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Faesc e Conseleite cobram ações do governo para frear crise na cadeia produtiva do leite

Lideranças do setor leiteiro exigem medidas emergenciais de governos estadual e federal para conter prejuízos e estabilizar preços do produto.

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O desequilíbrio entre oferta e demanda, o aumento das importações e o baixo valor pago pelo litro de leite foram discutidos na reunião - Fotos: Alessandra Favretto/MB Comunicação

Lideranças da cadeia produtiva do leite se reuniram para discutir os entraves que têm impactado produtores rurais e laticínios, como o desequilíbrio entre oferta e demanda, o aumento das importações e o fato de os custos de produção superarem o valor pago pelo litro de leite. A reunião do Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Leite (Conseleite) resultou, por unanimidade, na decisão de elaborar dois documentos que serão encaminhados aos governos estadual e federal, com solicitações de medidas emergenciais, reforçando a urgência por ações concretas que possam conter as perdas e estabilizar o setor. O encontro aconteceu na última sexta-feira (24), na sede da Epagri, em Chapecó (SC).

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc), José Zeferino Pedrozo, ressaltou que toda a cadeia do leite está novamente sob pressão e os produtores têm compartilhado suas angústias. “A produção catarinense cresceu. Nossos produtores investem e trabalham para atingir sempre os melhores resultados, tanto na qualidade quanto na quantidade. Precisamos reconhecer e valorizar essa dedicação. Contudo, um dos problemas é que o consumo não acompanhou esse ritmo e, para piorar, há a entrada de leite importado dos países vizinhos do Mercosul, muitas vezes com preços inferiores aos custos nacionais. Trata-se de uma concorrência desleal. É essencial que a CNA continue auditando esses dados e que o governo brasileiro não interrompa esse trabalho”

Dois documentos serão encaminhados aos governos estadual e federal, com solicitações de medidas emergenciais

Pedrozo salientou que os impactos dessa conjuntura recaem quase exclusivamente sobre os produtores e a agroindústria. “O consumidor não percebe a mesma queda de preços nas gôndolas, o intermediário não sente tanto, mas as propriedades e as indústrias acumulam prejuízos e enfrentam dificuldades para escoar a produção. É um momento preocupante, que exige ações imediatas.”

A preocupação também foi compartilhada pelo presidente do Conseleite e do Sindileite, Selvino Giesel, que destacou os desafios operacionais enfrentados pelas indústrias para armazenar os produtos lácteos. “Alguns itens têm validade de até um ano e meio, como o leite em pó, mas outros, como iogurte, queijo, leite UHT e requeijão, vencem rapidamente e exigem refrigeração permanente. Se não forem vendidos a tempo, são descartados. Estamos entrando em um período do ano em que, historicamente, o consumo de lácteos cai e, com as importações em alta, a situação tende a se agravar.”

Embora as entidades percebam sinais evidentes de prejuízos, o setor ainda busca soluções antes que os impactos se tornem irreversíveis. Conforme Giesel, algumas propriedades operam com perdas de até R$ 0,15 por litro, e indústrias enfrentam sérias dificuldades de comercialização, com o risco de pequenas empresas fecharem as portas. Para reivindicar medidas que superem esses desafios, as entidades, com o apoio dos produtores rurais e das indústrias, devem elaborar dois documentos estratégicos.

Auditorias

Presidente da Faesc José Zeferino Pedrozo e o presidente do Conseleite e do Sindileite, Selvino Giesel

O primeiro será encaminhado ao governo federal, com pedidos como a continuidade das auditorias da CNA sobre os preços e origens do leite importado, a criação de estoques reguladores e o uso do leite em programas sociais e de merenda escolar. O segundo documento será destinado ao governo estadual e incluirá pleitos como o reforço das inspeções sanitárias, a equalização tributária e, principalmente, o apoio à compra de produtos lácteos catarinenses.

“Isso ajudaria a retirar o excedente do mercado e a aliviar a pressão sobre o setor. É uma ação simples, mas de grande impacto para estabilizar o ambiente. Queremos justiça na remuneração. Santa Catarina subiu da oitava para a quarta posição entre os maiores produtores de leite do país, graças, em grande parte, aos nossos pequenos e médios produtores. Eles são eficientes e não podem ser forçados a abandonar a atividade por falta de rentabilidade. É sempre delicado, mas já superamos outras fases difíceis. Esta também vai passar, mas precisamos agir agora”, concluiu Pedrozo.

