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Esperando safrinha, mercado de milho tem dias conturbados com câmbio
Mercado brasileiro de milho teve uma semana de expectativa pela evolução da colheita da safrinha, ainda em fase inicial

O mercado brasileiro de milho teve uma semana de expectativa pela evolução da colheita da safrinha, ainda em fase inicial. A oferta ainda não traz maior pressão sobre as cotações. O que confundiu o mercado e deixou as negociações conturbadas foi a volatilidade do dólar, com altos e baixos e indefinições.
A volatilidade cambial dificultou o direcionamento das cotações nos portos e também no mercado doméstico. Após recentes altas do dólar, houve sustentação nos preços nos portos e também no interior. A expectativa é pela entrada da safrinha.
No balanço da semana, os preços no mercado disponível ficaram de estáveis a moderadamente mais altos, antes dessa pressão da oferta da segunda safra. E as negociações foram lentas, com cautela entre compradores e vendedores.
Em uma semana, do dia 18 de junho até esta quinta-feira (25), no Porto de Santos, o preço recuou de R$ 49,00 para R$ 48,00 a saca.
No mercado interno, no Paraná, a cotação em Cascavel no balanço semanal subiu de R$ 44,00 para R$ 45,00 a saca na base de venda. Em São Paulo, preço na Mogiana subiu no comparativo semanal (de 18 para 25 de junho) de R$ 47,00 para R$ 48,00. Em Campinas CIF, a cotação avançou de R$ 49,00 para R$ 49,50 a saca.
No Rio Grande do Sul, em Erechim, o preço do milho na semana permaneceu estável no comparativo em R$ 50,00 a saca. Em Minas Gerais, preço avançou de R$ 45,00 para R$ 46,00 a saca em Uberlândia. No Mato Grosso, preço no balanço semanal teve estabilidade em R$ 36,00 a saca em Rondonópolis.

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Paraná antecipa em 10 anos meta portuária e lidera avanço logístico no país
Os portos paranaenses registraram o maior crescimento percentual em volume de cargas entre os portos brasileiros ao longo de 2025. Nos últimos sete anos, o crescimento na movimentação foi de 38,16%, índice muito acima do registrado no período entre 2011 e 2018, quando o aumento foi de 29,15%.

Os portos paranaenses registraram o maior crescimento percentual em volume de cargas entre os portos brasileiros ao longo de 2025. Segundo dados atualizados do Comex Stat, divulgados neste mês, o crescimento foi de 10,1% em relação ao ano anterior, reflexo da movimentação de cargas da Portos do Paraná, que passou de 66,7 milhões de toneladas, em 2024, para 73,5 milhões considerando mercadorias exportadas e importadas. O Porto de Santos ficou em 2º lugar.

Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná
O recorde histórico da Portos do Paraná já havia sido quebrado no começo do mês de dezembro, quando a movimentação atingiu 70 milhões de toneladas. No dia 31, chegou a 73.506.480 toneladas. Na média, foram mais de 6,1 milhões de toneladas por mês de produtos que entraram e saíram do Paraná. Em 2024, a média mensal era de 5,5 milhões de toneladas.
De acordo com estudos técnicos realizados em conjunto com o Ministério de Portos e Aeroportos, a previsão era de que esse volume só fosse alcançado a partir de 2035. Investimentos e a aplicação de um planejamento de gestão estão entre os principais fatores que contribuíram para esse resultado. “O porto que foi premiado seis vezes seguidas como o melhor do Brasil prova, mais uma vez, que é referência para todo o País”, afirmou o governador Carlos Massa Ratinho Junior.
Nos últimos sete anos, o crescimento na movimentação da Portos do Paraná foi de 38,16%, índice muito acima do registrado no período entre 2011 e 2018, quando o aumento foi de 29,15%. “Não é simplesmente um novo recorde. É uma conquista que reflete em toda a cadeia econômica do nosso Estado. Prova que estamos trabalhando para fazer deste porto um equipamento logístico melhor e mais adequado, atendendo às solicitações do mercado”, comemorou o diretor-presidente da Portos do Paraná, Luiz Fernando Garcia.
Para o secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Sandro Alex, o marco atingido é motivo de comemoração. “Esse novo recorde vem

Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná
coroar o trabalho altamente qualificado que coloca o Paraná, mais uma vez, em evidência com um dos portos mais eficientes do mundo”, afirmou.
Principais destaques
A commodity que apresentou o maior crescimento em 2025 foi o milho, que passou de 1.071.474 toneladas, em 2024, para 5.094.470 toneladas em 2025, representando um aumento de 375%. Outro crescimento expressivo foi o de óleos vegetais, com alta de 32% na movimentação, mantendo o Porto de Paranaguá como líder nacional na exportação do produto. Celulose e açúcar ensacado também se destacaram, com aumentos de 16% e 15%, respectivamente.
A soja seguiu em alta, com 14,6 milhões de toneladas enviadas para outros países, o que representa 11% a mais do que em 2024. Na safra 2024/2025, o Paraná colheu 21,4 milhões de toneladas de soja, ou seja, o volume movimentado pelo Porto de Paranaguá representa, de forma ilustrativa e não efetiva, 69% de toda a produção do Estado. Vale destacar que o porto também é responsável pelo envio ao Exterior da soja colhida em outros estados, como Mato Grosso do Sul e São Paulo, por exemplo.
O farelo de soja também se destacou ao longo do ano, com aumento de 5% em comparação ao período anterior, totalizando 6,5 milhões de toneladas exportadas.

