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Especialistas recomendam estratégias tecnológicas para mitigar falta de água em soja

A soja melhor se adapta a temperaturas do ar entre 20°C e 30ºC e a temperatura ideal para seu crescimento e desenvolvimento está em torno de 30°C.

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Campo experimental - Foto: RRRufino E Fotos: Divulgação Embrapa

Nas últimas três safras, somente o Rio Grande do Sul e o Paraná, segundo e terceiro maiores produtores brasileiros de soja, atrás apenas de Mato Grosso, deixaram de produzir mais de 15 milhões de toneladas de soja, o que resultou em prejuízo econômico da ordem de U$ 8 bilhões, considerando-se o valor de U$ 500,00 a tonelada, segundo levantamento feito pela Embrapa. O que vem motivando a quebra na safra de soja no Sul do País é a deficiência de água para que as plantas se desenvolvam plenamente. “Percebemos que a soja pode até suportar temperaturas mais altas, mas, quando há restrição de água, o dano para planta é muitas vezes irreversível”, avalia o pesquisador da Embrapa Soja José Renato Bouças Farias.

O pesquisador enfatiza a necessidade de uma mudança comportamental em todos os setores com o intuito de preservar a água e mitigar a falta dela. Entre as ações de mitigação no processo de produção agrícola, Farias cita as reconhecidas práticas de manejo e conservação do solo e da água, a diversificação de culturas, a utilização do plantio direto na palha, a preservação de nascentes, rios e margens de rios (para aumentar a captação e recarga do perfil do solo e para evitar assoreamento), a adoção de boas práticas de cobertura do solo (para reduzir a evaporação e facilitar a infiltração de agua, diminuindo o escorrimento superficial que causa erosão), as práticas de sequestro de carbono, o respeito ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), entre outras.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), com o início da primavera, em 2021, o clima passa a sofrer influência do fenômeno La Niña, que poderá impactar também a safra de verão, por causa da irregularidade de chuvas e da indisponibilidade de água. Enquanto a variabilidade do clima é responsável por aproximadamente 50% da oscilação de produtividade das culturas agrícolas, os aspectos relacionados à genética e ao manejo da cultura e do solo respondem pelos outros 50%. “Portanto, há uma série de tecnologias agronômicas a serem adotadas, em curto, médio e longo prazos, para minimizar os efeitos dos veranicos sobre a soja, assim como outros eventos climáticos adversos que têm se tornado frequentes e mais intensos”, completa Farias.

Estratégias de mitigação

Para atenuar o impacto da seca, Farias cita, por exemplo, o ajuste fitotécnico das cultivares, por meio da adoção de variedades adaptadas para cada região, com diferentes ciclos e semeadas, de forma escalonada, para aumentar as chances de escape das lavouras em relação à incidência de veranicos na fase de enchimento de grãos. “Chamamos de estratégia de escape para reduzir os prejuízos, porque se você planta a mesma cultivar em toda a lavoura e não escalona a semeadura é mais difícil diluir os riscos, se houver algum problema climático”, explica Farias

O pesquisador também diz ser preciso ficar atento à definição de épocas de semeadura com menor risco de ocorrência de falta de água de acordo com o Zoneamento Agrícola de Risco Climático – Zarc (veja quadro abaixo) e o desenvolvimento de cultivares mais tolerantes à seca.

 

Apoio da biotecnologia

Além das estratégias de manejo, o desenvolvimento de cultivares mais tolerantes à seca também é uma ferramenta que pode contribuir na mitigação dos efeitos da seca na cultura da soja. No entanto, a pesquisadora Liliane Mertz-Henning explica que tolerância à seca é governada por um grande número de genes, o que dificulta a introdução dessa característica por meio do melhoramento genético clássico. Nesse sentido, pesquisas da Embrapa Soja, desenvolvidas em colaboração com institutos de pesquisa do Japão (Universidade de Tóquio, RikenJapan International Research Center for Agricultural Sciences – Jircas) mostram que as ferramentas biotecnológicas podem contribuir com o aumento da tolerância à seca em soja.