Proibição

O presidente da Faesc apoiou a iniciativa do deputado Altair Silva (PP) que apresentou o projeto de lei 768/2025 que proíbe a reconstituição do leite em pó importado para venda como leite fluido no Estado

O presidente da Faesc apoiou a iniciativa do deputado Altair Silva (PP) que apresentou o projeto de lei 768/2025 que proíbe a reconstituição do leite em pó importado para venda como leite fluido no Estado. A proposta, que está em tramitação na Assembleia Legislativa, prevê sanções e multa em caso de descumprimento. A medida seria aplicada a pessoas jurídicas e, entre as penalidades, estão a apreensão do lote do produto, a aplicação de multa de até R$ 1 milhão e a suspensão temporária ou definitiva do registro sanitário. Pedrozo lembra que a prática de reidratar leite em pó importado para comercializar como leite fluido tem causado sérios prejuízos aos produtores rurais e pequenas agroindústrias, desequilibrando o mercado e comprometendo a renda no campo.

O texto determina que o valor da multa será graduado conforme a gravidade da infração, a reincidência e a capacidade econômica do infrator. A fiscalização e o monitoramento do cumprimento da regra ficarão sob responsabilidade dos órgãos estaduais de defesa sanitária animal e de vigilância sanitária. Os valores arrecadados serão destinados ao Fundo Estadual de Desenvolvimento Rural (FDR), para investimento em projetos de apoio à cadeia produtiva do leite e à agricultura familiar.

O deputado Altair Silva coordenará a realização de audiência pública no dia 12 de novembro, na Assembleia Legislativa, que vai debater a crise enfrentada pelo setor, reunindo  produtores, cooperativas, indústrias, especialistas e representantes de órgãos governamentais para discutir alternativas e medidas de apoio à atividade.

Fonte: Assessoria Faesc

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Com foco na integração da pecuária sul-americana, Fórum Internacional da Feicorte chega ao Paraguai em março

Edição adota formato estratégico com foco em expandir negócios para a cadeia produtiva da carne.

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Fórum Internacional Feicorte Paraguai 2026 será realizado no dia 24 de março - Foto: Feicorte

A Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne (Feicorte), uma das principais plataformas da cadeia produtiva da carne na América Latina, anunciou oficialmente os detalhes da sua expansão internacional. Pela primeira vez, a marca desembarca no Paraguai para realizar o Fórum Internacional Feicorte Paraguai 2026, confirmado para o dia 24 de março, no Hotel Sheraton, em Assunção. As inscrições já estão abertas e podem ser feitas clicando aqui.

Com a missão de promover o intercâmbio técnico entre as pecuárias brasileira e paraguaia e sob o tema “Pecuária paraguaia: um mundo de oportunidades”, a edição internacional adota um formato de fórum estratégico. O objetivo é reunir produtores, técnicos e decisores do agronegócio para debater os gargalos da produção moderna, incluindo produzir mais carne em menos tempo e espaço.

Segundo a CEO da Verum (organizadora do evento), Carla Tuccilio, a escolha do país vizinho reflete o atual momento de expansão de todos os setores da economia local. “Entendemos que este é o momento para gerar um espaço de troca real entre as experiências do Brasil e do Paraguai”, destaca.

Pecuária moderna com foco no produto final

A programação técnica do fórum será pautada pela intensificação e serão debatidos pilares como genética, nutrição, sanidade e industrialização. Para o diretor da Verum, Ailton Barbosa, a proposta é mudar a mentalidade de “produção de animais” para “produção de carne”. “Essa mudança de olhar é fundamental para entender para onde vai a pecuária moderna e como se preparar para as demandas dos mercados internacionais”, afirma.

A realização do fórum no Paraguai abre o calendário da marca em 2026, como um aquecimento para a edição principal no Brasil. E a Feicorte brasileira já tem data marcada, de 23 a 26 de junho, em Presidente Prudente (SP), mantendo a tradição de continuar como o ponto de encontro da cadeia produtiva da carne.

Fonte: Assessoria Feicorte
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Controle parasitário eficiente impacta diretamente a rentabilidade da pecuária

Estratégias modernas e uso racional de antiparasitários contribuem para bem-estar animal e melhor desempenho produtivo.