Foto: Roberto Dziura Jr/AEN
A madeira ficou entre os três principais produtos exportados, totalizando 1,6 milhão de toneladas, 0,24% a mais do que em 2024. Um dos principais destinos da mercadoria são os Estados Unidos. Vale destacar que a movimentação se manteve em linha, apesar da instabilidade gerada no mercado até a confirmação de que o produto ficaria fora dos tarifaços aplicados aos produtos brasileiros anunciados pelo governo norte-americano nos meses de abril e agosto.
Importação
Os fertilizantes lideraram o volume na importação, alcançando a marca de 11.609.133 toneladas, crescimento de 4%, batendo, mais uma vez, o recorde histórico. Os portos paranaenses seguem como a principal porta de entrada do produto no País. Mais de 25% do consumo nacional chega por Paranaguá e Antonina. O grupo dos cereais, como trigo, malte e cevada, também registrou recorde, com o desembarque de 1.104.808 toneladas em 2025, frente a 1.078.673 toneladas em 2024.
Fatores de impulsionamento
Além das estratégias que possibilitaram a aplicação de uma logística inteligente, elaborada pela empresa pública nos últimos oito anos para otimizar a operação de cargas, também houve melhorias estruturais.

Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná
Com a conclusão da derrocagem – remoção de parte do maciço rochoso da Pedra da Palangana, no final de 2024, foi possível tornar a navegabilidade no canal de acesso mais segura, com menos manobras e, consequentemente, mais ágil.
As ações e os investimentos constantes em dragagens permitiram o aumento do calado operacional, distância entre a superfície da água e o ponto mais profundo da embarcação. Um calado maior possibilita que o navio receba mais mercadorias de uma única vez, ampliando a capacidade operacional da estrutura portuária e reduzindo os custos para quem exporta ou importa.
Em menos de um ano, a empresa pública obteve duas permissões para o aumento do calado, fruto de um trabalho contínuo, com planejamento e ações práticas. Em dezembro de 2024, o calado passou de 12,8 metros para 13,1 metros e, em setembro de 2025, para 13,3 metros. Os 50 centímetros adicionais permitiram, por exemplo, o embarque de 3,7 mil toneladas a mais por navio.
Como resultado dessas mudanças, no início de dezembro, o Porto de Paranaguá carregou, nos porões do MV Minoan Pioneer, 77 mil toneladas de milho, um recorde. Foi a maior quantidade de granel vegetal sólido já embarcada em um único navio.
A profundidade do canal deve aumentar ainda mais nos próximos anos, e o calado poderá chegar a 15,5 metros. Isso será possível com a concessão do canal de acesso aos portos do Paraná, por meio de leilão realizado em outubro. A ampliação permitirá embarcar, em uma única embarcação, até 14 mil toneladas adicionais de granéis vegetais sólidos, como grãos ou farelos, ou ainda mil contêineres.
O diretor-presidente da Portos do Paraná destaca que o processo de qualificação dos portuários contribui significativamente para o

Foto: José Fernando Ogura/AEN
aumento constante da eficiência de um dos principais hubs logísticos portuários da América Latina. De 2019 a 2025, cerca de 80% dos trabalhadores da empresa pública receberam algum tipo de treinamento ou capacitação.
Garcia também ressalta que a comunidade portuária, que congrega todos os segmentos que atuam direta e indiretamente no complexo, mantém uma relação ímpar de união e comprometimento com os portos do Paraná. “Esses resultados são o reflexo da ação conjunta do Governo do Estado, da Autoridade Portuária, dos trabalhadores que, sob chuva ou sol, fazem tudo funcionar e das empresas que operam aqui dentro e acreditam no nosso potencial”, afirmou.
Geração de empregos
De acordo com o Órgão Gestor de Mão de Obra do Trabalho Portuário (OGMO) de Paranaguá, houve aumento no número de Trabalhadores Portuários Avulsos (TPAs) no litoral paranaense. Em 2025, 1.849 trabalhadores — entre estivadores, conferentes, vigias e arrumadores — atuaram no Porto de Paranaguá, crescimento de 12% em relação a 2024, quando foram registrados 1.639 portuários.
Investimentos
O potencial de produtividade da Portos do Paraná será ampliado ainda mais em curto prazo. Até fevereiro, será concluída a maior obra pública portuária do Brasil: o Moegão, que já ultrapassou 80% de execução.

Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná
O Governo do Paraná, por meio da Portos do Paraná, está investindo mais de R$ 650 milhões no complexo de recepção de cargas pelo modal ferroviário. Após a conclusão, o Moegão poderá receber até 24 milhões de toneladas de grãos e farelos por ano, atendendo os terminais do Corredor de Exportação Leste (Corex).
Em breve, será iniciada a construção do Píer em “T”, cuja primeira fase está orçada em R$ 1,2 bilhão. A estrutura vai dinamizar o Corredor de Exportação Leste, com quatro novos berços de atracação equipados com o sistema de carregamento mais rápido do mundo. A segunda fase contará com aporte adicional de R$ 1 bilhão, representando o primeiro investimento do Governo do Estado na área portuária em mais de 50 anos.
Outra novidade será o Píer em “F”, que conectará os terminais do novo Corredor Oeste. Também está prevista a expansão do píer de líquidos, com a interligação dos terminais que operam esse tipo de carga.
Esses investimentos são resultado dos nove leilões realizados desde 2019 em áreas portuárias do litoral paranaense, que permitirão a ampliação e modernização do Porto de Paranaguá. Com a regularização total das áreas, denominadas PARs do complexo portuário, destinadas à exploração privada, a Portos do Paraná garantiu R$ 5,1 bilhões, incluindo a concessão do canal de acesso. “São compromissos firmados com as empresas, que passam a contar com garantia jurídica, contratos saudáveis e obrigações e direitos claramente definidos, tanto para quem assumiu os arrendamentos e a concessão quanto para a Autoridade Portuária”, declarou o diretor-presidente Luiz Fernando Garcia.
O prazo para a conclusão de todos os investimentos previstos nos editais varia de cinco a sete anos, de acordo com as especificidades de cada contrato, contados a partir da assinatura definitiva das concessões.
Notícias
Da curiosidade científica ao Nobel: a trajetória da pesquisadora Mariangela Hungria na agricultura
Com 43 anos dedicados à Embrapa, pesquisadora é referência mundial em fixação de nitrogênio no solo e avanço dos biológicos no agronegócio.

