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Expert desvenda passado e projeta futuro da soja: é para animar agricultor

Engenheiro agrônomo pesquisador da Embrapa Amélio Dall’Agnol, especialista na oleaginosa, fala um pouco sobre o passado, presente e futuro da soja

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Arquivo/OP Rural

 O engenheiro agrônomo pesquisador da Embrapa Amélio Dall’Agnol é uma das figuras mais importantes quando o assunto é soja. Com Décio Gazzoni, é coautor do livro lançado em 2018, A Saga da Soja – de 1050 a.C. a 2050 d.C., que registra desde a domesticação da oleaginosa na antiga China até tornar-se o quarto principal grão produzido no mundo. Em entrevista exclusiva, Dall’Agnol faz uma avaliação do passado recente da soja e conta o que esperar do futuro desse importante grão.

O primeiro registro de soja no Brasil é de 1882, mesma data em que foi introduzida na Argentina. O cultivo nos dois países ocorreu de forma tímida e restrita entre os anos de 1940 e 1960. A partir daí a soja caiu nas graças do mundo. De 1960 até 2018 a produção global cresceu cerca de 1.300%. Atualmente os Estados Unidos lideram, individualmente, a produção mundial, porém o bloco constituído pelos países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) detém mais de 50% da produção mundial desde 2010, tornando-se o grande formador de preços e modulador da oferta.

Dall’Agnol destaca três pontos principais: a soja foi a principal responsável pelo desenvolvimento do Centro-Oeste do Brasil, o mercado para o produtor será cada vez mais promissor pelo crescimento da economia mundial, a busca por variedades resistentes à ferrugem asiática como obsessão de pesquisadores.

“O futuro da soja no Brasil e no mundo é muito positivo. Ao mesmo tempo em que estamos aumentando a produção, principalmente Brasil e Estados Unidos, que são os dois maiores produtores, a demanda está crescendo na mesma velocidade. Muito produtor poderia estar preocupado pelo fato de estar se produzindo muito e que daqui a pouco está sobrando soja e o preço vai cair. Eu posso assegurar que isso não vai acontecer porque a economia mundial está crescendo muito. Com o crescimento da economia, as populações, principalmente as dos países em desenvolvimento, vão receber mais dinheiro, a renda per capita vai crescer e com renda maior o que a população faz; deixa de comer tanto arroz e feijão e começa a comer mais carne e outras proteínas animais, que são feitas a partir da proteína da soja. O futuro é positivo, não precisamos nos preocupar em acontecer uma superprodução (global) e uma super queda nos preços”, cita o pesquisador.

Pesquisas e futuro

As correntes de pesquisa, aponta Dall’Agnol, estão voltadas não somente para a produtividade, mas para a resistência a doenças e a tolerância a falta de água e ataque de insetos. “A pesquisa está buscando a soja tolerante à falta de água. Nunca vai existir soja resistente, mas que tenha uma certa tolerância, por exemplo, de 20 dias sem chuva, sem afetar a produtividade. Nós estamos buscando isso. É possível que algum dia nós ou alguma outra empresa multinacional consiga fornecer uma variedade comercial, produtiva e que aguente longos períodos com falta de chuva”, destaca.

Ele conta que a Embrapa sempre buscou variedades altamente produtivas, mas que tenham resistência às principais doenças. Agora, pesquisadores estão debruçados na possibilidade de criar uma variedade resistente à ferrugem asiática, mas que o trabalho tem sido difícil. “Nós estamos doidamente atrás de uma variedade resistente à ferrugem asiática, que é nossa principal doença. Lá atrás, quando apareceram outras doenças, como o Cancro da haste, a mancha olho-de-rã, a pesquisa foi rápida para encontrar variedades imunes a essas doenças. De um ano para outro se substituiu todas as variedades suscetíveis e se eliminou o problema através do plantio de variedades resistentes. Com a ferrugem asiática não está sendo possível, até agora, porque não há uma planta antiga, originária da China, por exemplo, que tenha um gene que confere resistência total à doença. O que temos são genes que chamamos genes menores, que, quando juntados em cinco, seis, dez, e incorporados em uma variedade, eles fornecem bastante tolerância à ferrugem, mas não essa tal de resistência que nós conseguimos, por exemplo, como Cancro da haste, que se eliminou completamente o problema”, orienta o pesquisador.

