Bovinos / Grãos / Máquinas
Exportação de miúdos bovinos de Mato Grosso cresce 30% e alcança 53 países
Segmento gerou US$ 99,6 milhões em 2025, com destaque para fígado e língua bovina, mostrando valorização e diversificação da cadeia de carne no mercado internacional.

A exportação de miúdos bovinos de Mato Grosso alcançou 53 países em 2025 e reforçou o papel estratégico desse segmento dentro da cadeia da carne. Ao longo do ano, foram embarcadas 53,5 mil toneladas de produtos como língua, rabo, pâncreas, fígado e tripas. Segundo dados do sistema Comex Stat, a comercialização desses itens gerou uma receita de US$ 99,6 milhões.
Parte importante da rentabilidade da pecuária, a venda de miúdos deixou de ser vista como um subproduto de baixo valor e se consolidou como um negócio lucrativo, especialmente no mercado internacional. Para se ter uma ideia, apenas o fígado bovino foi exportado para 29 países, totalizando 8,5 mil toneladas, com destinos como Angola, Cabo Verde, Egito, Reino Unido, Rússia, Maldivas e Turquia.

Foto: Freepik
Na comparação com 2024, houve avanço significativo nos embarques. O volume exportado saltou de 41,2 mil toneladas para 53,5 mil toneladas, o que representa crescimento de 29,6%. Já a receita teve alta ainda mais expressiva, de 102%, indicando valorização do produto no mercado externo e maior disposição de pagamento por parte dos importadores.
Entre as partes menos tradicionais do boi que ganham espaço no comércio internacional está a língua bovina, que chegou a 27 países em 2025, com volume de 4,6 mil toneladas. O produto mato-grossense foi consumido em mercados como Argentina, Uruguai, Aruba, Ucrânia, Angola, Gana, Cazaquistão, Singapura, Israel e Palestina, evidenciando a diversidade de destinos e a adaptação da proteína a diferentes culturas alimentares.
O diretor de Projetos do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), Bruno de Jesus Andrade, destaca que o desempenho reforça a eficiência da cadeia produtiva no estado. “A comercialização de miúdos mostra como Mato Grosso consegue aproveitar integralmente o animal e transformar isso em valor. São produtos que têm alta demanda em diversos mercados e ajudam a ampliar a rentabilidade da cadeia, além de diversificar os destinos das exportações”, afirma.

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Proposta de redução da jornada preocupa cadeia do leite no Brasil
Setor alerta para aumento de custos, risco de desabastecimento e impacto direto na produção, que exige atividade contínua.

As propostas para uma nova legislação envolvendo a redução da jornada de trabalho continuam preocupando os setores produtivos da agropecuária no Brasil. Neste mês de março, a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados (CSLEI) encaminhou documento ao ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, manifestando apreensão em relação a alteração da escala 6×1. A CSLEI está vinculada ao Conselho Nacional de Política Agrícola (CNPA) do próprio Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
De acordo com o documento formulado pela CSLEI, a redução de 44 horas para 36 horas semanais vai gerar perda de 658 milhões de horas por mês no Brasil. Diante deste quadro será necessário a contratação adicional de 3,65 milhões de trabalhadores, com custo adicional de R$ 228 bilhões/ano em salários e encargos.

Foto: Juliana Sussai
No setor da pecuária de leite, os desdobramentos da mudança seriam graves. A atividade é praticada em mais de 1 milhão de propriedades rurais no país, que exigem ordenha diária das vacas, em até três turnos, durante os 365 dias do ano, de forma ininterruptamente. No Paraná, a pecuária de leite está presente nos 399 municípios.
“A situação vai ficar bastante complicada no setor de lácteos, pois a matéria-prima, o leite, é perecível. Ou seja, exige trabalho contínuo, sem possibilidade de interrupção para evitar perdas e, consequentemente, prejuízo ao produtor”, destaca Ronei Volpi, presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados. “O setor já convive com escassez de mão de obra qualificada, alta carga tributária e crise por conta dos produtos provenientes da Argentina e Uruguai. Mais um golpe coloca em risco a atividade pelo país, podendo gerar desabastecimento, inflação e êxodo rural”, complementa.
O documento da CSLEI também aponta a necessidade de estudos em relação ao impacto da mudança, para uma discussão técnica. “O debate relativo a esse tema deve ocorrer em 2027, para evitar interferências político-eleitorais”, ressalta Volpi.

