Bovinos / Grãos / Máquinas Produção animal
Estudo da Embrapa apresenta redução do carrapato-do-boi em 82% do rebanho sem usar químicos
Estudo da Embrapa para controle de carrapatos em bovinos sem o uso de produtos químicos, utilizando apenas estratégias de manejo, com os animais em pastejo é desenvolvido nos biomas do Cerrado e de Pampa.

Um estudo da Embrapa realizou controle de carrapatos em bovinos sem o uso de produtos químicos, utilizando apenas estratégias de
manejo, com os animais em pastejo em diferentes regiões. Chamado de Lone Tick, o sistema obteve resultados iniciais de 82% de redução da população de parasitas nos rebanhos. O trabalho está sendo desenvolvido nos biomas Cerrado e Pampa.
O trabalho de pesquisa no Cerrado avaliou durante um ano o controle da infestação de carrapato Rhipicephalus microplus em bovinos da raça Senepol, no sistema de manejo rotacionado, obtendo uma média de dez carrapatos por animal, sem uso de acaricidas. “Quando há cerca de 40 carrapatos no animal, significa que teremos problemas econômicos no rebanho”, informa o pesquisador da Embrapa Gado de Corte Renato Andreotti, responsável pela atividade de controle do carrapato-do-boi sem o uso de acaricidas, inserida no projeto “Produção e avaliação de antígeno recombinante para uso no controle do carrapato-do-boi com base na vacinologia reversa”. “Na raça Senepol, sensível ao carrapato, o projeto obteve sucesso. A meta agora é conseguir resultados semelhantes na raça Angus – animais produtivos e mais sensíveis ao carrapato – e presentes em diferentes regiões do País”, observa. O estudo será realizado por, pelo menos, dois anos.
No Pampa, o trabalho foi iniciado no segundo semestre de 2021 e têm dado motivação para os produtores: nos primeiros resultados foram registrados uma redução de mais da metade da população de carrapatos. “Ainda, não podemos falar em percentual de redução da população porque estamos no início do projeto. Teremos mais certezas quando fizermos pelo menos uma avaliação sazonal. Mesmo assim, acredito que o trabalho está indo muito bem, pois os carrapatos adultos sobre os animais diminuíram”, relata o professor Rodrigo Cunha, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que realiza as coletas para avaliação do estado de saúde dos animais, por meio de análises realizadas no laboratório especializado da Faculdade.
A presença do carrapato nos animais faz com que seus agentes causem o aparecimento da doença conhecida como tristeza parasitária bovina (TPB) causada pelos agentes: Babesia bovis, Babesia bigemina e Anaplasma marginale, o que pode levar os animais à morte. Caso não seja adotado um controle pelo produtor, este sofrerá grandes prejuízos. “Não se tem registros exatos de mortes de animais por TPB no País. É importante lembrar que no Sul essa doença possui uma gravidade maior por ser região de instabilidade enzoótica, que significa que os animais estão vulneráveis após o inverno, levando a um risco de morte maior”, esclarece Andreotti ressaltando a preocupação com a qualidadedos alimentos fornecidos pela bovinocultura.
Um agravante do problema vem do melhoramento genético. Os produtores de gado de corte utilizam cruzamentos com raças mais produtivas para aumentar a produtividade do seu sistema por meio da precocidade, qualidade da carne, entre outros fatores, mas essas raças são mais sensíveis ao carrapato. “O rebanho acaba ficando refém das infestações por carrapatos, porque foi produzida uma nova definição genética dessa população de bovinos cruzados em sistemas de produção. Estima-se que haja perda de um grama de carne por carrapato ao longo do ano, por isso se justifica economicamente a necessidade do controle”, explica Andreotti.
Com o gado de leite o problema se repete. Animais mais produtivos
costumam também ser mais sensíveis ao carrapato, e isso provoca uma perda anual de leite de 95 kg por animal, principalmente com a raça holandesa e em sistema de produção familiar, acarretando diminuição nos lucros.
O pesquisador explica que os animais de raças europeias e seus cruzamentos são totalmente dependentes de controle do carrapato para poder expressar seu potencial genético produtivo, caso contrário, corre o risco de, além de não produzir, perder o investimento realizado no rebanho devido à mortalidade causada pela TPB. “No sistema Lone Tick, além do controle não usar acaricida, ele aceita a mesma carga animal do sistema de produção tradicional”, comenta
Controle estratégico do carrapato
A cadeia produtiva de bovinos usa variadas formas para controle do carrapato, como o sistema tradicional, no qual o produtor define o
