir disso, produzir biodiesel para uso próprio. Além de reduzir a dependência externa por insumos, o projeto também conta com a construção de um frigorífico para processar a carne suína, que deve entrar em operação em maio de 2025, fechando o ciclo de produção dentro da própria granja.
A alimentação dos animais é outro pilar fundamental do modelo de verticalização adotado pelos produtores. Na propriedade, os grãos utilizados na ração, como sorgo, milho e soja, são processados na fábrica de ração própria. A soja em grão é ainda um dos principais insumos adquiridos de fornecedores externos e o seu transporte é feito em frota própria.
Sistema de produção

Produtor de suínos, presidente da Coosuiponte e diretor da Assuvap, Rodrigo Torres: “Na nossa propriedade temos uma cultura de investimento em sustentabilidade, mas isso só é viável porque acreditamos que podemos agregar valor ao nosso produto”
A produção da fazenda é feita no sistema de ciclo completo. A granja possui 700 matrizes, com produtividade média de 33,5 cevados desmamados/fêmea/ano, o que resulta em uma produção anual estimada de 22 mil suínos, destinada atualmente para cinco frigoríficos da região de Ponta Nova, MG. “Dessa produção são vendidos em média 31 cevados/fêmea/ano, o restante é destinado à reposição, que, apesar do controle rigoroso, há uma taxa de mortalidade no rebanho”, explica o produtor mineiro.
Construção de um frigorífico próprio
A construção de um frigorífico próprio avança com financiamento aprovado como projeto de inovação. A obra já está em andamento e tem previsão para início das operações em maio do próximo ano. O empreendimento se destaca pelo posicionamento estratégico, representado por três pilares distintos. O primeiro está na seleção dos cortes: a produção será focada em cortes americanos, ibéricos e alguns cortes com osso, como Prime Rib, Short Rib e T-Bone, todas provenientes da raça Duroc, reconhecida pelo marmoreio, ou seja, pela gordura entremeada, característica que confere um produto de altíssima qualidade.
Outro ponto é a diversificação da linha de produtos. Parte da produção será temperada e uma parcela já será entregue cozida e enlatada. “Esses cortes especiais de uma raça nobre, apesar de produção em escala industrial, serão temperados artesanalmente e cuidadosamente embalados para presente, garantindo uma experiência única para o consumidor”, enfatiza.
O segundo diferencial é que a produção será toda certificada. “Estamos falando de uma produção de carne consorciada com floresta, que, além de mitigar emissões, traz maior produtividade com o uso de grãos de origem local, biodigestores e energia limpa”, destaca Torres.
Ele acrescenta que o projeto prevê o plantio de 150 mil árvores, que irá sequestrar todo o carbono gerado ao longo da cadeia de produção e distribuição, incluindo o transporte de contêineres refrigerados para mercados internacionais, como Europa e Estados Unidos.
Torres também ressalta que o compromisso vai além da neutralização das emissões. “Estamos plantando mais árvores do que o necessário para neutralizar nossa pegada de carbono. Queremos ter um equilíbrio positivo de carbono, ou seja, vamos neutralizar uma quantidade de dióxido de carbono maior que a emitida pela nossa atividade, porque o nosso objetivo não é apenas neutralizar o aquecimento global, mas contribuir para o arrefecimento global. Queremos ser parte da solução, não do problema”, afirma.

Além da certificação da pegada de carbono, Torres já realizou o inventário de emissões e está em busca de certificações de bem-estar animal e de rastreabilidade da raça Duroc. Isso inclui testes genéticos que comprovam a origem do animal, garantindo ao consumidor que a carne oferecida é de um animal 50% Duroc, resultado de um cruzamento em que o macho fornecedor é dessa raça.
E o terceiro pilar do Frigorífico O Cortes é a oferta de produtos em porções menores, com até 250 gramas. “A proposta é reduzir o desperdício doméstico, oferecendo porções menores e de maior qualidade. Nosso frigorífico aposta em um consumo mais consciente e qualificado, oferecendo um produto de maior valor agregado, sustentável, certificado e com qualidade superior”, sinaliza.