Se o que hoje conhecemos de insumos agrícolas biológicos, técnicas de produção de baixo carbono e agricultura sustentável, sobretudo àquela que garante segurança alimentar a 10% do mundo em que vivemos, muito se deve às pesquisas, ambições e contribuições de uma cientista brasileira: Mariangela Hungria.

Engenheira agrônoma e pesquisadora do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Taxonline, da Fundação Araucária, Mariangela Hungria, foi agraciada com o Prêmio Mundial da Alimentação de 2025, o World Food Prize – Foto: A. Neto
Reconhecida internacionalmente pelos trabalhos de fixação de nitrogênio no solo a partir do uso de bioinsumos e pelas mais de 500 publicações científicas na academia, Hungria carrega – para além de toda a inteligência que transborda – uma trajetória marcada por estudo, empoderamento e família.
Hoje, com 43 anos completos dedicados à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a pesquisadora celebra a conquista de ser a primeira mulher brasileira a receber, em 2025, o Prêmio Mundial da Alimentação, o chamado “Nobel da Agricultura”, pela World Food Prize Foundation, e vê o crescimento da tecnologia agrícola avançar ano a ano, com potencial de elevar o uso no campo de 15% para 50%.
Trajetória
A curiosidade científica que levou a então pesquisadora a alcançar o topo começou lá trás, há muitos anos, quando ainda criança o contato com a natureza era ensinado e permeado pela cientista, professora e avó materna. “Desde que me entendo por gente, eu tinha essa curiosidade científica”, ressalta Mariangela Hungria.
1 – Professora, me conta um pouco da sua história. Como você chegou a ser pesquisadora, se esse sonho é de criança ou não, como você se interessou pelos bioinsumos. Quem é Mariangela Hungria?
Nasci em São Paulo, capital, mas minha família é do interior. Vim ao mundo de oito meses e, até hoje, não sei como minha mãe conseguiu fazer isso: grávida, pegou o trem de Itapetininga até São Paulo para o parto. Logo depois, voltamos para Itapetininga, onde cresci. Tive uma infância muito diferente da de hoje, com muita brincadeira na rua, liberdade e contato constante com o ambiente ao redor. Desde muito cedo, porém, algo já me acompanhava: uma curiosidade científica quase instintiva.
Eu queria entender como as coisas funcionavam. Tive muita sorte nesse processo, porque minha avó teve um papel central na minha formação. Sempre me identifiquei muito com ela. Era farmacêutica e bioquímica de formação e havia estudado para ser professora do que, na época, se chamava “Ciências Químicas, Físicas e Biológicas”. Lecionou em uma escola estadual da nossa cidade e foi ela quem percebeu e estimulou esse interesse pela ciência em mim.
Nós tínhamos uma afinidade muito grande. Ela me incentivava o tempo todo, lia comigo seus livros de ciências e fazia experimentos no

Foto: Divulgação
fundo do quintal. Cobria folhas das plantas para mostrar que, sem luz, elas ficavam amareladas por não realizarem fotossíntese; pesava uma bexiga para explicar que o ar tem peso. Era tudo muito lúdico, quase mágico. Sempre que eu fazia perguntas, as respostas vinham do vento, da vida no solo, dos processos invisíveis da natureza.
O que sempre me impressionou é que minha avó era uma mulher muito à frente do seu tempo. Tinha um respeito profundo pelo solo e repetia que ali existia muita vida. Um momento decisivo foi quando ela me deu, aos oito anos, o livro Caçadores de Micróbios. Fiquei fascinada com as histórias dos microbiologistas. No dia seguinte, disse a ela que queria ser microbiologista.
Com o tempo, percebi que não me identificava com a microbiologia médica, que era o caminho mais comum. Nunca gostei da ideia de fazer Medicina. O que eu queria era algo ligado à natureza, à produção de alimentos. Desde criança, me impactava profundamente ver pessoas passando fome. Algumas iam até nossa casa, e minha avó mantinha um conjunto separado de pratos, talheres e copos para oferecer comida. Aquilo me marcou muito. Foi ali que se formou a certeza de que eu queria fazer algo que ajudasse a produzir alimentos, aliando isso à ciência e à microbiologia.
Quando completei 10 anos, minha mãe, meu irmão e eu voltamos para São Paulo em busca de melhores oportunidades de estudo. Passei a estudar no Colégio Rio Branco, com bolsa, durante sete anos. Minha mãe jamais teria condições de pagar aquela escola. Foi um período fundamental para a minha formação. Sou profundamente grata e mantenho vínculo com o colégio até hoje. A partir dali, segui para a Agronomia, porque era o caminho que reunia tudo o que eu buscava: ciência, natureza e produção de alimentos.