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Foto: Shutterstock

A resistência parasitária em bovinos vem se posicionando como um dos principais desafios sanitários da pecuária brasileira. Desde a década de 1990, a capacidade de adaptação de parasitas como vermes, carrapatos, bernes e moscas tem reduzido a eficácia de tratamentos convencionais e comprometido a produtividade dos rebanhos. “Os parasitas se adaptam rapidamente ao uso repetido e incorreto de antiparasitários. É um fenômeno biológico que coloca em risco o desempenho animal e gera prejuízos econômicos expressivos”, explica o médico-veterinário e gerente técnico da Vaxxinova Brasil, Gustavo Cabral.

Esses organismos consomem nutrientes essenciais e comprometem funções vitais do metabolismo dos ruminantes, resultando em perda de peso, queda no consumo alimentar, anemia, diarreia e até morte em casos severos. “Um programa de controle bem estruturado é essencial para que o animal expresse todo o seu potencial produtivo, tanto em sistemas de corte quanto de leite”, reforça Cabral.

Clima tropical favorece ciclo dos parasitas

Foto: Fabiano Bastos

No Brasil, a maior parte do rebanho é criada em sistemas extensivos, o que mantém os animais em contato direto com pastagens, ambiente ideal para o desenvolvimento e disseminação de parasitas. O clima quente e úmido favorece a evolução das larvas infectantes que completam o ciclo dentro do hospedeiro. “O gado ingere as larvas presentes nas forragens e, nesse momento, os parasitas conseguem completar o ciclo reprodutivo. Por isso, é preciso adotar estratégias integradas e contínuas de controle, não apenas pontuais”, orienta Cabral.

Associações farmacológicas

Avanços recentes da farmacologia veterinária têm mostrado resultados promissores no enfrentamento da resistência parasitária. Um dos destaques é a associação entre eprinomectina e doramectina, moléculas que se complementam no combate a endo e ectoparasitas. “A eprinomectina, de segunda geração das avermectinas, possui rápida biodisponibilidade e excelente ação sobre vermes gastrintestinais. Já a doramectina, da primeira geração, tem liberação mais lenta e prolongada, com alta eficácia contra carrapatos e moscas”, explica Cabral.

De acordo com o médico-veterinário, a combinação dessas substâncias proporciona dois picos plasmáticos após a aplicação, o que amplia o espectro e a duração da proteção. “Essa diferença no tempo de ação ajuda a retardar o desenvolvimento de novas resistências e garante um controle mais completo e duradouro”, destaca.

Planejamento sanitário é essencial

Médico-veterinário e gerente técnico da Vaxxinova Brasil, Gustavo Cabral: “Aliar o tratamento farmacológico ao manejo preventivo é a melhor forma de reduzir perdas produtivas, garantir o bem-estar dos animais e aumentar a rentabilidade das fazendas” – Foto: Divulgação/Vaxxinova Brasil

Além do uso de produtos modernos, a eficácia do controle depende de um calendário sanitário bem estruturado. O planejamento deve considerar o manejo das pastagens, a época do ano e a categoria animal, sempre com acompanhamento técnico. “O sucesso do controle parasitário não está apenas no produto, mas na estratégia. É fundamental respeitar as doses, os intervalos de aplicação e as condições de armazenamento recomendadas em bula”, menciona Cabral.

Para ele, o uso racional e estratégico da associação entre eprinomectina e doramectina representa uma ferramenta moderna e eficiente para a pecuária brasileira. “Aliar o tratamento farmacológico ao manejo preventivo é a melhor forma de reduzir perdas produtivas, garantir o bem-estar dos animais e aumentar a rentabilidade das fazendas”, enfatiza.

A versão digital já está disponível no site de O Presente Rural, com acesso gratuito para leitura completa, clique aqui.

Fonte: O Presente Rural
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Volatilidade expõe limites do curto prazo no mercado do leite

Alta oscilação de preços e assimetrias de informação reforçam a importância de dados confiáveis para decisões de produtores e indústrias.

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Fotos: Shutterstock

O sistema agroindustrial (SAG) do leite vive um momento de transformação. A evolução do ambiente institucional (incluindo definições de padrões de qualidade em Instruções Normativas), o aumento da intensificação, da escala, da produtividade e da qualidade da base produtiva, e o contínuo processo de concentração nos segmentos produtivo e industrial têm alterado a estrutura do SAG, os padrões de concorrência e as estratégias dos agentes para lidar com as crescentes incertezas do mercado.