Por meio da manipulação genética, os pesquisadores conseguiram introduzir um gene – isolado da planta Arabidopsis thaliana – que torna a planta mais tolerante à seca. “Essas plantas foram testadas em condições de casa-de-vegetação e campo com resultados promissores, mostrando que as plantas transgênicas apresentam maior estabilidade de rendimento frente ao estresse. No entanto, os aspectos regulatórios associados aos Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) dificultam a disponibilização dessas tecnologias no mercado”, explica Henning. Segundo ela, ferramentas como a edição gênica, que visa alterar de forma precisa genes da própria espécie, são uma alternativa promissora para contornar essas limitações. “Estudos por meio de edição gênica (CRISPR/Cas) visam gerar plantas mais tolerantes à seca e que possam ser consideradas como não-OGMs já estão sendo desenvolvidos e contribuirão para ampliar a disponibilidade de cultivares mais tolerantes no mercado”, exemplifica.

 

A importância do Zarc

O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) é uma ferramenta de análise do risco derivado da variabilidade climática e que considera as características da cultura e do solo. Seu objetivo é reduzir os riscos relacionados aos problemas climáticos e permite ao produtor identificar a melhor época para plantar, levando em conta a região do País, a cultura e os diferentes tipos de solos. “Recomendamos evitar as regiões e épocas reconhecidamente de maior risco de seca para minimizar as perdas”, destaca Farias. O modelo agrometeorológico considera elementos que influenciam diretamente no desenvolvimento da produção agrícola como temperatura, chuvas, ocorrência de geadas, água disponível nos solos, demanda hídrica das culturas e elementos geográficos (altitude, latitude e longitude).

O acesso à ferramenta pode ser feito no aplicativo móvel Zarc Plantio Certo, desenvolvido pela Embrapa Informática Agropecuária (SP), que está disponível nas lojas de aplicativos iOS e Android. Os resultados do Zarc também podem ser consultados e baixados por meio da plataforma “Painel de Indicação de Riscos” e nas portarias de Zarc por Estado.

Diversificação de culturas e manejo do solo

Entre as principais estratégias recomendadas para contornar o problema está a diversificação de culturas e a adoção de práticas de manejo do solo que melhorem a construção de perfil do solo para aumentar o armazenamento, o enraizamento em profundidade, a maior infiltração de água e o menor escorrimento superficial.

O pesquisador Henrique Debiasi ressalta que o consórcio de milho com braquiária é uma alternativa de diversificação que traz pouca mudança no sistema operacional, mas que traz grande impacto à qualidade dos sistemas de produção. A consorciação de milho com a braquiária é o primeiro passo para minimizar os efeitos da compactação do solo que, entres outros malefícios, atrapalha a infiltração de água. “Ao introduzir a braquiária no sistema produtivo, há aumento de palhada na superfície do solo e as raízes da braquiária funcionam como descompactadoras para melhorar a infiltração de água”, explica Debiasi.

Levantamento desenvolvido pela Embrapa, pelo IDR-PR e pela cooperativa Cocamar demonstrou que áreas do Paraná cultivadas há vários anos com a sucessão milho segunda safra-soja apresentaram, em média, 20 milímetros por hora de infiltração de água. Por outro lado, áreas cultivadas com milho consorciado com braquiária têm demonstrado que existe um ganho de 20 mm/hora na taxa de infiltração para cada ano de uso do consórcio. Assim, para áreas com mais de cinco anos de uso desse consórcio, a taxa de infiltração ultrapassa 100 mm/hora. Isso traz um grande impacto na conservação do solo e da água uma vez que, ao aumentar a taxa de infiltração, se diminui drasticamente a água que escoa na superfície do solo, reduzindo o potencial erosivo.

Os sistemas diversificados também são mais lucrativos. Por quatro safras, o pesquisador Henrique Debiasi contabilizou, em experimento na Embrapa Soja, a produtividade da soja depois do milho solteiro e depois do consórcio do milho com braquiária.

No início da safra 2020/2021, por exemplo, houve um forte déficit hídrico no experimento em Londrina (PR) e, mesmo assim, a soja plantada depois do consórcio do milho com braquiária apresentou rendimento 10% superior quando comparada com a soja pós milho solteiro. “Nessa condição, a soja sobre a braquiária se beneficiou da condição de solo com mais umidade, com menor temperatura em virtude da palhada e do trabalho feito pelas raízes da braquiária”, detalha Debiasi.

O pesquisador explica que a palhada da braquiária reduz a evaporação de água e mantém o solo em temperatura adequada para o crescimento das raízes da soja. Porém, o mais importante é o trabalho feito pelas raízes da braquiária, que torna o solo mais fértil. “Do ponto de vista físico, as raízes abrem os poros do solo facilitando a infiltração e o armazenamento de água e ajudam para que as raízes da soja consigam crescer em profundidade para buscar mais água”, relata.