2 – Como foi no início dos seus estudos e das pesquisas e desenvolvimento na área biológica? Houve resistência? Naquela época já se vislumbrava a adesão de técnicas sustentáveis ou a introdução ocorreu com o tempo, conforme demonstração da inovação da tecnologia?
Há um aspecto curioso nesse começo de trajetória: naquela época, a agronomia era vista quase como uma ‘subcarreira’. Eu era a primeira aluna do colégio e, ao longo de todos os anos, fui a única estudante que manteve essa posição. Os professores não se conformavam com a minha escolha. Chegaram a chamar minha mãe para dizer: “Não faz sentido, ela é a primeira aluna, deveria ir para a Medicina. Como vai escolher Agronomia?”. Minha mãe sempre foi muito firme. Dizia que não adiantava insistir, que era isso que eu queria fazer. Apenas acrescentava, em tom de brincadeira, que só não gostaria que eu sofresse sendo professora, talvez porque ela mesma fosse professora, mas da área de humanas, de francês. E assim fui para a Agronomia.
Naquele momento, a profissão não era considerada de prestígio. Felizmente, isso mudou muito. Tenho enorme orgulho de ser engenheira agrônoma. Hoje, é uma carreira valorizada e reconhecida, e foi muito significativo acompanhar essa transformação ao longo do tempo. Na época, além de pouco valorizada, era uma área majoritariamente masculina e, na prática, bastante machista.
Quando entrei na faculdade, o enfoque era quase exclusivamente químico. E havia uma razão histórica para isso. Na década anterior, o Brasil ainda importava alimentos. Lembro desde criança: maçã vinha da Argentina e era cara; frango era comida de domingo. Com a chegada de Norman Borlaug e da chamada Revolução Verde, baseada no melhoramento genético e no uso de fertilizantes químicos, a produção agrícola brasileira cresceu de forma expressiva. Foi esse modelo que viabilizou, inclusive, a expansão da agricultura para o Cerrado. Todas essas ideias estavam chegando ao país naquele período.
Não havia espaço para biológicos. Ainda assim, eu carregava desde criança a convicção de que queria trabalhar com biológicos na

Foto: Divulgação
agricultura. Naquele tempo, não existiam bolsas de iniciação científica como hoje, o que faz muita diferença. No segundo ano da graduação, engravidei por acidente; no terceiro, tive outra filha. Precisei trabalhar durante todo o curso. Trabalhei na biblioteca, fiz traduções de inglês, serviços de datilografia e consegui, aos poucos, economizar algum dinheiro.
No último semestre da faculdade, finalmente consegui fazer um estágio na área que realmente me interessava. Procurei o Centro de Energia Nuclear da Agricultura (CENA), que hoje integra a Esalq, mas na época ainda não fazia parte. Fui atrás da Drª Alaídes Puppin Ruschel, que trabalhava com fixação biológica de nitrogênio, exatamente o tema que me atraía e que praticamente não existia na Esalq naquele momento. Ela me estimulou a elaborar um projeto de mestrado. Eu o fiz e fiquei torcendo muito para que desse certo, porque me formaria no fim do ano e queria, de fato, continuar estudando.
Meus amigos diziam que era loucura, que eu precisava arrumar um emprego. Mas eu sentia que ainda tinha muito a aprender. Submeti o projeto à Fapesp. Se a bolsa não fosse aprovada, eu teria de ir para o mercado de trabalho, com duas crianças para sustentar. A bolsa saiu. Consegui fazer o mestrado com a Drª Alaídes, no CENA/Esalq, com uma tese em fixação biológica do nitrogênio.
Cheguei a iniciar as disciplinas do doutorado, mas havia no Brasil uma cientista extraordinária, com enorme projeção nacional e internacional: a Drª Johanna Döbereiner. Ela trabalhava no Rio de Janeiro e era uma referência absoluta na área. Eu pensei: “Não, eu preciso ir aprender com essa mulher”. Ela me convidou para fazer o doutorado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, onde hoje funciona a Embrapa Agrobiologia. Minha orientadora foi a Drª Maria Cristina Prata Neves, com a Drª Johanna como coorientadora.
Foi uma oportunidade única. Passei a integrar um grupo inteiro dedicado à fixação biológica do nitrogênio e estava extremamente motivada. Oito meses depois de iniciar o doutorado, a Drª Johanna me chamou para conversar. Disse que havia surgido uma vaga, que uma pessoa havia saído, e que queria me contratar. Eu ainda questionei: “Mas tem tanta gente esperando”. Ela respondeu, de forma direta: “Não, é você que eu quero, e pronto”.
Devo muito à Drª Johanna. Ela foi minha grande mentora científica. Uma pessoa brilhante, com quem aprendi, de fato, o que significa ser cientista. Houve também um apoio pessoal fundamental. Naquele momento, eu tinha duas filhas, uma delas com necessidades especiais, não tinha família por perto. Ela enxergou minha dedicação, não as minhas limitações, limitações que, tenho certeza, muitos teriam visto, sobretudo se eu fosse um homem. Ela abriu as portas, confiou em mim e me contratou na Embrapa Agrobiologia em 1º de dezembro de 1982. Estou lá até hoje.

3 – Considerando o legado de 40 anos dedicados a pesquisas, sobretudo de fixação de nitrogênio no solo pelo uso de bioinsumos, como você avalia o potencial dessa tecnologia para o agronegócio brasileiro até 2030?
Vou retomar um pouco antes desse momento. Quando saí da Embrapa Agrobiologia, permaneci ali por cerca de 10 anos. Desse período, três anos e meio foram dedicados a um pós-doutorado no exterior, nos Estados Unidos. Ainda encaro essa fase como parte da minha formação científica, muito ligada aos fundamentos da área. A Drª Johanna sempre acreditou profundamente no avanço do conhecimento, e foi nesse período fora do país que compreendi que precisava voltar. Essa foi, sobretudo, uma decisão de mãe.
Naquele momento, Seropédica, no Rio de Janeiro, ainda carecia de infraestrutura. Minha filha mais velha estava entrando no ensino médio, e a mais nova, com necessidades especiais, precisava de acompanhamento médico contínuo. Por isso, solicitei transferência para Londrina, no Paraná, uma cidade com melhor estrutura e que também me permitia ficar próxima dos meus avós, em Itapetininga, no interior de São Paulo, onde eu queria estar mais presente na fase final da vida deles. Foi assim que cheguei à Embrapa Soja, em julho de 1991. Ali, de fato, começou minha carreira científica e minha vida profissional.
Cheguei praticamente do zero. Não havia laboratório, não havia equipe, não havia estrutura. Por outro lado, havia espaço para ideias. Eu não tinha um grupo formado, mas tinha autonomia. Foi nesse contexto que surgiu a primeira oportunidade de trabalhar exatamente com aquilo em que eu acreditava.
Até então, falava-se em biológicos em uma escala muito restrita, quase sempre associada à agricultura orgânica ou à agricultura familiar.