produto acaricida que vai usar no balcão da loja de produtos veterinários, até sistemas sofisticados com o uso integrado de práticas de controle – chamado controle estratégico do carrapato – buscando impactos mínimos.
O controle do carrapato com uso de acaricidas é a mais usual. Mas, tem causado vários problemas para produção dos rebanhos. Por isso, o produtor precisa:
1) Conhecer a biologia do parasita para melhor controle; isso fará retardar o avanço da seleção de parasitas resistentes, maior eficiência, menor custo e menor impacto no ambiente pela redução da quantidade de acaricidas;
2) Conhecer as diferenças de temperatura e umidade nos diversos ambientes, ao longo do ano, pois há influência na produção de gerações do parasita e sua população;
3) Quando utilizados os acaricidas sobre os animais, é preciso aplicá-los da forma recomendada, o que não vem sendo obedecido com frequência, pois tem se observado consequências como a contaminação do ambiente, intoxicação das pessoas que aplicam o acaricida e dos produtos de origem animal.
Segundo Andreotti, o uso intensivo de produtos químicos por dois anos consecutivos num rebanho, pode gerar o desenvolvimento de resistência àquele parasita. “O carrapato precisa ser monitorado anualmente, e temos soluções tecnológicas mais eficientes, inclusive, oferecemos análises por meio do Museu do Carrapato, site que traz um banco de informações sobre os parasitas, onde são estudadas todas as espécies que chegam para análises, através de fotografias e posterior catalogação”, conta o cientista.
Controle Lone Tick
Lone tick, traduzido da língua inglesa por carrapato solitário, é um sistema de controle sanitário sem uso de acaricidas, ou seja, sem a realização de controle químico. “Nossa intenção é apresentar uma
solução global, pois o carrapato é um problema mundial”, destaca. Ele cita a infestação de carrapatos na pecuária da Austrália, um grande mercado de produção de bovinos, passando pela África, América do Sul e América do Norte (México e Estados Unidos).
No Lone Tick, muda-se o boi de pasto, separando o animal do carrapato, e alternando consecutivamente o local de pastagem do rebanho. O pesquisador conta que o tempo de uma rodada de quatro pastagens até ao retorno à área inicial é de 112 dias. Esse manejo promove um vazio forrageiro/sanitário de 84 dias, no local da pastagem inicial, período em que as larvas do carrapato ficam solitárias e morrem por falta de animais no local para se hospedar e se alimentar. “Ou seja, matamos o carrapato, sem utilizar produtos químicos”, resume.
O trabalho compreende cinco etapas: contagem de parasitas por animal, a coleta de carrapatos para verificação da resistência dos carrapatos aos acaricidas, coleta de sangue dos animais para avaliação da presença dos agentes da TPB e para avaliação do estado de saúde geral do rebanho e a pesagem dos animais. Em seguida é realizada a rotação do lote de animais entre os piquetes de pastagens. A cada intervalo de troca de área é praticado o mesmo protocolo com os animais, repetindo as etapas.
O sistema foi estudado primeiro de forma experimental na cidade de Campo Grande (MS), região do Cerrado onde durante um ano, um grupo de 37 animais desmamados machos da raça Senepol, com infestação natural de carrapatos, foram divididos em dois grupos, de 21 e 16 animais respectivamente, sendo feita a rotação de pastagem com intervalo de 28 dias e sem a utilização de acaricidas. A área, de 32 hectares, foi dividida em quatro piquetes de oito hectares, com pastagem de Brachiaria brizanta, vr. Marandu.
O primeiro lote de animais foi introduzido na pastagem no início do experimento e os animais do segundo lote, após seis meses. Em cada intervalo foi contabilizada a quantidade de carrapatos nos animais. A média inicial de 26,2 carrapatos no primeiro mês caiu para 1,5 carrapato aos 56 dias. O resultado se repetiu e manteve um baixo número de carrapatos nos animais sem uso de acaricidas até o fim do experimento.
O cientista conta que a manutenção de uma baixa contagem de carrapatos nos animais é desejável para a manutenção da estabilidade enzoótica dos agentes infecciosos responsáveis pela TPB, ou seja, isto significa que os animais estão protegidos naturalmente contra a doença em função de estarem em contato permanente com baixas quantidades de carrapatos.“Com base nos resultados demonstrados, concluímos que a rotação com 84 dias de vedação dos piquetes foi efetiva no controle do carrapato sem a utilização de carrapaticidas, sendo possível, nas condições do bioma Cerrado, criar raças mais produtivas e com custo menor no controle do parasita agregando valor na cadeia produtiva”, salientou Andreotti.

