Conectado com
FACE

Avicultura A estação quente voltou

Estresse por calor gera perdas para avicultura: saiba como agir em cada fase produtiva para se livrar dos prejuízos

Ampla parte da produção de aves no Brasil se encontra em regiões onde o estresse calórico pode causar problemas aos animais, influenciando o seu desempenho

Publicado em

em

Arquivo/OP Rural

A ampla parte da produção de aves no Brasil se encontra em regiões onde o estresse calórico pode causar problemas aos animais, influenciando o seu desempenho. Para falar sobre os cuidados e parâmetros a serem seguidos durante os períodos mais quentes do ano, o Presente Rural entrevistou o pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Paulo Giovanni de Abreu, que justifica: “Experiências têm mostrado que a produtividade das aves é afetada e a taxa de mortalidade é consideravelmente alta. No entanto, algumas medidas básicas podem remediar e até eliminar esses problemas”.

Uma das premissas é saber o que é a zona de conforto térmico. “Para determinada faixa de temperatura efetiva ambiental, a ave mantém constante a temperatura corporal, com mínimo esforço dos mecanismos termorregulatórios. É a chamada Zona de Conforto Térmico (ZCT) ou de termoneutralidade, em que não há sensação de frio ou de calor e o desempenho animal em qualquer atividade é otimizado”, explica.

O pesquisador explica: “Na figura 1 observa-se que a Zona de Conforto Térmico é limitada pelas temperaturas efetivas ambientais dos pontos B e B’; a Zona de Homeotermia, pelas temperaturas efetivas ambientais dos pontos C e C’; e a Zona de Sobrevivência, pelas temperaturas efetivas ambientais dos pontos D e D’. Nas temperaturas efetivas ambientais situadas na faixa limitada pelos pontos A e D, o animal está estressado por frio e nas de A’ a D’, por calor. A temperatura efetiva ambiental do ponto B é a Temperatura Crítica Inferior (TCI) e abaixo desta o animal aciona seus mecanismos termorregulatórios para incrementar a produção e a retenção de calor corporal, compensando a perda de calor para o ambiente, que se encontra frio. Nessa faixa, a capacidade do animal de aumentar a taxa metabólica torna-se relevante para a manutenção do equilíbrio homeotérmico”.

“Para temperaturas efetivas ambientais abaixo daquela definida no ponto C, o animal não consegue mais balancear a sua perda de calor para o ambiente e a temperatura corporal começa a declinar rapidamente, acelerando o processo de resfriamento. Se o processo continua por muito tempo ou se nenhuma providência é tomada, o nível letal D é atingido e o animal morre por hipotermia. A temperatura efetiva ambiental do ponto B’ é denominada Temperatura Crítica Superior (TCS). Acima dessa temperatura o animal aciona seus mecanismos termorregulatórios para auxiliar a dissipação do calor corporal para o ambiente, uma vez que, nessa faixa, a taxa de produção de calor metabólico normalmente aumenta, podendo ocorrer, também, aumento da temperatura corporal. Nessa faixa, entram em ação mecanismos de defesa física contra o calor, como a vasodilatação e a ofegação. Quando a temperatura ambiental atinge o ponto C’, por mais que esses mecanismos funcionem, não conseguem obter o resfriamento necessário para a manutenção do equilíbrio homeotérmico e a temperatura corporal aumenta cada vez mais. Na temperatura ambiental do ponto D’, o animal morre por hipertermia. Na Zona de Hipertermia, os mecanismos de controle da temperatura não são capazes de providenciar suficiente resfriamento para manter a temperatura corporal em seu nível normal”.

Figura 1 – Esquema das temperaturas efetivas ambientais críticas

Exigências das aves

De acordo com Paulo Giovanni de Abreu, a ave tem habilidade para manter constante a temperatura dos órgãos internos, o que é conhecido como homeotermia. O mecanismo de homeostase, entretanto, é eficiente somente quando a temperatura ambiente está dentro de certos limites. “A temperatura do núcleo corporal de aves é igual a 41,7oC. Na Tabela 1 são apresentados os valores da Temperatura Crítica Inferior (TCI), Zona de Conforto Térmico (ZCT) e Temperatura Crítica Superior (TCS) de acordo com a fase da ave. Portanto é importante que os aviários tenham temperaturas ambientais próximas às das condições de conforto das aves (Tabela 2). Nesse sentido, o aperfeiçoamento dos aviários com adoção de técnicas e equipamentos de condicionamento térmico ambiental tem superado os efeitos prejudiciais de alguns elementos climáticos, possibilitando alcançar bom desempenho produtivo das aves”, menciona.

Estresse térmico (calor)

 O estresse devido ao calor se produz quando existem temperaturas ambientais acima da zona de termoneutralidade das aves e se intensifica na presença de alta umidade relativa e ausência de movimento do ar, destaca Paulo Giovanni de Abreu. “Fisiologicamente as aves respondem ao estresse calórico aumentando os mecanismos de dissipação de calor e diminuindo a produção de calor metabólico. Durante os períodos quentes o estresse térmico depende grandemente da ave. Isto é, idade e tamanho, estágio produtivo e das instalações. Entretanto, as respostas ao estresse térmico variam de formas específicas entre esses diferentes grupos”.

O pesquisador da Embrapa frisa que para o conforto fisiológico das aves é considerado que a temperatura no interior da instalação seja correspondente à zona de termoneutralidade da ave. “Esta é a temperatura média a qual a taxa metabólica é mantida constante pelo controle vaso motor (vasodilatação e vasoconstrição periféricas, movimentação das penas e mudança postural) e evaporação da água dos pulmões. O ponto o qual a temperatura ambiental esta abaixo desta zona é chamado temperatura crítica e aumenta a taxa metabólica para manutenção da temperatura corporal. O ponto o qual a temperatura está acima desta temperatura é chamado ponto de hipertermia e aumento na taxa metabólica na tentativa de eliminar o excesso de produção de calor”.

Efeito da idade

“A combinação de temperatura ambiente e umidade relativa capaz de produzir estresse por calor depende da idade das aves. A temperatura ambiente ideal varia desde 32 – 35oC ao nascer até que se estabiliza aos 20 – 24oC na quarta semana. A magnitude do estresse calórico depende não somente da estação do ano, mas também do status fisiológico (isto é, estágio de crescimento, desenvolvimento e produção) das aves. Em muitas aves jovens o estresse calórico é menos provável de ocorrer durante períodos quentes e úmidos. Isto porque as aves recém-nascidas são mais sensíveis ao frio. Como as aves jovens possuem uma temperatura crítica superior maior que aves adultas a diminuição de mortalidade por estresse calórico é menor”.

Segundo Paulo Giovanni, a medida que as aves crescem, tornam-se menos sensível ao frio. “Isso ocorre por causa da ineficiência dessas aves em dissipar rapidamente o calor produzido por seu organismo. Essa ineficiência na dissipação do calor pode ser devido ao acúmulo de gordura subcutânea, da falta de glândulas sudoríparas e da cobertura de penas do corpo. As consequências é que com a idade ou aves grandes tonam-se mais suscetíveis ao estresse por calor”.