 

Programa SBC

Os especialistas recomendam ainda a adoção de práticas que favoreçam o sequestro de carbono na produção de soja, o que é uma ação de mitigação para reduzir os gases de efeito estufa. A Embrapa Soja apresentou em 2021 a iniciativa do Programa Soja Baixo Carbono (SBC), que está reunindo diversos atores da cadeia produtiva para definir as etapas de construção da iniciativa a ser concluída em 2023. “O objetivo é que o Programa SBC ateste a sustentabilidade da produção de soja brasileira, tornando tangíveis aspectos qualitativos e quantitativos do grão, produzido com tecnologias e práticas agrícolas que reduzam a intensidade de emissão de Gases de Efeito Estufa (GEEs)”, enfatiza o chefe-geral da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno.

O Programa SBC permitirá a identificação da soja produzida sob um conjunto de práticas culturais e de tecnologias, que tornem o processo mais eficiente – por unidade de carbono equivalente (C-CO2) emitida – em relação ao que existe disponível no mercado global. “É importante ressaltar que a SBC buscará fomentar a redução das emissões de GEEs sem deixar em segundo plano o aumento de produtividade, necessário para atender à crescente demanda mundial pelo grão”, ressalta.

De acordo com Nepomuceno, o conceito está sendo pautado na mensuração dos benefícios e na certificação das práticas de produção que comprovadamente tenham baixa emissão de GEEs. O Programa SBC utilizará uma metodologia brasileira, baseada em protocolos científicos validados internacionalmente, a partir de critérios objetivamente mensuráveis, reportáveis e verificáveis. A certificação da soja brasileira será voluntária, privada e de empresas especializadas (certificação de 3ª parte).

A definição dos princípios, diretrizes, critérios, práticas agrícolas e indicadores a serem seguidos para produção da SBC será conduzida, sob a coordenação de um comitê gestor, e seguirá padrões internacionais de preparação de normas. “A construção metodológica do Programa SBC está envolvendo o levantamento, análise e compilação de dados científicos disponíveis na literatura, com a posterior discussão e validação públicas”, comenta Nepomuceno.

Soja e água

De acordo com Farias, as mudanças climáticas têm trazido elevação de temperatura, o que amplia a demanda da planta por água. A tendência é de secas mais frequentes e de chuvas torrenciais, em maior intensidade, ou seja, com distribuição deficitária ao logo da safra. Para produção agrícola, além de volume de chuva adequado, é necessário boa distribuição ao longo do ciclo. “Quando chove muito e o solo não está preparado para a descarga de água, perde-se água e solo por escorrimento, causando erosão”, explica.

Atualmente mais de 95% da soja brasileira é cultivada em regime de sequeiro (sem irrigação). No caso da soja, a necessidade de água pela planta durante a floração e o enchimento de grãos é de cerca de oito milímetros por dia. “Essa exigência pode ser maior ou menor em função da temperatura. Se a temperatura sobe, a planta precisa de mais água”, detalha Farias.

Aproximadamente 90% do peso da planta de soja é formado por água, que desempenha inúmeras funções como reagente (na hidrólise) solvente (permite que gases, minerais e outros componentes entrem nas células e caminhem pela planta), e turgescência, por exemplo. “A água tem, ainda, papel importante no balanço energético da planta, ou seja, na manutenção e na distribuição do calor”, ressalta o pesquisador da Embrapa Norman Neumaier.

A soja melhor se adapta a temperaturas do ar entre 20°C e 30ºC e a temperatura ideal para seu crescimento e desenvolvimento está em torno de 30°C. O pesquisador explica que a necessidade de água na cultura da soja, para obtenção do máximo produtividade, varia entre 450 a 800 mm/ciclo, dependendo das condições climáticas e de solo, do manejo da cultura e da duração do ciclo. Segundo Neumaier, todo o desenvolvimento da planta é afetado pela disponibilidade de água. A semente de soja necessita absorver, no mínimo, 50% de seu peso em água para assegurar boa germinação. Além de afetar a germinação e a emergência da planta, a falta de água interfere no rendimento da lavoura, quando atinge principalmente o período de floração e o enchimento de grãos.