Geração de empregos
A granja de suínos emprega 35 colaboradores nas áreas de administração, produção, manutenção e logística. E na planta frigorífica está prevista a contratação de até 200 funcionários quando estiver operando em sua capacidade máxima, em dois turnos. “O início do abate está previsto para maio de 2025, com um período de seis meses para treinamento de funcionários. O processamento será de forma gradual, com o abate de 10 suínos por dia e deve aumentar para 90 suínos diários em seis meses. A meta é atingir o abate máximo de 180 suínos por dia, com uma segunda linha de produção”, explica Torres.
Embora o volume inicial seja pequeno em comparação aos frigoríficos da região de Ponta Nova, MG, que abatem cerca de nove mil suínos por dia, Torres enfatiza que a produção será focada em carne suína de alto valor agregado. “Vamos abater 90 suínos por dia, o que parece pouco, mas isso se traduz em mais de 30 mil itens de 250 gramas por dia”, ressalta.
O produto, voltado principalmente para as classes A e B, será oferecido em porções que custam entre R$ 28 e R$ 32 nas prateleiras, ideal para o consumo de até duas pessoas.
Torre afirma a estratégia de venda vai estar focada no mercado nacional no primeiro ano e, a partir do segundo, será iniciado as exportações para a Europa e os Estados Unidos.
Ampliação da produção
Segundo Torres, caso o mercado responda bem e a demanda exija aumento na produção além dos 180 suínos diários, o plano é terceirizar essa produção para frigoríficos regionais.
O modelo de negócios da família Torres não inclui aumentar a produção de suínos ou construir mais galpões, tampouco pressionar o mercado com mais oferta. A proposta é agregar valor à produção existente, pagando um prêmio maior pelo suíno da região de Ponte Nova, melhorando a qualidade genética e o manejo dos animais.
Torres enfatiza que o objetivo é fazer uma transição na cadeia produtiva, tornando a suinocultura mais sustentável e o processamento de carne suína menos dependente da venda de commodities.
Exemplos práticos de sustentabilidade
O produtor ressalta que a busca por práticas sustentáveis se tornou essencial, não apenas para a preservação do meio ambiente, mas também para garantir a viabilidade econômica da granja a longo prazo. Torres conta, orgulhoso, que investe em diversas frentes, como o uso consciente d’água, a gestão de dejetos, a produção de energia renovável e a promoção do bem-estar animal.
Para fazer o uso sustentável d’água foi construído um lago para o reaproveitamento d’água da chuva, contudo, para combater o desperdício falta instalar hidrômetros e fazer a revegetação de nascentes e cursos d’água.
Na área de grãos, Torres diz que a fazenda ainda precisa aumentar a aquisição local de insumos, a fim de reduzir as distâncias de transporte e, consequentemente, minimizar a pegada de carbono. Em relação aos dejetos suínos, a propriedade já implementou um sistema de tratamento com biodigestores, utilizando o digestato para fertirrigação. Além disso, iniciou a destinação do digestato sólido para a cadeia de plantio de grãos na região de Ponte Nova, MG.
No campo da energia, a fazenda já conta com uma usina de biogás e planeja expandir suas operações para atender à demanda energética do frigorífico. Para garantir a autossuficiência energética, está sendo construído uma usina fotovoltaica, visando alcançar 100% de autonomia quando iniciar as operações da planta industrial.
Em relação aos resíduos sólidos, Torres conta que é realizado a separação do lixo para coleta pelo consórcio de municípios, no entanto, ele salienta que é necessário que o produtor se envolva mais ativamente nesse processo. “Atualmente, confiamos ao consórcio a responsabilidade de recolher nossos resíduos e destinar corretamente, além de realizar a reciclagem. Contudo, não temos monitorado esse trabalho”, evidencia o produtor, acrescentando que ainda não está implementado um sistema de compostagem para os resíduos domésticos na fazenda.
Torres ressalta que a implantação do frigorífico está acompanhada de 130 hectares para plantação de eucalipto e outros 20 hectares à recuperação de espécies nativas, com objetivo de recuperar a área de reserva legal nos próximos anos.
Atualmente, a fazenda utiliza biogás como fonte de geração de energia elétrica e está em processo de ampliação desta usina. Torres adianta que no frigorífico será implementado uma caldeira movida a biogás, o que vai gerar economia ao processo produtivo, além de reduzir a incidência de gases que vão para a atmosfera. “Em um horizonte de médio a longo prazo, planejamos desenvolver nosso próprio reator para transformar o óleo de soja, resultante da extrusão do grão, em biodiesel. Nossa expectativa é que, no futuro, parte da frota de caminhões e tratores possa operar com biogás ou motores elétricos”, salienta.