Uma novidade que tem chamado a atenção, cita Dall’Agnoll, é a variedade que a Embrapa produziu, “sem querer”, que tem certa tolerância a percevejos. “Não temos uma variedade totalmente resistente (a percevejos), mas essa variedade 1003 tem uma boa tolerância ao ataque de percevejos. Está sendo dada como uma variedade que tem potencial de resistir ao ataque de percevejos melhor que outras. Não que o percevejo não ataque de jeito nenhum, que ela seja imune ao ataque, mas ela tem essa característica que, aliás, surgiu por acaso. Nós (pesquisadores) não estávamos buscando essa característica nela. Depois de pronta, se percebeu que ela tem certa tolerância ao ataque de percevejos”, cita. “Ela deve ser menos gostosa pro percevejo que vai sugar a vagem (risos)”, sugestiona.

O especialista explica que a variedade pode ser melhorada. “Esse é um gene. Vamos tentar achar mais genes similares para juntar e, quem sabe chegamos a uma planta que não é atacada pelo percevejo, como ocorre com a soja intacta com relação às principais lagartas. Poderíamos ter uma soja que não seja atacada pelos percevejos ou pela maioria dos percevejos. Temos a 1003 com uma certa tolerância, devemos implementar essa tolerância em maior quantidade para evitar, se não todos os percevejos, mas a maioria deles”, comenta.

“Não existe mais variedade ruim hoje em dia”

“Uma boa variedade não significa nada se o produtor não tiver os outros fatores de produção em condições ideais”, dispara o pesquisador. Em sua opinião, além da água, que “é o principal fator de produção, é preciso ter um solo bem manejado, com muita matéria orgânica. “Para ter boa quantidade de água e preciso o solo bem manejado, no plantio direto, com muita matéria orgânica, que segura água – a matéria orgânica é uma esponja. As vezes você vê em uma propriedade a soja toda verde e na outra secando. Você vai observar e é o solo. O solo que está rico em matéria orgânica segurou mais água, conseguiu alimentar a planta com água por muito mais tempo,

Para Dall’Agnoll, hoje as tecnologias disponíveis no mercado em variedades são de excelente qualidade. “Você vai ter 50 variedades, até mais. Todas são ótimas. Não existe mais variedade ruim hoje em dia. Nenhuma empresa que desenvolve variedades consegue colocar no mercado se não tiver alta qualidade”, garante o pesquisador, que pondera: “Existem variedades adaptadas para determinadas regiões. Em Palotina (PR), por exemplo, algumas variedades podem não se dar tão bem quanto aqui na região de Cascavel ou Guarapuava (mais alta em relação ao nível do mar). Temos variedades para baixas altitudes e para altitudes mais elevadas. O produtor deve se informar para saber qual é ideal para a sua área. As demandas de cada variedade têm muito a ver com o clima onde ela é cultivada”, pontua.

Vantagem da soja em relação a outros grãos

Além de o consumo ser cada vez maior de soja no mundo, o que deve tranquilizar os produtores por muitos anos, a soja, na opinião de Dall’Agnol, tem uma ligeira vantagem sobre outros grãos. A sua produção se concentra em três países, enquanto milho, feijão e trigo, por exemplo, são produzidos em todo o planeta.

“Espero que em 2019 o mercado da soja continue bom. As outras culturas, como trigo, feijão, milho, são muito mais traiçoeiras do que a soja. A soja tem um preço sempre apetitoso, por assim dizer. Porque acontece isso? No mundo do milho, do trigo, há centenas de países produtores. No mundo da soja, três países produzem mais de 70% da soja do mundo, que são Estados Unidos, Brasil e Argentina. Todos os países do mundo são consumidores de soja, mas só três são grandes produtores, de forma que a soja sempre tem bom preço”, sugere.

Esses três grandes produtores conseguem controlar o mercado, na visão do pesquisador, o que não acontece com milho e trigo, que flutua muito de uma ano para outro. “Estava vendo um técnico falar que a saca do feijão estava cerca de R$ 400, mas ano passado estava R$ 70. Uma diferença brutal de preço de um ano para outro ou até de um mês pra outro. Com a soja isso dificilmente acontece”, comenta.