Em minha tese de doutorado, abordo a influência das incertezas na comercialização do leite cru e observo que elas estão relacionadas, sobretudo, às dificuldades dos agentes em avaliar (a) seu desempenho frente a concorrentes e fornecedores e (b) as flutuações de oferta e demanda, o que, por sua vez, se traduz em elevada volatilidade dos preços do leite cru. Esse contexto cria barreiras ao estabelecimento de relações de longo prazo entre produtores, cooperativas e indústrias, reduz o alinhamento entre agentes e eleva os custos de transação.

Artigo escrito por Natália Grigol, pesquisadora da Equipe Leite do Cepea.

Diante disso, o setor tende a se organizar segundo uma lógica predominantemente de curto prazo, como forma de adaptação a mudanças imprevisíveis. Adota-se, assim, flexibilidade elevada nas relações comerciais e nos fatores de produção — o que, por um lado, permite resposta rápida a choques, mas, por outro, limita a coordenação entre segmentos, os ganhos de eficiência e a inovação no longo prazo. Em outras palavras, o setor lácteo brasileiro demonstra resiliência imediata, mas baixa capacidade de transformação estrutural, o que restringe sua evolução diante de incertezas prolongadas e mudanças de mercado.

Para reverter esse quadro, é necessário focar na mitigação da incerteza. E isso ocorre quando fatores geradores de incerteza passam a ser monitorados e mensurados, convertendo-se em informação. É o acesso dos agentes do SAG a informações de mercado que transforma a incerteza em risco — e o risco, ao contrário da incerteza, pode ser gerenciado.

Nesse sentido, a problemática setorial pode ser sintetizada pela elevada volatilidade das cotações, pela ausência de mecanismos eficientes de proteção e de gestão de riscos na comercialização e, portanto, pela necessidade de informações estratégicas e confiáveis que reduzam a incerteza na tomada de decisão, especialmente no que se refere à comercialização do leite cru e dos derivados lácteos. Em ambientes de alta volatilidade, referências comuns reduzem custos de negociação, organizam expectativas e ampliam a previsibilidade operacional.

A produção e a difusão de informação econômica confiável são, portanto, condição necessária para fortalecer a resiliência do SAG e viabilizar mecanismos mais sofisticados de governança e gestão de risco, como instrumentos de hedge e contratos futuros, por exemplo. No entanto, a eficácia desses mecanismos depende de um ecossistema institucional sólido: geração contínua de dados, transparência metodológica, educação de mercado e confiança entre os agentes.

É nesse ponto que se ancora a missão do Cepea — Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada [1]: elaborar séries históricas e indicadores de preços, contribuindo, assim, para reduzir assimetrias de informação, apoiar a tomada de decisão e favorecer a coordenação dos agentes do SAG no curto e no longo prazo.

Um indicador de preços tem como objetivo refletir o preço médio das transações observadas, capturando o comportamento competitivo dos preços — isto é, o preço efetivamente praticado no mercado. Por definição, sintetiza transações já realizadas (negócios efetivados), e não projeções ou referências futuras. Por isso, trata-se de instrumento estratégico em um contexto de incerteza: não apenas reporta cotações, mas amplia a capacidade de decisão e de planejamento dos agentes. Essas informações permitem mensurar desempenho, inferir condições de oferta e demanda e avaliar os impactos de diferentes estratégias de produção e comercialização. Ao se munirem de informação, os agentes compreendem melhor o cenário corrente e se preparam para cenários futuros, reforçando a resiliência no curto prazo e a capacidade de adaptação no longo prazo.

O Cepea conduz pesquisas em 32 cadeias agropecuárias e, no caso do leite, a estrutura de monitoramento abrange indicadores do preço do leite cru pago ao produtor; do leite cru negociado no mercado spot entre laticínios; e de preços de derivados lácteos negociados entre indústrias e canais de distribuição. Esse monitoramento do SAG do leite só é possível porque uma rede de produtores, cooperativas e laticínios compartilha dados com o Centro, de forma voluntária, para a geração das estatísticas. Também é viabilizado pelo apoio institucional e financeiro da OCB e da Viva Lácteos na elaboração de informativos, o que contribui para custear as atividades da equipe.