Na construção do frigorífico, a escolha dos gases para refrigeração prioriza opções naturais em vez de sintéticos, que, em caso de vazamento, são extremamente prejudiciais à camada de ozônio. “Na nossa propriedade temos uma cultura de investimento em sustentabilidade, mas isso só é viável porque acreditamos que podemos agregar valor ao nosso produto”, ressalta o produtor.
No âmbito da sustentabilidade, há também uma forte preocupação com o aspecto social, estando em processo de implantação um plano de cargos e salários que inclui metas e bonificações, além de uma ação social com feijoada comunitária a partir do início das atividades da unidade de processamento própria.
Entre as medidas de biosseguridade do sistema de produção está a instalação de arcos de desinfecção e o cercamento da granja e do frigorífico. No que diz respeito ao bem-estar animal, a granja tem se modernizado nos últimos sete anos com a instalação de ventiladores e aquecedores nos galpões, além de linhas automáticas de arraçoamento. Essas melhorias visam assegurar que os animais não passem por situações adversas, como frio, calor ou fome. A propriedade também tem investido na melhoria da densidade de alojamento dos suínos em diversas fases de desenvolvimento e na implantação de um sistema de música para reduzir o estresse durante as mudanças de local, além de enriquecer o ambiente com brinquedos. “A área destinada as matrizes ainda são em gaiola de gestação, mas está prevista a adequação para gestação coletiva nos próximos três a quatro anos, respeitando os prazos legais da normativa vigente”, pontua, acrescentando que a granja também já iniciou mudanças nos manejos com foco na redução do uso de antimicrobianos.
Outra iniciativa de sustentabilidade que está sendo adotada na granja é o plantio de árvores entre os galpões para melhorar o microclima local. “Reduzindo a variação climática melhoramos o desempenho dos animais, e, consequentemente, aumentamos a produtividade e a rentabilidade da produção”, salienta Torres.
Inventário de carbono
Além disso, a granja possui um inventário de carbono, elaborado com base em métricas europeias, que detalha as emissões da Fazenda Memória e de toda a cadeia suinícola, incluindo desde a pegada de carbono associada ao cultivo e transporte de grãos até a produção de suínos, a fabricação de carne e sua distribuição. “ Como essas análises são baseadas em parâmetros europeus, é provável que, se fossem adaptadas ao sistema tropical, especialmente ao modelo brasileiro, o resultado apresentaria uma pegada de carbono significativamente menor”, enfatiza Torres.
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Suínos
Primeiro clone suíno da América Latina nasce em unidade da Secretaria de Agricultura de SP
Avanço inédito combina ciência da USP com estrutura do Instituto de Zootecnia e reforça papel da pesquisa paulista na geração de soluções para a saúde e o agro

O primeiro clone suíno da América Latina nasceu na unidade do Instituto de Zootecnia, em Piracicaba, vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O feito inédito é resultado de pesquisa conduzida pela Universidade de São Paulo, com apoio da Agência Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), responsável pela estrutura, manejo e cuidado dos animais por meio do Instituto de Zootecnia.
O nascimento ocorreu no dia 24 de março, na unidade experimental do IZ em Tanquinho, onde as instalações foram readequadas conforme a legislação para a produção desses animais, com rigor em biossegurança, bem-estar e controle sanitário.
A iniciativa integra um projeto voltado à produção de suínos com potencial para doação de órgãos e tecidos para humanos, dentro do campo do xenotransplante — técnica que busca reduzir a fila por transplantes e ampliar as possibilidades de compatibilidade entre doadores e receptores.
A pesquisa mobiliza uma equipe multidisciplinar, envolvendo especialistas em zootecnia, medicina veterinária e biotecnologia. No Instituto de Zootecnia, foram desenvolvidos protocolos específicos de manejo produtivo, sanitário, nutricional e ambiental, além de técnicas reprodutivas e cirúrgicas para implantação dos embriões, incluindo sincronização de cio e procedimentos de alta complexidade.
De acordo com a equipe envolvida, os manejos são minuciosamente acompanhados para garantir o sucesso da gestação e o desenvolvimento dos animais. A próxima etapa do projeto prevê o monitoramento dos clones até a maturidade sexual, com geração de dados para subsidiar futuras aplicações científicas e tecnológicas.