Foto: Isabele Kleim
Esse é o mesmo posicionamento adotado pelo Sistema Faep. A entidade defende a discussão equilibrada, sem viés ideológico e/ou político. Para isso, o setor produtivo, tanto as entidades representativas quanto os próprios empresários, precisa participar do debate, para evitar prejuízos para o país, como aumento dos preços de produtos e serviços, pressão inflacionária, crescimento da informalidade, precarização das relações de trabalho e expansão da pejotização.
Segundo estudo elaborado pelo Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema Faep, a redução da jornada vai gerar impacto de R$ 4,1 bilhões por ano na agropecuária do Paraná. O levantamento considera uma base de 645 mil postos de trabalho no agro paranaense e uma massa salarial anual estimada em R$ 24,8 bilhões, valor que inclui salários e encargos obrigatórios como FGTS, INSS patronal, provisão de férias e 13º salário.
“O Brasil não está preparado para essa mudança, que terá reflexos negativos significativos, com aumento do custo de produção e redução dos investimentos, colocando em risco o crescimento do país e comprometendo empregos”, destaca o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette. “A proposta do fim da escala 6×1 não pode ser usada como ferramenta política para angariar votos em ano de eleição. Esse debate precisa ocorrer com serenidade”, reforça.
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Frigoríficos da Amazônia Legal têm baixo controle sobre desmatamento
Levantamento aponta que nenhuma das 15 plantas autorizadas a exportar carne para a União Europeia apresenta evidências públicas de rastreabilidade completa da cadeia de fornecedores.

Plantas frigoríficas da Amazônia Legal autorizadas a exportar carne bovina para a União Europeia apresentam baixo controle sobre o desmatamento em suas cadeias de fornecimento. Nenhuma das unidades avaliadas possui evidências públicas que comprovem atendimento aos requisitos da nova regulamentação europeia contra o desmatamento, e ainda não há respostas formais das empresas quanto à comprovação de monitoramento socioambiental. A norma europeia, que entrará em vigor nos próximos anos, exigirá rastreabilidade completa de toda a produção. A constatação é resultado de um levantamento realizado pelo Radar Verde.
O estudo avaliou 15 plantas frigoríficas pertencentes a oito empresas, todas localizadas em Mato Grosso e habilitadas a exportar para o mercado europeu em 2025. Juntas, essas unidades possuem capacidade de abate de 11.250 animais por dia. Segundo a análise, 13 apresentam baixo controle e duas plantas frigoríficas apresentam controle muito baixo da cadeia, de acordo com os critérios de avaliação do Radar Verde.

Foto: Divulgação/Anffa Sindical
O estudo aponta, ainda, que o risco de novo desmatamento dentro das zonas potenciais de compra de gado desses frigoríficos varia de 31 mil a 2,8 milhões de hectares. A pesquisa identificou que 12 plantas frigoríficas demonstram alto nível de controle sobre fornecedores diretos, que são as fazendas que vendem animais diretamente às indústrias. No entanto, nenhuma empresa apresentou evidências robustas, como auditorias independentes, de monitoramento de fornecedores indiretos, que são as fazendas onde o gado nasce ou é criado antes da fase final de engorda.
De acordo com a análise, essa lacuna cria espaço para a chamada “lavagem de gado”, quando animais provenientes de áreas com desmatamento passam por propriedades intermediárias antes de serem vendidos aos frigoríficos, dificultando a rastreabilidade ambiental da produção.
O relatório também analisa iniciativas brasileiras voltadas à rastreabilidade da cadeia da carne, incluindo plataformas públicas e programas nacionais de identificação animal. Segundo o estudo, embora existam avanços institucionais, nenhuma dessas iniciativas oferece atualmente uma solução completa e imediata para atender às exigências da regulamentação europeia, especialmente no monitoramento de fazendas fornecedoras indiretas.
Regulamentação europeia exige rastreabilidade completa
A União Europeia está adotando novas regras para impedir a entrada de produtos associados ao desmatamento em seu mercado. A chamada Regulamentação Europeia contra o Desmatamento (EUDR) exigirá que empresas comprovem, com dados e geolocalização, que commodities como carne bovina não foram produzidas em áreas desmatadas.