Umidade

A umidade é fator determinante na termorregulação. “No Brasil quando a temperatura ambiente está por volta de 32oC e a umidade relativa do ar mais que 80%, essa condição causa um aumento da severidade do estresse por calor. Como consequência a ingestão alimentar é reduzida e a taxa respiratória desses animais aumenta na tentativa de resfriar-se pela evaporação do vapor d’água dos pulmões. As aves tenderão a se mover para locais mais frescos nos aviários e mudarão a sua postura. Em casos extremos, com temperaturas ambientes próximas de 40oC, as aves podem morrer de exaustão física causada pelo calor. Além disso, a mortalidade durante períodos quentes pode também estar relacionada indiretamente com outros fatores de estresse que são relacionados com condições de calor e umidade. Esses outros efeitos indiretos incluem a redução na ingestão alimentar e aumento da incidência de doenças no plantel. Uma redução na ingestão alimentar torna as aves mais suscetíveis a doenças nesse ambiente”, orienta.

Temperatura ambiente VS proteína e gordura da dieta

“Em relação aos componentes da dieta, de forma similar ao que ocorre para a mantença, há uma diferenciação nas eficiências com que a EM dos carboidratos, gorduras e proteínas é utilizada para a deposição. Quanto maior a proporção de proteína na deposição e quanto maior a quantidade de proteína na dieta maior o incremento calórico esperado. Mantido os níveis dos demais nutrientes limitantes, com maior gordura dietética o incremento calórico diminui, e consequentemente aumenta a eficiência de retenção”.

Em condições de estresse calórico, cita, há um aumento mais discreto na produção de calor total (PC) pelo aumento na energia necessária para termorregulação (PCt), mas o incremento calórico associado à retenção ou deposição nos tecidos passa a ser uma parcela importante da PC. “Esta contribuição, de acordo com a temperatura ambiente, conduz à hipertermia, e a principal forma da ave reduzir este incremento é pela redução do consumo de energia metabolizável (EMc). A redução na EMc e aumento na PC levam, por consequência, a uma menor (ou nula) exigência de energia para retenção ou produção (EMr)”.

O pesquisador explica que outra forma de reduzir a PC é pela utilização de componentes dietéticos de baixo incremento calórico de mantença e retenção, como a gordura. “Isto pode ter efeito positivo sobre a sobrevivência e/ou desempenho em condições de estresse calórico. Por outro lado, o grau de redução da EMc que vai ser apresentado pelos animais não é normalmente previsível, e pode comprometer a EMr pela deficiência dos demais nutrientes. Consequentemente, em condições de estresse pelo calor, a concentração das dietas, especialmente em proteína, pode trazer benefícios à produção, mas é necessário que se tenha controle sobre os níveis de EMc. No caso do uso de componentes de baixo ICr, como a gordura, o maior efeito benéfico é justamente relacionado com a manutenção pelos animais de um nível de consumo mais compatível com a produção”.

Paulo Giovanni orienta: “A perda de apetite devido ao bloqueio do centro do apetite localizado no hipotálamo e a redução brusca do nível sanguíneo de vitamina C seriam em termos nutricionais os fatores mais importantes. A ave sob condições de estresse calórico seria uma ave deficiente em energia, portanto, a manipulação das rações, proporcionando a ingestão de níveis nutricionais de acordo com a exigência das aves, seria a solução para combater o baixo consumo de ração, tendo como base o conceito de ‘incremento calórico ou ação dinâmica específica dos alimentos’ as gorduras passaram a ser o ingrediente de eleição na formulação de rações de alta energia e concentração de nutrientes. Tal prática vem sendo adotada nas condições adversas de criação quando ocorre o fator queda de consumo”.

Considerando que as aves não possuem glândulas sudoríparas, explica, a dissipação de calor ocorre por meio dos processos sensíveis e dos mecanismos evaporativos respiratórios. “Com o aumento da temperatura ambiente, a dissipação de calor pelos processos sensíveis é diminuída, enquanto que pelos mecanismos evaporativos é aumentada”.

Vitamina C

A vitamina C, conhecida como a vitamina do estresse devido às suas peculiaridades principalmente na fase de alerta do estresse, cita o especialista, é uma vitamina sintetizada nos rins das aves e no fígado da maioria dos mamíferos, por isso, a adição de vitamina C nas rações em condições normais não ocorre. “Entretanto, em condições adversas de meio, a sua adição é aconselhada, porém as respostas nem sempre são esperadas. De um modo geral, a vitamina C encontra-se em níveis normais no sangue circulante, mas na fase de alerta do estresse, os níveis reduzem drasticamente ou mesmo desaparecem; existe uma relação entre estresse, adrenais e vitamina C. É sabido que as adrenais são glândulas do estresse, pois elas aumentam de tamanho na fase de acomodação do estresse e esgotam o teor de vitamina C. Assim, é uma tendência lógica adicionar a vitamina C às rações. Porém, a resposta plasmática à adição de vitamina C é quase que imediata, favorecendo, às vezes, o desempenho”, destaca.

“Em condições de estresse, a suplementação de vitamina C pela água de beber ou pela ração tem demonstrado aliviar os efeitos de fatores de estresse, apresentando benefícios no desempenho de frangos de corte”, aponta.

“As aves possuem habilidade própria para sintetizar a vitamina C e, consequentemente, esta tem sido tradicionalmente excluída das dietas de aves. Entretanto, numerosas referências sugerem que uma fonte alimentar pode ser necessária em certas condições de estresses em que aumenta a necessidade metabólica para a vitamina C ou diminui a própria capacidade de sintetizá-la”, amplia.

Arraçoamento

 A temperatura ambiente estando mais baixa estimula o centro de apetite, ocorrendo a ingestão normal de ração. “Embora o uso do jejum forçado durante períodos pré-definidos durante as ondas de calor possa ser útil para frangos de corte e possivelmente para frangas em reposição, tal técnica não funciona para poedeiras em produção”.

Paulo Giovanni explica que a prática de retirada da ração tem sido amplamente empregada com bons resultados na avicultura de corte. “Além de já haver uma redução natural no consumo com o aumento da temperatura, a restrição controlada visa compensar a alcalose respiratória pela acidose metabólica. Durante o jejum, o organismo utiliza-se das reservas lipídicas para seu metabolismo, liberando corpos cetônicos (ácido acetacético hidroxibutírico) na corrente sanguínea, reequilibrando a relação ácido-base. É importante ter conhecimento da extensão do jejum, sendo ineficiente quando realizado no momento do estresse calórico, e antieconômico quando prolongado demais. Vários trabalhos têm demonstrado a necessidade de se iniciar o jejum pelo menos três horas antes do início do estresse de calor. Os animais devem ficar sem acesso a dieta até que a temperatura ambiente volte a um nível adequado”, sustenta o pesquisador.