Foto: Divulgação
Ao chegar à Embrapa Soja, fui clara: queria trabalhar com fixação biológica do nitrogênio voltada a altíssimos rendimentos, em grande escala. Sempre pensei que, se a tecnologia funcionasse para o grande produtor, ela funcionaria também para o médio e para o pequeno. Naquela época, predominava a ideia de que, uma vez introduzida a bactéria no solo, não seria necessário fazer mais nada.
Comecei buscando as cooperativas, porque o uso de bioinoculantes era praticamente inexistente. Iniciei então uma série de experimentos de campo, conduzidos de forma intensiva ao longo de dois a três anos. Os resultados mostraram que a reaplicação anual da bactéria, em estado fisiológico adequado, pronta para atuar, proporcionava um aumento médio de 8% na produtividade. Passei a divulgar esses dados diretamente aos agricultores. Esse trabalho nunca parou. Tornou-se contínuo, com uso ano após ano.
Percorremos o Brasil, especialmente a região Central, levando informações sobre os benefícios da inoculação e da fixação biológica do nitrogênio. Esse se tornou um diferencial do nosso trabalho. Trata-se de algo muito característico do Brasil, e fomos acompanhando esse crescimento de perto.
Desde as primeiras apresentações dos resultados, entre 1993 e 1994, observei um avanço constante. Quanto mais se falava sobre o tema, maior era a adoção da tecnologia na soja. Esse crescimento nunca foi interrompido. A soja, afinal, é uma commodity estratégica, com cerca de 47 milhões de hectares cultivados, o que naturalmente amplia o impacto de qualquer inovação que funcione.
Ao longo desse processo, enfrentamos muitas dificuldades. O poder de marketing dos produtos biológicos sempre foi muito menor quando

Engenheira agrônoma e pesquisadora do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Taxonline, da Fundação Araucária, Mariangela Hungria: “Hoje contamos com mais de 500 experimentos comparando sistemas biológicos e fertilizantes nitrogenados, em diferentes cultivares e condições de manejo, demonstrando que o biológico pode funcionar plenamente, com desempenho equivalente ao químico” – Foto: A.Neto
comparado ao dos fertilizantes químicos. Houve forte pressão no sentido de sustentar a ideia de que altos rendimentos só seriam possíveis com a aplicação de nitrogênio mineral. Hoje, no entanto, contamos com mais de 500 experimentos comparando sistemas biológicos e fertilizantes nitrogenados, em diferentes cultivares e condições de manejo, demonstrando que o biológico pode funcionar plenamente, com desempenho equivalente ao químico. Com isso, o uso foi crescendo de forma contínua ao longo dos anos.
Durante a pandemia, esse movimento ganhou um novo impulso. As restrições na cadeia de suprimentos, somadas à guerra na Ucrânia, de onde o Brasil importa grande parte dos fertilizantes, levantaram uma questão central: como continuar produzindo? O país importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome e é altamente dependente da agricultura. Esse contexto abriu uma grande oportunidade para os biológicos. Foi possível dizer aos produtores: “Que tal testar aquilo de que falamos há tanto tempo?”. Sem alternativas viáveis, muitos decidiram experimentar. E os resultados confirmaram que a tecnologia funcionava.
Com essa expansão rápida, e em parte desordenada, também surgiram problemas. Passaram a circular conceitos equivocados, como a ideia de que produzir um biológico é simples, que não envolve riscos ou que não exige investimento em pesquisa. Vimos crescer uma desinformação que ignora as limitações e as diferenças fundamentais entre o desenvolvimento de produtos biológicos e químicos.
Os bioinsumos exigem mão de obra altamente qualificada, treinada e especializada, algo que ainda não existe em quantidade suficiente no país para sustentar esse ritmo de crescimento. Há microrganismos disponíveis, mas explorar todo o seu potencial demanda investimento contínuo em pesquisa. A produção também requer rigoroso controle de qualidade, sobretudo para evitar impactos negativos sobre a biodiversidade dos solos brasileiros.
Se hoje o Brasil ocupa uma posição de liderança em pesquisa, desenvolvimento e uso de bioinsumos, isso se deve, em grande parte, à existência de uma legislação sólida, que estabelece que apenas microrganismos validados pela pesquisa podem ser utilizados. Estou convencida de que esse mercado continuará crescendo, porque é um caminho sem volta. Há uma demanda crescente por alimentos mais saudáveis, os agricultores buscam melhorar a saúde do solo e são produtos que não deixam resíduos. O desafio agora é entender como esse crescimento vai se consolidar. Acredito que ainda passaremos por alguns ciclos de ajuste até que o mercado encontre um equilíbrio mais maduro.

4 – Falando especificamente de safras e projeções, qual a sua avaliação quanto a adoção dos produtos biológicos para os próximos anos em comparação às outras tecnologias? Consegue nos trazer algum indicativo que as pesquisas apontam?
Em relação às projeções de mercado, acompanhamos de perto as análises feitas pela indústria e pelas entidades do setor. Do ponto de vista da Embrapa, nosso papel é gerar conhecimento, desenvolver soluções e torcer para que elas sejam efetivamente adotadas. O que observamos, a partir da demanda crescente de agricultores que nos procuram em busca de informação, é que o interesse pelos bioinsumos vem aumentando de forma consistente.
Tenho uma visão bastante clara sobre onde está hoje o principal gargalo desse mercado. Apesar de o Brasil ser líder mundial em tecnologia de bioinsumos, a participação desses produtos ainda é relativamente baixa quando comparada aos insumos químicos, algo entre 10% e 15%. Considerando o que já está disponível, poderíamos avançar com relativa facilidade para patamares próximos de 50%. E quando falo em soluções prontas, refiro-me a tecnologias já validadas, testadas e disponíveis.
Atualmente, temos soluções desenvolvidas para mais de 100 espécies agrícolas. Ainda assim, a limitação não está na pesquisa científica, mas sim na capacidade de o setor privado transformar essas tecnologias em produtos acessíveis e amplamente distribuídos.