Foto: Shutterstock
A norma deverá entrar em vigor a partir de 30 de dezembro de 2026 para grandes empresas e de 30 de junho de 2027 para pequenas e microempresas, exigindo sistemas de rastreabilidade capazes de identificar todas as propriedades por onde o gado passou ao longo da cadeia produtiva.
Embora represente uma parcela menor das exportações brasileiras de carne bovina, a União Europeia vem ganhando importância como destino comercial. Em 2025, o bloco importou 128,9 mil toneladas de carne bovina brasileira, movimentando cerca de US$ 1,06 bilhão e registrando crescimento de 132,8% em relação a 2024. Nesse contexto, o relatório destaca que o acesso ao mercado europeu tende a depender cada vez mais da capacidade das empresas de demonstrar, com evidências verificáveis, cadeias de fornecimento livres de desmatamento.
Recomendações da análise
O próprio estudo aponta caminhos para avançar na rastreabilidade da cadeia da carne bovina. Segundo o relatório, uma estratégia seria priorizar a integração de bases de dados já existentes, como os registros de movimentação de gado (GTA), os cadastros de propriedades rurais (CAR) e informações sobre desmatamento e áreas embargadas, permitindo aproximar a análise do risco de desmatamento ao nível das transações e ampliar a visibilidade sobre fazendas fornecedoras indiretas.
A análise também sugere que avaliações comparativas entre empresas, como o próprio Radar Verde, podem ajudar a orientar ações de fiscalização, acordos de compartilhamento de dados e incentivos de mercado, direcionando esforços para as regiões e empresas onde os riscos são mais elevados e as melhorias podem gerar maior impacto.
Para conferir a análise completa, clique aqui.
Bovinos / Grãos / Máquinas Editorial
O leite e a dificuldade histórica de organizar sua própria cadeia
Aponta avanços dentro da porteira, mas evidencia desorganização fora dela, com conflitos recorrentes, falta de previsibilidade e dificuldade histórica de alinhar produtores, indústria e mercado.

Poucas cadeias agropecuárias brasileiras convivem há tanto tempo com a mesma contradição quanto o leite. Dentro da porteira, a atividade avançou em genética, nutrição, manejo e produtividade. Fora dela, a organização econômica da cadeia segue marcada por conflitos recorrentes, disputas por preço e uma sensação permanente de desajuste entre produção, indústria e mercado.
Não é um problema novo. Há décadas o leite protagoniza episódios que se repetem no tempo. Em diferentes momentos da história recente, produtores chegaram a despejar baldes de leite em ruas e rodovias como forma de protesto contra preços considerados incompatíveis com os custos de produção. O gesto era extremo, mas revelava algo estrutural: a cadeia nunca conseguiu estabelecer mecanismos estáveis de equilíbrio.

Editorial escrito por Giuliano De Luca, jornalista e editor-chefe de O Presente Rural – Foto: Arquivo Pessoal
A comparação com outras atividades ajuda a dimensionar essa singularidade. A avicultura e a suinocultura estruturaram modelos de integração capazes de alinhar planejamento produtivo, fluxo industrial e mercado. Mesmo na bovinocultura de corte, historicamente fragmentada, houve avanços na coordenação comercial, na padronização de carcaças e na formação de programas de qualidade.
No leite, a lógica permaneceu difusa. Milhares de produtores negociam com um número relativamente menor de indústrias em um ambiente marcado por baixa previsibilidade na formação de preços. Diferentemente de cadeias que estruturaram contratos ou sistemas de integração, o produtor de leite frequentemente entrega o produto sem clareza sobre qual será sua remuneração.
Essa dinâmica cria um ambiente de previsibilidade limitada para uma atividade que exige investimento constante e trabalho diário, sem interrupções ao longo do ano. Não por acaso, a base produtiva encolhe lentamente em várias regiões. Produtores deixam a atividade e, em muitos casos, não há sucessores dispostos a assumir uma rotina de trabalho intenso com retorno incerto.
O leite continua sendo uma atividade estratégica para milhares de propriedades e para a economia de inúmeros municípios brasileiros. Mas também permanece como uma cadeia que, historicamente, tem dificuldade de organizar seus próprios interesses. Enquanto essa equação não for resolvida, crises periódicas continuarão surgindo, não como surpresa, mas como consequência de um sistema que nunca encontrou, de fato, um ponto de equilíbrio.
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