Suínos
Estresse térmico e desafios fisiológicos elevam riscos produtivos na suinocultura
Manutenção do equilíbrio hídrico e eletrolítico é apontada como fator essencial para reduzir perdas reprodutivas nas matrizes.

Artigo escrito por Flávia Cristina Silva, médica Veterinária (UFU) e MBA Gestão Empresarial, coordenadora Técnica Nacional – Suinocultura, Sanex
A homeostase não é um conceito abstrato difícil de ser mensurado: ela pode ser aferida através de alguns parâmetros. Pode-se avaliar, por exemplo, o pH sanguíneo (entre 7,35 e 7,45), a temperatura retal (entre 38,6 e 39,2ºC), os batimentos cardíacos (de 60 a 120 bpm), a frequência respiratória (entre 32 e 58 mrm), a porcentagem de água corporal (de 50 a 80%), a glicemia (entre 65 e 95 mg/dL), entre outros. O que vai determinar qual desses números vai enquadrar o animal em homeostase é a fase de vida dele. Logo, um leitão de maternidade tende a ter batimentos cardíacos muito acelerados (entre 110 e 120 bpm) enquanto a mãe dele vai ter um ritmo bem menos veloz (entre 60 e 80 bpm).
Os principais recursos fisiológicos usados por animais para manutenção da homeostase estão ligados ao movimento de água e eletrólitos. O ganho de água acontece principalmente pela água de bebida (80%), ração (5%) e metabolismo (15%). Lembrando que uma ração seca tem aproximadamente 12% de umidade e que os produtos do metabolismo aeróbico são água e CO2. E a perda acontece em sua maior parte pela urina e menor parte pela respiração e pele (perda insensível) e pelas fezes. Já o ganho de eletrólitos é quase exclusivamente pela ingestão de ração e ínfimo pela água. A perda de eletrólitos acontece principalmente pela urina, fezes (saliva e bile) e muito pequena parte pela pele, já que os suínos têm poucas glândulas sudoríparas funcionais. Então, o estado de equilíbrio entre a perda e o ganho de água e eletrólitos significa que o animal está em homeostase.
Fases desafiadoras das fêmeas
Os suínos destinados à reprodução, mais especificamente as fêmeas, passam por fases desafiadoras para a homeostase, natural e ciclicamente. Uma fêmea no cio tem seu apetite reduzido e pode entrar em hipoglicemia (ou cetose metabólica) e desidratar-se. O periparto é bastante desafiador também, pois no mesmo evento (o parto) temos uma redução intencional na oferta de ração e uma súbita necessidade de energia e eletrólitos (para contrações uterinas) e água (para formação do colostro).
Além do mais, o parto é um evento desencadeado pela alta concentração de cortisol produzido pelos leitões já prontos para nascerem. Já uma fêmea lactante tem sua temperatura retal normal aumentada (39,1ºC), pois a lactogênese produz calor. Toda vez que uma fêmea passa por uma situação estressante em que não consegue manter a homeostase ela, numa tentativa de autopreservação, sacrifica seu desempenho reprodutivo. Isso pode ser percebido quando há uma repetição de cio irregular, um aborto, um baixo número de nascidos totais ou uma baixa produção de leite. Seja hipoglicemia, desidratação ou hipertermia, essas condições naturais são inerentes ao processo, mas podem ser agravadas por infraestrutura inadequada que não mitiga estressores ambientais. O calor é inquestionavelmente o principal estressor ambiental da fêmea suína.
Embora desenvolvido para ruminantes, o esquema da Figura 1 é aplicado na Bioclimatologia Animal em suínos e outras espécies. Suínos adultos criados sob condições climatológicas brasileiras (que variam de equatorial à subtropical) têm mais desafios frente ao calor que ao frio. Ondas de calor muito intensas ou abruptas podem produzir uma ofegação (aumento da frequência respiratória) que aumenta a excreção de CO2 e do pH sanguíneo levando o animal à alcalose respiratória e morte por hipertermia. Todos os mecanismos de hipo e hipertermia podem ser explicados pela regulação ácido-base sanguínea.