As chances de reversão do aumento médio de 1,5ºC na temperatura no planeta nos próximos 20 anos é baixa, de acordo com o relatório divulgado, neste semestre, pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Segundo o documento, os eventos serão mais extremos, com chuvas e secas mais frequentes, intensas e prolongadas. “Por isso, é urgente buscarmos alternativas para o melhor aproveitamento da água em todos os setores. Nosso recurso mais vital no futuro próximo será a água”, ressaltam os pesquisadores.

Fonte: Embrapa Soja

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Missão técnica aos EUA busca tecnologias para impulsionar inovação no agro paranaense

Grupo percorrerá centros de pesquisa, empresas e propriedades rurais com foco em inteligência artificial, agricultura de precisão e automação.

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Foto: Divulgação/Sistema Faep

A segunda delegação do Sistema Faep, formada presidentes e diretores de sindicatos rurais, representantes de órgãos do setor e técnicos da entidade, está nos Estados Unidos, desde o dia 21 de julho, para conhecer o uso de Inteligência Artificial (IA) e outras tecnologias aplicadas a agropecuária. Formado por 40 integrantes, o grupo desembarcou em São Francisco, no Estado da Califórnia, e passará, até 31 de julho, pelo Nebraska, Iowa, Illinois e Missouri. Essa viagem técnica é a segunda de cinco que acontecem ao longo do ano, todas aos EUA, com o mesmo propósito. O primeiro grupo esteve no país norte-americano em maio, enquanto os próximos três realizarão as viagens em agosto, setembro e outubro.

“Depois de conhecer essas tecnologias que ajudam a aumentar a produtividade no campo e reduzir custos operacionais, os nossos líderes rurais retornam ao Paraná com o papel de disseminar o conhecimento em suas regiões. É um ponto de partida para fomentar a inovação tecnológica no agro paranaense”, afirma o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette.

Presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette: “Depois de conhecer essas tecnologias que ajudam a aumentar a produtividade no campo e reduzir custos operacionais, os nossos líderes rurais retornam ao Paraná com o papel de disseminar o conhecimento em suas regiões” – Foto: Divulgação/Sistema Faep

O itinerário contempla visitas a universidades, agtechs (startups e empresas focadas em inovação para o agronegócio) e fazendas, onde será possível observar a tecnologia sendo colocada em prática.

Na Califórnia, haverá apresentação do ecossistema do Vale do Silício, incluindo uma visão geral das principais empresas e tendências tecnológicas que impactam os negócios e a sociedade. Depois, acontecem visitas a empresas que empregam recursos como IA, visão computacional e análise de dados para mapear o solo, identificar problemas de sanidade em plantas e realizar operações de forma automatizada.

Já no Nebraska, o grupo visitará a Valley Irrigation, líder global em sistemas de irrigação mecanizada com pivôs de alta eficiência e monitoramento remoto. Também está prevista agenda no Lincoln Agricultural Research & Development Center (Centro de Desenvolvimento e Pesquisa em Agricultura de Lincoln, em tradução livre), onde será possível conhecer o uso de IA e visão computacional para o monitoramento comportamental de gado em confinamento.

O roteiro inclui também ida à Universidade de Iowa, referência em pesquisa agropecuária, e à John Deere, para demonstração de tecnologias embarcadas (sistemas computacionais integrados a máquina ou veículo), automação, telemetria (coleta automatizada de dados de sensores ou equipamentos remotos) e IA em máquinas agrícolas.

Em Illinois, a parada será no Ashlyn Farm Bureau, entidade que representa produtores rurais, defendendo políticas públicas alinhadas aos interesses do setor.

A visita técnica se encerra em Missouri, onde acontece visita à Bayer, multinacional dos setores de saúde e agroquímica. Lá, a delegação do Sistema Faep vai entender o uso de IA no avanço de pesquisas voltadas ao controle de pragas e doenças em lavouras.

Histórico

As viagens técnicas internacionais já fazem parte do trabalho do Sistema Faep de fomentar o conhecimento no meio rural e promover a qualificação das lideranças, agricultores e pecuaristas paranaenses. No histórico, a entidade já promoveu viagem aos Estados Unidos, Canadá, Argentina, Alemanha, Itália, Áustria e Israel.

Fonte: Assessoria Sistema Faep
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Plantas de cobertura fortalecem resiliência das lavouras às mudanças climáticas

Pesquisas mostram que prática melhora a fertilidade do solo, sequestra carbono, reduz emissões e amplia a retenção de água.