O fim da anchova decretou o sucesso da soja

Ele lembra, no entanto, que isso aconteceu com o grão, justamente impulsionando a produção brasileira. Foi na época em que as rações animais, que até então eram ricas em proteína de peixe, ganharam a proteína de soja em sua composição. “Em 1973 e 1975 aconteceu (desajustes de preços) com a soja também. De um mês para outro foi de US$ 200 para US$ 1000 a tonelada. Mas isso foi um momento totalmente fora da curva. Naquela época as rações animais dependiam muito da farinha de peixe, e a farinha de peixe proveniente da anchova, que era muito pescada na costa do Peru e do Equador. De repente a anchova sumiu do mapa. E aí onde fomos buscar matéria-prima rica em proteína para poder fazer a ração para alimentar o porco, a galinha, o boi? A opção foi a soja”, pontua.

Naquela época a soja caiu nas graças principalmente do Brasil e nunca mais deixou de ganhar destaque, sendo inclusive responsável por emigração e criação de uma nova fronteira agropecuária no país. “Em 1960 produzíamos 200 mil toneladas. Em 1979 já eram 15 milhões. Houve uma verdadeira explosão do cultivo no Sul do Brasil. Aquela explosão dos preços fez com que centenas de produtores do Sul se mudassem para o Centro-Oeste, porque lá a terra era barata, abundante, plana, chove melhor do que no Sul, pelo menos na primavera, verão e um pouco do outono. Houve essa mudança que fez com que o Centro-Oeste, que era uma região que não valia nada, se tornasse hoje o maior centro produtor de grãos, fibras e carne do Brasil”, explica.

“Existia uma expressão na época que dizia: Cerrado eu não quero nem dado nem herdado. Isso porque era difícil de acessar, as pessoas não queriam nem pagar o imposto da terra. Mas daí se construiu a capital do Brasil bem no meio do Cerrado. A partir daí se construiu rodovias para o Sul, Norte, Leste e Oeste, a partir Brasília, que possibilitou acessar as terras do Cerrado. Então foram desenvolvidas sojas adaptadas, a chamada soja tropical, que se desenvolve bem em baixas latitudes”, recorda.

“Na década de 1970 todo mundo abandonou o milho, o feijão, para plantar soja. O milho, hoje, se planta depois que colher a soja. Isso fez com que a soja fosse plantada cada vez mais cedo, usando variedades cada vez mais precoces, que possibilitam o plantio do milho depois da soja”, assegura.

A soja e a carne

A soja, definitivamente, tomou os campos brasileiros desde então. “A mudança que nós fizemos (para o Centro-Oeste), a soja foi o motor desse desenvolvimento. Foi ela que impulsionou, que deixou todo mundo doido, porque era uma cultura pouco tradicional e em uma década ela passou de uma lavoura marginal para a principal cultura do Brasil. Hoje não só é a principal em quantidade de grãos produzidos, é a principal em termos de ganho em exportações. Hoje o principal produto exportado pelo Brasil, que no ano passado rendeu US$ 40 bilhões, é o complexo soja – grão, farelo e óleo”, argumenta.

Dall’Agnol reitera que a produção será cada vez maior. “Como (Brasil) temos grande quantidade de soja e milho, somos grandes produtores de carne, e a carne está sendo demandada cada vez em maior quantidade, razão pela qual a soja também está sendo cada vez mais demandada”, destaca o pesquisador da Embrapa.

Ele explica que a população está comendo mais carne, o que reflete na produção maior de soja, basicamente porque a economia mundial está em crescimento. “O mundo está comendo cada vez mais carne porque o mundo está ficando mais rico. Dessa forma a gente consegue prever que o mercado da soja permanecerá positivo. Poderá oscilar ocasionalmente, ele não vai ser sempre ótimo, sempre lá em cima, mesmo porque se a soja for de R$ 70 a 120, não vai ser só o Brasil que vai ficar doido em plantar soja, todo mundo vai querer, mas o mercado é muito positivo”, destaca o cientista.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de março/abril de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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Nova gestão da Girolando prioriza crise do leite e inovação no campo

À frente da entidade, Alexandre Lacerda defende combate às importações e ampliação do acesso ao melhoramento genético para pequenos e médios pecuaristas.

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Foto: Divulgação/Girolando

Uma das maiores entidades do setor leiteiro do país, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando passa a ser comandada pelo pecuarista e advogado Alexandre Lopes Lacerda. A posse da Diretoria e Conselhos eleitos para o triênio 2026/2028 ocorreu na quinta-feira (26), em Uberaba (MG), e contou com a presença de diversas lideranças do agro e criadores, dentre elas a prefeita de Uberaba Elisa Araújo, os deputados federais Emidinho Madeira e Rafael Simões e o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento Thales Fernandes.