Figura 1 – Representação esquemática das zonas de sobrevivência, bem-estar e homeotermia em relação as condições ambientais dos ruminantes
Ferramenta coadjuvantes
É evidente que nenhum recurso adicional elimina os efeitos de uma infraestrutura deficitária com incidência solar direta, alta umidade (acima de 70%) ou altas temperaturas (geralmente, acima de 22ºC para animais adultos), por exemplo. Mas suplementos minerais, vitamínicos e com carboidratos via água de bebida são uma excelente ferramenta como coadjuvantes na correção de desequilíbrios hidroeletrolíticos causados pelo estresse natural e provocado de cada fase.
Suplementos compostos pelos principais íons presentes no meio extracelular (Na+ e Cl-) e intracelular (K+), além de fontes de energia (glicose), mantém a bomba de sódio e potássio ativa e funcional e ajudam a manter o pH sanguíneo na estreita faixa de variação tolerável pelos animais. A pressão sanguínea pode variar até 10% sem que haja prejuízo para o suíno, mas pode ser fatal se a osmolaridade sanguínea variar acima de 1%.
Vitaminas como C, E e A são antioxidantes e combatem os radicais livres aumentados nesses períodos estressantes. Já as vitaminas C, do complexo B e D ajudam a regular os níveis de cortisol circulantes.
Conclusão
Em resumo, mesmo que todas as condições de bem-estar animal ligadas ao conforto térmico sejam oferecidas às fêmeas suínas, os eventos cíclicos naturais como cio, parto e lactogênese são suficientemente estressantes. Capazes de provocar desidratação, hipoglicemia e hipertermia, exacerbados por estressores ambientais ou uma condição física debilitada, os efeitos desses eventos naturais variam desde uma perda de desempenho leve até a fatalidade. Logo, utilizar ferramentas como suplementos minerais, vitamínicos e energéticos podem facilitar a manutenção da homeostase. É bem-estar animal na prática.

Suínos
Rentabilidade da suinocultura preocupa produtores de Mato Grosso
Apesar do avanço da produção e das exportações brasileiras, preços em queda e margens apertadas desafiam o setor no Estado.
Suínos
Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
Suínos
Da creche à sustentabilidade, 6º Encontro Técnico Abraves-SP apresenta estratégias para aumentar eficiência das granjas
Evento em Pirassununga (SP) vai discutir manejo de leitões leves, sanidade, nutrição e sistemas de produção para apoiar decisões técnicas na suinocultura.

Melhorar a produtividade sem comprometer a sanidade do rebanho exige decisões técnicas em todas as etapas da produção. Manejo de leitões, nutrição, biosseguridade e gestão dos sistemas de criação estão entre os fatores que determinam o desempenho das granjas e influenciam diretamente os custos e os resultados da atividade.
Diante desse cenário, a atualização técnica tornou-se uma ferramenta cada vez mais importante para médicos-veterinários, zootecnistas, consultores e produtores, que precisam incorporar novos conhecimentos à rotina das granjas.
Esses temas estarão em debate no 6º Encontro Técnico Abraves-SP, que será realizado em 09 de setembro, no campus da Universidade de São Paulo (USP), reunindo profissionais da cadeia suinícola para discutir soluções aplicáveis aos sistemas de produção.
Entre os destaques da programação está a palestra do médico-veterinário Vinícius Cantarelli, que abordará estratégias de manejo de leitões leves na fase de creche, uma etapa decisiva para o desempenho dos animais ao longo do ciclo produtivo.
O médico-veterinário Caio Abércio da Silva discutirá a sustentabilidade dos sistemas de produção, apresentando abordagens voltadas à eficiência técnica, econômica e ambiental da suinocultura.
Promovido pela regional paulista da Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos (ABRAVES), o encontro busca aproximar pesquisa científica e prática de campo, oferecendo aos participantes ferramentas para aprimorar a tomada de decisão nas granjas.
A programação completa e as inscrições estão disponíveis aqui.