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Foto: Divulgação

As plantas de cobertura, consideradas um dos principais componentes do Sistema Plantio Direto (SPD), vêm se consolidando como uma ferramenta estratégica para tornar a agricultura brasileira mais resiliente às mudanças climáticas. Além de protegerem o solo contra erosão e degradação, elas contribuem para o sequestro de carbono, reduzem a emissão de gases de efeito estufa (GEEs), melhoram a fertilidade e favorecem o armazenamento de água no solo.

Os resultados foram apresentados pela pesquisadora Arminda Moreira de Carvalho, da Embrapa Cerrados, durante visita técnica realizada como parte da programação do 20º Encontro Nacional do Sistema Plantio Direto (ENSPD) e do 3º Encontro Mundial do Sistema Plantio Direto, em Brasília. O trabalho reúne dados de um experimento iniciado em 2005, que acompanha o desempenho de diferentes espécies de plantas de cobertura cultivadas em sucessão ao milho e, posteriormente, à soja.

Segundo a pesquisadora, o papel das plantas de cobertura ganhou ainda mais relevância diante da necessidade de conciliar aumento da produção agrícola com sustentabilidade ambiental.

Mais fertilidade e menor dependência de fertilizantes

Pesquisadora Arminda Moreira de Carvalho, da Embrapa Cerrados – Fotos: Febrapdp

Além da conservação física do solo, as plantas de cobertura exercem funções importantes no funcionamento dos sistemas produtivos. Espécies leguminosas favorecem a fixação biológica de nitrogênio, enquanto diferentes culturas estimulam a atividade de microrganismos, intensificam a ciclagem de nutrientes e aumentam a infiltração e a retenção de água.

De acordo com Arminda Carvalho, esses processos reduzem a dependência de fertilizantes minerais e tornam as lavouras mais resistentes aos efeitos de períodos de estiagem e outras adversidades climáticas.

Cobertura vegetal ajuda a armazenar carbono

Entre os principais resultados apresentados está a capacidade das plantas de cobertura de manter e ampliar os estoques de carbono no solo. As avaliações realizadas ao longo de quase duas décadas demonstram que algumas espécies conseguem reduzir as perdas de carbono observadas após a introdução da soja na sucessão de culturas.

As gramíneas, como sorgo e trigo, apresentaram melhor desempenho devido à elevada produção de biomassa e à decomposição mais lenta de seus resíduos, favorecendo o acúmulo de matéria orgânica no solo.

Outro destaque é o uso de misturas de espécies, conhecidas como mix de plantas de cobertura. A combinação de culturas com diferentes velocidades de decomposição melhora a ciclagem de nutrientes e contribui para estabilizar os estoques de carbono ao longo do tempo.

Redução nas emissões de gases de efeito estufa

A pesquisa também apontou benefícios na redução das emissões de óxido nitroso (N₂O), um dos gases de efeito estufa de maior impacto climático, com potencial de aquecimento cerca de 300 vezes superior ao do dióxido de carbono.

Durante quatro anos, pesquisadores monitoraram áreas cultivadas com milho utilizando diferentes plantas de cobertura. Entre as espécies avaliadas, o guandu apresentou os melhores resultados na mitigação das emissões, em razão das características químicas de seus resíduos, que influenciam a decomposição da matéria orgânica.

Para realizar esse monitoramento, a Embrapa Cerrados desenvolveu um sistema de câmaras estáticas de baixo custo, capaz de medir diretamente no solo as emissões de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, ampliando a produção de dados nacionais sobre emissões da agropecuária.

Outro resultado do estudo mostrou que a maior parte do nitrogênio absorvido pelo milho é proveniente da decomposição da palhada das plantas de cobertura, e não dos fertilizantes aplicados. Nesse aspecto, a braquiária foi apontada como uma das espécies mais eficientes na reciclagem do nutriente.

Adoção do Sistema Plantio Direto ainda é desafio

Os pesquisadores destacam que os benefícios ambientais e produtivos dependem da adoção completa do Sistema Plantio Direto, baseado em três princípios: ausência de revolvimento do solo, cobertura permanente e rotação de culturas.

Segundo o diretor da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto (FEBRAPDP), Rafael Fuentes, aproximadamente 45 milhões dos 70 milhões de hectares destinados às culturas temporárias utilizam a semeadura direta no Brasil. No entanto, apenas 6,4 milhões de hectares adotam efetivamente os três pilares do sistema.