Além disso, o rebanho experimental obteve um ganho de peso médio diário de 0,425 gramas durante a pesquisa. Na contagem de carrapatos, o primeiro lote de animais alcançou uma média de 6,2 carrapatos por animal e o segundo lote, 10,36 indivíduos, sem a utilização de acaricidas durante o experimento.
Sistema apresenta controle ecologicamente correto
Andreotti comenta que um dos gargalos para o sucesso do controle estratégico do carrapato com o uso de acaricidas é o surgimento de carrapatos resistentes, resultado da pressão de seleção causada nas populações desses parasitos exercida pelo tratamento. O sistema Lone Tick corrigiu a carga parasitária para condições adequadas de controle. “Permitiu eliminar a pressão de seleção aos acaricidas funcionando como área de refúgio, ou seja, ele elimina o aparecimento de mutações relacionadas com a resistência na população de carrapatos. O sistema trabalha com baixa infestação de carrapatos com redução de impacto da sua ação e manutenção da estabilidade enzoótica para a TPB. Inclusive, durante um ano de observação e monitoramento dos animais, nenhum deles apresentou sintomas para a doença”, revela.
O sucesso do sistema Lone Tick, de acordo com o pesquisador, é porque o carrapato-do-boi completa o ciclo de vida no hospedeiro em 21 dias, com o ingurgitamento da fêmea e sua queda ao solo e consequente postura de três mil ovos, em média, iniciando a fase não parasitária. “As larvas emergem dos ovos e constituem 95% da população de carrapatos no ambiente, sendo fonte de reinfestação dos animais, não sendo alcançadas diretamente pelos carrapaticidas. A grande maioria das larvas do carrapato-do-boi não sobrevive no ambiente por mais de 82,6 dias”, explica Andreotti a razão do período de vazio sanitário de 84 dias.
“O sistema Lone Tick oferece uma forma de controle nesta fase de vida livre do carrapato, com base na rotação de pastagens, permitindo um tempo de 84 dias das larvas sem contato com o hospedeiro, tempo suficiente para a morte das larvas por inanição”, fala. Os resultados da pesquisa mostram que, com base no conhecimento da ecologia e biologia do parasita, é possível controlar de forma ecologicamente correta as populações dessa espécie de carrapato, atendendo assim, uma demanda de mercado internacional: a diminuição do uso de produtos químicos e seus efeitos colaterais.
A experiência no Sul do Brasil
O projeto está sendo desenvolvido também na região de Pelotas (RS), na Embrapa Clima Temperado. “Escolhemos o Rio Grande do Sul por dois fatores: a forte vocação para pecuária de corte e de leite e a possibilidade de avaliar o estudo em condições climáticas bem distintas da região do Cerrados”, justifica Andreotti.
Pesquisa Experimental
A unidade de pesquisa experimental é a Fazenda Martimar, localizada em Canguçu (RS), de propriedade de Márcia Duarte, com 710 hectares. “Ao se alcançar resultados positivos com este novo sistema de manejo de controle do carrapato, abrimos uma alternativa de migração para uma pecuária orgânica, o que será ampliado para toda a produção pecuária da fazenda, sendo viável a eliminação do controle químico no carrapato, ou ainda, diminuir a infestação pelo parasita”, conta Duarte.
O estudo do sistema Lone Tick na propriedade, segue o mesmo formato da unidade de pesquisas na região dos Cerrados ao utilizar a
mesma medida de área e estratégias de manejo dos animais. A diferença no Sul está na avaliação de 15 animais, vacas de cria, com uso de campo nativo com introdução de azevém nos piquetes rotacionados, sem adubação química. “Não tivemos nenhuma mudança de planos para instalação da tecnologia de manejo em nossa propriedade rural, conseguimos com êxito fazer todo o planejamento da área”, comentou.
Um dos relatos feito pela produtora rural foi a constatação de que animais ‘carrapateados’ têm perda significativa de peso. Assim, além do foco do projeto é buscar a eliminação ou a redução ao máximo de parasitas sem produtos químicos, a nutrição dos bovinos precisa ser satisfatória.
Segundo o extensionista da Emater/RS-Ascar, James Pureza, foi feita uma coleta de campo nativo três meses antes de introduzir os animais na área rotacionada do Projeto. Um dos pontos a ser verificado pelo estudo é o ajuste da carga de animais sob a área de pastejo nos piquetes experimentais. “Iniciamos numa área de pastejo de campo nativo que produziria um volume para manter os animais durante toda a duração do Projeto, tendo alcançado cerca de 3,6 mil kg de matéria verde e 36% de matéria seca, supomos que o rebanho consumirá entre 8% e 10% do peso vivo/animal, mas teremos que ir ajustando ao longo do desenvolvimento do estudo”, disse.
Ele explica que o trabalho busca o controle do carrapato, mas a condição nutricional dos animais infestados dá a eles condições de enfrentarem melhor o seu estado geral de saúde. Assim, realizar o planejamento de pastagens com antecedência é um fator importante, pois o projeto utiliza o manejo rotacionado, que dá ao gado um melhor aproveitamento da área de pastejo, mantendo sempre com níveis de nutrição satisfatórios. “Os piquetes separados com a carga animal compatível, o gado fica condicionado a este espaço, onde caminham menos, despendem menos energia, com acesso a água e comida à vontade naquele espaço, aproveitando melhor o pasto, sem deixar muitas sobras de alimento, assim as chances de manutenção, ou até ganho de peso dos animais, pode ser a ideal ou superior às expectativas”, esclareceu.
Resultados promissores
Os resultados iniciais foram colhidos na primeira semana de
setembro, mostrando-se promissora a estratégia de manejo. “Encontramos pouquíssimos carrapatos, sem vermes e sem agentes de TPB”, informa o professor Rodrigo Cunha.
A técnica de laboratório Jaqueline Cavalcante Barros, da Embrapa Gado de Corte, responsável pela catalogação de dados do Projeto, disse que na contagem de carrapatos em agosto, a média foi de 93 parasitas por animal. Após a instalação do projeto, a primeira contagem apresentou 37 carrapatos por animal, uma boa indicação para redução inicial da aplicação da tecnologia.
O pesquisador Andreotti afirma que os resultados preliminares de instalação da tecnologia são promissores. “Ainda precisamos experimentar a tecnologia nos próximos meses de verão no Sul para conhecer a pressão da temperatura e umidade da estação para verificar os desafios ambientais para se fazer uma avaliação mais madura do sistema nesta região, analisando o estado de equilíbrio entre aspectos nutricionais dos animais nos piquetes e a carga parasitária”, anuncia.