O manejo dos animais nas baias do Instituto de Zootecnia segue protocolos técnicos rigorosos, especialmente por se tratar de uma pesquisa sensível, voltada à produção de suínos com finalidade biomédica
“O trabalho conduzido pelo Instituto de Zootecnia e pela Universidade de São Paulo marca um avanço decisivo para a ciência paulista e reforça o papel da pesquisa em gerar soluções concretas. O trabalho das nossas instituições abre novas fronteiras para a saúde humana, a produção animal e a bioeconomia. É esse investimento em ciência que sustenta a liderança de São Paulo e prepara o Estado para o futuro”, afirma o secretário de Agricultura e Abastecimento, Geraldo Melo Filho.
O coordenador do Instituto de Zootecnia destaca o papel da instituição no projeto. “A estrutura e a expertise do IZ são fundamentais para garantir o manejo adequado dos animais, com foco em biossegurança e bem-estar. É essa base que permite que a ciência avance com segurança e responsabilidade”, afirma.
As pesquisas voltadas ao xenotransplante têm como objetivo enfrentar um dos principais desafios da saúde pública: a escassez de órgãos para transplante. Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes, pacientes morrem diariamente à espera de um órgão compatível, cenário que reforça a relevância de iniciativas científicas dessa natureza.
Além do impacto na saúde humana, o avanço posiciona São Paulo na vanguarda da biotecnologia aplicada ao agro, consolidando o papel das instituições públicas de pesquisa como ativos estratégicos para o desenvolvimento do Estado.
O projeto segue em desenvolvimento, com novas etapas já em andamento, incluindo a gestação de outros clones, ampliando o potencial de aplicação da tecnologia e reforçando a integração entre ciência, produção e inovação no Estado de São Paulo.
De acordo com a pesquisadora do Instituto de Zooctenia, Simone Raymundo de Oliveira, os manejos produtivos – sanitário, nutricional e ambiental – são minuciosamente estudados pela equipe para garantir o sucesso da gestação. “Nosso objetivo agora é acompanhar o crescimento dos clones até a maturidade sexual, fornecendo dados sobre este animal para futura tomadas de decisões”.
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Qualidade de carne suína: a genética da matriz como escolha estratégica
Quando se discute qualidade de carne suína, é comum que o foco recaia sobre o macho terminador, uma vez que suas características genéticas estão diretamente associadas ao ganho de peso, ao rendimento de carcaça e à composição corporal dos animais abatidos.

Artigo escrito por João Cella, Zootecnista, coordenador Comercial na Topgen Genética Suína
Quando se discute qualidade de carne suína, é comum que o foco recaia sobre o macho terminador, uma vez que suas características genéticas estão diretamente associadas ao ganho de peso, ao rendimento de carcaça e à composição corporal dos animais abatidos. No entanto, essa abordagem desconsidera um fator estrutural do sistema produtivo: a genética da matriz, que contribui com 50% do patrimônio genético dos leitões e influencia de forma decisiva o desempenho produtivo e a qualidade final da carne.
A matriz não é apenas a base reprodutiva da granja. Ela exerce influência direta sobre o peso ao nascimento, a uniformidade da leitegada e a capacidade de crescimento dos leitões nas fases subsequentes. Esses fatores iniciais condicionam respostas metabólicas, eficiência alimentar e padrões de deposição de músculo e gordura, que se refletem até o abate. Assim, a qualidade da carne começa a ser definida muito antes da escolha do macho, ainda na seleção genética das fêmeas.
Os programas de melhoramento genético de matrizes tradicionalmente priorizam características como prolificidade, habilidade materna, produção de leite e longevidade produtiva. Esses atributos seguem sendo fundamentais para a eficiência econômica da granja. Entretanto, uma visão moderna de genética reconhece que desempenho reprodutivo e qualidade de carne caminham juntos. A matriz transmite genes que influenciam diretamente a conversão alimentar, o ganho de peso diário, a uniformidade dos lotes e a composição da carcaça, especialmente o equilíbrio entre gordura e carne magra.
Equilíbrio entre gordura, carne magra e marmoreio
A gordura não deve ser interpretada de forma isolada como um componente indesejado da carcaça, mas como parte essencial do equilíbrio entre gordura e carne magra que sustenta a qualidade da carne suína. A genética exerce influência direta não apenas sobre a quantidade total de gordura depositada, mas também sobre sua distribuição e composição, determinando o perfil de ácidos graxos, a estabilidade oxidativa e a interação entre os tecidos muscular e adiposo. Nesse contexto, a gordura contribui para atributos fundamentais da carne suína, como sabor, textura e suculência.