A redução do consumo alimentar, continua, “diminui os substratos metabólicos ou combustível disponível para o metabolismo, desta forma reduzindo a produção de calor. Como resultado, muitos consideram a ave capaz de regular seu próprio consumo alimentar. Entretanto, como as aves não têm capacidade de prever ou controlar as condições climáticas e são necessárias aproximadamente 6 horas para que diminua o aumento de calor provocado pela ração, a refeição do meio da manhã pode ser certamente um impacto sobre a carga de calor do meio da tarde. Por isso, o jejum pode representar uma ferramenta de manejo potencial para os frangos de corte em condições de estresse calórico”.

Forma física da ração

“Sabe-se que a peletização aumenta o consumo energético, a taxa de crescimento e a eficiência alimentar. Frangos alojados em altas temperaturas diminuem o ganho de peso e de gordura abdominal, enquanto as rações peletizadas propiciam maior consumo, ganho de peso e gordura na carcaça. De acordo com vários autores esses resultados indicam que devem ser fornecidas rações peletizadas e com altos níveis de energia aos frangos criados em temperaturas elevadas. Dessa forma, o processo de peletização proporciona um aumento da densidade das rações, melhorando eficiência alimentar”.

Cloreto de cálcio, bicarbonato de sódio, água carbonatada

O pesquisador explica que o tratamento da água não pode ser esquecido, mas que precisa ser melhor estudado. “Uma variedade de tratamentos da água tem sido utilizada para avaliar as condições de desequilíbrio ácido-básico associado com a ofegância termorregulatória. Entretanto, nenhum tratamento foi completamente bem-sucedido em eliminar o desequilíbrio biológico e suas consequências econômicas associadas”.

Água resfriada

“A água exerce papel fundamental na absorção e eliminação de calor corporal durante períodos de altas temperaturas. As evidências sugerem que o aumento no consumo de água beneficia a ave ao atuar como um receptor de calor. A temperatura da água é outro importante fator na regulação da temperatura das aves, devendo estar sempre abaixo da temperatura corporal das mesmas. A presença de água fresca (25oC) é eficaz em atenuar o aumento da temperatura corporal e a perda de peso dos frangos submetidos ao estresse calórico”, destaca.

Ainda: “O consumo de água acima da necessidade de manutenção do equilíbrio osmótico limita a taxa de crescimento, quando existe estresse calórico. Considerando que a ave dissipa calor ao consumir água, esta deverá apresentar-se com temperaturas inferiores à corporal, sendo tanto mais eficiente quanto maior a diferença. Uma medida que surte bons resultados em dias críticos é a adição de gelo à água, reduzindo a mortalidade significativamente, quando incorporado a 10%”.

Importância da água no resfriamento das aves

De acordo com Paulo Giovanni, em condições normais a água é o nutriente mais importante, porém muitas vezes passa despercebida. “Em condições de alta temperatura a ave aumenta seu consumo. A água nesse caso atua como um receptor calórico que ajuda a baixar a temperatura corporal. Resfriar a água abaixo da temperatura ambiente aumenta sua capacidade para dissipar calor e melhorar significativamente o desempenho das aves. É recomendável que em condições de estresse calórico, a temperatura da água se encontre 5oC abaixo da temperatura ambiente”.

O profissional explica que aves em restrição alimentar normalmente ingerem grande quantidade de água, muito mais ainda quando a temperatura ambiente está elevada. “As aves bebem menos água quando a temperatura dela se eleva. O manejo das aves mostra, portanto, que a água resfriada é viável todo o período. Algumas medidas para amenizar os efeitos do aquecimento da água consistem em: 1) a caixa d’água deve estar protegida dos raios solares. Sombrear a caixa d’água quando essa estiver localizada fora do aviário. A caixa d’água pode também estar no interior do aviário. 2) Quando instalada fora do aviário, a caixa d’água deve ser pintada externamente com tinta branca ou reflexiva que absorvem menor radiação solar ou ser utilizado algum isolante térmico. E 3) alguns avicultores depositam blocos de gelo na caixa d’água para resfriar a água e têm obtido bons resultados”.

Controle de peso

 “A resposta ao estresse por calor está relacionada ao peso vivo e ao ritmo de crescimento das aves. Assim, os machos são mais vulneráveis que as fêmeas e os de maior idade (peso maior) mais suscetíveis que os mais jovens. Isso significa que em condições de estresse é preferível que as aves não expressem todo o seu potencial genético, pois podem comprometer a sua sobrevivência. Aves com sobrepeso são menos aptas a suportar períodos quentes em situações de estresse calórico que aves magras”.

Instalações

O pesquisador destaca que o aviário deve ser orientado com seu eixo principal no sentido leste-oeste de forma que os raios solares não incidam no interior da instalação. “A altura do pé direito deve ser adequada ao clima da região e aos sistemas de condicionamento térmico do aviário. Isolamento é outro fator físico que deve ser considerado na escolha dos materiais para a construção do aviário”, orienta.

“A ventilação é imprescindível para a manutenção tanto da temperatura como da umidade do ar no interior do aviário. Todas as obstruções à ventilação natural devem ser removidas. Cobertura de grama ao redor do aviário é desejável para reduzir a carga térmica radiante refletida ao aviário. Ventiladores devem distribuídos no interior do aviário para permitir boa movimentação do ar interno. Se necessário adotar um sistema de resfriamento evaporativo”, enumera.

Transporte das aves

Durante o transporte até o abatedouro, as aves estão sujeitas a uma série de fatores estressantes, frisa Paulo Giovanni, e a condição térmica é a de maior importância, principalmente porque pode ocorrer estresse por calor. “Condições de estresse induzem ao aumento dos níveis plasmáticos de corticosteroides e do índice heterófilo/linfócito. Frangos submetidos a altas temperaturas ambiente e umidade relativa do ar durante o transporte apresentam elevação da temperatura corporal, entram em alcalose respiratória e ocorre aumento do índice heterófilos/linfócitos. Assim, durante o transporte é necessária uma adequada taxa de ventilação para evitar o estresse por calor e consequente estresse fisiológico, com prejuízos para o bem-estar animal”, assinala.

Paulo explica que os prejuízos são inúmeros nessa fase caso não adotadas boas práticas. “O transporte causa desde leve desconforto, com alterações na qualidade final da carne, até a morte das aves”.

Além da distância de transporte, destaca, outros fatores podem contribuir com o aumento da mortalidade, como a condição de saúde do animal, estresse térmico, injúrias e traumas ocorridos nas etapas de apanha e carregamento dos frangos.

Para garantir o bem-estar das aves o carregamento deve ocorrer nos horários mais frescos do dia. “Tanto no inverno como no verão o transporte das aves no período da tarde é o mais estressante. Distâncias longas a serem percorridas até o abatedouro devem ser realizadas à noite e no início da manhã. A operação de pré-abate e de transporte de aves até o abatedouro pode ser realizada em diferentes condições e combinações de distâncias e períodos do dia. Essas combinações terão um reflexo direto na qualidade do produto final (carne), e na maioria dos casos será responsável pelas perdas (mortes) durante a viagem”.

Paulo Giovanni lembra ainda que a área de espera no abatedouro deve ser equipada com nebulizadores e ventiladores para evitar o estresse por calor das aves.