Entre as prioridades do novo presidente estão: defesa dos direitos dos produtores de leite, incluindo ações para combater a atual crise do leite; facilitar o acesso de pequenos e médios produtores às tecnologias de melhoramento genético e a animais de alta qualidade. “Queremos fortalecer o programa de melhoramento da raça Girolando, o PMGG, desenvolvendo ferramentas para potencializar a utilização das informações genética pelos criadores, permitindo a customização de índices genéticos para cada fazenda e acompanhando a evolução a cada geração. Vamos nos empenhar nesses próximos três anos para que mais e mais produtores adotem essas inovações, visando produzir um Girolando moderno, eficiente e sustentável”, assegura Lacerda.

Durante a solenidade, as lideranças presentes reforçaram a necessidade de unir forças na defesa dos direitos dos produtores rurais. Segundo o deputado Rafael Simões, uma das ações em andamento é para inibir a importação de leite do Uruguai e da Argentina, que vem prejudicando o setor. O secretário de Minas Thales Fernandes disse que o governo mineiro também vem trabalhando para vencer a atual crise do leite e para levar mais tecnologia par ao campo. O deputado Emidinho Madeira destacou a parceria com a Girolando para levar mais genética de qualidade para as pequenas propriedades leiteiras. A prefeita de Uberaba Elisa Araújo assegurou que o agro é importante para a economia da cidade e que vários projetos voltados para a pecuária estão levando mais renda para o campo.

Em seu discurso de despedida, Domício Arruda, que comandou a Girolando na gestão 2023/2025, ressaltou as realizações feitas, dentre elas a construção da Casa do Girolando no Parque Fernando Costa, a aquisição de um terreno para construção de uma nova sede, os dois anos seguidos de recordes nos registros. Segundo ele, a raça chega a 2026 mais consolidada, com várias tecnologias  de seleção dentro do PMGG e reconhecida pelo mercado internacional como a genética leiteira ideal para os trópicos.

Com mais de quatro mil associados em todo o país, a Associação de Girolando intensificará este ano ações promocionais para ampliar o consumo de leite na sociedade brasileira. Durante a Megaleite 2026, exposição nacional da raça marcada para junho, a entidade levará o tema “Aqui tem leite”, mostrando que nos mais diversos produtos, como medicamentos, alimentos, suplementos, o leite é utilizado como matéria-prima. “O leite é um produto fundamental no dia a dia das pessoas e precisamos reforçar com informações relevantes suas qualidades para o público em geral, até para combater tantas fake news que existem sobre o alimento”, diz Alexandre Lacerda, que é criador da raça Girolando há duas décadas, na Fazenda Miraí, localizada na região da Serra do Cipó, além de atuar na área de advocacia.

Fonte: Assessoria Girolando
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Lei Complementar eleva custo tributário nas cadeias de leite, café, trigo e soja

Redução linear de 10% nos benefícios fiscais federais altera créditos presumidos, cria pontos de cumulatividade e deve pressionar preços ao consumidor, com impacto também sobre fertilizantes e insumos agropecuários.

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Foto: Isabele Kleim/Divulgação

A publicação da Lei Complementar 224/2025, que promoveu um corte linear de 10% nos benefícios fiscais federais incidentes sobre diferentes elos do agronegócio, deve elevar custos ao longo das cadeias de leite, café, trigo e soja. A expectativa é de repasse gradual ao consumidor final e de reabertura do debate sobre a cumulatividade de tributos que, até então, operavam sob lógica não cumulativa.

Foto: Gilson Abreu/AEN

Na avaliação da advogada tributarista Cintia Meyer, a nova sistemática tende a gerar efeito cascata. Ao reduzir créditos presumidos e alterar incentivos, a medida amplia o custo tributário em segmentos que já enfrentam compressão de margens, pressionados por custos elevados de produção e preços internacionais deprimidos de commodities.

O Demonstrativo de Gastos Tributários (DGT) que integra a Lei Orçamentária Anual lista cerca de 300 hipóteses de benefícios fiscais, além de outras 14 tratadas especificamente na Lei Complementar 224/2025. Segundo Meyer, empresas que utilizam qualquer desses mecanismos precisarão revisar suas estruturas tributárias. “Se a empresa conta com algum desses benefícios, o impacto pode ser direto no resultado”, afirma.