O indicador do preço do leite ao produtor tem grande impacto no setor, na medida em que a precificação do leite cru, principal matéria-prima dos laticínios, é cercada de incertezas. O preço do leite cru permanece elemento-chave da estratégia das firmas, sejam fazendas ou laticínios: reflete decisões de custo, capacidade produtiva e eficiência operacional, estratégias de diferenciação e segmentação e, também, a própria estrutura de governança.

O indicador do Cepea é calculado mensalmente com metodologia robusta, validada e pública, disponível no site da instituição. Trata-se de uma média ponderada pelo volume, construída a partir de uma rede de colaboradores (produtores, cooperativas e laticínios) que compartilha informações de forma contínua. Para se ter uma dimensão, mensalmente são coletadas mais de 65 mil informações de negócios efetivados, obtidas de forma voluntária junto a mais de 120 agentes do mercado. Esses agentes contribuem com a pesquisa porque recebem, como retorno, informações em prazo diferenciado e porque reconhecem a importância do indicador para o desenvolvimento do setor.

Além da metodologia, a robustez do indicador pode ser apreciada pela abrangência da amostra em termos de volume industrializado monitorado (em comparação com dados do IBGE). Atualmente, o Cepea monitora cerca de 65% do leite industrializado em Minas Gerais — ou seja, a cada 5 litros, aproximadamente 3 estão na amostra. No Rio Grande do Sul, a cobertura é de cerca de 80% — a cada 5 litros, 4 estão na amostra. Em Goiás, a cada 2 litros, 1 está na amostra. Na Bahia, a cada 3 litros, 1 está na amostra. No Paraná e em Santa Catarina, a cada 4 litros, 1 está na amostra. Em São Paulo, a cada 6 litros, 1 está na amostra do Cepea.

Uma forma objetiva de avaliar a representatividade do indicador do preço do leite pago ao produtor em relação ao mercado é observar o grau de correlação [2] entre o preço da matéria-prima (leite ao produtor e leite spot) e indicadores de produtos derivados. Observam-se coeficientes de correlação elevados, sugerindo forte co-movimento entre preços no campo e preços negociados entre indústrias e canais de distribuição. Em outras palavras, correlações altas com derivados e com o leite spot reforçam a aderência do indicador à realidade do mercado, ainda que diferenças de produto e canal impliquem intensidades de co-movimento distintas. Em conjunto, esses elementos ajudam a explicar por que o indicador do preço do leite ao produtor se consolidou como referência nacional e por que indicadores de lácteos (como UHT, leite em pó e muçarela) são acompanhados diária e semanalmente pelos agentes de mercado.

Foto: Arnaldo Alves

Esses aspectos reforçam, também, que a manutenção e o aprimoramento dessas pesquisas são estratégicos para a competitividade do setor lácteo brasileiro, sobretudo no que se refere à evolução das estruturas de governança envolvidas na transação do leite cru entre produtores, cooperativas e laticínios.

A maior parte das negociações ainda ocorre por meio de contratos informais, apoiados sobretudo em mecanismos de confiança e lealdade. Nesses arranjos, o volume a ser entregue tende a ser conhecido (ainda que com flexibilidade), enquanto o preço é ajustado ex post, após avaliação posterior de quantidade e qualidade. Nos últimos anos, porém, observa-se aumento considerável de contratos formais nas negociações com produtores. Esses contratos costumam explicitar mais definições ex ante e, com frequência, adotam preços indexados a indicadores, sobretudo ao indicador do preço do leite ao produtor do Cepea.

Cabe, no entanto, uma distinção importante: o indicador de preços do Cepea é uma referência; não é um mecanismo de formação de preços, nem um instrumento de coordenação comercial entre agentes. Ele reflete os preços praticados no ambiente competitivo de mercado. Seu uso como indexador em contratos é uma decisão dos agentes do setor, normalmente motivada pela necessidade de reduzir incerteza e aumentar previsibilidade, ainda que com alguma defasagem em relação ao momento do mercado (uma vez que a precificação do leite do mês corrente pode se apoiar na cotação de um ou dois meses anteriores).