Bovinos / Grãos / Máquinas
Novo status sanitário do Brasil fortalece exportações paranaenses para a China
Setor pecuário do Estado espera ganhos em competitividade, demanda por proteínas e valorização da cadeia bovina.

O reconhecimento do território brasileiro como área livre de febre aftosa sem vacinação pela China terá impacto positivo para a pecuária do Paraná, conforme análise do Sistema Faep. A medida tem potencial de ampliar oportunidades comerciais para o Estado, já reconhecido como área livre da doença desde 2021. A decisão do governo chinês ocorre após mais de duas décadas de negociações e elimina restrições sanitárias que ainda limitavam parte das exportações brasileiras de produtos da pecuária.

Foto: Shutterstock
O anúncio ocorre um ano após a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) reconhecer o Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação, resultado de um processo de décadas envolvendo produtores rurais, serviços veterinários oficiais e governos estaduais.
“O elevado status sanitário paranaense e a organização da cadeia pecuária colocam o Estado em posição favorável para aproveitar o novo cenário comercial. O principal reflexo esperado é o fortalecimento da competitividade das nossas proteínas, ainda mais para um mercado consumidor com alta demanda, como a China”, avalia o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette.
Na prática, a decisão pode resultar em aumento da demanda chinesa por proteínas animais produzidas no Brasil, mais oportunidades para frigoríficos exportadores instalados no Paraná, sustentação ou valorização dos preços do boi gordo em caso de crescimento das exportações e efeitos positivos no mercado de reposição, especialmente para bezerros e garrotes.