Como a norma foi sancionada em dezembro, seus efeitos já alcançam o IRPJ e o Imposto de Importação desde 1º de janeiro, em respeito ao princípio da anterioridade. Para PIS, Cofins, IPI, CPS e CSLL, as novas regras passam a valer a partir de 1º de abril, ampliando o alcance da medida ao longo do primeiro semestre.

Leite tem corte em créditos e nova tributação sobre derivados

Foto: Fernando Dias

Na cadeia do leite, a Lei Complementar 224/2025 reduz de forma direta os créditos presumidos concedidos à indústria. Para os laticínios em geral, o percentual cai de 1,85% para 1,67%. Já no caso das empresas enquadradas no Programa Mais Leite Saudável, o crédito passa de 4,63% para 4,17%. Embora se trate de um benefício condicionado à realização de investimentos, o texto legal não explicita se esse mecanismo poderia ser exceção ao corte linear, o que amplia a insegurança jurídica do setor.

Em documento de perguntas e respostas, a Receita Federal informou que a aplicação do benefício deverá ser analisada “caso a caso”, de acordo com a execução dos projetos aprovados no programa, abrindo margem para interpretações distintas e potenciais questionamentos administrativos ou judiciais.

No consumo doméstico, os produtos que integram a cesta básica seguem com alíquota zero. No entanto, itens relevantes do portfólio dos laticínios, como leite fluido, soro de leite, leite fermentado e bebidas lácteas, passam a ser tributados em 0,925% de PIS/Cofins, elevando o custo ao longo da cadeia e pressionando as margens da indústria. As exportações, por força da imunidade constitucional, permanecem isentas de tributação.

Exportações de café têm redução de crédito presumido

Foto: Divulgação/Governo da Bahia

Na cadeia do café, a indústria de torrefação mantém a aplicação de alíquota zero nas vendas internas, por se tratar de produto incluído na cesta básica. A mudança ocorre nas operações de exportação. Com a Lei Complementar 224/2025, houve redução dos créditos presumidos vinculados às vendas externas.

Para o café cru, o crédito presumido sobre a aquisição de insumos recua de 7,4% para 6,66%. Já no café torrado ou solúvel, o percentual calculado sobre a receita de exportação cai de 0,925% para 0,8325%. A diminuição reduz a margem das empresas exportadoras e altera a estrutura de custos em um segmento altamente dependente do mercado internacional.

Trigo concentra efeitos mais sensíveis da mudança

Na cadeia do trigo, os efeitos são distintos e considerados mais sensíveis. Segundo a tributarista, a principal mudança atinge a aquisição do grão destinado à produção de farinha. “A operação, que antes estava sujeita à alíquota zero, passa a ser tributada sem direito a crédito para o comprador. Na prática, trata-se de um tributo não recuperável, incorporado diretamente ao custo de aquisição”, explica Cintia.

Como a farinha é insumo básico para a fabricação de pães, o impacto tende a se propagar ao longo da cadeia, elevando o custo do produto final e pressionando o preço ao consumidor.

Foto: Cleverson Beje

Além da tributação na aquisição do grão, a Lei Complementar 224/2025 também reduziu o crédito presumido de 3,24% para 2,92% para o trigo. “As vendas no mercado interno permanecem inalteradas para os produtos incluídos na cesta básica, como farinha de trigo e pré-mistura para pão, que seguem com alíquota zero. Já os itens fora desse rol, como pré-misturas para bolos, mantêm a tributação anteriormente aplicada”, detalha Cintia.

Para o advogado tributarista Luiz Eduardo Costa Lucas, a alteração cria uma distorção no sistema. Segundo ele, trata-se de um caso em que um produto que operava com alíquota zero passa a gerar incidência tributária no meio da cadeia, sem possibilidade de creditamento. “Na prática, o imposto recolhido não é recuperável, incorpora-se ao custo e reabre a discussão sobre a não cumulatividade, tema debatido desde 2004. O resultado é a transferência do encargo ao consumidor final”, pontua.

Milho tem crédito presumido reduzido ao longo da cadeia

Foto: Fernando Dias/Ascom Seapi

Estrutura semelhante foi adotada na cadeia do milho. Embora os insumos não tenham sido diretamente afetados, o crédito presumido sobre aquisições de pessoas físicas foi reduzido de 3,24% para 2,92%. No óleo de milho, tanto as vendas no mercado interno quanto as exportações tiveram o crédito presumido diminuído, de 2,498% para 2,248, ampliando a pressão sobre as margens do setor.