Foto: Divulgação
Um levantamento da Embrapa mostra que 73% dos agricultores que cultivam soja no Brasil possuem áreas de até 50 hectares. Esses produtores, em grande parte, não têm hoje acesso a inoculantes comerciais adequados às suas realidades. Esse dado é bastante revelador. Falamos muito sobre a necessidade de mais investimento em pesquisa e, de fato, ele é fundamental, mas em muitos casos as soluções já existem. O desafio está em ampliar sua oferta, adaptá-las a outras culturas e, principalmente, levá-las a um número maior de agricultores.
Se conseguirmos superar esse entrave, há espaço para uma expansão significativa do uso de bioinsumos na agricultura brasileira, com base em tecnologias que já estão disponíveis nas prateleiras.
5 – O Brasil desempenha um significativo papel na segurança alimentar brasileira. Como isso se configura em dados? como você avalia os sistemas brasileiros de produção agrícola, considerando a agricultura tropical brasileira e a complementariedade de tecnologias no campo?
Sou integrante da Academia Brasileira de Ciências e coordeno um grupo de trabalho dedicado à segurança alimentar. Nesse âmbito, lançamos em 2024 um livro sobre o tema, disponibilizado gratuitamente para download. Em 2025, publicamos a versão em inglês e, neste ano, com o Congresso Latino-Americano de Segurança Alimentar organizado pelo Itamaraty, pretendemos lançar a edição em espanhol. Quando a Academia me confiou essa responsabilidade, ficou claro que eu precisaria estudar, escrever e apresentar sobre segurança alimentar de forma sistemática. Foi um grande aprendizado. Sempre estudei muito ao longo da vida, mas confesso que me surpreendi ao perceber o quanto ainda havia para compreender sobre o tema.
Como mencionei anteriormente, desde a infância minha motivação sempre foi produzir alimentos para que as pessoas não passassem

Foto: Geraldo Bubniak
fome. Durante muito tempo, essa era para mim a essência da segurança alimentar. No entanto, ao escrever o livro e dialogar com pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, compreendi que a produção de alimentos representa apenas cerca de 30% a 40% do que efetivamente constitui a segurança alimentar e nutricional. Trata-se de um campo que envolve um conjunto amplo e integrado de ciências.
Entram nesse debate as ciências sociais, que analisam e orientam políticas públicas; as ciências de dados, fundamentais para identificar quem são e onde estão as populações em situação de insegurança alimentar; e as ciências econômicas, que ajudam a dimensionar, por exemplo, qual nível de renda é necessário para que uma pessoa saia da condição de fome. Tudo isso exige base científica sólida e articulação entre áreas.
Além disso, é fundamental investir na educação das novas gerações em hábitos alimentares saudáveis, em estratégias eficazes de comunicação para garantir que as mensagens cheguem corretamente às pessoas e, naturalmente, na produção de alimentos em larga escala. Ainda que o Brasil não consuma internamente toda a soja que produz, os recursos obtidos com a exportação permitem financiar programas de enfrentamento à insegurança alimentar grave. Soma-se a isso o fortalecimento da agricultura familiar, que não deve ser visto como um favor, mas como um reconhecimento do fato de que esses agricultores são responsáveis por cerca de 60% a 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros.
O livro mostra, de forma muito clara, que a segurança alimentar é um desafio que exige a atuação conjunta de múltiplas áreas do

Foto: Divulgação
conhecimento e de diferentes setores da sociedade. Não é um problema que se resolve individualmente. É necessário o envolvimento do setor público, do setor privado e do terceiro setor. Um exemplo emblemático disso ocorreu quando finalizamos a versão em português, em 2024. Naquele momento, os dados indicavam que, em razão da pandemia de Covid-19 e das políticas adotadas à época, o Brasil havia alcançado 33 milhões de pessoas em situação de fome. Apenas dois anos depois, com a implementação de programas governamentais, foi possível retirar o país do Mapa da Fome. Em 2025, anunciamos que menos de 2,5% da população brasileira se encontrava em situação de fome.
Ao mesmo tempo, o Brasil produz alimentos suficientes para sustentar cerca de 900 milhões de pessoas no mundo. Diante disso, é inadmissível que qualquer brasileiro ou qualquer pessoa ainda passe fome. Precisamos seguir avançando em todas as frentes: na valorização e regionalização da alimentação, no fortalecimento de programas municipais de compra de alimentos para a merenda escolar diretamente de agricultores locais, garantindo alimentos frescos e nutritivos às crianças e renda aos produtores.
A segurança alimentar é um tema fascinante, complexo e profundamente desafiador. É, por natureza, interdisciplinar e intersetorial. Somente com a integração de diferentes campos do conhecimento e a união de todos os setores da sociedade será possível avançar de forma consistente. O Brasil tem condições de garantir que nenhum brasileiro volte a passar fome.