Temperatura da cama

A temperatura da cama deve ser considerada para o bom desempenho dos lotes. “Em condições normais, deve estar próxima à temperatura ambiente para proporcionar condições de bem-estar animal e não interferir adversamente no desempenho das aves. A ave troca calor por condução com a cama. Para que as trocas térmicas ocorram é necessário um gradiente térmico da ave para a cama. Assim, a cama deve ter temperatura menor que a do corpo da ave para que as trocas térmicas ocorram. Porém, a fermentação da cama é um processo biológico de decomposição da matéria orgânica em ambiente anaeróbico, gerando calor. Esse calor deve ser eliminado pelos sistemas de condicionamento térmico do aviário de forma a proporcionar o conforto térmico das aves, evitando o estresse e eliminando os gases resultantes da fermentação”, sugere.

É de se esperar, garante o pesquisador, que quanto menor a densidade de aves menor será a temperatura da cama devido a menor produção de excretas e consequentemente menor geração de calor. “Dessa forma existe interação entre a temperatura da cama, densidade de aves e temperatura ambiente. A umidade relativa da cama deve estar entre 50 -70%, não sendo muito seca ou emplastrada. Umidades muito baixas podem proporcionar a produção de poeira e aumento do número de microrganismos em suspensão, tornando as aves suscetíveis a doenças respiratórias. No verão, podem ocorrer sérios problemas de aumento de mortalidade caso a temperatura esteja muito alta e o sistema de ventilação não esteja sendo suficiente para manter a temperatura de conforto. Neste caso, após um pequeno tempo a umidade relativa pode chegar a 90% ou mais, o que pode levar os animais a morrerem por hipertermia e/ou hipoxia”.

Sistemas de criação

 Paulo Giovanni explica que o empreendimento tecnológico adotado para criação de frangos de corte objetiva obter os aviários de tal forma que as aves se situem dentro da zona de conforto térmico para que possam expressar todo seu potencial genético de produção. “Dessa forma, para a concepção desses aviários é necessário uma sistematização dos dados climáticos da região onde será implantada a criação e comparar esses dados com as exigências das aves para definir quais as soluções construtivas necessárias para se promover o conforto térmico das aves com menor custo. O Brasil possui grande diversidade climática. Apesar dessa diversidade climática a temperatura e a intensidade de radiação são elevadas em quase todo ano e têm sido associadas ao estresse calórico. Esse problema tende a ser mais intenso no regime de criação em alta densidade, face ao número de aves no aviário e a maior produção de calor”, pontua.

De acordo com ele, novas tecnologias adotadas permitem reduzir o impacto das altas temperaturas proporcionando à ave condições ideais de conforto térmico. “Os produtores brasileiros tem consciência que antes de adotar mecanismos sofisticados de condicionamento térmico para controlar o estresse calórico devem ser considerados para a concepção dos aviários, a localização, a orientação, as dimensões, o pé-direito, beirais, telhado, lanternim, fechamentos, quebra-ventos, sombreiros, características dos materiais a serem utilizados no aviário e outros que permitam o condicionamento térmico natural. Porém, essas alternativas em muitos casos, principalmente em regiões quentes, são insuficientes para manter a temperatura ambiente de acordo com as exigências das aves. Neste sentido, vários equipamentos e métodos de ventilação e de resfriamento do ar têm sido propostos. As indústrias fornecedoras de equipamentos avícolas estão cada vez mais evoluídas e em conjunto com as entidades de pesquisas têm propostos soluções e equipamentos para controle da ventilação e resfriamento do ar cada vez mais eficientes e econômicos, que têm permitido o desenvolvimento da avicultura brasileira mediante a redução do estresse calórico e melhorando os índices de desempenho das aves. Ventiladores e nebulizadores de última geração já são realidade na produção avícola. A adoção de túnel de ventilação conjugado ao sistema de resfriamento evaporativo (pad cooling ou nebulização) e inlets, tem sido bem aceitos e apresentando bons resultados de produtividade das aves. Com adoção desse processo buscam-se aviários cada vez mais isolados sem serem influenciados pelas condições climáticas externas. Neste sentido a procura por materiais com bom isolamento térmico, como o poliuretano, poliestireno, fibra de vidro, isopor, entre outros, tem sido constante”, destaca o pesquisador.

Com a implantação de aviários cada vez mais independentes da temperatura externa, amplia paulo Giovanni, a automação se faz necessária para que o controle interno das características físicas ambientais seja mais preciso, deixando a ave dentro de sua zona de conforto térmico. “As aves criadas em sistemas totalmente automatizados ficam menos suscetíveis a erros ou às más medidas de manejo com resultados mais padronizados e aves de melhor qualidade por todo ciclo de produção”.

“Aviários convencionais, blue house, green house, dark house, brown house, são tecnologias hoje existentes na avicultura. “A adoção dessa ou daquela tecnologia vai depender do nível tecnológico que produtor vai querer adotar e ter condições financeiras de adquirir. É possível criar aves em todos os sistemas desde que respeitadas as necessidades das aves e os manejos exigidos de cada sistema. A concepção desses sistemas é para que a aves possam expressar todo seu potencial genético, com maior eficiência, de modo a manter as condições térmicas ambientais dentro da faixa de conforto exigida pela ave, sem estresse térmico e proporcionando bem-estar animal”.

Novas tecnologias – avicultura 4.0

Para o pesquisador, novas tecnologias permitem reduzir o impacto das altas temperaturas proporcionando à ave condições ideais de conforto térmico. “As novas tecnologias têm permitido o desenvolvimento da avicultura brasileira mediante a redução do estresse calórico, proporcionando, dessa forma, melhoria dos índices de desempenho das aves. Os aplicativos para smartphones ou tablets, que monitoram o ambiente, as aves e emitem sinais de alerta para temperaturas altas com antecedência permitem maior precisão da informação, podendo o produtor atuar rapidamente, evitando o estresse calórico. Com a implantação de aviários cada vez mais independentes da temperatura externa, a automação se faz necessária para que o controle interno das características físicas ambientais seja mais preciso, oferecendo uma zona de conforto térmico ideal para as aves”, comenta.

Paulo Giovanni avalia que novas tecnologias têm surgido para tornar a tomada de decisão dos avicultores e técnicos mais precisa e facilitada por informações em tempo real por meio de sensores, internet das coisas (IoT), inteligência artificial (AI) e robótica. “Dentre essas tecnologias os sensores representam, provavelmente, a mais fácil de ser utilizada devido aos baixos custos e aos benefícios que são imediatamente reconhecidos”.

Para ele, o monitoramento do ambiente por meio de imagem e do comportamento das aves têm sido aplicações práticas dessas tecnologias. “Na avicultura 4.0, os robôs poderiam realizar tarefas repetitivas e monótonas nos aviários como o pastoreio das aves, retirada de aves mortas, revolvimento de cama, limpeza e desinfecção do ambiente, controle das condições térmicas ambientais evitando estresse calórico e proporcionando maior bem-estar à ave e ao avicultor”, comenta.