Matrizes geneticamente equilibradas favorecem níveis adequados e estáveis de marmoreio, resultando em melhor qualidade tecnológica da carne, com maior capacidade de retenção de água, coloração mais uniforme e menor variabilidade entre lotes destinados à indústria.
O marmoreio, resultante da gordura intramuscular entremeada às fibras musculares, é um dos principais indicadores desse equilíbrio fisiológico. Níveis adequados de marmoreio contribuem para maior maciez, suculência e intensidade de sabor, ao mesmo tempo em que preservam os padrões industriais de rendimento e proporção de carne magra.
Esse ajuste fino entre deposição muscular e gordura intramuscular pode ser conduzido de forma consistente por meio de programas de melhoramento genético de matrizes, reforçando o papel estratégico da genética na construção da qualidade final da carne suína.
Genética da matriz e bem-estar animal
Matrizes selecionadas para equilíbrio fisiológico e temperamento contribuem para a produção de suínos mais dóceis, com melhor adaptação ao manejo e menor sensibilidade ao estresse, especialmente no pré-abate.
Animais menos reativos apresentam menor risco de oscilações de pH muscular, reduzindo a incidência de alterações como PSE e DFD. Isso resulta em carne com melhor coloração, maior capacidade de retenção de água e maior consistência entre lotes. Esses fatores impactam diretamente os processos industriais e ampliam a janela de comercialização no varejo.
É importante destacar que protocolos corretos de manejo, jejum, transporte, descanso e resfriamento são indispensáveis. Contudo, sem uma base genética adequada, esses cuidados têm sua eficácia limitada. A genética atua como o alicerce sobre o qual todas as demais práticas produtivas se apoiam.
Qualidade de carne como estratégia de longo prazo
Considerar a genética da matriz sob a ótica da qualidade de carne representa uma mudança de mentalidade na suinocultura. Trata-se de enxergar a fêmea não apenas como produtora de leitões, mas como agente estratégico na construção do valor do produto final. Essa abordagem atende a um mercado consumidor cada vez mais atento à qualidade sensorial, à padronização e à imagem da carne suína como proteína saudável, saborosa e versátil.
Para o produtor rural, os benefícios se refletem em melhor conversão alimentar, maior ganho de peso diário, uniformidade dos lotes, menor mortalidade e maior previsibilidade dos resultados. Para a indústria, significam carcaças mais consistentes, processos mais eficientes e menor variabilidade. Para o consumidor, resultam em carne com melhor sabor, maciez e estabilidade.
Nesse cenário, a genética animal assume papel central. A evolução da carne suína como carne de qualidade passa, inevitavelmente, pela escolha criteriosa das matrizes.
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Micotoxinas começam no silo: por que o controle fúngico define a saúde dos suínos
Zootecnista Fernanda de Andrade explica como o armazenamento inadequado de grãos favorece fungos e a formação de micotoxinas, impactando desempenho, saúde e produtividade na suinocultura.

Artigo escrito por Fernanda de Andrade, zootecnista, gerente de Feed Safety and Nutritional Solution da Trouw Nutrition
Embora frequentemente subestimado, o controle fúngico ao longo da cadeia de produção de ração tem papel determinante na saúde e no desempenho dos suínos. A presença de fungos nos ingredientes utilizados na formulação é a principal causa da formação de micotoxinas, substâncias tóxicas que representam um dos maiores desafios sanitários e produtivos da suinocultura moderna.
Nos últimos anos, a incidência de micotoxinas cresceu de maneira significativa em diversas regiões produtoras. Mesmo com avanços em manejo nutricional, a ocorrência de contaminações por fungos ainda é tratada com menos prioridade do que deveria, sobretudo no armazenamento de grãos e na higienização das fábricas de ração. Trata-se de etapas frequentemente negligenciadas, mas que determinam grande parte da qualidade final do alimento fornecido aos animais.
Impactos de alto custo
A suinocultura é especialmente sensível às micotoxinas, em particular à deoxinivalenol (DON) e à zearalenona (ZEA), que afetam diretamente fases críticas do ciclo produtivo. Entre os efeitos mais comuns estão queda de desempenho, redução da eficiência alimentar, comprometimento imunológico, lesões orgânicas e, no caso de matrizes, natimortos, abortos, prolapsos e irregularidades reprodutivas.