Foto: Thais Rodrigues de Sousa
Segundo o técnico do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema Faep Fábio Peixoto Mezzadri, os números já demonstram a relevância do mercado chinês para a pecuária de corte bovino paranaense. “Em 2025, o Paraná exportou 23,5 mil toneladas de produtos bovinos para China, movimentando US$ 126,9 milhões. O principal volume corresponde às carnes bovinas congeladas desossadas, responsáveis pela maior parte do valor exportado pelo Estado”, explica.
Principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, a China respondeu por mais de US$ 50 bilhões em compras do setor em 2025. “O reconhecimento sanitário reforça a confiança nas cadeias produtivas nacionais e fortalece a parceria estratégica entre os dois países, ao mesmo tempo em que cria novas possibilidades de expansão para produtores e exportadores brasileiros e, especialmente, os paranaenses”, conclui Mezzadri.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Pecuária impulsiona alta de 4% nas vendas de suplementos minerais
Exportações aquecidas, valorização da cria e período seco sustentam crescimento do mercado.

As vendas de suplementos minerais para pecuária começaram 2026 em ritmo de crescimento. Entre janeiro e abril, as indústrias associadas à Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (Asbram) comercializaram 764,8 mil toneladas de produtos, volume 4% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Apenas em abril, as vendas alcançaram 210,4 mil toneladas, alta de 4,9%.
Os números foram apresentados durante o Painel de Mercado da entidade, realizado em São Paulo, e refletem um cenário favorável para a pecuária brasileira, impulsionado pela valorização dos animais, pelo avanço das exportações e pela necessidade de suplementação durante o período seco.

O aumento no volume comercializado foi acompanhado por uma expansão ainda mais expressiva do número de animais atendidos. Segundo o economista Felippe Cauê Serigati, pesquisador da FGV Agro, a quantidade de bovinos suplementados cresceu 8% no primeiro quadrimestre, alcançando 68 milhões de cabeças.
O crescimento foi puxado principalmente pelos produtos das categorias Núcleos e Pronto para Uso. “A tendência é que os bons resultados continuem durante o período seco de outono-inverno, impulsionados pela necessidade de suplementação nutricional, pela valorização da cria e pelo bom momento da pecuária brasileira. Apesar dos desafios internos e externos, a economia brasileira deve seguir crescendo e a carne bovina continuará forte em produção, exportações, abates e consumo interno”, afirmou Serigati.
Exportações sustentam otimismo na pecuária