Para se obter máxima eficiência produtiva e maiores retornos econômicos na atividade avícola, garante o pesquisador da Embrapa, os efeitos adversos do clima sobre os animais devem ser evitados. “Além dessas medidas, pesquisas devem estar empenhadas no estudo e descoberta de outras alternativas que minimizem as situações de estresse calórico para as aves, contribuindo para o crescente desenvolvimento da avicultura”, menciona Paulo Giovanni.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de setembro/outubro de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo
Clique para comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

3 + treze =

Avicultura Saúde Animal

Ácidos orgânicos via água de bebida são alternativa ao uso de antibióticos promotores de crescimento na produção de frangos

Administração de acidificantes via água de bebida tem se mostrado uma ferramenta bastante eficaz

Publicado em

em

Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Gustavo Paschoalin, zootecnista, Msc. Produção Animal Sustentável e assistente Técnico da Theseo

Todas as cadeias de produção de proteína animal estão cientes da tarefa desafiadora que cada vez mais se aproxima no horizonte: alimentar uma população que deve atingir mais de 9 milhões de pessoas até 2050, atendendo a demanda por proteína animal que deve crescer cerca de 73% neste mesmo período, segundo a FAO.

Porém, os desafios não ficam limitados somente a produzir, mas produzir de forma responsável, visando atender um mercado consumidor cada vez mais exigente e preocupado com os potenciais impactos da produção de alimentos sobre a saúde pública, meio ambiente, bem-estar animal, etc.

Em pesquisa anual, realizada mundialmente com os principais players da indústria de produção avícola, a WATT Global Media divulgou que 36% dos entrevistados, encaram que as restrições a antibióticos são o maior desafio do setor. Ainda, de acordo com 70% dos entrevistados, suas respectivas companhias estão ativamente explorando, testando ou utilizando aditivos nutricionais como alternativas ou substitutos aos AGP’s, ao passo que destes, 69% revelaram ter obtido os melhores resultados através do uso de ácidos orgânicos.

Conforme a Instrução Normativa Nº 13 de 30/11/2014, do MAPA, os acidificantes pertencem a um grupo de aditivos equilibradores da microbiota do trato gastrintestinal, composto por ácidos orgânicos ou inorgânicos, cuja função é a de reduzir o pH do meio, facilitar a digestão dos ingredientes e reduzir a proliferação de microrganismos indesejáveis.

Na produção animal, ácidos orgânicos normalmente referem-se a ácidos fracos de cadeia curta, associados com atividade antimicrobiana, com um a sete átomos de carbono na molécula (C1-C7) e que produzem menor quantidade de prótons por molécula ao se dissociarem.

No Brasil, a utilização de ácidos orgânicos via água de bebida, é comum somente no pré-abate, visando diminuir os riscos de contaminação das carcaças no abatedouro. São vários os estudos que atestam a eficácia dessa prática, devido ao papel predominante que os ácidos orgânicos exercem na redução de microrganismos como E. coli, Campylobacter spp. e, principalmente, a Salmonella spp,. Porém, os efeitos da alteração da microbiota ocorrem em toda extensão do trato intestinal, atestando a importância da adoção estratégica de uso contínuo de acidificantes durante todo o lote.

Sabe-se que uma boa saúde intestinal na indústria avícola é fundamental para se atingir boas taxas de crescimento e eficiência alimentar. Nesse sentido, a administração de acidificantes via água de bebida tem se mostrado uma ferramenta bastante eficaz. Estudos atestam que o uso de acidificantes via água de bebida exerceu efeito benéfico sobre o tamanho das vilosidades e profundidade das criptas intestinais. Os ácidos orgânicos também foram eficientes em estimular a proliferação de células normais das criptas intestinais, melhorando a renovação e manutenção de tecido saudável. Além do efeito morfológico os ácidos orgânicos também contribuem na regulação da microbiota intestinal, estimulando a exclusão competitiva, ao passo que reduz a quantidade de microrganismos patogênicos e aumenta a contagem de microrganismos benéficos como os Lactobacillus.

Dados

Pesquisas atestam que a administração de acidificantes via água de bebida aumentou significativamente os índices de peso corporal, ganho de peso e conversão alimentar durante as fases pré-inicial e inicial em frangos de corte.

Um recente estudo, comparou os efeitos da combinação de acidificantes administrados via ração e via ração e água de bebida com os efeitos da virginiamicina em pintos desafiados com Salmonella pullorum. Os resultados indicaram que os pintos tratados com acidificante via ração e água de bebida tiveram performance estatisticamente semelhante ao grupo tratado com virginiamicina. Além disso, foi observado que a acidificação da água de bebida combinada com a inclusão de ácidos orgânicos na ração poderia modular a perturbação causada pelo desafio aliviando as respostas ao stress, atenuando potencialmente as defesas antioxidantes e imunológicas e modificando o metabolismo da microbiota intestinal. Esses resultados mostram um mecanismo metabólico que pode, em partes, explicar os potenciais benefícios dos ácidos orgânicos nas aves desafiadas, atestando que seu uso pode contribuir para controlar ou reduzir a incidência de S. Pullorum nas aves.

A prática de acidificação da água de bebida também reduz a contagem de microrganismos patógenos na água e pode controlar a formação de biofilme nos sistemas hidráulicos, aumentando o nível de biosseguridade das instalações.

A escolha do acidificante ideal deve-se basear, principalmente, na formulação do produto e nível de inclusão. Cada ácido possui diferentes características químicas e físicas, conduzindo a diferentes efeitos específicos, assim sendo, blends com maior variedade de ácidos na formulação tendem a proporcionar melhores resultados devido ao efeito sinérgico entre eles. A presença de ácidos inorgânicos na formulação, como o ácido fosfórico, também traz benefícios, principalmente devido à sua capacidade de se dissociar em diferentes partes do intestino, aumentando a capacidade acidificante do blend de ácidos utilizado, permitindo reduzir os níveis de inclusão, diminuindo os custos do tratamento.

Estudos ainda são necessários para se atestar e entender todos os mecanismos envolvidos na ação benéfica dos ácidos orgânicos e suas combinações sobre os resultados de performance e imunidade nas aves. No entanto, diante do exposto, fica claro que as práticas de administração de ácidos orgânicos têm mostrado excelentes resultados tanto no campo e em condições experimentais, atestando que seu uso isoladamente ou em conjunto com outros aditivos como prébioticos, probióticos, óleos essenciais e outros, se consolidam, cada vez mais, como ferramentas eficazes na substituição dos AGP’s.