Na avaliação do dirigente, a principal dificuldade está na transformação do conhecimento científico em prática no campo. Ele ressalta que muitos produtores permanecem no plantio direto simplificado devido ao aumento da complexidade do manejo e à ausência de incentivos econômicos.

Para Fuentes, mecanismos de remuneração por serviços ambientais, como o pagamento pelo carbono sequestrado e pelos benefícios ecossistêmicos proporcionados pelas propriedades rurais, podem estimular uma maior adoção do sistema.

Zarc pode impulsionar adoção

Durante o evento, o pesquisador Fernando Macena destacou que a incorporação de diferentes níveis de manejo ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), contemplando a rotação de culturas e o uso de plantas de cobertura, tende a incentivar a adoção mais ampla do Sistema Plantio Direto em sua forma completa.

Fuentes também ressaltou que pesquisas desenvolvidas pela Embrapa são fundamentais para demonstrar, com base científica, os ganhos produtivos e ambientais proporcionados pelas plantas de cobertura.

Reconhecimento a pesquisadores

Além da apresentação de Arminda Carvalho, outros pesquisadores da Embrapa Cerrados participaram da programação técnica do evento. Ieda Mendes abordou estudos sobre enzimas do solo e regeneração biológica, enquanto Lourival Vilela apresentou pesquisas relacionadas à integração entre solo, plantas e animais no Sistema Plantio Direto nos trópicos.

Vilela, Ieda Mendes e Luiz Adriano receberam o certificado de mérito “O Conservacionista”, concedido pela Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto, em reconhecimento às contribuições para o avanço da agricultura sustentável no Brasil.

Fonte: Assessoria Embrapa Cerrados
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Produzir mais já não basta para manter a competitividade

Nova vantagem competitiva da agricultura está na capacidade de reduzir riscos, estabilizar resultados e transformar sustentabilidade em valor econômico.

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Foto: Divulgação

Nas últimas décadas, a agricultura mundial passou por uma profunda transformação. Avanços em genética, mecanização, nutrição, manejo, agricultura digital e gestão permitiram ampliar significativamente a produção de alimentos, fibras e energia renovável. O Brasil participou ativamente desse processo, consolidando-se como uma das principais potências agroambientais do mundo e como um dos maiores produtores globais de biomassa.

Entretanto, o contexto em que a agricultura opera está mudando rapidamente. Eventos climáticos extremos tornaram-se mais frequentes e intensos. Secas, ondas de calor, chuvas concentradas e maior variabilidade climática aumentam a exposição dos sistemas produtivos ao risco. Ao mesmo tempo, os mercados tornaram-se mais competitivos, o capital mais seletivo e a sociedade mais exigente em relação aos aspectos ambientais, sociais e de governança. Nesse cenário, uma nova agenda emerge como elemento central da competitividade agrícola: a previsibilidade produtiva.

Foto: Divulgação/Arquivo OPR

Produzir bem continua sendo importante. Produzir de forma sustentável também. Mas, cada vez mais, torna-se essencial produzir de forma consistente, resiliente e previsível. A capacidade de reduzir vulnerabilidades, mitigar riscos e estabilizar resultados passa a ter valor econômico crescente para produtores, agroindústrias, investidores e consumidores. Essa discussão é especialmente relevante porque a demanda global por biomassa continuará crescendo nas próximas décadas. O mundo precisará de mais alimentos, mais fibras, mais energia renovável, mais biocombustíveis, mais biomateriais e mais produtos de origem biológica. Em outras palavras, a agricultura deixa de ser vista apenas como fornecedora de alimentos e passa a ocupar papel estratégico na construção da bioeconomia global.

Nesse contexto, sustentabilidade e competitividade não devem ser interpretadas como objetivos conflitantes. Ao contrário. Os sistemas produtivos mais eficientes tendem também a apresentar melhor desempenho ambiental. Produzir mais valor por hectare significa reduzir a pressão sobre novas áreas, melhorar o aproveitamento da infraestrutura existente, aumentar a eficiência no uso de água, energia e insumos e reduzir impactos por unidade produzida. A intensificação sustentável da produção constitui, portanto, uma importante agenda ambiental.