Engenheira agrônoma e pesquisadora do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Taxonline, da Fundação Araucária, Mariangela Hungria: “O Brasil tem condições de garantir que nenhum brasileiro volte a passar fome”
6 – Com relação à Embrapa, como você avalia o papel da empresa de pesquisa brasileira no contexto internacional? Nesta trajetória de 40 anos, consegue nos elencar três pontos de destaque para a vitrine mundial?
A Embrapa é uma instituição extraordinária. Foi um momento absolutamente brilhante da história recente do Brasil apoiar a visão de Alysson Paolinelli, apostar no futuro e criar uma empresa pública de pesquisa agropecuária com base científica sólida e investimento contínuo. Por isso, considero fundamental ampliar a conscientização da sociedade sobre a importância de existir uma Embrapa, no sentido mais amplo do termo: uma instituição pública dedicada à geração de conhecimento estratégico para o país.
Tomando como exemplo o tema desta entrevista, os bioinsumos, fica evidente por que o Brasil é hoje líder mundial nessa área. A Embrapa investe em pesquisa com biológicos há mais de quatro décadas, desde uma época em que praticamente todo o debate e os recursos estavam concentrados nos insumos químicos. Foram quase cinco décadas apostando em uma agenda científica que poucos enxergavam como estratégica, enquanto o restante do mundo seguia um caminho diferente. Esse investimento de longo prazo explica a posição de liderança que o país ocupa hoje.
Se há um equívoco histórico, talvez seja o fato de a Embrapa ser chamada de empresa, algo que frequentemente gera confusão sobre o seu papel. Muitas pessoas não compreendem que a Embrapa não vende produtos. Ela não comercializa sementes, por exemplo. O que faz é licenciar tecnologias e estabelecer parcerias, e os recursos gerados retornam ao governo e ao sistema de pesquisa, não à instituição como lucro. O que a Embrapa entrega à sociedade são tecnologias públicas, disponíveis para diferentes tipos de agricultura e perfis de agricultores.
À medida que o setor privado se estrutura e passa a atuar de forma independente em determinadas áreas, a Embrapa cumpre seu papel e

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se desloca para onde o mercado não chega. Um exemplo claro é o melhoramento de soja convencional, realizado praticamente apenas pela Embrapa, porque não há interesse privado suficiente. O mesmo ocorre em pesquisas voltadas a cadeias específicas e regionais, como o tambaqui na região Norte, sistemas produtivos com uma cabra por família no Nordeste ou o melhoramento genético de culturas como a abobrinha. São temas que não atraem investimentos privados, mas que são social e economicamente relevantes para o país. Além disso, tecnologias estruturantes como o sistema de plantio direto, a fixação biológica do nitrogênio e a integração lavoura-pecuária-floresta também têm forte participação da Embrapa em sua concepção e consolidação.
Embora não tenha lucro, a Embrapa utiliza a metodologia do balanço social, reconhecida internacionalmente, para medir o retorno das tecnologias desenvolvidas. Esse instrumento avalia quanto as inovações geradas contribuem para o aumento de renda do agricultor e para a sociedade como um todo. Em 2025, o balanço mostrou que, para cada R$ 1 investido na Embrapa, há um retorno de R$ 25 para a sociedade. Esse dado é extremamente relevante para dimensionar o valor da pesquisa pública.
A pesquisa agropecuária, especialmente em um país onde a agricultura responde por cerca de um terço do PIB, deveria ser tratada como questão de soberania nacional. Nos últimos dois ou três anos, a instituição tem recorrido a emendas parlamentares para viabilizar parte de suas atividades. O Brasil é hoje líder em agricultura tropical, mas essa posição não é garantida. Sem investimento contínuo em pesquisa, a perda de competitividade pode ocorrer de forma rápida. Esses são, a meu ver, os principais pontos que precisam ser considerados quando se discute o papel estratégico da Embrapa para o país.
Notícias Com precisão
Nova tecnologia acelera diagnóstico de prejuízos da geada no milho
Estudo mostra que análise por satélite pode apoiar políticas públicas, seguros rurais e decisões dos produtores.

Uma pesquisa da Unesp, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e a Universidade de Michigan, desenvolveu um método que combina dados obtidos por sensoriamento remoto e modelos matemáticos para detectar de forma rápida, automática e precisa os danos causados por geadas em culturas de milho, bem como estimar a área ocupada pela lavoura.

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Segundo os pesquisadores, a ferramenta pode oferecer agilidade ao poder público na correção do volume da safra antes da colheita, colaborando, por exemplo, para o monitoramento da oferta e do preço do grão. Também apresenta potencial para auxiliar a atuação das empresas do setor de seguro rural e orientar as tomadas de decisão dos produtores após a ocorrência das geadas.
Safrinha é diferencial brasileiro
Geadas costumam causar prejuízos consideráveis às lavouras. Em especial, quando afetam a chamada segunda safra, cuja época de cultivo pode avançar sobre as estações mais frias do ano, como maio ou junho. Antigamente, esse segundo período da safra, popularmente referido como “safrinha”, costumava representar um percentual marginal para a produção agrícola brasileira. Esse papel, no entanto, mudou bastante nas últimas duas décadas. Inovações como o desenvolvimento de novas tecnologias e insumos, o uso de cultivares mais resistentes a temperaturas extremas e a adoção de práticas de manejo que beneficiam a qualidade do solo permitiram à agricultura tropical brasileira ampliar consideravelmente a produção no campo após a safra principal, que ocorre durante o verão.
Dados publicados pelo projeto MapBiomas, no dia 10 de dezembro, mostram que essa área plantada ‘fora de época’ triplicou de extensão

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desde o ano 2000. Ela se concentra principalmente na cultura do milho, que respondeu por 62,2% do volume da safrinha em 2024. O levantamento do MapBiomas também mostrou que o Paraná foi o segundo maior produtor de milho de segunda safra do país, na maioria das vezes plantado depois da soja.
E foi justamente no estado sulista, mais precisamente na mesorregião Oeste Paranaense, que os pesquisadores testaram o novo método,
uma vez que a região costuma ser impactada com frequência por geadas. Os resultados foram apresentados na forma de um artigo publicado na Remote Sensing Applications: Society and Environment e, segundo os autores, foi o primeiro na literatura a mapear o impacto de geadas no cultivo do milho com base em dados de sensoriamento remoto.

O método desenvolvido pelos pesquisadores constatou que o total de área de milho de segunda safra plantada naquela mesorregião por ocasião da segunda safra alcançou 740.007 ha. Essa estimativa é 1,7% superior ao total registrado nos dados oficiais. Essa diferença é um testemunho da alta precisão da nova ferramenta como forma alternativa de estimar a área de plantio.