Foto: Divulgação/OP Rural

Em minha tese de doutorado, entrevistei 33 indústrias de laticínios, que captam quase 24% do leite brasileiro. Entre elas, quase 88% concordam que as informações do Cepea são importantes para avaliar desempenho (comparação de preços recebidos/pagos com a média de mercado), e 72,8% consideram que se tratam de informações relevantes como referência de precificação — seja no balizamento de rodadas de negociação (ancoragem de expectativas e justificativas de repasse), seja na indexação em contratos (fórmulas de reajuste que vinculam o preço ao indicador, com prêmios e descontos por qualidade, volume, logística e serviços).

Ao funcionar como “linguagem comum”, os indicadores de preços do Cepea contribuem para tornar divergências mais objetivas: em vez de discussões baseadas apenas em percepções, os agentes passam a negociar diferenças e ajustes (prêmios, bônus, bonificações e penalizações) em torno de uma referência observável. Passam, também, a avaliar seus negócios em relação à concorrência de modo mais objetivo e podem ajustar expectativas ao acompanhar os mercados de derivados, que são mais dinâmicos do que o de leite cru.

Os indicadores do preço do leite ao produtor e dos derivados lácteos do Cepea são relevantes porque respondem a um problema central do SAG do leite: a incerteza derivada de assimetrias de informação em um mercado volátil. Ao sintetizar transações efetivadas com metodologia pública e ampla rede amostral, essas informações se tornam uma referência objetiva do momento do mercado, sobretudo para avaliação de desempenho. E, mesmo que o indicador não tenha sido desenhado, em sua origem, para indexar transações, ele vem sendo apropriado pelo setor para negociação e indexação de contratos, na ausência de outros mecanismos capazes de gerenciar o risco de comercialização.

Mas há um ponto adicional, talvez mais estrutural: ao longo do tempo, os indicadores do Cepea não apenas retrataram o mercado; ajudaram a moldar seu desenvolvimento, ao oferecer uma base comum de informação que reduz resistências e viabiliza mudanças graduais na governança. Em setores em que o “melhor caminho” só se revela à medida que é trilhado, inovar exige coragem para alterar rotinas e acordos. Porém, mudar sob elevada incerteza é custoso e, muitas vezes, bloqueia a ação coletiva. Ao transformar parte da incerteza em risco mensurável, os indicadores funcionam como bússola: orientam decisões, calibram expectativas e sustentam discussões sobre a evolução de mecanismos de garantia e de gestão de risco na comercialização — exigência que se intensifica com a transformação da base produtiva e dos padrões de concorrência.

Foto: Fernando Dias

Retomo, nesse contexto, o exemplo dos contratos formais: a prática ganhou tração por haver uma referência legítima e compartilhada capaz de diminuir assimetrias, reduzir contestação e tornar as divergências negociáveis. Nesse sentido, o Cepea tem operado como um espaço de convergência e de articulação, no qual agentes heterogêneos (muitas vezes com interesses distintos) aceitam cooperar, compartilhar dados e sustentar um bem informacional coletivo em nome de um objetivo maior: o desenvolvimento do setor.

A consolidação desses indicadores cria uma linguagem comum entre os agentes, fortalece capacidades de gestão, acelera o amadurecimento institucional e assenta o terreno para formas mais coordenadas de comercialização. Tudo isso conduzido com transparência metodológica, por uma instituição neutra e de reconhecida credibilidade, que coloca a ciência e o desenvolvimento do setor como base de sua atuação. Em última instância, a existência e o uso desses indicadores sinalizam que, apesar da fragmentação, o SAG do leite tem amadurecido e buscado construir bases para evoluir.

Muito já foi feito, mas ainda há amplo espaço para avançar na superação dos gargalos que afligem o SAG do leite. Mudar a perspectiva do curto prazo para o longo prazo e elevar eficiência e qualidade exigirá recursos e capital humano, para ampliar o nível de gestão e profissionalização, além de continuidade no financiamento da geração de informações. Vale lembrar que, em países que hoje concorrem conosco no mercado internacional (como Argentina e Uruguai), as instituições que geram informação econômica contam com apoio direto do poder público, seja financeiro, seja na integração de bases de dados. Apesar disso, o Brasil não parte do zero no enfrentamento desse desafio, pois temos organizações sérias como o Cepea que contribuem tecnicamente com a geração de informação, a educação de mercado e a construção de novos instrumentos, oferecendo dados, análises e metodologias de referência.

Fonte: Artigo escrito por Natália Grigol, pesquisadora da Equipe Leite do Cepea.
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