Outras notícias você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

Avicultura Tecnologia

Vacinação de aves de ciclo longo chegou a era 4.0

Toda essa evolução fez com que a vacinação deixasse de ser um procedimento operacional padrão e se transformasse em um ponto crítico de controle

Publicado em

em

Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por Eva Hunka, médica veterinária, MSc. Medicina Veterinária Preventiva e gerente de negócios Biológicos da Phibro; e Eric Culhari, zootecnista, MSc Bioclimatologia e Bem-estar animal e especialista pHi-Tech da Phibro

O termo Pecuária 4.0 e a linha do tempo desta evolução, assim como a origem deste termo, ainda são pouco conhecidas. O termo Pecuária 4.0 faz referência à indústria 4.0. Pensando de maneira análoga ao desenvolvimento da indústria, podemos dividir a história da produção animal da seguinte forma:

-Primeira revolução industrial: a máquina a vapor proporcionou incremento de produtividade e mobilidade de seres humanos. Fazendo uma analogia com a produção animal, podemos considerar que o primeiro evento disruptivo na sociedade ocorreu muito tempo antes, quando os humanos deixaram de caçar, e domesticaram os animais. Este processo possibilitou que a energia empregada na caça fosse redirecionada para outros fins.

– Segunda revolução industrial: se caracteriza pela produção em massa e adoção do método científico (observar, medir, testar hipóteses e concluir) como ferramenta para incremento da produção.  Ambas as revoluções citadas, provocaram alterações na sociedade como o êxodo rural, aumentando a população urbana e consequentemente diminuindo a rural.

Sendo assim, a produção de alimentos teve que se alterar, pois aquelas pessoas que praticavam agricultura de subsistência e eram capazes de produzir seu próprio alimento, agora morando na cidade necessitavam comprar este alimento produzido por outros, exigindo maior produtividade nos estabelecimentos de produção animal. Com isso, temos a segunda mudança relevante na maneira de se produzir animais.

– Terceira revolução industrial:  é marcada pelo início da digitalização dos processos. Neste período computadores e outros equipamentos eletrônicos vieram em substituição aos meios analógicos utilizados até então para gerar, armazenar e analisar dados. Na pecuária não foi muito diferente. Com o avanço da eletrônica e da capacidade computacional, dados antes registrados e armazenados fisicamente, em folhas de papel, passaram para planilhas eletrônicas, facilitando a análise e visualização dos resultados obtidos. Além disso, equipamentos como alimentadores automáticos passaram a ser vistos em granjas de suínos e aves, ordenha mecanizada em sistemas de produção leiteira, entre outros equipamentos.

– Quarta revolução industrial: tanto na indústria quanto na produção animal, estamos falando do emprego de sensores, ferramentas computacionais avançadas e técnicas estatísticas modernas para coleta de dados massiva e em tempo real, armazenamento destas grandes bases de dados (“big-data”) em nuvem e uso de inteligência artificial para interpretar e gerar resultados a partir de padrões não captados pelo cérebro humano. Neste cenário, exploramos a internet das coisas (IoT) nos mais diferentes processo, como é o caso dos dispositivos de vacinação 4.0, que são capazes de gerenciar todo processo de vacinação, a partir de um dispositivo injetor, que, durante a vacinação, coleta informações sobre o processo e nos permite controle em tempo real e análises complexas, baseadas em dados da própria granja.

A agroindústria vem se tornando cada vez mais competitiva e isso fez crescer a necessidade por tecnologia, aumentando o controle e a eficiência do processo produtivo. Estes processos inteligentes trazem benefícios em diferentes setores da cadeia, desde os relacionados diretamente à produção bem como os que promovem melhores condições de trabalho para os operadores. Este tipo de movimento ajuda a fixar os trabalhadores no campo e promovem um movimento contrário ao êxodo rural, atraindo jovens para o campo.

Empregando as tecnologias que fazem parte deste pacote chamado de pecuária 4.0, estamos gerando uma quantidade de informações muito grande, com qualidade e velocidade incomparáveis aos processos anteriormente utilizados. De posse destas informações a tomada de decisão ocorre também mais rápido, e de maneira mais assertiva, melhorando não só o desempenho, mas a vida das aves de maneira geral.

Tão importante quanto o desempenho, é pensarmos na vida dos animais que estamos criando. Aspectos como comportamento, nutrição e sanidade são avaliados para determinação do grau de bem-estar dos indivíduos de uma criação. Com a utilização de tecnologias como visão computacional, bio-acústica e outras do pacote 4.0, é possível monitorar as condições de bem-estar animal em tempo real, além de identificar problemas e encontrar soluções de maneira mais rápida, melhorando a qualidade de vida das aves. Desta maneira estamos produzindo alimentos de forma responsável e eficiente.

A passos largos

Na avicultura este movimento anda a passos largos, promovendo melhor utilização dos insumos, maior controle dos processos e até mesmo segurança alimentar. A avicultura 4.0 permite uma tomada de decisão mais ágil, evitando erros ou desperdício, com isso temos reduções significativas no consumo de energia, custos com manutenção, maior aproveitamento das matérias primas e consequente aumento de produtividade.

Com toda esta tecnologia, processos antes obscuros, como é o caso da vacinação intramuscular das matrizes, deixam de ser uma operação simples e passam a ser vistos como Pontos Críticos de Controle. Sistemas de gerenciamento do processo vacinal permitem uma ação corretiva em tempo real e tem o smartphone como peça fundamental nesta comunicação entre o equipamento e os supervisores do processo, ou mesmo os tomadores de decisão, visto que todas as informações são armazenadas em “nuvem” e podem ser acessadas pelos diferentes níveis da companhia.

Este tipo de equipamento permite a integração do processo vacinal às rotinas de monitoramento da granja, onde podemos, através de painéis de controle, perceber desvios e tomar decisões com base em dados coletados no campo.

Toda esta tecnologia trouxe e continuará a trazer um aumento de desempenho e produtividade no campo. Atualmente a conectividade ainda é um dos principais gargalos nas propriedades rurais, mas tudo isso é um caminho sem volta e, assim como a tecnologia, a conectividade será uma realidade em breve.

A vacinação 4.0, também traz benefícios sanitários e isto pode ser visto através da monitoria sorológica, que é uma das principais ferramentas para averiguação da proteção vacinal em aves de ciclo longo. Estas aves recebem vacinas inativadas com a finalidade de elevar os títulos de anticorpos e, consequentemente, promover uma proteção mais duradoura, pois os anticorpos específicos, oriundos de uma imunização ativa, geralmente perduram por longos períodos.

Quando falamos em resultados de sorologia, é natural que logo pensemos em qualidade ou potência da vacina utilizada, visto que existes muitas variáveis no produto, que podem interferir nesta resposta como: adjuvantes, tipo de emulsão, concentração e tipo do antígeno etc. Mas muitas vezes esquecemos que o processo de vacinação é tão importante quanto o produto e também impacta neste resultado.

Vacinação evolui

O processo de vacinação evoluiu muito pouco nos últimos anos. Tivemos alguma evolução no que se refere a equipamentos de vacinação, mesmo assim são equipamentos que estão muito dependentes do fator humano. Exceto pelo processo de vacinação in ovo, este já consolidado no Brasil, e foi um grande passo para a automação dos incubatórios.

No caso da vacinação a campo, temos as seringas de precisão, bastante usadas na vacinação intramuscular, mas estas, também tem o homem como peça fundamental para a qualidade do processo, visto que é totalmente manual.

Um trabalho realizado em 2012, em Israel, mostra que o simples fato de a equipe de vacinação saber que está sendo avaliada, altera a sorologia das aves (Gráfico 1). Isso mostra claramente que o processo de vacinação é uma parte essencial do resultado.