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Os pesquisadores usaram como referência para o estudo dados da safra de 2020/2021. Naquela temporada, a região Oeste do Paraná foi afetada por dois episódios de geadas (em maio e junho) que impactaram severamente as lavouras de milho. No início da safra daquele ano, um período de seca mais extensa do que o normal obrigou os produtores a retardarem o plantio da soja da primeira safra, o que atrasou a colheita e, consequentemente, “empurrou” o plantio do milho da segunda safra para meados de fevereiro, levando à colheita para a entrada do inverno, período mais frio.
Por meio do novo método, os pesquisadores estimaram que as geadas afetaram o equivalente a 69,6%** da** área total de milho plantado, com 3,5% sendo afetados no primeiro episódio, em maio, e 66,1% durante a segunda ocorrência de geada, mais intensa, em junho. De acordo com a análise, 30,4% da área plantada com milho não foram afetados. Neste total, a colheita já havia ocorrido em 13,8%, e os demais 16,7% não receberam o impacto das geadas.
Quando se utilizaram os dados oficiais para fazer uma comparação sobre os prejuízos causados pela geada, a análise se mostrou mais complexa. O relatório de avaliação da qualidade da colheita, divulgado pelo Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná, é uma possível referência oficial. Segundo os dados deste relatório, do total de milho colhido por ocasião da segunda safra, 58,7% foram classificados como sendo de qualidade ruim, e 35,3%, de qualidade média.
Os dados do órgão, entretanto, se referem à safra total. Ocorre que, embora as geadas tenham sido o fator mais crítico para os danos à

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lavoura naquele período, também foram constatados episódios de seca na ocasião.
Os pesquisadores buscaram, então, dados de empresas de seguros agrícolas que registraram, a partir de verificações in loco dos danos na lavoura, sinistros que decorreram especificamente da ocorrência das geadas. Quando comparadas aos dados das seguradoras, as estimativas dos pesquisadores alcançaram uma concordância de 75% em relação ao episódio de geada de maior intensidade, ocorrido em junho.
Meta é observar efeitos e problemas durante a safra
“A nossa meta é ser capazes de mapear culturas e identificar problemas ainda durante o período da safra”, explica Michel Eustáquio Dantas Chaves, professor da Unesp no curso de Engenharia de Biossistemas e vinculado ao Programa de Pós-graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD) na Faculdade de Ciências e Engenharia, câmpus de Tupã. “Isso nos permitirá colaborar com os órgãos de planejamento e auxiliar os produtores a tomarem decisões antes da colheita”, diz Chaves, que é o primeiro autor do artigo.
Ele menciona, por exemplo, o número de atualizações das informações sobre a safra que a Conab divulga durante o ano, uma indicação de que há espaço para melhorar a precisão dessas estimativas. “Se pudermos reduzir as incertezas em 1%, já será uma contribuição útil para a sociedade. Afinal, a agricultura desempenha um papel muito importante, tanto para a balança comercial quanto para o comércio interno de produtos agropecuários”, comenta o pesquisador.

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Atualmente, as formas de calcular os danos causados pelas geadas demandam a ida a campo para a condução de levantamentos amostrais. Essa metodologia demanda mais tempo e mais investimentos e abre espaço para subjetividades nas observações. Chaves explica que a presença em campo continuará se mostrando fundamental, uma vez que o processo de treinamento dos algoritmos para a elaboração dos modelos e a validação das informações obtidas pelas imagens de satélite demandam a verificação in loco das condições da lavoura.
A ferramenta combina imagens captadas pelo satélite Sentinel-2 com o algoritmo de aprendizado de máquina chamado Random Forest. Chaves explica que as imagens do satélite europeu possuem resolução média, entre 10 e 20 metros por pixel, o que as torna mais apropriadas para regiões agrícolas em que predominam propriedades menores. “Além das vantagens em termos de precisão, existe a questão do tempo. O Sentinel-2 tem uma repetitividade de 5 dias. Isso é muito útil porque, mesmo que ocorram impactos causados por geada, seca ou queimada, é possível constatar esses efeitos dentro de um período de tempo curto o suficiente para permitir que o produtor e o poder público tomem decisões baseadas em dados”, expõe.
Estudo mostrou causa dos danos
O estudo selecionou imagens do satélite obtidas entre 1º de fevereiro e 31 de julho. O professor da Unesp explica que, por meio da análise da reflexão espectral dessas imagens, é possível verificar uma série de parâmetros das lavouras, como as espécies que foram plantadas, o seu estágio de desenvolvimento e até informações mais sensíveis, como a umidade do solo ou a capacidade da planta de realizar fotossíntese.
O modelo elaborado pelos pesquisadores contemplou, além dos dados climatológicos e da área de plantio, três índices de vegetação

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diferentes, uma novidade proposta pelo artigo e que aumentou a precisão na identificação dos danos registrados na lavoura. “Essa combinação de índices assegura que o dano que identificamos foi causado por uma adversidade térmica, e não por uma praga ou um manejo inadequado da lavoura”, salienta Chaves.
Coordenador do Laboratório de Geoprocessamento e Inteligência Artificial no câmpus de Tupã e colaborador do Laboratório de Sensoriamento Remoto Agrícola do INPE, Chaves diz que a metodologia para avaliar o impacto das geadas pode ser ampliada para outras culturas que, porventura, sejam atingidas pelo fenômeno. Algumas possibilidades são as lavouras de trigo, centeio e aveia, que são produzidas durante o inverno, bem como em outras regiões do país.
Outra possível frente de atuação prevê a integração de modelos meteorológicos, cujas imagens possuem menor resolução, aos dados sobre uso da terra, de maior resolução. “Vejo que isso já está em andamento. A incorporação dessa tecnologia vai orientar o futuro do sensoriamento remoto voltado à agricultura e à prevenção de desastres causados por eventos meteorológicos”, ressalta.