O cenário se agrava quando há policontaminação, isto é, a presença simultânea de diferentes micotoxinas. Estudos recentes mostram que, enquanto há alguns anos eram conhecidas cerca de 600 micotoxinas, o número já ultrapassa 700 compostos identificados no mundo, tornando o desafio ainda mais complexo. Mesmo considerando apenas as seis micotoxinas de maior relevância zootécnica, como Fumonisina, DON, ZEA, Aflatoxina, Ocratoxina e Toxina T-2, os impactos são amplos e multifatoriais.
Armazenamento de grãos

O armazenamento é o ponto de maior vulnerabilidade da cadeia. Um armazém sem monitoramento adequado de umidade, temperatura, higiene e ventilação cria as condições ideais para proliferação de fungos e produção de micotoxinas. Assim, o silo deve ser visto não como um simples depósito, mas como um ambiente dinâmico, sujeito à migração de umidade, variações térmicas e intensa atividade microbiológica.
Quando esses fatores não são controlados, ocorre oxidação de ingredientes, deterioração nutricional e formação de compostos tóxicos. São as chamadas “perdas invisíveis”: alterações que não são perceptíveis visualmente, mas que comprometem o valor nutricional e aumentam o risco sanitário. Além disso, falhas de higienização nas fábricas de ração podem perpetuar contaminantes e permitir o desenvolvimento contínuo de fungos nos equipamentos.
Controle fúngico
Diferentemente das micotoxinas já presentes no grão, situação em que apenas adsorventes podem atuar, a contaminação fúngica durante o armazenamento pode e deve ser prevenida. Entre as ferramentas disponíveis, os blends de ácidos orgânicos estão entre as soluções mais eficazes para controle direto de fungos em grãos, ingredientes e ambientes de produção de ração.
Esses blends podem atuar em versões líquidas ou em pó, dependendo da necessidade da operação. Em tecnologias mais avançadas, combinações específicas de ácidos orgânicos aceleram o efeito antifúngico e fortalecem a ação do ácido propiônico, resultando em rompimento mais rápido da membrana do fungo e, consequentemente, em maior eficiência de controle.
Como os ácidos orgânicos atuam sobre fungos
O mecanismo de ação é bem estabelecido na literatura científica. Primeiramente ocorre uma penetração na membrana fúngica na qual os ácidos orgânicos não dissociados atravessam a membrana plasmática, especialmente em pH mais ácido. Depois, acontece uma acidificação do citoplasma dentro da célula fúngica, que libera prótons (H⁺), reduzindo o pH interno.
Em seguida, vem um desbalanço osmótico e energético para tentar restabelecer seu equilíbrio interno, o fungo precisa gastar grandes quantidades de energia, consumindo ATP para bombear íons. A partir deste momento acontece uma inibição da síntese e do crescimento celular, onde a acidificação desestabiliza enzimas metabólicas e compromete a formação de proteínas, o que leva a morte celular do fungo. Sem energia e com a integridade da membrana comprometida, a célula fúngica entra em colapso.
Essa sequência reduz significativamente a proliferação fúngica e, por consequência, diminui o risco de formação de micotoxinas ao longo da estocagem e do processamento.
Estudos recentes comprovaram que a combinação de três ingredientes ao ácido propiônico potencializa essa ação e leva a um rompimento mais rápido da membrana dos fungos. Esta combinação acelera o efeito do ácido propiônico em até três vezes, ampliando sua eficácia.
Abordagem preventiva e integrada
O controle eficaz exige uma abordagem contínua, iniciando no recebimento do grão e se estendendo até a produção da ração. O uso de aditivos conservantes deve ser combinado com iniciativas como inspeção e limpeza dos silos, monitoramento de umidade e temperatura, boas práticas de armazenamento, higienização completa das fábricas e uma análise contínua de risco de contaminações.
Uma mudança de mentalidade é urgentemente necessária. A qualidade da ração começa no armazém. Não basta investir em formulações balanceadas se os ingredientes chegam comprometidos por má estocagem. Quando o controle fúngico deixa de ser tratado como etapa secundária e passa a ser parte estratégica da nutrição, os resultados aparecem em saúde animal, produtividade e rentabilidade.
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