Foto: Shutterstock

A experiência brasileira oferece exemplos relevantes dessa transformação. Entre eles, destaca-se a cadeia da cana-de-açúcar. Ao longo das últimas décadas, o setor passou por um processo intenso de modernização envolvendo mecanização, gestão de resíduos agrícolas, agricultura digital, bioenergia, bioeletricidade, bioinsumos, melhoramento genético e sistemas irrigados mais eficientes. A principal lição dessa trajetória é que os maiores avanços raramente resultaram da adoção isolada de uma única tecnologia. Eles decorreram da integração de diferentes estratégias dentro de sistemas produtivos mais sofisticados.

Essa lógica é aplicável a diversas cadeias agrícolas. Irrigação, bioinsumos, agricultura digital, genética e mecanização são ferramentas importantes, mas seus resultados dependem da forma como são integradas ao sistema produtivo. O foco deixa de ser a tecnologia isolada e passa a ser o desempenho do sistema como um todo. A previsibilidade produtiva nasce justamente dessa integração. Sistemas mais resilientes conseguem reduzir oscilações produtivas, aumentar estabilidade, proteger investimentos e melhorar a capacidade de planejamento de longo prazo. Em mercados de commodities, onde o produtor não controla o preço internacional, essa capacidade torna-se ainda mais relevante.

O produtor não controla o preço. Mas controla a forma como produz. Controla sua eficiência operacional, sua produtividade, seu nível de risco, seu custo por unidade produzida e sua capacidade de adaptação. É nesse espaço que se constrói a competitividade sustentável. Entretanto, essa adaptação não ocorre no vazio. Para transformar sistemas produtivos, o produtor precisa encontrar condições mínimas para investir, assumir risco e capturar valor. Quando essa transformação não é adequadamente remunerada, ou quando o ambiente econômico, jurídico e financeiro torna o investimento excessivamente incerto, os caminhos disponíveis se estreitam.

Foto: Rafael Soares

Em muitos casos, o produtor pode permanecer em práticas de menor custo imediato, porém menos eficientes e menos sustentáveis no médio prazo. Essas escolhas podem funcionar temporariamente, mas tendem a aumentar a vulnerabilidade e comprometer a permanência no negócio. Em outros casos, o produtor pode simplesmente decidir migrar para outras atividades, justamente no momento em que o mundo demanda mais alimentos, energia renovável e biomassa.

Essa tensão aparece de formas diferentes conforme o perfil do produtor. Pequenos produtores são frequentemente mais vulneráveis por limitações de acesso à informação, assistência técnica, crédito, seguros e escala operacional. Mas médios e grandes produtores também enfrentam desafios relevantes. Muitas das transições necessárias — irrigação eficiente, agricultura digital, mecanização avançada, recuperação de solo, bioinsumos, infraestrutura, rastreabilidade e adaptação climática — exigem investimentos elevados, planejamento de longo prazo e capacidade de remunerar capital. Isso se torna especialmente difícil em um ambiente de insegurança jurídica, políticas públicas instáveis, custo financeiro elevado e mercados sujeitos a grande volatilidade.

Portanto, o desafio não é apenas climático. É climático e econômico ao mesmo tempo. Quando eventos extremos, secas, ondas de calor e maior variabilidade produtiva se combinam com juros altos, margens apertadas, preços incertos e políticas públicas pouco previsíveis, forma-se uma espécie de tempestade perfeita. Nessas condições, mesmo produtores tecnicamente competentes podem reduzir investimentos, postergar renovação tecnológica, perder eficiência e aumentar sua exposição ao risco.

A trajetória recente do setor sucroenergético ilustra bem esse ponto. Em um período de políticas públicas mais favoráveis, crédito mais acessível e expectativa positiva para o etanol e a bioenergia, o setor investiu, expandiu capacidade produtiva e avançou em eficiência. Posteriormente, a combinação de políticas econômicas desfavoráveis, juros elevados, crise econômica, insegurança regulatória e agravamento climático contribuiu para um ciclo severo de endividamento, recuperação judicial e falências.

Foto: Divulgação

É possível que a crise econômica e política tivesse causado menor impacto se não tivesse ocorrido simultaneamente ao agravamento das secas e da instabilidade climática. Mas o inverso também é verdadeiro: um ambiente econômico mais favorável, políticas públicas mais estáveis e menor custo de capital poderiam ter reduzido o impacto das quebras produtivas causadas por secas mais intensas e sucessivas. Clima ruim em um mercado favorável pode significar perda produtiva. Clima ruim em um mercado desfavorável muda a natureza do problema: afeta caixa, capacidade de investimento, renovação tecnológica, competitividade e, em muitos casos, a própria sobrevivência do negócio.