Gráfico 1. Titulação de HI para TE (Meningoencefalite Viral de Perus) em lotes onde os vacinadores não sabiam da monitoria (G1 e G2) versus vacinadores que sabiam que estavam sendo monitorados (Monitor.)

Novos equipamentos de vacinação, com uma nova proposta, onde o erro humano é minimizado e o processo de coleta, compartilhamento e armazenamento de dados do processo possibilita correções pontuais, e também, a tomada de decisões mais estratégicas e de longo prazo. Estes equipamentos usam e abusam da internet das coisas e usam a tecnologia 4.0 a seu favor. Com esta melhoria no processo, a soroconversão é mais eficiente e uniforme.

Gráfico t. Titulação de IBD (Elisa IDEXX) em lotes vacinados com dispositivo 4.0 e lotes vacinados com vacinadora manual

Na avicultura trabalhamos com vacinações massais, onde muitos animais são tratados ao mesmo tempo. Neste processo nós temos o lote como unidade epidemiológica, e todos os animais do lote devem ser o mais uniforme possível. Quando falamos em processo eficiente, devemos garantir que todos os animais recebam a mesma dose, em um mesmo momento e por isso devem se comportar, sanitariamente, de um modo muito parecido.

Os equipamentos automatizados trouxeram a processo de vacinação para os dias atuais, elevando o status sanitário das aves e transformando este processo em um ponto crítico de controle da produção.

Nem todo animal que recebeu a vacina esta imunizado, pois existem diferentes fatores que contribuem para a eficácia da vacinação, fatores que variam desde a armazenagem correta do produto até erros de aplicação como dose incompleta, vacinação a partir de frascos vazios ou mesmo aplicação em local errado, podem alterar os resultados sorológicos. Quanto mais controlado for este processo de vacinação, menores são as chances de erros. Um lote bem vacinado tende a apresentar títulos sorológicos mais uniformes, com um abaixo coeficiente de variação. Esta uniformidade diminui a quantidade de indivíduos suscetíveis na população, e no caso de reprodutoras, isso também se reflete da transferência de anticorpos para a progênie.

Toda essa evolução fez com que a vacinação deixasse de ser um procedimento operacional padrão e se transformasse em um ponto crítico de controle. Onde podemos atuar, quer seja em tempo real, por meio da correção dos erros e ajustes no momento da vacinação, ou mesmo em decisões estratégicas de longo prazo, por meio da análise dos dados coletados, oriundo dos diferentes episódios de vacinação realizados, ordenados e compilados, permitindo uma visualização completa dos processos.

Outras notícias você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

Avicultura Nutrição

Balanço eletrolítico na nutrição de aves

As perdas econômicas são mais acentuadas na fase final de criação dos frangos, quando esses são submetidos a períodos de calor intenso

Publicado em

em

Divulgação

Artigo escrito por Everson Xavier Ferreira, consultor técnico comercial de aves na Agroceres Multimix e Franciely Benthien da Costa, consultora técnica comercial de aves de corte na Agroceres Multimix

Um dos maiores problemas enfrentados pela indústria avícola em países de clima tropical como o Brasil, são as significativas perdas zootécnicas e econômicas, decorrentes da severidade climática que atinge a produção avícola, perdas essas ocasionadas pelo estresse calórico, relacionadas – principalmente – a altas temperaturas, associadas à umidade relativa do ar alta, ou seja dias quentes e chuvosos. Entretanto, clima quente e seco também gera perdas significativa na produção, mas o processo de ofegação torna-se menos eficiente com a umidade mais alta.

Submeter as aves à temperatura e umidade elevadas, faz com que as mesmas saiam da zona de conforto térmico, ocasionando aumento da temperatura corporal e alcalose respiratória. Essa condição resulta em um impacto extremamente negativo sobre o desempenho animal, afetando a eficiência alimentar, consumo de alimento, taxa de crescimento e sobrevivência (figura 1). As perdas econômicas são mais acentuadas na fase final de criação dos frangos, quando esses são submetidos a períodos de calor intenso.

Com o aumento da temperatura do ambiente e aumento da umidade relativa do ar, a capacidade da ave em dissipar o calor é reduzida e com isso temos uma elevação da temperatura corporal, a aves fisiologicamente buscam de subterfúgios para minimizar este problema. A ave busca aumento da sua superfície corporal, abre asas, agacha-se com as mesmas abertas, eriça as penas, busca locais menos adensados no aviário, barbela e crista aumentam de tamanho, buscam a cama fresca com maior frequência, reduzem o consumo de alimento, aumentam o consumo de água e principalmente buscam através do aumento da frequência respiratória essa troca de calor, ficando ofegante.

A evaporação da água (resfriamento evaporativo) pelo trato respiratório constitui o principal mecanismo da ave, que está em estresse calórico, adota para resfriamento e redução da temperatura corporal. Esse mecanismo dá-se devido a ave ter a capacidade de aumentar a frequência respiratória, sendo esse mecanismo crítico para a manutenção da temperatura corporal.

A hiperventilação pulmonar, ocasionada pelo aumento dos movimentos respiratórios, leva a perdas significativas de CO2 fazendo com que ocorram alterações no equilíbrio ácido-básico sanguíneo das aves que e dependendo do tempo de exposição, podem levá-las a óbito. Devido a insuficiente oxigenação, o ritmo cardíaco aumenta na tentativa de suprir mais oxigênio para o metabolismo oxidativo dos tecidos em rápido crescimento, causando uma hipertensão pulmonar. Com prolongada falta de oxigênio, mecanismos de regulação do organismo da ave são acionados para manter a homeostase. O quadro é agravado ainda mais pelo aumento da resistência ao fluxo sanguíneo no pulmão, que promove o desequilíbrio entre a necessidade e o fornecimento de oxigênio e a insuficiência cardíaca. A predisposição à ascite é maior nos frangos porque o pulmão é rígido e fixo na cavidade torácica e o peso do órgão em relação ao peso corporal diminui em função da idade.

Contudo, a maior taxa de ventilação alveolar, ainda que necessário para o resfriamento, resulta em diminuição na pressão de CO2 e, consequentemente, em perturbações no equilíbrio ácido básico.

Outro ponto que devemos considerar é o relativo gasto energético demandando pelas aves na dissipação do calor, no qual ocorre uma grande demanda da energia ingerida na dieta para manutenção da temperatura corporal.

Outra situação observada em aves em estresse calórico é o significativo aumento do consumo de água, para compensar a perda de água na respiração e aumentar a capacidade de disseminação de calor que, por consequência os rins aumentam a produção de urina e maior perda de potássio ( K+), Sódio(Na+) e Cloro(Cl-) fundamentais na manutenção da pressão osmótica e no equilíbrio ácido básico.