Foto: Gisele Rosso
Durante o encontro, o professor da Universidade de São Paulo (USP) Marcos Fava Neves destacou o fortalecimento das cadeias de proteína animal como um dos principais motores da economia brasileira. “Estamos assistindo a uma verdadeira ‘carnificação’ da economia brasileira, fortalecendo o interior do país e integrando cadeias produtivas como DDG, farelo de soja, biogás, biometano e biodiesel. O agro brasileiro está construindo um modelo cada vez mais eficiente e sustentável”, enfatizou.
Segundo o profissional, o mercado internacional segue favorecendo a pecuária brasileira. Ele destacou o aumento das compras pelos Estados Unidos e a manutenção da demanda chinesa pela carne bovina nacional. “Os Estados Unidos estão comprando muito e a China segue demandando carne brasileira, inclusive por caminhos alternativos. Hoje, exportamos cerca de 4 milhões de toneladas por ano e podemos chegar a 5 milhões até 2035”, frisou.
Economia cresce, mas desafios permanecem
A avaliação dos participantes do painel é que o Brasil continua apresentando crescimento econômico em 2026, apesar do ambiente marcado por inflação elevada, juros altos e aumento do custo dos alimentos.
A projeção apresentada por Serigati aponta expansão de aproximadamente 1,9% do PIB neste ano, sustentada pelo consumo das famílias, aumento da renda e desempenho das exportações, especialmente do agronegócio. “O Brasil possui petróleo para exportar e está menos vulnerável do que outras economias globais. Porém, o crescimento atual ocorre sem sustentação fiscal, os juros devem cair lentamente e o endividamento das famílias continua elevado”, ponderou.
Cenário internacional exige atenção
As tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã também entraram na pauta do evento. A possibilidade de interrupções no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz tem provocado volatilidade nos mercados de energia e insumos.
Mesmo assim, a avaliação dos especialistas é que o Brasil permanece em posição relativamente favorável por sua condição de exportador de alimentos e energia.
Para Fava Neves, as oportunidades para o agronegócio continuam robustas, mas exigem gestão profissional dentro das propriedades. “O mundo está turbulento, mas continuará precisando de alimentos. O Brasil é a cozinha do planeta e terá papel fundamental no abastecimento global diante da urbanização, do aumento da renda e do crescimento do consumo de proteína animal”, ressaltou.
Ele acrescentou que fatores como clima, custos de produção, sanidade, mão de obra e endividamento devem permanecer no radar dos produtores.
Logística reversa preocupa empresas
Além das questões de mercado, o encontro abordou temas regulatórios que preocupam o setor. Um deles é a logística reversa das embalagens, assunto que ainda não possui regulamentação definitiva para a cadeia de suplementos minerais.
Segundo a Asbram, empresas vêm sendo autuadas em estados como Goiás, Mato Grosso e São Paulo, apesar da ausência de obrigatoriedade formal para implantação do sistema. A recomendação da entidade é que as companhias apresentem recursos administrativos enquanto o tema continua em discussão.
Asbram prepara livro sobre 30 anos de atuação
A associação também anunciou o lançamento de um livro comemorativo aos seus 30 anos, previsto para ser apresentado durante o simpósio da entidade em 2027. A publicação reunirá a trajetória da Asbram e das cerca de 100 empresas associadas, registrando três décadas de atuação na nutrição do rebanho bovino brasileiro. “Vamos registrar nossa história, nossas ações, eventos, campanhas, debates e o trabalho técnico desenvolvido ao longo dessas três décadas. 2026 é um ano desafiador, mas acreditamos que, nos próximos dez anos, a pecuária será o maior setor do agronegócio brasileiro”, salientou Elizabeth Chagas.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Carne bovina está entre os cinco produtos brasileiros mais exportados para os Estados Unidos
Levantamento da Comex Stat mostra que siderurgia, petróleo, proteína animal e setor aeronáutico lideram as vendas brasileiras ao mercado norte-americano.

A carne bovina ocupa a terceira posição entre os produtos brasileiros mais exportados para os Estados Unidos, segundo dados da Comex Stat. O produto respondeu por US$ 814,6 milhões em embarques e representou 7,5% do valor total exportado pelo Brasil para o mercado norte-americano no período analisado.

Foto: Shutterstock
O ranking evidencia a importância do agronegócio na pauta comercial entre os dois países, mas também mostra o peso de setores como siderurgia, petróleo e indústria aeronáutica nas exportações brasileiras.
Na liderança aparecem os produtos semiacabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço, com vendas de US$ 1 bilhão, equivalentes a 9,2% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. Em segundo lugar estão os óleos brutos de petróleo ou de minerais betuminosos crus, que somaram US$ 857,5 milhões e participação de 7,9%.
Além da carne bovina, a lista dos cinco principais produtos exportados inclui aeronaves e outros equipamentos,

Foto: Shutterstock
incluindo peças e componentes, com US$ 768,3 milhões e participação de 7% nas vendas externas. Fechando o ranking aparece o ferro-gusa, ferro-esponja, grânulos, pó de ferro ou aço e ferro-ligas, que movimentaram US$ 594,1 milhões, o equivalente a 5,4% do total exportado.
Agro ganha relevância em meio ao debate tarifário
Os números ganham relevância em um momento de atenção do setor exportador às medidas comerciais anunciadas pelos Estados Unidos. A carne bovina é um dos produtos mais relevantes do agronegócio brasileiro no mercado americano e figura entre os itens estratégicos da pauta bilateral.

Foto: Shutterstock
O levantamento também mostra que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos é marcada por uma diversificação de produtos, envolvendo commodities agrícolas, minerais, petróleo e bens industrializados de maior valor agregado.
Cinco produtos representam mais de um terço das exportações
Somados, os cinco principais produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos representam cerca de 37% do valor total embarcado ao país, demonstrando forte concentração em alguns segmentos específicos da economia.
A presença simultânea de produtos do agronegócio, mineração, energia e indústria reforça a importância do mercado norte-americano para diferentes cadeias produtivas brasileiras e ajuda a explicar a preocupação de exportadores diante de possíveis mudanças nas regras comerciais entre os dois países.