Essa experiência mostra que sustentabilidade não pode ser tratada apenas como exigência sobre o produtor. Ela precisa ser também uma agenda de viabilidade. Sem ambiente favorável ao investimento, a transição produtiva fica mais lenta, mais cara e mais arriscada. Ao mesmo tempo, sem adaptação dos sistemas produtivos, o produtor tende a perder eficiência, aumentar sua vulnerabilidade e ampliar o risco de perda de competitividade, rentabilidade e permanência no mercado. Se o produtor não consegue remunerar adequadamente o risco de produzir melhor, a sociedade perde uma oportunidade estratégica de avançar em segurança alimentar, bioeconomia, descarbonização e competitividade.

A redução do custo por unidade produzida constitui um dos principais mecanismos pelos quais produtividade, sustentabilidade e competitividade convergem. Quanto maior a produção sustentável ao longo do tempo, maior a diluição dos custos operacionais, de capital e de estrutura. Ao mesmo tempo, sistemas mais estáveis reduzem exposição ao risco climático e econômico, aumentando a resiliência financeira dos empreendimentos.

Foto: Divulgação/C.Vale

A construção dessa nova agricultura não depende apenas dos produtores. Ela exige ecossistemas de inovação capazes de conectar pesquisa, agroindústria, empresas de tecnologia, instituições financeiras, certificadoras, investidores e organizações de articulação setorial. A velocidade de transformação dos sistemas produtivos está diretamente relacionada à capacidade de integrar essas diferentes competências em torno de objetivos comuns.

Nesse contexto, iniciativas como a Rede BRCana-ACI — uma rede constituída pela Embrapa para fomentar a adaptação da produção de cana-de-açúcar à Agricultura Climaticamente Inteligente — buscam criar ambientes para inovação,  validação tecnológica,  adaptação climática e  construção de modelos produtivos mais resilientes.

A proposta não é apenas desenvolver novas tecnologias, mas acelerar sua adoção, ampliar sua escala de impacto e gerar evidências que apoiem decisões de investimento, financiamento e políticas públicas. Além da geração de conhecimento, sua contribuição está na transformação desse conhecimento em protocolos, metodologias, pilotos, redes colaborativas e instrumentos capazes de aumentar a confiança dos diferentes atores envolvidos na transição para sistemas produtivos mais sustentáveis e resilientes.

O Brasil reúne características singulares para liderar parte importante dessa agenda. Poucos países combinam simultaneamente escala agrícola, biodiversidade, disponibilidade de energia renovável, conhecimento tropical acumulado e capacidade de produzir alimentos, biomassa, biocombustíveis — como etanol, biometano e hidrogênio verde —, bioeletricidade, bioplásticos, biopolímeros e outros materiais e produtos de origem biológica em grande escala. Essas vantagens criam oportunidades relevantes para que o país amplie sua participação na bioeconomia global.

Foto: Shutterstock

Contudo, essa liderança não é automática. Ela dependerá da capacidade de continuar investindo em ciência, inovação, infraestrutura, qualificação profissional, adaptação climática e integração entre os diversos atores do ecossistema agroindustrial.

A nova fronteira da agricultura não será definida apenas por quem produz mais. Será definida por quem consegue produzir mais valor, com maior previsibilidade, maior resiliência climática, maior eficiência ambiental e maior competitividade econômica. Essa lógica pode ser observada na micro e na mesoescala, quando olhamos para produtores, usinas, agroindústrias, cooperativas e cadeias produtivas, considerando sua produtividade, eficiência, previsibilidade, resiliência, sustentabilidade e competitividade. Mas também pode ser vista na escala macro, quando pensamos no futuro do agro brasileiro e do próprio país: nossa previsibilidade, nossa resiliência, nossa sustentabilidade e nossa competitividade.

Nesse sentido, a agricultura brasileira não deve ser vista apenas como parte da agenda climática. Deve ser vista como uma das principais plataformas econômicas para a construção da bioeconomia do século XXI. E, nessa nova etapa, sua liderança dependerá não apenas da capacidade de produzir mais, mas da capacidade de transformar produtividade, eficiência e sustentabilidade em previsibilidade produtiva, econômica e ambiental.​​​​​​

Fonte: Artigo escrito por Vinicius Bof Bufon, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.
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