Abaixo, é possível observar um quadro desenvolvido para ajudá-lo a fixar os conceitos de acidose e alcalose, tanto metabólica quanto respiratória. Observe o que acontece com o pH e as concentrações de HCO3 e pCO2 em cada uma das situações ácido-base:

Essas variações no equilíbrio ácido básico decorrente de aves em estresse térmico, têm custos elevadíssimos para a indústria avícola, custo esses decorrentes de perdas zootécnicas generalizadas, como; redução do ganho de peso, aumento da conversão alimentar, mortalidade final elevada, redução na qualidade interna e externa dos ovos (gema e casca), queda da capacidade de resposta imune, entre outras.

Os eletrólitos podem ainda ser descritos como substâncias químicas, que se dissociam nos seus constituintes iônicos, tendo como função fisiológica principal a manutenção do equilíbrio ácido-base corporal. A prevenção do desequilíbrio hidroeletrolítico pode ser obtida pela incorporação de cátions e ânions na dieta, sendo usualmente expressos em mEq/kg. Os eletrólitos essenciais à manutenção da pressão osmótica e no equilíbrio ácido-base dos líquidos corporais são: sódio (Na+), potássio (K+) e o cloro (Cl–). Além de as aves os exigirem em quantidades mínimas em sua alimentação – para satisfazer suas necessidades nutricionais -, é fundamental que a proporção entre eles seja respeitada, para manter o equilíbrio ácido-base e obter o máximo desempenho das aves.

O potássio (K+) é o principal cátion do fluído intracelular, enquanto o sódio (Na+) e o cloro (Cl–) são os principais íons do fluído extracelular. O controle da perda de água nas células é obtido pelo equilíbrio desses íons no meio intracelular e extracelular. O K+ está envolvido em muitos processos metabólicos, incluindo: o antagonismo arginina-lisina, condução nervosa, formação do glicogênio, contração muscular, síntese de proteínas teciduais, manutenção do equilíbrio intracelular, reações enzimáticas, balanço osmótico e equilíbrio ácido básico. Consequentemente, mudanças no equilíbrio de K+ podem afetar as funções celulares e o controle da quantidade de água no meio celular.

Atualmente, a importância do Na+ na manutenção das funções vitais normais é bastante conhecida. O sódio é o principal cátion presente nos fluídos extracelulares, atuando essencialmente: no equilíbrio ácido básico, pressão osmótica corporal, atividade elétrica das células nervosas e do músculo cardíaco, permeabilidade celular e absorção dos monossacarídeos e aminoácidos. Por ser o principal cátion do líquido extracelular e estar obrigatoriamente acompanhado de um número igual ao dos ânions, cloro e bicarbonato, o sódio é o principal responsável pela osmolaridade dos líquidos.

O cloro (Cl–) é predominante no líquido extracelular; sua função principal é a manutenção do equilíbrio químico com os cátions presentes. Sabe-se que o excesso de sódio é excretado pelos rins, e o cloro (Cl–) normalmente o acompanha. O cloro participa ainda do efeito tampão no sangue em intercâmbio com o bicarbonato. O aumento do Cl– plasmático favorece a retenção de H+ e diminui a reabsorção de HCO–3 pelos rins, sendo essa uma resposta à alcalose metabólica.

O K+ e o Na+ são íons alcalogênicos e quando suas concentrações são aumentadas, em relação à concentração do Cl–, o pH dos fluídos corporais aumenta, podendo caracterizar a alcalose metabólica. No entanto, o Cl– é um íon acidogênico e sua alta concentração na dieta contribui para a diminuição do valor do balanço eletrolítico e, neste caso, o pH pode diminuir, estando abaixo do normal, podendo assim caracterizar uma acidose metabólica.

O balanço eletrolítico da dieta

O balanço eletrolítico na nutrição das aves é definido como: a diferença entre os principais cátions e ânions da dieta e, portanto, um tema de grande importância na produção animal. O balanço dos eletrólitos no organismo pode influenciar no crescimento do animal, no apetite, desenvolvimento ósseo, resposta ao estresse térmico e no metabolismo de certos nutrientes, como: aminoácidos, minerais e vitaminas.

Um dos primeiros estudiosos a discutir a importância do balanço eletrolítico, estudando os fundamentos do balanço cátion-ânion para suínos e aves, entendeu que o animal regula o balanço eletrolítico pela alteração da acidez líquida ingerida e excretada. Para manter o balanço eletrolítico, deve-se regular a ingestão e a excreção de ácidos. Nas situações em que o animal encontra-se em equilíbrio ácido-básico, sem excesso ou deficiência de ácido, podemos aplicar a seguinte equação:

Todos os eletrólitos poderiam ser incluídos nas equações de cálculo do balanço eletrolítico, no entanto, alguns desses íons não são considerados, devido à importância secundária no equilíbrio ácido básico, pois, é apenas o potencial eletrolítico dos elementos que pode classificá-los em termos de importância no equilíbrio básico do organismo. Esses elementos têm capacidade de funcionar como eletrólitos, mas estão presentes em pequenas quantidades nas rações e em baixas concentrações nos tecidos das aves, reduzindo, naturalmente, seu impacto sobre o equilíbrio ácido básico. Por essa razão, a expressão foi reduzida para: Na+ + K+ – Cl– (mEq/kg).

As matérias-primas utilizadas nas rações de aves possuem diferentes concentrações de sódio, potássio e cloro. Portanto, dependendo da composição das dietas utilizadas, torna-se necessária a correção dos valores de balanço eletrolítico das rações. Um exemplo da modificação do balanço eletrolítico, causada pela composição da dieta, são as rações com inclusão de farinhas de origem animal como fonte proteica, que reduzem a inclusão do farelo de soja, um ingrediente responsável por grande parte do fornecimento de potássio às dietas.

A suplementação de sais nas rações ou na água dos animais tem sido usada para aumentar a ingestão de íons específicos, corrigindo mudanças no equilíbrio ácido-básico. Essa suplementação é feita através da inclusão de compostos alcalinos, visando aumentar o valor do balanço eletrolítico; ou a inclusão de compostos ácidos, para diminuir o valor do balanço eletrolítico, conforme a necessidade. Entre os compostos alcalinos, destacam-se: o bicarbonato de potássio (KHCO3), carbonato de potássio (K2CO3) e o bicarbonato de sódio (NaHCO3), e entre os compostos ácidos: o cloreto de potássio (KCl), cloreto de amônio (NH4Cl) e o cloreto de cálcio (CaCl2).

Muitas pesquisas demonstram que a correção do balanço eletrolítico através da adição de sais nas dietas é útil, não só para melhorar o desempenho dos animais, mas também uma ferramenta bastante utilizada para minimizar os efeitos do desbalanço de eletrólitos causado pelo estresse calórico.

Carbonato de Potássio

O carbonato de potássio consiste em um sal branco, solúvel em água e fortemente alcalino (pH básico). Muito utilizado na indústria, esse produto tem como principal utilização a fabricação de sabão, vidro e porcelana. Além dessa função, ele também pode ser utilizado para a fabricação de fertilizantes, visto que proporciona à planta maior resistência ao ataque de pragas, além de ser utilizado na alimentação animal em especial em frangos de corte.

Outras notícias você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo
Biochem site – lateral

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.