Óleo de soja perde desoneração e crédito é reduzido

Na cadeia da soja, a aquisição de insumos permanece sem alterações. A mudança ocorre na etapa de comercialização. O óleo de soja, atualmente enquadrado na cesta básica e sujeito à alíquota zero de PIS/Cofins, mas fora do rol previsto na reforma tributária, passará a recolher 0,925% desses tributos.

Além disso, o crédito presumido sobre as vendas de farinha de soja, óleo e resíduos foi reduzido em 10%, caindo de 2,498% para 2,248%, o que comprime as margens ao longo da cadeia.

Fertilizantes passam a ter tributação na entrada e na saída

Foto: Claudio Neves

Impacto mais amplo é observado na indústria de fertilizantes. Insumos agropecuários que até então operavam com alíquota zero de PIS/Cofins passam a ser tributados em 0,925%. O mesmo percentual incidirá sobre as vendas no mercado interno de adubos, defensivos, sementes, mudas e corretivos, que também eram desonerados.

Segundo Cintia, o efeito é cumulativo. “O segmento passa a ser tributado na aquisição, sem direito a crédito, e também na saída. No caso da importação, a indústria de fertilizantes terá de recolher PIS e Cofins sem possibilidade de compensação”, afirma a tributarista.

Na prática, trata-se de um custo adicional incorporado à formação de preços, com potencial de repercussão direta sobre os produtores rurais e, ao final da cadeia, sobre o consumidor.

Insegurança jurídica amplia risco de cumulatividade e judicialização

Diante da ausência de uma lista expressa sobre quais benefícios foram efetivamente alcançados pela Lei Complementar 224/2025, Cintia recomenda uma análise criteriosa caso a caso. Segundo ela, é necessário verificar se o tributo envolvido está entre aqueles abrangidos pela norma, como PIS, PIS-Importação, Cofins, Cofins-Importação, Imposto de Importação (II), IPI, IRPJ, CSLL e CPP.

Além disso, o benefício precisa constar no Demonstrativo de Gastos Tributários da Lei Orçamentária Anual (LOA), enquadrar-se como incentivo fiscal e não se tratar de uma exceção legal específica.

Fonte: Martinelli Advogados

Segundo Cintia, os critérios mencionados não esgotam as possibilidades de enquadramento e a interpretação dependerá, em grande medida, do entendimento adotado pela Receita Federal, aspecto que não está detalhado na Lei Complementar 224/2025. “Há situações que, em tese, não se enquadram, mas a Receita pode interpretar de forma diferente, o que pode gerar discussões amplas e até judicialização”, menciona a advogada.

Por sua vez, Costa Lucas observa que, até o fim do ano passado, não havia preocupação prática em diferenciar, sob a ótica do governo, o que seria benefício fiscal e o que configuraria gasto tributário. Anualmente, a Receita encaminha a relação de gastos, mas a nova regra levanta a dúvida sobre se todos os itens listados podem ser automaticamente classificados como benefícios. “Nem tudo que está ali necessariamente é benefício”, pontua.

Foto: Divulgação/Governo da Bahia

Para ele, é essencial verificar se o item está previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) e, além disso, se efetivamente se caracteriza como incentivo fiscal. Como não há definição legal clara sobre esse enquadramento, forma-se uma zona de incerteza. Costa Lucas destaca que o debate sobre a natureza dessas rubricas estava adormecido e volta agora ao centro da discussão. Na avaliação dele, a redução linear pode atingir mecanismos básicos do sistema, reintroduzindo cumulatividade, especialmente em cadeias do agronegócio.

Na ponta, o impacto tende a alcançar o consumidor. Isso porque o varejo passará a adquirir produtos que sofreram tributação ao longo da cadeia sem possibilidade de crédito. Como o imposto é calculado ‘por dentro’, o custo se incorpora ao preço. Na prática, segundo a tributarista, um modelo concebido como não cumulativo passa a operar com efeitos cumulativos, pressionando o valor final pago pelo consumidor.

Fonte: O Presente Rural com Martinelli Advogados
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Nelore, o boi que samba

Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

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Foto: Divulgação/ACNB

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.

A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB

Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.

Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.

A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.

À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.

Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.

O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.

Fonte: Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB).
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